Tuesday, March 31, 2009

de Deus e do Diabo



Quando era pequenina, acreditava no Diabo. Nao num diabo demónio, mais num diabo mafarrico, traquino. Isto ditava a minha relaçao com duas coisas: a tentaçao e a desarrumaçao.

Tinha uma boneca enorme, do tamanho de uma criança de dois ou três anos, a Anita (era uma boneca política: a minha mae tinha-ma dado para provar que havia coisas melhores que uma Barbie, pelo que deve ter escolhido a melhor de todas). Eu gostava muito dela mas se a punha do lado de fora da janela, sentia uma enorme tentaçao de a deixar cair. O que era a razao de a por do lado de fora da janela (gozar esse jogo, do lado do Diabo a tentaçao, do meu a perseverança e a força de vontade, Rita Maria, a incrível).

O segundo aspecto era esse hábito incrível do Diabo de nao me deixar encontrar as coisas, que depois apareciam como quem nao quer a coisa quando eu já nao estava à procura delas. Logo, acreditava eu, a soluçao era fazer de conta que nao estava à procura delas. Dizia eu em voz alta: "estou cansada, nao procuro mais, vou brincar aos legos" e esperava que ele se deixasse enganar. Mais tarde, numa fase mais avançada, achei que se podia rezar sem abrir a boca, e Deus portanto lia o que se passava no meu pensamento, o mesmo devia acontecer com o Diabo, pelo que pensava esse "vou fazer outra coisa" também, na esperança de que ele lesse só esse nível de pensamento e nao a parte do "agora vou pensar que quero ir fazer outra coisa".

O meu Diabo era portanto um tentador a quem, com força de vontade, se conseguia vencer e, com jeitinho, se podia apanhar distraído (lembrei-me disto a respeito deste post da Izzolda, que é sempre muito castiça).

o voto emigrante (para a Helena)


A primeira vez que nao votei estava em Berlim, de Erasmus. Explicaram-me breve e muito secamente na embaixada alguma coisa sobre meses de residência, estar registado na embaixada, etc. e tal, e ainda me sugeriram uma soluçao simples para o meu problema: meter-me no próximo aviao e ir a Portugal meter a cruzinha. Muito obrigado.

Depois disto, falei com muitos estudantes de Erasmus sobre o que lhes aconteceu quando tentaram votar. A disparidade foi absoluta: desde o meu caso, ao apenas ligeiramente menos complicado caso de Londres, a um mar de facilidades na Eslovénia e complicaçoes apenas ligeiras na Itália. Logo, os estudantes de Erasmus sao cidadaos de nenhures, cidadaos pela metade ou cidadaos por inteiro dependendo da cidade onde fazem Erasmus, que até pode nao ter consulado nenhum.

Entretanto, quando fui fazer o passaporte (serviço urgente caríssimo mas dispensado de forma absolutamente competente e eficaz) passei a estar registada na embaixada. Posso agora portanto votar nas legislativas e nas presidenciais portuguesas (punindo naturalmente os presidentes da República que me tiverem desconvidado de jantares)e nas europeias e locais alemas (embora, para cúmulo dos azares, sendo Berlim uma cidade-estado, só posso mesmo votar para o meu Bairro, onde uma assembleia tem o poder de verificar se o orçamento aprovado está a ser bem cumprido(!)).

O mais interessante de tudo isto é a forma como acabou por levar a que encarasse o voto de uma forma totalmente diferente. Gastei realmente horas a pensar sobre o assunto quando, há uns meses, me permitiram opinar sobre a instalaçao de parquímetros na cidade e fiz imensos testes e li programas antes de ir fazer uma cruzinha na tal eleiçao dos tesoureiros da freguesia.

O que se segue é uma tentativa portanto de passar a ser em Portugal a votante consciente e racional que tenho sido na Alemanha, onde há menos clubismos, rancores e ideias feitas.

Monday, March 30, 2009

madonna de novo à procura de uma criança


É ela de uma criança e eu de um calçado de Verao que dê para usar no trabalho, para além de bicabornato para fazer umas bolachinhas.

