Thursday, October 29, 2009

lei da internet II


“As an online discussion grows longer, the probability of an Obama mention approaches one.”

Sascha Lobo, o senhor social media da Alemanha.

Wednesday, October 28, 2009

para nao dizerem que neste blog nao se aprende nada de útil XV



E porque falei disso no último post e afinal ainda nao o tinha publicado, ou ainda porque tenho leitores que se estao nas tintas para o Pacheco Pereira, ou ainda porque ontem li neste blog que alguém andava a braços com uma praga de piolhos e me esqueci de comentar: a maionese é excelente contra os piolhos. Caseira, como testou outro dia a minha mae ou de compra, a que tinha experimentado a minha amiga americana que recomendou a mézinha.

PS: A imagem é daqui.

As Redes Sociais, Pacheco Pereira e o TDACHSR I


(uma resposta em três tomos para gente com paciência)

Quando as mulheres começaram a querer votar, chamaram-lhes histéricas. Quando os homosexuais quiseram assumir-se, catalogaram a sua orientaçao sexual como doença. Quando os jovens se manifestam, sao preguiçosos. Quando surgiu a Bimby, eu própria garanti que era o fim do mundo. Catalogar aquilo que nao conhecemos sempre foi uma defesa. Pelo menos provisoriamente, fenómenos ficam na gaveta onde os pusémos e nao nos dao cabo do juízo.

Confrontado com o crescimento e a importância crescente das redes sociais, Pacheco Pereira (no Público e depois no Abrupto) descobriu uma nova definiçao da hiper-actividade que lhe permitiu catalogar um mundo, ou no caso dele apenas um país, onde as pessoas escrevem no Twitter aquilo que comeram ao almoço e nao sao capazes de prestar atençao a uma aula, onde a televisao substituiu os jornais e só as elites descobrem, com a ajuda impagável da sua condiçao, tempo e lugar para a leitura. Leitura essa que já aqueles que morriam de medo da televisao ou do rádio devem ter temido. Também aqui na Alemanha há imensos Pachecos Pereira, especialmente preocupados com o fim do jornalismo, nao acima de tudo como actividade comercial e profissional, mas alegadamente muito preocupados com a qualidade da informaçao. Nas redes sociais como no resto, há um velho do restelo para cada inovaçao.

Eu escrevo um blog há muitos anos, embora talvez há menos tempo e com consideravelmente menor audiência do que Pacheco Pereira. Uso o Facebook e o Linkedin e faço uma razoavelmente cuidada separaçao dos conteúdos que publico para públicos diferentes. Uso pouco o Twitter, mas usei-o mais intensivamente nalgumas situaçoes que me permitiram perceber o seu potencial. Leio críticas de livros na Internet antes de os comprar, comparo voos em vários sites diferentes antes de os marcar e já quase nao cozinho nada que nao venha de um blogue, enriquecido pela experiência de quem o cozinhou e de preferência comentários adicionais, quiçá de quem fez aquele bolo num fogao a gás em vez de num fogao eléctrico. Guardo tags no Delicious em vez de no browser de casa e outra vez no browser do trabalho, porque me ajudam a organisar e guardar conteúdo que achei interessante. Quem no trabalho trabalha com áreas semelhantes às minhas pode aceder aos artigos que marquei para o efeito e posso juntar-me a colegas que procuram o mesmo tipo de informaçao, guardo livros que me interessam e artigos que quero ler depois, receitas que quero fazer. Leio notícias online, recebo todos os dias exactamente às 09:30 um alerta do telejornal alemao com as notícia do dia (e outro no momento em que acontecem coisas importantes, um serviço rapidíssimo, que bate o Twitter e tudo). Nao abro rigorosamente nenhum dos vídeos ou apresentaçoes em Power Point que me enviam por e-mail, mas sigo links no Facebook e no Twitter em cujos autores confio e que nao me obrigam a fazer qualquer download.

Em termos de gestao do conhecimento, posso comparar isto ao incremento de qualidade de vida que sofri quando fiquei sem rato várias semanas e tive de aprender todos os atalhos do teclado, quando me ofereceram uma panela de pressao ou quando me decidi finalmente a memorizar em que posiçao entrava a chave do cadeado da bicicleta: um enormíssimo incremento de eficiência e de qualidade de vida.

