Domingo, 22 de Janeiro de 2012

"Não se pode fazer uma «vida» com as verbas avulsas dos arquivos"

A História informa, a Literatura ilumina. Na primeira a linguagem esclarece, na segunda a linguagem envolve. Não se trata de pôr uma contra a outra, mas, sim, uma com a outra.

Uma biografia romanceada junta-as. Na obra que daí resulta não importa tanto a verdade, e a dúvida que a acompanha, mas, sobretudo, o chamamento para aquela ou aquelas vidas que se contam, como se assim mesmo tivesse sido.
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É o caso da biografia e lenda de Isabel de Aragão, a Rainha Santa, que Vitorino Nemésio percorre deste o nascimento até à morte, num livrinho que num dia se lê e, evidentemente, se aprecia.
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Diz o escritor em nota final:
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"Escusávamos talvez de acrescentar que este livrinho é uma «vida», ou seja, um interpretação puramente biográfica da Rainha - uma obra de arte. Seja como for, não perdemos o pé na História, não inventámos um único personagem ou facto; a nossa invenção é puramente psicológica. Não se pode fazer uma «vida» com as verbas avulsas dos arquivos."
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E, deixo o leitor com algumas palavras que permitem fazer uma «vida»:
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"Era bonita. É certo que as filhas de reis já são embelezadas pela própria majestade em que nascem, mas esta era bela de seu, com feições mais fortes do que finas, de uma força elegante a acusada sobretudo nos traços ósseos, que dão às mulheres de raça uma energia radiante. O retrato de Colónia, único autêntico, fala de uma solenidade vagamente luminosa, própria de quem levou consigo um mistério e um carácter. De cabeça bem erecta, voada de véus que a coroa cinge, olha docemente para baixo, numa atitude em que a oração e a autoridade se combinam. O pescoço tem a inflexão das mulheres altas, o queixo afirma vontade e qualquer coisa de menos sagrado, um ar feminino e bem humano; umas flores estampadas pelo sirgueiro no vestido sublinham esta impressão.Traz um cordão cheio de nós e o alto de um manto de rainha.
Mas isto é uma composição, síntese de pintor."
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Referência completa: Nemésio, Vitorino (2011). Isabel de Aragão, Rainha Santa. Lisboa: Texto

Primitivismos como utopias

Na continuação do texto Rousseau segundo Barzun: O Bom Selvagem como abstracção.


No último século ligou-se directa e indubitavelmente a ideia de Bom Selvagem às teorizações de Jean Jacques Rousseau (1712-1778). Jacques Barzun considera tal ideia, que assume na nossa cultura o estatuto de culto, muito anterior a este filósofo. A verdade é que, regredindo na História do Pensamento Ocidental, ela perde-se no tempo. Ainda assim, Barzun procura acompanhar a sua evolução e expressão. Sigamos o seu raciocínio... 

“O selvagem com o seu credo simples, é saudável, sereno e altamente moral, um ser mais merecedor do que o homem civilizado que se vê obrigado a ludibriar e a urdir intrigas para prosperar. Nos finais do século XVIII assiste-se ao regresso desta esperança utópica; nos finais do século XIX, Edward Carpenter dá-lhe voz na obra Civilization: Its cause and cure; e na década de 60 do século XX o tema reaparece associado à rebelião dos jovens, que procuram a vida simples em comunidade, ou que, enquanto «Flower People», defendem o amor como único e suficiente elo social” (página 18).

“Em resultado da batalha por almas e corpos que Las Casas e outros combateram em Madrid e na Nova Espanha para proteger os nativos maltratados, deu-se o reviver de uma velha ideia. O romano Tácito, recordar-se-á, tinha descrito as tribos germânicas do século I de maneira a fazer corar de vergonha os cidadãos de Roma. Essas tribos levavam uma vida simples, em que a honestidade, o amor, a verdade, a coragem e a lealdade eram tão normais como a falsidade, o ludíbrio, a traição e o medo cobarde da morte na civilização. Este contraste foi exemplificado para o século XVI por um certo número de tribos americanas – pelo menos tal como elas se afiguravam a observadores situados a cerca de 5000 quilómetros de distância. Assim surgiu a figura do Bom Selvagem, que desde então tem fortalecido os sucessivos PRIMITIVISMOS (...)"

"Note-se que essa noção remonta virtualmente a Colombo, que no seu primeiro relato faz alusão à vida simples dos nativos (...)"

Factos posteriores deste género inspiram todas as Utopias, a começar pela de Thomas More, na primeira década do século XVI. Sendo assim devíamos tentar separar o Bom Selvagem do nome de Rousseau, que se destacou 200 anos depois e que não tinha qualquer simpatia por esta figura imaginária” (página 123).

 “… modificar a noção dos povos ocidentais sobre as suas origens. Durante 1000 anos, tinham-se considerado filhos e filhas dos antigos romanos. Agora a ideias de raças diferentes substituía a de uma linhagem comum. O fundamento desta mudança é claro: ela está em paralelo com o fim do império e com o surgimento das nações (…) A partir desta nova perspectiva, um novo grupo de palavras ganhou notoriedade: normando, lombardo e godo (…). Além disso, cresceu a convicção de que o carácter de um povo é inato e imutável. Se os seus traços parecem estranhos ou odiosos, a teoria da raça justifica a inimizade perpétua. Chegamos assim a alguns dos habituais preconceitos e hostilidades do nosso tempo. «Raça» acrescentou a ideia secular de diferença inata à ideia teológica de pagão e cristão" (página 123).