(sou só eu que acho esquisito que esta malta vá procurar filhos como quem vai às compras?)

be afraid, be very afraid


Este ano vou poder votar duas vezes, nas legislativas portuguesas e nas europeias alemas. Como ainda nao desisti de entregar os boletins depois de realmente neles ter escrito alguma coisa, acho que está na altura de perceber um bocadinho mais do que se passa em Portugal, a começar pelos quatro anos de governo Sócrates. O que aconteceu afinal e porque é que eu ainda conheço gente inteligente que defende Sócrates? E a seguir: o que anda a fazer o resto da esquerda (reformulando: o que anda a fazer a esquerda?). E depois as Europeias, o que implica também um outro conjunto de posts que comecei a escrever há muito tempo.

Daqui virá uma série de posts compridos que espero que nao vos aborreçam em demasia e que escreverei em conjunto com amigos e familiares, a quem já vou chatear daqui a bocadinho. Se for o caso escrevam que eu mando-vos uns links com fotografias de raparigas jeitosas, posts com nomes de marcas pelo meio ou ainda posts "a amizade é muito bonita/ o que é importante é ser sincero e humilde/ eu sou amigo do meu amigo" (que é como quem diz, se se aborrecerem, que vao para o Diabo).

Para que nao se aborreçam demasiado, prometo que os disparates do costume continuarao a levar a melhor à minha veia política (que o cinismo cansa).


Thursday, March 26, 2009

rita maria, trendsetter


A minha mãe não aguentou, já pôs um Karl Marx no frigorífico.

Sunday, March 22, 2009

Portugal


Às vezes esqueço-me porque é que não moro aqui.

Thursday, March 19, 2009

em jeito de aparte


No Público, Manuela Ferreira Leite afirma-se segura de ir ser a próxima primeira-ministra de Portugal, em reacçao a um prognóstico de Pöttering, encantado com a "personalidade convincente" de Manuela Ferreira Leite e defensor de mais "senhoras" na política.

Será que Pöttering disse "Damen" em vez de "Frauen"? E se sim, porque é que queria senhoras na politica, em vez de mulheres? Ou em vez de "personalidades convincentes"? Por uma questao de distinçao, nada de descabeladas? Ou será que foi a Lusa que nao quis assim sem mais nem menos chamar mulher a Ferreira Leite, uma senhora com idade para ser avó e ainda por cima um camafeu? Ainda há senhoras? E se houver, a política precisa delas?

PS: Antes que alguém nos roube o título de "blog que derrotou Ferreira Leite": o Boas Intençoes está seguríssimo de que ela nao será a próxima Primeira Ministra.

PPS: Assuntos bem mais sérios aqui. Sem lugar para piadinhas.

só mais um bocadinho


Ainda nao decidi se me deito muito cedo ou se nao me deito de todo, mas daqui a um bocadinho estou a aterrar na Portela e só volto ao trabalho 9 dias depois.

Wednesday, March 18, 2009

a mim ensinaram-me a ser uma mulher de princípios


Já para os "meios" e os "fins" dos projectos, a educaçao lá em casa nao me preparou. O que é chato porque uns e outros sao bastante comuns e, os meios entao, conseguem ser bem compridos.

Tuesday, March 17, 2009

a sida nao se combate com preservativos


Que aliás, de acordo com Bento XVI, só viriam complicar ainda mais as coisas. Tantas oportunidades para estar calado....

PS: Uma boa leitura sobre a Igreja e a Sida, via Jardim de Luz, útil tanto para conhecer a acçao concreta como o nível da responsabilidade existente. Este Papa nao tem, felizmente, a Igreja que merece.

rainha do futuro sem bimbys cumpre promessa eleitoral


Cozer as batatas (750 g) com bastante sal, de forma a que fiquem quase salgadas (este é o único sal que o pao vai levar e precisa dele, acreditem...se forem deputados do PS, cortem metade). Misturar metade de um pacotinho de fermento de padeiro (ouvi dizer que já há no Pingo Doce, acho que meio pacotinho dos daqui sao 21 gramas) com 125 ml de água morna (nao demasiado quente) e uma pitada de açucar, generosa (mas nao demais). Juntar isto às batatas esmagadas frias (muito importante) e a duas colheres de sopa de azeite. Juntar agora 700 g de farinha, amassar bem e deixar crescer meia hora (pode ser um bocadinho mais se estiver o dar o Tatort).

