Keith Richards

Não sou leitor nem de biografias nem de autobiografias, não me interessam. Mas não consegui resistir a este “Life” de Keith Richards (Theoria, 2011: do razão da não tradução do título só a editora poderá avançar as suas ignaras razões).

Li boas recensões mas não é por isso que acolhi o livro. O homem é um ícone, tudo isto é só rock n’roll mas eu gosto. Depois, realmente, o texto está interessante, ritmo e conteúdo, como o homem tem olhado o mundo. Nas últimas semanas tenho lido muito pouco. E por isso estou ainda no segundo capítulo, na chegada à puberdade, em Dartford, tendo deixado para trás uma crua e eficiente visão da Inglaterra pobre do pós-guerra, a reconstruir-se. Não é só o kiff, the riff, e o livro vale(rá) bem mais por isso.

Há poucos dias lembrei-me dele no meio das inúmeras conversas que tentavam preencher o gélido e longo velório do meu pai. Um familiar, atento e querido, a perguntar-me, com cuidados de jurista pois “não vão os diabos tecê-las”, se eu estou certo do que aqui escrevi. Sim, totalmente, na medida do que foi anunciado, disse-lhe. E, mas isso não lhe disse, está tudo no Richards:

“… a minha avó Eliza … foi eleita vereadora [trabalhista] … e em 1941 tornou-se presidente da câmara de Walthamstow. Ascendeu … na hierarquia política. Vinha de uma família de trabalhadores de Bermondsey, e praticamente inventou os serviços de assistência à criança em Walthamstow. Um espírito verdadeiramente reformador. Devia ter um feiti[o]zinho tramado. Tornou-se presidente da Comissão para a Habitação numa das freguesias que tinha um dos maiores programas de fomento à habitação social do país, e a Doris [mãe de Richards, nora de Eliza] sempre se queixou de que era tão austera que não permitiu que ela [e] o Bert recebessem um apartamento da câmara depois de se casarem: recusava-se a dar-lhes prioridade na lista de espera. “Não te posso dar uma casa. És a minha nora.” (48)

Realmente, é só rock n’roll mas eu gosto …

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Concurso de blogs

O Aventar lançou um concurso de blogs. Trata-se de votar nos melhores blogs portugueses num conjunto alargado de categorias. Serve para conhecer (ou lembrar) uma série muito alargada de blogs, centenas deles repartidos por 30 categorias a votação. Justifica a visita.

Uma chamada de atenção especial para a categoria “Melhor Blog Estrangeiro de Língua Portuguesa” onde está aberta a votação ao Blog da Gorongosa. E, já como bloguista interessado, apelo aos clis no És a Nossa Fé!, um blog no qual participo.

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Amanhã inaugura individual de André Almeida e Sousa

Um desafio, para quem possa comparecer.

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Três artigos sobre o Acordo Ortográfico: a resistência continua

Um belo artigo de João Pereira Coutinho publicado na “Folha de São Paulo” que transcrevo, tendo-o encontrado no Delito de Opinião:

“Começa a ser penoso para mim ler a imprensa portuguesa. Não falo da qualidade dos textos. Falo da ortografia deles. Que português é esse?

Quem tomou de assalto a língua portuguesa (de Portugal) e a transformou numa versão abastardada da língua portuguesa (do Brasil)?

A sensação que tenho é que estive em coma profundo durante meses, ou anos. E, quando acordei, habitava já um planeta novo, onde as regras ortográficas que aprendi na escola foram destroçadas por vândalos extra-terrestres que decidiram unilateralmente como devem escrever os portugueses.

Eis o Acordo Ortográfico, plenamente em vigor. Não aderi a ele: nesta Folha, entendo que a ortografia deve obedecer aos critérios do Brasil.

Sou um convidado da casa e nenhum convidado começa a dar ordens aos seus anfitriões sobre o lugar das pratas e a moldura dos quadros.

Questão de educação.

Em Portugal é outra história. E não deixa de ser hilariante a quantidade de articulistas que, no final dos seus textos, fazem uma declaração de princípios: “Por decisão do autor, o texto está escrito de acordo com a antiga ortografia”.

A esquizofrenia é total, e os jornais são hoje mantas de retalhos. Há notícias, entrevistas ou reportagens escritas de acordo com as novas regras. As crônicas e os textos de opinião, na sua maioria, seguem as regras antigas. E depois existem zonas cinzentas, onde já ninguém sabe como escrever e mistura tudo: a nova ortografia com a velha e até, em certos casos, uma ortografia imaginária.

A intenção dos pais do Acordo Ortográfico era unificar a língua.

Resultado: é o desacordo total com todo mundo a disparar para todos os lados. Como foi isso possível?

Foi possível por uma mistura de arrogância e analfabetismo. O Acordo Ortográfico começa como um típico produto da mentalidade racionalista, que sempre acreditou no poder de um decreto para alterar uma experiência histórica particular.

Acontece que a língua não se muda por decreto; ela é a decorrência de uma evolução cultural que confere aos seus falantes uma identidade própria e, mais importante, reconhecível para terceiros.

Respeito a grafia brasileira e a forma como o Brasil apagou as consoantes mudas de certas palavras (“ação”, “ótimo” etc.). E respeito porque gosto de as ler assim: quando encontro essas palavras, sinto o prazer cosmopolita de saber que a língua portuguesa navegou pelo Atlântico até chegar ao outro lado do mundo, onde vestiu bermuda e se apaixonou pela garota de Ipanema.

Não respeito quem me obriga a apagar essas consoantes porque acredita que a ortografia deve ser uma mera transcrição fonética. Isso não é apenas teoricamente discutível; é, sobretudo, uma aberração prática.

Tal como escrevi várias vezes, citando o poeta português Vasco Graça Moura, que tem estudado atentamente o problema, as consoantes mudas, para os portugueses, são uma pegada etimológica importante. Mas elas transportam também informação fonética, abrindo as vogais que as antecedem. O “c” de “acção” e o “p” de “óptimo” sinalizam uma correta pronúncia.

A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos; faz-se, como muito bem perceberam os hispânicos e os anglo-saxônicos, pela partilha da sua diversidade. E a melhor forma de partilhar uma língua passa pela sua literatura.

Não conheço nenhum brasileiro alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Fernando Pessoa na ortografia portuguesa. E também não conheço nenhum português alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Nelson Rodrigues na ortografia brasileira.

Infelizmente, conheço vários brasileiros e vários portugueses alfabetizados que sentem “desconforto” por não poderem comprar, em São Paulo ou em Lisboa, as edições correntes da literatura dos dois países a preços civilizados.

Aliás, se dúvidas houvesse sobre a falta de inteligência estratégica que persiste dos dois lados do Atlântico, onde não existe um mercado livreiro comum, bastaria citar o encerramento anunciado da livraria Camões, no Rio, que durante anos vendeu livros portugueses a leitores brasileiros.

De que servem acordos ortográficos delirantes e autoritários quando a língua naufraga sempre no meio do oceano?”

No Expresso também Pedro Mexia publica um bom texto sobre o assunto (que encontro no Blog à Portuguesa)

Antiga Ortografia

Fulano escreve “de acordo com a antiga ortografia”, diz o aviso que acompanha estas crónicas. Eu agradeço que o “Expresso” me permita a objecção de consciência face ao chamado Acordo Ortográfico, e percebo que indique quem segue ou não as novas regras, para evitar confusões; mas suspeito que esta fórmula foi inventada por alguém que pretende colar aos dissidentes o vocábulo “antiga”, como se nós escrevêssemos em galaico-português. Como se a língua que a maioria dos portugueses ainda usa se tornasse por simples decreto “antiga”: antiquada, decrépita, morta.

