Sunday, February 28, 2010

rapariga amordaça grilo falante II


Claro que já estou cheia de remorsos, mas a parte mais gira é que os meus remorsos são válidos quer ele me ignore, quer diga alguma coisa, quer a coisa seja positiva ou negativa. Uns remorsos emancipados portanto, totalmente auto-suficientes.

rapariga amordaça grilo falante


Acho que o pior é nao me poder esconder atrás de um 'foi mais forte do que eu'. Imagino que terá a sua conveniência termos tao pouco poder sobre as nossas próprias decisoes para o usar como desculpa.

Friday, February 26, 2010

mais um muito curtinho antes do fim de semana


Era só para citar este post da Helena, onde ela cita este meu post onde eu cito este post dela.Ouvi dizer que isto nao se deve quebrar correntes, que dá azar.

um aparte qu'isto é primavera


Eu sou de rapazinhos, se é que me entendem, mas outro dia toquei num homem a sério, assim de passagem, a meio de uma conversa, e ia apanhando um choque. Há ali alguma coisa, sempre vos digo.

(depois à tarde já cá venho tentar por um post de intervalo entre isto e o post ali de baixo, para a coisa ser menos abrupta)

o colo


Margot Kässmann, presidente do Conselho da Igreja Evangélica Alemã e bispa de Hannover, demitiu-se do cargo depois de ter sido detida por estar a conduzir embriagada (se querem ler sobre isto sigam para a Helena, que eu só para aqui estou por causa de uma frase). Na sua carta de demissao em que explica porque nao sente ter condiçoes para continuar (se Portugal fosse um país civilizado, iata, iata, iata, isso também é noutro post qualquer) acaba com esta frase fantástica: "Para terminar, algo que aprendi com outras crises: nunca se cai mais fundo do que nas mãos de Deus".

Eu, que vou sendo sem Deus, chamo-lhe amigos, família, montanhas do vale do Lima, Alvaredo, às vezes até lhe chamo sentido de humor, papel e caneta. Vocês nao sei. Mas nao se devia ter de viver sem esta segurança magnífica, esta certeza redentora. Torna-se tudo tao mais fácil quando conhecemos, no meu caso na medida do possível, no dela num absoluto que nem consigo alcançar, a fronteira possível do nosso abismo.

Tuesday, February 23, 2010

repescado para recém-chegados


Os posts deste blogue que desapareceram em Março de 2006 e que cobrem o primeiro ano e meio de Boas Intenções vão sendo reconstruídos muito devagarinho num blogue arquivo, o Boas Intençoes do Antigamente. Está lá tudo, embora sem imagens nem links e cheio de símbolos que tornam a leitura muito difícil. A cada aniversário vou prometendo recuperar a história da minha chegada à Alemanha, do Verão em Lisboa que se lhe seguiu, dos tempos em Inglaterra e dos primeiros meses de Praga, edito um mês completo e canso-me de substituir símbolos esquisitos. Por outro lado, quase sempre me aparece corrigir, alterar, um pequeno detalhe aqui, aquela vírgula, um erro horrível ou só uma metáfora gasta.


Mas hoje, e por exemplo porque é 23 de Fevereiro ou o Daniel pediu com jeitinho, repesco aqui este post:

Segunda-feira, Maio 09, 2005


A lei de rita

Acho o Murphy um tipo com uma lata descomunal. A tua torrada caiu virada para baixo,uma caganita de pombo foi-te cair em cima da cabeça à entrada de uma entrevista de trabalho, choveu nas férias que tinhas planeado há tanto tempo? Dantes, isso era azar.Agora é a lei de Murphy. Se puderes ter azar, terás azar. Nop, não há volta a dar-lhe. É preciso muita lata para pegar no velho azar de sempre e dar-lhe o nosso nome.

Mas nisto de lata ninguém me fica atrás, e nas partilhas o tipinho até deixou o melhor para os outros. Logo eu, em sincera e sentida homenagem à minha sorte, que implica tanto o amor como o jogo, que dita que os autocarros que passam uma vez por dia apareºam cinco minutos depois de eu perguntar, os meus brincos favoritos ainda estejam na casa de banho do restaurante, a minha mala perdida no autocarro me seja entregue em casa com dinheiro e tudo ou encontre cinquenta euros numa rua de Berlim, decidi baptizar a sorte. É a lei de rita. A sua formulação final é: "podes sempre ter uma sorte dos diabos".


