timoteoshel@yahoo.fr........Clique em The Hunger Site. Melhor seria se fizesse deste site a sua Homepage
4.5.08
acabaram-se as bizantinices sobre o neoliberalismo
"O espectro da fome paira sobre a cabeça dos mais necessitados, com muita gente a viver abaixo do limiar de pobreza e com esquemas de apoio social muito deficientes"
"Qual será a probabilidade de, por mero acaso, o universo ter tido uma singularidade inicial que se assemelhe, mesmo que remotamente, ao que é actualmente? Será menor do que um em 10 elevado a 10 elevado a 23. Donde provém esta estimativa? Deriva de uma fórmula de Jacob Beckenstein e Stephen Hawking relativa à entropia de um buraco negro e, se fosse aplicada neste contexto particular, obter-se-ia este enorme resultado. Depende da grandeza do universo, mas, se adoptar o meu universo favorito, o número será, de facto, infinito.
O que nos diz isto acerca da precisão que estará necessariamente envolvida na construção do big bang? É realmente muito, muito extraordinária. Representei a probabilidade num desenho do Criador, encontrando um ponto extremamente pequeno naquele espaço de fase que representa as condições iniciais a partir das quais o nosso universo deverá ter evoluído para se assemelhar remotamente àquele em que vivemos (figura 1.30 - que aqui não reproduzo, itálico meu, timshel ). Para o encontrar o Criador teve de localizar esse ponto no espaço de fase com uma exactidão de um em 10 elevado a 10 elevado a 23. Se pusesse um zero em cada partícula elementar existente no universo, ainda não poderia escrever esse número por completo. É um número extraordinário. Tenho estado a falar de precisão, isto é, de como a matemática e a física se encaixam com extraordinária exactidão. Abordei também a segunda lei da termodinâmica, que é frequentemente considerada uma lei algo menos rigorosa — refere-se à aleatoriedade e ao acaso —, mas há algo bastante preciso escondido nesta lei. Na sua aplicação ao universo está relacionada com a precisão com que o estado inicial foi criado."
("O grande, o pequeno e a mente humana", Roger Penrose, tradução de David Resendes [com pequenas correcções linguísticas que entendi necessárias, feitas por mim], Editora Gradiva, pags. 57 a 60)
Sem nada ter que ver com este post, aproveito (quando me decido a escrever aqui alguma coisa tenho que aproveitar:)) para chamar a atenção para este post do Mats.
Desregule-se a actividade bancária nos EUA e deixe-se a competição selvagem a funcionar a todo o vapor.
Junte-se um fosso cada vez mais maior entre quem tem liquidez (os ricos) e quem não a tem (nem a liquidez nem nenhum outro recurso) (os pobres) e esqueça-se que a actividade bancária numa sociedade com uma crescente erosão da classe média corre o risco de se queimar.
Deixe-se em lume brando os bancos a emprestar cada vez mais, a pisar e a ultrapassar o risco (a competitividade é feroz e quando não se têm bons clientes a quem emprestar o dinheiro não há outro remédio senão emprestar dinheiro a "tesos" pensando sempre que vai correr tudo bem, que talvez esses pobres diabos consigam, com um pouco de sorte, respeitar as suas obrigações bancárias).
Recorde-se de vez em quando que a actividade bancária só existe se se conseguir colocar a liquidez de quem a tem nas mãos de quem a não tem mas que consiga pagar, com juros.
Quando todos os índices apontarem para um crescente e descontrolado processo de desigualitarização social nos EUA, os bancos (sobretudo se a actividade bancária estiver completamente desregulamentada e descontrolada como é - ou foi até há poucos dias - lá o caso) já não podem sair do forno e devem lá ficar até esturrar e o dinheiro do contribuinte vier apagar o fogo.
Este é um comentário particularmente feliz do Luís Rainha ao post que linko.
Este post do Gabriel é paradigmático do raciocínio neo-liberal. Na cartilha neo-liberal, a solução de todos os problemas é deixar a "ordem espontânea", os "processos naturais", tomar conta do assunto numa espécie de medicina naturalista. É assim que nesta cartilha a redistribuição não faz sentido porque, num sistema social não-redistributivo, a longo prazo os pobres morreram todos, eliminados pela "ordem espontânea".
Segundo eles, a longo prazo, se deixarmos a "ordem espontânea" funcionar, todos os problemas serão resolvidos (e de certo modo é verdade no sentido que é uma evidência que a longo prazo todos estaremos mortos).
O que é estranho nesta moral é a completa indiferença neo-liberal aos custos humanos do curto prazo. Ainda não percebi se eles consideram o curto prazo como uma espécie de contrariedade que tem que se suportar até o paraíso neo-liberal chegar ou se é o termo "humanos" que não consta da cartilha neo-liberal.
"Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um." Actos dos Apóstolos, 2, 44 e 45"
Karl Marx, "Crítica ao Programa de Gotha": "Numa fase superior da sociedade comunista, só então o limitado horizonte do direito burguês poderá ser definitivamente ultrapassado e a sociedade comunista poderá escrever nas suas bandeiras: ‘De cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades!’"
O blogue "Que Treta!" tem apresentado uma série de posts particularmente interessantes em defesa do ateísmo.
Neste momento apenas me ocorre colocar algumas questões (que aliás já coloquei nos comentários ao referido blogue).
Porque é que a matéria tem condições que permitem a vida?
É assim porque é assim?
Tem algum interesse colocar a questão?
Em que medida a resposta, qualquer que ela seja (e mesmo uma "não-resposta" é uma resposta, isto é, é uma escolha de uma resposta), a estas questões é susceptível de traduzir a nossa própria existência?
Isto é, se a resposta indicar que não existe um qualquer sentido na vida para além daquele que decorre das leis da matéria (e se não se crer que estas leis são uma imanência do Transcendente), qual o conceito de existência, enquanto indíviduos e enquanto sociedade, que decorre, lógicamente, desta escolha pela "não-crença"?
A propósito do episódio da "tourada no YouTube" lembrei-me de um excerto de um livro de Viktor Frankl, "Man's Search for Meaning" (que, penso, não se encontra traduzido para português):
"Não foram só a partir de alguns ministérios de Berlim que foram inventadas as câmaras de gás de Maidanek, Auschwitz, Treblinka: elas foram preparadas nos gabinetes e salas de aula de cientistas e filósofos niilistas, entre os quais se contavam e contam pessoas que até receberam o Prémio Nobel. De facto, se a vida humana não passa do insignificante produto acidental de umas moléculas compostas por proteínas, pouco importa que um deficiente mental seja eliminado como inútil e que ao deficiente mental se acrescentem mais uns quantos povos inferiores: trata-se de um raciocínio perfeitamente lógico e consequente." (tradução livre)
Sendo óbvio que não pode haver comparação entre a actual situação do ensino em Portugal e as câmaras de gás nazis, e sendo a distribuição de culpas muito vasta, enquanto os pais dizem que a culpa é dos professores e os professores dizem que a culpa é dos pais, e toda a gente fica satisfeita por a culpa residir algures, politicamente, ninguém vai querer tirar conclusões porque as conclusões podiam ameaçar "dogmas" políticamente correctos sobre a escola, o ensino, a sociedade, o papel dos valores, a regulação (com rédea curta) do capitalismo nos meios de comunicação social de massas, etc.
Não deixa de ser irónico este post em que se defende a "punição exemplar" da miuda do video; depois da total ausência de políticas de estruturação e fundamentação de valores morais, de que é um exemplo o mais radical laxismo na regulação dos meios de comunicação social de massas em nome da sempeterna liberdade (ou será laissez-faire?), aparece a repressão pura e dura e exemplar como único remédio: “the show must go on” e os infelizes "enchidos" (utilizando a feliz expressão do dragão) que estiverem no momento errado no lugar errado serão simplesmente trucidados.
