Na revista A. B. C., um texto sobre a actriz Ângela Pinto (1869-1925), não assinado, mas que pelo estilo reconhecível do jornalista atribuo a Ferreira de Castro:
«Ângela Pinto, cuja consagração se vai fazer num destes dias, se tivesse nascido além do burgo nacional viveria sem a preocupação do futuro, nalgum belo palácio fotografado para todas as grandes Ilustrações do universo, e o seu nome ressoaria como o das sublimes de além-fronteiras: a
Sarah, a
Duse, a
Réjane, que ela tanto admirou e que, pelo menos num papel excedeu.
[..] esta meridional endiabrada, de vida trilhada de aventuras semelhantes, bem ao sol, à luz, ao pasto da cidade, toda ela feita de coração, de fogo, de , de amor e de uma alegria logo caída no sorriso doloroso que ela superiormente estereotipa no seu rosto onde o olho estrábico acentua gravidades e garotices, conforme a sua alma se impressiona numa tragédia ou numa farsa.»
[..] a Ângela -- adorada das plateias vai receber em breve a homenagem de todos nós em público pela milésima vez com a diferença que das outras somos levados ao aplauso pela faísca do seu talento e agora teremos que evocá-los, no que perdemos todos, até a hora em que, de novo no palco, a actriz nos arrebate, nos mova, nos empolgue, nos vença como uma dominadora dos nossos nervos, com a sua excelente arte.
(caricatura de Amarelhe,
daqui)
A.B.C. #129, Lisboa, 4 de Janeiro de 1923.