Abraçar a Solidão

Abraçar a solidão. Saber, não sem dor, que uma parte do que somos não se completa em nenhuma entrega, não se encontra em nenhum abraço, não se diz em nenhuma palavra. O ciúme e a possessão têm a sua raiz no nosso engano de recusar a solidão. Mas nada do que seja efémero, por arrebatador, violento ou prazenteiro que seja, esconderá esta ferida. Enfrentar sem disfarces esta verdade previne toda a idolatria, coloca-nos desnudados e frios diante do mundo. Nós não somos do mundo porque o mundo não nos pode agarrar, porque, por muito que agarremos o mundo e as suas folhas mortas, a nossa sede não se apaga.

Enquanto iludidos nos divertimos a tentar matar esta sede, enquanto iludidos matamos a distância em que esta sede habita, matamos o lugar em que podemos experimentar a intimidade e o amor. Resistir a esta morte é a nossa história. Vencer esta morte é o nosso futuro!

Fui apanhado

Dizia-me em conversa. Não quero que me vejam a rezar. Ou melhor, prefiro que não saibam quando estou a rezar. Tu bem sabes – esclareceu sem necessidade alguma – que não é por pudor ou por vergonha, mas por não querer encontrar consolação na boa imagem que possa causar. É um exercício para a gratuidade e para limar a motivação pela qual estou com o Senhor.

(Fiquei a pensar na confidência deste jesuíta: não quer ser visto)

Alguns meses mais tarde, bastantes por sinal, contou-me com um humor desconcertante o encontro que tivera. O relógio de parede da cozinha marcava sete horas da manhã. Ainda era de noite, quando dois jesuítas se cruzaram inesperadamente ao pequeno-almoço. Prontamente, o outro perguntara-lhe: por aqui a esta hora, tão cedo? Vais viajar? Viajar?! – Surpreendeu-se o jesuíta que não queria que soubesse quando estivesse a rezar. Viajar?! Não, não vou viajar – finalizou prontamente com um tom seco. Ah! É primeira vez que te vejo tão cedo, raramente te vemos ao pequeno-almoço e quando te pomos a vista em cima, já a manhã vai a meio. Aquele dorme bem, é o que pensamos - dizia, acompanhado de um sorriso quase irónico.

Depois de ouvir esta descrição que ele me acabara de contar, não hesitei em ser requintado na observação e perguntei-lhe: o facto de aquilo que és não corresponder à imagem que as pessoas têm de ti, fez-te mossa? Mas, olha, acho que é óptimo sinal. Não tinhas dito tu que não querias encontrar consolação na boa imagem que possas causar nem que não soubessem quando rezas? Continua, porque está a resultar.

Viagens a um lugar interior…

Há uma sede que nos habita a todos, um desejo profundo que nos une: queremos ser quem somos em verdade e simplicidade, sem máscaras ou artifícios.

Nesse lugar podemos brincar sem medo com os nossos sonhos, reconhecer com humildade as nossas fragilidades, tocar nas nossas feridas. E há, em tudo isto, uma alegria que não podemos explicar. A alegria de aceitar que o que há de vazio em nós pode ser habitado e pode, ainda que tremulamente e de modo incompleto, ser comunicado aos outros. A solidão, que nunca deixará de nos atravessar, não é o nosso futuro.

Há momentos em que esta certeza nos atinge e, ainda que não possamos dar-lhe um nome, ela fala-nos de quem somos e de quem estamos chamados a ser.

Se chamamos mágicos a estes momentos corremos um sério risco… deixar que a rotina, no que tem de necessária e inevitável, nos adormeça o espanto e nos faça esquecer a beleza de ser humano. Vale a pena dar vida toda por esta beleza, sem iludir as rugas ou apagar as lágrimas. Vale a pena o mergulho de ser homem ou ser mulher.

É bem verdade que, às vezes, nos assustam os versos ou as melodias em que sofremos este mistério, em que cruamente o experimentamos no sublime e no efémero. Mas o medo bem que pode ir dar uma volta. Não estamos sozinhos, a sede que nos habita vem de uma fonte que não se apaga.

Vinte segundos

Esta manhã levantara-me bastante mais cedo que o habitual. Razão? Começar o dia com um tempo de oração mais tranquilo e bastante mais alargado. Consolação e entusiasmo matinais de quem se observa generoso e com louvável abnegação pelo tempo que seria dedicado, exclusivamente, ao Senhor.
O evangelho do dia? Será sugestivo e claro como sempre - pensei.

