7 de Outubro de 2009

so fucking wrong



[post integralmente roubado no beco dos prazeres]

5 de Outubro de 2009

da amizade

Apresento um dos homens da minha vida a uma grande amiga. Quando ele se vai embora, ela fica a praguejar, a injuriá-lo, a ameaça-lo de morte por tudo o que ficou lá atrás. Repito-lhe que está tudo resolvido, que somos bons amigos, ela ignora-me. Não posso jurar, mas acho que ouvi falar em castrações.

agenda

3 de Fevereiro de 2010. Campo Pequeno.



[de bilhete comprado]

2 de Outubro de 2009

a solução


[no a beautiful revolution recordado por Menina Limão]

1 de Outubro de 2009

curtas ou ensaio para títulos de posts que nunca vou escrever

este blog afinal não encontrou uma casa

este blog anda a tentar convencer-se que cheirar a outono não é razão suficiente para ficar deprimido

o regresso continua programado

este blog é apolítico e por isso não se pronuncia sobre a senilidade do presidente

este blog voltou a ter um ataque de alergias quase um mês depois de achar que já só voltavam na primavera

todos os dias são maus para ver nascer uma borbulha, mas uns são piores que outros

este blog viu mais uma casa e até acha que só podia dedicar ao negócio do restauro

este blog acha que há horas demasiado curtas e que sabem a pouco

este blog devia estar a dormir zzzzzzzzzzzzzzzzzz

29 de Setembro de 2009

este blog encontrou uma casa

perco o sono nas contas de cabeça, avaliações, nas propostas, eventuais contra-propostas, spreads, taxas euribor. faço figas enquanto espero por um telefonema, sonho acordada com uma cozinha de janelas grandes, um quarto cheio de luz e uma varanda para ler nos finais de tarde.

valores seguros

28 de Setembro de 2009

preparar o regresso

© Kenny Louie

amanhã não sabemos

© Robert Clyde Anderson

O mundo vira-se de pernas para o ar e percebemos que as ansiedades não são mais do que manias, que a vida é para ser engolida em golfadas, que só interessa o presente, que é aproveitar enquanto podemos, um chorrilho de frases feitas que fazem sentido porque a vida, o dia-a-dia, o lufa-lufa do escritório, as chatices com o chefe, e os desamores têm que ser relativizados quando o choque nos faz questionar tudo. Só temos hoje, amanhã não sabemos.

23 de Setembro de 2009

é de manhã que se começa o dia

© Sarah Maingot

"As nossas sombras respiraram juntas.
A nossos pés as águas do rio dos acontecimentos deslizavam quase em silêncio.
As nossas sombras respiravam juntas e com elas tudo ficava resguardado."

"Diz, será que não vamos realmente encontrar-nos nunca mais?"

Nós dois ainda, Henri Michaux

[e o meu começa a roubar um poema daqui, com o devido agradecimento]

22 de Setembro de 2009

este blog está podre de cansaço

mas muito, muito feliz.

20 de Setembro de 2009

dias assim ii

Leio Bolaño para tentar perceber a euforia em torno do autor chileno, oiço os dois últimos cd de arctic monkeys de modo compulsivo como um dia ouvi bird ou cohen, mas por razões diferentes, mudo de rotinas, de ruas e destinos, passo o tempo a pensar nas casas que vi há dias imaginando como seria a vida num e noutro lado e na estranheza que seria viver num prédio amarelo com vista para o rio.

18 de Setembro de 2009

regresso



muito tempo depois e num dia de emoções fortes.

16 de Setembro de 2009

este blog está a precisar de novas memórias

Ser mulher de ideias fixas e com uma fantástica memória para coisas inúteis dá muitas dores de cabeça e gera ansiedades absolutamente desnecessárias. Hoje quando abri a agenda percebi que passou um mês e que tenho o mesmo vestido preto da noite em que me tentaram ensinar as constelações, as tais que não aprendi a nomear porque só tenho memória para coisas inúteis.

15 de Setembro de 2009

este blog está a precisar de shots de adrenalina

© Stephane Coutelle

"Há dias em que sobe em mim, como que da terra alheia à cabeça própria, um tédio, uma mágoa, uma angústia de viver que só me não parece insuportável porque de facto a suporto. É um estrangulamento da vida em mim mesmo, um desejo de ser outra pessoas em todos os poros, uma breve notícia do fim."

