Sublime e gloriosa é a sedução quando alcança todo o seu esplendor num céu carregado de nuvens. David Mourão-Ferreira
O VELHO MILITANTE VÊ O MURO RUIR
Há 7 horas
um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
Camilo Castelo Branco -- Não seria fiar demasiadamente na sensibilidade do leitor, se cuido que o degredo de um moço de dezoito anos lhe há-de fazer dó. Amor de Perdição (1862)
Confesso que sempre achei alguma piada ao Fidel Castro, não consigo evitar. Aquela aura revolucionária, a ascendência galega, o ter dado um valente pontapé no traseiro do Fulgêncio Baptista e dos mafiosos que haviam transformado Havana numa gigantesca casa de putas, a diferença em relação às caricaturais repúblicas das bananas vizinhas de Cuba. Mas convém lembrar que aquilo é uma ditadura feroz, sem garbo nem romantismo que lhe valha. À indignidade duma ditadura proxeneta, Castro contrapôs a indignidade duma sociedade policiada e concentracionária. Ontem morreu Orlando Zapata, na sequência duma prolongada greve da fome (85 dias). Um operário dissidente cujo delito foi o de discordar do regime, manifestando essa discordância, o que, como sabemos, é um crime nefando e contra-revolucionário. 

Servidão, de Assis Esperança (1946)
Sinais de Fogo, de Jorge de Sena (1979)


O regime marcial a que os conquistadores sujeitaram Lisboa, acordando-a todas as madrugadas a tiro de canhão e o rufo de tambor, despertara-a da sua modorra de beata, acabara por transfigurar em praça de guerra a cidade dos lausperenes e viáticos, das procissões e das novenas. Ainda tangiam quase permanentemente os sinos da Sé, igrejas e conventos. Mas ao bimbalhar dos sinos associavam-se, como, como vozes duma sinfonia guerreira, o rufar frenético das caixas, a gritaria exasperada dos clarins, pondo remoques militares nas velhas árias religiosas dos carrilhões.

A Morgadinha dos Canaviais, de Júlio Dinis (1868).
Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz (1983).
Para Sempre, de Vergílio Ferreira (1983)