“Deve estar grato ao servo por ter feito o que lhe mandou? Assim, também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: 'Somos servos inúteis; apenas fizemos o que devíamos fazer!” (Lc 17,10).

Oh Senhor atirar um gajo uma pessoa assim ao tapete, logo nos primeiros vinte segundos, é obra!



Para quê o discernimento? E como discernir?

Ao discernimento estariam associadas outras palavras, talvez mais familiares, como por exemplo “distinção”, “separação”, “diferenciação” e por aí adiante. Neste sentido, tratar-se-ia de uma acção ou de uma claridade que me possibilita não confundir duas realidades diferentes entre si. À partida esta ferramenta, chamemos-lhe assim ou esta capacidade para distinguir, será de grande utilidade uma vez que diariamente somos confrontados pela indecisão ou pela dúvida: “e agora o que devo fazer?”.


Curiosamente, e talvez mais do que nos apercebamos, somos diariamente visitados por esta interrogação que pode ter dimensões insignificantes ou extremamente importantes. Amanhã a que horas me levanto? Com tanto trabalho, por onde é que vou começar? O que é que vou responder ao e-mail que recebi? Ou talvez de maneira mais evidente “que curso vou escolher?” ou ainda mais radical “quero casar-me ou não?”. Haverá, certamente, uma infinidade de perguntas que esperam uma resposta conclusiva. A dúvida estará em saber qual é a resposta “acertada”. Neste sentido, o discernimento aparece como uma ferramenta importante porque me facilita e ajuda a destrinçar as várias alternativas ou simultâneos desejos e a optar pelo melhor.

O discernimento existe porque cada uma destas alternativas, desejos ou projectos (para a mesma pergunta) provocam na pessoa diferentes efeitos ou diferentes agitações interiores. Será importante, tomar consciência do género de reacções que me provocam quando considero cada uma das alternativas ao problema que me preocupa: trata-se de alegria, tristeza, deleito, medo, pavor, segurança? Tomar nota.

No entanto, esta percepção de diferentes estados interiores ainda não é suficiente para desempatar entre as várias alternativas porque caso fosse suficiente estaríamos a reduzir a decisão ao campo da mera sensação: “agrada-me, logo é isto que devo fazer; desagrada-me, logo devo evitar”. Tantas vezes, sem que nos tenhamos dado conta, utilizamos como critério de decisão o impacto sensitivo. E não nos disse já a experiência que uma coisa difícil ou desagradável pode trazer consolação e paz?
Assim sendo, além de considerar as alternativas (ou os desejos) e os efeitos interiores que elas me causam, será necessário observar a durabilidade desses mesmos desejos: a alegria que me provoca – a possibilidade de responder ao e-mail, de imaginar-me no curso A ou de pensar se me quero casar ou não – é instantânea ou duradoura? Evapora-se com facilidade ou permanece insistentemente?

Em síntese, um bom discernimento – a capacidade ou clarividência de não confundir aquilo que está a acontecer na minha vida – deve debruçar-se sobre três aspectos:

1) Considerar as diferentes alternativas (projectos, ideias) para o meu dilema.
2) Experimentar e observar as moções interiores que elas me causam.
3) Perguntar-me pela durabilidade destes efeitos.

Já dizia Inácio de Loyola - homem experiente do discernimento - que devemos estar atentos a este percurso dos pensamentos: se o princípio 1), meio 2) e fim 3) são inteiramente bons, inclinando a tudo bem, é sinal de Deus. Mas se o decurso dos pensamentos que traz, acaba nalguma coisa má, ou menos boa, que nos enfraquece, inquieta ou perturba, tirando-nos a paz é um claro sinal de algo a rejeitar.

A revelação que a morte nos traz.

Estava sentado diante dela. De mão dada. Mão enfraquecida, pele debilitada mas com força suficiente para segurar a minha. Para dar-me confiança. Não – sussurrei-lhe – não abra os olhos, não se preocupe e descanse. Adivinhava a presença da morte, pensei eu. Adivinhava a presença de Deus, articulava ela. Nunca cheguei a saber o que lhe ia no coração. E nem por ajuda, me atrevia a fazer-lhe qualquer pergunta. Mas... mas, eu trazia uma grande pergunta: o que se passará neste coração que só vive da espera? Que verdade trazemos dentro de nós e que só se revelará com a morte?

Era a última página. Dela. E do livro que agora terminara. Pousara o livro em silêncio. Não porque encontrara a resposta mas por deparar-me com as últimas perguntas feitas por Ivan Ilitch no precioso romance de Lev Tolstoi.