Livro do Desassossego, Bernardo Soares

14 de Setembro de 2009

agenda

10 de Dezembro. Campo Pequeno.



[com bilhete na mão]

ao almoço roubei um poema iii

© Hedi Slimane
No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.
Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

Tal vez consumirá la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.
Pablo Neruda

9 de Setembro de 2009

qual filme de terror

regressar a lisboa com a cidade pejada de cartazes do santana lopes não é necessariamente uma coisa boa.

parrallel lines

© Sarah Maingot

não me conformo que tenham substituído as velhas carruagens com janelas de guilhotina por compartimentos hermeticamente fechados onde se respira o ar gélido e saturado que sai por umas frinchas rente aos pés, que não me deixem encavalitar nas janelas, uma nesga aberta por onde fazia sair a cabeça e os ombros, quase sempre em esforço, a velocidade que não deixava respirar, o ar engolido depois em golfadas com a cara virada para trás, não me conformo que não limpem as janelas, que do outro lado do vidro a paisagem não parece mais do que um esboço desfocado do que podia ser, que me enfiem em comportamentos higienicamente disfarçados, onde fumar é proibido e onde não posso sequer abrir a porta para fumar um cigarro sentada nos degraus.

"I'm worried I'll forget your face"

e sem aviso o meu ipod deixou de responder ao meu comando, por 15 longos minutos imaginei-me a sofrer de tremores de privação, na ressaca deste cornerstone.

8 de Setembro de 2009

ainda a magia da montanha

"- Os contrários - disse Naphta - podem conciliar-se. Só o meio termo e a mediocridade são inconciliáveis."

A montanha mágica, Thomas Mann

hoje não ii

Pega no telefone e liga para o escritório, diz-lhes que não vou, conta-lhes como me vesti de negro por mim. Enquanto ligas eu despacho o banho, visto qualquer coisa ligeira, calço as havaianas pretas para não destoarem do luto e desço à cidade. Hoje não, diz-lhes que estou de luto porque morri em ti e isso continua a doer-me, diz-lhe que o médico que receitou sol e rostos felizes, eu entretanto já sai, máquina fotográfica a tiracolo, já vou a caminho da cidade ainda a meio gás. Vou fotografar as ruas, as pessoas, vou fazer exercícios de luz, aberturas de diafragma, vou fotografar o rio e os corpos que se espreguiçam ao sol da manhã, vou embrenhar-me nas vielas, fotografar os miradouros, encher a lente de crianças, de mulheres gastas pela vida, vou fotografar os casais de namorados, os yuppies no seu passo apressado, os miúdos de skate, as miúdas que ensaiam as primeiras pinturas, vou fixar a vida como ela é para me lembrar que nem sempre é a preto e branco. Hoje não. Pega no telefone e liga para o escritório…

da paixão ii

Castrop deixou-se arrebatar pelos ares do Carnaval, pelo ponche, pela mistura de champanhe com Borgonha, e lá pediu um lápis a Clawdia. Ela chama-lhe bourgeois, humaniste et poète, pergunta-lhe porque demorou tanto tempo, não o leva a sério e diz-lhe que vai partir. Ele declara-se. Ela parece ficar indiferente. E esta é a parte que não percebo. Como pode uma mulher ficar indiferente a um homem que lhe quer sentir o odor da pele da rótula, que lhe fala da sua cápsula articular e do seu óleo lúbrico ou da artéria femoralis?

"Para mim, isto é como um sonho, sabes, estarmos aqui assim sentados – comme un rêve singulièrement profond, car il faut dormir très profondément pour rêver comme cela... Je veux dire: C’est un rêve bien connu, rêvé de tout temps, long, éternel, oui, être assis près de toi comme à présent, voilà l’éternité."

