quarta-feira, 11 de julho de 2018

ALFREDO CAMPOS MATOS: 90 ANOS

 Artigo do ensaísta Eugénio Lisboa, publicado no "Jornal de Letras" que se transcreve com  todo o gosto:
Nascido em 1928, na Póvoa de Varzim, Alfredo Campos Matos viria a licenciar-se em Arquitectura, pela Escola Superior de  Belas Artes do Porto, sendo a sua primeira obra o estúdio da casa do seu pai, na Póvoa de Varzim. Publica, em 1959, Algumas Considerações sobre Problemas da Arquitectura Contemporânea.

Autor de vários projectos que revelam um profundo conhecimento das grandes linhas de inovação da arquitectura contemporânea, ACM vai, em 1960, para Lisboa, onde trabalhará, até se reformar, na Direcção Geral da Urbanização, ocupação que, segundo Siza Vieira, “além de ter proporcionado ao projectista uma formação complementar abriu a CM  novas oportunidades e permitiu-lhe viajar repetidamente e visitar, por exemplo, as chamadas «new towns» da Finlândia à Inglaterra”. O futuro grande queirosianista não foi, portanto, um mero turista superficial, no campo da arquitectura, pelo contrário, foi um arquitecto empenhado, profundamente actualizado e actuante.
Mas, muito cedo, a leitura do romance A Relíquia, de Eça de Queirós, o deslumbraria e o chamaria para essa “segunda profissão” de estudioso queirosiano, que nunca mais abandonou. Biógrafo, analista, divulgador de imagens e de correspondência, ensaísta arguto, caçador de minúcias mais ou menos despercebidas do leitor desatento, CM, como bom e obstinado biógrafo, quis conhecer tudo. Dizia Lord Francis-Williams que “nem todos os segredos do coração humano são conhecidos dos biógrafos oficiais.” Campos Matos, até porque não é um “biógrafo oficial”, quis conhecer todos  os segredos da alma do criador de Os Maias – e nisso, esforçadamente, se tem empenhado. Trabalhador infatigável, amante da claridade  e da simplicidade (que se conquista à custa de muito trabalho), Campos Matos tem dedicado ao opus queirosiano um inquirir lúcido e apaixonado, que acabou por frutificar numa vasta e sedutora bibliografia.
Numa carta a Alberto d’Oliveira, Eça louvava, no bom estilo, as qualidades de “precisão, limpidez e ritmo que são qualidades da razão e das melhores”. Foram estas qualidades que, desde muito cedo, seduziram o biógrafo Campos Matos, ao deparar-se com as obras do grande romancista. E foram também estas qualidades, penso eu,  que porventura o terão atraído para outra das suas grandes “fixações”: António Sérgio, a quem dedicou atenção minuciosa e, além de uma  Bibliografia publicada na Revista de História das Ideias, da Faculdade de Letras, de Coimbra (1983), um interessante e útil Diálogo com António Sérgio, também em 1983, com uma segunda edição aumentada, em 1989. Por outro lado, CM chama, com grande eloquência, a atenção dos leitores para o ensaio de António Sérgio, “Notas sobre a imaginação, a fantasia e o problema psicológico-moral na obra novelística de Queiroz”, nestes termos: “Desde já afirmo que nada li de tão belo, tão inteligente e de tão original, dentre os milhares de páginas que me foi dado ler dos comentadores do autor do Padre Amaro.”
Do seu vasto labor é difícil seleccionar as obras fundamentais, tantas são elas: desde o primeiro livro – Imagens do Portugal Queirosiano (1975) - , passando pelo monumental e preciosamente útil Dicionário de Eça de Queiroz, de 1988, com uma terceira edição em 2015, pela imprescindível Correspondência Emília de Castro – Eça de Queiroz (1995), que, para sempre, demoliu a lenda do “mariage de raison”, pela colectânea Sobre Eça de Queiroz (2002), pela Fotobiografia, de 2007, pela edição, em dois volumes, da Correspondência (2008), até chegarmos, por fim, à excelente Eça de Queiroz – Uma Biografia, de 2009, com uma 3ª edição em 2017 e uma edição brasileira em 2014. Depois da biografia de Gaspar Simões, de 1945, a de Campos Matos é, fora de qualquer dúvida, a mais importante que, entre nós, se publicou, corrigindo, com bom acervo de provas, alguns erros flagrantes da obra de Simões.
Sobre as outras biografias que entre nós se têm publicado, dedicadas ao autor de O Primo Basílio, será também proveitoso – e mansamente capitoso – ler o livro de CM 7 Biografias de Eça de Queiroz (2008), com uma edição francesa do mesmo ano.
É curioso verificar-se como CM está sempre a voltar a pontos da biografia, para os retomar, os acrescentar, os aprofundar ou melhor esclarecer. É como se a biografia nunca estivesse definitivamente terminada  e  houvesse sempre que a melhorar e tornar mais rica e mais clara. Um simples olhar para a sua bibliografia nos elucida a este respeito. O próprio CM, numa passagem do seu artigo “Algumas notas acerca de Eça de Queiroz – Uma Biografia”, do seu último livro 94 Reflexões sobre Eça de Queiroz e Outros Escritos, observa: “Uma biografia é um género difícil, sempre em aberto e exige do autor um conhecimento tanto quanto possível integral do biografado e da sua obra.” CM, apesar de uma bibliografia vasta e exaustiva, dedicada ao mago de A Cidade e as Serras, considera todo o seu labor “em aberto”, estando sempre pronto para mais um artigo, um folheto, um livrinho esclarecedor. Até porque considera Eça, curiosamente, um autor “difícil”, na medida em que a limpidez e simplicidade do seu estilo podem induzir no leitor uma involuntária desatenção a riquezas escondidas mas essenciais.
A acção de promover a obra e a personalidade do autor de A Capital não se circunscreveu, em CM, ao acto de escrever e publicar obras essenciais a uma leitura melhor e mais esclarecedora dos livros do Mestre. CM desempenhou tarefas importantes, como por exemplo:
- Foi membro do Conselho Cultural da Fundação Eça de Queirós.
- Fez o inventário do Património da Casa de Tormes.
- O Instituto Camões chamou-o a colaborar nas celebrações por ocasião do Centenário da morte do escritor. Produziu então uma exposição itinerante intitulada  Eça de Queirós – Marcos Biográficos e Literários (1845-1900), com o respectivo catálogo, tendo também escrito o guião do vídeo-filme Eça de Queirós, Realidade e Ficção.
De entre as obras ultimamente publicadas, CM salientaria, como de sua particular preferência, o Diário Íntimo de Carlos da Maia, que congeminou atribuir ao protagonista de Os Maias e que teria sido supostamente redigido após os acontecimentos relatados no romance de Eça. “… pus nesta obra”, observa CM, “«tudo o que tinha no saco», do que resultou uma enorme quantidade de informação não despicienda, onde convoquei nomes como Tolstoi, Balzac, Romain Rolland, Charcot, Flaubert, Maupassant, Proust, Martin du Gard, Ruskin, Stefan Zweig, Axel Munthe, Freud e vários outros autores nacionais.” Obra substancial, CM “deu-lhe” realmente tudo quanto tinha a oferecer, atribuindo a autoria disso ao personagem de Eça. Justifica assim o feito: “Ao cabo de quase noventa anos de vida, a memória vai-se enchendo e enriquecendo de  múltiplas leituras, viagens, histórias, filmes, acontecimentos vividos, por mim e por outros, que nos acodem ao pensamento, já depurados pelo tempo, que desejo transmitir como experiência de vida. Pude convocar com pertinência Eça pois continuo a viver dentro dele, como costumo dizer, lendo-o e lendo tudo o que sobre ele se publica.” O Diário Íntimo seria, pois, uma súmula de vida que CM transferiu, generosamente, de si para o protagonista do grande romance de Eça. Nele nos propõe, entre muitas outras coisas, aquilo que é a última (?) palavra sobre alguns temas queirosianos, alguns frequentemente tratados anteriormente e aqui retomados para um “statement” final (final?)
Pensar-se que toda a profunda e fecunda actividade desenvolvida por CM está terminada é desconhecer a massa de que é feito este estudioso arguto e incansável. Com ele, está tudo sempre “em aberto”, para mais alguma incursão, para mais alguma sugestão, para mais alguma tentativa de acrescentar, melhorar, esclarecer.          

