A anomalia Trump acaba ou vai passar a norma?

O Partido Republicano já pode ser declarado vencedor, qualquer que seja o desfecho da eleição de hoje. Ou porque teve uma vitória à Pirro, por ter levado um desqualificado para a Casa Branca - embora essa hipótese as sondagens, ontem, já dessem como menos provável do que parecia ao longo da semana passada. Nesse caso, aliás, a vitória nem seria bem como a do rei do Épiro, o tal Pirro que ganhou uma batalha mas ao custo de tantas baixas que ele próprio fez o balanço, assim: "Mais outra vitória como esta e estou arruinado." É que, com Trump na Casa Branca, o Partido Republicano não precisará de outra vitória pírrica, de novo erro tão clamoroso: basta este para ficar politicamente arruinado e levar consigo os Estados Unidos. Essa, a péssima vitória - uma derrota geral e de efeitos inimagináveis para a democracia e também para o Partido Republicano.

A alternativa, a outra vitória dos republicanos - desta vez, uma vitória consequente - seria Donald Trump perder e o partido poder recompor-se do que o levou a embarcar numa aventura tão populista, ignorante e perigosa. O conservador Peter Wehner tenta ser otimista e aposta nesta última hipótese, na derrota de Trump, como escreveu no jornal The New York Times (NYT), onde é habitual comentador: "Há vida depois de Trump?" foi o título da sua coluna, no sábado. Wehner falava sobretudo para os seus. Ele foi o conselheiro do presidente George W. Bush e também do candidato republicano Mitt Romney, na campanha de 2012.

Já em janeiro, ainda antes de as primárias republicanas se decidirem pelo abominável, Peter Wehner explicou-se, também no NYT: "Porque nunca votarei em Donald Trump." E não voltou atrás, talvez porque não concorria a cargos, como outros influentes republicanos, quando o sucesso da campanha de Trump se ia mostrando mais forte do que previsto. Ser anti-Trump é para Wehner uma posição de princípio, para limpar a direita americana de paranoia. Como, por exemplo, foi a rampa de lançamento de Trump com o birtherism, a balela do falso nascimento americano do presidente Barack Obama.

O Partido Republicano, o dos conservadores americanos, tem uma tradição de sólido pensamento político que não se compadece de teorias da conspiração e derivas anti-intelectuais. "Como Margaret Thatcher disse um dia, primeiro ganhamos a discussão, e então ganhamos os votos", lembra Peter Wehner, lamentando-se da usurpação das ilusões dos jovens republicanos que foram seduzidos pelo surgimento de Ronald Reagan, a quem ele serviu em Washington, no início da sua carreira política.

"Os próximo meses dir-nos-ão se o Sr. Trump e o trumpism foram uma anomalia ou se é agora a norma no partido que Lincoln ajudou a criar", remata o colunista do NYT. Evidentemente que a resposta mais fácil e dramática seria se hoje Trump fosse eleito. Mas a ressurreição do Partido Republicano precisava de outro resultado eleitoral. Assim seja, por esta última hipótese.

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