Eu não sou pela “antiga ortografia” por caturrice. Estou contra o “acordo” porque me parece uma decisão meramente política e económica, sem verdadeiro fundamento cultural. Os legisladores impuseram aos falantes uma “ortografia unificada”, que, dizem, garante a “expansão da língua” e o seu “prestígio internacional”. Mas a expansão da língua passa por uma política da língua, que Portugal, por exemplo, não tem tido, ocupados que estamos em fechar leitorados no estrangeiro, em aplicar uma abominável terminologia linguística nas escolas, em publicar um lamentável Dicionário da Academia, em expulsar Camilo dos currículos enquanto o substituímos por diálogos das novelas. Quanto ao prestígio internacional, lamento informar que foi o sucesso económico, e não a “língua de Camões”, que transformou o Brasil numa potência.

Não é este “acordo” que vai trazer expansão e prestígio ao português. Contenta uns “acadêmicos espertos e parlamentares obtusos”, como escreveu um colunista brasileiro, e alguns editores, que têm bom dinheiro a ganhar com esta negociata. Mas é difícil imaginar que alguém acredite que vem aí uma “unificação da língua” só porque se legislou uma “unificação da grafia”. Um brasileiro continuará a falar uma língua muitíssimo diferente do português de Portugal, diferente em termos de léxico, de sintaxe, de fonética. Um português, com um exemplar do Acordo debaixo do braço, bem pode perorar em Iraguaçu, que alguém lhe continuará a perguntar “oi?”, pois não percebeu metade. E isso não tem problema algum, a “lusofonia” não vale pela unidade mas pela diversidade, pelo facto de haver um português europeu, africano, americano e asiático. E ninguém é dono da língua: nem os brasileiros por serem mais, nem os portugueses por andarem cá há mais tempo, muito menos uns académicos pascácios que dicionarizaram “bué” e “guterrismo”.

É significativo que o próprio “acordo” reconheça o fracasso do projecto de “unificação a língua”. Dadas as flagrantes diferenças entre o português e o brasileiro, os sábios são obrigados a admitir a existência de duplas grafias, uma cá, outra lá [África, para estes iluministas, é paisagem]. Pior ainda, introduzem uma “grafia facultativa” que estabelece como termos lícitos tanto “electrónica” como “eletrónica”, “electrônica” ou “eletrónica”. O linguista António Emiliano deu-se ao trabalho de enumerar em livro os erros, contradições, imprecisões e dislates desta lei iníqua. Leiam-no. E não digam que ninguém avisou.

A minha recusa deste “acordo” não é casuísta nem temperamental. Não se trata apenas de não gostar de ver os espectadores transformados em bandarilheiros “espetadores”; de não perceber como é que os habitantes do “Egito” não são “egícios”; de ficar estupefacto com o “cor-de-rosa” com hífen e o “cor de laranja” sem hífen; de prever os imparáveis espalhanços de um “pára” do verbo “parar” que perde o acento e talvez o assento. É isso mas é mais que isso: eu discordo veementemente do critério fundamental do “acordo”: a primazia da fonética sobre a ortografia.

É verdade que todos falamos antes de sabermos ler e escrever, mas quando aprendemos essas competências sofisticadas interiorizamos uma língua diferente da falada, que nalguns casos nem tem exacta correspondência fonética mas que se liga a uma memória histórica e cultural. Quando aprendemos a ler, fixamos a forma gráfica das palavras, uma forma que memorizamos e que nos acompanha a vida toda, de modo que nunca mais lemos letra a letra, mas reconhecemos de imediato uma grafia aprendida há muito, “antiga”, sim, muito antiga. A ortografia não é uma transcrição fonética, nem podia ser, dadas as variantes do português falado. Ou nas pronúncias regionais. Como escreveu Emiliano, não vamos criar uma “ortografia do Alto Minho” só porque a pronúncia de Caminha é diferente da pronúncia de Cascais. Ou de Curitiba.

E não me digam que são pouquíssimas as palavras alteradas: procure quantas vezes neste jornal aparece ação, ator, atual, coleção, coletivo, diretor, fato, letivo, ótimo, e repare que são algumas das mais usadas. É por isso que o cavalo de Tróia das “consoantes mudas” deve ser denunciado. Em primeiro lugar porque não são mudas coisíssima nenhuma: abrem as vogais precedentes, e numa língua danada por fechar vogais. Depois, porque não são inúteis, ajudam a distinguir termos homógrafos e indicam a etimologia de palavras afins. Fazem sentido, ao contrário do “acordo”.

Dizem os acordistas que a nova ortografia “simplifica” e “facilita a aprendizagem”. Toda a gente sabe o que significa “facilitar a aprendizagem”, e os resultados que isso deu no ensino. E se a intenção é “simplificar”, que tal escrevermos todos em linguagem de telemóvel? Por mim, continuarei antigo.

E um outro artigo sobre o assunto, de Bagão Félix. O desconforto continua, a discordância também.

A língua, escrita ou falada, é a expressão viva da evolução social. Particularmente num mundo sem fronteiras, com novas formas de comunicação e de relação.

O português – a 5ª língua nativa mais falada – não foge a essa regra.

Mas uma coisa é a absorção de modificações que se vão verificando, outra é a sua imposição por decreto. O Acordo Ortográfico é o produto não de uma evolução natural e impregnada na prática, não de uma necessidade de defesa e promoção linguísticas, mas tão-só a imposição de iluminados, que o Estado avalizou, menosprezando posições diferentes e ignorando a voz do povo soberano.

O Acordo é também uma expressão de submissão às maiorias populacionais. Neste caso, do Brasil. Esquece-se que uma língua se enriquece na diversidade e se empobrece na “unicidade” por forçada via legal. Claro que há sempre prosaicas justificações mercantis (interesses?) em sua defesa e há quem vá ganhar com tudo isto.

Imagina-se o Governo britânico a uniformizar a grafia de vocábulos escritos nos Estados Unidos ou Austrália (v.g. “realise”/”realize”, “center”/”centre” ou “labour”/”labor”)? Ou o castelhano a adaptar, por lei, a escrita de certos vocábulos na Argentina?

Pequeninos geograficamente, teimamos em ser pequeninos patrioticamente. Dizia sabiamente Fernando Pessoa: “A palavra escrita é um elemento cultural, a falada apenas social”.

Adivinhem o que se quer dizer com “não me pelo pelo pelo de quem para para desistir”? Na rejeitada e antiga grafia escreve-se: “não me pélo pelo pêlo de quem pára para desistir “

Já não nos chegavam os agravos à nossa língua nas tv e textos públicos, eis que os tornam agora obrigatórios. Os “supônhamos” e “houveram” de braço dado com os “suntuosos” e os “contrassensos”.

Enfim, a lógica da batata. Ou da ” (H)ortografia”.

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A lusofonia e o acordo ortográfico segundo António Cabrita


Uma bela entrevista de António Cabrita à revista brasileira “Pausa”. Sobre ele próprio. Sobre poesia, poetas, cinema. A situação das áreas culturais em Moçambique e Portugal, etc. Tudo isto a propósito das suas frenéticas publicações (o Cabrita acaba de publicar três livros) em particular o romance “A Maldição de Ondina”, publicado no Brasil.

Sublinhando esta recomendação para que se leia a entrevista aqui transcrevo a visão do António Cabrita sobre dois temas que têm sido recorrentes aqui no ma-schamba: a lusofonia e o acordo ortográfico.

Está muito bem o Cabrita.

 

O que você acha do acordo ortográfico e da chamada lusofonia.

O acordo não me ofende nem me arrefece. Como dizia o Deleuze há que gaguejar na língua para que a língua no seu próprio interior se torne bilingue, isto é, cito-o, o multilinguismo não é apenas a posse de vários sistemas mas antes de tudo a linha de fuga ou de variação que afecta cada sistema impedindo-o de ser homogéneo. Isto que sublinho é o que me importa no manejo de uma língua, é o que sempre foi feito por alguns e é o que continuará a ser feito, e isto não há acordo que o impeça. Agora, há o aspecto político da questão e aí é claro que o acordo existe para favorecer a indústria do livro brasileira, o resto são balelas.