domingo, 8 de julho de 2018

DIÁRIO DE UM NÁUFRAGO NAS FLORES E NO FAIAL


A CRIAÇÃO DA REAL BIBLIOTECA PÚBLICA DO PORTO


Terra no afélio

Informação do Observatório Astronómico de Lisboa:
Imagens do periélio (direita) e afélio (esquerda) obtidas em 2008. É evidente nesta imagem a diferença de diâmetro angular é de pouco mais de 3% entre as duas situações. Crédito: Nasa
No dia 6 de julho de 2018 pelas 18 horas, a Terra passará no ponto mais afastado do Sol, o afélio, a uma distância de 1,016696059 unidades astronómicas (UA). Ver-se-á o Sol mais pequeno do ano porque o seu diâmetro aparente (angular) atingiu o valor mínimo: 31,46’ (minutos de arco). Apesar do diâmetro verdadeiro do Sol se manter fixo (1,393 milhões de km), o ângulo observado entre o extremos esquerdo e direito do disco solar (diâmetro aparente) diminui ou aumenta, consoante a distância ao Sol se altera.

A distância média da Terra ao Sol é de 1 UA (Unidade Astronómica), ou seja 149,6 milhões de quilómetros. Na translação terrestre (movimento elíptico em torno do Sol) a distância solar varia diariamente: no periélio está mais próxima e no afélio está mais afastada deste.
Nota:
Embora a Terra esteja no afélio isso não impede que no hemisfério norte estejamos na época mais quente do ano (Verão). As estações do ano não dependem da distância ao Sol (que varia pouco porque a nossa órbita elíptica é quase circular) mas sim da inclinação do eixo da Terra em relação ao seu plano orbital.

NOVIDADES DA GRADIVA

Os Anos Trump - O Mundo em Transe
Eduardo Paz Ferreira

Trinta anos depois da queda do Muro de Berlim, o governo sueco reiniciou uma prática que havia suspendido: a publicação de um opúsculo entregue a todos os suecos e traduzido em 13 línguas, online, intitulado Se Chegar a Crise ou a Guerra, que procura ser um manual de sobrevivência. Mesmo admitindo que a Suécia não é o país em maior risco, impressiona a percepção do seu governo de que tornamos a viver num mundo perigoso, de muitas incertezas. Algumas já existiam antes da presidência Trump, mas outras são consequência dela ou foram por ela substancialmente reforçadas.

O livrinho em causa contém uma importante advertência aos cidadãos: caso ouçam a notícia de que foram dadas ordens para cessar a resistência, trata-se de fakenews (uma falsa notícia) e devem continuar a luta.

É este o aviso que aqui também assumimos: não nos renderemos.
Gradiva Junho 2018, Fora de Colecção, 236 pp., €13,00 €11,70 
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Hereges! - Os Assombrosos (e Perigosos) Primórdios da Filosofia Moderna
Steven Nadler , Ben Nadler

Esta narrativa gráfica divertida e esclarecedora conta a empolgante história dos pensadores do século XVII que desafiaram a autoridade – às vezes arriscando a exclusão, a prisão e até a morte – para estabelecer as bases da filosofia e da ciência modernas e ajudar a inaugurar um novo mundo. Com diálogos magistrais e ilustrações sugestivas, Hereges! proporciona uma introdução única ao nascimento do pensamento moderno em banda desenhada – inteligente, elegante e muitas vezes divertida.

Os seus protagonistas são filósofos e cientistas questionadores e controversos como Galileu, Descartes, Espinosa, Locke, Leibniz e Newton, que mudaram de forma substancial a maneira como vemos o mundo, a sociedade e a nós mesmos, pondo tudo em causa, desde a ideia de que a Terra é o centro do Universo à noção de que os reis têm o direito divino de governar. Mais
 apegados à razão do que à fé, esses pensadores defenderam novas perspectivas, encaradas como escandalosas, sobre a natureza, a religião, a política, o conhecimento e a mente humana.