Separa a massa em duas metades e amassar de novo. Primeiro com a mao, dobrando a masa sobre si mesmo e pressionando com o interior do pulso (esta parte precisava de um vídeo) e depois com o rolo da massa. Enrola-se o pao de forma e deixa-se repousar com o borda para o lado de baixo, sempre coberto de um pano húmido (tal como aliás aquando do repouso anterior). Deixa-se repousar os dois paes por mais meia hora e vao depois para o forno, com a borda para cima, a 180 graus.

A receita diz 40 minutos, nao acreditem, leva 25. Olhem para eles e batam-lhes para ver se têm um som oco. Deixa-se arrefecer na grelha e espera-se, mesmo, antes de cortar.

dos jornalistas, dos blogues e das comitivas


Na escola de lavores, um blogue que eu até leio e de que até gosto todos os quinze dias, uma jornalista acusa o Ministro da Administraçao Interna de alguma prepotência contrária à boa educaçao. Nesse mesmo post, o ministro responde-lhe e várias pessoas se juntam à conversa, entre outros jornalistas, na sua maioria com histórias distintas, anónimos (esses malfeitores) e um senhor que nao para de brandir o seu cartao de militante do PSD, um conhecido garante de credibilidade.

Sobre o caso ocorrem-me dizer tantas coisas que as quero separar por pontos:

1) Quando os jornalistas chegaram à blogosfera, chegaram como se o facto de serem jornalistas os tornasse bloggers de especial categoria e como se o manto de credibilidade que detêm enquanto portadores de uma carteira profissional devesse ser extensível aos mesmos jornalistas quando escrevem blogues. Ora isto nao é verdade porque 1) nos blogues a legitimidade e a credibilidade estao sujeitos a outros parâmetros de validaçao, 2) o que os jornalistas escrevem nos blogues raramente sao peças jornalísticas, o que evidentemente nada tem de grave ou negativo e 3) nos blogues, ao contrário do jornalismo, eles nao sao obrigados a nenhum dos procedimentos que a deontologia lhes prescreve (como confirmar as fontes ou, neste caso, contactar o visado para declaraçoes). Assim, um jornalista nao é para a blogosfera mais do que um médico ou um pedreiro. O que nao é pouco, é muito. Mas é outro jogo, com outras regras.

2) Os comentários anónimos nos blogues têm o valor que lhes artibui o blogger que decidiu permitir a sua existência. Se eu sou da opiniao que é uma cobardia pouco credível deixar comentários anónimos, devo proibi-los no meu blogue, se acho que eles devem ser permitidos por um determinado número de razoes, devo respeitá-los. Permitir uma forma de participaçao no meu blogue que depois me dou ao luxo de desprezar é que nao funciona. A blogosfera é um diálogo do qual, como bloggers, controlamos as regras. Os leitores podem escolher ler-nos, comentar-nos ou ignorar-nos e até aqui controlamos as regras.
Mas quando escolhem comentar-nos, iniciam um diálogo connosco. Podemos ignorá-lo, mas nao nos devíamos dar ao luxo de desprezar pessoas que nos dao a importância que, para dizer a verdade, até nem temos.
Os jornalistas nao estao habituados a este mundo do diálogo em pé de igualdade e nao é a primeira vez que os vejo reagir em corporaçao, como se quem os critica num blogue fosse automaticamente equiparado a um daqueles senhores que dizem mal da "comunicaçao social". O problema é aqui nao há a "comunicaçao social". Outras regras, outro jogo.

3) Se Obama usa blogues, o Facebook e Deus sabe mais o quê, o mundo espanta-se como uma criança e desfaz-se em ovaçoes. Um ministro escreve um comentário num blogue sobre uma coisa que directamente lhe diz respeito, levando a sério uma esfera pública que efectivamente existe e toda a blogosfera se ri dele. Que o ministro lê blogues (ridículo!), que se importa com o que dizem sobre ele (nao terá mais nada que fazer? vai combater o crime, malandro!) e que se achar errado escreve um comentário (nao devia antes emitir um comunicado de imprensa a desmentir para nos rirmos do exagero da reacçao? nao valia mais ficar lá no seu pedestal, para disso o podermos acusar? que ridicularia é esta do diálogo?).