Quanto à lusofonia manifesto reservas. Não sei como é no Brasil mas em Portugal fala-se em lusofonia como um efeito hipnótico que levaria logo a uma bacalhauzada entre os falantes de português. Para Moçambique é um termo controverso, associado ao neo-colonialismo. E de facto é preciso perguntar que sentido faz falar em «lusofonia» num país em que só oito por cento dos seus habitantes é que tem o português como língua mãe. Mesmo que o português seja a língua oficial, os códigos e as performances da língua aqui são distintas, verificando-se um crescendo de contaminações das línguas nativas e do inglês na textura do português, assim como a presença de deslizes semânticos que introduzem variações quer de significado, quer sintácticas, que tornam a sua tradução uma história de diferimento e não um rastro contínuo. Aparentemente falamos a mesma língua, mas os códigos e protocolos da língua e os valores dos seus significados são tão díspares que nos sentimos num perpétuo território estrangeiro, o qual está minado pelos equívocos e mal-entendidos com que a aparência de uma língua comum, transparente, tornou bélico o terreno.
A lusofonia é uma cortina de fumo para que as embaixadas possam não falar entre si de coisas concretas, urgentes e necessárias. Com o álibi dessa suposta base identitária faz-se de conta que está tudo bem para não se investir em nenhum tipo de comprometimento sério.

É como Prémio Camões. Em 2001 fui ao Brasil, tinha acabado de lançar Inferno, que escrevi em parceria com a Maria Velho da Costa, a quem fora atribuído o prémio há 2 anos atrás. Fui a várias editoras brasileiras tentar vender esse e outros livros dela. Ninguém sabia quem ela era. O eco do Prémio Camões não tinha saído das embaixadas. É patético. Não entender a inocuidade disto é grave, desajustado e redutor. Por isso a lusofonia lembra-me a deselegância de estar a martirizar uma noiva, na véspera do casamento, falando-lhe obsessivamente do antigo namorado que ela faz tudo para esquecer.

O imaginário lusófono é como o sentimento da queda no Paraíso bíblico: há um misto de culpa, de rejeição e de tremenda atracção pela Eva. O aparente decoro da Eva não nos deve deixar impotentes, e convém voltar a fecundá-la, com a diferença de que agora pode ser ela a tomar as rédeas do jogo, tendo o papel activo na função. É preciso aceitar a troca das posições no leito para que a coisa volte a animar. Enquanto não se entender esta coisa primária, a lusofonia não passa da simulação das erecções de um anão ao espelho. O Eduardo Lourenço já disse tudo sobre esta matéria no seu devido tempo, mas como os políticos portugueses não têm mais nada a oferecer senão retórica agarram-se à miragem.

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A desonra

O jornal Público ecoa a discussão que partiu deste meu postal. Cita-o e refere-me. Nisso, e presumo que sem malícia, comete uma incorrecção pois diz-me indignado. Não o estou, não só porque me repugna a actual ideologia (e concomitante praxis) do “indignismo”, algo que já referi no blog. Mas porque o caso não me indigna. Irrita-me, uma diferença que não é só de palavras. Irrita-me a pequena esperteza? Nem tanto, irrita-me a ignorância “lusófona” que nela habita.

Os leitores habituais deste ma-schamba poderão compreender o desconforto que sinto. Blogo há oito anos. O ma-schamba tem sido também a minha catarse, a catarse da minha indignação (agora sim) diante do governo traidor de Sócrates e daqueles que o apoiaram, mesmo que a todo o custo. E da minha indignação diante do impacto na sociedade portuguesa, tão apoiado e potenciado pela comunicação social, da perversa pantomina bloco de esquerda.

Obscuro cidadão fico abalado ao ler hoje no jornal o meu nome misturado com a gente e as iniciativas do Bloco de Esquerda. É um momento mau da minha vida. Uma verdadeira desonra.

Que eu poderia ter evitado. Teria bastado o silêncio.

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O incómodo

Razões pessoais têm-me afastado do blog. Hoje por email e sms avisam-me que o Expresso e o DN ecoam os meus postais sobre Jorge Braga de Macedo (explicitamente aqui, implicitamente aqui ) e o contador sitemeter acusa um inusitado número de visitantes. Sobre isto um esclarecimento e um lamento.

O texto sobre JBM insere-se num abordagem ao actual ressurgimento lisboeta da ideia “lusofonia”, da qual ele é paladino através do seu slogan “lusofonia global” e motriz através da sua aparente recuperação para pensar a política externa pelo actual governo. Entenda-se, a ideia não presta. Por mais que possa parecer sedutora a gente cultural e politicamente inepta. Ou seja, nada disto tem a ver com a recente colocação de JBM na EDP, a qual desconhecia quando escrevi aquele último postal, explícito.

E ainda o lamento. Os textos foram publicados e como qualquer outro deles sou responsável mas não proprietário. E como tal são ecoados por quem os queira ecoar. Acontece que chegam milhares de leitores via as ligações que Daniel Oliveira lhes fez, tanto no Expresso como no Arrastão. E isso incomoda, sinto-me como se estivesse com sarna. Não por razões ideológicas ou políticas. Mas porque esse bloguista é um canalha, um vil caluniador. Já em tempos aqui narrei da minha desilusão por não ter tido a coragem moral de lhe dar a sova que merece. O texto de Daniel Oliveira no Expresso é um monumento de hipocrisia, “É-me desconfortável falar da vida familiar de qualquer pessoa. Até porque odeio que falem da minha.” diz. O verme, que não me conhece, cruzou Maputo acusando-me de actos etica, deontologica e, acima de tudo, intelectualmente inaceitáveis, o de criar barreiras aos meus colegas portugueses que querem trabalhar em Moçambique – para alguns isso poderá parecer pouco, pois para mim é acusação inaceitável -, intentando apoucar-me e prejudicar-me no meu meio, onde vivo, onde trabalho, onde me socorro. E fê-lo, ainda que diga não gostar de falar de família, apenas por torpes razões familiares, pois reproduzindo a ingratidão, a desonestidade e a perfídia de um seu cunhado, também ele bloguista, também ele antropólogo. Também ele assim.

Confesso que prefiro o amor paternal, mesmo que induzindo actos algo criticáveis, de Jorge Braga de Macedo a esta vilania, a este canalha, cheio de patois moralista mas imbuído da mera solidariedade de parentela.

Entretanto há milhares a ler aquilo. E os bandoleiros que com ele vão. Pobre gente.

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Aquilo que não se consegue combater

Interessante a coluna de José António Lima no “Sol” desta semana: o que não se consegue é reduzir o mundo autárquico, as clientelas partidárias. Grande redução dos rendimentos das famílias, austeridade, venda das empresas públicas, críticas generalizadas às estratégias fiscais das grandes empresas. Mas no poder descentralizado, na III República, não se toca. Nem o austero governo, nem a indignada oposição. Está tudo dito.

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O texto de Nataniel Ngomane sobre a noção de “lusofonia”


O texto de Nataniel Ngomane sobre “lusofonia” publicado hoje na edição moçambicana do jornal “Sol”. Para justificada leitura. (Recordo que pressionando as imagens elas engrandecem, permitindo a leitura).

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Nepotismos idiotas

Imediatamente abaixo falei de “nepotismos idiotas”, referindo-me a uma execrável e indigente exposição, uma acção de propaganda disfarçada de “arte contemporânea” que aqui colheu o desagrado generalizado. Pela sua mediocridade e pelo seu conteúdo. Um trabalho, rasteiro, de Ana de Macedo.