A zazie nunca me viu mas admiro a lucidez e exactidão do retrato:
"empipado, de livrinho vermelho forrado a grená papal na mão e crucifixo à cinta para exorcizar toda a Direita"
aproveiro para esclarecer uma sua dúvida aí atrás nos comentários em que ela declara peremptoriamente que eu sou maluco quando digo que o único mandamento que Jesus nos deixou foi o mandamento do amor (nas sua palavras: "Essa é pancada tua. De modo nenhum o único mandamento do Novo Testamento podia ser o Amor")
Cito, entre muitos outros e para já (deveria aliás começar pelas palavras de Cristo nos Evangelhos mas prefiro começar pelo Soberano Pontífice), o Papa Bento XVI:
"Esta comunhão com o Deus vivo, assim ele nos diz, põe o homem na luz. Abrem-se os seus olhos e ele vive na luz, isto é, na verdade de Deus, que se exprime no único, novo mandamento, que tudo engloba no mandamento do amor".
"Today, society no longer believes in mortal sin – and its response to suicide shows that it lacks a moral vocabulary with which to make sense of this act. The most striking thing about officialdom and the media’s response to suicide is that they tend to treat it as a normal fact of life. In so far as it is seen as a problem, it is treated as a target-based issue, like literacy rates in schools or reducing the number of obese people. Thus we hear that the Welsh Assembly is going to work out a target for reducing suicide: apparently it wants to see a 10 per cent drop in suicide levels by 2012. Others call on officials to introduce ‘anti-suicide plans’, while mental health professionals insist that teachers should be trained in ‘suicide awareness’. All that is lacking from this repertoire of officialese about targets, raising awareness and ‘lending support’ is for some earnest public-health official to declare a zero-tolerance policy on suicide.
If Durkheim were alive today, it would strike him as incomprehensible that suicide has been disassociated from moral judgment. Of course, society still believes that suicide is wrong, and that suicide is an individual tragedy, especially when young people are involved. Yet running alongside the discussion of suicide as a ‘problem’ is the notion that suicide is also a lifestyle choice."
"Sadly, the casual way in which life is treated these days does not only impact on the manner of ending it. Many now argue that the creation of new human life is a major problem. Influential environmentalist currents regard people – or at least the growth of the number of people – as the primary source of the world’s problems. Newborn children are discussed as an extra burden on our apparently fragile planet. As potential polluters, babies cease to be lovely cuddly things that bring so much joy to our lives, and instead are seen as destructive beings whose carbon emissions must continually be offset. Robbing babies of what we perceive to be their endearing innocence makes it easier to scare people away from having them, or at least from having too many of them. In recent centuries, babies were frequently seen as a blessing – now many argue that not having a baby is a blessing, at least for the environment.
Environmentalist writer Kelpie Wilson explicitly advocates such a reversal in the valuation of human life. She presents abortion, not so much as a necessary option that allows women to determine their lives, but rather as something we should embrace in the name of reducing the population and protecting the environment. ‘To understand that a tiny embryo must sometimes be sacrificed for the greater good of the family or the human species as a whole is the moral high ground that we stand on today’, she recently argued. Why? Because ‘we have to consider how we will live tomorrow on a resource-depleted and climate-compromised planet’. From Wilson’s perspective, abortion is morally justified as a resource-saving strategy. She believes that ‘most women who seek abortions do so in order to conserve resources for children they already have’."
uma das mais curiosas reacções da esquerda "bem-pensante" que partilha da lucidez deste artigo mas que rapidamente é submersa em preconceitos leio eu nos comentários a este post, "João Paulo II", "conservadorismo empedernido" são algumas das fórmulas mágicas com que resolvem exorcizar a argumentação sólida e lógica do artigo
os esquerdistas "clássicos" herdaram infelizmente do catolicismo também algumas das suas manifestações mais retrógradas, os preconceitos e a recusa em pensar pela própria cabeça
As causas desta situação não são difíceis de encontrar. O grande capital tem destruído sistemáticamente, em benefício das grandes fortunas que continuam a aumentar, as mínimas condições materiais para que as famílias possam ter uma existência sustentável.
Pouco satisfeito com isto, o grande capital, através do tele-esgoto, despeja quotidianamente nas famílias diversos programas televisivos em horário nobre cujo único objectivo é a imbecilização de crianças e adultos (e a desagegação da estrutura familiar, que, por sua vez, é o maior risco de pobreza infantil).
(e nem vale a pena falar nos idiotas úteis da esquerda "laica", que, carregados de preconceitos amorais, dão um importante contributo na legitimação e desenvolvimento das condições culturais que estimulam a desagregação familiar e, consequentemente, o aumento da pobreza infantil - a desagregação familiar é o principal factor, directo e indirecto, a curto e a longo prazo, determinante da pobreza infantil)
Porque é que este gajo, complicando aquilo que é simples, em vez de dizer isto, "A mística, sem ética, é ilusória, como a ética, sem religião, no limite, corre o risco de ficar cega" não diz simplesmente isto: "A mística, sem ética, é ilusória, como a ética, sem religião, é ilusória".
Se esse tipo de discurso político tivesse sucesso tal significaria que, enquanto povo, tinhamos chegado finalmente à maturidade política. Seria uma excelente surpresa.
Disseram-me ontem algo em que nunca tinha pensado.
O Diabo é, etimologicamente, o absurdo, aquilo que separa, aquilo que suscita o sem sentido. O oposto de de diabo, diabolu (dia-bolu), seria símbolo, symbolu (sym-bolu), aquilo que une, aquilo que permite a compreensão.
O ateísmo seria então o diabo. Aquilo que acha que a realidade não faz sentido.
Se, conforme defendem os ateus, existimos apenas por acaso, apenas porque a matéria num dado momento, por acaso, se organizou de uma certa maneira, então a nossa existência é um absurdo, apenas uma forma de existência da matéria, sem qualquer significado particular.
Uma pessoa ou um grão de areia estariam ao mesmo nível.
O que é ainda mais estarrecedor é que a utilização da porrada enquanto como método de aperfeiçoamento da personalidade dos mais pequenos não é característica apenas de pessoas com pouca formação intelectual e afectiva mas de pessoas que seria suposto pensarem um pouco antes de levantarem a mão.
É ainda mais curioso que estes "métodos educativos" sejam vistos ainda com mais naturalidade quanto mais pequenas são as crianças.
Pensava eu que fosse um dado adquirido que a porrada só encerra alguma dignidade quando praticada entre iguais.
(se a zazie não estiver já a calçar as botas e à procura de uma boa palmatória para me ensinar as virtudes da tradição de enfiar uns cartuchos nos mais pequenos e o jacobinismo dos métodos educativos não-violentos, é porque me votou ao desprezo - à semelhança do que fazem alguns pais que não batem nos filhos)
os outros, os da esquerda "clássica" desconfiam (os da esquerda "clássica" são desconfiadores encartados), os da direita preferem a esquerda "clássica"; detestam confusões (como qualquer bom conservador)
PS.: subsiste uma dúvida fundamental: porque é que eles não me puseram na coluna dos blogues da extrema-esquerda?
Como penso que o que disse o João Galamba é demasiado interessante para ficar num simples comentário, passo-o a post (com as adaptações necessárias).
"É por o Papa partilhar elementos da crítica com os autores que mencionei [Adorno, Horkheimer e Habermas] que considero a sua posição um desafio que não deve ser ignorado. E digo isto porque, enquanto o Papa tem uma resposta (que eu — espero que não tenha passado outra ideia — rejeito), Adorno e Horkheimer falham neste ponto. Não acreditando no messianismo Marxista ortodoxo, a sua filosofia redunda num pessimismo paralizante a que urge responder. Nesse sentido, o seu messianismo sem deus e sem redenção pode ser interpretado como ficando aquém do do Papa. É óbvio que a posição deste é a da dogmática católica, e é absolutamente pré-moderna e autoritária. A questão fundamental é como evitar esta dialéctica, e isso é algo que Habermas (e outros, como Taylor — espero eu, já que tento escrever o meu phd sobre a sua alternativa) tentam desesperadamente fazer.
Habermas tenta reabilitar o projecto iluminista, mas a sua alternativa tem algumas lacunas, pois a sua acção comunicativa é meramente formal, esquecendo o conteúdo. Isto são desafios fundamentais para uma esquerda que pretenda criticar o liberalismo, evitando cair na posição da Igreja católica, aliando-se a um conservadorismo inaceitável.
