segunda-feira, Agosto 25, 2014
FALECEU RICHARD ATTENBOROUGH
RICHARD
ATTENBOROUGH (1923 - 2014)
Richard Samuel Attenborough nasceu a
29 de Agosto de 1923, em Cambridge, Inglaterra. Faleceu a 24 de Agosto de 2014,
em Northwood, Londres, Inglaterra. Contava 90 anos. Estudou em Leicester e posteriormente na Royal Academy of Dramatic
Art (RADA), de que se tornaria, anos mais tarde, presidente, bem assim como da Capital Radio. Irmão de David Attenborough.
Em 1967, foi feito Comandante da Ordem do Império Britãnico, designado
Cavaleiro em 1976, barão e Lord em 1993. Em 2003, é Chanceler da universidade
de Sussex. Casado, desde 1945, com Sheila Sim, de quem tem três filhos, entre
os quais Michael Attenborough, encenador.
Richard Attenborough é considerado um
dos maiores actores ingleses de sempre e
um realizador muito conceituado. Em 1983, “Gandhi” recebeu onze nomeações para
Oscars, ganhou nove, entre as quais a de Melhor Filme, Melhor Realizador,
Melhor Actor (Ben Kingsley) e Melhor Argumento. Com o mesmo filme ganhou o
Globo de Ouro de Melhor Realizador. Como actor, ganhou o Globo de Ouro para
Melhor Actor Secundário em 1967 e 1968, respectivamente para “Yang-Tsé em
Chamas”e “O Extravagante Dr. Dolittle”.
Filmografia:
Como
realizador: 1969: Oh! What
A Lovely War (Viva a Guerra!); 1972: Young Winston (O Jovem Leão); 1977: A
Bridge Too Far (Uma Ponte Longe Demais); 1978: Magic; 1982: Gandhi
(Gandhi); 1985: A Chorus Line (A Chorus
Line); 1987: Cry Freedom (Grita Liberdade); 1992: Chaplin (Chaplin); 1993: Shadowlands (Dois Estranhos, Um
Destino); 1996: In Love and War (Em Amor e em Guerra); 1999: Grey Owl (Grey Owl
- A História de um Guerreiro); 2007: War
and Destiny ou Closing the Ring (O Elo do Amor).
Como
actor:
1942: In Which We Serve (Sangue, Suor e Lágrimas), de Noël Coward e David Lean;
1943: Schweik's New Adventures, de Karel Lamač; 1944: The Hundred Pound Window,
de Brian Desmond Hurst; 1945: Journey Together (Jornada Heróica) de John
Boulting; Think It Over (curta-metragem); 1946: A Matter of Life and Death
(Caso de Vida ou Morte) de Michael Powell e Emeric Pressburger; 1946: School
for Secrets, de Peter Ustinov; 1947: The Man Within (O Fantasma da Floresta),
de Bernard Knowles; Dancing With Crime, de John Paddy Carstairs; 1947: Brighton
Rock, de John Boulting; 1948: London Belongs to Me, de Sidney Gilliat; The
Guinea Pig, de Roy Boulting; 1949: The Lost People, de Bernard Knowles; Boys in
Brown, de Montgomery Tully; 1950: Morning Departure (Trágico Amanhecer), de Roy
Ward Baker; BBC Sunday-Night Theatre (TV); 1951: Hell is Sold Out, de Michael
Anderson; 1951: The Magic Box, de John Boulting; 1952: Gift Horse, de Compton
Bennett; Father's Doing Fine, de Henry Cass; 1954: Eight O'Clock Walk, de Lance
Comfort; 1955: The Ship that died of Shame (O Navio Que Morreu de Vergonha), de
Basil Dearden; 1956: Private's Progress, de John Boulting: The Baby and the Battleship (Diabruras Num
Couraçado), de Jay Lewis; 1957: Brothers in Law, de Roy Boulting; The Scamp, de
Wolf Rilla; 1958: Dunkirk, de Leslie Norman; The Man Upstairs, de Don Chaffey;
Sea of Sand (Deserto em Chamas), de Guy Green; 1959: Danger Within (Perigo em
Cada Segundo), de Don Chaffey; I'm All Right Jack (Simpático Idiota), de John
Boulting; SOS Pacific (S.O.S. Pacífico), de Guy Green; The League of Gentlemen (Cavalheiros da
indústria), de Basil Dearden; Jet Storm, de Cy Endfield; Upgreen - And at 'Em,
de ?; The Angry Silence) de Guy Green; 1961: Whistle down the Wind (Os olhos
postos em ti), de Bryan Forbes (não creditado); 1962: Only Two Can Play, de
Sidney Giliat; 1962: All Night Long (Ao Longo da Noite), de Basil Dearden; The
Dock Brief, de James Hill; 1963: The Great Escape (A Grande Evasão), de John
Sturges; 1964: The Third Secret (O 3º. Segredo), de Charles Crichton; 1964:
Seance on a Wet Afternoon (À Beira do abismo), de Bryan Forbes; Guns at Batasi
(Revolta em Batasi), de John Guillermin; 1965: The Flight of the Phoenix (O Voo
da Fénix), de Robert Aldrich; 1966: The Sand Pebbles (Yang-Tsé em Chamas), de
