22.1.12

Já li os 3 livros da trilogia, há algum tempo, e fui hoje ver esta versão cinematográfica, que segue escrupulosamente a obra escrita. Alguém o(s) quer comentar?

Apontamentos de Lisboa

Segundo o Novo Acordo Ortográfico, na penúltima palavra o 1.º "C" está a mais.

Em nosso nome

Por Manuel António Pina

QUANDO, às 3 da manhã de quarta-feira, ouvi na SIC Notícias que "Governo, patrões e sindicatos" tinham assinado um Acordo de Concertação Social, suspeitei de tanta unanimidade. Mas quando, ia já a reportagem no fim, a estação revelou que os "sindicatos" eram, afinal... a UGT, fiquei tranquilo já que a UGT se compromete nos seus Estatutos a defender "os direitos dos trabalhadores", a "estabilidade (...) das relações de trabalho", a "livre negociação colectiva" e a lutar pelo "direito ao trabalho" e "pela sua segurança".

O que a UGT assinou veio no dia seguinte nos jornais: "Acordo torna mais fácil e mais barato despedir e reduz indemnizações, subsídios, férias e feriados" (Público); "Patrões reconquistam sábado de trabalho/(...)/ Trabalhador perde até sete dias de descanso/ Empresas podem pôr e dispor do funcionário durante 150 horas" (JN); "Patrões podem impor trabalho ao sábado e só pagar mais 25% (DN); "Faltas sem motivo junto às pontes tiram quatro dias de salário" (Diário Económico); "Despedimentos alargados (...) Empresas ganham mais poder na escolha do pessoal a despedir" (Jornal de Negócios).

A UGT só representa os sindicatos nela filiados (bancários, enfermeiros, engenheiros, construção, comércio, artes e espectáculos, etc.). Aplicar-se-ão apenas a esses os compromissos de pesadelo subscritos por João Proença? Não acredito que João Proença tenha assinado em nome de quem não representa...
«JN» de 20 Jan 12

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Luz - Garrafas da Ferreira, Gaia, 2006

Fotografias de António Barreto- APPh
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Clicar na imagem, para a ampliar
Em Vila Nova de Gaia, num dos velhos armazéns da Casa Ferreira (também conhecida por “A Ferreirinha”). A empresa e a marca pertencem hoje à Sogrape. Esta fotografia foi tirada na sala de provas. As garrafas presentes, de vinho do Porto, vão passar o exame. Pela janela, avistam-se antigos edifícios da cidade do Porto.

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Figura mitológica contra Obama

Por Ferreira Fernandes

OS CANDIDATOS a adversário de Obama têm sido multidão. Destaca-se um, para logo ser decapitado.
Já tivemos como futuro candidato republicano a célebre Sarah Palin, a patroa do Tea Party Michele Bachmann, o ricaço negro Herman Cain, o governador do Texas Rick Perry, o religioso bem batizado Rick Santorum... Tantos que passaram rapidamente a ex-futuros.
Por estes dias, as primárias da Carolina do Sul, onde quem ganha tem quase certa a nomeação pelo partido, vão provavelmente decapitar mais uma promessa, Mitt Romney, o mórmon (não têm faltado originais na corrida interna republicana).
Agora, as sondagens anunciam uma forte vitória de Newt Gingrich, que já conhecemos há um quarto de século. Ele dirigiu a oposição nos mandatos de Clinton, na décadas de 90, num tom que ele explicou aos seus colegas republicanos ser "o falar à Newt", a forma certa de atacar os democratas: chamar-lhes "corruptos", "doentes", "traidores"...
Newton Gingrich preferiu ser Newt na política, palavra que em português se traduz por tritão, a figura mitológica que gosta de sereias (e Gingrich vai em três casamentos e vários escândalos sexuais), mas que também denomina uma salamandra capaz de regenerar vários dos seus órgãos (e Gingrich é um caso raro de político americano que passou de batista a católico).
Caso seja ele o candidato, as eleições americanas vão ser violentas (a tal salamandra também segrega uma toxina que é mortal para os adversários).
«DN» de 22 Jan 12

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21.1.12

O passeio da velha senhora

A VELHA senhora arrastava os pés com dificuldade e os seus olhos eram todo o outro movimento, que não o das pernas, no frio pôr-do-sol de Outono-lnverno centro-lisboeta.
Eram uns olhos negros que pareciam não pertencer à cara empoada, de palhaço rico, com que a velha senhora furava a multidão.
A sua figura negra, feita de velhas roupas, de bom mas antiquado corte, parecia afastar a multidão à medida que ela se perdia no meio dos habitantes do fim de tarde centro-lisboeta. (...)
Texto integral [aqui]

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Gaste menos, Sr. Presidente

Por Ferreira Fernandes

NÃO VOU referir números porque eles são traiçoeiros. Por exemplo, ontem, um leitor do DN online, treslendo o que Cavaco Silva dissera sobre a sua reforma, escreveu na caixa de comentários: "Ouviram bem? 1300 euros! Quando a maioria dos portugas ganha de salário médio 800 euros..."
Claro que Cavaco não tem 1300 euros de reforma, nem dissera tal, e claro que um Presidente da República, com vários anos de primeiro-ministro e de professor universitário, ter uma reforma só de 1300 euros - o que o eleitor achava excessivo - seria ridiculamente baixo.
Por isso, aqui, nada de números. Mas as declarações de Cavaco Silva merecem um tratamento lógico. Ele ganha X. Esse X foi uma escolha que ele próprio fez, optando pelas reformas em vez do salário presidencial, que era Y. Sendo o X maior que o Y - porque Cavaco não é tolo e até é professor de Finanças.
Aqui chegados, relembremos a raiz do escândalo: o Presidente disse ontem que a sua reforma pela Caixa Geral de Aposentações somada à do Banco de Portugal (soma que é o tal X já referido) "não vai chegar para pagar as minhas despesas". Ora se X não chega, Y, que é menor, chegaria menos. Quer dizer, o salário de Presidente da República não é suficiente para este Presidente da República. Portanto, Cavaco vive acima das suas possibilidades.
Se era para confirmar uma pecha de que os finlandeses nos acusam, está feito. Mas eu preferia que a prova não fosse confessada tão de cima.
«DN» de 21 Jan 12

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20.1.12

Famosos portugueses vítimas de um crime

Por Ferreira Fernandes

ANTEONTEM, na Sport TV, diretamente do estádio do Real Madrid, assisti a uma fraude descomunal. Permitam-me um desvio histórico para que percebam a dimensão do crime.
O jazz, nascido em Nova Orleães, subiu pelo Mississípi, desembarcou no estado de Ilinóis e instalou-se na grande cidade, Chicago.
No South Side, bairro onde muitas décadas depois Obama iniciaria sua carreira política, abriu o Savoy Ballroom. A partir de 1926, o programa era assim: Louis Armstrong, Duke Ellington, Ella Fitzgerald e, ao intervalo, os Savoy Big Five. Estes, em vez de trompete, piano e voz, exibiam-se com uma bola de basquetebol. Fintas, afundanços, passes, maravilhas que mereciam os acordes de "Sweet Georgia Brown", que virou hino daqueles artistas da bola (vão ao YouTube, Django Reinhardt toca-o).
Os Savoy Big Five mudaram o nome para Harlem Globetrotters - Harlem, porque eram todos negros, Globetrotters porque passaram a andar pelo mundo.
Naquele tempo os campeonatos sérios de basquete eram só para os brancos e os Globetrotters especializaram-se em tocar jazz com a bola, e de cada vez que jogavam basquete com os brancos humilhavam-nos.
Os Globetrotters nunca entraram em campeonatos. Honesta separação e era aqui que eu queria chegar. Messi, Iniesta, Xavi e Fàbregas, os Barça Big Four, são artistas de jazz que só a incompetência da UEFA permite que joguem em estádios e causem traumatismos psicológicos aos rapazes do futebol.
«DN» de 20 Jan 12
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NOTA (CMR): Apesar de as imagens serem de má qualidade, vale bem a pena ver o vídeo disponível [aqui].

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PS

Por João Paulo Guerra

NA ÚNICA iniciativa de oposição digna desse nome promovida por socialistas as direcções do PS e do respetivo grupo parlamentar estão contra.

De resto, a estratégia partidária subordina-se a um putativo interesse nacional que consiste em deixar o Governo em paz, para que assim cumpra esse desiderato que é deixar este País sem remédio nem conserto.

Diz o líder socialista que a fiscalização do Orçamento de Estado pelo Tribunal Constitucional deve ser política, o que verdadeiramente não quer dizer nada e não tem qualquer efeito prático. A menos que o PS queira este Orçamento em vigor, com todos os seus efeitos desastrosos. Mas isso conviria que o dissesse, que assumisse que entre a coligação PSD/CDS e a oposição PS a única diferença são as moscas, para que os portugueses ficassem informados e cientes para decisões futuras.

