21/01/12

Era muito de noite

                                                     para Nuno Franco


Era muito de noite, os amigos ficaram para trás
presos ao álcool e ao paleio fácil da procura. Seguimos as
ruas desertas da cidade, apenas parámos onde a água
corria na ribeira, sob o que restava de uma cortina de
buganvília.
Na varanda do quarto do hotel
os sentidos sombrios - a cama
entreaberta esperava quem nunca havia de chegar, nela ficou a
flor estridente da chama da floresta (tem a cor de cólera de
deus na nossa fronte
tem a cor dos nossos lábios), nem eu sei porque
me deu para falar da estrela da aliança,
para depois nos rirmos e comermos maçãs madrugada fora sob
a lua negra do outono atlântico
e mais forte e mais doce do que tudo
rodeia de espinhos o círculo arroxeado à volta da ferida, terreiro
alagadiço os dedos afligem
e depois
boa-noite.


João Miguel Fernandes Jorge, em Lagoeiros, ed. Relógio d'Água.

18/01/12

O Hipnotista

Aquela expressão "ler um policial para descansar a cabeça" nunca me foi estranha. Sempre descansei a cabeça com policiais. E também com filmes para idiotas nas tardes de fins-de-semana. Mas descanso mais com uma boa sesta. É verdade. Então porquê pegar num livro - um policial ou outra coisa qualquer - em vez de dormir um pouco? Aquela coisa de que falam: ausentar-se, entrar noutro mundo. Mas os livros que se lêem para "descansar a cabeça" são sempre mais realistas, mais próximos do nosso mundo. Ou não? Quanto mais próxima está de nós a natureza do livro mais facilmente nos enredamos nele, ou será que perdemo-nos mais facilmente quando o autor consegue escrever sobre o que não conhecemos?
Um exemplo: o primeiro livro do ano foi O Hipnotista, um policial na onda dos autores nórdicos popularizados pelo fenómeno Stieg Larsson (não li e agora não vou ler, porque entretanto vi os filmes suecos, e são bastante decentes). O autor é um par, um casal, e assina com o nome Lars Kepler. Lê-se bem? O que é isso? Lê-se rápido, claro, porque um artesão competente desta livralhada comercial tem de conseguir imprimir um bom ritmo à leitura. E este cumpre na perfeição. O discurso indirecto livre, na 3.ª pessoa, o presente contínuo ; e um breve interlúdio na 1.ª pessoa em modo de analepse para desvendar as brumas do passado de uma das personagens. Tudo muito escorreito, claro, simples, frases curtas, pessoas e não estereótipos, o que me parece ser uma qualidade não muito comum nestes objectos literários. A sensação de familiar previsibilidade do imprevisível. E o credo do thriller para as massas da actualidade: terá de haver várias reviravoltas até à revelação final.
Lê-se bem, lê-se bem. Não é surpreendente. Mas é invulgar, sobretudo porque se passa em ambientes que nos são estranhos: o gelo e a neve, a noite eterna, os psicopatas frios do Norte. E um pequeno gancho resultado de um interesse pessoal: a hipnose como método terapêutico. Valeria a pena por isso. A emissão prossegue dentro de momentos.

17/01/12

Ah, pois é

"Sempre que, movido pela curiosidade ou pelo tédio, me atrevo a ir espreitar as caixas de comentários da secção de cinema do Ipsilon online, penso numa importante função social que a internet veio desempenhar, e no entanto habitualmente pouco referida. Dar voz a uma classe tradicionalmente muito desguarnecida no que à, hum, vocalização diz respeito: os idiotas."

15/01/12

The hollow men

Mistah Kurtz—he dead.

      A penny for the Old Guy

      I

We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats’ feet over broken glass
In our dry cellar

Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;

Those who have crossed
With direct eyes, to death’s other Kingdom
Remember us—if at all—not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.

      II

Eyes I dare not meet in dreams
In death’s dream kingdom
These do not appear:
There, the eyes are
Sunlight on a broken column
There, is a tree swinging
And voices are
In the wind’s singing
More distant and more solemn
Than a fading star.