Referência completa:
Barzun, J. (2003). Da Alvorada à Decadência: De 1500 à Actualidade - 500 Anos de Vida Cultural do Ocidente». Lisboa: Gradiva

Inovação!

Innovation(Andre Konstantin Geim)
“For me it’s very boring to work
on the same thing year after year…”
graphene resulted from
“Friday night experiments
where you try something very elementary
and try to go in another direction”
"Every great and deep difficulty bears in itself its own solution."(V.F. Weisskopf)


Veja matéria no Youtube :

Sábado, 21 de Janeiro de 2012

Ainda o meu "post" “Um Artigo Sobre o Ensino Superior no Blogue da Universidade de Aveiro” e respectivos comentários

“Não é possível discutir com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos” (Karl Popper, 1902-1994)
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O meu último post aqui publicado (19/01/2012) , “Um Artigo obre o Ensino Superior no Blogue da Universidade de Aveiro”, suscitou uma interessantíssima troca de opiniões, diria mesmo uma saudável controvérsia, através de vários comentários nele deixados pelos  leitores António Pedro Pereira e  Joaquim Manuel Ildefonso Dias. Em princípio,  pouco mais haveria a dizer, quiçá, para além  do apreço e proveito com que os li e o conselho que dou aos leitores em os ler
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Mas faço-o pela simples razão do meu agrado pelos comentários que, de uma forma geral,  fazem aos meus posts lustrando-os, quer com eles concordem ou não, com argumentos que não pecam  por ataques  biliosos demonstrativos de um mau funcionamento do fígado para gáudio do portuguezinho  que, como escreveu Vitorino Nemésio, “gosta de ver um bravo, ou mesmo um louco, ao parapeito”. E. por outro lado, por esses comentários incidirem , como seria de esperar,  sobre o  contexto do Ensino Superior e a controversa questão do acesso à Universidade em situações  morais em contraponto às injustas "Novas Oportunidades" e "Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos".

Tenho como aval, para esta minha tomada de posição, o facto de há muito, me debruçar sobre estas questões, mormente sobre o ingresso nos cursos de Medicina, em que a procura  excede largamente  a respectiva oferta pela obstrução sistemática de abertura a novas faculdades.  Embora sabendo do perigo que corro em deslustrar, com a minha escrita, esta controvérsia, mas com a eperança em a não deixar cair em saco roto pelo interesse de que se reveste numa altura  em que um novo Ministro da Educação, Nuno Crato, ele próprio um académico renomado,  tem em suas mãos  os inúmeros e graves problemas que afectam o ensino desde as primeiras letras ao ensino universitário. Para o efeito, transcrevo  este texto parcelar  de um meu artigo de opinião (reproduzido, posteriormente, no meu livro “O leito de Procusto”, Outubro 2005, p. p. 107-108):

“Em idos tempos havia o exame de aptidão em que, por exemplo, a admissão ou exclusão do alunos que desejassem ir para os cursos de Medicina ficava ao exclusivo encargo das respectivas faculdades e das exigências por si havidas necessárias. Hoje, um aluno que queira ingressar na profissão de Esculápio em primeira escolha, por declarada vocação, dono de capacidades humanas e culturais incontestáveis, mas sem as elevadíssimas classificações que roubam aos estudantes do ensino secundário os prazeres de uma juventude sadia de corpo e espírito vivida em plenitude de estudo, lazer, prática desportiva e usufruto cultural (como  reconheceu o professor de Medicina Abel Salazar,'um médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe') , por vezes, apenas por um décima de valor não entra. Em consequência, tem como solução de recurso matricular-se em outro curso universitário ou mesmo do ensino politécnico no âmbito da Saúde. E quando nem isso consegue, acede, numa espécie  de roleta de azar, a cursos de segunda, terceira ou demais escolhas em matérias para que não está minimamente vocacionado e muito menos sabedor do contragosto  do exercício profissional que o espera!

Por isso,  defendo que deve competir à Universidade estabelecer o perfil do aluno que reúne condições para a sua frequência sem estar dependente, unicamente, da classificação do ensino secundário, e respectivos exames nacionais,  em que aquela, não raras vezes, pouco diz a verdade ou espelha a realidade. Mesmo correndo o risco de me repetir, quantas vezes um aluno merecedor de maior classificação que um outro, mas porque em situação diversa de avaliação, por diferente ser o critério da escola que frequentou, dos professores que o avaliaram ou as condições em que é avaliado, não sai prejudicado?

Como luminar do Saber Humanístico, do Conhecimento Científico e do mais elevado “know-how”, a Universidade  apenas deve franquear a entrada a alunos convenientemente preparados que lhe batam  à porta da entrada principal  e nunca aos medíocres que lhe são impostos pela porta do cavalo, como alunos com 4,7 valores de ensino secundário que, anos atrás, tiveram acesso ao Curso de Engenharia Geotécnica da Universidade Da Beira Interior ( 'Expresso', 15.06.96).  Ou, outro exemplo, de entre muitos, alunos que entram  nos cursos universitários de Matemática com nota negativa e bem baixa de acesso nesta disciplina!

Será o regresso ao Exame de Aptidão à Universidade (ainda que adaptado aos tempos que correm) uma solução óptima? Com o aval da sabedoria popular, 'o óptimo é inimigo do bom'. Contentemo-nos, portanto, com o bom ou, mesmo até, com o menos mau. O que já não é nada mau, convenhamos “(Público, 5 de Setembro de 2005).