Perante a rendição da direcção do partido, alguns deputados do PS tomaram a iniciativa de recolher as assinaturas necessárias para enviar o Orçamento a Tribunal. Nem sequer se pode dizer que se trata de um grupo de nostálgicos esquerdistas que sonham com uma aliança à esquerda: são pessoas que neste pormenor não estão ao lado de António José Seguro mas que em geral têm alinhado com o que há de mais conformista nas iniciativas e posições do PS, por vezes mesmo marcando lugar na ala mais conservadora do partido. E a iniciativa que agora tomaram visa um aspecto meramente formal de um Orçamento que se propõe reduzir os portugueses à miséria e Portugal a uma reserva de mão-de-obra barata e precária.

Ter um governo como o da coligação PSD/CDS já é mau. Ter um tal governo e não ter alternativa de poder é péssimo. E pode querer dizer que o objectivo a curto e médio prazo do PS é abichar uns lugares à mesa do Estado.
«DE» de 20 Jan 12

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19.1.12

Os Ralhos do Pai do Céu

Por A. M. Galopim de Carvalho

A AVÓ ISABEL foi o meu primeiro contacto com uma pessoa idosa. A sua imagem está entre as minhas primeiras tomadas de consciência do mundo que me rodeava, tinha eu três anos. Sempre de preto, dos sapatos e meias, às saias e blusas, ao xaile e ao lenço, como mandavam os usos que se vestissem as viúvas, a mãe da minha mãe foi a única, de entre os meus avós, com quem me foi dado conviver. A avó vivia só, numa velha casa da rua de Frei Brás (de que já falei em crónica anterior), uma rua já empedrada nessa altura, representando um avanço considerável em relação a muitas outras da cidade, ainda de terra batida, com calcetamento apenas nas regueiras, duas de cada lado, sob os beirais dos telhados. (...)
Texto integral [aqui]

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"Volta para bordo, porra!"

Por Ferreira Fernandes

DE 'T-SHIRTS' a toque de telemóvel, a frase italiana tornou-se estrondo. Como se precisássemos todos de a ouvir para nos curar da modorra ambiente: "Vada a bordo, cazzo!", o que em português suave pode ser traduzido como "Volta para bordo, porra!". Foi gritada por Gregorio De Falco, do porto de Livorno, capitão em terra mas com o brio de lobo do mar que faltou ao famigerado comandante do barco de cruzeiro naufragado.
Francesco Schettino, comparei-o há dias, é um banana como a Europa que perante um perigo foge às suas responsabilidades. Ontem, o Corriere della Sera trouxe para editorial a comparação entre a pusilanimidade (palavra com uma dificuldade que os cobardes não merecem) de Schettino e a voz enérgica de De Falco - "Duas Itálias", resumiu o jornal.
Bem mais do que isso, a admiração que reconheci ontem nos portugueses citando a frase demonstrou-me que a ânsia não é só italiana. Precisamos de quem diga "porra", "já!" e "mexa-se" e "vá!", diga os gritos De Falco no seu diálogo telefónico com o fujão.
Há tempos, correu pela Internet portuguesa um abaixo-assinado contra o ponto de exclamação - por razões de estilo talvez fosse uma boa causa. Mas para cidadania bem nos faz falta esse sinalzinho que avisa que o que foi dito não é para discutir, é para executar. "Por favor...", pediu o tíbio. Respondeu De Falco: "Qual 'por favor'! Volte já para bordo!"
Estávamos a precisar de o ouvir.
«DN» de 19 Jan 12

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Apontamentos de uma cidade cada vez mais desumana

Lisboa, Av. Almirante Reis
5 e 7 Jan 12
FOTOS deste local, documentando o mesmo drama, já aqui foram afixadas. Mas foi o facto de haver agora dois sem-abrigo em vez de um que me levou a retomar o tema.

As referências ao "home" e ao "arrenda-se" também pesaram, evidentemente, pois têm o sabor de humor-negro atirado à cara destas pessoas - que, pelo menos em Lisboa, são em número cada vez maior.

Agora é o açúcar

Por Manuel António Pina

PARECE que a Comissão Parlamentar da Saúde levou a sério e discutiu ontem uma petição de quatro (!) estudantes de Tomar que, apoiados no impressionante número de 145 assinaturas, reclamam uma lei que obrigue a que os pacotes de açúcar servidos nos cafés com a "bica" não tenham mais de 6 gramas. Isto para combater "a diabetes, a obesidade [e as] doenças cardiovasculares e cerebrovasculares".

Um dos problemas das cruzadas é acordarem o macho alfa adormecido em indivíduos normalmente sociáveis e pacatos que, sentindo-se de súbito possuídos de um "espírito de missão", logo se congregam em matilhas punitivas ou disciplinadoras.

A cruzada higienista em curso não foge à regra. Basta ver as reacções que suscitam os anúncios de medidas restritivas contra os "outros", os que persistem em continuar a manter hábitos contrários à causa: "Ai eles persistem?, que os obriguem!"

A lei substitui hoje a espada. Campanhas de informação que contribuam para uma opção livre e informada não bastam, há que"vigiar e punir". E, assim, vão-se sucedendo as leis ("pessima republica, plurimae leges", isto é, "mau governo, muitas leis"). E os disparates também: não passou pela cabeça dos jovens cruzados de Tomar que, mesmo que os pacotes tenham um quilo de açúcar, ninguém é obrigado a despejá-los na "bica", ou que, se tiverem só 6 gramas, quem gostar dela muito doce só terá que pedir mais um pacote (ou dois, ou três) ao empregado.
«JN» de 19 Jan 12

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Passatempo conjunto "De Rerum Natura" / "Sorumbático"

O 'SORUMBÁTICO', em mais um passatempo conjunto com o blogue De Rerum Natura, oferece um exemplar desta obra ao melhor comentário que venha a ser feito até às 24h de amanhã, dia 20 de Janeiro, ao post intitulado «A Cidade dos Vampiros», da autoria de Carlos Fiolhais, e que se pode ler [aqui].
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Atenção: Os comentários devem ser feitos no DRN e não no Sorumbático.

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A economia portuguesa e os pastéis de nata

Por C. Barroco Esperança

EM ÉPOCA de crise o ministro da economia não conseguiu tirar da cartola um coelho que alimentasse o otimismo nacional. Saiu-lhe do bestunto a ideia peregrina de exportar os pastéis de Belém, quiçá no estômago dos turistas, para poupar nos custos de transporte.
Com um presidente da República embevecido com o sorriso das vacas dos Açores só nos faltava ter no Governo, com origem prematura no seu vingativo discurso de vitória eleitoral, um ministro da economia vindo do Canadá para descobrir o valor dos pastéis de nata no equilíbrio da balança de pagamentos. (...)
Texto integral [aqui]

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18.1.12

Apontamentos de Lisboa

Jototulhos... um nome que, pelo menos, fica na memória...

Roubar pouco é no que dá

Por Manuel António Pina

COMEÇOU ontem a ser julgado no Porto um homem acusado de tentativa (tentativa...) de furto de uma embalagem de polvo e um champô no valor de 25,66 euros num supermercado Pingo Doce.

No que toca ao polvo, Alexandre Soares dos Santos, presidente do Grupo Jerónimo Martins (proprietário do Pingo Doce) e segundo homem mais rico de Portugal - o seu património aumentou 88,9% em plena crise (qual crise?) para 1 917,4 milhões - discorda do terceiro mais rico, Belmiro de Azevedo (1297,6 milhões), que entende que, "quando o povo tem fome, tem direito a roubar". Para o bilionário dos supermercados, qual roubar qual quê: nem tentem!

Por isso, o Pingo Doce não desistiu da queixa. O que se compreende pois o famigerado Estado é que pagará a factura da instrução do processo, dos salários dos oficias de Justiça e magistrados envolvidos, da papelada, das notificações, do advogado oficioso... O Estado e o estado da Justiça que, enquanto anda ocupada com casos de 25 euros, deixa prescrever os de milhões.

Pouco avisado foi o réu, presumivelmente esfomeado e sujo, em deixar-se tentar por 25,66 euros de comida e produtos de higiene. Se se dedicasse antes aos "comportamentos evasivos e fraudatórios [...] em matéria fiscal" por que o Grupo Jerónimo Martins foi recentemente condenado a pagar 20,888 milhões de euros ao abrigo das normas fiscais anti-abuso, se calhar andaria hoje pelas TV a pregar moralidade aos portugueses.
«JN» de 18 Jan 12

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E os deveres do Estado?

Por Baptista-Bastos

TUDO indica que o Governo fez prescrever a sua autoridade legítima e o poder que lhe fora outorgado pelas urnas. Os resultados falhados da concertação social não são mais do que reflexos das exigências da troika. A intransigência governamental (e patronal) obedece a um esquema que parece inabalável, acabando por limitar, e até destruir, os deveres do Estado. Não se trata, na circunstância, de uma questão de luta de classes, nem de uma pluralidade de conceitos. Está em jogo a sobrevivência de um paradigma social e de uma moral política.

A recomposição da Direita está associada ao enfraquecimento da Esquerda. Porém, uma não existe sem a outra. E escapa a ambas o que constituiu a alteração dos circuitos de financiamento. A própria ideia de "economia social" que tentou, timidamente, modificar as regras do "mercado" e alterar o modelo neoliberal que se adivinhava foi escorraçada.