Robert Wise; 1967: Doctor Dolittle (O Extravagante Dr. Dolittle), de Richard
Fleischer; 1968: Only When I Larf (Negócios em Três Continentes), de Basil
Dearden; The Bliss of Mrs. Blossom (A Felicidade da Senhora Blossom), de Joseph
McGrath; 1969: The Magic Christian (Um Beatle no Paraiso),de Joseph McGrath;
David Copperfield (TV); 1970: The Last Grenade, de Gordon Flemyng; A Severed
Head (Ligações Cruzadas).de Dick Clement; 1970: Loot, de Silvio Narizzano;
1971: 10 Rillington Place (O Violador de Rillington), de Richard Fleischer;
1974: Ten Little Indians ou Ein Unbekannter rechnet ab, de Peter Collinson;
1975: Rosebud (O Caso Rosebud), de Otto Preminger; 1975: Brannigan
(Branningan), de Douglas Hickox; Conduct Unbecoming (A Honra do Regimento), de
Michael Anderson; 1977: Shatranj Ke Khilari (O Jogador de Xadrez), de Satyajit
Ray; A Bridge Too Far (Uma Ponte Longe Demais), de Richard Attenborough; 1979:
The Human Factor (O Factor Humano), de Otto Preminger; 1993: Jurassic Park
(Parque Jurássico), de Steven Spielberg; 1994: Miracle on 34th Street (Milagre em Manhattan), de Les Mayfield;
1996: E=mc2, de Benjamin Fry, Hamlet (Hamlet), de Kenneth Branagh; 1997: The
Lost World: Jurassic Park (O Mundo Perdido: Jurassic Park), de Steven
Spielberg; 1998: Elizabeth (Elizabeth),de Shekhar Kapur; Tom and Vicky (TV)
(voz); 2000: Masterpiece Theatre (TV) -
The Railway Children; The Railway Children (TV); 2001: Jack and the Beanstalk:
The Real Story (TV); 2002: Puckoon, de Terence Ryan; 2004: Tres en el Caminho,
de Laurence Boulting (voz).
Nas fotos:
O triunfo de "Gandhi"
Com Steven Spielberg, que o dirigiu em "Parque Jurassic"
Com o irmão David Attenborough
Com a mulher Sheila Sim
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Richard Attenborough
quarta-feira, Agosto 13, 2014
LAUREN BACALL
QUE MERDA DE MÊS DE AGOSTO!
Morreu Lauren Bacall. Era uma das actrizes da minha vida, e seguramente de milhões de outros seres humanos que admiravam o seu talento, e a sua beleza. Eu sei que ela tinha 89 anos. Mas custa saber que alguns só se tornam imortais pela sua lembrança em nós.
Tal como milhões de portugueses, devo muito ao Dr. Mário Soares. Mas eu, e mais uma dúzia de cinéfilos, tive o privilégio de almoçar em Belém com Lauren Bacall. Mário Soares é um homem de bom gosto, já se sabia. Obrigado pelo convite. Tanto mais que, anteriormente, tinha passado uma noite à porta de um teatro de Nova Iorque para a ver sair, de carro, depois de uma representação memorável de "Woman of the Year". Aí, só a vi de raspão. Mas em Belém ficou tão perto de mim. Aquela que dizia que bastava assobiar. "Just whistle!"
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Lauren Bacall
ROBIN WILLIAMS
O homem que nos deu, entre muitos outros, "Bom Dia, Vietname", "O Clube dos Poetas Mortos", "Despertares", "O Rei Pescador", "Hook", "As Faces de Harry" ou "O Bom Rebelde", deixou-nos. Em depressão. Ele e nós.
sexta-feira, Agosto 08, 2014
31ª XORNADAS DE CINE E VIDEO EN GALICIA 2014
PRESENTACIÓN OFICIAL DAS XOCIVIGA 2014

PERSENTACIÓN
O cine e o audiovisual ten orixinado un impacto importante no eido cultural, social e ata económico no entorno do Carballiño, ata tal punto que forma parte da súa imaxe.
As XOCIVIGA foron o revulsivo do audiovisual galego, decisivas na creación das estruturas públicas e privadas do sector audiovisual do noso país, xerando unha maneira de mirar e de crear sinais de referencia.
A partir dos anos noventa o audiovisual galego experimentou un crecemento continuo ata chegar a ser un exemplo de profesionalidade, innovación tecnolóxica e madurez, e moito tivo que ver neste feito a influencia das XOCIVIGA. Os produtos realizados nos últimos 25 anos mostran unha rica diversidade e un gran avance no dominio da linguaxe do medio.
Tratando de recuperar aquela liña argumental que caracterizou o seu nacemento, as XOCIVIGA aspiran a crear un novo espazo que atraia á corrente creativa actual, asumindo o cine como medio de expresión e a necesidade de contribuír ao desenvolvemento de novos proxectos apoiando a súa produción.