A diferença fundamental entre os exemplos anteriores e as redes sociais é que o conhecimento deixa de ser partilhado apenas com aqueles que me conhecem imediatamente, mas é, quando eu assim o entender (e entendo ser do interesse geral que se pode livrar dos piolhos com maionese, do interesse dos meus amigos que eu estou hoje aborrecidíssima e do interesse público chamar velho do restelo a Pacheco Pereira) partilhado com um grupo alargado de pessoas, nalguns casos controlado, noutros nem por isso.

A mesma coisa acontece nas empresas, nas instituiçoes públicas e por todo o lado: quanto mais o conhecimento é partilhado, melhor e mais conhecimento é gerado, melhor e mais conhecimento que aumenta a eficácia, a qualidade de vida e a possibilidade de participaçao de cada um de nós.

As Redes Sociais, Pacheco Pereira e o TDACHSR II


(uma resposta em três tomos para gente com paciência)

Há um outro grande argumento que me leva a saudar esta revoluçao e que deixei para o fim porque responde a vários de Pacheco Pereira: a democracia. Costumo começar com os blogues e curiosamente ando por aí Europa fora a dar o exemplo de Portugal, talvez porque o outro que conheço melhor é a Alemanha e ela tem uma blogosfera atrasadíssima: com os blogues surgiu em Portugal um enorme espaço público de discussao, um grupo enorme de analistas de grande qualidade e, acima de tudo, um espaço público quase inteiramente democrático. Se alguns chegaram à blogosfera vindos da política ou do jornalismo e estenderam o seu protagonismo a um novo medium, reconhecendo à restante comunidade legitimidade para com eles constituir uma discussao pública, muitos outros vieram de lugares escondidos onde partilhavam a sua inteligência, cultura e análise com um grupo de amigos que sabia que eles eram brilhantes. Que seja possível encontrar muitos deles hoje no parlamento ou nos jornais reflecte exactamente este facto. Este alargamento do espaço público e da discussao política, aproximando-os dos ideais de Habermas que estudávamos em Comunicaçao Política com um ar desencantado de quem podia estar antes a ler a Utopia, é, a par com a perda de um conjunto de direitos e seguranças, a maior mudança na realidade política portuguesa dos últimos anos. E continuará a sê-lo, alargando ainda mais a esfera de discussao e o número dos seus participantes e permitindo acesso directo a representantes eleitos ou jornalistas por parte do cidadao comum.

Os três argumentos mais utilizados pelos velhos do Restelo que procuram uma razao para temer esta evoluçao sao, muito sucintamente, o défice de atençao gerado pela explosao de conteúdos, a profusao de boatos e o narcisismo digital de cada um contar a sua vida na praça pública, com prejuízo evidente da sua privacidade. À partida, é possível imaginar que face a uma enorme profusao de conteúdos disponíveis actualizados ao minuto, cada um deles possa ter o exacto efeito de uma vela em Times Square. A razao pela qual isto nao acontece é que, face a um aumento de estímulos, seres humanos inteligentes desenvolvem formas de lidar com esses estímulos, formas selectivas, tal como faziam já os nossos olhos desde sempre, observando de forma diferente o escuro ou a luz, uma paisagem desértica, uma praia cheia de gente ou uma praia cheia de gente quando estamos à procura de um rapaz jeitoso ou do nosso filho de três anos.

Mais ainda, alertados que estamos pelo facto de a informaçao poder ter sido produzida por um enorme leque de fontes, aprendemos a filtrar fontes e, isto é uma parte importantíssima da revoluçao digital, a tratar informaçao à partida de forma crítica. O povo, que Pacheco Pereira tem medo que ainda esteja a olhar para Times Square como boi para arranha-céus com néons, aprende a prática primeira das ciências sociais e uma das partes primeiras da vivência democrática. Isto demora o seu tempo? Claro, mas está a acontecer. Como o provam as duas primeiras linhas do artigo de Pacheco Pereira.

Quanto à desinformaçao, nao se geram mais boatos na internet do que na vida em geral, nem se faz mais propaganda na web do que fora dela. A diferença é que a internet nunca teve um "mas deu na televisao" nem um "mas li no jornal" ou ainda um "disse ontem o ministro": sempre pusemos a internet em causa e vamos devagarinho escolhendo fontes em quem confiamos. A outra vantagem é também própria da democracia cibernética: nunca como na internet um boato pode ser clarificado da mesma forma que surgiu, em pouquíssimo tempo e em discurso directo. E quem diz um boato diz propaganda. Se se apanha mais depressa um mentiroso do que um coxo, a internet corre mais depressa e tem muitíssima mais gente a correr.