Até agora, não se questiona a verdadeira dimensão da desconstrução social. E a troika, cuja ideologia é de Direita, e, ocasionalmente, de Extrema-Direita, aplica, nos países para aonde é chamada, o mesmo breviário de intenções. Independentemente das características específicas de cada nação e de cada povo, o peso do financiamento externo funciona como uma imposição irretorquível. Quando diz que é preciso, em Portugal, tirar a força ou reduzir a influência dos sindicatos, comete uma injunção insuportável. Infelizmente, o Governo de Passos Coelho não se opõe porque não pode e porque, afinal, a exigência não colide com o seu projecto político.

Ao provocar o afastamento de um dos componentes da concertação, tanto o patronato como o Executivo não se fortalecem. As conflitualidades sociais emergirão com uma fúria que o desespero e a angústia amplamente justificam. E ninguém ganha com a obstinação. Os ventos sopram, no momento, a favor de quem possui uma visão exclusivamente neoliberal do mundo. Mas mesmo essa situação, por temporária que seja, permite-nos reflectir sobre a imoralidade do sistema.

Não sei, nem estou rigorosamente muito interessado em saber quais são os conselheiros de Pedro Passos Coelho. Todavia, pelos efeitos, não são de seguir. A pressão exercida sobre a população portuguesa mais desfavorecida representa uma depreciação do próprio bem comum. O Governo, assim, escudado na "dívida" e nos compromissos assumidos, está a distanciar-se, irremediavelmente, do crédito que lhe foi concedido pelos eleitores. O primeiro-ministro diz que está aberto ao diálogo. É um álibi e o falso argumento de um drama por ele cerzidos.
«DN» de 18 Jan 12

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Apontamentos de Lisboa

"Diriga-se" ao C. C. Acqua Roma...

Concerto

Por João Paulo Guerra

GRANDE fartura para os trabalhadores, a que foi cozinhada ao lume brando da concertação social, mexida pelo Governo, temperada pelo patronato e empratada pela UGT: o Governo abdicou de uma medida que não existia, e que desagrada a gregos e troianos, introduzindo na legislação laboral um pacote de preceitos altamente gravosos para os que vivem da remuneração do trabalho.

Negócios destes só na compra e venda de burros da feira da Malveira. Em troca de nada, que ninguém queria, tomem lá menos proteção no emprego e no desemprego, menos salário, menos descanso.

Chama-se a isto, em Portugal, concertação: combinação, ajuste, harmonização, consenso. Um diz mata, outro diz esfola e ambos, concertados, matam e esfolam. O Governo, que supostamente representa os dois lados do confronto entre capital e trabalho, é descaradamente parcial, quando não é mais papista que o Papa, isto é, quando vai mesmo mais alto, mais longe e mais além do que o patronato espera. Ou do que a Troika impõe. Mais do que concertação, assiste-se a um verdadeiro concerto: o Governo sacode a batuta e ataca a pauta da tocata e fuga para patronato e orquestra. De vez em quando, a UGT dá um lamiré e depois mete a viola no saco. Um concerto sem conserto possível.

Tudo isto se passa em nome do aumento da produtividade e da criação de emprego, e vai ser apregoado até que se chegue à conclusão que nem a produtividade aumentou nem o desemprego baixou. Não há soluções que não sejam para mascarar a institucionalização da exploração. Paira no ar um certo cheiro a mofo, que vem talvez dos tempos da Confederação Patronal e da União dos Interesses Económicos.

O mais trágico é que, para além do empobrecimento geral, legislação como esta não vai trazer nada de bom ao País.
«DE» de 18 Jan 12

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Das rochas sedimentares (27)

Por A. M. Galopim de Carvalho

O CÁLCIO e o magnésio existem em abundância ao nível da crosta, com percentagens da ordem de 3,62 e 2,09, respectivamente, ocupando os 5.º e 8.º lugares na ordem de abundância dos elementos químicos nesta unidade litosférica, integrados em numerosas espécies minerais, sobretudo entre carbonatos, silicatos, fosfatos e sulfatos. Igualmente abundantes na hidrosfera, com percentagens de cerca de 0,13 e 0,04 respectivamente, é no seio desta outra unidade líquida, sobretudo nos mares epicontinentais de baixas latitudes (intertropicais), que tem lugar a génese da imensa maioria das rochas sedimentares carbonatadas. (...)
Texto integral [aqui]

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17.1.12

A propósito do texto anterior

(Voltaremos a falar deste livro)

Dizer mais do que se quer

Por Manuel António Pina

NÃO SEI o que perco (embora saiba o que ganho) em ver pouca televisão. Felizmente a blogosfera vê mais televisão que eu e faz-me o, por assim dizer, trabalho de casa.

Foi no blogue "Der terrorist" que descobri a extraordinária constatação feita por António Arnaut na "Grande Entrevista" da RTP da passada quinta-feira a propósito das "negociatas, ou intrigas, ou influências feitas [...] a coberto da Maçonaria" que têm vindo a lume na comunicação social: "Não pode ter acontecido essas negociatas numa loja em funcionamento, isso é absolutamente interdito, pode acontecer é num jantar que antecede ou sucede a uma reunião maçónica".

A não ser que os maçons deixem de o ser à hora de jantar, tratou-se de um "lapsus linguae". Arnaut não quereria dizer que os maçons "não podem", no sentido de que "não lhes é permitido", fazer negociatas nas lojas (onde "isso é absolutamente interdito"), mas que o "podem" fazer, que isso "lhes é permitido", nos jantares antes ou depois das reuniões.

De acordo com a vulgata freudiana, o sentido do verbo "poder" na primeira parte da frase terá contaminado, por desleixo de atenção, aquele em que Arnaut pretendia usá-lo na segunda parte, deixando à vista a ideia reprimida que terá sobre o assunto, não muito diferente da que têm todos os que, segundo Arnaut, alimentam "preconceitos" contra a Maçonaria.

Se assim for, louve-se o desassombro do subconsciente do ex--grão mestre do GOL.
«JN» de 17 Jan 12

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Dinossauros

Por João Paulo Guerra

EXCELENTÍSSIMOS autarcas que não vão poder recandidatar-se no final de 2013, por terem completado três mandatos consecutivos, são mais de centena e meia.

Mas eis que, como é frequente em Portugal, se abre a janela de oportunidade de uma exceção para dar a volta ao princípio de uma lei. Primeiro, a redação da lei deixava nebulosa, sem excluir expressamente, que autarcas em limite de mandato poderiam candidatar-se a outro órgão autárquico. Mas a ambiguidade da lei não basta. O que se quer é que o princípio legal vá "inequivocamente" por água abaixo.

E assim, os jornais admitiam que os partidos da situação estarão de acordo em pôr uma pedra sobre o limite de mandatos autárquicos. Como? Permitindo que os chamados dinossauros do poder autárquico atingidos pelo limite de mandatos possam "inequivocamente" candidatar-se a quaisquer órgãos autárquicos, que não aquele em que estão em funções. E portanto, e por exemplo, o dinossauro de Vila Nova de Gaia poderá ir a votos do outro lado do Douro, enquanto o Dinossauro do Porto bem pode procurar colocação em outra área para servir o povo.

A regra que determinou um limite para os mandatos tinha por objetivo impedir que os autarcas se perpetuassem no poder: A exceção não põe limites ao poder, limitando-se a mudar o poiso das moscas, digamos assim para mais fácil compreensão. Embora a mais de ano e meio das eleições autárquicas, calcula-se o reboliço que irá pelo País, com 160 autarcas debruçados sobre o mapa à procura de Município onde renasçam do impacto do asteroide.

Fica assim claro que se equivocaram aqueles que pensaram que a lei se destinava a exterminar os dinossauros. O extermínio dos dinossauros é matéria para um cataclismo astral e não para uma lei de papel.
«DE» de 17 Jan 12

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16.1.12

Parece que AAA é o Luxemburgo (pois...)

Por Ferreira Fernandes

QUANDO o Egito ocupou o canal do Suez (1956), para-quedistas ingleses e franceses intervieram. A União Soviética ameaçou apoiar Nasser, o líder egípcio. O presidente Eisenhower, o general das forças americanas ao lado da Inglaterra e da França na II Guerra Mundial, puxou o tapete aos seus antigos aliados e obrigou-os a sair do Suez com o rabo entre as pernas.
O que sucedera? O trivial na política internacional: cada um por si. Na região, o adversário para os Estados Unidos não eram os soviéticos, eram os antigos imperialistas europeus que os americanos precisavam de afastar para ocupar o lugar deles. E o Próximo Oriente, designação europeia para a região, passou a chamar-se nos noticiários Médio Oriente, fórmula americana - mudança de nome que ilustrava os factos (o que tem Beirute de próximo para Washington?). O trivial na política internacional.
A ação das agências de rating é da mesma lógica: a União Europeia está a ser sabotada. Ponto.
Claro que há razões financeiras para descer de AAA para BBB este ou aquele, até porque em finanças há sempre argumentos para mostrar que um I é um T que se esqueceu do telhado. Parece que a França está em estado de choque pelo seu A perdido. A direita (no governo) está espantada; a esquerda (na oposição) diz que saberia fazer melhor.
Nós que já vimos o filme ao contrário (ontem) e ao contrário do contrário (hoje) deveríamos saber: ou a Europa reage ou sai do mundo como já saiu do Suez.
«DN» de 16 Jan 12

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A Grande Chaminé

Por A. M. Galopim de Carvalho

FICOU-ME na memória a casa onde morava, sozinha, a minha avó materna, na Rua de Frei Brás, em Évora. Bem mais gravada do que a dos meus pais, situada na mesma rua, duas a três portas mais acima, onde eu nasci e vivia com mais quatro irmãos, todos mais velhos do que eu. Recordo, em especial, a cozinha que era, ao mesmo tempo, casa de entrada e de todos os usos. Aí se almoçava ou jantava numa grande mesa de abas, ao centro da sala, que só se abria quando havia mais gente a dar de comer. E essa mais gente eram quase sempre os netos. (...)
Texto integral [aqui]

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A honra perdida da política

Por Manuel António Pina

QUE PENSARIA um cidadão comum se alguém em quem tivesse confiado e com quem tivesse feito um acordo, apanhando-se com o acordo na mão, violasse todos os compromissos assumidos fazendo exactamente o contrário daquilo a que se comprometera?