Foi e será importante a presenza de Portugal nas XOCIVIGA. As relacións coas institucións cinematográficas de Portugal permitiron, tempo atrás, un importante intercambio de proxectos, a divulgación constante das dúas cinematografías e o inicio das coproducións entre os dous países que converteran ó Carballiño como o punto de referencial para os profesionais do sector. Cara o futuro, pois, as XOCIVIGA apostan por converterse no certame de referencia Galicia-Portugal, extensible ao mundo lusófono.
INAUGURACIÓN
O próximo luns, día 1, dará comezo o programa con un concerto de piano no Auditorio Municipal a cargo de Severiano Casalderrey, con un recital de música de películas apoiado cunha montaxe audiovisual.
Este ano, coincidindo cos trinta anos da súa creación, as XOCIVIGA homenaxean ao Cine Club Carballiño, que no ano 1984 poñía en marcha o que resultou ser o revulsivo do audiovisual galego e o seu organizador durante a maior parte das súas 31 edicións. Neste día será proxectada a primeira película que se exhibira naquela edición inicial, “Manhá Submersa”, e será presentada polo seu director, Lauro Antonio.
CURT''ARRUDA 2014
segunda-feira, Julho 28, 2014
DVD: SHARKNADO, TUBARÃO ASSASSINO
SHARKNADO,
TUBARÃO ASSASSINO
Vamos lá ver como abordar este filme.
Há algum tempo atrás, eu achava que os filmes fantásticos e de terror eram
quase sempre bons de ver. Ou eram bem feitos, inteligentes e sugestivos, o que
os tornava bons em absoluto, ou eram maus, mal feitos, parvos, ingénuos, e eram
divertidíssimos. Creio que foi assim que o Fantasporto ganhou fama e público
fiel: quase nunca se dava por mal empregue o tempo. Depois as coisas pioraram
com o aparecimento em grande dos efeitos especiais, e passaram a existir muitos
filmes que não eram nem carne nem peixe, e que já não davam gozo nenhum.
Afastei-me um pouco do género, procurando agora só lá ir mais ou menos com
alguma certeza de qualidade, inclusive porque não sou fã incondicional do
“gore”, e este é o subgénero em moda.
Há dias, num trailer visto no IMDB, vi
o anúncio a “Sharknado 2”, e fiquei
alerta. Fui investigar e descobri que “Sharknado” tinha sido um filme
para televisão que tinha sido dos mais vistos nos EUA em 2013. De tal forma que
se anunciava a sequela para 2014, de novo na TV, com estreia programada para 30
de Julho. Numa ida à Fnac descobri “Sharknado” e foi irresistível. De regresso
a casa, vi-o de imediato.
E agora não sei como começar esta nota
sem cair no total descrédito dos meus leitores. Realizado por Anthony C.
Ferrante (que, antes deste, tinha dirigido curtas e “A Maldição do Cavaleiro
Sem Cabeça”, 2007, e “Boo a Casa Maldita”, 2005, que desconhecemos), escrito
por Thunder Levin (que escreveu e dirigiu algumas películas de terror, como a
esclarecedora “Mutant Vampire Zombies from the 'Hood!”, 2008), “Sharknado” não
se pode dizer que seja um bom filme. O argumento é delirante, dos mais
delirantes que eu conheço, a realização é fraca, os actores são medíocres, e,
no entanto, ver “Sharknado” é um experiência divertidíssima (sobretudo para os
apreciadores do género. Quem só gosta de Dreyer e Ozu é favor abster-se!).
Os que continuarem a ler necessitam
agora de algumas referências mais precisas. Estamos em Santa Mónica, na Califórnia,
uma praia carregada de banhistas, um barzinho sobre as areias, uma roda
gigante, o mar cada vez mais agitado, o que faz a felicidade dos surfistas, até
que os tubarões dão à costa. Nada de muito novo. Spielberg já nos dera a versão
definitiva e há dezenas de outros títulos a ilustrar o terror e a catástrofe.
As pessoas começam a fugir da praia e a
procurarem terrenos mais elevados, porque o mar invade tudo e atira com a roda
gigante contra um edifício, mas aproximam-se três tornados que vão devastar a
zona de Los Angeles. Com uma característica invulgar (única, julgo eu): os
tornados sugaram as águas do oceano, com elas vieram os tubarões aos milhares,
que se começam a abater sobre as ruas, as avenidas, as casas, os viadutos, as
piscinas locais, e a provocarem o caos e uma carnificina total. É o terror, há
um grupo de sobreviventes que vai organizando “a resistência” (com alguns
problemas familiares pelo meio, boa altura para discutir se a filha gosta ou
não do pai…) e assiste-se a alguns dos momentos mais divertidos que me foram
dado ver nos últimos anos em filmes semelhantes. Já pensaram o que é caírem do
céu milhares de tubarões famintos que agarram no que podem em pleno voo? Já
imaginaram um tipo, munido de serra mecânica, a aviar tubarões no ar? Já
idealizaram a cena de esse tipo entrar pela boca de um tubarão com a serra
mecânica em punho e sair do outro lado, trazendo consigo uma rapariga, a
empregada do bar, que havia sido deglutida sequências atrás? Respiração boca a boca e aproxima-se o final
feliz, certamente com palmas entusiásticas da assistência. Enfim, como diz uma
personagem do filme, “a minha mãe sempre me disse que Hollywood ia matar-me!”