Tanto o liberalismo como o Catolicismo podem ser vistos como narrativas de redenção. São algo que dão sentido ao mundo em que vivemos. É para gente como eu e tu que urge encontrar uma alternativa. Caso contrário, corremos o risco de cair no desespero de Adorno, Horkheimer, convertermo-nos como fez Alasdair MacIntyre (que começou marxista e agora é um neo-Tomista empedernido) ou de nos resignarmos a um liberalismo de mal menor.
(...)
A filosofia antes de Descartes também era religião. Platão e Aristóteles pressupunham uma ordem ética (religiosa), sem a qual nada do que escreveram faria sentido. Se quiseres, e de forma provocatória, toda a filosofia pressupõe uma concepção religiosa do homem e do seu lugar no mundo. É por não ter nada que lhe anteceda que Adorno e Horkheimer acabam num abismo. O seu pensamento é uma teologia negativa (Negative dialectics de Adorno: a false life cannot be lived rightly) porque desaparecida a crença messianica no proletariado não lhes resta nada. Há um tipo de quem eu gosto muito, chamado Jay Bernstein, que diz que a arte moderna não é mais do que o lamento dessa ordem ética perdida. Não pode ser mais do que isso, pois propor algo concreto (o que faz o papa) não lhes é acessível. A viragem de muitos gajos de esquerda para a arte e para a estética como alternativas à razão instrumental tem aqui parte da sua explicação"
Há uns tempos escrevi: "espero pelas próximas estatísticas sobre as desigualdades económico-sociais em Portugal para ver se elas se aprofundaram (o que demonstraria o carácter direitista das políticas do governo) ou se elas se reduziram (o que revelaria que este governo PS é, de facto, contra todas as aparências, um governo de esquerda)".
E, sendo esse, para mim, o elemento fundamental que permite distinguir entre diferentes opções políticas claramente assumidas (grosso modo, esquerda/direita) só me resta aplaudir tal resultado e esperar que as políticas igualitárias se reforcem ainda mais.
a grande descoberta do neoliberalismo: que o sol até agora tem nascido sempre todos os dias
Um dos chavões do neoliberalismo é que, embora o fosso entre ricos e pobres aumente, os pobres de agora têm mais recursos que os pobres de há uns tempos atrás (suponho que graças às virtudes do neoliberalismo). Concluem os neoliberais que um sistema deste tipo revela que vivemos no melhor dos mundos e que as desigualdades sociais são um fenómeno periférico e irrelevante.
Só que, concluir que "os pobres de agora têm mais recursos que os pobres de há uns tempos atrás" é tão brilhante e rico de consequências como constatar que "o sol até agora tem nascido sempre todos os dias".
De facto, a história da humanidade é a história do aumento dos recursos disponíveis - neste momento qualquer pobre vive normalmente melhor do que a esmagadora maioria da população há 500 anos. Por isso, a pobreza deve ser vista comparativamente. Se aumenta o fosso entre ricos e pobres, a pobreza, em termos relativos, aumenta necessariamente.
Acredito que o que carateriza o homem não é uma "vocação" para ser simplesmente um joguete de leis da natureza mas a sua capacidade de intervir éticamente nas leis da natureza. É na capacidade que o homem tem para intervir nas relações sociais de modo a que o maior número de seres humanos tenham padrões de vida condignos com a sacralidade da vida humana que ele revela a sua natureza divina e não na simples constatação de que "as coisas são como são".
(não sei como, desviei-me da minha intenção de escrever um post que seria a continuação do post anterior sobre "a neutralidade dos que descem dos céus no momento de descobrir a verdade")
A crítica do Lutz deixou-me com uma certa perplexidade. Parece um argumento ad hominem. Aparentemente, segundo ele, um Papa não pode argumentar intelectualmente porque é um Papa e dever-se-ia apenas remeter ao silêncio.
Talvez o Lutz apenas quisesse indicar que os argumentos do Papa devem ser sempre de desconfiar porque ele não visaria a procura da verdade mas a defesa dos interesses da Igreja Católica.
Contudo, tal linha de argumentação, para além de se basear em preconceitos (nos termos dos quais, mais importante que os argumentos, é a qualidade pessoal da pessoa que os produz) parece-me algo ingénua: de um lado existiriam os puros (os agnósticos) que buscam a verdade de um modo completamente neutral, como se tivessem descido do céu nesse preciso momento, sem qualquer experiência ou ideia ou estruturação mental anterior, e do outro, os religiosos, gente que não consegue nem nunca poderá estar interessada na verdade, simplesmente porque tem fé.
ou as razões pelas quais a afirmação "a parte das riquezas que os trabalhadores (que as produziram) recebem baixa desde há pelo menos 20 anos" é verdadeira
O jcd, um bom amigo que sabe que de vez em quando este blogue precisa de uns empurrões para se pôr em movimento, voltou a fazer umas carambolas para me animar.
Mas não é só falta de tempo e um pouco de preguiça a justificação para a apatia face aos números (artísticos) do jcd.
apenas me resta repetir a explicação sobre a razão pela qual a afirmação "a parte das riquezas que os trabalhadores (que as produziram) recebem baixa desde há pelo menos 20 anos" é verdadeira, esperando que, assim, em letra de post, ele compreenda melhor o boneco:
"imagina que o mundo tem apenas duas pessoas, Alberto e Belmiro e 100 "recursos" disponíveis na toalidade
imagina que há vinte anos o fosso entre ricos e pobres se traduzia no nosso caso em que Alberto levava 30 "recursos" e Belmiro 70 "recursos" (Alberto levava 30% dos recursos e Belmiro levava 70% dos recursos).
imagina agora que os recursos disponíveis são na sua totalidade agora 200, isto é, a riqueza produzida aumentou para o dobro.
Alberto, o mais pobre, leva agora 50 "recursos" em vez dos 30 "recursos" de há vinte anos atrás.
Belmiro, contudo, leva agora 150 "recursos".
Em termos percentuais, a parte da riqueza produzida que fica agora com o mais pobre é de 25% (contra os 30% de há vinte anos atrás). Belmiro, o mais rico, que há vinte anos atrás ficava "apenas" com 70% dos recursos, fica agora com 75% dos recursos."
"O facto de as medidas em causa se destinarem a suprimir o terrorismo internacional não deve inibir o Tribunal de Justiça de cumprir o seu dever de preservar o princípio do Estado de Direito. Ao fazê‑lo, em vez de se imiscuir no domínio da política, o Tribunal de Justiça reafirma os limites que o Direito impõe a determinadas decisões políticas. Isto nunca é tarefa fácil, e é efectivamente um grande desafio, para um tribunal, aplicar a sua sabedoria em assuntos relacionados com a ameaça do terrorismo. Contudo, o mesmo se aplica às instituições políticas. Especialmente em questões de segurança pública, há o risco de o processo político se tornar excessivamente receptivo às preocupações populares imediatas, levando as autoridades a acalmar a ansiedade de muitos à custa dos direitos de alguns. É precisamente aqui que os tribunais se devem envolver, de modo a garantir que as necessidades políticas de hoje não se transformem nas realidades jurídicas de amanhã. A sua responsabilidade consiste em garantir que o que pode ser politicamente eficiente num dado momento esteja em conformidade com o princípio do Estado de Direito, sem o qual, a longo prazo, nenhuma sociedade democrática pode verdadeiramente prosperar. Nas palavras de Aharon Barak, antigo presidente do Supremo Tribunal de Israel:
«É quando os canhões troam que mais precisamos das leis […] Todas as lutas do Estado – contra o terrorismo ou qualquer outro inimigo – são guiadas pelas regras e pelo direito. Há sempre uma lei que o Estado deve respeitar. Não há ‘buracos negros’ […] A razão que está na base desta ideia não é apenas a consequência pragmática da realidade política e normativa. As suas raízes são muito mais profundas. É a expressão da diferença entre um Estado democrático que luta pela sua própria vida e a luta dos terroristas que se erguem contra ele. O Estado luta em nome da lei e em nome da defesa da lei. Os terroristas lutam contra a lei, violando‑a. A guerra contra o terrorismo é também a guerra do direito contra os que se revoltam contra ele»"
À procura no meu blogue de algo que fosse útil de um ponto de vista positivista, isto é, algo útil à sobrevivência da espécie, descubro este meu post de 2004.