Hereges! conta a história das ideias, vidas e tempos desses pensadores de uma maneira diferente e cativante. Acompanhando por toda a Europa as viagens e exílios desses vultos, a narrativa descreve os encontros e confrontos entre si – assim como os confrontos com as autoridades religiosa e régia – relatando os momentos-chave de um dos mais brilhantes períodos da história da filosofia e da ciência modernas.

«Uma admirável introdução ao nascimento do pensamento moderno: é uma obra rigorosa e única em banda desenhada.»
Aires Almeida, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
«Magistral e divertido.»
Anthony Gottlieb, autor de The Dream of Enlightenment
Gradiva Junho 2018, Fora de Colecção, 184 pp., €17,50 €15,75 
https://www.gradiva.pt/cat%C3%A1logo/detalhe-do-produto/?product=44848


O Primeiro Ranger Português - E.U.A., Lamego e Angola (1962 a 1965)
Rodolfo António Cabrita Bacelar Begonha
Uma vida repleta de desafios relevantes no contexto de uma carreira notável permitiria porventura que este fosse o segundo, o terceiro ou até o seu quarto livro. Todavia, este é o primeiro livro do Major-General Rodolfo Begonha, que nele convida os leitores para uma viagem aos «intensos» anos sessenta do século XX. Ao classificar-se em primeiro lugar nas provas de seleção para o Curso Ranger nos Estados Unidos da América – um curso com reconhecida dificuldade que será o primeiro português a concluir –, beneficia de uma experiência valiosa que marcará indelevelmente a sua vida e o respetivo rumo.

Usufruindo dos conhecimentos então apreendidos, coube-lhe a missão de organizar o 1º Curso de Instrutores e Monitores de Operações Especiais em Lamego, tendo também posteriormente a possibilidade de os aplicar nas missões que lhe foram confiadas no teatro de guerra em Angola. Nesse território, na altura ainda como Capitão, nunca perdeu de vista a preocupação com a segurança dos elementos da sua Companhia durante as operações
 realizadas sob o seu comando.

O primeiro ranger português relata estes acontecimentos na primeira pessoa, simultaneamente partilhando facetas da sua vida e factos com interesse histórico. Sem
 censurar observações inerentes à sua condição humana – com dúvidas e perplexidades –, oferece-nos uma obra escrita de modo propositadamente acessível a todos, cujo resultado se pauta por um esforço de isenção e de rigor, designadamente incluindo documentos da época.

Com lucidez e moderação, o autor evitou as armadilhas de reescrever a História ao sabor da sua vontade, da sua imaginação, de qualquer apelo revanchista ou preconceito de natureza política. Consequentemente, procurou ser fiel a si mesmo numa obra que, em diversas dimensões, é
 digna para o Exército e para a História que será passada às gerações vindouras.
Gradiva Junho 2018, Fora de Colecção, 236 pp., €14,00 €12,60 
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Os Manuscritos de Leiria - Uma História de Fidelidade e PaixãoOrlando Ferreira Barros

O que se conta neste livro é a história da jovem Palmira João e do mundo, o tempo e o lugar que em muito a terão determinado. Durante quinze anos e quatro meses suportou a ausência forçada do companheiro, fugido da polícia política. Tentações teve muitas, já que era considerada pelos machos leirienses como a mais bela mulher do planeta. E resistiu.
Sozinha e carente, suportou durante quinze anos e quatro meses o assédio, a língua invejosa e maldizente. Ligava-a ao seu homem o cordão umbilical das cartas manuscritas que alcançavam o leste da Europa. Até ao dia que ele – um bom Golias – doente e envelhecido, lhe entrou por uma porta que só Abril abriria.
Exausto, deitado na antiga cama que não o reconheceu, soltou da boca ressequida a última frase antes de penetrar na voragem da morte: «Este país vai continuar a ser uma merda, mas agora é o meu.»
Gradiva Junho 2018, Fora de Colecção, 272 pp.,€15,00 €13,50 
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sábado, 7 de julho de 2018

Levantar Voo em Horizontes Informáticos

                         

Meu artigo de opinião publicado hoje no "Jornal as Beiras", saído conjuntamente com o Semanário "Expresso":­ 

“A grande coisa neste mundo não é saber onde estamos, 
mas para que direcção estamos a ir.” 
 Oliver Wendell Holmes (1809-1984)

Estando eu a tentar arrumar a minha biblioteca de consulta constante, deparei-me num escaninho escondido de uma das suas prateleiras, como que a reprovar-me pelo esquecimento a que o votara, o meu “Livro de Curso” (1975), parte importante da minha saudosa juventude académica que deve ser recordada porque, como escreveu Pessoa, ”a memória é a consciência inserida no tempo”.

Em remorso tardio, reconcilio-me, assim, com a minha desarrumação para com os livros, alguns amarelecidos pelo tempo e com páginas roídas pelas traças por, a par de papéis em que fui ao longo dos anos tomando notas pessoais, serem eles minha fonte de consulta constante para a minha escrita mais ou menos elaborada, espalhando-os em desalinho pelo chão à mão de semear dada a minha declarada iliteracia informática e uma memória que se vai esvaindo com a velhice porque, recolhido de um texto de Eugénio Lisboa, segundo Ugo Belfi, “as memórias são como as pedras: o tempo e a distância corroem-nas como ácido”.

Ou seja, a minha iliteracia informática não me permite grandes voos em horizontes internéticos, apenas levantar os pés do chão com cuidados redobrados para não tropeçar num mare magnum de informação buscando eu muletas para esta penosa situação no desencanto de Ortega y Gasset: “Muitos meios e saber de pouco servem. Vivemos num tempo que se sente fabulosamente capaz de realizar, porém não sabe o que realizar. Domina todas as coisas, mas não é dono de si mesmo. Sente-se perdido na sua própria abundância. Com mais meios, mais saber, mais técnica do que nunca, afinal de contas o mundo actual vai, como o mais infeliz que tenha havido, permanentemente à deriva”. 