Cumpriu-se a profecia.
É um mau filme? É. Mas recupera o
maravilhoso do cinema de Méliès e das barracas de feira do início do
cinematógrafo. Será assim tão mau? Eu acho magnífico e fico à espera, com
entusiasmo, pela sequela, agora passada em Nova Iorque. Com Estátua da
Liberdade e tudo. Já se pode ver no cartaz.
SHARKNADO,
TUBARÃO ASSASSINO
Título
original: Sharknado
Realização: Anthony C.
Ferrante (EUA, 2013) (TV); Argumento: Thunder Levin; Produção: Paul Bales,
David L. Garber, David Michael Latt, Geoffrey Mark, Karen O'Hara, Cody Peck,
Chris Regina, David Rimawi, Thomas P. Vitale, Devin Ward; Música: Ramin Kousha;
Fotografia (cor): Ben Demaree; Montagem:
William Boodell; Casting: Gerald Webb; Design de produção: Vincent Albo;
Direcção artística: Ashley Hasenyager; Decoração: Moana Hom; Guarda-roupa: Amber Hamzeh; Maquilhagem: Megan Areford;
Direcção de Produção: Julie Richheimer;
Assistentes de realização: Cristy Arboleda, Maximilian Elfeldt, Esther Elise
Johnson, Geoffrey Mark, John Mehrer, Tim McDaniel; Departamento de arte: Mike
DiGrazia, Mike DiGrazia, Susan Donner, Naoko Inada; Som: Alexander X.
Hutchinson, Cody Lawrence, Craig Polding, Lisa Ries; Efeitos especiais: Matt
Langford, Alex Rondon, Sandy Zywocienski, Joseph Cornell, Josh Foster; Efeitos
visuais: Ken Brilliant, Joseph J. Lawson, Geoffrey Mark, Emile Edwin Smith,
Sandell Stangl; Companhias de produção:
The Asylum, Southward Films; Intérpretes:
Ian Ziering (Fin Shepard), Tara Reid (April Wexler), John Heard (George) Cassandra
Scerbo (Nova Clarke), Jaason Simmons (Baz Hogan), Alex Arleo (Bobby), Neil H.
Berkow (Carl Hubert), Heather Jocelyn Blair (Candice), Sumiko Braun (Deanna), Diane
Chambers (Agnes), Julie McCullough, Marcus Choi, Israel Sáez de Miguel, Tiffany
Cole, Trish Coren, Chuck Hittinger, Aubrey Peeples, Michael Teh, Connor Weil, Christopher
Wolfe, Steve Moulton, Robbie Rist, David Bittick, etc. Duração: 85 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Film4you;
Classificação etária: M/ 14 anos; Emissão nos EUA: 11 de Julho de 2013.
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domingo, Julho 13, 2014
TEATRO: TRÊS MULHERES ALTAS
TRÊS
MULHERES ALTAS
“Três Mulheres Altas”,
de Edward Albee, é considerada uma das peças mais pessoais, mesmo
autobiográficas em muito do seu traçado, do autor de “Quem Tem Medo de Virgínia
Woolf?” que a escreveu pouco tempo após a morte da sua mãe adoptiva. É também
dos seus trabalhos menos conhecidos e ainda bem que o Teatro Nacional de D.
Maria II a deu a conhecer agora, pois se trata de um trabalho extremamente
interessante, uma obra cénica de notável concepção, interligando em palco o
discurso de três mulheres, em três fases distintas da sua vida, juventude,
maturidade e velhice, que rapidamente se descobre serem a mesma pessoa, justapondo
momentos diferentes da sua existência que dialogam entre si.
Esta dolorosa, e por
vezes divertida, meditação sobre a vida (e a morte), sobre as relações humanas
(aqui uma especial referência às relações com o filho, quase sempre ausente,
seguramente uma das “culpas” a espiar por Albee), é um discurso intimista de
uma agudeza de análise e de um humanismo que raras vezes se vê em palcos, com
tal profundidade e clareza. Por entre um certo desespero, algum conformismo que
roça também a revolta, e uma esperança sempre presente, “Três Mulheres Altas”
ficará certamente como um dos bons espectáculos deste ano de 2014, servido por
uma inteligente e límpida encenação de Manuel Coelho, inscrita num bom cenário
de F. Ribeiro, plasticamente bonito e cenicamente eficaz. As três mulheres oferecem matéria para Catarina
Avelar brilhar num desempenho magnífico, Inês Castel-Branco demonstrar todas as
suas qualidades e potencialidades e Paula Mora marcar igualmente uma boa
presença. Um bom espectáculo, portanto, que se saúda
TRÊS
MULHERES ALTAS (Three Tall Women), de Edward Albee;
tradução Marta Mendonça; encenação Manuel Coelho; cenografia F. Ribeiro;
figurinos Dino Alves; música original José Salgueiro; desenho de luz José
Carlos Nascimento; cabelos e maquilhagem Carla Pinho; assistência de encenação
José Neves; Intérpretes: Catarina Avelar, Inês Castel-Branco, Paula Mora e José
Neves; produção TNDM II; M/16 anos.