Descubro que o link que nele coloquei já não funciona. Passo a actualizar o post de modo a conter um link que funcione:
Estes alimentos são o vinho, o peixe, o chocolate preto, fruta e vegetais, amêndoas e alho.
Fico reconfortado na minha esperança de longevidade principalmente quando leio que "a omissão do vinho no regime provoca o maior efeito em termos de prevenção, sendo que os outros ingredientes não têm uma influência tão acentuada." Isto é, o vinho é o alimento mais importante.
Fiquei algo insatisfeito contudo ao saber que "não é certo se a ingestão de quantidades superiores às recomendadas tem ou não alguma influência na redução dos riscos de doença" tendo em conta sobretudo que a quantidade de vinho recomendada diariamente é ridiculamente insignificante (150 ml/dia). Tenho para mim que a quantidade mínima de vinho a ingerir diariamente com efeitos significativos no aumento da qualidade de vida é pelo menos dez vezes superior.
Já quanto aos outros alimento registo com agrado a presença do chocolate preto e do alho. Quanto a este último, infelizmente, a sua inclusão não é partilhada pelo meu próximo."
A necessidade de políticas redistributivas e igualitárias em termos mundiais não parece ser apenas um imperativo de natureza moral.
Neste momento, essa necessidade começa a ser também um imperativo de eficiência e funcionalidade do próprio capitalismo.
Poucos ricos cada vez mais ricos (e cada vez mais poucos) face a milhões de pessoas (cada vez mais milhões) a ganhar comparativamente cada vez menos dinheiro conduz a crises brutais de procura de bens e serviços e a recessões económicas mundiais de grande dimensão.
Encontra-se aqui muito bem explicado. (via Ladrão de Bicicletas, um blogue que, embora muitas vezes apresente visões económicamente demasiado nacionalistas e com um fundamento moral duvidoso, é um blogue cada vez mais imprescindível em termos de análise económica).
num comentário ao meu post anterior, um anónimo decidiu colocar mais um spam colocando em questão o Holocausto
admiro o idealismo desta gente: acrediatm de tal modo na intrínseca e absoluta bondade da natureza humana que se recusam a acreditar que se cometeram as barbaridades do Holocausto
quanto a mim, mesmo sendo cristão e talvez por o ser, sou um pouco pessimista
o homem foi capaz, é capaz e será capaz de cometer barbaridades
Por enquanto ainda só da necessidade de regulação mundial da globalização financeira. Quando a principal, do meu ponto de vista, me parece ser a necessidade de regulação mundial da globalização fiscal e social. Mas vindo de quem vem é de saudar. Com efeito, os ingleses (seja na versão conservadora seja na versão trabalhista) têm sido os maiores aliados dos EUA na defesa da globalização selvagem (isto é, não regulada).
Sou um convicto defensor dos conceitos de esquerda e de direita, pensando que por detrás desses dois conceitos se encontram duas concepções morais da vida em sociedade.
Mas a discussão a que se entregaram esses blogues, sobre globalização, socialismo e capitalismo parecem-me algo estéreis. A economia de mercado, mais ou menos regulada em termos nacionais, é uma realidade da economia mundial.
Os defensores do "capitalismo" são na realidade aos defensores de uma maior desregulação da economia, o seu ideal é o capitalismo selvagem, quase totalmente desregulado, do século XIX, com o seu cortejo de fome, guerra e miséria inaudita e degradante, abundantemente descrito em diversos romances e obras económicas dessa época.
Os defensores do "socialismo" são, muitas vezes, simplesmente os defensores de corporativismo e protecções que de justo nada têm. São muitas vezes os defensores da ineficiência em nome de uma redistribuição de recursos que nada tem de moral no sentido em que não visa redistribuir dos que mais têm para os mais frágeis e desprotegidos, mas sim redistribuir de uns grupos para outros com o simples objectivo da luta pelo poder. A direita, apesar do seu discurso "defensores do capitalismo", assume, sobretudo quando no poder, também esta postura dos "defensores do socialismo".
Ora, o que se exige é uma globalização amplamente regulada em todas as suas dimensão económicas e sociais de modo a construir um mundo mais igualitário, um mundo em que políticas mundiais em termos fiscais, sociais e financeiros, permitam um alto nível de redistribuição das pessoas mais ricas do mundo para as mais pobres do mundo.
Embora seja a visão explicitada pelos Papas mais recentes, não se trata, contrariamente ao que se poderia supor, de uma visão política particularmente radical em termos económico-sociais.
Trta-se apenas de transpor para a economia mundial um modelo económico e social que já existe por exemplo nos países escandinavos. Aí, através de políticas fiscais invulgarmente agressivas, criaram-se sociedades que são neste momento das sociedades mais igualitárias do mundo (e, pasmem-se os neoliberais, com um dos mais altos níveis de riqueza e qualidade de vida em termos mundiais).
Uma visita do Dalai Lama à Universidade La Sapienza
"1. A direcção da La Sapienza convida o Dalai Lama para inaugurar o ano lectivo.
2. Um grupo de académicos desta universidade, liderado pelos físicos, manifesta-se contra este convite e exige que se cancela o convite ao Dalai Lama.
3. A direcção da La Sapienza mantém o convite.
4. O Dalai Lama, perante a contestação, opta por declinar o convite."*
5. Face aos planos e às actividades visíveis em todos os meios de comunicação social e às próprias declarações dos contestatários (que, aliás, mesmo sem a visita do Dalai Lama, vandalizaram um espaço religioso budista existente na Universidade), o Dalai Lama, um apologista da não-violência, para impedir que, de algum modo possa ser a origem de violência entre a polícia (e/ou outras pessoas que entendam que a direcção de La Sapienza deve poder convidar o Dalai Lama) por um lado e os contestatários pelo outro, decide cancelar a palestra.
Também acho que é tudo muito simples. Infelizmente não pelas suas razões.
*O texto em cima, em itálico, é uma cópia de um post do Lutz mas apenas com os factos (isto é, sem os seus juízos de valor) e a substituição da personagem religiosa convidada.
Na concepção cristã da felicidade, como muito bem explica o Luís, esta é vista como "a visão beatífica". E, como ele lucidamente acrescenta, a felicidade/"visão beatífica" é "alcançada pela Graça".
Como pude eu supor que para a Igreja Católica a felicidade fosse alcançada através de comportamentos premiados?
Só se a Graça implicasse a produção de comportamentos premiados.
Lá está o sacana do Skinner a influenciar o meu comportamento verbal. O que é isso de "comportamento premiados"? Alguém viu a Igreja Católica dar rebuçados, bolos ou o euromilhões aos comportamentos que nos aproximam da santidade?
E se eu abandonasse este maldito hábito criado pela nefasta influência de Skinner de estar sempre a falar em comportamentos. Tenho que pensar nisso em momento mais oportuno.
Por agora não consigo visualizar a santidade de outro modo que não seja através da produção de (um certo tipo de) comportamentos.
Esses comportamentos que nos aproximam da santidade aparecem como?
Isso o Skinner explica: através de prémios (na sua visão, todos os comportamentos são adquiridos através de prémios ou de punições – estas constituindo uma espécie de prémios ao contrário; mas por agora não pensemos nestas últimas).
Que tipo de prémios?
Skinner também explica que os prémios podem ser de vários tipos e que à medida que o homem vai crescendo e complexificando a teia das suas relações sociais, os reforços (os tais prémios) vão-se tornando cada vez mais sofisticados.
Será então a santidade um comportamento basicamente igual ao do pombo que faz as tais "habilidades" depois de ter sido premiado com comida.
É e não é.
As razões pelas quais a santidade é um comportamento basicamente igual ao dos pombos nas experiências de Skinner são explicadas por qualquer comportamentalista.