Nem de propósito, duas semanas após a saída deste meu artigo de opinião, era publicada a seguinte notícia jornalística: “'Contudo, o facto de não haver falta de candidatos para o curso não significa que o método de seriação seja correcto. Tenho a convicção que não é inteiramente justo', afirma António Sousa Pereira [presidente do Instituto de Ciências Biomédicas do Porto]. Confrontado com os alunos que entram no curso, explica que 'nem todos correspondem ao padrão que esperamos, dadas as provas que prestaram para entrar, e apresentam altíssimas taxas de insucesso. E se alguns encontram o seu caminho, outros não, o que deixa a sensação que outros mais vocacionados terão ficado de fora'" (Diário de Notícias, 19 de Setembro de2005)". É a voz da experiência académica e profissional  de António Sousa Pereira  que fala. Ouçamo-la, pois!

Post scriptum: Não gostaria de terminar sem me referir, também, a um pequeno comentário de um leitor anónimo que mostra dúvidas sobre a entrevista sobre o perfil psicológico que na  República Checa  é realizada no acesso ao curso de Medicina, dizendo que “abre caminho a todas as arbitrariedades”.  E, logo, acrescenta: “Pior do que isso só as Novas Oportunidades”. Para não ser mal interpretado, declaro que sou a favor dessa entrevista no caso específico dos cursos de Medicina portugueses. Todavia,  pelo facilitismo com que se entra no ensino superior em Portugal “cuidados e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”, como nos diz a vox populi. Como é sabido, as entrevistas no acesso a empregos, por vezes, são utilizadas para proveito dos “cunhados”, palavra que nem sem sempre tem conotação de parentesco. Mas um uso em Portugal de finalidade duvidosa pode ter virtudes na República Checa. Terá?

Na imagem: As novas instalações da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto ontem inauguradas pelo Presidente da República.

George Bernard Shaw e os "interesses britânicos"



Com muito agrado do DRN, e provável desagrado dos súbditos de Sua Majestade, aqui se publica mais um texto do ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa:

Na última cimeira europeia, o primeiro ministro britânico, David Cameron, auto-excluíu-se do processo em curso, alegando estar ali apenas para defender os sagrados “interesses britânicos”. Quando um primeiro ministro de Sua Majestade britânica invoca este poluído cliché, já se sabe que o faz por estar a ter, no seu próprio país, problemas graves, que ameaçam a sua continuação no poder. O toque de clarim destinado à mobilização nacional tenta descortinar um inimigo comum, que desvie, por algum tempo, a atenção dos eleitores, dos graves problemas internos, para supostos inimigos externos. Os “interesses britânicos” costumam surtir grande efeito, em situações como estas. É xenófobo, egoísta  e um tanto reles, mas os políticos de Sua Majestade não costumam hesitar: apelar para a defesa desses “interesses” é um verdadeiro grito de “Às armas!”, que anula, instantaneamente, toda a racionalidade e decência e une os cidadãos até aí divididos, dispondo-os, na sua grande maioria, a apoiar o ministro, que, até há pouco quereriam derrubar.

George Bernard Shaw, o grande dramaturgo irlandês, que conhecia os ingleses como ninguém – os irlandeses conhecem bem os ingleses, pelas piores razões possíveis – não os poupava, desmascarando-lhes as intenções torpes, por debaixo da nobreza dos princípios invocados. Era, precisamente, o autor de Pigmaleão quem observava, com tiro certeiro: “Um inglês faz tudo, invocando princípios: luta contra ti, ao abrigo de princípios patrióticos; rouba-te, invocando princípios de negócios; escraviza-te, alegando princípios imperiais.” Tudo – porrada, roubalheira, opressão – sob a alçada de um discurso nobilíssimo e alevantado.

O recurso a um chauvinismo nacionalista, em pleno palco de uma cimeira europeia, que deveria, por isso mesmo que é europeia, fazer esbater todos os pruridos nacionalistas, dá bem a medida do modo de ser insular daquela curiosa e, aliás, corajosa gente. “O nacionalismo”, observava um romancista de entre as duas guerras (Richard Aldington), “é um galo tonto a cacarejar no seu próprio chiqueiro.” Eis um anglo-saxão lúcido e sem medo de dar o nome aos bois. Outro – Robert Snayerson – oferece-nos esta medalha bem polida: “O orgulho nacional é a forma moderna do tribalismo.” Eis o que o inglês médio, mesmo no século XXI, ainda não compreendeu: de aí, persistir, absurdamente, na libra, na condução pela esquerda e no ódio ao sistema decimal. Admirável coerência, se quiserem, mas alimentada em pura obtusidade.

Voltando a Cameron, típico produto do pior conservadorismo inglês, é mais do que provável que o primeiro ministro britânico tenha julgado “necessário”, para salvaguardar o seu futuro político, recorrer ao chauvinismo mais desbragado. Mas todos sabemos onde podem levar as chamadas “necessidades políticas”. O já citado George Bernard Shaw, persistente Nemésis dos vícios disfarçados dos ingleses, notava, provavelmente a pensar nestes, que “as necessidades políticas se revelam, por vezes, erros políticos.