Imagine agora o leitor que esse alguém é um político que obteve o seu voto jurando-lhe repetidamente que faria determinadas coisas e nunca, nunca!, faria outras ("Dizer que o PSD quer acabar com o 13.º mês é um disparate"; "Do nosso lado não contem com mais impostos"; "O IVA, já o referi, não é para subir").

Um político que lhe jurou que "ninguém nos verá impor sacrifícios aos que mais precisam" e que fez o que a própria CE já reconheceu, que em Portugal as medidas de austeridade estão a exigir aos pobres um esforço financeiro (6%) superior ao que é pedido aos ricos (3%, metade).

Um político que lhe garantiu que "não quero ser eleito para dar emprego aos amigos; quero libertar o Estado e a sociedade civil dos poderes partidários" e cujos amigos aparecem, como que por milagre, com empregos de dezenas e centenas de milhares de euros na EDP, na CGD, na Águas de Portugal, nas direcções hospitalares e em tudo o que é empresa ou instituto público.

Quando os eleitos actuam impunemente à margem de valores elementares da sociedade como o da honra e o do respeito pela palavra dada não é só o seu carácter moral que está em causa mas a própria credibilidade do sistema democrático.
«JN» de 16 Jan 12

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Alguém viu e quer comentar?

Ficaram os ‘boys’

Por João Paulo Guerra

PORTUGAL jamais viveu propriamente em regime de vacas gordas.

Mas agora deixou morrer as próprias vacas magras. E depois? Depois, morreram as vacas mas ficaram os ‘boys'.

O atual do secretário de Estado do Emprego, há um ano, então na qualidade de economista opinante, criticou as nomeações políticas para cargos públicos e o facto de todos os partidos prometerem acabar com a vilanagem, enquanto todos os governos cultivam a distribuição de ‘jobs' pelos respetivos ‘boys'. "Todos fazem o mesmo", disse o então economista, pressagiando o que estava para vir: o Governo do qual o próprio faria parte. Confirma-se agora: "Todos fazem o mesmo".

Não é de agora e já Ramalho Ortigão, em Novembro de 1881, zurzia em "As Farpas", os que se andavam a "amamentar, a expensas do reino, pela vaquinha de leite da pública governação". O que quer dizer que Portugal tem tradição e ‘know-how' em matéria de distribuição e apanha de tachos. Nos tempos da ditadura contava-se mesmo que um conhecido tachista era comparável a um autocarro da Carris: tinha 40 lugares, todos pagos.

Em democracia, não tardou a comezaina. Cada partido que foi chegando ao poder - na estrita rotação trifásica entre PS, PSD e CDS - atafulhou os quadros do Estado com a respetiva rapaziada. Muitos devem ainda lá estar e talvez nem se recordem já quem os nomeou: se o partido a que pertenciam, se aquele a que passaram a pertencer.

O raciocínio é simples: quem ganha eleições - ou quem é cooptado para parceiro pelo vencedor - distribui o produto do saque, como outrora faziam os vencedores das batalhas. Não há limites e a ideia é rapar o tacho enquanto é tempo, rapidamente e em força. E depois quem paga é a democracia, que o tachismo transforma numa cópia esborratada do chamado governo do povo.
«DE» de 16 Jan 12

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15.1.12


Alguém viu e quer comentar este Polanski?

Luz - Gaia, armazém da RCV, 2006

Fotografias de António Barreto- APPh

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Pipas em repouso e vinho a envelhecer num velho armazém, em Vila Nova de Gaia, da Real Companhia Velha.

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14.1.12

O fim da paixão ocidental

Por Ferreira Fernandes

OCUPADOS que estamos a olhar para os bolsos vazios, não nos damos conta de um fenómeno histórico que nos acontece: também os americanos se vão.
Nas vésperas do centenário da guerra que pela primeira os trouxe para solo europeu, os americanos vão reduzir as suas tropas por cá. Sete mil, disse o secretário da Defesa, Leon Panetta. Não parece uma redução excessiva (menos de décimo das forças atuais), mas sublinha a tendência: "A Europa já está suficientemente segura por si só", disse Obama, no princípio do ano.
A frase é demasiado preocupante, como é sempre quando um líder mundial usa a ironia em factos sérios: a Europa nunca esteve tão desarmada. Acresce a retirada das tropas americanas do Iraque e do Afeganistão, isto é, da área que mais problemas pode trazer ao nosso continente.
Por outro lado, o Pentágono declarou que concentrará forças na região Ásia-Pacífico, numa rotação histórica da sua aérea estratégica: bye bye, Atlântico, berço da defunta paixão ocidental.
O primeiro Presidente americano nascido no meio do Pacífico, no Havai, marca assim uma mudança em que a Europa faz de cônjuge abandonado. Os de certa esquerda europeia antiamericana primária vão rejubilar, e as imagens desta semana, dos marines a urinar sobre talibãs no Afeganistão, vão corroborar-lhes o raciocínio. Pobres tolos, não perceberam - mas cedo vão perceber se não forem irremediavelmente tolos - que estamos desarmados. De armas e soluções.
«DN» de 14 Jan 12

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No reino do absurdo

POUCOS metros separam os locais destas fotos, tiradas uma a seguir à outra, numa manhã de sexta-feira, em Lisboa.
Segundo os critérios habituais da EMEL e da Polícia Municipal do burgo (a PSP tem uma Divisão de Trânsito, mas não desce a estas minudências...), os dois carros de cima em breve serão bloqueados - porque estão a ocupar os dois lugares destinados ao carregamento de carros eléctricos... Quanto à camioneta (que, entre 'outras coisas', ocupa um lugar reservado a deficientes), nada acontecerá, pois é de gente que"está a trabalhar".

Pastel de nata: exportar!

Por Antunes Ferreira

UMA TERRA em que o ministro da Economia recorreu ao exemplo dos pastéis de nata, como um produto nacional de sucesso, para mostrar que o esforço de internacionalização dos produtos portugueses falhou nas últimas décadas, não é um País é uma anedota pornográfica.

Uma terra em que o dito governante se interrogou e inquiriu quem o ouvia: «um dos produtos mais emblemáticos de Portugal é o pastel de nata e, apesar do seu sucesso, porque é que não conseguimos exportá-lo?” não é uma anedota pornográfica – pornográfico é, sim, o maxi-salário que vai auferir Eduardo Catroga na EDP, Marques Mendes dixit – é um zero à esquerda da vírgula.

Estou farto. Estou farto de ouvir quotidianamente as mentiras do Dr. Pedro Passos Coelho; estou farto de ser roubado quotidianamente pelo Professor Vítor Gaspar; estou farto de ser agredido quotidianamente pelo Dr. Álvaro Santos Pereira, que tem muito orgulho em ser Português e não se cansa de dizer baboseiras; estou farto do Dr. Paulo Portas, do Dr. Paulo Macedo, do Dr. Miguel Relvas. Finalizando, estou farto das asneiradas e das baboseiras do Prof. Aníbal Cavaco Silva.

E, daqui a muito pouco, estarei farto deste triste Portugal que não presta, porque nós os Portugueses não prestamos. Na generalidade, porque, felizmente, na especialidade ainda vamos tendo compatriotas entre os melhores do Mundo. Só não aceito os conselhos desvelados do Dr. Passos Coelho, do Dr. Mestre, do Dr. Rangel porque já não tenho idade, nem coragem, para emigrar.

Mas – as adversativas são geralmente traidoras, neste caso, não – é por isso que hoje vos deixo por uns tempos, pois felizmente consigo ir até Goa e outras Índias na próxima quinta-feira, 19. Felizmente para mim – e para a minha mulher, que é de lá – porque me afasto deste luto que me enche os dias; felizmente para os que ainda me aturam os constantes desabafos magoados, quiçá mesmo lamurientos.

Muitos Goeses costumam dizer que eu sou mais goês do que eles próprios. Cada vez mais me confesso de acordo com essas opiniões meio brincadeiras, meio sérias. Em tempos, disse e escrevi que se pudesse escolher uma terra para morrer em paz, ela seria Goa. Hoje, corrijo-me. Uma terra para viver em paz é Goa. Só que não posso ficar por lá: os filhos, as noras, a neta e os netos estão cá…

Pronto, é assim mesmo. Para a semana não haverá texto, nem na que se segue; sei lá quando haverá. Tenho, garanto-vos, a intenção de ir escrevinhando umas coisas de teor local. Não sei se os leitores estarão interessados nelas. Ou, até, se algum rejubilará por se ver livre de mim, pelo menos até 17 de Abril, em que – infelizmente -, voltarei.