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sábado, Junho 28, 2014
TEATRO: TOMORROW MORNING
TOMORROW MORNING
“Tomorrow
Morning” é um musical que recentemente subiu aos palcos mundiais, com origem em
Inglaterra. Passou depois por alguns dos maiores teatros de países como os EUA,
a Austrália, Coreia do Sul e outros.
Chegou agora a Portugal, abrindo, no Auditório dos Oceanos, no Casino de Lisboa, uma temporada curta, entre 4 e 29 de Junho.
“Tomorrow
Morning” tem letra e música do compositor e escritor britânico, Laurence Mark
Wythe, tendo estreado no New End Theatre, em Londres, em 2006. Quando se esteou
em Chicago, o texto e a estrutura foram rectificados. A versão que chega até nós
acompanha a de Chicago e tem tradução e adaptação de Ana Cardoso Pires, Miguel
Dias e Eduardo Barreto, e encenação deste último.
Em
palco, numa caixa que se abre para revelar os segredos de dois casais, uma
historieta não muito original: um casal que já passou os 40 e se prepara para o
divórcio, e um casal próximo dos 30 que organiza o próximo casamento.
Os mais novos são
Jonny (Ruben Madureira) e Kati (Sissi Martins) e os veteranos João (Mário
Redondo) e Catarina (Wanda Stuart). A partir de certa altura, percebe-se claramente
que os dois casais são um só, mas em tempos diferentes das suas vidas. Enfim, o
amor, o casamento, as traições, a culpa, o perdão, a esperança. A vida. Nada de
muito novo e, sobretudo, nada de surpreendente. Nem no assunto, nem na forma deste ser abordado.
Mas
a banda sonora, muito na tradição do musical britânico, ouve-se com agrado, a
encenação é cuidadosa e revela alguma imaginação, e os quatro actores/cantores
são de qualidade acima da média, e defendem bem as suas personagens. São eles
basicamente quem sustenta o possível sucesso deste musical por terras
lusitanas, mostrando mais uma vez que o musical é possível entre nós. Talento existe.
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quinta-feira, Junho 26, 2014
CINEMA: THE MONUMENTS MEN
THE MONUMENTS MEN
OS
CAÇADORES DE TESOUROS
George
Clooney é uma personalidade particularmente fascinante no interior da indústria
cinematográfica norte-americana. Actor de boa presença, com perfil adequado
para galã, não rejeita papéis em comédias sentimentais e aventuras, mas
assume-se como personalidade de convicções e projectos liberais, o que nos EUA
quer dizer ser mais ou menos de esquerda ou, se preferirem, ter opções
progressistas. O que se demonstra bem na sua curta filmografia como realizador,
iniciada em 2002, com “Confissões de Uma Mente Perigosa” e continuada com três
títulos particularmente interessantes “Boa Noite, e Boa Sorte” (2005), “Jogo
Sujo” (2008) e “Nos Idos de Março” (2011). “The Monuments Men - Os Caçadores de
Tesouros” é já de 2014 e nele concentra um conjunto de funções que não será
escusado relembrar: ele é actor, realizador, produtor e argumentista, o que
mostra bem a forma interessada como encarou este projecto.
“The
Monuments Men” é algo pouco conhecido do grande público. São às centenas os
filmes que documentam, melhor ou pior, os massacres humanos, o holocausto, o
desespero e o terror vividos por milhões durante o tenebroso reino do III Reich
e do seu megalómano chefe Adolf Hitler. O “The Monuments Men, Fine Arts and Archives”,
conhecido pela sigla MFAA, e que se pode traduzir por “os homens dos
monumentos, belas artes e arquivos”, foi uma força especial criada pelos
Aliados, depois dos EUA terem entrado na II Guerra Mundial, e que, entre 1943 e
1951, portanto apanhando os anos finais do conflito e os que se seguiram ao
cessar fogo, tentaram identificar, localizar, recuperar, proteger, e finalmente
devolver aos seus legítimos proprietários milhões de obras de arte, quer fossem
pinturas, esculturas, cerâmicas, móveis, tapeçarias, jóias, quer se tratasse de
bibliotecas, livros raros, pergaminhos, etc. que haviam sido saqueadas pelas
tropas nazis durante a ocupação em terras estrangeiras. As vítimas eram de todo
o género, mas particularmente milionários judeus, Rotschild, Paul Rosenberg,
David-Weil, Schoss, Berheim-Jeune, Alphonse Khan, Fritz Gusmann, entre outros.
Esta pilhagem maciça de obras de arte destinava-se a rechear os museus alemães
e as colecções particulares de Hitler, Goering, von Ribbentrop, e outros altos
dignatários do III Reich, além de alindarem sedes e departamentos
governamentais e do partido nacional-socialista. Mas havia uma meta em especial
na mente de Hitler: o museu a criar na cidadezinha austríaca de Linz e que se
destinava a ser o melhor museu do mundo no que diria respeito à arte da Europa do
Norte, dado que para o Führer só existia a arte ariana, toda a outra era
“degenerada” e destinada à destruição. Tal como os judeus, ciganos, negros,
comunistas, socialistas e todos quantos se opunham às intenções do predestinado
leader.