“Chorava a sua impotência, a sua terrível solidão, a crueldade dos homens, a crueldade de Deus, que o abandonava.
Porque me reduziste a isto? Porque me trouxeste ao mundo? Com que fim me martirizas tanto?

Não esperava resposta. E mais chorava porque não havia nem podia haver resposta. A dor fez-se mais aguda, mas não se mexeu, nem chamou ninguém. Depois, sossegou, deixou de chorar, prendeu a respiração, ficou a ouvir atentamente a voz que vinha silenciosamente, a voz da sua alma, a torrente de pensamentos que dentro dele se acumulava.

O que é que tu queres?, foi a primeira coisa que ouviu claramente. O que é que tu queres?, repetiu. E respondeu: o que eu quero é viver. Viver sem sofrer. E começou a repassar na imaginação os melhores momentos da sua vida.
Talvez eu não tenha vivido como deveria, acudiu-lhe de súbito.
E a morte? Onde está? Procurou o seu habitual medo da morte e não o encontrou. Onde está ela? Que morte? Não tinha mais medo, porque também a Morte desaparecera da sua frente. Em lugar dela, viu uma luz. Isto passou-se durante um instante e a significação deste instante não se modificou mais.
Acabou! – disse alguém perto dele. Ele ouviu a palavra e repetiu-a na alma. Acabou a morte. A Morte já não existe!, ainda pensou.

Aspirou profundamente, deteve-se a meio, e morreu.”


Um convento de artistas?

Estava sentado ao computador para programar o fim-de-semana, quando me lembrei por um instante em espreitar as novidades de Montmartre. Por mera coincidência, estava precisamente a começar um evento organizado pela associação ALMA e que eu já o tinha fisgado desde algumas semanas: aqueles artistas incógnitos poisados diariamente na Place du Tertre, em Paris, abririam ao público as portas dos seus ateliers. Para mim, entrar numa casa é sempre um abrir a cortina de um mistério de alguém. Os quadros na parede, as fotografias na estante, a disposição dos sofás. Tudo comunica e revela a história de uma pessoa. Mas, a palavra “atelier” talvez insinue maior intimidade, e por isso maior revelação, que uma sala de estar ou até o próprio quarto. Não consigo encontrar um motivo concreto, mas talvez me sinta fascinado pela desarrumação que este espaço sugere. Desarrumação, não só no sentido de desordem, mas mais do que isso como expressão de algo ainda em construção.

Mas, voltando aos artistas, não sabia sequer que eles vivessem e trabalhassem juntos. Pelos vistos, sim. Na zona limítrofe a norte da cidade, podemos encontrar um edifício dos anos vinte projectado arquitecto Adolphe Thiers com a intenção de alojar e oferecer um lugar de trabalho para (imagem só!) oitenta artistas. E estão lá para todos os gostos: cineastas, escritores, ilustradores, músicos, pintores, fotógrafos e escultores. Não deve ser fácil, viver no meio destes doidos.
Para alguns visitantes aquela tarde, parecia um sábado passado no jardim zoológico na zona de Sete Rios: seres raros, alguns em vias de extinção, enjaulados em cubículos e que faziam malabarismos. Para mim, e desculpem-me lá a imagem talvez viciada, pareceu-me um convento de artistas. A clausura delimitada por cada cubículo em formato mezzanine com o atelier e o respectivo quarto. Os espaços comuns marcados pelas varandas, pelos pátios e pelas salas de exposições. Para além disso, eles falam pouco. Gentilmente, muito gentilmente, abriram as portas mas não têm paciência – e eu também não teria – para tornar devasso aquele espaço.

Com os ateliers que pude visitar, de facto, não tirei os olhos daquela dita “desarrumação”. De facto, não soa bem dizer "o atelier estava desarrumado". Haverá algum que esteja arrumado? A propósito ou a despropósito, fiquei a pensar nos “espaços interiores” da nossa vida, aqueles que raramente são visitados. Algumas vezes desejamo-los como salões de festas, uma vez que desejamos ser universais, hospitaleiros e acolhedores e porque sabemos estar com todos. Outras vezes, transformam-se em escritórios como lugares do discernimento e do uso da razão. Mas, raramente fazemos dos nossos “espaços interiores” lugares de atelier. Lugares de criação, com telas fora do lugar e boiões de tinta a pingar para cima da alcatifa. E estes lugares são verdadeiros, autênticos… são lugares de inédita expressão que revelam o mistério inaudito da nossa interioridade. De facto, estaremos sempre em construção e por isso com aparência de desarrumação. Portanto, não nos espantemos nem ajuizemos o “nosso convento de criação”.