Dir-me-ão que por lá também existem dificuldades, quiçá muito maiores do que aquelas com que vamos tentando sobreviver por aqui. O que, tenho de o reconhecer, é verdade. Porém, sublinho, egoisticamente, que não me preocuparei com agora estou preocupado. E desanimado. Resta-me o calino com o mal dos outros…

Termino. Não vou, sequer, abrir a RTP Internacional, se é que ela ainda subsistir. Não vou fazê-lo para não ter de ver e ouvir dizer que o pastel de Belém – o de nata, claro – é um produto de exportação que nós nunca soubemos… exportar. Não quero ouvir e ver que foram aplicadas mais medidas de austeridade. Recuso saber se as taxas moderadoras foram aumentadas, que os impostos subiram, que os transportes, a energia e o pastel de nata subiram.

E por aqui me fico; peço-vos desculpa desta lamentação e dos termos pessoais que plantei nesta crónica. Deu borem korum, que o mesmo é dizer muito obrigado – mas em concani.

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13.1.12

A obsessão genética ou a estranha forma de nascer

Por Helena Matos

PROJECTO social-democrata possibilita a maternidade de substituição, mas só para casais heterossexuais – O problema da maternidade de substituição não é se o casal que encomenda a criança é heterossexual ou homossexual mas sim o conceito da criança subjacente à maternidade de substituição. Esta obsessão genética que leva algumas pessoas a recorrer à maternidade de substituição não pode ser entendida como uma opção pessoal pois, mesmo que se faça tábua rasa da mãe substituída em prol das aspirações da mãe que a vai substituir, temos uma criança cujas circunstâncias de nascimento são um problema ético e social.
E não é certamente porque sempre se compraram, venderam ou encomendaram crianças que vamos passar a aceitar isso como normal.
E não é a ausência de dinheiro que torna esta encomenda moral e socialmente aceitável. Para quem encomenda. Mas sobretudo para quem realiza a encomenda e muito particularmente para quem é encomendado.
«Blasfémias.Net»

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A guerra de braguilha aberta

Por Ferreira Fernandes

UNS FUZILEIROS americanos filmaram-se a urinar sobre cadáveres de talibans, no Afeganistão.
O vídeo corre mundo, os talibans indignam-se contra os americanos, Hillary Clinton indigna-se contra aqueles americanos, mas não é porque o ato é obsceno, cobarde, doentio (claro, merecedor de censura, claro, exigindo penas duras), não é por isso que deixa de ser normal. Nessa guerra que vai em breve fazer cem anos, ainda lhe chamavam Grande sem se suspeitar que era só a Primeira de uma série, os alemães (para citar os menos simpáticos) alertaram os observadores neutrais para um uso dos ingleses e franceses: estes faziam "colares de orelhas"...
A guerra, pois. Ficam-nos bem os esforços para lhe minimizar os horrores, mas ela nunca será boa, nem quando necessária. Os generais que digam definitivamente da guerra o que Mao Tsé-tung dizia da revolução: não é um convite para jantar.
Felizmente houve sempre artistas que nos alertaram, de Goya a Stanley Kubrick. Camponeses fogem da sua aldeia saqueada e alguém pergunta a uma mulher sobre os culpados: brancos ou vermelhos, bons ou maus, dos nossos ou dos outros? E a mulher: "Soldados" (in Doutor Jivago).
A guerra, pois. A novidade são os telemóveis que filmam. Antes a guerra era-nos filtrada pela memória dos que lá andaram ou pelo talento dos artistas. Agora chega-nos directamente dos protagonistas, tão pueris como os pasteleiros da Teresa Guilherme, mas muito mais perigosos.
«DN» de 13 Jan 12
NOTA (CMR): o vídeo em causa pode ser visto [aqui].

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Apontamentos de Lisboa

Uma expressão curiosa...

"Portugal É Ele"

Por Manuel António Pina

DIZ ALGURES Borges que para que um poeta seja um bom, se não um grande, poeta basta-lhe ter escrito um bom ou um grande verso.

Tranquilizem-se os portugueses que desesperavam pelo adiado golpe de génio que revelaria o ministro Álvaro como o grande ministro da Economia que a sua imparável actividade blogo-economista anunciava. O grande verso tardou mais chegou.

Álvaro declamou-o ontem perante uma multidão embasbacada e expectante na abertura da Conferência DN 'Made In Portugal' e, mais do que um verso, é uma verdadeira epopeia, a sua aparente simplicidade ocultando seis extenuantes meses de reflexão governativa. Portugal, descobriu o ministro, "tem falhado" no que diz respeito às exportações de produtos nacionais "tal como as natas"; ora a solução está justamente... nos pastéis de nata, que podem ser tão vendáveis "como os churrascos Nando's ou os hambúrgueres".

É a "portuguese egg tart" de Colombo: se conseguirmos que o Mundo inteiro, de Nova Iorque a Taipé e a Ouagadougou, se alambaze de pastéis de nata em vez de churrascos Nando's, seguir-se-ão facilmente o galão, o cimbalino pingado, a tosta mista, a francesinha... O céu e a capacidade da cozinha são o limite.

Assim, o ministro Álvaro (evocando outra genial ideia de internacionalização da economia portuguesa, o Allgarve do saudoso ministro Pinho, devemos começar a dizer ministro Allvaro) vai lançar o "slogan" "Portugal Sou Eu". Desenhado a canela.
«JN» de 13 Jan 12

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12.1.12

Das rochas sedimentares (26)

Por A.M. Galopim de Carvalho

DIZEMOS rochas sedimentares carbonatadas porque é necessário distingui-las de outras rochas igualmente carbonatadas de natureza não sedimentar, como são os carbonatitos.
Por definição, rochas sedimentares carbonatadas são todas as que contêm mais de 50% de carbonatos de origem sedimentar, ditos secundários , em particular, calcite e aragonite, ambos carbonatos de cálcio, de fórmula CaCO3, e dolomite, o carbonato de cálcio e magnésio, de fórmula CaMg(CO3)2. (...)
Texto integral [aqui]

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Litemerer Rfaeani Aelu

Por Ferreira Fernandes

PELA 37.ª vez, pergunto: do que estamos a falar quando estamos a falar?
Dava jeito, para não me repetir, que Manuela Ferreira Leite não falasse em público. Já quando foi dos seis meses para suspender a democracia tive de vir aqui controlar os danos. Mas mais do que as fórmulas perigosas da senhora encanitam-me as interpretações que se fazem sobre o que ela, não tendo dito, permite que se diga que disse.
Basta um bocadinho de má-fé (ou simples receio de que ela tenha mesmo dito o que parece) para distorcê-la até à enormidade.
Desta vez, a uma pergunta de Ana Lourenço (SIC Notícias) - "Não acha abominável que se discuta que alguém com 70 anos tenha direito à hemodiálise ou não?" -, MFL saltou (a pergunta nem era para ela) e respondeu: "Tem sempre direito se pagar."
A resposta até pode ser óbvia: quem paga tem sempre direito. E até podia ser corajosa: em apartheid, era bom ouvir uma dirigente dizer que um negro, se fosse rico, tinha direito à hemodiálise dos brancos.
Só que MFL falava aqui e anteontem. Ora o problema, aqui e anteontem e hoje, é este: "Pode um velho de 70 anos não ter hemodiálise por não poder pagá-la?" E a resposta tinha de ser: "Não."
E, dito isso, avançava-se, talvez assim: "Se os velhos ricos tiverem a hemodiálise de borla hoje, talvez amanhã os velhos pobres não a tenham..."
Era isso que MFL queria dizer? Então dissesse-o com sentido: também no título estão as letras do seu nome e percebe-se mal.
«DN» de 12 Jan 12

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Confusão

Por João Paulo Guerra

NÃO ESPEREI, com toda a sinceridade, que o Governo não aguardasse nem sequer 24 horas para confirmar o que aqui escrevi terça-feira para ser publicado na quarta: que o poder muda com muita frequência de ideias quanto à contenção do défice e à necessidade de medidas adicionais de austeridade.

Em cima do acontecimento estabeleceu-se animada discussão cruzada, indirecta, entre o ministro das Finanças e o governador do Banco de Portugal. A discussão, por entre eufemismos e hipérboles, apóstrofes e circunlóquios, resume-se simplesmente ao seguinte: a austeridade causando a recessão vai exigir austeridade adicional para que haja ainda mais recessão o que implica ainda mais austeridade, etc.?

As coisas não estão a correr bem. Reina mesmo uma grande confusão. Os patrões rejeitam a meia hora de trabalho a mais receitada aos trabalhadores pelo Governo. Juristas duvidam da eficácia da lei das rendas. E tribunais começaram a desmoronar o edifício de suspeitíssima legalidade erguido pelo poder político em resposta ao caderno de encargos da ‘troika'. O que vai valendo à maioria PSD / CDS é a muleta do PS, tentando travar a todo o custo a fiscalização sucessiva do Orçamento.