Sobre o narcisismo de cada um, sobra pouco para dizer. Por um lado, pensando no que partilha com diferentes públicos, nunca antes o cidadao comum tinha pensado tanto sobre a sua privacidade, preocupação e consequente reflexão que costumava estar reservada aos ricos e famosos. Por outro, dantes o narcisismo de achar que a nossa vida interessava a alguém estava reservada aos Pachecos Pereiras, Zolas e Marylins deste mundo. De uns líamos as opinioes, dos outros a correspondência, devidamente encadernada e com letras douradas e da última seguia-mos sobresaltados os desaires amorosos. Agora isso pode ser o casamento da Pipoca, o Twitter do Obama ou os artigos da Palmira, apenas a título de exemplo. No caso de algumas pessoas, poucas, aquilo que as interessa pode ser o que eu comi ao almoço (uma salada e os primeiros Lebkuchen do ano) ou o que vou fazer logo à noite (ir ver as séries das quartas feiras com os amigos do costume). Essas pessoas podem escolher seguir-me num dos muitos canais onde partilho as minhas opinioes e o que se passa comigo. As outras, às tantas nunca ouvirao falar de mim, como nao o ouviu nunca Pacheco Pereira. Com elevada probabilidade, nao perdem nada por isso.

As Redes Sociais, Pacheco Pereira e o TDACHSR III


(uma resposta em três tomos para gente com paciência)


Por último, resta o conjunto de outras coisas que é importante salvaguardar e que podem estar em perigo face a esta revoluçao. A atençao aos mais próximos, familiares, amigos. A atençao aos professores nas aulas. A atençao aos jornais e aos livros. A atençao a Pacheco Pereira.

Mas, a nao ser que sejamos uma criança birrenta, a atençao nao é um fim em si mesmo. Como no último post falávamos de narcisismo digital, vou ficar-me pelo meu exemplo.

Nas relaçoes afectivas, o objectivo da atençao seria a intimidade e a expressao de amor ou carinho. Criei um blogue quando vim pela primeira vez morar para a Alemanha. Quando falava com a minha mae ou o meu namorado, eles já sabiam um conjunto de informaçoes básicas, o mesmo acontecendo com alguns amigos importantes. Se falava com o meu pai ou amigos que nao liam o blogue, isso implicava po-los primeiro ao corrente da minha vida. Evidentemente, existem coisas que nunca passaram pelo blogue, ou hoje pelo Facebook e que tenho de contar pessoalmente. E ângulos diferentes. Mas a verdade é que, na distância, as pessoas que me lêm têm uma vantagem evidente que permite depois, no contacto por e-mail, telefone ou ao vivo, uma passagem muito mais directa à intimidade de quem se gosta e se vê todos os dias. Para além disso, mais canais permitem-me fazer coisas diferentes, por exemplo interagir no Facebook com uma amiga freelancer que tem durante o dia mais do que fazer do que falar comigo ao telefone por meia hora. Mais canais, tal como mais línguas, são mais formas de expressão. Isto já para nao falar dos amigos vindos das redes sociais ou das vantagens evidentes da técnica, como a facilidade de organizar jantares e festas com o Facebook ou de partilhar fotos.

O objectivo da atençao aos professores nas aulas é a aprendizagem. A grande questao aqui nao é porque é que as crianças já nao respondem aos métodos da década passada, mas quais os métodos que funcionam para estas crianças e, também, para estes professores. A informaçao resultante da pesquisa crítica pela Internet é de qualidade incomparavelmente superior àquela potenciada pela biblioteca da escola, quer queiramos quer nao, até porque a disponibilidade quase imediata da informaçao procurada já sugere que a aprendizagem nao é apenas o tomar conhecimento, mas o fazer e o pensar com esse conhecimento. E, depois da internet como antes dela, os melhores professores vao ser o que nos ensinarem a fazer isso.

O objectivo da atençao aos jornais e aos livros nao é a leitura, que aliás dificilmente está em perigo quando metade dos perigos que Pacheco Pereira menciona implicam comunicaçao escrita. A diferença entre o jornalismo e o meu blogue é um conjunto de práticas, direitos, obrigaçoes e princípios deontológicos cuja actualidade e papel para a democracia nao serao afectados, a longo prazo, pelo alargamento da esfera pública. Se forem, será sinal de que teremos encontrado uma melhor forma de obter informaçao e investigaçao com as mesmas garantias. Como o objectivo do jornalismo nao era o jornalismo, às tantas o que tivermos descoberto será uma coisa melhor. Como nao me parece que vá acontecer, acho que o jornalismo sobreviverá à revoluçao digital tal como as velas sobreviveram à luz eléctrica e a faca nao morreu com o surgimento do picador.