A montanha mágica, Thomas Mann

7 de Setembro de 2009

da paixão

© Rankin

"Pois que era um inebriamento que tinha o fim em si mesmo e ao qual nada parecia mais inoportuno e abominável que a sobriedade. Oferecia resistência a impressões que pudessem atenuar o seu efeito, rejeitando-as para se preservar por inteiro. Hans Castorp sabia, e chegara mesmo um dia a mencioná-lo, que a senhora Chauchat não parecia muito bonita quando vista de perfil; ficava com um ar rígido e um aspecto envelhecido. Que ilações tirava então? Evitava fixá-la de perfil, fechava literalmente os olhos quando por acaso a encontrava, ao perto ou ao longe, nessa posiçao que lhe desagradava. Porquê? A razão deveria ter rejubilado com tão feliz oportunidade para se fazer valer! Mas o que se pode exigir de um..."

A montanha mágica, Thomas Mann

6 de Setembro de 2009

dos sonhos

acordo com hans castorp sentado junto aos meus pés. tem um termómetro na mão e insiste comigo para que tire a febre. obriga-me a pôr o termómetro por baixo da língua. continua sentado na cama e disserta sobre a conferência de krokowski sobre o amor. fico com a sensação que não tinha percebido nada. é então que acordo.

5 de Setembro de 2009

há festa na aldeia

imagino as velhas sentadas em bancos desdobráveis dispostos junto ao muro que rodeia a praça, sentadas com as mãos encavalitadas no colo, imagino as moças e moços, aqui só se podem chamar assim, que dançam em passo corrido ao som da banda, olhos brilhantes, respiração ofegante, imagino as crianças, as mãos ainda pegajosas do algodão doce, em correrias desenfreadas e sem destino à volta dos pares, a cara suada, o cabelo colado à testa, os miúdos por detrás da igreja, os primeiros cigarros fumados a medo, as primeiras cervejas compradas às escondidas, os bandos de raparigas sentadas na escadaria, sob olhar atento das mães, a sonhar com o primeiro beijo, a pensar no fim dos amores de Verão, e os velhos à porta do café, copo de vinho na mão, sentados por afinidades, as mesmas que os sentam lado a lado durante as tardes no largo dos correios enquanto a aldeia vai passando pela avenida.

united colors

o gato branco corre atrás do pássaro negro como carvão, o pássaro pára em frente à água azul e deixa-se envolver por uma sapatada do gato branco que sem as unhas de fora parece querer abraçar o pássaro.

do vento

Há festa na aldeia, a música ouve-se ao longe, a espaços regulares, quando o vento, que faz estremecer as janelas e põe os pinheiros dançar dançar lá fora, dá uns segundos de descanso.

4 de Setembro de 2009

Recebo um email da agência em que me fazem saber que acabaram de receber uma proposta para a 'minha' casa, aquela que decorei enquanto atravessava a cidade de uma ponta a outra, e eu sem conseguir tomar uma decisão, sem tempo para ir ver outras possibilidades, sem paciência. Acho que já disse que esta coisa de procurar casa me chateia de morte. Não deixo de achar estranho que uma casa que está para vender há quatro meses tenha de repente duas pessoas interessadas. Reencaminho o email para a pessoa que me tem acompanhado nestas andanças. Do alto da sua sabedoria responde-me: ‘É como os homens! Se for mesmo para ti, vai saber esperar!...” Não podia estar mais de acordo.

3 de Setembro de 2009

weeeeeeeeeee

É altura de mandar o mundo as urtigas, emborcar umas jolas e esquecer que há dias demasiado longos, pelo caminho deitar conversa fora, dar umas gargalhadas e receber mimos. E amanhã é sexta-feira.

2 de Setembro de 2009

casa arrumada

[montagem com fotografias de Sarah Maingot e Stephen Lewis]