Ora isto assim não vale nada. E já não tenho idade para meias palavras. O que se passa é que aquela “intervenção artística” foi apresentada em Maputo com o patrocínio do Instituto de Investigação Científica e Tropical. Aqui vivo há quinze anos, tenho acompanhado, primeiro profissionalmente e depois como amador, a vida cultural da cidade e nisso também as realizações chegadas de Portugal. Nunca esse Instituto havia patrocinado alguma intervenção artística. Até agora. Acontece que a autora do escolar trabalho, Ana de Macedo é filha de Jorge Braga de Macedo, presidente do referido IICT.

Acontece ainda que o ex-ministro ressurgiu na praça pública no último ano, primeiro como “coordenador” de um falhado projecto de “diplomacia económica” (os 4 grandes cérebros foram incapazes de conjugarem as extremas inteligências), depois como aventado presidente de um super-instituto público (qualquer coisa como o IAPMEI e o AICEP unificados, algo tramado para tramar Portas, acho), afinal, e pelo menos por enquanto, ressuscitado como comentador televisivo, dedicando-se a explicar o que fazer em termos de economia e finanças públicas. A explicar o presente e a aventar um futuro.

Em todos esses âmbitos convirá recordar – e não só pela gigantesca crise em que o país se deixou cair – que Jorge Braga de Macedo é um homem que nas suas funções públicas (estatais) faz favores à sua filha. Convirá lembrar isso para pesarmos bem o valor das suas palavras e a lisura dos seus procedimentos. E para nos lembrarmos de que o que o país precisa, também, é do fim dos nepotismos. Destes, idiotas. E também dos outros, mesmo que inteligentes.

Deselegante, este postal? Deselegante é gastar o dinheiro do Estado, mesmo que meros “amendoins”, a pagar coisas às nossas queridas filhas, umas viagenzitas, umas estadias, um curriculozito, umas realizaçõezitas.

E deselegante é tanbém as estações televisivas chamarem esta gente (e pagar-lhes) para discutir o presente e o futuro do país. Pois é destes que temos que nos livrar. Dos papás e das filhotas. E do resto da família alargada.

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O “Sol” e a noção da “lusofonia”

Há algum tempo deixei aqui eco de uma conferência em Maputo dedicada à comunicação social em português, organizada pelo jornal “Sol”, na qual foi vastamente abordada a noção de “lusofonia”. Sobre isso exprimi o meu desconforto e desencanto (o que até desagradou a patrícios amigos ou conhecidos, distraídos quanto ao assunto, quero crer). Sei agora que o “Sol”, avisadamente, abordará o assunto através de três artigos de opinião, a serem publicados nas três próximas edições, a primeira das quais hoje mesmo. De Nataniel Ngomane, Nelson Saúte e Perpétua Gonçalves, ao que julgo exactamente por essa ordem. Pela qualidade dos intervenientes, e também pelo espaçado da publicação, julgo que será um bom momento para aclarar algumas ideias sobre o assunto. Que é muito mais “preenchido” do que o mero “falar português” que alguns julgam.

A ver se lhes passa o rancor. E se nos deixamos, nós, portugueses, de verborreias e nepotismos idiotas. Que inibem. A compreensão dos contextos e a interacção.

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Fé Sportinguista (2)

O Sporting da Ilha de Moçambique e Ser Sócia, dois pequenos apontamentos que acabo de deixar no És a Nossa Fé!.

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Fé Sportinguista

Uma “proposta irrecusável”, um convite que me honra. E logo logo, pressuroso, a aceitar. E assim acabo de integrar o plantel do novo blog, coisa de 2012, o Sporting. És a Nossa Fé!. O meu primeiro treino, ainda antes desta conferência de imprensa de apresentação, já aconteceu. Quem quiser ir ver (ler) está convidado. Até porque “este ano é que é!”.

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Recuerdo do Café Pinguim

Este pinguim existe cá em casa desde que tenho memória. Bicho de enorme resistência, nunca muito visível, suportou viagens, obras, evitou quedas, danos, caixotes do lixo, sei lá mais o quê, saíu de Lourenço Marques, deve ter andado pela Beira moçambicana, passou por Lisboa onde permaneceu pelo menos 4 décadas, e hiberna agora na portuguesíssima Beira Alta. Presumo, pela inscrição, que fosse destinado em primeiro lugar, a turistas sul-africanos e a ave uma alusão ao Pinguim do Cabo. Alguém ajuda? Em qualquer caso, a porcelanosa recordação tem enorme categoria.

mvf


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Na Garaginha

Fotografia de José Cabral

[O texto de hoje na edição do Canal de Moçambique, coloco-o já pois vou sair do acesso à internet]

 

NA GARAGINHA

 

A Garaginha é casa de clientes fiéis. Mesmo que ancorada no centro da cidade rica, como se bem visível, muitos a estranharão e mais ainda assim dita por este nome. O qual ganhou por estar assente no que terá sido a garagem da vivenda que lhe dá guarida, a da sede da Organização Nacional de Professores, ali ao fundo da Eduardo Mondlane quando esta, chegada lá do Alto Maé, desagua na Julius Nyerere, avenida símbolo e até apelido do Maputo internacional, desafogado. Para mais, e como se para assinalar tal convívio, a Garaginha está ali paredes meias com o Mundo´s, restaurante da cidade cosmopolita onde abundam as mesas partilhadas entre expatriados e a burguesia nacional, nisso se fruindo boas pizzas e cerveja cara, festas de crianças pejadas de prendas e baterias de ecrãs gigantes para o rugby dos vizinhos e o futebol inglês de todos.

Pois plantada mesmo ali ao lado a Garaginha é mostra do quão distraídos vão afinal esses símbolos, apenas estereótipos, que insistem em tentar construir uma cidade espartilhada, zonas bairros feitas hierarquias do ter e nisso – acham alguns – do ser, linhas fronteiras ao convívio, à partilha, à discussão. Basta entrar e partilhar copos de cerveja (bem) mais baratos, algum petisco de ali mesmo e ainda amendoins e castanhas, esses que os lestos vendedores de rua, incessantemente penetrando na esplanada, vão impondo aos clientes. Para quem lá chega pela primeira vez a surpresa impõe-se, não pelo quotidiano tão normal que lá decorre mas pelo ambiente, afinal tão diverso daquilo a que os apressados chamam, assim julgando-o ser, “a Nyerere”. Pois é, basta aquela decisão do entrar, cruzar o portão, e a tal “nyerere” perde as aspas com que o olhar cabisbaixo as armou.

Com um preâmbulo destes poder-se-á julgar que ali penetrando se encontrará uma “fauna social” especial ou, pelo menos, típica de um qualquer tipo. Nada disso, apenas um Maputo maputo, tardes arrastadas por quem as pode ou tem que arrastar. Fins de tarde mais barulhentos, empregados em verdadeira azáfama rodando com bandejas de “brancas” e “pretas”, exigências da clientela, nisso esta tornando-se ruidosa, querendo lavar-se da poeira do horário de trabalho e assim perfumando-se para abraçar as famílias no torna-casa ou, pelo menos, aqueles ou aquilo que delas façam as vezes, mesmo que meros colchões sejam. Funcionários, professores (sim, afinal é o seu centro social), empregados, boémios, pois claro, que destes nunca há falta por crise, hoje ou amanhã gente das letras ou que vislumbramos na tv, aquele que tem fotografia no jornal. Conversa corre de mesa em mesa, quem por lá chega raramente, como eu, vai vendo o trânsito do convívio, que há grupos sim mas há também um sentir de clientela comum, tudo aquilo que faz, verdadeiramente, uma casa.

Foi tudo isso que vi retratado, com fidelidade e gosto, nesta semana passada. Enquanto a grande cidade preparava o Natal a Garaginha fez acontecer um como se natal local, uma festa da família dali. Num fim da tarde, já deixada a noite acontecer, coisa do breu necessário para o acontecimento, foi mostrado um diaporama – aquilo que a gente envergonhada de falar português vai chamando slideshow – sobre a casa e sua gente. Quatro clientes daqueles mesmo, os de mesa fixa, decidiram celebrar a casa que os acolhe e que eles, também, vão fazendo.