Esta
força especial tinha a cobertura do presidente Roosevelt e do general
Eisenhower, era formada não por militares de carreira, mas por arqueólogos,
arquitectos, directores de museus, professores universitários de instituições
como Harvard, Yale, Princeton, New York, Williams College ou Columbia
University, e especialistas afins, que se ofereceram voluntariamente para a
integrarem. Eram raros os que contavam menos de 40 anos e alguns rondavam a
casa dos 60. Era uma missão arriscada para qualquer um, mais ainda para estes
destreinados “artistas” pouco dados a artes marciais. Vinham sobretudo dos
Estados Unidos da América e de Inglaterra, mas havia-os também do Canadá, de
França, de Itália, e de muitos outros países. Tantos quantos os que integravam
as forças Aliadas. No total, não eram mais de 400, distribuídos por vários
teatros de operações. O filme de George Clooney, que adapta a obra “Os Homens
dos Monumentos”, de Robert M. Edsel e Bret Witter, foca o caso de uma dúzia
deles, dando especial enfoque a seis ou sete dos que tiveram contribuição mais
relevante e também mais espectacular. Na vida real chamavam-se Ronald Balfour,
Harry Enlinger, Walter Hancock, Walter Hutchthausen, Jacques Jaujard, Lincoln
Kirstein, Robert Posey, James Rorimer e Gerge Stoout, para além de Rose Valland,
uma civil francesa a que se atribui ainda especial atenção, pois era a
responsável pela catalogação das obras no Jeu de Paume, em Paris. No filme, as
personagens criadas pelos actores são conhecidas por diferentes nomes: George
Clooney (Frank Stokes), Matt Damon (James Granger), Bill Murray (Richard
Campbell), John Goodman (Walter Garfield), Jean Dujardin (Jean Claude
Clermont), Hugh Bonneville (Donald Jeffries), Bob Balaban (Preston Savitz) ou Dimitri
Leonidas (Sam Epstein) e mesmo Cate Blanchett, que revive o papel de Rose
Valland, se chama Claire Simone.
O filme
é interessante e vale sobretudo por colocar em discussão a questão desse “museu
universal” pilhado pelos nazis. Mas, apesar da excelente reconstituição, da
eficácia dos meios, da qualidade técnica indiscutível, das boas interpretações
de um grande elenco, falta-lhe alguma profundidade. Há temas que são abordados,
mas apenas pela rama. Vale a pena arriscar uma vida humana por uma obra de
arte? É um deles. Tema que se mantém em discussão há muito. Relembro há anos
uma resposta do escultor suíço Alberto Giacometti, quando lhe perguntaram se,
na alterativa de salvar um gato ou uma obra de arte, o que ele escolheria, ao
que o artista não hesitou e indicou o gato. Esta questão levanta-se várias
vezes durante a projecção e é interessante.
Mas
ainda mais curioso seria uma outra questão reflectindo sobre a importância da
arte para Hitler. Por que razão Hitler deu tanta importância à arte? Ele foi,
na sua juventude, um aguarelista medíocre, e viu recusada a sua matrícula na
Academia de Artes de Viena de Áustria. Assistimos assim a uma vingança com
explicação psicanalítica? Hitler quer levar para a Alemanha todas as obras de
arte que ele reputa de essenciais, ou seja todas as produzidas por artistas do
Norte da Europa, de raça ariana. Coloca aqui desde logo a arte ao serviço da
sua política: a grande arte dos povos do Norte da Europa, contra a arte
degenerada do sul. A arte ariana contra a arte dos judeus e das gentes do Sul.
Primeiro ponto da instrumentalização da arte ao serviço da política.
Mas há
mais ramificações nesta opção: Hitler percebeu que a arte é o que fica do espírito
humano. Os homens passam, a arte fica. Roubar a arte de um povo é roubar a sua alma,
humilhar os povos invadidos, tornar visível a sua cobardia, a sua
insignificância. É obviamente uma vampirização da arte dos povos ocupados. Um
povo que se alimenta com a seiva cultural e artística de outros povos.
Concorrendo
com esta há uma outra conclusão a retirar da sua metodologia de pilhagem: só
exige que viajem para a Alemanha as obras dos artistas nórdicos, de Rembrandt e
Vermeer. Sem nenhuma contaminação judaica. As obras da modernidade europeia não
lhe interessam, destrói-as ou manda-as vender para trocar por outras da sua
preferência. O que indica um claro dirigismo estético, de um radicalismo como
raras vezes se viu ao longo da História.