Mas se havia crise, agora vislumbra-se crise na crise. Se as medidas decididas pelo Governo começam a desmoronar-se, que fazer para salvar a crise? É que por este andar o país arrisca-se a ficar sem austeridade e, pior ainda, sem crise. Talvez seja essa a ocasião para reconhecer, com o velho Bertolt Brecht, que "a exploração e a mentira são coisas que custam a aprender". E que a crise, bem vistas as coisas, não é mais que um modo de fazer uns poucos ainda mais ricos, à custa de milhões de novos pobres, e de acabar de vez com a cultura social, fundadora de uma defunta ideia de Europa.
«DE» de 12 Jan 12

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O monstro na primeira página

Por Manuel António Pina

A DESAVERGONHADA afirmação pública de Manuela Ferreira Leite ("abominável" lhe chamou justamente a jornalista que orientava o debate da SIC em que a afirmação foi proferida) de que doentes com mais de 70 anos que necessitem de hemodiálise a devem pagar é, sabendo-se que a alternativa à hemodiálise é a morte em poucos dias, um eloquente sinal dos tempos que vivemos e da qualidade moral de certas elites hoje influentes no país.

A conveniente "correcção" que, apercebendo-se da brutalidade do que dissera, a ex-dirigente do PSD fez a instâncias de outro interveniente no debate (afinal só quisera dizer que "uns têm [a hemodiálise] gratuitamente, outros não", consoante a capacidade financeira), é patética: se foi isso que quis dizer, porquê os 70 anos?; porque não se aplicará o critério financeiro a doentes com menos de 70 anos?

A ideia de que pessoas com mais de 70 anos só tem direito à vida, que é o que representa um tratamento extremo como a hemodiálise, pagando - independentemente de terem, durante anos e anos, entregue ao Estado parte substancial dos seus rendimentos para garantir o seu direito a assistência na doença - talvez seja aceitável vindo da mesma mente tortuosamente contabilística que em tempos também defendeu a suspensão da democracia. Que mentes dessas tenham púlpito num canal de televisão só se compreende pela política do "monstro na primeira página" que domina hoje o jornalismo português.
«JN» de 12 Jan 12

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Otelo – o suspeito do costume

Por C. Barroco Esperança

POR MUITOS erros que cometa, Otelo fez mais num só dia do que milhões de portugueses em décadas. Os que hoje o pretendem calar devem-lhe a liberdade, quiçá magoados por essa liberdade ser para todos, talvez saudosos dos tempos em que ela era exclusiva dos cúmplices da ditadura.
O inquérito aberto pelo Ministério Público ao heroico capitão de Abril resultou da queixa apresentada por um grupo de cidadãos, na sequência de uma entrevista em que o militar reformado admitiu a possibilidade de haver um golpe militar, caso fossem "ultrapassados os limites". (...)
Texto integral [aqui]

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11.1.12

A 'jihad' continua

Por Manuel António Pina

OS GOVERNOS passam e, como na série "Yes, Minister", o director-geral de Saúde dr. Francisco George permanece. E, com ele, permanece igualmente a sempiterna "jihad" antitabagista a que dedicou a sua fértil vida. Bordallo (estou a vê-lo numa célebre auto-caricatura de 1903, já velho e no meio de baforadas de fumo, pedindo lume ao jovem de 23 anos que um dia foi) retratá-lo-ia a cavalo no Zé Povinho e no Orçamento de Estado, botas altas e chicote politicamente correcto na mão, expulsando os fumadores do pecaminoso Templo da hotelaria, restauração & similares de Portugal.

Agora o dr. Francisco George pagou, isto é, pagámos nós, o "estudo" de um grupo de investigadores que concluiu que "basta estar uma pessoa a fumar do lado de fora, junto à porta de um bar, para aumentar o nível de exposição ao fumo de quem está no interior". A revelação não dá pormenores acerca da orientação do vento à porta do tal bar no momento da descoberta, mas parece que os investigadores andaram a "snifar" locais com zonas de fumo e verificaram que em 30% deles "cheirava a tabaco em todo o estabelecimento".

Fica por esclarecer se os investigadores terão também detectado, por exemplo, cheiro de escapes de automóveis e se ruas e avenidas terão igualmente de se afastar 100 ou 200 metros das portas de cafés, bares e restaurantes. Os fumadores, tudo o indica, irão ter que o fazer (o problema é se regressarão para pagar a conta).
«JN» de 11 Jan 12

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«Dito & Feito»

Por José António Lima

UM DOS LEMAS do Governo de Passos Coelho, mal iniciou funções, foi o de evitar mais despesa pública e reduzir o desperdício.

Em Julho, foi anunciado que o Governo estava a preparar «a extinção de empresas públicas do sector dos transportes e obras públicas». Em Agosto, foi aprovada em Conselho de Ministros a directiva segundo a qual «as 280 empresas municipais existentes devem ser fundidas e reduzidas a metade». Antes disso, em plena campanha eleitoral, já Paulo Portas prometia que, «em três meses, cada ministro do próximo Governo deverá apresentar um plano de extinções ou reduções nas empresas públicas, institutos, fundações e agências» da onerosa máquina do Estado.

Passado meio ano, entrados já em 2012, qual é o balanço destas tão proclamadas intenções em diminuir o peso do Estado e os seus incontáveis tentáculos? Até agora, não há notícia de uma empresa municipal, de um instituto, fundação ou organismo que tenha sido efectivamente extinto. Salvo a honrosa excepção, em curso, da Parque Expo, pela mão da ministra Assunção Cristas.

Não é por falta de tempo ou por burocracias legais que o ‘monstro’ do aparelho de Estado se mantém praticamente incólume. É porque é aí que se acoitam as clientelas partidárias, os empregos e as redes de influências e de interesses a nível local, regional e central. Como ainda agora se viu com algumas nomeações para organismos no sector do turismo ou das águas.

O poder político não tem receio de enfrentar os funcionários públicos com cortes de ordenados ou os cidadãos em geral com um violento acréscimo da carga fiscal e dos preços de serviços e produtos básicos. Mas teme e foge a tocar nos pequenos e médios direitos adquiridos das suas clientelas partidárias.

Paulo Portas prometia, também, «a redução e agregação de câmaras municipais e juntas de freguesias». Tal como, aliás, está acordado no memorando da troika. Mas a diminuição de qualquer um dos 308 municípios já foi metida na gaveta. E, ainda esta semana, um dos principais vultos do aparelhismo do PSD, Carlos Carreiras, veio anunciar que «para já, fica sem efeito» a ideia de reduzir o número de freguesias de Cascais de seis para quatro. «A ideia foi muito mal aceite até dentro do meu próprio partido», explica. Eis o espelho do reformismo do Governo. E do clientelismo partidário em acção.
«SOL» de 6 Jan 12

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COMO estas duas fotos foram tiradas uma a seguir à outra e no mesmo local, pode parecer que documentam uma situação semelhante à que anteontem aqui se mostrou: algumas das pessoas que utilizam estes restaurantes acham que há sítios melhores para colocar os detritos do que os caixotes colocados para esse efeito.
Mas existe uma grande diferença: neste caso, há uma plantinha que está a ser acarinhada - adubada com batatas fritas, maionese, ketchup.
.. (para já não falar das "beatas", pois o tabaco também é 100% orgânico e, por isso, decerto nutritivo)..

O assalto à democracia

Por Baptista-Bastos

TEMOS de aceitar tudo o que nos é imposto com fatalista resignação? A violência das obrigações imputadas autoriza-nos a reagir com semelhante atitude, exactamente porque o que poderá ser legal perdeu a legitimidade por excesso e atropelo. Ninguém sabe o que nos espera no final desta longa e penosa travessia: nem mesmo aqueles que para ela nos impeliram. Temos de reflectir nas actividades políticas de um Governo que não parece muito animado em aspirações sociais e em equilíbrios éticos. Um Governo declaradamente inclinado em nos empobrecer, em estancar qualquer manifestação de cidadania e pouco preocupado em sacrificar legiões de desempregados e de excluídos. A justiça económica da livre troca é uma monstruosa falácia. Todos os dias sofremos ou temos conhecimento dessa fraude ideológica, mas não conseguimos mobilizar as forças da nossa inteligência e o domínio da nossa razão a fim de enfrentar o embuste que nos desgraça.

O poder perdeu (se alguma vez os teve) o pudor e a respeitabilidade. O exemplo recente das nomeações para a EDP tem o carimbo da coligação; mas, antes, o PS procedeu de igual ou pior forma. Eis a ressurreição do rotativismo do séc. XIX. Não há meio de alterar este pêndulo. O assunto da deslocação de Alexandre Soares dos Santos para a Holanda, reprovável no que comporta de moralmente indigno, define o tratado de hipocrisia dos que desencadearam a "polémica". Então, e os antecessores do processo?, são anjos imaculados ou pertencem todos a uma hagiografia de tratantes? Os mesmos preopinantes que, nos jornais, em bravas elucubrações, esgarçam o projecto socialista e, por antinomia, constituem-se como indefectíveis paladinos do capitalismo, viram-se, agora, contra quê?