PS: Já ao facto de eu ir começar a estagiar amanhã e estar a ver a febre a subir no termómetro, vou continuar a chamar azar.

posted by Rita Dantas @ 17:39 10 comments

rita beats murphy II


Anda pelo corredor, acho que desde domingo, um pionnais que caiu de um poster. Já o pisei imensas vezs de lado, ou na parte de cima. Se o Murphy soubesse, subscrevia já a lei de Rita (e agora com licença que vou ali pregá-lo na parede).

recomendaçao do dia II

(também podia ser 'adopte um velhinho II')







Nem o Sartorialist nem a sua romanceada versao portuguesa sao muito a minha cara, mas podia passar o dia inteiro neste blog. Também podia, olha, agora que falam nisso, mudar-me directamente para Nova Iorque.

Monday, February 22, 2010

adopte um velhinho



(do Ephemera)

frustrações de fim de semana


Já vos disse do jeito que me dava às vezes um blog anónimo?

Sunday, February 21, 2010

recomendaçao do dia


Hoje de manha, em vez de dormir as horas de sono que uma festa russa e as minhas atribulaçoes amorosas me tinham roubado (reparem como continuo com consistência a fazer de conta que acontece aqui alguma coisa de relevante), andei a investigar os mormons, por causa de um segredo do postsecret de hoje. Entao nao é que eles têm uma roupa interior sagrada, com símbolos protectores, que usam debaixo da outra? Estao a imaginar o conforto de vestir uma t-shirt debaixo do soutien? Googlar "garmies" ocupou bastante da minha manha.

Deixo-vos um bocadinho especialmente delicioso:


I remember getting my first garments right before my mission. I got about a dozen pair in different styles and fabrics so I could test them out and see which ones I liked the best. Every companion of mine had a different method of folding them but it was all done very reverently. Some would fold them into neat little squares and some into tight little rolls. Some kept the bottoms and tops separate, some rolled them together (which is what my first companion did so I got into that habit.) But we NEVER would fold them at the laundrimat. After I was married, I would do the laundry and then sit down on the floor to fold all the clothes. My new hubby saw me folding the garments on the carpet and had a huge fit. I didn't see what the problem was since I was folding them "reverently". I said "for laundry purposes, this is not merely the floor. This is a padded folding surface. And besides, I don't have room to spread out anywhere else." We argued about it, but he eventually got over it. What a stupid thing to argue about! Where and how your underwear is folded!


Mas do que eu andava à procura era do tal blogue referido no postal, pelo que fiz uma busca de blogues e encontrei um blogue absolutamente fantástico de quatro rapazes solteiros de Salt Lake City à procura da sua EC, a companheira eterna.

Todo o blogue vale a pena, mas aqui de novo alguns excertos de posts reveladores:

So I got on facebook a couple days ago and my friends Lyndsey from high school had posted on my wall and said she was living in Salt Lake now and wanted to hang out. I haven't seen here in almost 5 years and after looking at her pictures I was like, "dang she looks really good". I don't know what it is but some girls take a bit longer to develop and the girl you never noticed in high school ends up turning out to be a bombshell. Turns out Lyndsey served a mission and teaches seminary at Alta High School. Right off that's a pretty good resume for a future EC.


Now to my story. I recently moved into a new ward. The first couple of weeks were very promising--lots of single, more mature, young professional type ladies. This is exactly what I need. The first week there I noticed two girls in particular. We'll call them Autumn and Sheila. Autumn is very cute, seemed very sincere, and she's in a calling with a lot of responsibility (so she must be spiritual, right?).

Anyway it basically turns out that Michelle can't handle dating a Mormon guy who actually keeps his morals. She is a convert of only a couple years but has never been able to keep it clean with guys and even though she dates LDS guys she always ends up getting down with them Normally when I say "get down" it's in a Mormon way which is a just a way of saying a good heavy makeout. With Michelle a good make out just gets the tip of the iceberg. In other words it doesn't cut it at all. Believe me I know.. So being a 25 year old bachelor and knowing that I can't hold out on keeping my virtue that much longer I am completely OK with not dating Michelle.

So just to introduce myself I grew up in Utah county and attended a high school where everyone knew who the Non-Mormons were. After high school I went on a mission to Portugal and then did what every LDS kid does, I went to BYU to find my eternal companion. After 4 years of doing the provo scene and coming oh so close so many times I graduated and moved up to SLC to meet some older more mature girls...Because whenever someone fails to find "the one" in Provo the next best thing is Salt Lake. So here I am and after a year and a half I'm still looking. So life in SLC as young professional bachelor is a little different than down at the Y. But the experiences are all similar and girls are the same anywhere you go.

Amiguinhos, isto é um mundo. Googlem por aí fora que eu também. E se encontrarem mais coisas brilhantes partilhem comigo, que eu sou boa rapariga e levei-vos a estes rapazes.