Porque “roubar a muitos é pesquisa, roubar a um só autor é plágio” (Wilson Minzer) reside aqui alguns dos perigos da informação aportada pelo mundo informático, utilizada, mesmo em provas de doutoramento pesquisadas na Net.

 Tentando retaguarda para a minha ignorância sobre este mundo novo, em corrida vertiginosa rumo ao futuro, procuro razão de mau pagador em Steve Balmmer, presidente da Microsoft: “Eu testo, mas não uso no dia-a-dia. Mais importante, meus filhos não usam. Eles são bons garotos”. E se, segundo o filósofo Erc Hoffer (1902-1983), “a única forma de prevermos o futuro é ter poder para formar o futuro”, talvez que esta minha “alergia” ao homem versus máquina se consubstancie no pólen letal libertado pelo filme “2001, Odisseia no Espaço” (1968) em que um computador, Hal 9000, de uma nave a caminho de Júpiter se revolta contra o respectivo comandante numa espécie de duelo ser pensante/inteligência artificial “podendo significar o fim da raça humana”, segundo Stephen Hawking um dos físicos mais brilhantes , ou mesmo o mais brilhante, da nossa contemporaneidade falecido em Março deste ano.

De igual modo, Erich Fromm (psicanalista e sociólogo alemão, 1900-1980) manifesta-se receoso de um futuro que ele já não conhecerá: “O problema não é que os computadores possam pensar como nós, mas que nós possamos pensar como os computadores”.

Será que estou a tentar encontrar desculpas esfarrapadas para a minha teimosa iliteracia informática? O futuro o dirá porque, como escreveu Mark Twain, com a ironia que o colocou no pedestal dos grandes humoristas da humanidade, “a profecia é algo muito difícil, especialmente em relação ao futuro!”

DIGNIDADE

Artigo de Maria do Carmo Vieira saído na revista Villa da Feira em Junho:


Já expressámos, por inúmeras vezes, a nossa convicção de que o pouco interesse pela Cultura, manifestado por parte de quem manda, resulta da opção consciente em anular o que é espiritual, talvez porque também nunca tenham sentido os seus efeitos benéficos, defendendo e valorizando superlativamente tudo o que conduza, com facilidade e rapidez, à obtenção de um pretenso bem-estar material. Quanto mais ignorantes forem as pessoas, quanto mais se traírem, expondo-se perigosamente ao abdicar de pensar por si próprias, mais facilmente serão conduzidas e enganadas sem a menor compaixão. Testemunha-o o crescente populismo, seja qual for a ideologia que dele se aproveite, e a sociedade global e profundamente desumanizada em que vivemos. Ideias que repetimos porque constante a preocupação que não sentimos abrandada.
Este desejo de moldar o ser humano, estando dele ausente sensibilidade, espírito crítico e responsabilidade, por falta de educação e de treino, começa paradoxalmente na escola, temática que nos é cara e sobre a qual nos temos debruçado com regularidade. A obsessão pela facilidade e a não valorização da reflexão e do estudo, aspectos visíveis, por exemplo, no ensino da Língua Materna, com o uso forçado do absurdo e controverso Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), são sinais evidentes de uma autoridade, no sentido de competência, posta em causa, uma situação que se verifica igualmente em poemas, falsamente atribuídos a Fernando Pessoa, ortónimo e heterónimo, lidos e analisados em sala de aula. A rapidez com que se vai à internet, em procura de material didáctico, ocasiona esta lástima e as vítimas perpetuarão a ignorância.
Há sempre quem se deixe aliciar pela facilidade e cultive a preguiça no estudo e na reflexão, atitudes que não impedem intervenções arrogantes sobre o que não se conhece. Testemunhámo-lo, não há muito, com uma jovem professora universitária que, irritada pelo facto de se mencionar que Luís de Camões, em Os Lusíadas, estaria em consonância com a tese africana, representativa da vontade da nobreza que defendia a expansão para África, e não para Oriente, como desejava a burguesia, perguntou «se o poeta deixara isso escrito». E não se contentando com a questão que tentava confundir quem a expusera, no caso, eu própria, quis pôr à prova o conhecimento sobre outra matéria camoniana, indagando vivamente se o poeta também deixara explicado quem era a «Rosa» do seu soneto, «Rosa minha gentil, que te partiste». Um verso pretensamente decorado, e quem sabe se transferido para os alunos, adulterando o belíssimo soneto que se inicia com «Alma minha gentil que te partiste».
Este inebriamento pela própria ignorância encontra companhia fértil em quase toda a comunicação social, criada ao som da voz-do-dono e da procura do espectacular, com realce para a televisão, pública ou privada. O modo como se desenvolvem, por exemplo, muitos dos programas televisivos, explorando a privacidade humana, em que se incluem as próprias crianças, ou encenando uma assistência, previamente domesticada, que grita, ri ou aplaude sempre que recebe ordem para gritar, rir ou aplaudir, sentada ou de pé, em perfeita sintonia com apresentadores freneticamente apalhaçados, e de um nível cultural e linguístico confrangedores, é bem sintomático da vontade de alienar e de deseducar que grassa na sociedade. Mesmo nos programas de índole cultural, nomeadamente na Rádio, damo-nos, por vezes, conta de uma ignorância ostentada não só em relação à Literatura, mas também, e sobremaneira, em relação à História (tão maltratada porque desprezada tem sido a memória). Em relação a este último caso, não é raro que se confundam datas de acontecimentos históricos, dignos de referência, ou se galhofe com acontecimentos dramáticos e figuras históricas, ou até se espicace o entrevistado, estudioso na matéria que expõe, para uma abordagem picante de um dado assunto, como forma de o aligeirar cativando facilmente os ouvintes, assim devem pensar. Gostam estes mercenários da cultura de se ouvir e por isso interrompem constantemente, rindo de contínuo.
O mesmo pacto com a mediocridade, exposta sem pejo, aconteceu com o AO 90. Na verdade, é confrangedor ler ou ouvir a argumentação sobre o assunto, por parte de algumas pessoas ligadas à cultura e à política, a começar pelos mentores de tal aberração que a grande maioria dos portugueses inteligentemente contesta. Como é possível aceitar o critério acientífico da «pronúncia» na ortografia ou que esta se torne factor de sucessivos equívocos? Como é possível defender a «unificação ortográfica» quando, por exemplo, «recepção» e «concepção» continuam a existir no Brasil, pelo critério da pronúncia, tendo sido transformadas, em Portugal, nas aberrantes «receção» e «conceção», segundo o mesmo critério (neste caso, «p» não pronunciado), pondo em causa a vertente cultural da ortografia, ou seja, a etimologia?
Confunde qualquer um a estreita cumplicidade entre a comunicação social, salvo raras excepções, e com destaque para o jornal Público, e a classe política, em que é justo relevar a postura crítica do Partido Comunista, cumplicidade desde sempre visível no pacto de silêncio relativamente ao AO 90. Sem pejo, escondeu-se o embuste que foi o processo relativo ao desenvolvimento do Tratado Internacional que pelo seu significado exigiria uma maior seriedade, e, sem pejo, impediu-se igualmente a discussão que a matéria requeria porque a Língua, património colectivo, não é pertença de uns tantos supostamente iluminados; um embuste é ainda a unificação ortográfica pretendida quando a própria diversidade geográfica e cultural, da mencionada «lusofonia», a impede. Lamentável é o facto de alguma intelectualidade, traindo a sua função, aceitar acriticamente a «pronúncia» como critério científico ou que as crianças sejam estupidamente usadas em nome da facilidade que não procuram.
Como se tudo isto não bastasse, festejou-se, há uns anos, a entrada, na CPLP, da Guiné Equatorial, paradoxalmente reconhecida como voz «lusófona», sem falar português, e perdoada na sua completa indiferença pelos direitos humanos. Depois do espanhol e do francês (processo de adesão à francofonia há 18 anos) o português é o seu terceiro idioma oficial (anunciado há 5 anos), mas ainda não falado, e, segundo informação vinda a público, os governantes têm tido acesso a acções de formação através da embaixada do Brasil.
Tentar enganar não é um comportamento digno de um político. Trair a inteligência, o estudo e a função de alertar não é um comportamento digno de um
intelectual; obedecer à estupidez e aceitá-la com resignação é abdicar da dignidade que devemos a nós próprios.
Contamos consigo para subscrever, caso ainda não o tenha feito, a Iniciativa Legislativa de Cidadãos Contra o Acordo Ortográfico (ILCAO), ajudando-nos também a divulgá-la e a angariar as subscrições em falta (menos de 3000). Para o efeito, consulte e partilhe o sítio oficial da ILC: https://ilcao.com/subscricoes/subscrever/
Maria do Carmo Vieira