O sistema que os procriou é aquele que colonizou as mentes e favorece quem o protege e preserva. Passem os olhos pelos rostos dos que dominam o Governo, mas não mandam no País. Assustam. As ordens procedem de fora. E as rodas dentadas da grande engrenagem movem-se através dessas cumplicidades ocultas. Lenta mas perseverantemente foram roubando o nosso já de si tão ausente protagonismo. Deixámos, há muito, de decidir o nosso destino; mas, pelo menos, possuíamos uma noção de presente, por obscuro que fosse. A marcha de José Mário Branco: "Qual é a tua, ó meu / andares a dizer / quem manda aqui sou eu?" - é o apogeu simbólico e trágico da nossa derrota. Andámos quase sempre enganados; no entanto, talvez aprendêssemos que podíamos ser livres no opróbrio. O regresso ao passado talvez forme novos resistentes.

O Governo a nada acede; não se trata de ceder, sim de aceder. E desrespeita a concertação social, simplesmente ignorando-a, e insultando os sindicatos com a soberba da omissão. Não restam dúvidas de que o assalto à democracia está em andamento acelerado.
«DN» de 11 Jan 12

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Visita do "Joides Resolution" a Lisboa

Por A.M. Galopim de Carvalho

NA CONTINUAÇÃO de um projecto científico em curso nas águas da nossa Zona Económica Exclusiva, no âmbito do ECORD/IODP (European Consortium for Oceanic Research Drilling / Integrated Ocean Drilling Program), o moderníssimo navio oceanográfico Joides Resolution, com 143 metros de comprimento e uma torre de sondagens com mais de 60 metros de altura, estará em Lisboa nos próximos dias 18 e 19. (...)
Texto integral [aqui]

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10.1.12

Trabalhadores Incansáveis Fazem pela Vida

Por Ludovico Agrícola *

É UMA NOVA raça de homens que costuram a história, a economia e as empresas à medida dos seus interesses pessoais, porque sabem que esses interesses só podem ser os interesses da Pátria e da República, ou seja, de Portugal (tal como os interesses da General Motors eram, há meio século, os interesses dos EUA, só para dar um exemplo edificante).

Quem são esses homens, que tão justificadamente se consideram «trabalhadores incansáveis»? Escolhemos apenas alguns exemplos dessa minoria de iluminados que faz soar bem alto o nome de Portugal.

Desde logo, esse admirável trabalhador corticeiro que é Américo Amorim, porventura o maior de todos. Apesar das grandes dificuldades que enfrenta, num país em crise, para garantir a sua sopinha quotidiana (suspeitamos que recorre à caridade discreta da piedosa Isabel Jonet, trabalhadora incansável do mesmo jaez), Américo continua a batalhar como um verdadeiro herói da classe operária e acaba de comprar um banco no Brasil (que, ao que se sabe, não é propriamente um banco de cozinha). Américo continuará, assim, a flutuar como uma rolha de cortiça.

Vem depois Alexandre Soares dos Santos, o grande merceeiro de Portugal. É outro trabalhador incansável que luta como um danado pelas suas batatas e verduras quotidianas (suspeita-se que também recorre à discretíssima Jonet). Alexandre tem um acendrado amor à Pátria, à República e, claro, às instituições democráticas (embora considere todos os políticos uns safados, com excepção do doutor Barreto dos milagres, que transforma rebuçados em livros, acolitado pelo Fernandes, o maior jornalista português de todos os tempos). Mas o incansável e extremoso Alexandre é também cidadão atento, venerador e obrigado em relação ao patriótico governo encabeçado pelo amoroso Pedro Passos Coelho. Por isso decidiu seguir os incitamentos à emigração produzidos pelo nosso querido primeiro-ministro, pisgando-se, todo ladino e enquanto o diabo esfrega um olho, para os Países Baixos, ou seja, para a Holanda.

Segue-se o inefável Eduardo Catroga, muito conhecido pela fineza do trato e pela subtileza da sua língua de palmo (além da lista de tachos em empresas várias, que acumula com uma pensão porreiríssima, e que lhe servem para arredondar os fins de mês). Pois o nosso bom Eduardo andava por aí aos caídos quando o convidaram para ir supervisionar a EDP do António Mexia, a troco de uns parcos tostões que nem dão para fazer cantar um cego ou transformar rebuçados em livros: 639 mil euros por ano. Uns «pentelhos», dirá ele. Mas Catroga é trabalhador incansável (mais um) e aceitou o sacrifício pelo bem da Pátria e da República e, já agora, da austeridade imposta aos portugueses - para bem dele(s)…

Muito conhecida pelas suas ligações ao sector da energia (que é coisa que não lhe falta, diga-se em abono da verdade), a protuberante Celeste Cardona, trabalhadora incansável oriunda do Largo do Caldas, também vai abichar 57 mil euros por ano (uma ninharia) para trabalhar em part time junto do Catroga, a supervisionar o Mexia. Quando alguém dos jornais se atreveu a questioná-la, a energética Celeste pôs a mão na anca e atirou, toda rouca: «Mal estaríamos se os privados não pudessem fazer escolhas em Portugal». «Ah, fadista!», exclamaram os privados…

Todos estes trabalhadores incansáveis fazem pela vida - e fazem jus aos insistentes apelos à equidade fiscal, social e sacrificial, expelidos pelo nosso tão bondoso Presidente da República, Cavaco Silva. Todos eles o apoiaram nas campanhas para a eleição e reeleição. E pelo menos um deles, o grandessíssimo Eduardo Catroga, provém do círculo selecto e restrito de conselheiros do herói de Boliqueime, quando este era só primeiro-ministro. E quem não se lembra, por exemplo, do buliçoso António Dias Loureiro, afortunado herdeiro de múltiplas heranças, que gosta tanto de fazer a sesta em Cabo Verde? E do excelso banqueiro José Oliveira e Costa, que chegou a dar com os costados na choça e nunca mais é julgado? Estes, para já nem falar de outros trabalhadores incansáveis oriundos da São Caetano à Lapa que continuam a coleccionar marmitas, tachos, cantis e pensões do caraças, só para fugirem à fome e ao desemprego, garantindo o pão que o diabo amassou. E, já agora, as sopinhas…

Gosto muito, confesso, de seguir o percurso destas porreiríssimas e adoráveis criaturas, autêntica tropa fandanga de alto coturno que integra o selectíssimo Clube dos Direitos Adquiridos. Tal é a oportuna designação que foi escolhida para homenagear o famoso empresário Ângelo Correia (avesso aos direitos adquiridos pela populaça, mas não aos que são conquistados por trabalhadores tão incansáveis como ele), mentor do nosso querido primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, o qual também é conhecido como o «Obama de Massamá» e considerado pela excelsa e imparcial jornalista Felícia Cabrita como «um homem invulgar», que agora governa este «país de trapos» endividado até às orelhas. Uma estafa…

Américo, Alexandre, Catroga, Cardona, Coelho, Paulinho, Gaspar & Cia., a mesma luta! P’rá frente camaradas, que para trás mija a burra!
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* Autor de seis crónicas publicadas no «Expresso» em 2011
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NOTA (CMR): Outras crónicas do autor estão afixadas no blogue Traço Grosso.

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ESTE é mais uma caso de paginação certeira, por juntar notícias que, separadas, teriam um impacto menor.

Marx, Engels e La Fontaine

Por Ferreira Fernandes

O JORNAL The Wall Street Journal, capitalista como o nome indica, publicou ontem foto do novo líder norte-coreano Kim Jong-un a sair de um carro de assalto e deu título: "O comandante ensaia novos brinquedos." O longo artigo dedicou-se a mostrar que no país subiam as importações de "artigos de luxo."
Depois dos ensaios nucleares de 2006 e 2009, a ONU, além de proibir compra e venda de armas, propôs sanções à venda de artigos de luxo para a Coreia do Norte, de forma a pressionar as elites. Sanções vagas que, se foram eficientes quando o falecido líder Kim Jong-il quis, em 2009, comprar dois iates italianos, não serviram de nada em luxos menos ostensivos.
O artigo do Wall Street Journal preocupava-se por terem quadruplicado os computadores portáveis, desde 2007, e os telemóveis terem saltado em 4200 por cento. É uma preocupação errada. O que me tira o sono é a oficial agência de notícias norte-coreana, a KCNA, noticiar que centenas de corvos esvoaçaram sobre a estátua de Kim Il-sung, o fundador da dinastia comunista, para o avisar de que o filho dele morrera. E que, na morte de Kim Jong-il, dois ursos, mãe e cria, vieram para a estrada "chorar penosamente."
Quanto mais computadores e telemóveis houver em Pyongyang, melhor. É urgente informar um regime com bomba atómica que os corvos não falam com estátuas, nem os ursos leem as páginas de necrologia.
«DN» de 10 Jan 12

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Das rochas sedimentares (25)

Por A. M. Galopim de Carvalho

COMO se deduz dos textos anteriores, o capítulo das rochas sedimentares é vasto, complexo e ficou longe de ser esgotado. Para além das disciplinas próprias das ciências geológicas (estratigrafia, geodinâmica externa, mineralogia, paleontologia, etc.), envolve conceitos próprios das áreas da física, da química, da climatologia e da biologia relacionados com os múltiplos processos e ambientes de sedimentação onde estas rochas se formam e transformam. Nestes termos a respectiva bibliografia é extensa, muito mais vasta do que a que aqui se deixa para uso dos que entendam servir-se dela. (...)
Texto integral [aqui]

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Tudo "dentro da lei"

Por Manuel António Pina

CONTA o "Correio da Manhã" que três irmãs, de cinco, sete e oito anos de idade, oriundas de uma família carenciada e com a mãe no desemprego, têm sido obrigadas a almoçar, primeiro na rua e, depois (ó grandeza de alma!, ó altruísmo!) já no átrio da escola, obrigadas a levar pratos e talheres de casa e separadas de todas as outras crianças, como represália por a família não ter pago uma alegada dívida à Associação de Pais.