Let me be no nearer
In death’s dream kingdom
Let me also wear
Such deliberate disguises
Rat’s coat, crowskin, crossed staves
In a field
Behaving as the wind behaves
No nearer—

Not that final meeting
In the twilight kingdom

      III

This is the dead land
This is cactus land
Here the stone images
Are raised, here they receive
The supplication of a dead man’s hand
Under the twinkle of a fading star.

Is it like this
In death’s other kingdom
Waking alone
At the hour when we are
Trembling with tenderness
Lips that would kiss
Form prayers to broken stone.

      IV

The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms

In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river

Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death’s twilight kingdom
The hope only
Of empty men.

      V

Here we go round the prickly pear
Prickly pear prickly pear
Here we go round the prickly pear
At five o’clock in the morning.

Between the idea
And the reality
Between the motion
And the act
Falls the Shadow
                                For Thine is the Kingdom

Between the conception
And the creation
Between the emotion
And the response
Falls the Shadow
                                Life is very long

Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
                                For Thine is the Kingdom

For Thine is
Life is
For Thine is the

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.

T.S. Eliot

11/01/12

Os gatos

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos



Manuel António Pina, em Como se Desenha Uma Casa, ed. Assírio & Alvim

08/01/12

03/01/12

Livros do ano (5)

A história contada por Julian Barnes em The Sense of an Ending (que vai ter o título em português de O Sentido do Fim*) é uma história de enganos e descobertas. Reencontrar o fio perdido de uma memória de juventude, de um acontecimento que surpreendeu e marcou um grupo de amigos, em particular o narrador do livro, Tony Webster. O avanço da narrativa faz-se na incerteza. O narrador não sabe o que aconteceu, nem porquê, e vai descobrindo à medida que o leitor descobre. A técnica usada não é especialmente inovadora mas é eficaz a vários níveis: serve a ideia da história e conduz o leitor a um caminho de percepções erradas e ideias construídas e desfeitas, um caminho em que o equívoco pode levar ao desastre e actos impulsivos à tragédia. 
O tema do romance evoca Expiação, de Ian McEwan, no seu pressuposto narrativo, mas a resolução do problema acaba por ser diferente em Barnes. Enquanto McEwan investe no pathos, criando uma personagem, Briony, cujo lastro de culpa que um acto ingénuo, uma errónea interpretação da realidade - normal numa criança de 12 anos - leva a um desespero apenas mitigado pela doença da esquecimento, Tony acaba por ser apenas um peão do destino, e o conhecimento tardio das razões que levaram ao suicídio de Adrian, o amigo de juventude, é um fantasma que o assombra - e assombrará, dado que o livro termina no vazio; da vida de Tony, a conclusão de um percurso de passividade e desistência. A aceitação da calma burguesa, que contradiz os ideais de uma juventude forjada nos swinging sixties, é o espelho invertido do brilhantismo de Adrian, derrotado pelo seu próprio tumulto.
As frases elegantes, a cadência realçando o modo como o narrador olha para o mundo, o domínio perfeito do suspense que qualquer boa história deverá exibir, fazem deste livro um cúmulo na obra de Barnes, que acabou por ser premiado com o Booker. Se mereceu ou não, pouco interessa; o resultado final oferece-nos algumas perfeitas horas de leitura, e isso é suficiente.

*Não concordo com esta tradução. Literalmente, poder-se-ia traduzir por "A sensação de um fim" ou, mais livremente, "O sentimento de um fim". É esse o significado da expressão. Mas é claro que Barnes também tentou dar outra dimensão ao título, e neste caso a palavra "sentido" parece bem aplicada. Contudo, o artigo usado em inglês é o indefinido, "an" e não o definido, "the". E quem lê o romance (ou novela) percebe que "fim" é usado no sentido de "closure", resolução. O enigma de um suicídio, a razão que vai para lá da frase de Camus. A grandiloquência da solução encontrada não se justifica.

Nota: a capa da edição portuguesa não é totalmente falhada. Mas por que é que não usaram a da belíssima edição original? Mistérios...

