 |
| Escritor agora anónimo |
De costas para a literatura
- Dedicado à simpática esposa do
Apóstolo, que me fez constatar a direcção para a qual estava apontada a minha "não-escrita".
-
É manhã e quase que chove. Da
mesma maneira que quase está sol, ou que quase me "espalhei" enquanto
tomava duche. É um "quase-dia" ou se preferirmos um dia incompleto e
de aspecto tediosamente pardo. Ou seja... Um dia perfeito para escrever.
Se por algum mirabolante acaso
decidisse pedir conselho aos meus escritores favoritos, sei que dois deles
diriam - Faz o que te apetecer e manda lixar o resto. - Talvez seja por isso
que um deles morreu na miséria, e o outro só não teve o mesmo fim porque não
era português.
Convém pois não esquecer que nas
palavras aladas de Almada Negreiros, é esta "a pátria onde Camões morreu
de fome e onde todos enchem a barriga de Camões!". Já me esquecia que
também adoro o velho Futurista. Mas como alguns sabem, eu gosto de imensa gente
da qual nem sempre me lembro.
- Pelo menos desta vez não me
estou a desviar do tema como acontece tantas vezes.
O facto é que o meu ego indolente
e hedonista, só faz o que lhe apetece ou o que eventualmente consigam obrigá-lo
a fazer.
É que a escrita é uma actividade
de natureza facultativa. E não me venham com a conversa sobre a "necessidade
da escrita". Porque quem precisa desse tipo de desabafos, ou arranja um
psicólogo, ou uma amante que seja também boa ouvinte (o famoso
"dois-em-um" que se tornou tão famoso nas grandes superfícies
comerciais, mas que nesse domínio é bem mais barato e gratificante).
A literatura (se for realmente
aquilo que inadvertidamente aqui estou a fazer) é pois, para mim, algo que
fazemos se apenas quisermos, se não estivermos muito constipados e se tivermos
um pouco de jeitinho. Tendo pois algumas vagas semelhanças com o sexo; que por
sua vez as tem com quase tudo.
E a verdade é que não me tem
apetecido, e ficamos por aqui.
Mas ontem finalmente houve algo
que colocou novamente em marcha esta espécie de motor iónico (se não estão para
ir ao Google, posso adiantar que é um "zingarelho" de aceleração
gradual que começa devagarinho e vai potenciando) cujo tubo de escape dá para
este blog "azul-cueca" que ultimamente tem sido tão negligenciado
(nem sei como ainda não me abandonou).
Mas é melhor irem buscar umas
bolachas que isto é capaz de ser demorado.
Ora enquanto este blog acumulava
pó, e mantinha no topo durante quase um ano a foto da defunta "Bruxa Má do
Oeste", no mundo analógico passavam-se imensas coisas que dariam volumes e
volumes de material para ler na cama antes de adormecer. Ao contrário do
"Fifty Shades of Grey" que foi para mim uma desilusão (mas felizmente
existe o download ilegal; ou ainda estaria aqui a lamuriar-me pelo dinheiro
desperdiçado).
Só a talhe de foice, acho que eu faria
bem melhor. E não me refiro à parte técnica da escrita (que Blog me livre
disso) pois essa é uma área reservada para gente que perceba do assunto; e como
vocês sabem, eu até trabalho no ramo da Construção Civil. Bem, agora já não. Mas
isso são outros graus; embora de cor e não acinzentados.
Refiro-me apenas ao argumento que
algumas pessoas acharam "de uma imaginação prodigiosa". Pois acreditem
que não é necessária muita imaginação para "aquilo".
E (permitam-me agora uma das
minhas habituais analogias ordinárias) como espeleólogo que já percorreu alguns
bons quilómetros de grutas das três principais variedades, posso afirmar que se
trata apenas de um misto de recordações da juventude e anseios não satisfeitos
na meia-idade da autora em questão.
Coisa que a referida senhora
conseguiu espalhar por incontáveis páginas, como um pensionista a tentar fazer
render a manteiga dias antes do cheque da Segurança Social.
Está bom, apesar de não merecer a
maior parte de todo aquele aparato que fizeram à volta do assunto. Mas como já
tive a oportunidade por várias vezes de testemunhar na blogosfera (se é que
ainda lhe chamam isso), basta uma mulher falar de sexo ou escrever algumas
vulgaridades avulsas e terá toda a atenção que quiser.
Mas onde é que eu estava? ...
Ah, pois. Enquanto a vida ia
sendo impulsionada pelo tempo tal como lixo empurrado por uma vassoura,
passaram-se imensas coisas. E para não vos tomar muito tempo, pois alguns
estarão já a bocejar desalmadamente, Vou referir-me só ao que me chateou mais -
Tive um problema de infestação.
Os poucos de vós que me conhecem
pessoalmente, sabem que sou um rapaz asseado e que dificilmente cairia presa de
piolhos, pulgas ou carraças.
Mas o caso foi um pouco mais
drástico e muito mais oneroso do que se tratasse de uma comparativamente
insignificante parasitose por "Ascaris lumbricoides", ou uma real
camada de "Phthirus pubis"; que em comparação com o meu ex-empregador
(o parasita realmente em causa) são uns bicharocos cordatos, simpáticos e
talvez mesmo honestos.