Assim quatro fotógrafos, dois profissionais (José Cabral e Luís Basto) e dois amadores (Zé Tomaz e Runar Hartvigsen, este um norueguês por cá que tem sabido conhecer a cidade em que vive e não apenas o mundo que por cá passa) montaram 18 minutos de pura etnografia, uma colecção das fotografias ali feitas, umas por fastio, outras por celebração, outras talvez sem ser por nada. Nessas fizeram correr os detalhes que ali passam, o céu visto entre aquelas muros e árvores, os recantos e rugas da casa, os adornos e adereços, um pouco dos restos dos tempos que vão passando. E assim, fixado que foi o local, apalpando-o em imagens, como se carícias fossem, passaram ainda a galeria dos habituais convivas e dos que só de vez em quando, mulheres expressivas, uns dias voluptuosas e outros nem tanto, caras carismáticas, expressões felizes, os filhos de alguns clientes (ali em busca dos retardatários progenitores?), o guarda da rua e a actriz popular, lá de dentro da cozinha a dona assomando e até o senhor escritor quase afamado, o engravatado funcionário e o já quase desistente reformado, um eixo onde todos se agregam, esses e tantos outros, num desfile que é o da festa da vida.

Um momento feliz foi esse, um natal onde as prendas foram a partilha das pequenas recordações, da gente, tudo saudado com o prazer do reconhecimento, da memória. Um momento feliz, pois um natal também feito desafio, que para o ano bem mais se juntem na colecção, uma mais ampla mescla dos olhares, das fotos que por tantos vão sendo tiradas na alegria – e até, por vezes, felicidade – do convívio.

Um momento feliz, digo eu, entendo eu, ali rara visita, pois também momento de resistência. A celebrar o poder estar juntos, fruir, na cidade. Enquanto nem tudo é devastado pela construção nova, essa vida plástica de betão feita, o mundo das esplanadas de xópingues, onde ninguém se entre-fotografa e fala de mesa em mesa. Esse afinal velho mundo que, no Maputo da “nyerere” se vai anunciando como mais belo pois mais novo. E melhor.

 

jpt


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BOM ANO BOM 2012

Depois das comemorações natalícias, este ano deveras familiares, agradavelmente generosas e francamente afortunadas, vem aí o novo ano…

Seguidamente a rechear peru, cozinhar tarte de castanhas e confeccionar demais acepipes (sem falsa modéstia, confesso que até me desembaraço bem nestas lides) e após ter falhado os oficiais votos de BOAS FESTAS BOAS ma-schambeiros, antecipo-me e DESEJO A TODOS OS MA-SCHAMBEIROS – excelsos co-bloguistas e prezados leitores – um BOM ANO BOM 2012 tendo em conta que as previsões são de um ano basto iluminado (‘shining’ para os anglófonos).

BOM ANO 2012

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VA


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Postal de Boas Festas

Argélia ©miguel valle de figueiredo


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O Emigrão

 

Um dos excelentes volumes que Manuela Ribeiro Sanches organizou e fez publicar na Livros Cotovia é a colectânea “Portugal não é um país pequeno. Contar o “império” na pós-colonialidade” (2006), 14 preciosos textos dedicados às narrativas coloniais portuguesas [assim mesmo, sem exagero, e dos quais gosto de salientar, com a injustiça do interesse próprio, os artigos de João Leal e de Harry West]. O volume é posfaciado, em jeito de “comentário”, por Miguel Vale de Almeida [MVA] com um texto de grande actualidade.

Nele MVA utiliza o célebre episódio do “arrastão” acontecido a 10 de Junho de 2005 para dissecar o Portugal de então (de agora). A explosão do boato de um arrastão na praia de Carcavelos provocado por jovens negros, ditos “imigrantes de segunda ou terceira geração” (em sim mesmo uma expressão sintomática) oriundos de bairros periféricos da grande Lisboa, e que causou uma enorme comoção nacional, reacções abruptas na comunicação social, histeria securitária, manifestações da extrema-direita contra a imigração (e, em contra-corrente, veio mesmo a nomear o mais conhecido blog de esquerda do então crescente bloguismo português).  Na realidade o arrastão não aconteceu, enquanto facto, foi um mal-entendido no local exponenciado pela ligação não-mediada (não demorada, direi) entre os cidadãos (seus telemóveis e computadores) e a imprensa. Nesse eixo de comunicação o rumor assumiu carácter constitutivo do real, e o arrastão aconteceu – não na praia de Carcavelos, como muito bem diz MVA, mas nas mentes e temores de inúmeros portugueses.

O autor retira deste acontecimento duas conclusões sobre as auto-representações de Portugal, por ele desnudadas:

a) o papel da imigração como delas constitutivo. Com efeito na endo-narrativa nacional ao Portugal colonial que “não era um país pequeno” [o volume leva como título a célebre palavra de ordem colonial "Portugal não é um país pequeno", cujo iconografia abaixo reproduzo], imperial, atrasado, anti-democrático, isolado e de emigração, e assim pequeno, sucedeu um Portugal póscolonial, “pequeno” na sua geografia, mas democrático, europeísta, desenvolvido e de imigração, e assim “grande” no seu cosmopolitismo. A transição emigração-imigração é assim uma dimensão crucial da representação da “grandeza” portuguesa, da perenidade desta acrescento eu. Pois ao pequeno Portugal de emigrantes sucedeu-se o grande Portugal de imigrantes [ainda que o autor lembre, já em 2006, o quão factualmente (numericamente) errada era esta ideia, dado o crescimento da emigração portuguesa ser notório];

b) por outro lado MVA frisa que o episódio do “arrastão” e o tom racialista, xenófobo e racista que o rumor assumiu, bem como o das reacções havidas, desnudou as contradições das características subjacentes ao velho discurso lusotropicalista (e lusófono) da inexistência de racismo na sociedade portuguesa, concepções assentes no escamotear das dimensões racialistas e racistas que as produziram em pleno regime colonial. Concepções de exclusão, temor e de crença numa superioridade que, como o episódio mostrou, subsistem na actualidade mesmo que menos explícitas nos discursos do quotidiano.

Nestes últimos dias não pude deixar de recordar este texto a propósito da polémica em torno da entrevista de Pedro Passos Coelho [ler aqui; sobre isso já escrevi 1, 2 3] em que o primeiro ministro terá mandado emigrar os professores desempregados. Esta interpretação da entrevista correu célere, provocando grande comoção nacional: o presidente corrigiu-o, o proto-candidato presidencial Marcelo Rebelo de Sousa criticou-o, a oposição em peso também, o sindicalismo bramou, enquanto alguns do seu círculo tentaram uma inábil fuga em frente, em particular Paulo Rangel, ou recuperam velhas declarações desse teor de responsáveis socialistas. Mas nada disso funciona, é apagar fogos com gasolina.

De súbito brotou uma  onda de repulsa pelas palavras de PPC , na imprensa (entre inúmeros exemplos o institucional Expresso dá-lhe capa, a SIC realiza uma entrevista fazendo também intervir, em golpe de asa, questões associadas à “condição feminina”) e bloguismo, nas fervilhantes redes sociais, nas conversas (até em Maputo). Coros de protestos surgiram por todo o lado, uma patética carta mandando o governo emigrar tem eco espantoso, a imprensa rejubila, os cartoons sucedem-se, académicos que tantas vezes ouvi protestar contra o excesso e falta de qualidade e de pertinência do ensino superior descentralizado (na multiplicidade distrital e na “universatarização” dos politécnicos) e do privado (explicitamente considerados como produtores de professores lumpenizados) erguem-se, irados, acompanhando escritores, jornalistas e outros fazedores de opinião, e até o mundo de Salazar, aquele produtor do “salto”, da emigração clandestina e miserável, é agitado como avatar dos objectivos deste governo, pelas teclas da velhíssima extrema-esquerda delinquente e reproduzida, em catadupa, pelos seus antigos adversários. Também na direita nacionalista se ouvem impropérios, e até já (pelo menos nos passos perdidos do facebook) apelos à expulsão dos imigrantes. Certo que a crise actual acicata os cidadãos contra o poder, e em particular o uso da palavra pública (hoje felizmente tão disseminada) dos sectores da oposição, mas a dimensão e os contornos deste episódio aparentam ultrapassar essas dimensões, (re)iluminando características centrais das representações dos portugueses sobre o seu país.

