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Tuesday, October 19, 2010

Postas de pescada (Deus sabe quantas serão) sobre a Alemanha e o debate da integração (a terceira)

As Crianças e os Jovens Turcos

Lendo o jornal e ouvindo notícias, lendo depois os estudos e comparando-os com aquilo que conheço do terrível e ameaçador bairro de Wedding, apercebo-me de como são cada vez mais ténues as fronteiras entre a verdade e a propaganda. Como casos isolados são transformados em bandeiras, problemas pontuais usados para provar tendências gerais, tendências graves ignoradas como se não existissem, como exemplos positivos que nao encaixam na narrativa são renegados para segundo plano, dificultando a sua multiplicação. Para quem fale alemão, recomendo ignorar este post e ir directamente para esta tabela genial , da qual provêm a maioria das estatísticas que vou utilizar.

Começando pelas crianças e jovens, que é um caminho como outro qualquer:

O que se diz: As escolas com uma maioria de alunos estrangeiros são más escolas, onde reina a violência, o ensino é dramaticamente pior e os professores não sabem o que fazer perante a falta de respeito dos alunos. Aumenta o racismo contra os alemães por parte das minorias turcas. Há alunos que são vítimas de violência grave no caminho para a escola, ou no próprio recreio, só porque são alemães (diz-se por exemplo neste artigo do FAZ, que consegue a proeza de não nomear uma escola, uma cidade, um número (de onde vêm os milhares de que fala o artigo? Ela está a citar exactamente o quê?) ou ainda neste artigo do Zeit, bastante mais equilibrado).


A realidade: Os professores que iniciaram esta discussao sobre o racismo contra os alemães descrevem a coisa assim - tanto os alemães (com dinheiro) como os turcos e árabes educados (e com dinheiro) deixaram as zonas maioritariamente não alemas de Berlim, deixando escolas com uma grande maioria não só de estrangeiros mas também de crianças cujos pais não têm dinheiro nem educação. Estas crianças, para as quais à partida existem muito poucas oportunidades (consultar por exemplo os estudos Pisa ou da OCDE sobre a permeabilidade do sistema de ensino alemão e a forma como contribui para a reduzida mobilidade social), estudam em escolas onde estao em maioria. No recreio, gozam com as minorias e por vezes tornam-se violentas. Como minorias contam não só os alemães ou os turcos não religiosos mas também um clássico, os bons alunos, independentemente do seu grau de religiosidade ou da sua nacionalidade. Nao vos lembra nada?

É evidente que é grave que crianças, quer sejam nossas quer deles, tenham medo de ir para a escola ou de andar na rua. Mas não vejo como poderia a forma de agir aqui passar por outro caminho que não a educação de toda a comunidade contra o racismo e a discriminação - afinal, o racismo contra os nossos não é pior do que o nosso contra esse mítico "outro", não há racismos piores e melhores.

Por outro lado, acho difícil decidir se isto é um muçulmanos=violência ou um pobreza=violência, uma ligaçao nao poucas vezes estudada e provada. Sobre este assunto foram encomendados vários estudos pelo Ministério do Interior alemão e por um instituto em Niedersachsen, os dois com resultados semelhantes: nem os jovens emigrantes turcos demonstram detestar os alemães (pelo contrário, a maioria saúdaria um número maior de vizinhos alemães) nem a atitude dos jovens turcos face a temas como a violência religiosa ou política, o Estado de Direito e o autoritarismo difere grandemente da dos jovens alemães.

Vale a pena falar também sobre a questão da língua e da qualidade das escolas nos bairros problemáticos de Berlim e no resto da Alemanha (mas tendo em conta que a imprensa nacional toma sempre Berlim como o caso mais extremo, vamos ficar por aqui).

As crianças turcas falam alemão umas com as outras, pelo menos no meu bairro. É um alemão fraquinho, mas o alemão das outras crianças pobres do bairro não é muito melhor, apesar de ser a sua língua materna. Se discuto com algum alemão as dificuldades de, um dia, falar só português com os meus filhos, eles reagem sempre chocadíssimos face à possibilidade de eu deixar passar essa oportunidade - porque é que o Português é um trunfo e o Turco um impedimento? Deviam os pais turcos falar alemão com os filhos, deixando a segunda língua para muitos anos depois? Quanto ganharíamos e quanto se perderia neste processo?

Muitas escolas, motivadas pela competição na obtenção de recursos, começaram a tentar criar ofertas específicas para estas crianças mais ricas (menos pobres pode ser mais correcto), turmas com Deutsch-Garantie, a garantia de que todos têm um nível elevado de alemão. Por si, estabelecer turmas diferentes para graus diferentes de conhecimento não é nenhuma novidade, é prática corrente em muitas escolas portuguesas, mas onde está aqui a mobilidade? Que programas têm estas escolas para os restantes alunos, para garantir que também eles poderão conseguir o nível de alemão necessário? Os guetos dentro do gueto podem ser uma solução? Fazer turmas de bons alunos ajudará a combater a discriminação? Salvaram-se aqueles?

E o que temos para oferecer às crianças turcas que conseguem quebrar a barreira e acabar a universidade? Um estudo recente demonstra que muitas, quando atingem um determinado nível de formação e querem empregos compatíveis, não têm alternativa senão voltar à Turquia.

Entretanto, um bocadinho de luz ao fundo do túnel: uma brochura do Senado berlinense sobre escolas e projectos que funcionam. Caminhos possíveis, muitos e diferentes, firmemente ancorados na comunidade.

É que nunca há só um caminho. E também por isso é grave que Merkel, ao volante de um país que nunca teve uma estratégia concertada para lidar com a imigração, garanta assim do pé para a mão que um dos modelos não funciona.