Mais interessantes são as razões por que pode não ser. Talvez por duas razões.
A primeira, ainda vagamente comportamentalista, é que um dos prémios para os comportamentos a caminho da santidade são dados pela Graça. Deus aparentemente gosta desses comportamentos e concede-nos a Graça. A Graça é o prémio.
A felicidade é alcançada pela Graça, como muito bem referiu o Luís.
Talvez afinal eu também não estivesse lá longe quando afirmei que a felicidade nada mais era que a produção de comportamentos premiados (nomeadamente pela Graça, pois acredito que o homem tem alma e por isso não é um pombo ou um macaco).
A segunda razão que já nada tem a ver com o comportamentalismo é a natureza humana. Qualquer cientista concordará que o homem é um sistema complexo.
Quer isto dizer que as respostas não são apenas o resultado de uma variável mas de milhões de variáveis em interacção permanente. Existe aliás quem defenda que um computador suficientemente sofisticado permitiria prever todos os biliões de variáveis assim como os biliões de diferentes intensidades e relacionamentos que podem apresentar e que intervêm na produção de um dado comportamento.
Todavia não só tal computador nunca foi criado como duvido que tal experiência possa ser alguma vez concretizada. Com efeito, um computador que permitisse obter a previsibilidade de todos os comportamentos futuros, seria uma espécie de máquina do futuro.
A impossibilidade da existência de uma tal máquina não é apenas de ordem material mas resulta da própria essência da existência humana. Uma tal máquina teria que ter no seu programa todo o passado desde o princípio do Universo. Seria uma máquina determinista (ironicamente, a sua concepção já deveria estar prevista desde o princípio dos tempo, como decorre de qualquer concepção determinista).
Pode-se acreditar que, na posse de todos os elementos desde o princípio do Universo, seria possível prever o futuro com total precisão. Tal não é obviamente possível ao homem. Os conceitos de tempo e de espaço implicam a impossibilidade de previsões totalmente precisas. E essa impossibilidade decorre de dois factores fundamentais: a incognoscibilidade de todas as variáveis de todo o passado do Universo e da Humanidade e a própria dinâmica inerente ao comportamento dos sistemas complexos.
Voltando agora um pouco atrás. Na produção de qualquer comportamento humano, de entre as múltiplas variáveis, está uma que consiste numa espécie de caixa negra, uma espécie de variável a que alguns chamam acaso, pois ela é totalmente aleatória, e que é inerente a qualquer sistema complexo.
Dentro dela acredito que está a Graça. Também acredito que nesta caixa negra, a Graça premeia o homem pelos comportamentos na direcção da santidade. E o prémio último é o conjunto destes prémios outorgados pela Graça: a "visão beatífica", a felicidade, em suma, a Santidade.
Contudo, é óbvio que os comportamentos dos pombos eram tão bizarros e irracionais como os de um homem que trabalha para ganhar um salário ou de alguém que foge de um desastre iminente.
De facto, o nexo de causalidade é evidente: os comportamentos "bizarros e irracionais" dos pombos permitiam-lhes assegurar a sua sobrevivência pois suscitavam da parte do "programador" uma resposta de aparecimento de comida. Eram comportamentos perfeitamente adequados à sua sobrevivência. Mais: eram comportamentos que, na concepção de Skinner, tornavam os pombos felizes.
Segundo Skinner, a felicidade nada mais é que a produção de comportamentos premiados. Para o Catecismo da Igreja Católica também.
O primeiro passo para que um pombo se torne religioso é deixá-lo passar fome até chegar a cerca de 75% do seu peso normal quando bem alimentado. É então colocado numa gaiola experimental alguns minutos por dia.
É mais ou menos assim que começa um dos ensaios de Skinner.
Skinner demonstra depois como consegue que o pombo comece a ter comportamentos bizarros e irracionais através da associação entre esse tipo de comportamentos e a dádiva de comida. Como se o pombo acreditasse que a prática desses comportamentos bizarros e irracionais determinasse a chegada de comida.
Para Skinner não existem crenças mas apenas comportamentos mas isso por agora não tem importância.
O que me parece importante sublinhar é que, após esse comportamento estar interiorizado, a sua prática implica por si própria, isto é, mesmo sem aparecer a comida, durante algum tempo sinais fisiológicos de bem-estar. Durante algum tempo, mesmo sem comida, o pombo fica satisfeito apenas com a prática do comportamento ritual.
Skinner desejava uma sociedade em que o homem fosse mais feliz. O caminho para felicidade era, segundo Skinner, uma sociedade em que se programam as pessoas (tal como os pombos) para serem felizes.
Deus colocou no coração do homem o desejo inato de felicidade (Catecismo da Igreja Católica, ponto 1718).
O deus-Mercado chegou ao anjo Gabriel e disse-lhe que era melhor procurar outra fé: "Ron Paul had 10 percent" (quinto lugar entre os republicanos, atrás de Huckabee, Romney, Thompson e McCain).
Eu não sei qual dos dois, o rui a. ou o Pedro Arroja, foi o responsável pela recomendação constante do "Esta semana recomendamos" neste momento em vigor no Portugal Contemporâneo.
De qualquer modo, isso é irrelevante. Estou certo que qualquer dos dois subscreve esta pérola que descobri através da referida recomendação:
"A mais elementar fundação da sociedade humana não é o amor, nem mesmo a amizade. (...) É o mercado (...). São os ganhos potenciais advindos do comércio estruturado sobre direitos de propriedade bem definidos e juridicamente seguros que possibilitam haver caridade entre estranhos e amor e amizade através das fronteiras. Essa é a superioridade moral do mercado."
"The organism is only DNA's way of making more DNA" (Edward Wilson, Sociobiology: The New Synthesis, Harvard University Press, 1975, pag. 3)
"Understanding the often unconscious nature of genetic control is the first step toward understanding that we're all puppets, and our best hope for even partial liberation is to try to decipher the logic of the puppeteer." (Robert Wright, The Moral Animal, Pantheon, 1994, pag. 37)
"We have the power to defy the selfish genes of our birth and, if necessary, the selfish memes of our indoctrination. We can even discuss ways of deliberately cultivating and nurturing pure, disinterested altruism - something that has no place in nature, something that has never existed before in the whole history of the world. We are built as gene machines and cultured as meme machines, but we have the power to turn against our creators. We, alone on earth, can rebel against the tyranny of the selfish replicators." (Richard Dawkins, "The Selfish Gene", 1976, Oxford University Press, 1976, pag. 200)
*e também para o outro neo-liberal neo-marxista do blasfémias, o João Miranda (mas este é mais susceptível e é capaz de nem sequer me responder, enquanto o jaquinzinhos é capaz de ainda vir para aí espernear um pouco)
Porque enquanto a esquerda discutir eficientismo, tudo depende.
Saber se o salário mínimo provoca desemprego ou não, depende de múltiplos factores. Depende de saber nomeadamente se estamos a falar de um modelo em economia aberta ou em economia fechada. E, no caso de nos encontrarmos perante um modelo de economia aberta, é preciso saber quais as características das economias que se encontram no "exterior" do modelo de economia aberta em análise. E depende também de saber se os resultados são aferidos pelo curto prazo ou pleo médio ou longo prazo.
Em certas circunstâncias é possível que o salário mínimo provoque desemprego e noutras não.
As respostas não morais a esta questão estão todas viciadas à partida. Porque qualquer resposta não moral vai depender apenas dos resultados. E por isso o referido post do Daniel é tão importante.
E tudo o resto é irrelevante porque o que deveria interessar à esquerda é saber se a moralidade, e nomeadamente a moral socio-económica, é relativa e depende apenas de resultados. Esta esquerda até nem tem culpa. Ela é o Minotauro encerrado no labirinto. Só que desta vez o artífice do labirinto não é Dédalo mas o ateísmo.
diz o MP-S num comentário aí atrás (e com o qual concordo na sua quase totalidade):
"Para avançar no trabalho intelectual é necessário errar de forma consciente e calculada, fazer generalizações abusivas e sem justificação, fugir à verdade. Isto está na essência daquilo que é fazer um modelo de uma parcela da realidade. Se quiseres ser estritamente fiel à 'Verdade' não sais do ponto de partida. É preciso errar de forma criteriosa. Cometer erros calculados para conseguir uma aproximação melhor à realidade."