A invocação inoportuna dos “interesses britânicos”, particularmente no contexto de uma cimeira europeia, trouxe-me irresistivelmente à memória uma passagem célebre de uma das peças mais famosas  do grande dramaturgo irlandês: Santa Joana. Numa reunião em que se congeminava o julgamento de Joana d’Arc, estando presentes o bispo Cauchon, Lord Warwick e um sanguíneo capelão inglês, Cauchon adverte: “Eu não sou meramente um bispo político: a minha fé é, para mim, o que a vossa honra é para vós; e se houver uma saída por onde esta baptizada filha de Deus possa esgueirar-se para obter a salvação, guiá-la-ei nessa direcção.” Isto irrita os ingleses, que querem “despachar” o julgamento e levar, rapidamente, a Donzela à fogueira. Iracundo, o capelão inglês reage, chamando “traidor” ao bispo francês, que se exalta e responde altivamente, nestes termos: “Vós mentis, padre. Se vos atreverdes a fazer o que esta mulher [ Joana d’Arc] fez – pôr o vosso país acima da Santa Igreja Católica – ireis para a fogueira com ela.” Warwick, pragmático, conciliador, dirige-se, apreensivamente, ao bispo: “Meu Senhor: peço-vos desculpa pela palavra [ traidor ] usada por Messire John Stogumber. Não significa em Inglaterra o mesmo que em França. Na vossa língua, traidor significa aquele que trai: alguém que é pérfido, traiçoeiro, desonesto, desleal. No nosso país, significa simplesmente alguém que não é totalmente devotado aos nossos interesses ingleses.”

Esta flecha envenenada, atirada por Shaw aos ingleses, desvela bem as grandes prioridades da pátria de Shakespeare, que se escondem um pouco por detrás daquele hipócrita “simplesmente” – os “interesses” são tão sagrados que o não total empenho na sua defesa seria – e é – nada menos do que alta traição, mais grave, de longe, do que o estupro ou o assassínio. Vem, a propósito, citar o romancista Malcolm Bradbury, quando dizia: “Gosto dos ingleses. Têm o código de imoralidade mais rígido do mundo.”E, também, digo eu, o mais original...

Os ingleses estão tão convencidos da sua superioridade em relação ao resto do mundo, que Cecil Rhodes afirmava que ter nascido inglês era o mesmo que ganhar a taluda, na lotaria da vida. E um personagem de uma peça de Shaw não hesita em afirmar: “ Nós não fomos lealmente batidos, my Lord. Nenhum inglês é jamais lealmente batido.”

Há neste convencimento cego uma estreiteza, uma espécie de incesto sufocante e grotesco de que toda a gente se apercebe, menos os ingleses. O romancista e historiador H. G. Wells, espírito universalista e, sob tantos aspectos, tão pouco inglês, bem avisava: “A democracia ateniense sofreu muito devido à estreiteza do patriotismo, que é a ruína de todas as nações.” Mais malcriados e directos, os franceses dizem-no de outra maneira: “O casamento produz cornudos e o patriotismo produz imbecis” (Paul Léautaud, Journal). Mas foi, afinal, Bernard Shaw (sempre ele!) quem disse o óbvio: “O patriotismo é a nossa convicção de que o nosso país é superior a todos os outros, por termos nascido nele.

David Cameron e os ingleses, em geral, deviam meditar nestas verdades simples e humildes, para evitarem falar de “interesses britânicos”, em ocasiões em que o tom apropriado seria coesão e solidariedade. O anúncio recente de estarem a preparar uma grande armada para repescarem súbditos britânicos de uma alegadamente falida Europa continental vai direitinho para uma exigente antologia de disparates de dimensão galáctica!

Na fotografia: David Cameron, 

A GRUTA DOS SONHOS ESQUECIDOS



Já chegou aos cinemas portugueses o filme em 3D sobre a gruta Chauvet, um santuário da arte rupestre.

HUMOR: TITANIC 3

HUMOR: TITANIC 2

HUMOR: TITANIC 1

Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

Essa lógica instrumental da actividade artística

A arte é frequentemente declarada como estratégia eficaz para resolver os mais variados e profundos problemas da humanidade: da infelicidade ao tédio, passando pela maldade. Mais recentemente, tem sido convocada na educação de populações frágeis sob o ponto de vista social. Mas, talvez a arte seja apenas arte. E isso basta, é tudo, para a justificar como conhecimento.
Jorge Barreto Xavier, coordenador de um projecto de intervenção junto de crianças e jovens em risco designado por
Reinserção pela Arte, em entrevista à revista Pública de 8 de Janeiro passado (página 14) diz o seguinte:



"Não quisemos usar a actividade artística como remédio. A arte como terapia, como ocupação do tempo livre, essa lógica instrumental da actividade artística acaba por ser uma forma de apropriação superficial...

A educação pela arte é a melhor forma de se chegar a estes jovens? 
Este projecto não foi feito no sentido de lhes dar só educação pela arte. Acreditámos que ia ajudá-los em termos educativos, mas nunca quisemos ser exclusivos. Contribuímos com objectos artísticos para sua formação e para lhes dar um contributo tanto para o quotidiano como para o futuro."

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

iParque@Coimbra

Um Artigo Sobre o Ensino Superior no Blogue da Universidade de Aveiro



“É um homem simples no fundo: não tem ambições – excepto saber” (Eça de Queiroz, 1845-1900).