Professores para quê?

Georges Gusdorf publicou em 1963, um livro com o título Professores para quê? A pergunta marca uma inquietação que vem de longe, mas que há meio século, já próximo do "Maio de 68", este filósofo francês discutiu de uma forma sistemática e profunda, a um nível que faria história.

Deteve-se na relação única que se estabelece entre o professor e os alunos. Em concreto, no modo como o professor permite a (re)construção do conhecimento já construído pela humanidade para construção do pensamento dos alunos. Não, isto não é construtivismo, é a essência da educação escolar.

Esta perspectiva, partilhada por muitos outros autores, situados em diversos tempos e espaços (por exemplo, João Amós Coménio, John Dewey, Lev Vigostsky, Jerome Burner, Hannah Arendt, Michael Young, Carlota Boto, José Morais) define a identidade do professor. Identidade que se estabelece a partir do compromisso com aquilo que, afinal, tem valor do ponto de vista epistemológico e ético.

Numa altura em que se volta a insistir na ideia de que o professor
- tem de se tornar num mediador, num guia (em certo sentido, sempre foi um mediador, um guia) dado que, por razões de "mudanças de paradigma", não pode continuar a ter um papel "tradicional", ou
- é "ainda" preciso, mas ficando no ar a iminência da sua substituição por novas e fantásticas tecnologias
é importante voltarmos à pergunta: professores para quê?

Se a resposta for a conjectura de Gusdorf, encontramos a sua confirmação num trabalho de meta-análise que demorou cerca de uma década e meia a realizar, tendo sido publicado em 2008 e em 2009. O seu autor é John Hattie, professor da Universidade de Auckland.


Hattie, fez uma criteriosa revisão de mais de mais de 50.000 estudos (em língua inglesa) sobre os efeitos de múltiplas variáveis que podem interferir na aprendizagem (aqui ou aqui). A sua "meta-conclusão" nada tem de surpreendente: a variável mais relevante é a interacção (directa) professor-alunos, interacção que o (bom) professor organiza com a intenção de levar os alunos a aprender.

Podemos pensar: para quê tanto trabalho se o resultado é óbvio. Sê-lo-á, mas precisamos de dados desta natureza para explicar objectivamente a razão de os professores não poderem ser dispensados e de a sua função não poder ser mistificada.
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Mais informações aqui e aqui.

Dois novos volumes da Classica Digitalia

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra e da Annablume.

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em acesso aberto.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Humanitas Supplementum " [Estudos]

- Paola Bellomi, Claudio Castro Filho, Elisa Sartor (eds.), Desplazamientos de la tradición clásica en las culturas hispánicas (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2018). 252 p.

[El presente libro reúne 12 trabajos sobre los influjos de la tradición clásica (las mitologías grecolatina y judío-cristiana, la filosofía griega y renacentista, el teatro clásico, etc.) en la producción cultural hispánica moderna y contemporánea, con especial enfoque en la literatura, la cultura popular y el cine. Dentro del amplio abanico de estudios propuestos, el monográfico se reparte en tres secciones temáticas. En la primera, se investigan las poéticas subjetivas en autores y autoras que se vuelcan sobre el tema del exilio y el imaginario odiseico. En la parte central, el libro enfoca la presencia de matrices mitológicas femeninas en la literatura hispánica reciente. La última sección está dedicada a estudios de cariz teórico sobre las relaciones entre mitologización y ficcionalidad en los artefactos culturales del mundo hispánico]

- V. M. Ramón Palerm, G. Sopeña Genzor & A. C. Vicente Sánchez (eds.), Irreligiosidad y literatura en la Atenas clásica (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2018). 422 p.