(colocar neste blogue uma citação em bold é uma honra que nos últimos tempos apenas foi concedida a João César das Neves, São José Maria Escrivá e Viktor Frankl)
No Portugal Contemporâneo, via zazie, dois excelentes documentos onde se pode ver claramente como a comunidade judaica tem sido violentamente perseguida e discriminada ao longo da história, em Portugal como no resto da Europa.
série posts repetidos (2) - nas margens do rebanho
" — Eles são, para o povo cristão, os outros, os que se encontram nas margens do rebanho. O rebanho odeia-os, eles odeiam o rebanho. Quereriam ver-nos todos mortos, todos leprosos como eles.
— Sim, recordo uma história do rei Tristão, que devia condenar Isolda, a Bela, e a fazia subir à fogueira e vieram os leprosos e disseram ao rei que a fogueira era castigo leve e que havia um pior. E gritaram-lhe: dá-nos Isolda, que pertença a todos nós, o mal acende os nossos desejos, dá-a aos teus leprosos, olha, os nossos farrapos estão colados às chagas que gemem, ela, que a teu lado se comprazia com os ricos tecidos forrados de baio e com as jóias, quando vir a corte dos leprosos, quando tiver de entrar nos nossos tugúrios e deitar-se connosco, então reconhecerá deveras o seu pecado e terá saudades deste belo fogo de sarças!
— Vejo que, sendo um noviço de São Bento, tens leituras bastante curiosas — gracejou Guilherme, e eu corei, porque sabia que não devia ler romances de amor, mas entre nós, rapazinhos, circulavam no mosteiro de Melk, e líamo-los de noite à luz da vela. — Mas não importa — continuou Guilherme —, compreendeste o que queria dizer. Os leprosos excluídos quereriam arrastar todos na sua ruína. E tornar-se-ão tanto piores quanto mais os excluíres, e quanto mais os representares como uma corte de lémures que querem a tua ruína tanto mais eles serão excluídos. São Francisco compreendeu isto, e a sua primeira escolha foi ir viver entre os leprosos. Não se muda o povo de Deus se não se integrarem no seu corpo os marginais."
"O Nome da Rosa", Umberto Eco (tradução de Maria Celeste Pinto, Edição Difel, pag. 198)
esperar que a transfusão os misture sem os sobrepor em demasia*
o desfazedor de rebanhos começou o seu blogue há quatro anos com um post em que referia que uma das boas práticas para a vida é "Melhor que um paradoxo só uma ambiguidade".
Pensei durante muito tempo que as delícias dos paradoxos e das ambiguidades eram de ordem estética. Talvez sejam. Mas, paradoxalmente, parecem-me ser também um excelente instrumento no estabelecimento de pontes e na construção de escolhas.
São é muito difíceis de executar. Assemelham-se ao equilibrismo sem rede. Quanto mais alto se tenta executar, maiores são os riscos.
"A religião intrínseca relaciona-se com toda a vida, é integradora, unificante, orientadora. Pelo seu lado, a extrínseca é compartimentada, preconceituosa, exclusivista, dependente, instrumental, utilitária, reconfortante. Os religiosos conservadores costumam ser extrínsecos. Os intrínsecos são humildes."
A segunda, de São José Maria Escrivá:
"Tarefa do cristão: afogar o mal em abundância de bem. Nada de fazer campanhas negativas, nem de ser anti-nada. Pelo contrário: viver de afirmação, cheios de optimismo, com juventude, alegria e paz; olhar para todos com compreensão: os que seguem Cristo e os que O abandonam ou não O conhecem." (Sulco, 864)
O Tiago Mendes escreveu no blogue Atlântico que "dão-se alvíssaras a quem encontrar, naquilo que o André Azevedo Alves escreve há anos sobre o que quer que tenha uma dimensão social e humana, uma molécula que seja de amor, de compreensão ou de compaixão de inspiração cristã".
Já meio mundo (pelo menos) se pronunciou sobre quem tem razão. Não me parece que a questão de saber quem tem razão seja a mais importante. Aliás, a questão de saber quem tem razão raramente é importante.
O que é mais importante para mim é que um agnóstico ou ateu (como me parece ser o Tiago Mendes) tenha dito aquilo que disse sobre um cristão. Repito: não sei se ele tem razão ou não naquela situação em particular, nem isso me interessa.
O que é importante para mim, enquanto cristão, é que se alguém se referisse desse modo à minha pessoa, teria não só que lhe prestar a maior atenção como agradecer-lhe por me ter tornado mais atento na direcção do Bem.
Enquanto tentativa de cristão, eu devo praticar por obras (e o que se escreve também são obras) que em cada segundo da minha vida se traduzam sempre em mais amor, compreensão ou compaixão. É impossível conseguir sempre isso mas devo estar sempre para aí virado. O meu maior amigo é aquele que me recorda que esse é o caminho.
Pelo menos de certo modo, o Tiago Mendes tem razão de facto quando recorda que um cristão deve escrever coisas que se traduzam sempre em mais amor, compreensão ou compaixão. E isso tanto se aplica ao André Azevedo Alves, como a mim, como a qualquer outro cristão.
O desenvolvimento do ateísmo ou do agnosticismo e dos valores "morais" a eles subjacentes não caíu do céu. O maior depósito de combustível que existe (e que existiu) para o ateísmo e o agnosticismo encontra-se nos cristãos que, no seu comportamento do dia a dia (e o que se escreve também é um comportamento) transmitem, objectivamente, os valores "morais" decorrentes da escolha da visão ateia ou agnóstica da existência: a indiferença, ou mesmo a agressividade, para com os outros, especialmente os mais frágeis e vulneráveis.
De facto, o pressuposto estruturante do ateísmo é a inexistência de transcendente e a consequente ausência de base lógica para os valores morais. Do mesmo modo, para o agnosticismo, a impossibilidade que segundo este existe em sabermos se existe ou não o transcendente, traduz-se na impossibilidade de uma base lógica para a assunção de valores morais. O agnosticismo, logicamente, não podendo fundar-se no transcendente (que não sabe se existe ou não), apenas admite, tal como o ateísmo, a utilidade como fundamento lógico para a moral. O que significa, de facto, que, do ponto de vista do ateísmo ou do agnosticismo, os valores morais não possuem qualquer validade salvo aquela que lhe é outorgada pela utilidade numa dada situação: para estas duas correntes não existem valores morais mas, simplesmente, valores convenientes.
A indiferença, ou mesmo a agressividade, para com os outros, especialmente os mais frágeis e vulneráveis, é a "moral" de um mundo sem moral.
Termino com dois posts daqueles que são para mim, desde que este blogue existe, os exemplos mais próximos do caminho para a santidade (muito longe do caminho que tenho trilhado e que, por isso, nem sempre têm merecido a minha devida atenção):
O meu amigo e camarada psiquiatra proletário informou-me da sua indignação. Escreveu um honroso e amável convite em forma de comentário a este post do dragão, e até agora, ainda não obteve qualquer resposta.
"A secção anti-psquiatria do Proletário Vermelho tem a honra de convidar o Exmo. Dragão a inscrever-se n'O Proletário Vermelho (secção anti-psiquiatria).
A denúncia do camarada Dragão trouxe uma grande contribuição teórica para a luta da classe operária (ver a este propósito a já clássica obra cinematográfica "A Classe Operária Vai ao Paraíso", em que a dimensão e a utilidade da luta anti-psiquiátrica no quadro da revolução popular em curso ficou bem demonstrada).
Com efeito, graças ao contributo intelectual de importantes teóricos (aos quais se junta agora, em boa hora, o camarada Dragão) tem-se tornado evidente que a travadinha é o resultado da intensa luta de classes em curso.