Na verdade PPC não disse o que se lhe aponta, tudo isto é um verdadeiro Emigrão. Não regresso em detalhe às suas declarações. Mas qualquer leitura desapaixonada poderá constatar que PPC anuncia o fim do ciclo emigratório para Angola [140 000 pessoas, ao que consta, e a esmagadora maioria na última década, após a morte de Jonas Savimbi], algo óbvio para quem viva em Maputo e constate aqui os patrícios regressados ou oriundos daquele país. E que apela a uma reconversão profissional dos cidadãos portugueses. Uma linha de pensamento inversa da que lhe atribuem. Mas o conteúdo efectivo das afirmações não é verdadeiramente importante pois, como muitos me têm afirmado, “não disse mas parece ter dito”, denotando o quanto todo este processo ancora numa vontade interpretativa, de adesão ao rumor. De crença, de querer crer. O rumor social assumiu tal virulência que se torna realidade. Fenecerá agora com as festas natalícias e será, já menos potente, recuperado na guerrilha política subsequente.

Mas o que este Emigrão me traz são exactamente os dois pontos que MVA sublinhou no perspicaz texto a que acima aludi, estruturantes da representação dominante sobre Portugal e, como se nota agora, vigentes em contextos que – em parte – aparentam ser ideologicamente diversos. Mas assim bem mais unos do que apartados:

a) o lugar da e/imigração na narrativa actual da portugalidade. Nesta a ideia de uma “grandeza” (cosmopolita, desenvolmentista) de Portugal assenta no facto de ser receptor de mão-de-obra e não seu exportador. Mesmo que essa ideia não corresponda à realidade fáctica. Face à crise financeira e económica actual o normal ascender da realidade da emigração, já duradoura, para a esfera pública, política, devasta a auto-representação (algo mistificada, sublinhe-se) portuguesa – e também por isso a conjugação na indignação da direita mais nacionalista com os sectores de esquerda, e mesmo a sua penetração em políticos ligados à área do poder. O drama deste Emigrão deriva da ideia de que Portugal se apequena, se descosmopolitiza neste processo. O aparente desvaler aos professores excedentários surge como a realidade desvalida do país e do seu futuro. A funda questão não é pois a da referência à emigração pelo poder político mas sim a da sua não elisão, dado o seu carácter poluente. Pois agora que de novo país emigrante como recuperar a “grandeza” nacional, vector considerado necessário na configuração simbólica?

b) a perenidade da visão lusocêntrica do real, a tal manipulação de um lusotropicalismo (actualizado em lusofonia). Com efeito as ditas “propostas” de emigração de professores desempregados para África não são discutidas na sua viabilidade política ou prática, nisso sobressaindo a ideia generalizada de que elas são possíveis e, até, desejadas alhures. Se por um lado isto recupera acriticamente a imagem colonial de uma sociedade portuguesa produtora de civilização alhures através da acção pedagógica (algo tão bem abordado no recente “Livros Brancos, Almas Negras. A “missão civilizadora” do colonialismo português, c. 1870-1930, de Miguel Bandeira Jerónimo, ICS, 2010), torna-se também óbvio que a esta recepção corresponde a ideia do “espaço plano”, “afectivo” da lusofonia, o tal espaço lusotropical desprovido das rugas da conflitualidade colonial (e até actual). Mas este complexo da actual representação póscolonial portuguesa é ainda sublinhado pela introdução explícita das hierarquizações consideradas aceitáveis (“naturais”). E isso é cristalino quando discursos sobre a emigração de quadros elevados (inseridos em grandes empresas ou em esquemas multilaterais) não são questionados, incidindo a crítica apenas sobre a hipotética proposta de emigração de sectores não privilegiados. Que, como é óbvio, colocariam em causa a supremacia sociológica e económica da mão-de-obra portuguesa no amplexo lusófono.

Ou seja, tal como no caso do “arrastão” este “emigrão” demonstra bem as dimensões de hierarquização racial e socioeconómica internacionais (póscoloniais) que suportam a representação da portugalidade. E o seu, afinal, pouco cosmopolitismo.

Adenda: aqui fica a o célebre cartaz colonial do “Portugal não é um país pequeno” que dá título (e temática abrangente) à obra de organizada por Manuela Ribeiro Sanches.

jpt


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A dádiva da dança

 
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Não são bonitos nem glamorosos. Não são particularmente bons dançarinos. São o Lewis e o Luke. Deles nada sei a não ser que são generosos. Têm-me dado todos os dias um sorriso matinal quando abro a página do calendário de advento que prepararam para quem quiser ver: uma dança num local público. Sem rotina, sem coreografia, sem qualquer artifício, perante transeuntes perplexos. Pelo puro prazer da dança e de fazer algo divertido. Para eles e para mim que desde dia 1 de Dezembro abro os meus dias com uma dança engraçada e uma música alegre. Não sei quem são. São o Lewis e o Luke. Sei que têm humor, que gostam de dançar sem complexos e que generosamente partilham esse prazer comigo.

AL


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Comentário breve no facebook a propósito da demagogia portuguesa

Uma amiga, minha antiga professora, colocou no seu mural uma ligação a um texto publicado no Público, “já vivi neste país e não gostei”, escrito por Isabel do Carmo, antiga terrorista (este tipo de cadastros é imorredoiro) envolvida em múltiplas acções anti-democracia, essa de que parece ser agora, no ocaso da vida, uma grande defensora. [Pode ser lido aqui dado que o Público não é de acesso livre]. De rajada deixei-lhe um comentário, que aqui reproduzo só tirando os nomes. Dedica-se ao tempo em que, grosso modo, Isabel do Carmo cumpria pena de prisão pelos crimes, de fundamento político, que tinha cometido. E em que só na voz de muitos poucos seria uma paladina da democracia. Prisão onde escreveu uma porcaria de um livro “Puta de Prisão”, que qualquer antropólogo (não é antiga professora?) pode lamentar pela superficialidade. E da qual saíu, regenerada, para emagrecer pessoas com o beneplácito da comunicação social portuguesa, sempre salazarenta nos seus “brandos costumes”, ávida a recuperar este lixo. Ético e intelectual. Fica o comentário:

 Olá G.. Feliz Natal. Azáfama por cá, últimas compras. Depois de amanhã, chegam amigos, seguimos para pequeno passeio, estou num corropio. E não tenho tempo para escrever o texto que me ocorreu quando segui esta tua ligação, um meu “já vivi neste país e gostei”. A falar de um tempo em que era aluno de antropologia (em que tive um professor Iturra que tinha alguns assistentes, lembras-te?), um país democrático, aflito com as contas, com o FMI a regular as contas, que era o tempo do Ernani Lopes, com um discurso constante de entrar na CEE, em que não havia poligrupos, nem se sonhava com cartões de crédito, em que a Tatcher e o Reagan estavam no poder, e o Brejnev também, em que o pessoal contava as mesadas para irmos a Cascais ao Rock e viajávamos para sul ou europa à boleia, em que os burguesotes como eu íamos para o campo e fábricas fazer taco para os devaneios, em que a gente lia o Manuel da Fonseca, o primeiro José Cardoso Pires e, até, o Alves Redol para saber como tinha sido, em que não havia internet e não víamos as pessoas que respeitávamos a ecoar a demagogia escatológica das antigas terroristas. Até breve G., Feliz 2012, eu não vou aí, e ainda bem, tirando as saudades que tenho dos meus pais, que o ambiente só pode ser horrível, do desvario que para ai anda.