Na minha fraca literacia informática, navegando na Net num barco a remos enquanto especialistas o fazem em lanchas rápidas, só por estes dias me deparei com a seguinte notícia:

“No âmbito do Laboratório de Avaliação da Qualidade Educativa (LAQUE), estrutura funcional do Centro de Investigação Didáctica e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade Aveiro, foi criado, em Março de 2007, o presente blogue onde são colocadas notícias da imprensa da área da Avaliação Educativa. Esta recolha tem como principal finalidade avaliar o impacte, nos mass media, das questões da avaliação educativa”.

Com essa intenção, transcreveu aquele blogue um artigo de opinião, publicado  em “O Primeiro de Janeiro” (21/06/2007), que abaixo se reproduz  porque, infelizmente, em vários aspectos, está longe de ter perdido a actualidade  no que respeita ao actual estado do sistema educativo neste dealbar do século XXI:

"O Ensino Superior dos Primórdios do Século Passado aos Nossos Dias

'O verdadeiro progresso democrático não é baixar a elite ao nível do povo, mas elevar o povo ao nível da elite' (Gustave Le Bon).

Para uma análise do que se passa no actual ensino superior nacional é mister caracterizar a sua evolução em três períodos distintos:

1.º - Até 1911 (data da criação da Universidade Clássica de Lisboa e da Universidade do Porto) coexistiam escolas superiores, v.g., Escolas Médico-Cirúrgicas e Curso Superior de Letras, com a única universidade de então, a de Coimbra.

2.º - A partir de 1911, a par das duas universidades referidas acima, existiam , segundo o Decreto n.º 36.507/47, de 17 de Setembro, duas escolas superiores militares – Escola  do Exército e  Escola Naval – e três civis: Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, Instituto Nacional de Educação Física  e curso de Arquitectura de Lisboa, os três últimos cursos, com assento na Universidade Técnica de Lisboa (criada em 1930), respectivamente, em 61, 75 e 79.  Neste último ano é integrado, também, o curso de Arquitectura  na Universidade do Porto.

3.º Nos anos sequentes ao 25 de Abril, assistiu-se a um verdadeiro boom com a criação em catadupa de universidades e instituições de ensino politécnico estatais e privadas.

Em 1979, é instituído o ensino politécnico que deu azo à transformação, por exemplo, dos cursos médios dos Institutos Industriais em Institutos Superiores de Engenharia e das Escolas do Magistério Primário e de Enfermagem , respectivamente, em Escolas Superiores de Educação e de Enfermagem. Este subsistema binário do ensino superior (sendo o outro o ensino universitário) tinha como destino inicial a instalação em cidades carecidas de ensino universitário. Mas logo se instalou, de armas e bagagens, em Lisboa, Porto e Coimbra, caindo, assim, por terra esta louvável intenção, como outra não menos importante para o desenvolvimento dessas regiões: ser o ensino politécnico um ensino de curta duração e de carácter profissionalizante.

Simultaneamente, em cascata, surge o ensino superior privado (em força a partir da década de 80, pela mão do então ministro da Educação Roberto Carneiro). Através de umas tantas dessas instituições universitárias ( vg., Moderna, Independente e Internacional) tem ele agora andado nas bocas do mundo, nas páginas dos jornais e nos ecrãs da televisão, nem sempre pelas melhores razões.  Em abono da verdade, nada disto se passou sem a responsabilidade dos diferentes partidos políticos tutelares da pasta da Educação, embora tenham sido alertados para este statu quo de que eram previsíveis os funestos efeitos.

A título de exemplo, em tempos, escrevia um professor da Universidade Católica, de seu nome Sérgio Rebelo, com cáustica ironia: “Onde antes havia uma pastelaria ou uma pequena mercearia, hoje tende a haver uma universidade ou uma escola superior, onde ontem se compravam pastéis de nata e garrafas de groselha, hoje conseguem-se licenciaturas e mestrados e encomendam-se doutoramentos” (Revista “Exame”, 4 de Novembro de 1996).

Este incontrolado crescimento do ensino superior privado necessita de uma terapia de choque para que possa sobreviver com alguma dignidade a um estado comatoso provocado pela escassez de candidatos à sua frequência. Nunca de um unguento, destinado ao tratamento de uma simples borbulha, espalhado numa carne em adiantado estado de gangrena!

Mas pior do que isso foi procurar a cura na permissão do respectivo ingresso a maiores de 23 anos, “independentemente das habilitações académicas”, com o argumento de Mariano Gago de se tratar de “um passo para a democratização do sistema de acesso ao ensino superior”! E, desta forma, se chama democratização a uma forma de desrespeito pelo esforço daqueles que cumpriram um percurso académico culminado com  o exigente 12.º ano do ensino secundário ou daqueles que em esforço pessoal se tornaram em verdadeiros autodidactas capazes de satisfazerem a seriedade do antigo exame ad hoc.

Falemos Claro! Em primeiro lugar, esta candidatura (que tenho como verdadeiro salto de canguru na ultrapassagem de normativos curriculares) atenta contra o desenvolvimento científico, social e económico do País que deve assentar numa séria formação académica dos seus cidadãos do ensino básico ao ensino universitário. Em segundo lugar, é uma maneira de lançar fornadas de “licenciados” para um mercado de trabalho mais carenciado da força de uma mão-de-obra com know-how do que, na circunstância, de um simples diploma de ensino superior que pouco deverá acrescentar em termos de competência profissional e, muito menos, de cultura geral. Em terceiro lugar, tem – isso sim – como finalidade combater o decréscimo crescente de alunos de posse do 12.º ano que demandam o ensino superior, assistindo-se, desta forma, ao primado d quantidade em detrimento da qualidade de uma clientela que satisfaz, com sacrifício das magras bolsas, o rendoso negócio de umas tantas escolas privadas.