Saturday, February 20, 2010

mas o que queria mesmo contar-vos era que...



...em Berlim, a Primavera começou hoje.

Tenho, de há uns seis anos para cá, este dom incrível de me aperceber sempre deste início. Partilhava de bom grado convosco o sumo desta minha ancestral sabedoria, mas é só uma mistura entre uma sensibilidade especial para perceber onde acaba o arrastar-se moribundo do Inverno e o sol que nasce é já um sol de princípios, de promessas, muito optimismo e uma arrogância zé-povinheira de quem sabe que, não só o contrário não pode ser provado, como a Primavera acabará um dia de chegar, provando as minhas previsões de forma inequívoca. Enfim, cada um ancora a sua auto-estima onde quer e eu tenho a mania que percebo de Primaveras.

Seja como for, a minha começou hoje, ao pequeno almoço. Foi na varanda, na companhia bem-humorada do Harald Martenstein, um senhor por quem ando de quatro. Se a quiserem partilhar, estão à vontade. Se prefirirem duvidar, esperem pela vossa.


enobrecer a política


(da dialéctica das ilusões)


Hei-de levar sempre a mal candidatos políticos que me garantam ser uma das suas maiores qualidades essa de não serem da política. Esse arrogante 'eu enobreço a política porque venho de fora', essa espécie de cruzada da sociedade civil, palavra mágica que expulsa os partidos da sociedade.

Levei-o a mal a Alegre, até porque no seu caso havia ali uma incongruência especial, não deixo de o levar a mal a Fernando Nobre. A política não se enobrece quando for ocupada por manifestações abnegadas daqueles que com ela não se identificam, enobrece quando alguém que a ela se junta faz da sua honra, dos seus valores, das suas convicções, dos seus príncipios e das suas prioridades alavanca de acção.

Quando um candidato se apresenta como vazio de ideologias, eu não o entendo como um receptáculo profundo onde posso projectar todos os meus sonhos e esperanças, entendo-o como isso mesmo: um vazio. E de vazios estou cheia, que querem.

Friday, February 19, 2010

os muçulmanos invadem-nos, ai que deu rei



Vale a pena, quando discutimos minaretes, mesquitas e escolas do Corao, o ódio aos nossos valores que andam a transmitir e a sua falta de diálogo com o resto da sociedade, ver mesquitas por esta Europa fora, para sabermos do que estamos a falar.
Amanha de manha hei-de vir enriquecer o meu post cum uma fotografia da escola corânica lá da rua, mas entretanto deixo-vos com esta galeria da revista do Süddeutsche Zeitung, que é um dos melhores produtos jornalísticos da Alemanha.

e para que tem mais que fazer que ler a enormidade do post lá de baixo e está com medo dos quatro que se lhe seguem


A more lighter take on quality journalism:



Um vídeo prático do Times sobre qual o melhor enchido para controlar um iPhone, e que também pode ser verdadeiro para máquinas de multibanco e outros desses ecrans sensíveis (ah, que saudades dos botoes). O senao é que por incrível que pareça têm mesmo de ir ao site para ver o vídeo.


Thursday, February 18, 2010

contributos que o bom jornalismo podia dar para uma melhor política (I)


1- Falar de Política


Os jornalistas de política portugueses tendem a saber de politiquice. Duvido que se consiga um lugar numa redaçao de política deste país sem conhecer todos os primos em terceiro grau de Armando Vara, pelo menos um ou dois querubins menores por querubim sénior do PSD e muitos detalhes de quarto de arrumos sobre a vida interna do CDS ou as propriedades do PCP (o Bloco que me perdoe, a frase vai comprida). Isto nota-se quando fazem entrevistas.

Mas depois de Educaçao, Finanças ou leis comunitárias nao percebem nada. Como tendemos a entender o mundo à semelhança dos limites dos nossos horizontes, pensam que sabem de 'política'.

Em jornalismo cultural isto seria perfeitamente inaceitável. Já imaginaram uma entrevista a um escritor em que cada segunda pergunta é sobre o adversário, as coisas de que o acusam, as estrangeirinhas dentro da editora e mais um ou outro boato? (agora estao-se todos a lembrar de uns casos desses. Pronto, há alguns, mas estao longe de ser a maioria).

Isto tem a ver também com uma concepçao que acredito ser fundamentalmente errada sobre o que é que vende. Peguemos na tal entrevista do i, feita pela Ana Sá Lopes, que nao anda cá desde ontem e que até percebeu que colocar a única proposta programática do candidato no título da entrevista era uma coisa inteligente.