The Sense of an Ending, Julian Barnes, ed. Jonathan Cape

Em desAcordo

Eu, que sempre achei o Acordo Ortográfico uma inevitabilidade a que acabaria por me habituar, ainda estou a tentar entranhar o "portugalês" que agora começa a ser regra nos livros publicados em Portugal. Depois do crime da "Claraboia" sem acento de José Saramago - tendo sido escrito nos anos 60 em "português antigo", não se compreende a opção da Leya pela adaptação para "português moderno" - "Vida e Destino", de Vassili Grossman, o primeiro livro do ano, com bolcheviques a cometerem "atos" indescritíveis e mencheviques que não estão a par de todos os "fatos", enfim, está a ser complicado, e todas as dúvidas sobre a grafia de algumas (muitas) palavras novas começam a vir ao de cima. Como a gordura. Mau sinal.

02/01/12

Filmes do ano (4)

Natalie Portman é uma das actrizes bonitas que sabem representar. O filme da Darren Aronofsky, feito para ela, é prova definitiva disto. Um museu de atrocidades construído à volta da beleza do ballet clássico, ou o Lago dos Cisnes revisitado e reenquadrado na violência da história que conta. O sadismo de Michael Haneke passa pelo filme, mas o filme não está interessado em reflectir sobre os mecanismos da violência. Antes centra-se na relação entre mãe e filha - pensando bem, como acontece n'A Pianista, do realizador austríaco - e elabora um estudo sobre a frigidez feminina como repressora da criação e da liberdade artística. Mila Kunis, também belíssima, representa o oposto dialéctico desta repressão, é a bailarina mais limitada do que Portman que consegue superar a desvantagem através da expressão da sua sexualidade. O filme é masculino, claro. Há um ou outro cliché, algum deslumbramento perante o "mistério da alma feminina". Poderia ter tudo redundado num fracasso. Mas uma direcção de actores consciente e eficaz e um domínio da técnica cinematográfica, aliados a uma cinematografia que explora e expande a violência do argumento, fazem deste provavelmente o melhor filme de Aronofsky.

Cisne Negro, de Darren Aronofsky, com Natalie Portman, Mila Kunis, Vicent Cassel, Barbara Hershey e Winona Ryder.

01/01/12

2012

Começar o ano a ver uma comédia que se transforma em tragédia mas acaba por ter um final feliz. Bom resumo do ano que passou.

29/12/11

Livros do ano (4)

Puta que os pariu! 
O livro de que o Portugal de hoje precisava, a longamente esperada biografia de Luiz Pacheco, por João Pedro George.
Não serão assim tantos a recordar o escritor e editor e tudo. Viveu mais do que a maioria de nós, cada ano espremido e gozado até ao limite? Ou foi um proscrito por vontade própria, imune às tentações do bem estar burguês e da mediocridade de uma vida plana? Um miserável, um excêntrico hipocondríaco, um falhado que nunca chegou a cumprir o seu desígnio maior, a mais clara ambição, ser romancista? O pedinte, o sem abrigo - como a moralidade caridosa chama a quem decide viver, ou para isso é empurrado, na rua -, o pai de muitos de quem nunca soube cuidar, porque para ter uma "família" é preciso ceder ao impulso do conforto material, às regras sociais que ele tanto fazia por quebrar, o mau marido e péssimo gestor de vida (a linguagem tecnocrata dos nossos dias tem rótulos para estas coisas), o rapaz traumatizado por um pai distante e uma mãe galinha, crescido entre a riqueza relativa e o abandono; o funcionário público que trabalhava num organismo do Estado Novo ligado à censura, durante anos e anos batendo a continência a homens piores do que ele, até que o grito "Puta que os pariu!" teve de impor-se, e ele se tornou aquilo que talvez ambicionasse desde que abandonara a casa onde crescer: um libertino marginal, como tantas vezes lhe perguntaram nas entrevistas da última vintena de anos, dadas ou vendidas ao sensacionalismo suave de um jornalismo cultural que procurava avidamente o seu "louco", o que se expunha, o que dizia mal, o que se estava a borrifar para as meias tintas da sociedade portuguesa e do mesquinho meio cultural português. Um libertino marginal, repete-se a pergunta? Nunca, e o ziguezague de Pacheco ao longo dos tempos, entre a aceitação da categoria maldita e a recusa, prova que era tudo folclore, fogo-de-artifício, ignorância de quem o entrevistava.
Luiz Pacheco era tudo isto, claro, mas não era. Era quem queria ter sido, e passava fome e mendigava e vivia como muito bem entendia. A biografia de João Pedro George não pretende chegar a conclusões, apesar de um ou outro aparte sociológico que talvez fosse desnecessário. Mas é provável que eles apareçam por força da circunstância desta obra ter surgido a partir da escrita de uma tese de doutoramento em Sociologia - a depuração que certamente o trabalho académico sofreu na passagem para a edição comercial poderia ter ido mais longe. Mas isto é um pormenor. O livro de João Pedro George é exaustivo, bem escrito, obsessivo. E a admiração que o biógrafo poderia sentir pelo escritor parece a cada passo ser toldada pelo rigor da verdade - o que, neste caso, obriga a que pouco seja omitido. Caramba, uma biografia é uma biografia, terá de ter a ambição de contar tudo. Por isso, o fôlego deste trabalho é, e sem querer fugir ao lugar-comum nestas situações, uma pedrada no charco, uma agulha no palheiro, uma raridade absoluta. Nada a ver com as croniquetas de rainhas e princesas que agora se tornaram moda, escritas com os pés por gente que nem o significado da palavra iliteracia conhece. Um género nobre nos países anglo-saxónicos de que seria bom haver réplicas no nosso pobre meio editorial. 
Quem era Luiz Pacheco? Um homem que o Portugal de hoje não merece. E, para dizer a verdade, o do tempo dele também não. O homem que diria a esta tenebrosa turba que nos governa e à mancha de mediocridade que a rodeia "Vão para a puta que os pariu!".