Por tudo isto, não me parece ser o caminho a seguir no acesso ao ensino superior. Poderá ser o mais expedito para os alunos, o mais rendoso para as instituições privadas e o mais credor de dividendos para os políticos. Mas é, em contrapartida, o menos sério e o mais penalizante para com uma sociedade maltratada pelo facto “de uma minoria intelectual, que constitui o capital de orgulho de cada nação, se ver obrigada a cruzar os braços com inércia desdenhosa ou a deixá-los cair desoladamente sob pena de ser esterilmente derrotada” (Manuel Laranjeira, o jornal portuense “O Norte”, 1908). Ontem como hoje !

Rui Baptista

Ex-docente da Universidade do Porto. 

Escreve no “JANEIRO” quinzenalmente às quintas-feiras."

Post Scriptum: : Anteriormente a 25 de Abril/74, foi anunciada a integração universitária do Instituto Nacional de Educação Física conforme se documenta:” Quando este número já se encontrava em fase adiantada de impressão, chegou-nos a notícia de que o INEF havia sido integrado na Universidade Novas de Lisboa! Assim se concretiza uma das mais antigas e legítimas aspirações da Escola. Assim se abre um novo caminho à instituição” (Boletim do INEF, 2.ª série, n.º 2, Abril – Junho de 1973).

Passatempo conjunto "De Rerum Natura" / "Sorumbático"

O DRN, em mais um passatempo conjunto com o Sorumbático, oferece um exemplar desta obra ao melhor comentário que venha a ser feito até às 24 h do próximo dia 20 de Janeiro ao post intitulado «A Cidade dos Vampiros», que se pode ler [aqui].

Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

Fibonacci:O papel da Matemática em nossas vidas!

Difícil de acreditar? Com apenas 13 anos, o nova-iorquino Aidan Dwyer desbancou os mais renomados cientistas, de todo o mundo, que dedicam seus dias a pesquisas a respeito de métodos mais eficientes de captação de energia solar.

Veja a matéria no link abaixo:

Veja também meu video no Youtube "Porque devo aprender a Matemática?"

O VALOR DO ENSINO EXPERIMENTAL


Minha apresentação no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho do livro "O Valor do Ensino Experimental", publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos: aqui.

A CIDADE DOS VAMPIROS


Minha crónica na última revista "C" (no desenho, traje dos estudantes de Coimbra no século XVI, segundo autores holandeses):

Coimbra mereceu honras de artigo recente no New York Times. Um jornalista norte-americano passou por Coimbra e escreveu uma curiosa crónica. Ficou sobretudo impressionado com o pitoresco dos estudantes de capa e batina, cuja aparência ele, neste tempo da Saga do Crepúsculo, não hesitou em designar de “vampiresca”. Com uma pitada de humor, acrescentou que nenhum deles lhe tentou sugar o sangue...

Tivesse, porém, o visitante vindo a Coimbra num século anterior, essa comparação não lhe teria ocorrido, até porque o Drácula de Bram Stoker só remonta a 1897. O austríaco Heinrich Friedrich Link, que visitou Coimbra em 1798, comparou o traje dos escolares ao dos padres. De facto, o hábito talar tem uma origem eclesiástica, devido à ancestral ligação entre a universidade e a igreja. Link afirmou que “as ruas estão permanentemente cheias dessas pessoas vestidas de negro que oferecem um aspecto triste e fradesco”. Não admira, por isso, que o Marquês de Pombal tenha, embora debalde, querido banir com o traje antigo e que, no início da República, a capa e a batina quase tenham sido proibidas.

No século XIX, o uniforme dos estudantes de Coimbra foi comparado com as vestes dos antigos alquimistas. Em 1842, o príncipe polaco Feliz Lichnowsky falou dos “estudantes, com um traje negro, em parte eclesiástico, em parte da idade média, como se fossem discípulos de Fausto ou de Paracelso”. E, na mesma linha, em 1866, o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen comentou, após uma visita a Coimbra, que“o traje é pitoresco, lembra Fausto e Teofrasto”.

Estudei em Coimbra pouco após o luto académico de 1969, pelo que não usei capa e batina. Apesar de me parecer um vestuário um pouco quente para o Verão, nada tenho contra o seu uso por quem goste. Todos os visitantes estrangeiros que tenho guiado na Lusa Atenas me têm perguntado pela origem e significado do traje, pelo que não desprezo o valor turístico para a cidade dessa indumentária temporalmente exótica. Já, quanto ao resto do país, acho algo ridícula a imitação que escolas recentes têm feito das tradições coimbrãs, inventando trajes que nunca poderiam ter existido nessas instituições.