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Fechos de correr

 

Imagem daqui: http://60s-70s-80s.com/store/images/Sticky-Fingers-LP.JPG

Andei semanas a namorá-lo. Saía do liceu e passava pela lojinha que o tinha enfiado numa caixa de cartão estacionada no parapeito de uma janela, misturado com outros álbuns. Percorria-os com os dedos até chegar àquele que eu desejava e enquanto mentalmente fazia as contas a quanto me faltava para o comprar, ia abrindo e fechando o fecho de correr. Soube hoje, por um serendipismo, que as ancas ali modeladas não eram as da minha mais antiga paixão, mas sim deste senhor e que a capa foi desenhada por Andy Warhol. O álbum? O Sticky Fingers dos Rolling Stones, what else?

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AL


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Boas festas

Em jeito de postal cantado (clicar no link para ver uma coisa completamente parva). E que o humor seja a última coisa a deixar-nos!

 
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AL


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2 Propostas para Boas Festas, Feliz Natal (e Próspero Ano Novo)

Para todos os que aqui passam. E, com abraços de urso para os co-bloguistas e beijos lambuzados para as co-bloguistas.

jpt


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O governo português: emigrantes e a agência para emigração

 

1. Abaixo já abordei a falsidade das interpretações da entrevista de Passos Coelho (umas resmungonas, muitas paroquiais, algumas malevolamente estratégicas e até algumas lamentavelmente pungentes [roda na internet uma carta aberta ao primeiro ministro que é uma peça inadjectivável, e que deveria envergonhar quem a reproduz, salivando]). Voltei ao assunto aqui (irritado com os que querem a infantilização dos cidadãos) e aqui (já a ver-me a votar nas próximas presidenciais em Ferro Rodrigues ou Guterres: o “pequeno Marcelo” nunca!).

Náo me apetece regressar ao tema (até porque torna monótona a visita ao blog). Mas também porque sou professor e emigrante este é assunto que me prende. E quero ainda referir algo que sublinha a gigantesca desonestidade de tantos ou o mero espírito de contradição de outros. Os jornalistas perguntam a Passos Coelho [ler aqui] “estamos a exportar mão-de-obra, cérebros, massa cinzenta...” e ainda “Mas esteve em Angola recentemente. É um país que pode receber portugueses para trabalhar essencialmente em que áreas? Na Educação, por exemplo?“. O PM diz, explicitamente, que Angola não tem capacidade para acolher mais mão-de-obra portuguesa. Ou seja, num eixo de interpretação semelhante poder-se-á dizer que o PM está a desincentivar a emigração portuguesa. Ninguém quer notar isso. E depois, o “must” disto tudo, diz que há hipóteses de emigração para “mão-de-obra qualificada”, e associa-a ainda à internacionalização das empresas portuguesa: “Em tudo o que tem a ver com tecnologias de informação e do conhecimento, ainda em áreas muito relacionadas com a Saúde, com a Educação, com a área ambiental, com comunicações. Todas estas que referi, além das tradicionais, que já lá estão implantadas e que têm que ver com infra-estruturas nos mais diversificados domínios, infra-estruturas rodoviárias, marítimo-portuárias, ferroviárias, logísticas. Como sabem, as empresas portuguesas, desse ponto de vista, não ficam a dever nada às grandes empresas estrangeiras que estão implantadas em Angola.“. Pois ninguém refere isso, isto não é assunto. A emigração, esse horror (em tudo o que se realça é o enorme paroquialismo) desde que seja de “mão-de-obra qualificada”, e seja associada a empresas portuguesas, não é assunto. Não nos faz regressar ao neo-realismo. Aquilo que serve para o “indignismo” é a possibilidade dos professores desempregados (que não se querem, legitimamente, reconverter profissionalmente). Sei que há amigos meus que não concordam comigo e tenho que guardar os adjectivos que dedico a quem não consegue ver o fundo vergonhoso desta tralha interpretativa. Mas para aqueles que têm um bocado de mundo será interessante lembrá-los que estão a reproduzir a distinção entre “expatriados” (coisa boa) e “emigrantes”. Se estivessemos num contexto académico isto daria para uma artigo em termos de análise “póscolonial”, e de como esta gente (à esquerda, quase toda) afocinha no neo-colonialismo e saracoteia as ancas.

2. São esse amigos, e visitantes aqui, que de mim discordam que lembram umas declarações do secretário de estado da juventude a induzir à emigração. Acho-as inócuas, muito mais um deslize devido a falta de tarimba na retórica política. Mas daqueles deslizes que se paga caro – tudo isto vem daí (o homem não resiste à primeira remodelação, lá irá para uma empresa pública, coitado) Mas realmente, e sem rodeios, em Portugal há um enorme surto migratório. Não tenho números (como se medirá efectivamente a emigração neste tempo de low-cost?), é certo que o homem não devia ter falado assim mas ecoou o real. Um real que existe há anos, disfarçado nos últimos anos de agit-prop de Santos Silva e quejandos. Agora indisfarçável.

3. Outros amigos logo surgiram a dizer que ontem, e na sequência do burburinho provocado pela manipulação da entrevista, o  ministro Miguel Relvas também induziu à emigração. Discordo completamente. Por mais maçónico que Relvas seja (ou seja, iministeriável), por mais que estrategicamente não devesse ontem ter falado em emigração, a meter achas na fogueira, o que disse só pode ser interpretado desse modo porque assim se decide. O homem veio a Maputo [lembro que não gostei e aqui o escrevi], encontrou o tal surto de imigrados, e referiu-o em termos elogiosos. Não era o momento, claro.

Estou evidentemente estupefacto com todas estas interpretações. Guerrilha política, eunuca. Mas também o tal enorme paroquialismo. Pior do que isso, sintomático da crispação improdutiva do debate em Portugal. E tão necessário é um bom debate, uma boa crítica ao governo. Como sempre, mas agora ainda mais.

4. E na sequência disto tudo leio hoje que o ministro Paulo Rangel propõe a criação de uma agência nacional para apoio à emigração dos portugueses. Indiscutivelmente a emigração é um fenómeno social incontornável. E o governo tem que atentar nisso. Mas criar uma agência para exportar a mão-de-obra? Os cidadãos portugueses? E, pensando na baixa estratégia politiqueira, dizer isso neste momento? Rangel (antigo candidato à presidência do PSD) está a tentar derrubar Passos Coelho, a querer ser califa no lugar do califa?

Ou então, e não duvido disso, andam a fumar umas coisas. Boas. Fortes. Nas “Lojas”? Ou, mais prosaicamente, nos corredores da Buenos Aires? Sim, não será em São Bento, que os governantes do CDS vão passando ao lado … Rindo-se?

ADENDA: Teclado avisado (tanto que até me enganou, julgando que seria de hoje, o que francamente me deixou estupefacto) lembra-nos que a antiga Ministra do Trabalho, Maria Helena André, do governo de José Sócrates, propunha a emigração como alternativa aos jovens. Julgo que Tó-Zé Seguro terá então dito “estou chocado”. E a matilha face-blogueira terá também urrado. E as doutorandas iliteradas (“mas muito boas alunas”) escrito cartas abertas ao primeiro-ministro, dizendo a Sócrates para emigrar (o que ele fez, aliás, que se foi para Paris de França). E os bloquistas bloguistas replicado o lixo até à exaustão. Ou não?

jpt


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Habitat

[Como abaixo referi tive que escrever para a edição de hoje do Canal de Moçambique. O palavroso texto é este:]

 

HABITAT

O “complexo” encosta-se à estrada, claro. De caniço, acolhe os clientes em ampla esplanada coberta, anunciando uma sombra quase fresca, sedutora, e agora ainda mais de tão desejada que é. Só depois atentarei que a parte da pensão, lá nas traseiras, é feita de blocos, sinal de que o negócio vai bem. Ali fronteiro, na orla recortada do alcatrão, um pequeno bazar, meia dúzia de vendedoras, algum amendoim, bananas, peixe seco, coisas poucas, e ainda um ou outro jovem com as tralhas Mcel, essas que enchem as ambições de norte a sul, estendidas quase na estrada em moldes de revenda ou reparação.