Para o pai-presidente da referida Associação de Pais, está tudo nos conformes, que é como quem diz "está tudo [a humilhação diária de três crianças para forçar a família a pagar a alegada dívida] a ser feito dentro da lei". E provavelmente, que sei eu?, estará mesmo. E como "está tudo a ser feito dentro da lei", decerto o bom homem há-de dormir de consciência tranquila, convicto de que, quando o frio começar a abrir frieiras nas mãos das meninas ou alguma adoecer, pai e mãe não terão outro remédio senão pagar o que devem.

Do que pensarão do caso os por assim dizer responsáveis da EB 1 de Carvalhos de Figueiredo (Tomar) não reza a história e Nuno Crato e o seu Ministério da Educação estão ocupados de mais a distribuir 253,7 milhões de euros (12 milhões dos quais sem explicação) por colégios privados para se preocupar com três meninas pobres de uma escola pública de Tomar. Tudo "dentro da lei", que esta gente é muito respeitadora da lei e a moral não é para aqui chamada.
«JN» de 10 Jan 12

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A propósito do texto anterior

Em cima: quando, dantes, se escrevia Actores (e não Atores), o "C" tinha a função de "abrir o A", para que a palavra se lesse [á-tô-res] - e não [a--res]...
Em baixo: ao anunciar que cobra 7 € "PUR HORA", este artista apenas está a cumprir a directiva de "escrever como se lê". Podia, também, ter tirado o H, dando origem a uma expressão que, embora dúbia, teria a vantagem de acautelar a inflacção (ou inflação - já nem sei!)...

O Desacordo Ortográfico

Por Maria Filomena Mónica

O MELHOR é apresentar-me. Chamo-me Alicinha e tenho doze anos. No ano passado, o meu pai trocou a minha escola por outra, mas eu tenho saudades da Bartolomeu de Gusmão, na Rua da Bela Vista, à Lapa, onde as setoras eram bué porreiras e as minhas amigas super. Usando um dos sprays que o irmão tinha escondido, a Guidinha, a mais afoita, escreveu na parede exterior da escola «pedagojia cotodiano», uma frase que ainda lá está. Sei-o, porque, quando vou para a nova escola, passo por lá. A mensagem é tão baril que as professoras ainda a não apagaram.

Este Natal o Menino Jesus e o St Claus – que é como, lá em casa, chamam ao Pai Natal – deram-me um presente. Segundo o meu pai, que viveu muitos anos em Inglaterra, vamos poder dar erros, mas apenas nas redacções de Português, porque nas de Inglês não será permitido, uma vez que lá não gostam de facilitar a vida às criancinhas. Deve ser por isso que ele ficou com um apelido esquisito: Sttau, que raça de nome é este?

Os governantes portugueses mudaram a forma de escrever a fim de nos tornarmos o país mais forte do mundo. Nem todas as setoras concordam, mas vão ser obrigadas a usar o que chamam Acordo Ortográfico. O meu pai, que embirra com tudo, diz que o Inglês tem 18 versões (é verdade, porque fui ver ao computador) e que nem por isso aquela língua decaiu. Mas, como toda a gente sabe, ele é um preguiçoso. Anteontem, na televisão ouvi um senhor chamado Malaca Casteleiro afirmando que temos de fazer «um esforço de adaptação».

Por isso já fiz uma redacção, usando a nova ortografia, a dizer o que penso dos omens – o h é mudo, por isso sai, não é? – diçertando sobre a perceção que o mundo tem do sexo forte. A receção por parte das minhas amigas foi idiota. Afirmam que, um dia, terei de aturar um deles, por isso devia era estar calada, mas eu sei como dar uma volta à kestão: vou escolher um velho, porque estes morrem mais depressa. Foi o que a minha bisavó fez – ela escreve phosphoro em fez de fósforo – e, pelo que vejo, tem-se dado bem com o estatuto de viúva.

Ando radiosa, após a determinação do Conselho de Ministros, de 9 de Dezembro, no sentido do sistema educativo e de toda a papelada oficial ter de adotar (aqui deixo cair a consoante muda, não é?) o Vocabulário que resultou da luta entre a Academia das Ciências e a Porto Editora. Quem me dera ser accionista desta empresa, mas, sempre avara, a minha mãe não me deixa. Por seu lado, o meu avô anda tão furioso que, lá do Céu, onde é Embaixador, me proibiu de usar o novo sistema. É um querido, mas devia ter em consideração que a desobediência civil é mais fácil para quem está no Altíssimo do que neste Vale de Lágrimas. Embora o meu pai me tenha dito que o método caiu em desuso após uma bernarda que por cá se fez com cravos, não quero apanhar reguadas. Aliás, aquela Revolução teve lugar antes de eu nascer e por isso não me interessa. Vou é pedir ao Malaca Casteleiro apoio para a criação de um Movimento de Libertação das Crianças.
«Expresso» de 7 Jan 12

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9.1.12

Entretanto, no PSD, um original

Por Ferreira Fernandes

A ÚLTIMA vez que a poesia entrou na política portuguesa vai para dez anos: em 2002, Margarida Sousa Uva dedicou o poema "Sigamos o cherne", de O'Neill, ao marido. Este concorria, então, para o modestíssimo cargo de primeiro-ministro de Portugal - e sabe-se onde depois chegou.
Ontem, o jornal Público contou-me que para presidente do PSD, nas eleições internas de março, o único candidato é até agora Nuno Miguel Henriques, um declamador. "Em cada um de nós circula o cherne...", diz um dos versos de O'Neill, e o nosso Henriques não é exceção.
Como já repararam, nos últimos tempos a política anda amorfa, pouco dada a arroubos de originais como este declamador.
O'Neill fez os versos inspirado no filme O Mundo do Silêncio, de Jacques Cousteau, e o atual mundo do silêncio fez saltar o declamador Henriques - isso é inspirador, apesar da derrota certa (o adversário será Passos Coelho).
Diz-me a notícia que Henriques é um homem de convicções: um dia participou num anúncio televisivo e fez, naturalmente, de laranja. E é político típico, avesso aos números: no anúncio não conseguia dizer o que ficava entre 99 e 101. E é também salta-pocinhas: num congresso em 2008, começou por ser mandatário de um candidato e acabou a apoiar outro... Não importa, o que importa é que a gente vai-lhe ao blogue e as primeiras palavras que saltam são de Pessoa: "Ai que prazer/ não cumprir um dever..." É de um belo e rebelde antitroikatismo primário.
«DN» de 9 Jan 11

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Alguém sabe para que servia este recipiente verde, que aqui se vê?
(A resposta será dada, em "actualização", sob a forma de um link para fotos adicionais)
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Actualização: a resposta já pode ser vista [aqui].

Nostalgia

Por João Paulo Guerra

OS PORTUGUESES mergulharam na nostalgia.

Dados divulgados pelo Dicionário Priberam da Língua Portuguesa revelam que a palavra mais pesquisada em 2011 pelos portugueses - com mais de 185 mil buscas - foi nostalgia, esse "estado melancólico causado pela falta de algo", ou ainda essa "tristeza profunda causada por saudades do afastamento da pátria ou da terra natal", como o próprio Dicionário define.

É claro que há cada vez mais portugueses afastados da Pátria, no verdadeiro sentido, porque emigram, ou no sentido figurado de não se reconhecerem nesta Pátria governada por uma ‘Troika' fandanga de burocratas e respectivos ajudantes de campo. Talvez venha daí o sentimento merencório que domina os portugueses, mesmo os que não sabem que o termo existe.

Também é verdade que a nostalgia tem sido tema de fados sofridos e fonte de inspiração de poetas, neste "País de lenda", o País de Florbela Espanca. Mas também é certo que a nostalgia, sendo já de si um estado de certa morbidez, conduz à nostomania, uma espécie de alienação mental. E aí, muito cuidado, pois um acesso de nostomania acrescido por um sentimento de raiva ao tomar conhecimento da taxa moderadora pode levar a um transtorno disfórico que é já um grau superior de mal-estar psíquico.

Falando mal e depressa, um português comum diria simplesmente que "isto é de loucos", demonstrando que é do senso comum que a crise faz mal à saúde e dá a volta à cabeça das vítimas. E o que é uma vítima da crise acometida de transtorno disfórico? É um paciente em trânsito por alterações do humor e do comportamento.

Nas doenças, como nas crises, o mal está em não serem tratadas a tempo e bem. Na fase seguinte, os pacientes agarram-se ao dicionário para entender de que padecem.
«DE» de 9 Jan 11

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