Não estranho, pois, a boa recordação que o traje de Coimbra deixa nos modernos visitantes. Mas há um passo da peça do New York Times que me chamou mais a atenção. O jornalista situa a cidade indiferentemente em dois lugares do tempo separados de três séculos e meio: “Igrejas antigas, praças pitorescas e a falta quase total de lojas internacionais podem fazer situar tanto a Alta como a Baixa na década de 1950 - ou na de 1590.” Tal significa afinal que viu, do ponto de vista arquitectónico, urbanístico e comercial, uma cidade parada no tempo. É um pouco injusto, convenhamos. O visitante podia ter referido, por exemplo, o Parque Verde, com o Pavilhão Centro de Portugal, ou o Pólo II da Universidade, com a sede da Faculdade de Ciências e Tecnologia. Mas é, convenhamos também, um pouco justo, já que à beira do Mondego, e pese embora o muito activo Departamento de Arquitectura, são raros os edifícios de traça contemporânea. Os vultos “vampirescos” dos estudantes seriam ainda mais impressionantes se, aumentando o anacronismo, os cenários fossem fachadas dos dias de hoje...

O CENTENÁRIO DO TITANIC


Minha crónica publicada no "Sol" de sexta-feira passada (antes, portanto, do naufrágio do Costa Concordia nem Itália:

No próximo dia 14 de Abril, um navio de cruzeiro, com mail de mil passageiros a bordo, em trânsito de Southampton para Nova Iorque, parará nas águas gélidas do Atlântico Norte na posição de coordenadas 41° 43′ 55″ N, 49° 56′ 45″ W, onde, exactamente há cem anos, o RMS Titanic naufragou devido à colisão com um grande icebergue. Rezar-se-á uma oração pelas 1517 vítimas do acidente.

O Titanic Memorial Cruise recriará a viagem do que era, na época, o maior navio do mundo. As indumentárias da tripulação serão as da época, assim como as refeições e as músicas pela orquestra de bordo. Só o navio – o Balmoral – não será da época. Não haverá desta vez uma colisão como aquela que originou a inesperada tragédia. Algumas das razões da segurança das actuais viagens marítimas remontam ao inquérito efectuado logo após o acidente. De facto, essa investigação identificou factores que podiam ter evitado o desastre ou, pelo menos, minimizado os seus efeitos. Por exemplo, os passageiros de 3.ª classe morreram em percentagem maior que os das outras classes, porque, albergados nos níveis inferiores, não tinham acesso fácil aos botes salva-vidas, no nível superior. Aprende-se com os erros: As leis que presidem à construção naval melhoraram, os procedimentos de segurança foram reforçados (com a obrigatoriedade de salva-vidas para todas as pessoas a bordo) e até patrulhas de detecção e destruição de icebergs foram instituídas.

Uma das tecnologias que os navios modernos utilizam surgiu precisamente em virtude do desastre. Trata-se do sonar, o uso de ultra-sons para detecção de obstáculos graças ao fenómeno do eco. Já se sabia no século XIX que os morcegos tinham uma propriedade estranha: viam com os ouvidos! Mas só com as notícias do Titanic o meteorologista inglês Lewis Richardson se lembrou de criar um invento baseado no princípio que a evolução desenvolveu nos morcegos. O sonar haveria de ser aperfeiçoado durante a Primeira Grande Guerra para detecção de submarinos pelo físico francês Paul Langevin (o mesmo que teve em 1911 uma relação escandalosa com Madame Curie).

O desastre do Titanic continua a desencadear o uso de novas tecnologias. Foi assim que o oceanógrafo norte-americano Robert Ballard detectou em 1985 o sítio do naufrágio para a seguir efectuar uma campanha arqueológica, que permitiu resgatar objectos que têm andado pelo mundo em exposições. E é assim que, em Abril próximo, a recente tecnologia do cinema a três dimensões vai permitir estrear uma nova versão de um dos mais famosos filmes de sempre, o Titanic, de James Cameron, com Leonardo di Caprio e Kate Winslet nos principais papéis. Àqueles que não arranjaram lugares no Titanic Memorial Cruise resta-lhes a consolação de viverem a experiência multimédia no cinema.

Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

I Colóquio de História da Alimentação na Antiguidade


Informação chegada ao De Rerum Natura.

Numa colaboração entre o Mestrado em Alimentação – Fontes, Cultura e Sociedade da Faculdade de Letras de Universidade de Coimbra, a Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra e a Associação Cultural Thíasos, realiza-se no dia próximo dia 20 de Janeiro, a partir das 9h, no Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o I Colóquio de História da Alimentação Antiguidade.

Os temas da Alimentação, da produção alimentar e da gastronomia entraram, nos tempos recentes, entre os tópicos de discussão e de reflexão do homem comum, granjeando uma popularidade sem precedentes nos meios de comunicação e de entretenimento actuais.

Também o estudo da História da Alimentação, em particular no domínio da História da Antiguidade, constitui um ramo de investigação relativamente recente nas universidades portuguesas. A sua pertinência para um mais completo conhecimento do Homem – numa visão que se deseja polifónica, multidisciplinar, na medida do possível, abrangente – explica a atenção progressiva que tem suscitado, no nosso país e no estrangeiro, entre especialistas de áreas complementares e, tantas vezes, de fronteiras difíceis de limitar, como são os Estudos Clássicos, a História da Antiguidade e a Arqueologia.

É actualmente missão reconhecida da ciência universitária participar no diálogo coma sociedade civil e com os agentes culturais, no que estes apresentam como produtos ou tendências de cultura inovadores.

Porisso, entendeu-se ser oportuno contribuir para o conhecimento esclarecido, rigoroso e informado do património material e imaterial da humanidade que é a Alimentação, valorizando a dimensão formativa e pedagógica basilar do Ensino Público Universitário, e assim trazer para o presente aspectos do homem antigo menos divulgados e menos valorizadas até agora pela investigação académica.

