2011/11/17
2011/10/11
Sexta-Feira...
Na próxima sexta-feira torno-me cidadão americano. Vim para aqui estudar há 13 anos e acabei por ter de ficar aqui quando os meus colegas desataram a fechar-me as portas todas. Nunca me vou esquecer do dia em que decidi ficar por cá: um dos meus colegas disse-me que não era justo ele não ter acabado o mestrado dele e eu aparecer assim com um PhD...
Os americanos nunca me trataram mal ou injustamente, em 13 anos. Sempre respeitadores e pacientes comigo, que odeio o campo e os evangélicos, sempre a quererem matar os muçulmanos e os homossexuais (vem na Bíblia!), a quererem aperfeiçoar os judeus, reprimir os fumadores, executar os pobres, odeio o governador, que acho que é ainda mais amoral do que o Bush, odeio os mosquitos e os puritanos, odeio não poder ir ao supermercado ao domingo de manhã, qyuando estão todos na missa, porque não se pode comprar vinho nem cerveja (é ilegal)...
Na próxima semana começo a envolver-me politicamente, a juntar a minha voz á dos que lutam por um estado laico, contra o racismo, as armas nas escolas, a poluição, o nepotismo... :o)
Adoro a ideia de vir a fazer parte desta comunidade, onde trabalho como um cavalo há 13 anos, pago impostos e educo os meus filhos.
2011/05/30
Reencontro
Eleições: parece que o Paulo Portas e o Nobre Guedes fizeram as pazes. Que alegria! Quando me falam do Paulo Portas tenho sempre a mesma fantasia: adorava arrancar-lhe os braços e dar-lhe com eles até o matar.
Idiota
O Khadafi do Texas agora declarou que quer ser presindente. Este idiota, ao pé de quem o Alberto João Jardim parece um intelectual, quer armar os alunos nas salas de aula, acredita que o mundo foi feito por um deus há 6.000 anos, em seis dias.
2011/05/29
Direito de Pernada
Hoje foi o ministro francês George Tron (da função pública) que se despediu depois de ser acusado de violar duas mulheres. Como fenómeno social, é interessante ver estes últimos estrebuchos da classe média perante os abusos dos oligarcas.
Vamos a caminho de um mundo em que não vai haver comida, nem água, nem espaço para todos, e em que um pequeno grupo de dois ou três milhões de pessoas avança todos os dias a agenda do neo-feudalismo através de cortes nos impostos dos ricos e cortes na privacidade dos cidadãos, normalmente justificados com a questão da segurança.
A única coisa que aumenta é a informação, por agora, enquanto a internet não for controlada por duas ou três empresas globais. Há 30 anos os media dos EUA eram controlados por cerca de 30 empresas. Hoje são quatro.
O direito de pernada é um direito natural com dezenas de milhar de anos, que foi interrompido durante menos de 50 anos, num pequeno número de países europeaus que viveram uma experiência democrática extraordinária.
As coisas estão, infelizmente, a voltar ao normal.
2011/05/26
DSK
Parece que na Europa a esquerda está convencida que a prisão de Strauss-Kahn faz parte de uma conspiração. A primeira coisa que acho importante esclarecer é que Strauss-Kahn não é de esquerda há muitos anos. DSK é um multimilionário que vê o mundo do ponto de vista dos milionários. O director do FMI nunca foi e nunca vai ser um homem com preocupações socias. A segunda é que ele se está nas tintas para os miseráveis que limpam as casas de banho dos hotéis onde ele fica e que custam três mil dólares por noite, e que não é a primeira vez que ele tenta violar uma mulher (nem a segunda, nem a terceira).
Os americanos são calvinistas e odeiam o corpo e têm uma relação puritana e medieval com o erotismo e o sexo. Aqui o sexo é uma coisa ofensiva, porca e má, que degrada as pessoas, mesmo as que estão predestinadas por deus para irem para o céu (os ricos), a menos que não sejam apanhados.