4) O melhor de tudo: pelo post e pelas suas caixas de comentários afora, recebemos as versoes da história da jornalista, do ministro, dos seus assessores e de outros jornalistas. Nao há duas versoes da história que batam certo, embora existam duas bastante parecidas. O ministro sentiu-se obrigado a comentar e responder, a jornalista nao se sente obrigada a clarificar a situaçao de forma clara, embora dê meio dito por nao dito a um leitor que, ao contrário dos outros, lhe "merece uma resposta".
Nao gostava de ser jornalista e ter um blogue sobre a actualidade sobre a qual escrevo profissionalmente, acho que nao deve ser fácil e admiro alguns casos mais bem conseguidos dessa esparregata. Mas se um jornalista escreve um blogue e nesse blogue nao exerce jornalismo, passa a blogger. A coisa requer uma certa humildade e nao dá para, ao menor sarrabulho, deixar a plebe para se irem refugiar outra vez no altar da classe.

5) Por último, resta a evidência de que fica por provar a utilidade de as comitivas políticas viajarem com uma comitiva jornalística correspondente. Nem o jornalismo nem a política ganham alguma coisa desta convivência forçada e desta co-dependência articial. Isto é, nem o jornalismo, nem a política, nem os blogues.

Nem a propósito, a história acaba por ser clarificado só no Público, ao qual a jornalista conta a história de repente de uma forma diferente e já mais clara e coerente.

Monday, March 16, 2009

balanço de vida nos idos de março


Gosto muito da minha família, da minha casa e dos meus amigos. Do meu sofá, dos meus candeeiros e da minha mala preta nova. Da Ginger, da Primavera e de todos os inícios de estaçao. Dos meus ombros, deste meu colar impossivelmente esquisito, do meu trabalho, de Berlim. É tao divertido estar vivo e ser eu.

Sunday, March 15, 2009

towards a contribution to futility in the blogosphere


serviço público

O champô de volume da Elvive é mesmo muito bom.

Saturday, March 14, 2009

das traduções


Hoje de manhã, depois de uma semana de trabalho intensíssima, fui ao Checkpoint Charlie freigeben a brochura da conferência. Andava a tentar traduzir freigeben para este post, mas só me ocorre libertar. O que tem o seu quê de poético. Vou ali libertar o meu trabalho, lançá-lo ao mundo 25000 vezes. Vou ali libertar-me a mim e retomar a minha vida pedalando Friedrichstrasse fora neste Berlim primaveril.
Com o que ficamos neste "libertar". Rita Maria disse liberte-se e olhou para o seu trabalho e viu que era bom. Com o que em vez de descansar ao sétimo dia se decidiu antes por sete dias de Portugal (é mais nove, mas não queria estragar a metáfora). Sexta feira, aí vou eu. Nove dias livres com Lisboa, Portugal, famílios e amigos.

Thursday, March 12, 2009

estás a passar demasiado tempo no excel


Quando me pedirem em casamento de novo e eu quiser dizer sim, espero que seja por e-mail e em inglês. Escrever yes no teclado tem um schwung tao engraçado, é um pequeno movimento tao bonito. Gosto de pensar que nao é por acaso. Sou tao tonta.

Wednesday, March 11, 2009

cambada de burgueses


No spectrum, um dos bloguers tem poupanças.

momento nojo do dia


Jorge Coelho consegue defender o indefensável, torcer conceitos para os moldar à sua medida e ainda ser paternalista, nojento e racista tudo em duas frases. Cada vez que pensamos que Sócrates é o pior do PS, deviamos pensar em Jorge Coelho, a pior herança do Gueterrismo.

só mais dois dias


Já encomendei livros para ler no fim de semana, luzes para a bicicleta e um espelho para a casa de banho (para se verem melhor as minhas olheiras a desaparecer). Só nao consigo decidir se nunca mais é sexta feira, para retomar a minha vida, ou se é terrível que já seja quase sexta feira, e ainda falta tanta coisa.

Monday, March 09, 2009

só mais quatro dias


Estou a trabalhar há nove dias seguidos uma média de 10 horas por dia (incluindo metade do fim de semana passado a trabalhar a partir de casa). A minha ansiedade mantém-se enquanto durmo, como e tomo duche. Se isto acaba, às tantas nem me lembro do que fazer comigo (tirando, claro, meter-me no aviao para Portugal).