Mas o
filme de George Clooney fica-se quase pela “aventura pela aventura”. Seria
muito mais interessante ser um pouco mais profundo na análise das questões
centrais que esta pilhagem levantava. Assim “The Monuments Men - Os Caçadores
de Tesouros” é uma especie de inverso de “12 Indomáveis Patifes”, de Robert
Aldrich (1967), onde se reunia um conjunto de 12 cadastrados para uma operação
altamente perigosa, em território ocupado pelas tropas nazis. Tal como outros
títulos que evocam situações idênticas, “Heróis por Conta Própria”, de Brian
Hotton (1970), “Três Reis”, de David O. Russell (1999) ou mesmo “Sacanas Sem
Lei”, de Quentin Tarantino (2009), deixando de lado alguns mais. Curiosamente,
esta aventura de Clooney remete um pouco para o espírito de grupo da trilogia
de Steven Soderbergh, “Ocean's Eleven” (2001), “Ocean's 12” (2004) ou “Ocean's
Thirteen” (2007), curiosamente interpretada pelo próprio George Clooney e o seu
grupo de amigos (o que sugere alguma aproximação ao primitivo “Os Onze de
Oceano” (1960), de Lewis Milestone, protagonizado por Frank Sinatra, e o seu
“rat pack”, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford, Joey Bishop, entre outros).
Enfim,
um filme de entretenimento que levanta algumas questões importantes, mas que
infelizmente as deixa a meio caminho da discussão. Uma oportunidade perdida
para se ir mais longe.
Nota 1:
para lá de “Os Homens dos Monumentos”, de Robert M. Edsel e Bret Witter (ed.
Circulo de Leitores), obra donde parte este filme, será de toda a utilidade ler
igualmente “O Museu Imaginário”, de Héctor Feliciano (ed. Dom Quixote).
Nota 2:
Este texto resume uma comunicação apresentada durante o II Colóquio “Dinâmicas
Históricas no Cinema”, uma iniciativa do Instituto Prometheus, Universidade
Aberta e Museu da Farmácia (21 de Junho 2014).
THE MONUMENTS MEN - OS
CAÇADORES DE TESOUROS
Título original: The Monuments
Men
Realização: George Clooney (EUA, Alemanha, 2014);
Argumento: George Clooney, Grant Heslov, segundo obra de Robert M. Edsel e Bret
Witter; Produção: George Clooney, Christoph Fisser, Barbara A. Hall, Grant
Heslov, Henning Molfenter, Charlie Woebcken; Música: Alexandre Desplat;
Fotografia (cor): Phedon Papamichael; Montagem: Stephen Mirrione; Casting: Jina
Jay; Design de produção: James D. Bissell; Direcção artística: Helen Jarvis,
Cornelia Ott, David Scheunemann; Decoração: Bernhard Henrich;
Guarda-roupa: Louise Frogley;
Maquilhagem: Christine Beveridge, Jessica Haupt, Jan Kempkens, Petra Schaumann,
Valeska Schitthelm, Daniela Skala, Heba Thorisdottir; Direcção de Produção: Sam Breckman, Michelle Lankwarden, Daniel
Mattig, Arno Neubauer, Jason Nightingale, Jessie Thiele; Assistentes de
realização: Carlos Fidel, Barney Hughes, Caroline Kaempfer, Philipp Kramer,
Danny McGrath, David J. Webb, Laura Wootton, etc. Departamento de arte: Pablo Alza, Kevin Anthony,
Silke Bauer, Axel Boden, Henning Brehm, Archie Campbell- Baldwin, Dominik
Capodieci, Steve Deane, Dierk Grahlow, Robin Haefs, Tine Hoefke, Jan Hülpüsch,
Sonja Kirch, Michael Lieb, Chris Lowe, Stephanie Rass, Dalia Salamah; Som: James Harrison, Oliver Tarney; Efeitos
especiais: Bernd Rautenberg, Michael Rudnik, Jürgen Thiel, Thomas Thiele, Neil
Toddy Todd, Zoltan Toth, etc. Efeitos visuais: Angus Bickerton, Oliver Cubbage, Ben
Fleming, Wesley Froud, Steffen Hagen, Uday Joshi, Dominic Parker, Michelle
Teefey-Lee, Chris Wenting, etc. Companhias de produção: Columbia Pictures, Fox
2000 Pictures, Smokehouse Pictures, Obelisk Productions, Studio Babelsberg; Intérpretes: George Clooney (Frank
Stokes), Matt Damon (James Granger), Bill Murray (Richard Campbell), Cate
Blanchett (Claire Simone), John Goodman (Walter Garfield), Jean Dujardin (Jean
Claude Clermont), Hugh Bonneville (Donald Jeffries), Bob Balaban (Preston
Savitz), Dimitri Leonidas (Sam Epstein), Justus von Dohnányi (Viktor Stahl),
Holger Handtke (Coronel Wegner), Michael Hofland (Padre Claude), Zahary Baharov
(Comandante Elya), Michael Brandner (Dentista), Sam Hazeldine (Coronel
Langton), Miles Jupp (Major Feilding), Alexandre Desplat (Emile), Diarmaid
Murtagh (Captain Harpen), Serge Hazanavicius (Rene Armand), Luc Feit (Aachen
Vicar), Emil von Schönfels (Jovem atirador), Udo Kroschwald (Hermann Goering),
Aurélia Poirier, Grant Heslov, Matthew Maguire, Michael Dalton, Christian
Rodska, Stefan Kolosko, Thomas Wingrich, Oliver Devoti, James Payton, Lucas
Tavernier, Oscar Copp, Luciana Castellucci, Declan Mills, Richard Crehan, André
Hinderlich, Maximilian Seidel, Marcel Mols, Matt Rippy, John Dagleish, Andrew
Byron, Nicolas Heidrich, Aidan Sharp, Xavier Laurent, Ben-Ryan Davies, Nick
Clooney, Joel Basman, Andrew Alexander, etc. Duração: 118 minutos; Distribuição em
Portugal: Columbia Pictures; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia
em Portugal: 20 de Fevereiro de 2014.