[El análisis del fenómeno religioso en la literatura griega ha merecido una atención sólida en la tradición histórico-filológica más acreditada. Con todo, la tensión ‘religiosidad / irreligiosidad’ que comienza a prodigarse, particularmente en la Atenas Clásica, carece de estudios pormenorizados. Así, este volumen quiere ajustarse a la manifestación que el elemento irreligioso presenta en los géneros literarios de mayor incidencia en la Atenas Clásica: el drama, la oratoria, la historiografía. Tras una actualización científica de contribuciones especialmente relevantes para nuestro tema, ofrecemos un comentario de pasajes seleccionados, relativos a los géneros citados, que ilustren la dimensión de las categorías irreligiosas en la literatura de la Atenas Clásica. Hemos atendido a un principio metodológico: la verificación mediante criterios inductivos de la terminología irreligiosa que opera en los textos para, acto seguido, realizar las consideraciones oportunas. Esta labor queda completada con un epílogo: las reflexiones que los autores posteriores más significativos, desde Platón a Plutarco, efectuaron sobre el ‘problema irreligioso’]

sexta-feira, 6 de julho de 2018

AINDA A DEGRADAÇÃO DO ENSINO EM PORTUGAL

Começo por dizer que não estou só nesta afirmação. Há pouco mais de um ano, o Primeiro Ministro António Costa, na cerimónia de entrega do Prémio Manuel António da Mota, no Palácio da Bolsa, no Porto, disse, preto no branco: “De uma vez por todas, o país tem de compreender que o maior défice que temos não é o das finanças. O maior défice que temos é o défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.

Como já escrevi, à semelhança do que se passou com a Primeira República, a classe política, no seu todo, a quem os Capitães de Abril, há 44 anos, generosa, honradamente e de “mão beijada”, entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos civismo, cultura democrática e cultura humanística. Entre os sectores da vida nacional que nada beneficiaram com esta abertura à democracia está a Educação. E, aqui, a ESCOLA FALHOU COMPLETAMENTE.

As muitas dezenas de comentários, desencadeados pelos meus escritos no Facebook sobre este tema, suscitaram um muito interessante debate, que me ajudou a consolidar a minha opinião sobre um grave problema que nos atinge e que urge enfrentar.

É, pois, minha convicção que:

Como no antigamente, a par de bons, muito bons e excelentes professores, muitos deles desmotivados, há outros, francamente maus, instalados na confortável situação de emprego garantido até à reforma.

A preparação científica e pedagógica dos professores não pode deixar de ser devida e profundamente avaliada, através de processos de avaliação a sério, criteriosamente regulados, por avaliadores devidamente credenciados.

Os sindicatos, nivelando, por igual, os bons e os maus professores, têm grande responsabilidade numa parte importante da degradação do nosso ensino público.

Os professores têm de saber muito mais do que o estipulado no programa da disciplina que devem ter por missão ensinar, não se podendo limitar a meros transmissores dos manuais de ensino.

Os professores necessitam absolutamente de tempo, e tempo é coisa que, no presente, não têm. É, pois, essencial libertá-los de todas as tarefas que não sejam as de ensinar.

É necessário e urgente repor, como inerência de cargo, a dignificação e o respeito pelo professor, duas condições que lhes foram retiradas com o advento da liberdade que os militares de Abril nos ofereceram e que a democracia não soube aproveitar.

É necessário e urgente que a Escola recupere todas as competências fundamentais à disciplina, aqui entendida como a obrigatoriedade de respeitar as normas estabelecidas democraticamente, o que evita o autoritarismo, conferindo a autoridade a quem a deve ter.

É necessário e urgente rever toda a política dos manuais de ensino, em especial no que diz respeito à creditação científica e pedagógica dos autores e revisores.

É preciso repensar a política de exames, a começar pela creditação científica e pedagógica dos professores escolhidos para conceber e redigir os questionários.

É necessário resolver o gravíssimo problema da colocação de professores, com vidas insuportáveis material e emocionalmente, a dezenas de quilómetros de casa, separados das famílias;

A remuneração dos professores tem de ser compatível com a sua superior importância na sociedade.

É preciso e urgente que o Ministério da Educação se torne numa das principais preocupações dos governos, não só na escolha dos titulares, como nas respectivas dotações orçamentais.

É urgente olhar para a realidade do nosso ensino e haver vontade e força política (despida de constrangimentos partidários), ao estilo de um “ACORDO DE REGIME”, capaz de promover uma profunda avaliação e consequente reformulação desta nossa “máquina ministerial”, poderosa e, de há muito, instalada.
Lisboa 5 de julho de 2018
A. M. Galopim de Carvalho

quinta-feira, 5 de julho de 2018

CÉLULAS ESTAMINAIS, ENVELHECIMENTO E REGENERAÇÃO: 3 EM 1



Na próxima 4ª feira, dia 11 de Julho, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra 
 "Células estaminais, envelhecimento e regeneração: 3 em 1”, por Lino Ferreira
Bioquímico, Investigador Principal e líder de grupo no Centro de Neurociências e Biologia Celular Universidade de Coimbra (CNC). Investigador Principal do «Enhancing Research in Ageing at the University of Coimbra – ERA@UC.


Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seiscoordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.



ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral
Link para o evento no facebook

2027: Irá a procissão passar do adro?


Festejaram-se há dias os cinco anos de nomeação pela UNESCO da Universidade de Coimbra como Património Mundial da Humanidade. Relembro que a zona demarcada da cidade é ocupada pela Universidade em dois “pólos”: “Alta e Sofia,” o “pólo um” e o “pólo zero”, uma vez que o Mosteiro de Santa Cruz, contíguo à rua da Sofia, teve a ver primeiro com os Estudos Gerais no tempo de D. Dinis e depois com a fixação definitiva da Universidade em Coimbra no tempo de D. João III.

