31 de outubro de 2016

Da Usura

Com a usura não há homem que tenha casa de boa pedra
os blocos todos alisados e ajustados
para que possa a intenção cobrir-lhes a face,
com a usura
não há homem que tenha um paraíso pintado na parede da sua igreja
harpes et luz
nem lugar onde a virgem receba a mensagem
e se projecte o halo da incisão,
com a usura
não há homem que veja Gonzaga seus herdeiros e suas concubinas
não há quadro que seja feito para durar ou com o qual viver
antes para vender e ser vendido rapidamente
com a usura, pecado contra a natureza,
faz-se o nosso pão cada vez mais de farrapos bolorentos
faz-se o nosso pão seco como papel,
sem o trigo da montanha, sem a nutritiva farinha
com a usura engrossa-se a linha
com a usura deixa de haver uma demarcação clara
e não há homem que consiga encontrar local para a sua residência.
O pedreiro vê-se apartado da sua pedra
o tecelão vê-se apartado do seu tear
COM A USURA
a lã não chega ao mercado
as ovelhas não dão proveito com a usura
A usura é uma praga, a usura
embota a agulha na mão da donzela
e tolhe o engenho da fiandeira. Pietro Lombardo
não nos chegou através da usura
Duccio não nos chegou através da usura
nem Pier della Francesca; Zuan Bellin' não nos chegou através da usura
nem por ela foi pintada "La Calunnia".
Não nos chegou através da usura Angelico; não nos chegou Ambrogio Praedis,
Não nos chegou nenhuma igreja de cantaria assinada: Adamo me fecit.
Não foi através da usura Saint Trophime
Não foi através da usura Saint Hilaire,
A usura enferruja o cinzel
Enferruja a arte e o artesão
Rói o fio no tear
Ninguém aprende a moldar a filigrana;
O azul-celeste gangrena através da usura; esgarça-se o carmesim
O verde-esmeralda desencontra-se de Memling
A usura mata a criança no ventre
Impede o galanteio do rapaz
Trouxe o marasmo para a cama, pôs-se
entre a jovem noiva e o seu noivo
CONTRA NATURAM
Trouxeram putas para Elêusis
Os cadáveres estão sentados para o banquete
às ordens da usura.

Ezra Pound, trad. Vasco Gato

Mértola

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30 de outubro de 2016

Na casca da laranja

Sei que de há tempos me fui sendo e fazendo
impreparado para o romance, e para uma vida
mais que razoável.

Sei que há tempos em forma de fazer cabelos brancos;
e que são meus, de há muito, os brancos nascentes
(que os há, em mais se tornando).

Sei que há tempos em forma de gelar o sangue,
sei dos tempos das hemorragias paradas.

Certo certo é que, quando te vejo,
tudo se atropela;
nos teus olhos de brio absolutamente extraordinários
(são tão bonitos que deve ser pecado).

Penso que eras tu, na casca da laranja
(a chamar os pássaros).

Eras tu, ou podias ser tu
(e seria preciso ser poeta para saber dizer mais).

Não, não me lembro de ter medo:
quando estavas perto as manhãs eram azuis e amarelas,
e todas as cores entre elas.
E o dia, um diamante.

É de cristal, pois, este chão tão cheio de facas.

Perdoa, por tanto, a circunferência:
nos teus olhos, todas as luas do mundo.

Ou dito de outra forma:
Quem dera pulem grilos das acácias.


Sir Thomas Berard

Cesare Marchesini

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29 de outubro de 2016

Talvez o amor

Belos tempos em que mulheres
havia que se riam
dentro dos poços.

Eis a corda,
o seu nó.

Talvez o amor mais não seja
do que saber onde está o teu corpo,

- embora isso estue um sentido

como o da montanha
que faz ninho
na amendoeira.

António Cabrita

Quem?

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?