A mobília já lá está, toda arrumada nos devidos lugares, pelo caminho ainda tive tempo para mudar a sala para onde inicialmente era para ficar o quarto, assim, com o quarto virado para as traseiras, sempre posso dormir mais sossegada e o mais certo é acordar com o sino da igreja, o que sempre me pode transportar de vez em quando para outros lugares. Dispus as estantes, arrumei os livros, a secretária, os roupeiros, distribui as fotografias, escolhi os sítios onde ficarão as que ainda me falta imprimir, coloquei a cama junto à entrada do quarto, deixei uma jarra com flores na estante pequena que fica por baixo da janela da sala de jantar, arrumei as cadeiras à volta da mesa, fiz a cama com o edredão branco, as almofadas de cor forte, arrumei a roupa de casa dividida por cores no armário alto do hall, coloquei o candeeiro de pé junto ao cadeirão de leitura junto à janela do quarto... e com tudo isto, estaciono o carro à porta do escritório, depois de atravessar a cidade de uma ponta à outra, logo a seguir à hora do almoço, com filas de trânsito de hora de ponta, quando de facto havia uma hora de ponta, e com tempo para mobilar e decorar uma casa inteira. Estaciono o carro à porta do escritório, fecho e porta e penso que talvez seja hora de ligar de novo para a imobiliária...

da procura ii

Eu estava com um feeling que à terceira era de vez. E sai de lá com vontade de dar pulinhos e fazer a escritura já amanhã. Diz-me a prudência que talvez seja melhor ver mais uma ou duas.

agradecida

Jamal: Come away with me.
Latika: Away where? And live on what?
Jamal: Love

Foto daqui

É só para dizer que estou imensamente agradecida ao King por me ter deixado ver on the big screen os filmes que perdi em 2008. E perdi muito, como um magistral Slumdog Millionaire. Agora vou ali trabalhar um bocadinho que alguém tem que ganhar a vida.

31 de Agosto de 2009

ao almoço [quase] roubei um poema

© Stewart Shining


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão ...Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo...e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas nunca mais fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
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--------------------------------------------------------
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário Sá Carneiro

30 de Agosto de 2009

the end is near

volto a cair na tentação ao som de fiery furnaces, enquanto leio pessoa e suspiro por uma brisa. as janelas abertas e não corre nem uma aragem. não é um queixume, não é um lamento, é apenas a constatação do quanto gosto das noites de verão, de como gosto que se prolonguem madrugada dentro, com um livro e a música no limite para não acordar os vizinhos, enquanto acendo mais um cigarro, deixo que o fumo se misture com o cheiro de terra molhada que vem lá de fora. the end is near. é aproveitar o verão enquanto dura.

limpar a vista

Edward Norton fotografado por Satoshi Saïkusa

ou a pergunta que se impõe depois de ontem à noite: onde param os homens giros de lisboa?

29 de Agosto de 2009

um certo grau de loucura

começo a notar uma certa propensão para falar sozinha, não conversas inteiras ou monólogos imensos e maçadores, antes frases curtas, ríspidas, imperativas, como quem disciplina uma criança pequena. talvez esteja a pôr ordem na casa. um certo grau de loucura não será, no entanto, de menosprezar.

27 de Agosto de 2009

TPC

eu devia saber que reagir com o coração na boca e o sangue a ferver nas veias só podia dar disparate.

[agora vou ali arranjar uma sebenta para escrever isto umas cinquenta vezes]

26 de Agosto de 2009

ainda [a]gosto

Atravessar a ponte a meio da tarde, ainda que em direcção contrária à praia, ver as esplanadas cheias de turistas e gente desocupada deixou-me com um ligeiro espírito hans castorp. amanhã talvez faça gazeta.

do trabalho

"É que em relação ao trabalho nutria o maior dos respeitos, não obstante sentir que o mesmo lhe provocava um leve cansaço."