TEATRO: FERNÃO MENTES?
FERNÃO, MENTES?
Foi em 1981, ainda na velha sala de “A
Barraca”, ali quase ao lado do Largo do Rato, que subiu pela primeira vez a
cena “Fernão, Mentes?”, um texto de Hélder Costa adaptando excertos da “Peregrinação”,
de Fernão Mendes Pinto, obra mítica do imaginário literário português, que nos
fala dos descobrimentos e da colonização portuguesa pelo mundo, versão nacional
e pitoresca de um Marco Polo que viaja incessantemente pelo Oriente e tenta
desenvencilhar-se o melhor que pode das embrulhadas em que vai caindo e também das
que vai provocando. O espectáculo foi um sucesso em Portugal e por vários países
por onde foi passando, servindo para consolidar o lugar de uma companhia teatral
na altura recentemente formada.
Trinta e três anos depois, e
aproveitando as comemorações dos 400 anos do aparecimento de “A Peregrinação”,
o espectáculo é reposto pela mesma companhia, conservando a mesma estrutura e
estética, mas com novo elenco, no Teatro da Trindade, em Lisboa. O êxito volta
a repetir-se, perante um certo espanto das gerações mais jovens. É que se pode
fazer excelente teatro com muito poucos meios e muita imaginação. Num palco
quase deserto, com uma vela enfunada por pano de fundo, onde se desenha um mapa
mundo, uma dúzia de actores, de camisa e calças de linho bege, um barrete
vermelho que indica o protagonista, e que vai evoluindo de cabaça em cabeça (Fernão
Mendes somos todos, não é?), uma guitarra e meia dúzia de adereços e vestuário
improvisado que vai indicando as mudanças de usos e costumes orientais, e o
essencial está lá. Um bela história de um português desenrascado (e muitas
vezes enrascado) em peregrinação por outras terras e outras gentes.
No texto de apresentação do espectáculo
original, Hélder Costa escrevia: “A Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto,
verdadeiro monumento da literatura universal que ainda poucos portugueses
conhecem, relata a personalidade e a vivência do seu autor (...) As peripécias
porque passou esse “pobre” português têm pouco de grandiloquência, glórias
guerreiras ou santidade exemplar. Mas têm tudo de verdade, têm tudo da vida. Os
medos, as riquezas súbitas, a astúcia, a miséria, a desgraça, a audácia, o
“safar a pele”, a inteligência, a solidariedade, e acima de tudo, um final de
vida tranquilo que permite olhar para trás sem remorsos nem arrependimentos e
transforma Fernão Mendes Pinto no arquétipo do homem do povo da grande gesta
dos Descobrimentos, da arraia miúda, que construiu o país que somos, que foi
colonialista e racista, sensível e humilde, gloriosa e rasteira.
O homem dividido é um homem de olhos
abertos perante a vida. O homem que tem capacidade para se interrogar, que se
confronta com as suas fraquezas e se orgulha das coisas boas que faz. Um pouco
como nós todos, não é?”
Pode dizer-se que este é um exemplo
magnífico de uma certa estética de “teatro pobre” que vive sobretudo da
discussão de ideias, da imaginação da sua encenação, da energia e da alegria do
seu elenco e do talento de um grupo que vai do texto às canções, do guarda-roupa
às marcações, e se estende do palco à plateia. Injusto seria destacar nomes. É o
conjunto que faz a força e torna obrigatória esta revisão (para uns) e esta
descoberta (para tantos outros).
FERNÃO MENTES?
Encenação e Adaptação: Hélder Costa; Música;
Zeca Afonso | Fausto | Orlando Costa; Direcção de Arte: Maria do Céu Guerra; Direcção
musical: João Maria Pinto; Direcção técnica: Paulo Vargues; Adereços: Marta
Fernandes da Silva, Miguel Figueiredo; Costureira: Zélia Santos: Intérpretes: João
Maria Pinto, Adérito Lopes, Ruben Garcia, Rui Sá, Sérgio Moras, Susana Cacela, Tiago
Barbosa; Estagiários: Teresa Mello Sampayo, João Parreira, Inês Fragata; Participação especial: Maria do Céu Guerra; Sonoplastia:
Ricardo Santos, Iluminação: Paulo Vargues; Relações públicas / secretariado: Inês
Costa | Paula Coelho; Cartaz / design gráfico: Arnaldo Costeira | Mónica
Lameiro; Fotografias: Pedro Soares; Produção: A Barraca. Teatro da Trindade: de
quarta a sábado (21,30h), domingo (18,00h), até 29 de Junho de 2014.
Etiquetas:
A Barraca,
Fernão Mentes?. Teatro
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