Sunday, March 08, 2009

sobre esta história daquela engenhoca que responde pelo nome de um rapaz que parece que era da minha aldeia


A propaganda à volta do Magalhaes é ridícula, claro, mas a polémica contra o Magalhaes também é (recomendo por falar nisso esta resposta à notícia do Expresso sobre erros ortográficos).
Às tantas podiam ter escolhido outro computador, outros programas, outro fabricante, outro vendedor um pouco menos aldrabao que o nosso Primeiro Ministro? Podiam. Munir as crianças por esse país fora de computadores era a coisa mais urgente que se podia fazer em termos de educaçao? Nao.
Em política só se pode sempre tomar a decisao mais urgente e necessária? Nao. Competências informáticas sao hoje em dia tao importantes como Português, Inglês ou Matemática? Sao, quer queiramos quer nao. Uma ligaçao à Internet pode aproximar todo um interior, em parte com poucos recursos culturais, de um conjunto infinito de recursos? Pode. No Magalhaes vêem-se mulheres nuas e tudo o mais que a Internet tem para oferecer? Espero bem que sim. Era só o que faltava o Estado definir os conteúdos online a que podem aceder as crianças e quiçá também os pais delas naquele que em muitos casos será o único computador da família.

Mais mulheres nuas e menos conversa, é o que vos digo.

gajas histéricas


Em jeito de post do Dia da Mulher: ontem chamaram-me, a mim e a uma amiga, pela primeira vez, gajas histéricas ou, em alemão, hysterische Weiber. E estávamos só a jantar e a conversar, ainda por cima baixinho, que os assuntos eram privados.
Foi um casal (um senhor com um relógio que não dava com nada e a sua loira falsa de pérolas de plástico) que mudou de mesa mas que afinal não sabia se a nova seria melhor, ao lado das gajas histéricas. Claro que nos deu para a parvoeira e foi impossível evitar um desculpe, não quero parecer histérica, mas não se importa de me deixar passar, à saída. Às tantas isso deu-lhes razão, o que é uma chatice, mas nunca me tinham chamado gaja histérica e não os quis desulidir.

Saturday, March 07, 2009

das entrevistas


Gostei muito da entrevista a Patti Smith, no Ípsilon. Nao conheço Kathleen Gomes de lado nenhum (na verdade, até sempre achei "a Kathleen gomes é um boi" um dos melhores nomes de blogue de sempre), nunca reverenciei o Ípsilon e nao conheço muito de Patti Smith, mas a entrevista desvenda um excelente bocado de humanidade, uma grande pessoa, de que me apeteceu logo gostar muito.

(no meu penúltimo ano de jornalismo corri o país a entrevistar faroleiros e a dormir em faróis. Foi fantástico, claro, e ensinou-me muito sobre a entrevista. Nao sobre as entrevistas políticas, que sao um género à parte, nem sobre as "entrevistas", aquelas em que queremos só saber três coisas e retirar quatro citaçoes. Nao sobre o género, estava até a escrever uma reportagem, mas sobre o acto em si. Das entrevistas em que uma pessoa vai conhecer a outra para a dar a conhecer a outros. Só estas três instâncias chegam: parece impossível, nao é?

E depois nao é. Gosto muito de ler boas entrevistas, daquelas em que o entrevistado se apaga e nao dá mais do que impulsos, que trazem a pessoa cá para fora. Aprendi como se fazem: sao uma questao de preparaçao, claro, especialmente em casos de gente grande, mas acima de tudo sao tempo, paciência e amor. Há tantos jornalistas que nunca descobriram isto ou mostrar a preparaçao, ou o que pensam, o que sabem e dói-me sempre num sítio estranho. A verdadeira arte da entrevista é estar calado.)


Friday, March 06, 2009

ah, a adolescência



Hoje, por causa de um post da Lady, lembrei-me de um encontro planeado durante meses: o dia em que nos íamos baldar a Física para fumar uma maça. Esse dia estava escrito nas minhas botas e tudo (umas de carneira que tinham apanhado umas pintas de tinta no Avante e que eu decidi continuar a usar ainda assim porque gostava mesmo delas e a que ia acrescentando elementos). Fiquei com saudades da escola, dessa minha amiga e da felicidade suprema de nos baldarmos a física para nos irmos sentar atrás da casa da professora de religiao, discutir o mundo e descobrir a vida.

Assim de repente, só por umas horas, bem podia ter dezoito anos outra vez.

PS: É preciso que se faça justiça: nós também nos baldávamos sem encontro marcado, claro, mas esse dia era especial e significava o compromisso de nao nos baldarmos a Física até lá.