Há excelentes razões para todos nos termos regozijado com a aprovação da candidatura preparada pelo reitor Fernando Seabra Santos. E também há razões para estarmos satisfeitos com algumas das consequências da candidatura - um maior cuidado com a Alta e um maior afluxo de turistas, designadamente estrangeiros. Mas também há razões para insatisfação.

Um dos óbices do projecto foi o facto de não ter havido uma candidatura conjunta da Universidade e da cidade.

O divórcio continua à vista, com a Câmara a permitir o tráfego e estacionamento prolongado de autocarros na Rua Larga (uma via essencialmente pedonal que, apesar de larga, já não chega para o parque de estacionamento em que se transformou), a permitir pichagens em edifícios históricos muito próximos da Universidade (no outro dia passei pela Igreja de São Salvador e fiquei apavorado com o vandalismo) e a ser incapaz de fazer o que quer que seja em favor da rua da Sofia (essa rua, com monumentos por qualificar, fechados ao público, continua inerte como aliás toda a Baixa onde a rua se insere).

A falta de cuidado com o património revela afinal a incultura da actual gestão camarária: podiam ser dados outros exemplos, mas um verdadeiramente inacreditável é o abandono a que está votado um notável hospital medieval - o Hospital de São Lázaro, criado por testamento do rei D. Sancho I, que está sepultado em Santa Cruz de Coimbra ao lado de seu pai, D. Afonso Henriques. Pois a mesma Câmara que numa sua publicação classifica o Hospital como sítio de interesse cultural, permite aparentemente que os restos do Hospital, incluindo uma capela ancestral, sejam vítimas do camartelo para construir um centro de saúde.

A Universidade tem ficado também a dever a si própria uma continuação dos planos que tinha no tempo da candidatura para valorizar o seu património. O exemplo mais gritante é o da segunda fase do Museu de Ciência da Universidade a instalar, a instalar diante do Laboratorio Chimico, no Colégio de Jesus, estabelecido em 1542 e um dos mais antigos colégios jesuítas do mundo. Ajudei no planeamento da exposição “Segredos da Luz e da Matéria” que ainda hoje está como estava, praticamente sem renovação, no Chimico, e colaborei na elaboração de planos circunstanciados de musealização do Colégio de Jesus, ligado à actual Sé Nova.

Pois esses planos foram todos postos na gaveta. Assisti ao Concurso Internacional de Arquitectura para adaptar o edifício em face das novas necessidades museológicas, mas, nos últimos cinco anos, nada se passou de visível. Os turistas trazidos em autocarros que poluem o Património Mundial e prejudicam a vida universitária, quase só vão à sobrecarregada Biblioteca Joanina, onde outro dia uma “funcionária” (duvido que o fosse, devia ser uma precária sem formação) me quis despachar de forma malcriada, quando eu ciceroneava um grupo estrangeiro, anunciando que só tinha cinco minutos. Respondi-lhe, obviamente, que tinha o tempo que fosse preciso para mostrar tudo aos nossos convidados. Os turistas não têm restauração decente na Alta. Se a procuram descendo à Sofia não a encontram.

Foi, depois de muita espera e parece que bastante hesitação, anunciado o nome de um responsável pelo projecto “Capital Europeia da Cultura 2027”, que se faz acompanhar de um conjunto de nomes, alguns deles respeitáveis na área da cultura, que formam porém uma comissão desenhada com intuitos mais políticos do que culturais.

Por muita arte que tenha o responsável, o mágico Luís de Matos, as fragilidades da Comissão estão bem à vista: por exemplo, o arranjo partidário começou-se a desmanchar logo à partida quando um representante do PSD se demitiu. Não sei nem ninguém sabe que linhas mestras já existem para rumo estratégico da referida capital. Mas a defesa do património – que em Coimbra tem o expoente reconhecido na “Universidade – Alta e Sofia” – devia ser um das principais desígnios da Comissão, que estranhamente não tem ninguém de áreas, essenciais para Coimbra, como o património e o urbanismo.

O tempo já está a contar para 2027. A procissão ainda agora vai no adro, mas se tanto a Câmara como a Universidade de Coimbra continuarem desirmanadas entre si e da cultura, pensando que esta se resume à atracção de turistas (que nem sequer ficam um dia inteiro na cidade), o cortejo não irá passar do adro.

E, se sair, Coimbra arrisca-se a que a Europa não queira ver o andor.

Carlos Fiolhais 

"Ora, nos centros de explicações trabalha-se diretamente para as notas"

Um leitor anónimo, em comentário ao texto "Professores apaixonados" ou o marketing de um negócio em florescimento, escreveu o seguinte:
Ora, nos centros de explicações trabalha-se diretamente para as notas. Repetem-se, até à náusea, a resolução das provas de exame dos anos imediatamente anteriores e, dada a simplicidade da reduzida matéria alvo de avaliação, os exercícios propostos, ao longo de anos sucessivos, são sempre tão parecidos [pelo] que acaba por compensar andar em explicações. 
As explicações não se destinam, principalmente, aos alunos menos dotados, como noutros tempos em que já era muito bom passar de ano, agora o grande objetivo do aluno médio é atingir os vinte valores, nem mais nem menos, e, muitas vezes, atinge! 
A massificação do ensino, com o golpe de misericórdia da escolaridade obrigatória até aos dezoito anos, afastou da escola o critério da qualidade, acabando por ter o efeito perverso de guindar aos cursos com melhores saídas profissionais os alunos mais ricos que têm dinheiro para pagar colégios, explicações e notas elevadas!
O meu comentário ao comentário é o seguinte:
As políticas para a escola pública traduzem-se na legitimação da "narrativa" da OCDE, a qual é corroborada por muitos académicos, directores e professores. Não sabemos que efeitos terá nas práticas lectivas, mas algum efeito deve ter.
Acontece que os exames nacionais estão (ainda) desfasados dessa narrativa. Os nossos exames nacionais, ou pelo menos alguns deles, requerem o domínio de conhecimentos disciplinares e demonstração de capacidades cognitivas. 
Se na escola o ensino é desviado da sua essência, dificilmente os alunos que pretendem terminar a escolaridade obrigatória ou prosseguir estudos superiores aprendem com a extensão e profundidade que lhes permita obter classificações para passar ou para entrarem nos cursos pretendidos.
Em suma, os sistemas educativos ao mesmo tempo que aligeiram a aprendizagem disciplinar, mantêm exames que testam a efectiva aprendizagem disciplinar. 
As empresas de explicações, como empresas que são, aproveitam esta manifesta incongruência para fazer negócio.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Professor não; mediador sim, dizem alguns professores

"O grande desafio daqui pra frente não é mais saber conteúdos, 
posto que esses estão todos disponíveis na Internet, 
mas quais informações são importantes e relevantes 
para o crescimento cognitivo, 
como essas informações vão mudar o modo de ver o mundo 
e de fazer as pessoas crescerem intelectualmente."