A realização do presente colóquio visa, pois, dar a conhecer as mais antigas raízes do nosso património alimentar, fundadas nas grandes culturas antigas do Mediterrâneo de que o homem ocidental é herdeiro, criando um espaço aberto ao debate, sempre enriquecedor, dentro da comunidade académica (entre alunos, docentes e especialistas convidados) e, em particular, entre esta e a comunidade civil em geral, oferecendo-se uma oportunidade de reflexão e de conhecimento sobre a Alimentação na Antiguidade enquanto realidade indelevelmente modeladora do que somos hoje.

Rousseau segundo Barzun: o Bom Selvagem como abstracção

Não dominando, com destreza de especialista, a obra de Jean-Jacques Rousseau, tenho tido curiosidade e oportunidade de conhecer diversas leituras que dela se fazem. Até ao presente, nenhuma me pareceu tão clara e precisa como a que saiu da pena de Jacques Barzun. Em quatro páginas e meia, este professor e historiador da aventura humana, que recentemente foi lembrado neste blogue, apresenta o filósofo, esclarece o seu pensamento, desfaz equívocos. Fiquemo-nos por dois desses equívocos, que, aliás se interligam: o Bom Selvagem, objecto deste post, e a Recusa de Educação em «Emílio»,objecto de post seguinte.
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Sigamos, então, as palavras de Barzun.
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“Nos escritos académicos, bem como nos textos jornalísticos, o nome de Rousseau e o adjectivo «rousseauniano» são utilizados para caracterizar opiniões que ele jamais defendeu (…). Para que conste: Rousseau não inventou nem idolatrou o «bom selvagem», não exortou ao «regresso à natureza», não afirmou que o homem, tendo nascido livre e vivendo acorrentado, deve libertar-se das suas correntes (…)”


Depois de ter publicado em 1749 um ensaio que foi premiado pela Academia de Dijon – O discurso sobre os efeitos morais das Artes e das Letras – Rousseau, “então com 43 anos (…) escreveu outro opúsculo,Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. É aqui que começam os mitos sobre as suas ideias: Voltaire que se sentira irritado com o primeiro ensaio, sentiu-se ultrajado com o segundo, declarando que Rousseau pretendia que «caminhássemos sobre os quatro membros» como os animais e nos comportássemos como selvagens, que o autor via como criaturas perfeitas. Destas interpretações, plausíveis mas inexactas, surgiram os lugares-comuns do Bom Selvagem e do Regresso à Natureza.”
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Neste ponto, Barzun relembra que se trata de lugares-comuns porque acompanham o nosso pensamento desde a Antiguidade, estando longe de serem invenções de Rousseau: são, isso sim, “abstracções” que “reaparecem sempre que a sociedade se torna demasiado complexa e se autocensura pela sua artificialidade”.
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Retomemos a linha de pensamento deste autor: “De facto, Rousseau insurgiu-se contra as características da alta civilização, mas não pregou um regresso ao estado natural. Considerava o selvagem sob muitos aspectos, pouco apelativo – carecendo de moralidade, agindo por instinto, sem pensamento e em determinada fase sem linguagem, e apenas preocupado com a mera subsistência. Aquilo que é preferível, sempre que a sociedade e a propriedade se estabelecem e a desigualdade de talentos se revela, é que as capacidades individuais sejam recompensadas a favor da comunidade (…) a partir do momento em que o estatuto social e a riqueza já não correspondem ao mérito, a disparidade converte-se em injustiça e conduz à instabilidade.”
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“Tomados em conjunto, estes dois primeiros ensaios constituem uma crítica negativa ao estado de coisas corrente.” 

Referência completa:
Barzun, J. (2003). Da Alvorada à Decadência: De 1500 à Actualidade - 500 Anos de Vida Cultural do Ocidente». Lisboa: Gradiva.

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

"Todos têm direito à educação"

Ontem, numa entrevista de telejornal, perguntaram a uma professora universitária dum departamento de economia, ao que soube muito conceituado, em que é que aconselhava os portugueses a investir. 
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Em casa própria, não; em educação, seguramente. Explicou com algum detalhe: a tendência é do Estado recuar nesta matéria, pelo terão de ser as famílias a garantir a educação dos seus filhos.
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E disse isto com muita segurança, sem uma nota de apreensão, sem mudar o tom de voz, sem deixar de sorrir.
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Foi sobretudo a forma do discurso que me levou a escrever este pequeno apontamento, para lembrar (será preciso?) que o direito à educação, com destaque para a educação escolar, constitui um passo civilizacional, que só foi possível darmos na Modernidade. Portugal deu esse passo mais tarde do que muitos países ocidentais, mas deu-o.
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"Todos têm direito à educação": é o que está consagrado na Constituição da República Portuguesa (Artigos 73.º e 74.º), e na Lei de Bases do Sistema Educativo, nas suas versões de 1986 e de 2005 (Artigos 2.º e 3.º). E já estava consagrado na Lei n.º 5/73, de 25 de Julho, mais conhecida por Lei Veiga Simão (Base II).
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O que se explica em todos estes documentos fundamentais é que, por questões de princípio, a sociedade assume a educação formal, para que nenhuma criança e/ou jovem fique privado de tal bem.
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Se por alguma razão a sociedade deixar de o poder assegurar, deve ser com um grande,um imenso, pesar que nos devemos referir a esse retrocesso, sobretudo se estivermos conscientes do que isso significa para cada um, para a própria sociedade e para a humanidade.