Paulo Rangel propoe ensino profissional desde os doze anos em nome da igualdade de oportunidades e do fim de um ensino classista. A jornalista nao pergunta "mas nao lhe parece provável que exista uma muito maior tendência das classes baixas a seguir esta via?", "nao está preocupado com a tomada de uma decisao desta importância numa idade em que a infância mal acabou e todo um conjunto de capacidades estao longe de ser desenvolvidas? Sabe que há poucos anos com uma taxa de chumbo mais elevada que o sétimo justamente pelo fato de esse ser um ponto crucial no crescimento e no desenvolvimento da puberdade?" nem "considera portanto a Educaçao acima de tudo como um instrumento profissionalizante e nao como um início de cidadania?" ou, de forma mais provocatória "o que defende é portanto que um torneiro mecânico nao precisa de Filosofia para nada?" (desculpem, deixei-me levar).


Ela faz duas perguntas: "Nao tem medo que o acusem de ser um populista de direita" e "Isso é quase uma posição socialista...". E assim garantimos que a discussao nunca aprofunda, nunca passa da rama em que um lado chama populista e o outro responde com socialista. É uma lei de Godwin à jornalismo português: à medida que a conversa nao evolui em nenhuma direcçao, a probabilidade de discutir rótulos em vez de políticas mantém-se igual a dois (é portanto sobreproporcional, para o caso de ter de abafar algum desvio de discussao inteligente - eu sei, sacrifiquei a matemática à ironia).

Outros exemplo da mesma entrevista: Ana Sá Lopes, que de resto perde metade das perguntas em coisas completamente irrelevantes (Aguiar Branco sabia, o outro descobriu como, Durao foi informado?), nao quer saber o que pensa Paulo Rangel do pacto de estabilidade ou quais as medidas que o candidato sugere. Quer saber se o aprovaria (qual? um qualquer? nao interessa, nao é?). Nao quer saber o que pensa da política do Governo, quer saber se exigia a demissao do primeiro ministro.

Resultado: Paulo Rangel pode dizer os maiores disparates, esses sim verdadeiramente populistas, na maior das ignorâncias, que nao há contra pergunta, porque para esses nao se preparou ela. Tendo em conta as reacçoes dela na maioria das perguntas que sao sobre o programa, bem podia ter feito a entrevista por e-mail.

Um exemplo completo:

Que ruptura para a justiça?

Temos um problema de legitimidade e credibilidade que só pode resolver-se em sede constitucional, alterando até o equilíbrio de poderes - com maior peso do Presidente da República, que poderia presidir aos conselhos superiores, por exemplo (!). Temos de mexer na celeridade e só vejo uma forma: entregar mais poder aos juízes nos processos. Os juízes devem ter mais poder discricionário. E teremos até de reduzir o número de recursos. Estou a falar da justiça cível, a que toca aos cidadãos comuns: dívidas, heranças, acções entre empresas, providências cautelares. (toda a gente sabe que as providências cautelares, por exemplo, sao horrores de lentas e depois há intermináveis recursos, um drama)

Sabe que há muitas pessoas divididas entre apoiá-lo a si ou Aguiar-Branco?

Absolutamente fantástico. Dirao que a senhora nao tem de perceber de tudo, e é verdade. Mas pode preparar-se, que ainda nao é crime. Pode perguntar, ler, investigar, pedir ajuda. E pode acima de tudo, ser mais exigente consigo própria, com o seu trabalho e com o seu entrevistado.

Dirao também possivelmente que eu nao sou ninguém para explicar o jornalismo a essa senhora, que justamente nao nasceu ontem. E eu direi que estao enganados, porque justamente esse é o meu papel. Esta série de posts tem como tema os políticos e os jornalistas, mas se tivesse como tema antes a cidadania, entao começava por aqui - pela exigência.

breakthrough


Tenho uma regra de vida nova. Estou em pulgas para ir para casa testá-la (suponho que estejam a pensar como tenho tempo para isso tudo. É fácil, nao estou a pensar dormir. Estou cheia de medo de ter pesadelos com o Paulo Rangel) (ou com ele ou com a jornalista que o entrevista. Às vezes penso que era uma grande coisa que passassem a mandar jornalistas fazer as entrevistas que percebam de alguma coisa. Na Literatura e no Cinema escolhem às vezes uns tao excitados com despejar conhecimentos que mal deixam o autor falar, na Política vem depois esta gente, estagiários de uma meia idade confortável, que nao passam da rama politiqueira) (e com estes parêntesis todos, o focus perdeu-se. E era sobre regras de vida, o consumo, a beleza e a Arte).