Strauss-Kahn foi apanhado. Ponto final. Não há conspirações nem sentimentos anti-franceses, nem razões económicas.
O que o safa é ser multimilionário. A lei, como se sabe, é para os pobres, e DSK vai-se safar, como é óbvio.
Verão
Espero que os meus filhos se lembrem destas noites de verão como eu me lembro das minhas em Santarém. A geração deles vai viver num mundo muito pior do que aquele em que eu cresci e eu espero que esta infância de abundância sem sobressaltos lhes seja útil no futuro. Para eles a violência dos sentimentos dos texanos em relação à vida, à cultura e ao mundo exterior são pouco importantes. Nós não temos televisão e aqui em casa estão na velha Europa, com livros do Marcel Pagnol, música do Brassens e filmes do Jean Renoir e do Truffault.
Academia
Hoje fui a uma reunião com os manda-chuvas todos da universidade. Tudo gente industriosa, agressiva, extremamente conservadora. Tecnocratas. Não devemos criticar os tecnocratas sem piedade. Os tecnocratas são precisos e há coisas que eles fazem melhor que ninguém (por exemplo: ninguém fazia auto-estradas como o Hitler).
Mas a verdade é que não havia ninguém brilhante na mesa dos poderosos. Todos tecnocratas nomeados pelo nosso governador imbecil com base na ideologia e na religião, a maioria, senão todos, sem graus académicos e a demonstrarem a desconfiança e a animosidade que têm a este grupo esotérico de pessoas - os professores! - que lhes estragam os discursos com factos, cada vez que eles vêm defender a ignorância e o terror ao deus dos evangélicos como virtudes cadeais.
A reunião começou com uma oração e ao meu lado estavam quatro gravatinhas, muito penteadinhos, dos jovens conservadores do Texas... lembrei-me dos meus anos de liceu, em que eu era um jovem conservador, e envergonhei-me muito. Ao meu lado estava o jovem impulsionador da campanha contra o grupo de apoio aos gays e lésbicas aqui na universidade, que filmou as reuniões deles e lhes meteu as caras na internet, para que toda a gente saiba quem eles são.
Arqueologia Subaquática
Acabou este mês um período de quase uma década de marasmo e imobilidade na arqueologia subaquática portuguesa.
A estrutura da administração pública é muitas vezes disfuncional: vertical, com uma única pessoa à frente. Ou seja, cada departamento é um mandarinato com um mandarim e dois ou três gatos-sapatos que lhe fazem as vontades a troco de quase nada. Os mandarins começam geralmente a vida à frente dos mandarinatos cheios de ideias e de energia, a escreverem bolsas e a dirigirem projectos. Depois, quando se torna imperativo delegar e repartir os louros e os triunfos, a coisa complica-se. Repartir é a palavra proibida. Em poucos anos a vida torna-se-lhes num pesadelo, reactiva, com pessoas cheias de energia e de ideias a proporem projectos e a quererem trabalhar, sempre a pedirem autorizações para isto e para aquilo, muitas vezes coisas com visibilidade e relevância. A inveja dos impotentes aparece-lhes na secretária e não os deixa pensar nem trabalhar.
Em pouco tempo os mandarins transformam-se em desgraçados sem tempo para nada, a gastarem cada vez mais energia a pararem as coisas que não conseguem controlar e a imaginarem inimigos e competidores em cada esquina.
Em Portugal ninguém é despedido por não fazer nem deixar fazer e os mandarins envelhecem no posto, cada mais infelizes e mais amargos. Depois de viverem existências mais ou menos longas - sempre longas demais! - entre frustrações e desilusões e paranóias, reformam-se e vêem o novo mandarim fazer coisas, cheio de ideias e de energia, a escrever bolsas e a dirigir projectos...