A montanha mágica, Thomas Mann

25 de Agosto de 2009

da procura

© Phil Poyter

Sejamos honestos. Dificilmente haverá actividade mais aborrecida que procurar uma casa. Bendita seja a tecnologia que nos poupa uma trabalheira desgraçada, sites à mão de semear, cheios de casas e casinhas, demasiadas casinhas, ali todas encadeadas e devidamente documentadas. Bem melhor do que andar de jornal na mão, a marcar visita atrás de visita, sobe escada, desce elevador, desilusão atrás de desilusão. O que as novas tecnologias não nos poupam é o disparate desta gente que pede mundos e fundos por casas mal engendradas, metros quadrados onde mal cabe uma cama, já para não falar num sofá, cozinhas a querer passar por kitchenettes enfiadas dentro de armários com duas portas, sim é verdade, havia uma para a mostra. Encontra-se de tudo em duas horas de pesquisa, salvam-se as gargalhadas, perante o ridículo e o desplante desta gente que põe à vista de todos casas onde não se percebe como vive gente, atulhadas de tudo, com móveis a cair, azulejos por todo o lado - como alguém ainda restaura uma casa e põe azulejos em todas as divisões?! - , de um mau gosto geral, com preços absolutamente exorbitantes: 140 mil euros por 40 metros quadrados? E o pior é que, para quem como eu tem dificuldade em decidir entre dois pares de sapatos, a decisão entre milhares de casas, algumas com um pormenor ou outro que não são maus de todo, será um pesadelo. Talvez juntando as janelas da sala da Ajuda, à casa-de-banho da Amoreiras, com a cozinha da Graça e o quarto de Alvalade, se conseguisse alguma coisa próxima do imaginado. Em duas horas de pesquisa guardaram-se duas com potencial. Haja tempo e paciência para marcar visitas.

doce

Com formigas a sair debaixo das teclas do portátil, sem que eu percebo como lá foram parar, hoje só posso escrever palavras doces.

23 de Agosto de 2009

corpo

© Hedi Slimane

Corpo, lembra-te não só do quanto foste amado,
não só das camas onde te deitaste,
mas também daqueles desejos que para ti
brilhavam nos olhos abertamente,
e tremiam na voz - e algum
obstáculo casual os frustrou.
Agora que tudo está no passado,
quase parece como se também àqueles
desejos tivesses sido dado - como brilhavam,
lembra-te, nos olhos que para ti olhavam;
como tremiam na voz, para ti, lembra-te, corpo.

Os poemas, Konstandinos Kavafis

21 de Agosto de 2009

ao almoço roubei um poema ii

© Miles Aldridge

De um de teus pátios ter olhado
as antigas estrelas,
do banco da sombra
ter olhado
essas luzes dispersas
que minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o odor do jasmim, da madressilva,
o silêncio do pássaro a dormir,
o arco do saguão, a humidade
- essas coisas talvez sejam o poema.

Jorge Luis Borges, Fervor de Buenos Aires

keep on fooling them

Ali estamos os dois a falar de viagens, Índia, Roma, Berlim, Nova Iorque, Praga, os destinos que cumprimos e os que nos faltam cumprir, passamos ao trabalho e às responsabilidades e às saudades do tempo de meninos. Ser grande é uma seca e não há outra maneira de pôr a questão. Voltamos atrás muito tempo e dizes que não mudaste desde os tempos da escola, que só o discurso se refinou, talvez tenhamos aprendido qualquer coisa nos bancos da faculdade, não mudamos, mas agora já não há o canto, nem a relva onde curávamos bebedeiras e fumávamos ganzas, como não existem as tascas no final da rua, agora há salas de reunião, gente engravatada e com um sério. Estamos nesta conversa e percebo que pela primeira vez encontro alguém que pensa o mesmo que eu, não sei porque me admiro, uma frase destas só poderia vir de um de nós. Somos uma fraude, cada um à sua maneira, rimos muito, recriamos a cara séria dos nossos interlocutores, de quem nos ouve como se de facto percebêssemos alguma coisa do que dizemos, e perguntamo-nos durante quanto tempo conseguiremos continuar a enganá-los. Mas não somos só nós, talvez sejamos apenas os únicos a ter consciência, os outros limitam-se a ser uma fraude sem o saberem, continuando inchados na sua existência oca, rimos da forma como quem nos rodeia se vê a si próprio, como olha o mundo, as suas vidinhas tristes, como se acham importantes e agem como se tudo o que fazem fosse essencial para a salvação da humanidade, como se fossem encontrar a cura para a sida ou guardassem o segredo para paz do mundo, como não percebem que tudo é tão inútil e fútil e vão e frívolo. Talvez por isso não percebam que nós somos uma fraude. É aproveitar enquanto dura, qualquer dia somos desmascarados a meio de uma reunião, de uma conversa, de uma apresentação. Aí levantamo-nos, agradecemos e saímos a dar gargalhadas. Até lá… keep on fooling them

20 de Agosto de 2009

encontrei-me num filme do Woody Allen

Agora não sei se chore se ria. Por enquanto tem ganho o riso.