O amigo que ali me conduz demora-se, com todos fala, aos parcos clientes e aos das vendas indaga das famílias, manda entregar saudações a alguns dos ausentes, quer novidades do negócio, e nisso tudo mostra-me, percebo-o bem. Está na sua terra, é a sua gente, está feliz, lindo no seu novo uniforme de régulo, o sol que ainda vai alto fere-me nos seus dourados, reluz-lhe a placa “autoridade comunitária”, e assim vem também vaidoso, que a farda e a bandeira acabaram de chegar, a bicicleta está prometida para breve. Mais importante ainda, muito mais importante, finalmente chegou o reconhecimento, disso que nele sobrou de pai e tio-avô.

Entramos na esplanada, repleta de mesas agora vazias pois apenas um casal por lá arrasta o entardecer. A mulher levanta-se para nos receber, sorriso aberto, lesta a levar-nos até à sua mesa. O chefe, jovial, eles os dois logo em gargalhadas cúmplices, apresenta-nos “Josefina, a dona da casa” e eu adianto-me, ainda de pé, “somos xarás” e nisso quero-me um pouco cúmplice. Ela ri-se num típico “afinal!” e ficámos. É uma quarentona já avantajada mas nisso sem esconder toda a beleza passada, está ali com um amigo, que dono não é, percebo-o logo pelo modo como as primeiras cervejas são chamadas e ainda mais pela forma como não conduz a conversa. Se namorado, amante ou só amigo daquele dia não sei, nem pergunto, claro. É um tipo alto, robusto, quarentão de ar bem-parecido, e conservado. Destoa-lhe um pouco o ter os olhos já raiados, vão-se até semicerrando, algo que ainda combate. Já tomou, está adiantado, e com ar de que não é só de hoje.

As 2M chegam, e vêm quentes, naquele morno que logo me traz a azia e que, pior do que tudo, me rouba a euforia da bebedeira, aos primeiros golos sei que só ficarei pastoso, cabeceando em pequenos arrotos, sem aquele pique rebelde que me faz lesto após o escorrer das garrafas. Mas não me nego. Pedimos galinha, certo que levará tempo, que já não conseguirei comer bem quando chegar, mas é o pretexto para bebermos. O régulo explica, quem sou e o que aqui me traz. Fá-lo com detalhe e de modo a que as duas empregadas, uma que ele prende pela manga, o ouçam, pois também serão elas a divulgar. Algumas pessoas entraram para acompanhar, nisso rodeando a mesa, e ele, mão espalmada no meu ombro, avisa que sou amigo de há muito, professor na universidade, aqui de novo a trabalhar sobre a região, a recolher a história, e também a actividade dele próprio, autoridade comunitária. Cada um destes factos é acolhido por sons da anuência, é satisfatório o relatório, e acede-se à minha presença.

Estou a ser mostrado, como é costume, e quase sempre deste modo ostensivo. É isto da estranheza de um branco, e até de cabelo branco, e português, professor vindo de Maputo, a interessar-se pelas coisas dos sítios. Serei motivo de conversas, assim vincando a importância de quem me acolhe. Por isso sou passeado, feito coisa exótica, um bem de prestígio. Bebo enquanto a conversa segue, pois ao régulo são perguntados detalhes sobre a minha estadia. Olho o gargalo, e intervalo, a lembrar-me daqueles meus colegas, seniores antropólogos, sempre ávidos a fotografarem-se com os chefes locais, esses que até sacerdotes são, pois mediadores de espíritos, e assim mostrando-se nos seus torna-viagens, num “the chief and I”, por vezes até dizendo-se iniciados, curandeiros ou coisa assim. Sorrio, em esgar da tal azia, a esta ânsia do como se diferente, auto-engrandecedora. E que é recíproca, como aqui torno a notar entre-golos. E rio-me, sozinho, até assim deselegante, pois vem-me à cabeça que tudo isto nada mais é do que “exotic-dropping”. É o meu momento, pois percebo que estou a criar.

O chefe acabou, os curiosos debandam, ficamos os quatro. O amigo da Josefina, nem-sei-o-nome mas foi dito, até então quase calado, diz que tem histórias para me contar, dele mesmo. Mas antes tem que ir fazer umas necessidades, já virá contar. E lá segue, já trôpego. Ficamos ali, como se dele à espera, a dona apresenta como está o “complexo”, a pensão lá atrás, é agora que reparo. Saúdo, está grande e bonito. Ela vai sorrindo, olhar daqueles que entra mesmo. Sabe o que é, bonita, dona de si, mamas fartas, soltas, ancas largas, riso aberto, de boca e olhos, engordada, braços roliços, a pele a luzir de transpiração, não é provocação o que me faz, é sedução, estão ali os quartos, é só avançarmos. Deixo-me imaginar, reconheço os quartos, cubículos sob tecto de zinco, abafados, aquela cama estreita, o colchão de palha já esmagado, o balde de água, esta já cansada de tanta espera ali. O meu amigo vai falando das suas coisas e nós ouvimo-lo, encarando-nos em posição de sorriso, e enquanto bebo, trocamos cigarros, deixo-me pensar em nós dois se por lá, quarentões, os nossos corpos pesados, num juntos sem ânsias nem encantos mas divertidos, soltos. Tudo isto conversamos em olhares, mais os dela que os meus ou será o contrário?, e se a vida me fosse outra quem sabe?, sorrimo-nos, muito, percebemos.

Nisto regressa o amigo dela. Vem para contar a sua história e mando vir mais cervejas. “Eu fui soldado da guarda de honra” diz-me, com orgulho. Narra com detalhes, até oscilantes, que era soldado no início dos anos 80. Uns dias antes da assinatura do acordo de Nkomati o presidente Samora visitou o quartel e viu-o. E logo o mandou avançar. Enquanto ele fala Josefina supreendida, até arqueando os olhos na dúvida, sorri-me, incrédula. Mas a história é séria, Samora chamou o nosso conviva. “Achou-me bonito, disse que eu tinha uma boa figura”, que precisava de homens assim e “mandou que me pusessem na guarda da honra”. Tudo para integrar a cerimónia lá com o presidente dos boers. Josefina ri-se, o régulo também, ele abespinha-se, jura que é verdade, o presidente gostou da sua figura, insistiu, até lhe deram farda nova, foi transferido para estar lá em Nkomati. É uma delícia, a história em si, mas mais do que tudo não posso deixar de contrapor aquele casal, ela ali, atrevida, dona, a enlear-me agressiva, e ele, homem rijo, entusiasmado com a beleza própria, como se uma menina coquette. O oposto do que costumamos esperar.

De súbito, até incomodado com os risos dos outros, olha para mim, para a minha t-shirt e pergunta-me, mudando a conversa, fugindo à ironia alheia, “e o que quer dizer habitat?”, um qualquer dístico ecológico que eu trago ao peito, nesta roupa velha que trago para o campo. Hesito, na mudança de registo, e tento explicar, isto da protecção do meio ambiente, preservar animais e, mais ainda, as árvores.

O régulo ri-se, corta-me a palavra, e dispara, cáustico “os brancos cortaram as árvores deles e querem que nós fiquemos com as nossas feras, é isso”. E ri-se mais. Todos se riem. Eu também me rio. E pago mais uma rodada. Porque nada, como sempre se torna tão óbvio, é exótico.

jpt


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