Já os livros, que iam morrer com o formato de bolso, a rádio, a televisao e, às tantas alguém se terá lembrado desta, com a imprensa, estarao assegurados enquanto suporte de informaçao enquanto eu me recusar a ler na Internet um tratado de stecentas páginas sobre a cultura russa, que aliás já está a caminho encomendado na Amazon, e estarao assegurados enquanto suporte de arte enquanto houver artistas que assim queiram expressar-se. Provavelmente um dia perderao actualidade, como a pintura em cavernas? Nao é impossível. Passará a ser impossível lê-los? Proibido? Duvido. Passará a haver menos Arte? Nao. Devemos entao preocupar-nos com a morte do livro? Nao sei porquê. E eu adoro livros, desde sempre.

Resta a atençao a Pacheco Pereira. Essa provavelmente irá diminuir, partilhada com mil outros fazedores de opiniao. Mas eu, por exemplo, nunca lhe tinha dedicado tanto do meu tempo. Talvez porque encontrei naquele texto uma sinédoque, um pars pro toto das ideias afonsinas sobre as redes sociais, mas ainda assim, caramba, já aqui estou há uma hora. Anima-te camarada, enquanto há vida há esperança.

(e com isto, em vez de corrigir os erros ortográficos desta série de posts, que devem ser muitos que a eles sou especialmente propensa nestas diatribes, vou ter com os tais amigos de quarta à noite)

(ainda sobre este artigo, ao qual eu cheguei tarde e, à moda antiga, via E-mail, vale a pena ler a discussao interessante que se faz aqui, uma resposta mais zangada do Arcebispo aqui e um postulado do Valupi que resume tudo a que eu andei para aqui a escrever por aqui fora numa palavra: liberdade)

Monday, October 26, 2009

praga, bath, lisboa


Amsterdao, Greenwich Village?

Gosto muito de Berlim, juro, deste fervilhar de mundo, mas, toda eu provinciana, hei-de voltar, hei-de acabar a sentir-me em casa numa cidade bonita.

presa por ter cao, por nao ter, por ser gira e por desacato à autoridade


Quando conheci a Rita Rato eu ainda era militante da JCP e do PCP, activa, já a meio-gás, na FCSH, onde ela estudava e eu também. A batalha de campo que se tinha travado dentro do partido estava praticamente enterrada e eu própria só seria militante mais uns meses, saindo no dia em que o Avante achou por bem salientar os lados positivos do reinado de Estaline.


Desse tempo, tenho da Rita Rato a impressao de uma rapariga inteligente e bem-disposta, que nao hesitava em pensar pela sua própria cabeça e se dava bem tanto com as pessoas gratas à direcçao como às menos gratas, como era o meu caso. Dir-me-ao talvez que isto nao tem nada de extraordinário, mas na altura tinha e bastante.

Desde que saí do PCP, vi subir muita gente, incluindo muitos que foram capazes das maiores sacanices, a par de outros que nao deviam demasiado à inteligência. Também vi cair muita gente da mesma estirpe, que a contra-revoluçao também come os seus filhos.

E vi subir a Rita Rato que era, pelo menos quando a conheci, uma rapariga íntegra, inteligente e simpática que nao tinha medo de usar o cérebro. Infelizmente, começou o mandato com uma entrevista da qual tinha de se ter saído melhor, mesmo que a entrevista tenha sido ao Correio da Manha e eu conheça por experiência própria o que podem fazer das nossas palavras. Mas nao há desculpa para fugir com o rabo a uma seringa tao grave como os piores crimes do Estalinismo ou as violaçoes dos direitos humanos na China. Mais que nao seja por uma questao de respeito pelas vítimas.

Mas isso também nao é desculpa para ler da entrevista que ela disse que nao sabia que existiram Gulags, o que é fundamentalmente diferente de dizer que nao se sabe o suficiente sobre eles para fazer um comentário. Sao as duas graves, mas uma é ignorância e a outra é fugir com o rabo à seringa. Uma, permitiria aos senhores pintá-la de loura burra como andam por aí a fazer, a outra nao.

