Com muito agrado do DRN, e provável desagrado dos súbditos de Sua Majestade, aqui se publica mais um texto do
ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa:
Na última cimeira europeia, o primeiro ministro britânico,
David Cameron, auto-excluíu-se do processo em curso, alegando estar ali apenas
para defender os sagrados “interesses britânicos”. Quando um primeiro ministro
de Sua Majestade britânica invoca este poluído cliché, já se sabe que o faz por
estar a ter, no seu próprio país, problemas graves, que ameaçam a sua
continuação no poder. O toque de clarim destinado à mobilização nacional tenta
descortinar um inimigo comum, que desvie, por algum tempo, a atenção dos
eleitores, dos graves problemas internos, para supostos inimigos externos. Os
“interesses britânicos” costumam surtir grande efeito, em situações como estas.
É xenófobo, egoísta e um tanto reles,
mas os políticos de Sua Majestade não costumam hesitar: apelar para a defesa
desses “interesses” é um verdadeiro grito de “Às armas!”, que anula,
instantaneamente, toda a racionalidade e decência e une os cidadãos até aí
divididos, dispondo-os, na sua grande maioria, a apoiar o ministro, que, até há
pouco quereriam derrubar.
George Bernard Shaw, o grande dramaturgo irlandês, que
conhecia os ingleses como ninguém – os irlandeses conhecem bem os ingleses, pelas
piores razões possíveis – não os poupava, desmascarando-lhes as intenções
torpes, por debaixo da nobreza dos princípios invocados. Era, precisamente, o
autor de Pigmaleão quem observava, com
tiro certeiro: “Um inglês faz tudo, invocando princípios: luta contra ti, ao
abrigo de princípios patrióticos; rouba-te, invocando princípios de negócios;
escraviza-te, alegando princípios imperiais.” Tudo – porrada, roubalheira,
opressão – sob a alçada de um discurso nobilíssimo e alevantado.
O recurso a um chauvinismo nacionalista, em pleno palco de
uma cimeira europeia, que deveria, por isso mesmo que é europeia, fazer esbater todos os pruridos nacionalistas, dá bem a
medida do modo de ser insular daquela curiosa e, aliás, corajosa gente. “O
nacionalismo”, observava um romancista de entre as duas guerras (Richard
Aldington), “é um galo tonto a cacarejar no seu próprio chiqueiro.” Eis um
anglo-saxão lúcido e sem medo de dar o nome aos bois. Outro – Robert Snayerson
– oferece-nos esta medalha bem polida: “O orgulho nacional é a forma moderna do
tribalismo.” Eis o que o inglês médio, mesmo no século XXI, ainda não
compreendeu: de aí, persistir, absurdamente, na libra, na condução pela
esquerda e no ódio ao sistema decimal. Admirável coerência, se quiserem, mas
alimentada em pura obtusidade.
Voltando a Cameron, típico produto do pior conservadorismo
inglês, é mais do que provável que o primeiro ministro britânico tenha julgado
“necessário”, para salvaguardar o seu futuro político, recorrer ao chauvinismo
mais desbragado. Mas todos sabemos onde podem levar as chamadas “necessidades
políticas”. O já citado George Bernard Shaw, persistente Nemésis dos vícios
disfarçados dos ingleses, notava, provavelmente a pensar nestes, que “as
necessidades políticas se revelam, por vezes, erros políticos.
A invocação inoportuna dos “interesses britânicos”,
particularmente no contexto de uma cimeira europeia, trouxe-me
irresistivelmente à memória uma passagem célebre de uma das peças mais
famosas do grande dramaturgo irlandês: Santa Joana. Numa reunião em que se
congeminava o julgamento de Joana d’Arc, estando presentes o bispo Cauchon,
Lord Warwick e um sanguíneo capelão inglês, Cauchon adverte: “Eu não sou
meramente um bispo político: a minha fé é, para mim, o que a vossa honra é para
vós; e se houver uma saída por onde esta baptizada filha de Deus possa
esgueirar-se para obter a salvação, guiá-la-ei nessa direcção.” Isto irrita os
ingleses, que querem “despachar” o julgamento e levar, rapidamente, a Donzela à
fogueira. Iracundo, o capelão inglês reage, chamando “traidor” ao bispo
francês, que se exalta e responde altivamente, nestes termos: “Vós mentis,
padre. Se vos atreverdes a fazer o que esta mulher [ Joana d’Arc] fez – pôr o
vosso país acima da Santa Igreja Católica – ireis para a fogueira com ela.”
Warwick, pragmático, conciliador, dirige-se, apreensivamente, ao bispo: “Meu
Senhor: peço-vos desculpa pela palavra [ traidor ] usada por Messire John
Stogumber. Não significa em Inglaterra o mesmo que em França. Na vossa língua,
traidor significa aquele que trai: alguém que é pérfido, traiçoeiro, desonesto,
desleal. No nosso país, significa simplesmente alguém que não é totalmente
devotado aos nossos interesses ingleses.”
Esta flecha envenenada, atirada por Shaw aos ingleses,
desvela bem as grandes prioridades da pátria de Shakespeare, que se escondem um
pouco por detrás daquele hipócrita “simplesmente” – os “interesses” são tão
sagrados que o não total empenho na sua defesa seria – e é – nada menos do que
alta traição, mais grave, de longe, do que o estupro ou o assassínio. Vem, a
propósito, citar o romancista Malcolm Bradbury, quando dizia: “Gosto dos
ingleses. Têm o código de imoralidade mais rígido do mundo.”E, também, digo
eu, o mais original...
Os ingleses estão tão convencidos da sua superioridade em
relação ao resto do mundo, que Cecil Rhodes afirmava que ter nascido inglês era
o mesmo que ganhar a taluda, na lotaria da vida. E um personagem de uma peça de
Shaw não hesita em afirmar: “ Nós não fomos lealmente batidos, my Lord. Nenhum
inglês é jamais lealmente batido.”
Há neste convencimento cego uma estreiteza, uma espécie de
incesto sufocante e grotesco de que toda a gente se apercebe, menos os
ingleses. O romancista e historiador H. G. Wells, espírito universalista e, sob
tantos aspectos, tão pouco inglês, bem avisava: “A democracia ateniense sofreu
muito devido à estreiteza do patriotismo, que é a ruína de todas as nações.”
Mais malcriados e directos, os franceses dizem-no de outra maneira: “O
casamento produz cornudos e o patriotismo produz imbecis” (Paul Léautaud, Journal). Mas foi, afinal, Bernard Shaw
(sempre ele!) quem disse o óbvio: “O patriotismo é a nossa convicção de que o
nosso país é superior a todos os outros, por termos nascido nele.”
David Cameron e os ingleses, em geral, deviam meditar nestas
verdades simples e humildes, para evitarem falar de “interesses britânicos”, em
ocasiões em que o tom apropriado seria coesão e solidariedade. O anúncio
recente de estarem a preparar uma grande armada para repescarem súbditos
britânicos de uma alegadamente falida Europa continental vai direitinho para uma
exigente antologia de disparates de dimensão galáctica!
Na fotografia: David Cameron,