Puta que os Pariu! - a Biografia de Luiz Pacheco, de João Pedro George, editado pela Tinta da China.

28/12/11

Filmes do ano (3)

Uma das coisas que me divertem - provavelmente porque gasto demasiado do meu tempo em desnecessárias inutilidades (e claro que há inutilidades necessárias, mas isso é outra vindima) - é espreitar os comentários dos espectadores no Cinecartaz do Público. Depois de ver os filmes, por princípio; que nunca uma opinião me faça alterar o fundamento dos meus preconceitos. Há umas semanas, fui ver um filme que declaro, desde já, ser fabuloso: O Tio Bonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores. Não vale a pena queixarmo-nos da extensão do título em português; em tailandês é ainda mais extenso e certamente mais impronunciável, quase tanto como o nome do realizador desta obra: Apichatpong Weerasethakul. Certamente que todos se lembrarão que este filme ganhou a Palma de Ouro do ano passado e que esta decisão foi um incómodo para muita gente. Em concreto, recordo uma polémica nas páginas da Sight & Sound. Que o filme era demasiado hermético, lento, inacessível. Ora bem, o filme é seguramente hermético, lento, pouco acessível. Mas esta análise revela de forma mais decisiva os preconceitos e as limitações de quem a faz do que esclarece exactamente que objecto é este. A verdade, subjectivamente falando, é que o filme é uma experiência sensorial do outro mundo, uma viagem psicadélica entre tempos e espaços, uma provocação aos limites da verosimilhança extraordinariamente arrebatadora. Vivemos - nós, que apenas vemos imagens, sombras no ecrã - entre fantasmas, os fantasmas que visitam o tio Bonmee enquanto ele vai morrendo. E a morte, aqui, não é um abismo, não é um corte violento nem um nó dramático, à maneira do cinema ocidental. Não conheço o suficiente da cultura tailandesa para poder especular sobre a filosofia zen que motiva Apichatpong. Sei que a morte - e a vida, sobretudo a vida, a dolorosa preparação para a morte - não é o mesmo vulto negro do filme de Bergman, por exemplo; é um acidente, uma aceitação, uma desolação serena. Os espíritos da natureza, a irmã morta, o filho desaparecido em busca da alma que as fotografias roubam, o quotidiano pacífico de uma plantação, o ritmo das colheitas, o sol e as sombras da floresta. Um mundo afastado do mundo, do ritmo da cidade que é incrivelmente condensado naquela cena final em que uma família (que inclui um jovem monge budista que foge do silêncio do mosteiro) olha concentrada para um televisor num quarto de hotel, a realidade fora da realidade que acabámos de viver durante duas horas. Tudo desapareceu, com o desaparecimento de Bonmee, a derradeira viagem de regresso ao útero materno, a gruta inicial.