Ruy Belo

28 de outubro de 2016

Lluïsa Vidal

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Um a um

De que lado viste chegar
o Outono? Por que janela
o deixaste entrar? És tu quem
canta em surdina, ou a luz
espessa das suas folhas?
Em que rio te despes para sonhar?
É comigo que voltas
a ter quinze anos e corres
contra o vento até te perderes
na curva da estrada?
A quem dás a mão e confias
um segredo? Diz-me,
diz-me, para que possa habitar
um a um os meus dias.

Eugénio de Andrade

27 de outubro de 2016

Rolando Sá Nogueira

Rolando Sá Nogueira - Sem Título.jpg

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

Vinicius de Moraes

26 de outubro de 2016

Edward Hopper

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Estar Só é Estar no Íntimo do Mundo

Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

António Ramos Rosa

25 de outubro de 2016

Arthur Rackham

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24 de outubro de 2016

A meu favor

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em obscuros sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que eu adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.


Manuel António Pina

Gustave Courbet

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Selva dos relógios

Entrei na selva
dos relógios.

Frondes de tiquetaque,
cachos de sinos
e, sob a hora múltipla,
constelações de pêndulos.

Os lírios negros
das horas mortas,
os lírios negros
das horas meninas.
Tudo igual!
E o ouro do amor?

Há uma hora apenas.
Uma hora apenas!
A hora fria!

Federico García Lorca, trad. Vasco Gato

23 de outubro de 2016

Almada Negreiros

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Bairro

Atravessou a direito o sonho
até ao lado de lá do sono,
tão fácil quanto isto.

O céu obsessivo
abriu uma janela sem vidro
e o inverno entrou.

Estava lá o seu irmão
a praticar música, virando
costas ao passado.

Estava lá a sua mulher, esguia,
bela, indiferente,
de olhos fixos na luz.

Quem eram aquelas pessoas
que com ele atravessavam a noite?
Conhecia-as a todas?

Algo que nunca dorme
nem acorda. O conhecido
não se deixa imaginar.

O bairro põe-se a
andar. O universo parte
no seu trajecto distante.

Surgem planetas extraterrestres
que se infiltram na nossa cabeça
embora fiquem calados.

Pouco é aquilo que muda
durante a noite. A menos que mude.
Também pode acontecer.

Somos múltiplos,
disse ele ao mundo. Estamos
sozinhos, disse o mundo.

George Szirtes, trad. Vasco Gato

22 de outubro de 2016

a chuva da manhã nos vidros limpos

Podia dizer-to agora mesmo
mas do silêncio já nada me separa
ou só o tempo lento ainda de um momento
uma palavra só sem mais cansaço
Será talvez um barco se fores tu
- a chuva da manhã nos vidros limpos
e o vulto esguio perdido duna a duna
de quem regressa apenas de partida
Um pássaro esquecido brilha ainda
em dois olhares levemente embaciado
pela mesma indecisa febre antiquíssima
Podia dizer-to agora mesmo
E talvez seja um barco se fores tu
- ou serei eu talvez se for o mar

Miguel Serras Pereira

Paul Klee

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Crónica

Foram cerca de mil anos, talvez não mais,
os anos que bati em mouros, cristãos e outros cidadãos
(alguns bastante indefesos).

Mulher, deixa-me contar-te a história, na hora de tentar milagres:
as guerras já eram assim, e a ver a ver sempre lhes houve
um toque cruel, um cheiro mau.

Já então, repara, bem antes do início de tal guerra,
eu sabia que era esse o género mais fácil
de guardar aos meus cavalos e aos meus escudeiros
(mesmo partindo em desvantagem de armas).

Sabia, de ouvir dizer,
como arranhavam as festas
(punhais soberbamente afiados),
no fazer da luta entre fronteiras
a luta de um lugar qualquer.
Essa era uma espécie de pavor para outros mil anos.

E então arregaçava, temerário e sem embargo,
levando de meu lado mil bandeiras, e umas quantas feridas;
os confirmados medos das viúvas, e a certeza de mil estragos.

Os tempos não eram calmos,
e é certo que espalhei infâmia e indignidades.

Tudo isto para não colher as flores que escolhi para ti,
nas quais ratos e lírios conversavam.

Sir Thomas Berard

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