leituras perigosas



Quando tinha treze ou catorze anos* li numa revista de gajas que seria excelente subir as escadas com as pontas dos pés, faria pernas bonitas ou nádegas firmes, ou ambas e duas ou nenhuma das ambas. Enfim, faria qualquer coisa. Entretanto esta semana, com o elevador do trabalho fechado para reparaçoes**, reparei que, quase a fazer vinte e oito, continuo a subir as escadas em pontas. Decidi ver como seria a versao normal e, quiçá, acabar com o disparate. Primeiro tentei a versao direita (grosseiro!), hoje escolhi uma assim ligeiramente de lado (mais confortável, mas potencialmente bizarro). Ainda nao estou convencida.

*na minha memória, li quase tudo o que já li nesta idade, mas é possível que esteja enganada - de qualquer forma antes da Montanha Mágica que só chegou aos quinze.
**quando um elevador é reparado durante uma semana inteira, reparaçoes com término solenemente anunciado ao minuto e dois senhores que se lhe dedicam a tempo inteiro, parece-me demasiado ligeiro chamar-lhe "avariado".

manifestaçoes de Deus


(uma recomendaçao muito comprida, para recompensar os leitores pacientes)

No dia dos namorados, efeméride que aliás é muito mais agradável sem namorado, podendo uma pessoa ignorá-la em plena paz de espírito, eu e uma grande amiga grega andámos uns quilómetros a digerir um jantar fabuloso, ao longo dos quais íamos discutindo os homens, as mulheres e os romances foleiros (ver este post). Foi mesmo antes de chegarmos à estaçao que descobrimos, entre a neve e o gelo, um cartao de cartolina cor de rosa a letra adolescente, decorado com imensos coraçoes vermelhos e rematado com um cordel para o pendurar ao pescoço. Dizia: "Deus está contigo". Pelo que, claramente, só podia ser um sinal.

Ontem, mais para a noitinha estava eu a discutir os meus dilemas amorosos com a minha mae num tom entre o "Deuzinho do meu coraçao, porque tinhas de errar o destinatário de tamanha seta?" e o "Pai, porque me abandonaste?" quando ela me mandou deixar de misticismos (a minha mae é muito boa nisto, também quando voltei de Roma muito dada a Igrejas me afiançou logo que nao me preocupasse, que aquilo me passava, como se eu tivesse apanhado uma constipaçao).

Hoje de manha vinha eu pela rua, armada do meu mais resistente misticismo, quando vejo mais um papel no chao. Deus estava a falar comigo outra vez. Depois da cartolina, um papel branco dobrado em quatro, escrito a vermelho. A mensagem era clara: Deus acha que estou com falta de batatas e de presunto, no que tem toda a razao. Também parece ser da opiniao que eu devia comprar batatas fritas, coca-cola e nutela, mas eu aqui fiz orelhas moucas, juntando sem hesitar a junk food a outras recomendaçoes divinas como o sexo antes do casamento numa pastinha intitulada "a considerar ao abrigo do livre arbítrio".

Mas o melhor de toda esta história (ou estavam à espera de que Deus se tivesse voltado a manifestar entretanto?) foi o momento em que descobri o que andava Deus a fazer quando trocou as setas e/ou os seus destinatários. Estava a recompensar os que lhe sao fiéis com homens nús. A história é tao boa que o perdoei logo. Afinal, se ele anda para aí a perdoar infinitamente, quem sou eu para me por com esquisitices?

Wednesday, February 17, 2010

mais eça e leis categóricas


Quando tinha uns treze ou catorze anos e queria começar a ler os Maias, a minha mae contou-me logo que era um romance sobre uns senhores que se amavam muito e afinal eram irmaos. E como me visse muito zangada, explicou logo que saber o fim nao fazia diferença nenhuma, que nao era um livro desses. E tinha razao, claro.

Acabo de descobrir uma boa formulaçao dessa lei no Tio Vânia, um rapaz que também anda a oferecer excelente Fassbinder: Um bom teste à qualidade de um livro ou de um filme é ver se se aguenta, conhecendo-se à partida o seu final. É por isto que todos nós amamos as tragédias gregas. Já conhecemos os enredos, mas o texto está sempre tão pleno de fascinantes e variadas complexidades, que a ânsia pelo final nunca tolda o contínuo raciocínio de ninguém; ficamos livres para apreciar.