Como ficou demonstrado pelo camarada Franco Basaglia (e pelos camaradas Laing, Cooper e Szasz) a maluqueira é o resultado da opressão da classe dominante e a revolução passa necessariamente por pôr todos os loucos furiosos na rua. A burguesia que cuide dos doentes que fabrica: "Quem fabrica os seus loucos que cuide deles."
Caso o camarada Dragão assim o deseje também pode militar na secção dos loucos furiosos da secção anti-psquiatria do Proletário Vermelho. Com efeito, os camaradas intelectuais acima indicados referenciam que, dado que os loucos são a classe mais oprimida pela cultura burguesa, devem também ser eles a vanguarda revolucionária, os educadores do povo. A título pessoal, teria aliás imensa honra em conceder-lhe o título de Grande Educador Dos Que Ainda Não São Loucos Mas Para Lá Caminham."
Uma introdução que serve de apresentação para o herói da história que aí vem, o halterofilista dos pesos metafísicos
"Ao contrário de Parménides, parece que Beethoven considerava o peso como algo de positivo. Der schwer gefasste Entschluss, a decisão gravemente pesada está associada à voz do destino (Es muss sein!); o peso, a necessidade e o valor são três noções íntima e profundamente ligadas: só é grave o que é necessário, só tem valor o que pesa. A origem desta convicção situa-se na música de Beethoven e, sendo embora possível (senão provável) que seja mais da responsabilidade dos seus exegetas do que do próprio compositor, hoje quase todos nós a partilhamos: para nós, a grandeza de um homem reside no facto de carregar com o seu destino como Atlas carregava aos ombros a abóbada dos céus. O herói beethoveniano é um halterofilista de pesos metafísicos."
Milan Kundera, "A insustentável leveza do ser" (tradução de Joana Varela, edição da Editores Reunidos, pag. 38)
a canção que toca neste momento no post-player (God Knows (You gotta give to get) dos El Perro Del Mar), foi uma das melhores coisas que recebi da blogosfera (daquele que foi talvez o melhor blogue que por aqui já andou - o desfazedor de rebanhos).
Mais ainda do que as ideias, tenho que admitir que a blogosfera me deu mais prazer pela música que me foi dado aqui a ouvir pela primeira vez e que depois tive eu próprio que descobrir mais aprofundadamente por mim próprio (outro caso foi o PAS, sobretudo com os Saint Etienne)
ainda gostava de saber porque fico sempre tão agradecido a alguém que me dá a conhecer um disco ou um grupo que eu não conhecia e que depois me dá tanto prazer ouvir
actualização: a frieza é o congelador do desespero trata-se de uma frase bem impressiva que já li algures; se bem me lembro, o "raciocínio metafórico" era o seguinte: a frieza é o congelador do desespero porque permite evitar que o sofrimento relacional faça demolir como um castelo de cartas quem o experimenta
a metáfora, contudo, é mais rica (e aqui acho que já sou eu a inventar): a frieza é o desespero congelado, com todas as vantagens e inconvenientes do que é sólido e rígido
para se saber o que acontece se o desespero descongelar, é preciso abrir a porta do congelador e esperar
última actualização: já sei quem é o autor da dita frase. Eduardo Sá. Ele continua do seguinte modo:
"Por outro lado, se o ódio é uma espécie de tira-nódoas do sofrimento, a frieza é a melhor defesa contra o risco do ódio surgir como um vulcão que nos engole."
continuo a pensar que as metáforas são muito bem sucedidas mas algo incompletas e inexactas, como se o sofrimento apenas pudesse provocar, necessariamente, frieza ou ódio (ver o post do judeu)
"A todos os leitores deste blogue (e não só), especialmente àqueles que me desejaram boas festas (porque a boa educação também é um valor importante), desejo que sejam muito felizes este ano ( e nos próximos já agora também). Aproveito para recordar a trilogia que, segundo o psiquiatra e neurologista Viktor Frankl (…) compõe a felicidade. - Que amem e que sejam amados, - Que tenham sempre uma tarefa a desempenhar com regularidade e prazer, - Que tenham um ideal por que lutar (até pode ser, se o estimado leitor não tiver inteligência suficiente para escolher qualquer coisa melhor, o neoliberalismo, o ateísmo ou certas variantes do protestantismo por exemplo).
Bom ano!"
Não referi que Viktor Frankl fosse judeu.
Achei desnecessário.
Agora acho necessário. Também acho necessário sublinhar alguns aspectos da sua existência.
Em 1942, ele, a sua mulher e os seus pais foram enviados para o campo de concentração de Theresienstadt.
O seu pai foi o primeiro a morrer aí. Em 1943.
Em 1944 foi transportado para o campo de concentração de Auschwitz, onde a sua mãe morreu e, depois, para o campo de concentração de Türkheim.
Entretanto a sua mulher tinha sido transferida para o campo de concentração de Bergen-Belsen, onde morreu.
No seu principal livro, "Man's Search for Meaning" (que, penso, não se encontra traduzido para português), ele escreveu:
"Não foram só a partir de alguns ministérios de Berlim que foram inventadas as câmaras de gás de Maidanek, Auschwitz, Treblinka: elas foram preparadas nos gabinetes e salas de aula de cientistas e filósofos niilistas, entre os quais se contavam e contam pessoas que até receberam o Prémio Nobel. De facto, se a vida humana não passa do insignificante produto acidental de umas moléculas compostas por proteínas, pouco importa que um deficiente mental seja eliminado como inútil e que ao deficiente mental se acrescentem mais uns quantos povos inferiores: trata-se de um raciocínio perfeitamente lógico e consequente." (tradução livre)
Este post é para arrear na zazie. Vai ser o meu bode expiatório (não confundir com com o bode Esperança).
E vai ser o meu bode expiatório porque o verdadeiro bode se encontra manifestamente indisponível. Já lhe dei umas chibatadas aqui, aqui, aqui e aqui. Já me meti com ele nos comentários do seu blogue. Apenas uma vez ele mencionou o meu nome nos referidos comentários (sobre uma pretensa evaporação do meu catolicismo) e face à minha resposta (inofensiva aliás) meteu o rabo entre as pernas e nunca mais se referiu à minha pessoa. Porquê? Bem, aparentemente porque ele só gosta de dar porrada em miúdos.
Ora eu julgo que ele faz mal. Explico porquê.
O seu objectivo é, claramente, o de superar em audiências o Blasfémias de onde foi corrido. Como dizia um comentador no Blasfémias, "o CAA recambia um gajo para o Viegas. O Viegas recambia um gajo para Arroja... e aí parou, porque o blogue do PA alapa-se os visitantes e não os deixa sair da página, num comportamento abusivo, próprio dos sites pornográficos mais reles."
Não tenho dúvidas que vai ser bem sucedido. Apesar de o Portugal Contemporâneo ser ele e mais ninguém (o Rui A. é uma espécie de Marques Mendes da blogosfera neoliberal que quando diz coisas semi-inteligentes está a repetir outros (aqui e aqui) e ainda por cima incorrectamente: uma coisa é discutir ideologias, necessariamente abstractas mesmo quando se referem a pessoas, pois estas podem sempre escolher livremente uma ou outra ideologia, e outra, exactamente a sua contrária, é discutir atributos comuns de algumas pessoas de que os próprios não têm culpa, e elevá-los à categoria de generalizações).
Quando se faz um blogue apenas a pensar em audiências, o comportamento inteligente é colocar o sitemeter, ir ao blogómetro para ver o segredo dos blogues com grande audiência e depois reagir em função do feed-back, sempre a olhar para o sitemeter.
Existem vários métodos de ultrapassar o Blasfémias em audiências e o bode (com o devido respeito) escolheu um deles.
Quando escrevi aí atrás que pensava que ele fazia mal quando não me respondia é porque penso que também lhe posso dar uma ajudinha, pouca é certa, para esse objectivo. Nada se deve negligenciar quando se pretende atingir um objectivo.
Passo então a bater na zazie.
O que existe em comum entre os bodes ateus e darwinisticos e os bodes neoliberais?
Uma pretensão a descrever a realidade de um modo neutro que, paradoxalmente, seja políticamente muito incorrecto. Repare-se no que Watson disse recentemente sobre os pretos e no que se escreve no Portugal Contemporâneo sobre os judeus.