Ora como devem calcular não fica
barato um tipo livrar-se de parasitas. Não só se agarram teimosamente na ânsia
de continuar a drenar os vossos fluidos (coitados, também pouco mais sabem
fazer), como depois de nos livrarmos deles, ainda temos que nos desinfectar
completamente, apanhar vacinas e curar infecções. O que no caso desta metáfora
serão uns largos milhares de euros (que quase decerto nunca verei) entre
ordenados e subsídios não pagos, bem como indemnização pelos largos anos em que
me esteve teimosamente agarrado aos tomates (era mesmo um chato).
Mas eu estava era de costas para
a literatura. Que ao contrário do referido "Phthirus", não aproveita
a ocasião para nos roubar a carteira ou fugir com o telemóvel.
Mas perguntarão vocês (os que
ainda não se piraram sub-reptíciamente) - Será que estar de costas para a
literatura é ir já no fim da segunda folha A4, e continuar para aqui a arengar
às massas?
Ora aqui é que entra a verdadeira
razão do título deste enorme post, só comparável em extensão à descrição das
genealogias no Velho Testamento.
Chegou mais um ano. E com ele
todo o conjunto de previsões da treta, promessas falaciosas e habituais
clichés; bem como aborrecidas reuniões de condomínio e consequente substituição
da administração cessante por outra cujos membros não se tenham conseguido
esquivar a tempo.
Desta vez e tal como andava já a
prometer há algum tempo, o Apóstolo arregaçou o manto e chegou-se à frente. Só
que não foi ao estilo das saudosas coristas do Parque Mayer - O que teria sido
bonito, e até didáctico - Mas para nos apresentar a reinvenção do velho
conceito de "liberdade possível" em direcção ao que me pareceu na
altura (eu não ligo muito ao que se passa na escada) uma nova Ordem Mundial mas
à escala dos "Livros Condensados das Selecções do Reader's Digest".
Íamos (e vamos, que ele quando
arregaça o manto não é só para mostrar os seus joelhos gorduchos) então
finalmente ter uma administração realmente organizada e direccionada para a
eficiência e conforto de todos os condóminos contribuintes (também temos dos
outros).
Com os olhos brilhantes de
entusiasmo, calçou apressadamente as suas sandálias das grandes peregrinações,
e dirigiu-se à sede da Caixa Geral e Depósitos em Lisboa. Disposto a abrir uma
"Conta Condomínio", ou lá o que é.
Para sua surpresa a dita
organização - que cá para mim ainda se devia chamar "Monte da Piedade
Nacional" (SIC), pois tinha muito mais piada - estava pouco interessada
nos nossos poucos Euros, e muito mais em informação sobre as nossas pessoas e na
obtenção de infindáveis cópias de documentos obscuros; alguns deles de natureza
hermética. Tal como registos de propriedade, averbamentos de matriz e outras
tralhas que eu não consegui perceber bem pelo telemóvel, uma vez que por essa
altura me encontrava a sair de um autocarro com dois sacos de compras e no meio
de uma turba de anciãos; após uma movimentada manhã no Almada Fórum.
O que compreendi de imediato é
que não só eu, como todos os meus vizinhos de mais cinco edifícios, nos
encontrávamos vergonhosamente de costas para um escritor do princípio do século
passado; o que considero imperdoável.
Ora eu tenho um especial carinho
pelos escritores portugueses do princípio do século XX. Especialmente pelos que
têm (pois para mim ainda estão vivos) sentido de humor.
Enquanto desempacotava as compras
e mandava para a reciclagem massivas quantidades de celulose e polímeros sintéticos;
a minha mente regressou ao tempo em que no velho sexto andar em Alfama, me
sentava nas tábuas polidas do corredor com as costas encostadas à estante que
continha os livros do meu avô, e me deliciava com os episódios picarescos de
"A Malta das Trincheiras" de André Brun, à mistura com velhos números
do Tit-Bits" e do "Punch".
Um pouco chateado, pois sempre
considerei André Brun uma espécie de P. G. Wodehouse mais proletário e ao gosto
português, fui averiguar.
Felizmente não se tratava dele
mas de um seu amigo também escritor, embora um pouco mais trágico e emproado.
Escritor este do qual não digo o nome, pois tarde ou cedo teria à minha porta
uma alegre multidão empunhando archotes e forquilhas. Mas adiante.
Em suma. Na sua discutível
sabedoria, o Município tinha relegado para um gaveto não pavimentado, salpicado
de canas e tufos de urtigas, um escritor que no seu tempo tinha sido grande
(embora num género do qual não sou especial apreciador); talvez numa cósmica e
retorcida alusão àquilo para o que há cerca de um ano eu me encontrava de
costas voltadas. A minha controversa e indestrinçável natureza.
Pois se tarde ou cedo teria que
escrever, decidi que seria hoje. Quanto mais não seja para homenagear solitariamente
um escritor agora anónimo, cujo quase desaparecimento me vem ensinar que na
verdade não escrevo para o futuro ou para alguém, mas tão-somente porque me
apetece.
Música de Fundo
Groucho Marx - Lydia the Tattooed Lady