Posto isto, vou à Wikipedia descobrir como acaba o tempo perdido, que estou curiosa e ainda tenho uns bons anos de leitura (milagrosa!) pela frente.

declaraçao de voto

(verde e provisória)


Trezentas e vinte cinco vezes Fernando Nobre antes daquele senhor que escreve uns versos fraquinhos e se posiciona pela sociedade civil, que isto dos partidos é tudo o mesmo e/ou pelo PS, conforme calha.

Lodaçal


Depois da Lei de Godwin (que dita a probabilidade de uma comparaçao ao Nazismo à medida que uma discussao continua) e da lei da Internet do Sascha Lobo (que dita que a probabilidade de, numa discussao sobre Web 2.0, alguém mencionar Obama), é também importante estabelecer que: à medida que uma discussao sobre política portuguesa avança, a probabilidade de uma citaçao de Eça aproxima-se de 1.

Ah, o optimismo português, esta capacidade única para encontrar na desgraça a oportunidade de lembrar o génio (claro que também podíamos ficar deprimidos a pensar no pouco que avançamos desde entao, mas enquanto os Sócrates e os Sol vao e vêm, Eça é eterno, o que nao deixa de ser um consolo. Eça forever, man).

PS: Brilhante acrescento do Daniel: Contudo, no caso de a discussão ser alimentada por políticos profissionais com mais de oitenta jantares de concelhias no currículo, julgo que prevalece uma variante dessa lei, em que a citação de Eça é substituída pelo relato, por parte de um dos intervenientes, do momento em que este «sentiu na rua» uma coisa qualquer. É evidente que a degradação da vida política portuguesa passa também por esta estranha vontade de «sentir na rua» (quantas vezes suja e mal iluminada), quando toda a gente sabe que, no recato do lar, há muito melhores condições para a prática da modalidade.

Friday, February 12, 2010

modern times


Ainda no campo da observaçao antropológica desinteressada e quiçá para vocês ficarem com a impressao errada de que acontece alguma coisa de excitante na minha vida amorosa, voilà o que vos tenho a contar destas coisas do dating moderno:

1) O novo cúmulo da aselhice casamenteira é propor paixoes blogosféricas e nao mandar o link.

2) Ainda no mesmo tom: outro dia um rapaz contou-me que só ia à internet no máximo uma vez por dia e eu perdi o interesse.

3) Outro dia, um americano contou-me finalmente quais eram as bases. Ainda nao parei de me rir.

4) Nunca tinha realmente saído com alemaes até 2009 e na verdade também nunca tive um namorado na vida com que tivesse "saído" antes (de resto o termo é um disparate, como o sao todos estes rituais - um disparate e uma tristeza). Enfim, o que vos ia mesmo contar é que soldados ingleses depois da segunda guerra descobriram uma grande diferença entre as mulheres alemas e inglesas: de umas era muito difícil arrancar um beijo, mas se conseguissem era por ali fora, as outras beijavam cada segundo rapaz, mas depois aquilo engonhava e nunca mais saía dali. Eu, claramente, vou pela primeira (e posso estar a confundir as nacionalidades).

5) A observaçao do avesso: os homens alemaes esperam sexo de um segundo encontro, mesmo se nunca nada aconteceu antes disso. Mas, e já aqui se nota a sua tendência doméstica, a necessidade do enquadramento do lar, oferecem-se sempre para cozinhar.


tentando perceber o face oculta (II)


Serviço público para emigrantes:

Pode-se fazer download do PDF do Sol de hoje aqui (tenho a certeza de que esta minha quebra dos direitos de autor está em sintonia com aquele bocado da democracia, interesse público, iata, iata, iata e eu juro que se eles me mandassem pagar mas tivessem uma ediçao digital, eu pagava).Nao dizem muito de novo, mas clarificam algumas coisas.

Thursday, February 11, 2010

que é para nao estranharem


Quando nao estou a escrever aqui estou a planear a visita dos meus pais e de todos os três irmaos da segunda geraçao (a minha família tem ciclos, como a emigraçao). Estou em pulgas, embora ainda falte mais de um mês.

Wednesday, February 10, 2010

conta-me como foi


Uma das 18 razoes para adorar ser uma rapariga solteira (para além de nao ter de ler artigos idiotas alusivos ao dia dos namorados) de acordo com a Cosmo americana:

7. You don't need to ask permission to go on a last-minute trip to Vegas with your girlfriends — or anywhere, for that matter.

Comments? No comments? No comments. Comments: Humpf. Se calhar recuperaram o artigo de uma ediçao dos anos 50. Ou daquela constituiçao portuguesa que substituímos em 76. Ou andam a ver demasiados episódios do Mad Men. Ou passam-se big time, como costuma titular a outra.