E tu, amiga zazie, tão desperta que estás para o erro do bode Watson e tão facilmente escorregas no erro do bode neoliberal. Em certas matérias e em certos contextos não existe nem deve existir "neutralidade científica", que, supostamente, seja simplesmente descritiva ou investigativa. Discutir ou investigar a veracidade ou a exactidão de factos (reais ou imaginários), pode ser, em certos contextos, em si mesmo, imoral.
* eu, bater na zazie, é, a diversos títulos, uma vergonha (vantagem de pessoas que se compreendem e apreciam há muito tempo na blogosfera); cumpre contudo referir que, levarei, certamente, o devido e merecido correctivo.
As raízes de Watson, do ateísmo e do neoliberalismo
“Entre os selvagens, os fracos de corpo e mente são logo eliminados. Nós, civilizados, fazemos o possível para evitar essa eliminação; construímos asilos para os imbecis, os aleijados, os doentes; instituímos leis para proteger os pobres... Isso é altamente prejudicial à raça humana.”(Charles Darwin)
Já em tempos, curiosamente a propósito do aborto, escrevia Miguel Sousa Tavares que "na natureza, quando não se pode manter a ninhada, são as próprias mães que eliminam algumas crias para as outras poderem sobreviver".
Claro que existem ateus que, felizmente, esquecem a lógica perfeita e coerente do ateísmo e do neoliberalismo, e até são pessoas decentes, mas, infelizmente (porque isto tem imensos custos a médio e longo prazo), esquecem que só a Fé Cristã permite blindar intelectualmente as posições morais decentes.
Em fins da década de 80 eu era um neoliberal ferrenho. Também era ateu. Embora tivesse chegado ao ateísmo através do marxismo, após ter abandonado o marxismo, o ateísmo foi-se reforçando ainda mais, sobretudo pela leitura de autores neoliberais e "não-teleológicos", darwinistas, positivistas, comportamentalistas, objectivistas e afins. Nesses tempos pensava eu que a moral era um subproduto da vida do homem em comunidade e, consequentemente, destítuida de qualquer valor que não a utilidade. A moral não tinha portanto nenhuma validade intrínseca a não ser a que lhe era dada pelas circunstâncias.
No campo económico as consequências destas teorias eram óbvias. Eu devia tentar ganhar o máximo de dinheiro possível e viver de acordo com esses padrões. Finalmente, toda a realidade à minha volta se media pela utilidade para o meu conforto e para o meu bem-estar.
Em virtude de uma série de circunstâncias, foram aparecendo vários pauzinhos nesta engrenagem. Vou enumerar apenas alguns.
O primeiro. A reflexão sobre Deus, sobre a vida e a Palavra de Cristo, e a consequente aproximação à Igreja Católica. Este percurso foi puramente individual, não tendo ninguém, nem dos meus amigos nem da minha família, que me apoiasse nesse caminho. Ainda agora essa realidade continua substancialmente idêntica.
Isto é, eu tinha o dever moral de lutar por uma realidade política e social em que todos os homens são iguais. De um lado tinha o neoliberalismo. Ou, mais rigorosamente, as concepções políticas neutralistas, simplesmente descritivas da realidade, nos termos das quais o homem apenas devia descrever rigorosamente a realidade para que, assim a compreendendo o mais profundamente possível, ela depois lhe fosse particularmente útil (aquilo a que eu chamava na altura "as concepções não-teleológicas", e que tinham como corolário uma concepção pragmática, utilitária e hedonista da minha existência). Do outro lado tinha uma concepção da existência humana assente apenas na Fé, nos termos da qual o homem tem como função e destino o Amor cristão, e, subproduto desta Fé nos termos da qual "todos os homens são filhos de Deus e iguais perante Ele", o igualitarismo enquanto concepção política decorrente da moral que decorre da Fé cristã.
O segundo. Aquele que era o meu autor favorito, Steinbeck, que era aparentemente ateu, individualista e "não-teleológico", espalhava pauzinhos (e verdadeiros troncos) que levantavam tremendas dúvidas quanto a um mundo sem moral, sem Cristo e sem Deus, nomeadamente e também, em termos económicos e sociais. Steinbeck nunca dá respostas claras; a sua escrita, embora dotada de uma imensa força, é muitas vezes elíptica e ambígua. Aparecem sempre respostas atrás das respostas, muitas vezes quase contraditoriamente, e, por detrás de uma aparente clareza, nunca nada é aquilo que parece ser. Mas, o efeito que cria em quem o lê é devastador para o ateísmo, para o individualismo e para o "não-teleologismo" que, paradoxalmente, eram, segundo muitos biógrafos, as suas concepções da realidade.
O terceiro. Contudo, na economia, na análise a que já então se procedia da globalização, esta parecia um beco sem saída, nos termos do qual ou se era preso por ter cão ou preso por não o ter. Isto é, a globalização selvagem parecia de facto aumentar a riqueza mundial e a diminuição da pobreza absoluta em termos mundiais mesmo que à custa da criação de mais pobres nos países desenvolvidos.
Em finais da década de 80 e princípios da década de 90 assisti a umas aulas sobre mundialização da economia dadas por um então relativamente ignorado professor de Economia da Universidade Católica de Lovaina, um tal Riccardo Petrella.
Essas aulas tiveram o mérito de me permitir encontrar de novo uma visão de conjunto entre todas as minhas crenças. As concepções que defendi no post anterior sobre globalização (e sobretudo nos comentários que troquei com a zazie) são ainda o resultado dessas reflexões do princípio da década de 90.
As ideias de Riccardo Petrella expressas nesses anos foram depois publicadas em 1995 num livro intitulado "Limites à la compétitivité" (livro que, salvo erro, tem já uma tradução portuguesa). Também nesse ano, escrevinhei algumas reflexões que aqui postei em 4/12/2003 um pequeno texto de brainstorming, absolutamente despretensioso para tentar resumir o que pensava nessa altura. Embora as reflexões de Petrella ainda não contivessem um diagnóstico e soluções absolutamente exactas, o núcleo duro das ideias que agora vieram à luz na cimeira de Lisboa estavam já lá.
Pena é que só agora, com quase 20 anos de atraso, a União Europeia, com o peso específico que (ainda) tem na economia mundial se decida (e vamos ver se efectivamente as intenções passarão para a acção) a tornar um actor efectivo na cena mundial no sentido de uma regulação mundial da globalização, nomeademente em termos sociais e ambientais, no sentido de uma maior igualitarização na dignidade de todos os filhos de Deus que vivem neste planeta.
Mas, aparentemente tem dificuldades taxonómicas - a taxonomia é outra das taras dos neoliberais - que decide superar balbuciando as palavras mágicas: "Professor Pedro Arroja".
Compreendo que as estatísticas que aqui indiquei lhe tornem a digestão difícil, mas, em vez de bolsar, teria sido melhor argumentar. Talvez assim conseguisse aprender alguma coisa. Ou então fazer como os outros neoliberais mencionados: não tugir nem mugir. Essa é a melhor estratégia quando os factos económicos contrariam as teorias.
De qualquer modo, os neoliberais ainda reagem. A "esquerda" de palas nos olhos, normalmente, nem isso. Vamos lá picá-la um pouco para confirmar a tese.
O ladrão de bicicletas João Rodriguesvem aqui, por interposta pessoa, defender uma globalização que impeça os países mais pobres de se desenvolverem. O que ali é proposto é, simplesmente, o proteccionismo europeu. Descodificando o economês do artigo, o que ali é defendido, no fundo, é a ideia de uma Europa como fortaleza corporativa auto-suficiente em que não se deixa o capital ir para os países mais pobres.
Nas ideias desta "esquerda", apenas os pobres da Europa devem ser defendidos. Os pobres do resto do mundo são extra-terrestres (ou "espécies destituídas de alma" como defendiam os esclavagistas há uns séculos atrás).
O que é mais absurdo nestas teses é que elas nem sequer protegem particularmente os pobres da Europa. Protegem apenas o capital ineficiente da Europa.