Desta vez as coisas parecem bastante diferentes: uma série de medidas da direcção do IGESPAR, excepcionais pela coragem e sensatez que as informou, criaram condições fantásticas para que possamos começar a trabalhar em paralelo e na mesma direcção. Aqui no meu exílio dourado estou entusiasmado e optimista.
Uma verdade importante
Só há exploradores porque os explorados não se importam de serem explorados. A maioria das pessoas que conheço não perde uma oportunidade para rastejar lascarinamente à roda dos ricos e dos poderosos, dos que não pagam impostos e nos dizem que "não há dinheiro", que a nossa productividade é baixa.
Ou os que nos dizem que se os ricos não pagarem impostos desatam a construir empresas e a criar postos de trabalho: trickle down economics.
E eu olho para estes bovinos, há 40 anos à espera que o dinheiro acumulado no topo escorra, sem perceberem que o Reagan e a Thatcher estavam a brincar.
2011/05/22
1900
Em 1900 o Félix Nadar tinha 80 anos, o Tolstoy tinha 72, o Ibsen tinha 72, o Mendeleev tinha 66, o Cézanne tinha 61, o Monet tinha 60, o Renoir tinha 59, o Nietzsche tinha 56, o Strindberg tinha 51, o Oscar Wilde tinha 46, o Freud tinha 44, o Heinrich Hertz tinha 43, o Durkheim tinha 42, o Rudolf Diesel tinha 42, o Pierre Curie tinha 41, o Mahler e o Chekhov tinham 40, o Richard Strauss tinha 36, o Marie Curie tinha 33, o Matisse tinha 31, o Alfred Adler e o Lenine tinham 30, o Schoenberg tinha 26, o Jung 25, o Einstein 21, o Apollinaire 20, o Picasso 19, o Braque e o Stravinsky 18, o Webern tinha 17, o Modigliani tinha 16, o Niels Bohr e o Alban Berg 15, o Schrödinger tinha 13, o Chagall 13, o Jean Cocteau 11, o Max Ernst 9 e o Federico García Lorca 2.
O Buíça tinha 24 e o Costa 17.
2011/05/21
Portugal
No meio da crise distante e estrangeira sobre a qual que vou lendo aqui e ali, e apesar das tragédias da eleição do Cavaco e da ascensão do Passos Coelho, Portugal aparece-me outra vez como um sítio simpático, onde se calhar um dia ainda tento fazer um projecto de arqueologia subaquática. Os meus inimigos estão velhos, uns doentes, outros reformados. A ideia de que o tempo também passou aí, durante estes meus 13 anos de exílio, é divertida. Dei comigo a imaginar os meus inimigos com dores nas costas, problemas de digestão, a próstata a obrigá-los a chegarem-se muito pertinho do urinol para pouparem os sapatos.
Pergunto-me se algum alguma vez, se sentiu cansado de gastar a vida a tramar os outros, em vez de trabalhar. Provavelmente não.
Um ano em silêncio
Este ano passaram-se tantas coisas aqui no Texas, os anormais do Tea Party organizaram-se e ganharam batalhas seguidas contra o bom gosto, o bom senso e a civilização. De repente acordei com 50 anos e a minha tolerância em relação aos discursos inflamados destes anormais desapareceu. Evaporou-se. Acabou-se-me o sentido de humor. As campanhas para armar os alunos na sala de aulas, as manifestções dos pro-vidas, os ataques contra os homossexuais, contra os impostos, contra os sindicatos, contra a segurança social e contra os muçulmanos, transformaram estes desgraçados nuns boçais insuportáveis e deprimentes.
Meti-me a trabalhar e a ler. E a cozinhar. Acabei uma data de projectos e comecei uma data de projectos. Como me dizia um amigo meu, francês, depois de passar aqui uma semana: "Como é que é possível trabalhar em França? E como é que é possível viver no Texas?"
De facto, trabalhar aqui é um prazer. Viver? Não é assim tão mau.