O Tio Bonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores, de Apichatpong Weerasethakul, com Thanapat Saisaymar, Jenjira Pongpas e Sakda Kaewbuadee. 

26/12/11

Livros do ano (3)

"DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES

Para aqueles que insistem diluir
isto que escrevo aquilo que vivo
é mesmo assim, embora aluda aqui
a requintes que com rigor esquivo.

À língua deito lume, o que invoco
te chama e chama além de ti, mas versos
são uma disciplina que macera
o corpo e exaspera quanto toco.

Fazer poesia é árido cilício,
mesmo que ateie o sangue, apenas pus
se extrai, nem nunca pela escrita

um sólido balança, ou se levita.
Então sobre o poema , o artifício,
a borra baça, a mim a extrema luz."



Mulher ao Mar, de Margarida Vale de Gato, ed. Mariposa Azual (2010)

25/12/11

Filmes do ano (2)

George Clooney aprendeu com os grandes mestres do filme político - Alan J. Pakula, Sidney Pollack, o Coppola de The Conversation. E o que colheu nestes filmes - a paranóia, o gosto pela construção das personagens, a sensibilidade que transforma histórias vulgares nos meios políticos em obras sobre a miséria da alma humana - as peças políticas de Shakespeare são, devem ser, a matriz deste género cinematográfico - é usado com uma sabedoria formal assinalável. O sentido de ritmo de Idos de Março é a correia de transmissão de um argumento inteligente e complexo. Começamos a meio de uma campanha eleitoral para a presidência, ainda na fase das primárias democratas (há ecos de Taxi Driver nestas sequências iniciais). Há um candidato que parece ser mais idealista - Clooney - e os seus dois assessores, desempenhados por Philip Seymour Hoffman (o experiente, vagamente inspirado, até fisicamente, no sinistro Karl Rove, antigo conselheiro de Bush Jr.) e Ryan Gosling, o novato, a quem todos auguram um futuro brilhante. Gosling, o idealista, que trabalha para o candidato por concordar com muitas das suas ideias políticas. Mas a política é suja, não pode haver nela lugar para idealismos. A trama adensa-se quando surge uma jovem apoiante (a excelente Evan Rachel Wood) que seduz Meyers (Gosling). Sexo, poder, controlo. Tudo o que a política é, o mundo de sombras a que Meyers queria escapar, a sua essência. A composição de Gosling é certeira, perfeita - o olhar do jovem idealista transforma-se, torna-se cínico e frio, vingativo. E o filme torna-se grande com esta metamorfose. Ninguém está a salvo.

Idos de Março, realizado por George Clooney, com Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Evan Rachel Wood, Paul Giamatti e Marisa Tomei.

24/12/11

Livros do ano (2)

"Uma linha extremamente ténue separa esta «humanização» de uma aquiescência resignada com a mentira como princípio social: neste universo «humanizado» é a experiência íntima autêntica, não a verdade. No final de The Dark Knight, de Christopher Nolan, filme que também «humaniza» o seu super-herói, apresentando-o cheio de dúvidas e fraquezas, assistimos à morte do novo procurador judicial Harvey Dent, um feroz perseguidor das máfias que sucumbiu à corrupção e se tornou culpado de vários homicídios. Batman e Gordon, o seu amigo polícia, pressentem o golpe que a moral da cidade sofreria se os crimes de Dent viessem a ser conhecidos. Por isso, Batman convence Gordon a preservar a imagem de Dent declarando que o responsável pelos seus crimes é Batman. A necessidade de perpetuar uma mentira a fim de proteger a moral da população é a mensagem final do filme: só uma mentira pode salvar-nos. Não admira, pois, que, paradoxalmente, a única figura verdadeira do filme seja o Joker, o vilão por excelência. O objectivo dos seus ataques terroristas a Gotham City torna-se claro: os ataques só serão interrompidos quando Batman arrancar a sua máscara e revelar a sua verdadeira identidade. A fim de impedir este desfecho e de proteger Batman, Dent declara aos jornais que Batman é ele - uma nova mentira. Do mesmo modo, outra mentira tem ainda lugar, quando, para ludibriar o Joker, Gordon encena a sua morte (fingida)."

Viver no Fim dos Tempos, Slavoj Zizek, tradução de Miguel Serras Pereira, ed. Relógio d'Água.