Tuesday, February 09, 2010

a tentar perceber, devagarinho, o face oculta I


Ando nisto há meses: metade dos ataques a Sócrates sao vis, outra metade é francamente idiota, pelo que parte de mim de vez em quando se deixa comover por alguns argumentos dos seus apoiantes - que nao desamparam a loja ao homem, que os argumentos sao maus, que o jornalismo é péssimo (nisto, as escutas presidenciais foram o melhor que aconteceu a Sócrates em muito tempo), que os casos sao antigos /infundados/irrelevantes.

Por outro lado, entre ataque e nao ataque há todo um mar de pequenos detalhes desagradáveis que ficam por desmentir, uma coincidência estranha atrás da outra e os seus defensores vao-se tornando cada vez mais bizarros, armados de um funcionarismo vagamento histérico.

Até chegar às escutas reveladas pelo Sol. O segredo de justiça nao precisa de mais quem o cante e eu acho a sua violaçao perigosíssima. Mas no caso em questao, nao só seu conteúdo e autenticidade estao longe de terem sido desmentidos, como se torna clara uma coisa, para mim, muito mais grave do que Sócrates querer controlar a TVI: o facto de que, se o quisesse fazer, havia boas possibilidades de o procurador-geral da República e o presidente do Supremo se estarem nas tintas.

Se este for o caso, a divulgaçao das escutas nao só nao é mau jornalismo como é uma obrigaçao de cidadania. É que o segredo de justiça só é válido enquanto existir uma justiça digna desse nome.

ruhiges winterwetter


3 curtas sobre a vida na Alemanha:


1. A newsletter do Tagesschau promete para hoje "tempo de Inverno sossegado" (ruhiges Winterwetter). Ou se calhar antes calmo, quieto. Os alemaes sao muito sérios, mas de vez em quando revelam o âmago romântico nestas pequenas coisas.

2. O tribunal constitucional acaba de declarar inconstitucional a regulamentaçao a forma de cálculo das subvençoes do Hartz IV, o mais baixo e básico dos subsídios de desemprego, nomeadamente as subvençoes para crianças. Entre outras coisas, num país onde a desigualdade marca desde muito cedo, discute-se o termo "mínimo para uma existência humana digna" (é só mais uma palavra, reparem) e se as necessidades básicas de uma criança serao só casa, comida e escola ou se também se lhe juntam o direito de comprar um livro, ver um filme, fazer desporto. Se também estes nao sao afinal igualdade de oportunidades. Estamos, mesmo num país onde a desigualdade por exemplo no acesso à universidade acaba por ser brutal, a quilómetros de Portugal e a milhas do discurso do "vai trabalhar, malandro".

3. Já um dos meus (ex?) jornais favoritos noticiava ontem assim a greve da companhia que gere o metro e os autocarros: "Agora também a BVG. Ao caos das avarias constantes dos comboios de superfície, junta-se agora a greve nos autocarros, eléctricos e metro esta terça-feira. De acordo com a vontade do sindicato DBB estes meios de transporte nao devem deixar os depósitos. Mas ainda há esperança para quem tem de ir de transportes para o trabalho: o sindicato Verdi nao participa no protesto". Suponho que tendo o tribunal mandado passear o "vai trabalhar malandro", ele se foi alojar no representante berlinense do tal "jornalismo de qualidade". Ainda bem, já nao passávamos sem ele.

Monday, February 08, 2010

a rapariga que queria dormir


(um conto urbano)



Esta última sexta feira à noite ia dormir. Eu tinha de dormir. Mas depois, frustrada com a história dos comboios e aliciada por convites em excesso, lá fui eu de sapatos de verao, sabrinas suicidas, à inauguraçao de um bar francês que afinal era de portugueses (dantes os portugueses faziam limpezas em Paris, agora abrem bares em Neukölln); do qual fugi para o Farbfernseher, que estava demasiado cheio e era todo ele de um cool sem grande conteúdo; para acabar a noite no Hotel Bar, a juntar ao Cake na lista dos meus favoritos (às vezes penso que devia dar-vos algumas pistas sobre Berlim, nao venham ler-me à procura de mais informaçao - a ser o caso: o Hotel Bar é fantástico).