Se eu morasse em Lisboa, acho que tinha votado PCP para votar na Rita Rato, mesmo que a entrevista tivesse sido antes das eleiçoes. Na inteligência, na integridade, no potencial.

Entretanto, entre o Ricardo Araújo Pereira a enfiá-la numa gaveta de 'miúda gira', a boa sociedade portuguesa a chamar-lhe analfabeta ou negacionista e muito chocada porque no curso de Ciência Política nao dao a fundo os Gulags (se a boa sociedade portuguesa soubesse o que é ciência política, às vezes dava imenso jeito) e ataques complatamente disparatos como este, que nao se sabe exactamente ao que vêm, estao quase a silenciar a rapariga à partida, colando-lhe sobre a boca uma infinitude de etiquetas (será que era tao fácil se ela nao fosse mulher, jovem e gira?).

Na verdade, conhecendo Portugal, acredito bem que funcione. Mas é pena, para o país mais do que para ela ou o PCP.

Sunday, October 25, 2009

Outono em Amsterdão






Thursday, October 15, 2009

Amstersdam


A minha conferência de Amsterdao vai de vento em popa (até já tivemos de escolher um hotel novo e tudo) e mal posso esperar pela próxima quinta feira. Assim como soube que Barcelona nao ia ser cidade que me conquistasse o coraçao, assim o entreguei já sem cuidados a Amsterdao. Estamos com o programa de fim de semana muito cheio porque temos de andar muito nas ruas a encher-nos de ambiente, mas se tiverem assim uma outra sugestao imperdível, a malta considera.

Tuesday, October 13, 2009

a lei de rita


E a rapariga disse: "Quero a minha mae". E o universo disse: "Está bem. Pode ser em Amsterdao? Fica-me em caminho".

Friday, October 09, 2009

do medo (e da vergonha)


Agora, assim de repente ou despoletada por notícias tao trágicas como previsíveis, apetecia-me agarrar-lhe a memória e prendê-la ao papel. Devia contar esta história para aprender a fazer-lhe justica, uma justica que a maioria de nós nunca lhe fez, porque impaciente, porque cruel, porque preguiçosa. Talvez também porque nao sabíamos um como, ou pelo menos nao um como com o que conseguíssemos harmonizar o que somos (e, nao sei bem porquê, harmonizá-lo com o que éramos parecia uma prioridade). Nao era, claro.

(O mundo tenta educar-nos para a puberdade eterna e propaga frasesinhas feitas sobre como tudo o que fazemos deve estar em consonância com o nosso eu interior. O eu interior torna-se bitola e por isso inquestionável. Nao se questiona nem se constrói, acha-se, como o Brasil. Pois sempre vos conto que o eu interior que magoa os outros sem qualquer necessidade nao é um portento de honestidade modernista, mas um adolescente cretino. Mas olhem, dantes crescia-se, agora encontramo-nos, parece.)

Das mulheres da minha vida, nao há nenhuma cuja memória tenha tratado tao mal como a dela. Nisto, nao fui sozinha: usamos tao raramente um ser ou estar como ela em sentido positivo. Há os clássicos, o desmazelo, o desinteresse, a polícia secreta, a chantagem, a pequenez ocasional. E há o mal-amada, toda a minha educacao para o amor me preparou acima de tudo para nao ser a mal-amada, essa mulher metáfora a quem cresci a levar a mal (e a ironia, a ironia suprema de seguir vida fora a mal-amar alguém por ser mal-amado).

E foi assim que, quando os longuíssimos e chorosos últimos meses de uma relacao me tornaram a mim nessa mulher, e sendo-o continuei por ali fora, vários meses e cheia de convicçao, como se nao fosse mais esperta do que isso, foi assim que percebi que nao era mais esperta do que isso. As coisas para que precisamos de vinte e sete anos, francamente.

(Claro, comparemos, uns meses ou uma vida, certo (certo? sei eu lá), mas a verdade continua a ser a mesma. Eu nao cometerei o mesmo erro outra vez, acho eu. Ela às tantas tambem nao cometeria. E o que é um erro? E os erros podem ser os mesmos? E o dela foi um?)

Imagino desmontar um dia, como desmontei este, cada um dos fragmentos desta mulher que amamos todos como se por exclusao de partes, como se nao o merecesse a cada momento. Imagino sentar-me e por uma ordem a mil fragmentos, histórias mais e menos conhecidas, imagino pegar nas conhecidas e ver-lhes os bastidores, espreitar-lhes debaixo das saias. Enchê-las de um humano sem comentários e ver esse humano assumir a sua grandeza característica. Imagino pegar nas conhecidas e, imaginando-o, pego numa. Olho-a, viro-a de todos os lados e reconheco-lhe tudo o que esperava do conjunto.