Thursday, March 05, 2009

antes só e bem acompanhada


Saí do trabalho pouco antes das 8 vim por aí fora, a pé, que estou sem luzes. A certa altura, uns quarenta minutos depois, sorri a pensar que moro sozinha e passeio com a Ginger pelas ruas da cidade, mas nunca me aborreço. Gosto imenso da minha companhia.

somebody cheer me up


Este projecto em que estou a trabalhar há umas três semanas e que provavelmente só acabará na ppróxima está a deixar-me completamente deprimida.

PS: Tentativas de me alegrar que invoquem a proximidade do fim de semana serao recusadas, passarei o fim de semana a escrever uma brochura.
PPS: Dias que faltam para a minha viagem para Portugal: 15.

Wednesday, March 04, 2009

manifesto retrógrado por um futuro sem bimbys II



E uma textura...fantástico, absolutamente fantástico. E sai sempre bem, sempre (se me chamarem umas dez vezes rainha do futuro sem bimbys e prometerem experimentar, dou-vos a receita).

o cavaco em berlim segundo rita maria


Saí do trabalho depois de uma reuniao horrível, montei-me na Ginger e pedalei muito rápido a contar ainda apanhar a portuguesa mais gira de Berlim para um café. Fui e tomei um café almoçarado, mas tive de me ir embora à mesma velocidade a que fui e nem sequer me cruzei com o meu jornalista favorito.

Isto, claro, nao é uma história. A história é: na volta, uma fulana estacionada decide sair com o carro de repente, sem piscas e a uma velocidade idiota. Desviei-me a tempo com uma manobra brilhante, mas a manobra brilhante fez saltar a corrente da bicicleta, o que me retira o travao de trás (na Alemanha há umas bicicletas antigas, com pneus feitos ainda na Jugoslávia, em que a roda de trás trava ao pedalar para trás).

Isto, claro, ainda nao é a história. A história é: para nao cair tive de por o pé no chao, esticando ao máximo a minha perna, que só por acaso estava guardada dentro da minha saia travada favorita. Que deixou a minha perna ir, que remédio teve ela, mas para compensar, quue isto ou vai ou racha, rachou. Isto é, começou na raxa e abriu até cima.

Logo, a história é esta: vou ficar aqui a tarde toda e nao me posso levantar da secretária, a nao ser que vista o sobretudo para ir à casa de banho.

E o dia tinha começado tao bem.

Sunday, March 01, 2009

Chegou!


Ontem, umas horas depois de acordar, o sol batia nas minhas janelas. Não resisti: limpei uma, depois outra e depois outra, arrumei a cozinha, separei o lixo, pedalei na Ginger, fui almoçar com uma amiga, comprei uma espécie de capa para vestir por cima do meu vestido mais chato para ir jantar com o despertar da minha consciência política, depois um livro, que o Der Turm tarda a despertar-me instintos afectivos, depois limpa-canos, que saudades da minha amiga Lisa. Queixamo-nos do frio, mas ele não vem. Chove um bocadinho.

Fui dançar noite fora, música turca, ritmos das Balcãs, ah, agora é russa e agora posso cantá-la em castelhano melodioso da américa latina. Um francês tenta ensinar-me a dançar salsa enquanto eu tento sacar-lhe o antónimo de tard, os dois igualmente mal sucedidos, às vezes sei da minha amiga, outras perdi-a de vista, as horas passam, a música vem de todo o lado por onde passa a geografia, o meu parceiro de pista favorito desaparece e eu só me tinha distraído por dez minutos, uma rapariga que eu estimo húngara dança sempre os passos de uma qualquer dança tradicional e vimo-nos embora só depois de me terem pisado três vezes durante o Bella Ciao.
Ainda não são cinco e ainda é de noite. Depois das cinco parece que esvazia, voltamos e esperamos?, não, anda, está frio. No caminho, tento convencê-la da existência daquela canção, duas da manhã, hei!, queixamo-nos do frio, mas ele não vem e sabe como nós sabemos: começou a Primavera.

Hoje brilha o sol, deito-me na cama de janelas abertas de par em par, um calorzinho de sol fraco e um jornal que já é de sexta. Danço a Lily Allen em frente ao Karl Marx, em cima do tapete para a vizinha não se zangar. Não sei se já vos disse: começou a Primavera.