No sábado acordei cedo contra a minha vontade e intençao, comprei o pequeno almoço (leiam em cada saída de casa uma tentativa encapotada de suicídio, as ruas estao todas cobertas de gelo) e fiquei à espera de uma encomenda que nao veio, cheia de sono e à espera de me vestir para apanhar a tal da carreira. Cheguei atrasada para o autocarro, com o qual fui a uma exposiçao com piada e que me deixou cheia de energias criativas (às vezes penso que devia dar-vos algumas pistas sobre Berlim, nao venham ler-me à procura de mais informaçao - a ser o caso: a exposiçao do Grosz está na Akademie der Künste). Tinha a desculpa perfeita para nao ficar demasiado tempo no autocarro, uma desculpa sob a capa de um negócio da China que tinha de ir fazer a Lichtenberg mas o autocarro, é o que dá sair com rapazes metáfora, levou-mea tal fim do mundo e exigiu um café em troca. Com o que bebi uma cidra, troquei histórias (escrever uma história, ou muitas, anotei, sobre o rapaz que trocou, duas vezes, aos 16 e aos 27, de família) e apontei umas dicas antes de seguir pelo frio até à brasileira mais linda, que achou o conjunto acumulado dos meus atrasos perfeitamente natural. Jantar, estes homens, aqueles meios de transporte, um Lassi, uns projectos e um abraço, que eu tenho de ir dormir. No caminho, os olhares de um tipo irritam-me tanto que saio do metro na estaçao anterior sem ver bem e passo os quinze minutos até ao próximo numa estaçao ao ar livre, um drive in a pelo menos menos oito. O que faz parte da história do dia porque quinze minutos de pelo menos menos oito sao pelo menos vinte minutos de menos dois e poderao ser até quarenta de mais três. Portanto uma hora, no vosso fuso metereológico. Tudo isto a ler o Proust e a andar de um lado para o outro (nunca perco tempo que nao o gaste a ler o à procura, tornando assim o tempo perdido que encontro na leitura da sua procura, estratégia de fino recorte, recomendo vivamente). E isto, no entretanto, a morrer de sono, que eu ando que nao durmo nada. Cheguei finalmente lá para as três a casa, enregelada até aos ossos, aqueci os maxilares com um bocadinho de roxo e deitei-me muito aconchegada com esperanças de nao acordar às nove da manha (aqui a copulativa a permitir recuperar o fôlego, o meu e o vosso).

Às nove da manha quando acordei vivíssima da silva ainda a minha vizinha nao me tinha dito nada sobre o pequeno almoço, fiz umas colagens, comprei umas botas de que nao preciso, lavei tapetes, vi filmes (jeux interdits, ainda uma sugestao do autocarro) e decidi deitar-me cedo, indo apenas dizer olá aos amigos que iam ver a superbowl. Mas, tendo saído de casa só às onze, cheguei no princípio do jogo, escolhi a equipa que mais me dizia, pus o meu nome na folha de apostas (joga-se o direito de cozinhar para todos sem fazer compras nem limpezas e com direito a uma masagem - a glória sem o suor, portanto) e claro que nao me fui embora a meio do jogo. Quando cheguei a casa às quatro da manha, depois de ter ganho o jogo, de que gostei bem mais do que esperava, e a aposta, claro que estava acordadíssima e nao me apetecia nada dormir. Mas era a minha última hipótese, as últimas três horas antes de me fazer à vida, o último fôlego do fim de semana que tinha guardado para dormir.

Com o que dormi as três horas, me esqueci de mandar a RFI acordar-me e ainda assim cheguei a horas, fresca como uma alface (debaixo daquelas três folhas de fora com muito mau aspecto). Deve ser uma hibernaçao ao contrário, mas nestes dias escuros e frios, ando que nao durmo nada. E tento, que vocês bem viram.

Friday, February 05, 2010

Thursday, February 04, 2010

ainda a mesma metáfora gasta


Mas depois às vezes ouvem-se as máquinas (muito) lá ao fundo.

Wednesday, February 03, 2010

à espera do comboio na paragem do autocarro



A grande questao é: o que fazer se vem mesmo o autocarro? Existe alguma possibilidade de que nos aproxime da estaçao ou será que nos leva para longe? E se andássemos, devagarinho, para a estaçao? E se nunca mais chegarmos, vamos ter pena de ter deixado passar o autocarro? Ou pensaremos ainda, na nossa infinita lucidez, que esta carreira passa a cada dez minutos?


(a fotografia, uma paragem para quem se está nas tintas para o autocarro, se existir um, é da Lisa Kereszi e estava inicialmente aqui, mas claro que também podíamos ver as coisas assim)

Monday, February 01, 2010

cantaril


Questionamos a escolha da emigraçao quando passamos a ter de procurar na memória o significado de palavras de todos os dias e nos apercebemos de que há anos que nao as vemos, nos esquecemos como cheiram e como sabem, de que mesmo a sua textura, normalmente a mais teimosa das (minhas) recordaçoes, nao basta de uma vaga memória.