Está tudo ali, sempre esteve.

Mas no próximo reencontro, as diferencas voltarao a parecer insuperáveis, ela voltará a parecer-me inalcansável, e é-o de certa forma, agora cada vez mais, agora que a memória comeca a despedir-se. Talvez exista alguma hipótese de salvar uma memória tao valiosa de uma mulher com quem tenho afinal tantas coisas em comum. Imagino um momento de comunhao que quebrasse, de um lado e de outro, barreiras. Imagino-me a crescer a ver esses muros cair e imagino poder fazer-lhe a justica que nunca fiz.

É utópico e provavelmente nunca vai acontecer. O meu eu mulher adulta às tantas nunca conhecerá o dela e o dela nunca se cruzará com o meu ( e poucas vezes tive tanto medo de algo tao provável). Mas talvez aconteca uma qualquer outra coisa, que abra espaco para o amor que lhe tenho e para uma forma, que as duas saibamos ler, de lho mostrar.

e tu ó maria nao escreves porquê?


A modos que nao tenho nada para dizer. Estou a contar os dias para Amsterdao (13), para Bruxelas e Antuérpia (34) e Praga (48). Tenho umas esperanças, assim muito leves, de ir a Viena no final do ano (e assim, numa só linha, fiz a minha existência parecer muito mais interessante do que é na realidade). Estou numa equipa nova de que gosto muito mas a fazer exactamente o mesmo, de que vou gostando cada vez menos. Numa Berlim Outonal muito bonita, de que vou gostando cada vez mais, mas também gostando mais com um gostar que nao se importava de partir, amanha, para o ano, um dia. E, finalmente alguma coisa de interessante, estou a rir-me e com alguma comichao nos ouvidos por causa deste vídeo e do stereo que lhe inventaram. Vao lá ouvir, com auscultadores.

Tuesday, October 06, 2009

links à terça


GPS Zen, por aqui.

lei da internet


É possível, partindo de qualquer pesquisa inicial, chegar a sexo com um máximo de três cliques. Acabo de experimentar enquanto pesquisava sobre Fudge, essa incomparável iguaria inglesa.

Lista de razoes para nao deixar Berlim

(um post em permanente procura de actualizaçoes)

- A minha casa (e se me cortam as árvores? E a casa linda em Bath? E um apartamento em Manhattan?)

- Os meus amigos (e estarao aqui no ano que vem? E os que o sao nao ficam para sempre? Nao pode ser até uma razao para partir, tê-los aqui? Mas e a vida social, a de todos os dias, todas as quartas, todos os fins de semana?)

- A Alemanha (tenho de ter mais Alemanha na minha vida de novo)

- A Komische Oper

- O Cake

- ...

Quem procura sempre encontra? O pior é esta lista estar em paralelo com outra que diz "muda-te, minha filha, que o mundo é tao grande". Sempre tive um lado de mim que queria partir e nunca tive medo de mudanças. Mas agora, de repente, há um outro lado que quer elaborar listas de razoes para ficar. E nao sei se é um lado acomodado ou apenas um lado que acha que nao ter medo de partir nao é razao suficiente para fazer as malas.

PS: Isso, claro, e o facto de o meu emprego nao estar na lista acima, onde já teve um dia lugar cativo.


Monday, October 05, 2009

hoping everyone's opera-going season is off to as great a start as mine


Podem-se chamar imensas coisas ao Outono e sao quase todas boas.

Friday, October 02, 2009

E você, está surpreendida pelo facto de o primeiro governo liderado por uma mulher e um homem gay ser conservador?


Olhe, nem sei como lhe diga, a modos que vai assim: Não, nem um bocadinho.

Thursday, October 01, 2009

Save the Date



Seguindo a lógica do trabalho, vem primeiro o "marque isto na sua agenda", depois o convite propriamente dito e ainda um lembrete uma ou duas semanas antes e, quem sabe, um desesperado e-mail de marketing. Isto ainda vai no adro, portanto: a 7 de Novembro, vou cozinhar publicamente, comida Portuguesa, talvez com um toque de Galiza, para uma coisa chamada Colorado Wedding. Se estiverem por Berlim, por acaso ou feitio, seria um prazer contar convosco.