(algumas impressoes)
A um dia de deixar Praga, confesso que estou com pena de nao a deixar com mais pena. Houve assim um momento mais emocional no fim da ultima aula de checo, mas c'est tout. Pensando bem, consigo perceber porque e que isto acontece: porque as aulas foram ate certo ponto uma desilusao, porque uma vida social parecida com a de Bath nunca se chegou realmente a estabelecer, porque a minha casa nao recebeu tanta gente tao frequentemente e portanto foi um pouco menos minha casa, tambem porque tendo eu um muito bom relaccionamento com a minha actual companheira de casa, ele nao e o que tinha com a Gusel ou a Lisa.
Por outro lado, gosto muito de Praga, especialmente das ruazinhas de Mala Strana (o que me lembra que Novy Svet ja esta na
fotopage), e gosto muito de ter morado aqui, em vez de ter corrido de atracçao em atracçao, com o que teria de ser alguma desilusao, Praga e eu somos miudas por quem uma pessoa se apaixona devagarinho. Praga e amistosa, nao espampanante, Praga e familiar e acolhedora, nao imponente. Praga nao e uma opera, e alguem de quem gostamos a ler-nos uma historia.
Outra coisa que preciso de dizer, e e preciso dizer-se porque o contraste com a minha impressao inicial e absoluto, e que gosto muito dos checos. Muito mesmo, os checos sao uns doces. Sei que nao e dificil pensar o contrario, que chegar a Praga e encontrar os mais sisudos checos e possivel, mas tenho exemplos quase em excesso a provar o contrario. As senhoras do supermercado que me perdoaram o que seriam em Portugal und dezasseis centimos (numa situaçao altamente embaraçosa em que julguei ter mais dinheiro na carteira do que o que tinha), o facto de dar lugares nos transportes ser uma obrigaçao evidente para toda a gente, os dias em que ando sorridente pelas ruas e toda a gente me sorri, porque nao ha realmente outra coisa a fazer que responder com um sorriso aos meus dias ostensivamente felizes, mas tambem porque os checos nao sao de riso tao dificil quanto o que se pensa.
Gosto muito dos checos tambem nos seus defeitos, nas contradiçoes politicas, no primarios que sao por vezes nos seus amores e odios, para serem tao avançados no momento seguinte e tao aptos a mudar de opiniao, a aceitar e receber. Gosto dos checos porque sao coorajosos, muito, mas pacifistas, outro tanto. Gosto do humanismo checo, herdeiro evidente de uma tradiçao cultural muito grande. E gosto de cultura a preços de toda a gente, e desta toda a gente que usufrui da cultura.
Gosto dos checos porque nao param de se beijar nas ruas desde que chegou a Primavera, gosto dos checos porque comem comida checa, bebem cerveja checa e, acima de tudo, falam checo. Gosto do checo porque e uma lingua bonita, e acima de tudo cheia de poesia, de laços tenues e bonitos entre as palavras. Gosto da forma de ser bonito dos checos, especialmente da forma de beleza dos senhores de meia idade, daqueles de rosto redondinho, que parecem as ilustraçoes das historias do meu livro de contos infantis russos, do gosto em evoluçao.
Por ultimo, volto a Praga em Maio, continuarei a estudar checo em Berlim, e as tantas nao me sinto sequer de partida. Sou um bocadinho checa ja, nao sei se de Praga, mas um bocadinho checa.
E depois, chego a Ostbahnhof (um nome merecedoe de todas as fantasias romanticas da Historia), e deixo finalmente de contar dias, horas e minutos.