Cláudio de Musacchio,  2014 (aqui).  

"Ele [o professor] ainda cumpre uma função,
é necessário à escola e pode ensinar (...) mas cumpre fazê-lo com cuidados.
O primeiro passo é responder ao que os seus alunos querem saber (...)
 Esse reposionamento do professor deixa lugar à actividade dos alunos,
coloca-os como guias e protagonistas últimos da educação escolar."

Afonso Mancuso de Mesquita, 2010, 72 (aqui).

Certas afirmações/declarações sobre o ensino são realmente difíceis de compreender. E são ainda mais difíceis de compreender se proferidas por especialistas em educação e por professores.

Uma delas é a que se prende com recusa do papel de ensino, que é específico do professor, de modo, claro está, que os alunos aprendam.

Que empresas, políticos e sociedade a veiculem e, mais do que isso, a queiram impor, é estranho, mas enfim, podemos sempre pensar que não estão por dentro do que é a escola e do trabalho que nela se faz ou que têm algo a ganhar com isso, contudo é desconcertante quando se trata de quem conhece e desempenha o ofício.

Realizou-se recentemente em Portugal uma conferência, que foi declarada como o "maior evento de educação do ano", sobre a
“mudança do papel” do professor de “fonte primária” de conhecimento para “medidor” entre alunos.
O organizar, um professor, presidente da Casa do Professor, explicou que os alunos aprendem agora de um modo diferente, não aprendem como aprendiam no passado. Nas suas palavras divulgadas na imprensa:
“... aprendem de forma diferente de há uns anos, as suas formas de aprender as matérias não são exatamente as mesmas, não têm os mesmos processos, são uma geração nascida no pós-internet e isso veio alterar a forma como os jovens se posicionam no mundo”.
Logo, disse, o professor "muda de papel":
“passa de fonte primária do conhecimento a orientador, um tutor, um verdadeiro mediador (...). Anteriormente, o professor era a voz do discurso pedagógico, hoje os alunos têm outros estímulos, reagem de forma diferente, têm uma atenção repartida durante o período da aula e tem que se os estimular no sentido de estarem atentos, mas não apenas focados no professor”.
Assim sendo,
“... este novo papel merece reflexão, exige constante formação e apresenta desafios, vai exigir muito dos professores e esta conferência var dar resposta a esse novo papel no sentido de acompanhar a inovação pedagógica, os desafios que se lhe colocam hoje em dia, porque 
Pergunta, com toda a pertinência, o jornalista, se neste "novo paradigma", o professor perde protagonismo "para as novas tecnologias". A resposta é que não, pois
“... há algo que o computador não consegue (...). As novas tecnologias não conseguem humanizar o contexto de sala de aula e nesse sentido o computador não vai nunca substituir o professor. Confere-lhe um novo lugar, mas não necessariamente um lugar secundário”.
Estas declarações, que têm tudo de nebuloso, não constituem uma novidade. São, na verdade, a replicação, ad nauseam, da "narrativa" da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre a aprendizagem no século XXI.

Organização que também marcou presença na mencionada conferência, fazendo-se representar por um "alto quadro". Nem outra coisa seria de esperar: determinando ela a educação escolar no mundo,  tem de estar muito atenta ao que se diz e ao que se faz, não vá dar-se o caso de surgirem desvios.

Quer ser prontamente “aviado”? Compre medicamento falsificado!

Texto gentilmente partilhado pelo Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo.
Medicamento falsificado não é o feito à base de farinha de trigo. Esse é grosseiramente o placebo. 
Medicamento falsificado é, segundo a União Europeia, “qualquer fármaco com uma falsa apresentação: da sua identidade, incluindo a embalagem, rotulagem, nome ou composição no que respeita a qualquer dos seus componentes, incluindo os excipientes, e a dosagem desses componentes; da sua origem, incluindo o seu fabricante, país de fabrico, país de origem ou o titular da autorização de introdução no mercado; ou da sua história, incluindo os registos e documentos relativos aos canais de distribuição utilizados.” 
Os medicamentos falsificados são susceptíveis de conter componentes de baixa qualidade ou com uma dosagem incorrecta (demasiado elevada ou baixa), o que constitui uma grave ameaça para a saúde dos cidadãos em geral. 
Estão intimamente associados à “dispensa” via internet. 
São letais: matam! 
Mais de 500 000 pessoas sucumbem, por ano, aos medicamentos falsificados (OMS).
Há, na internet, mais de 35 000 “farmácias” ilegais que fornecem sobretudo medicamentos falsificados a preços mais acessíveis que os genuínos dispensados em farmácias e sítios autorizados. 
Mais de 60% dos consumidores recorrem a farmácias ilegais na internet, o que permite entrever os perigos e riscos a que se expõem.
Mais de 50%, ao que se estima, de medicamentos disponíveis na internet, fora dos circuitos legais, são falsificados. 
Os medicamentos contrafeitos e pirateados importam em mais de 200 biliões de US dólares/ano. 
A OMS estima que mais de 30% de medicamentos dispensados em determinados pontos da Ásia, Africa e América do Sul e Central sejam objecto de contrafacção. 
A directiva europeia que versa sobre medicamentos falsificados representa um enorme progresso no que tange à segurança e qualidade dos medicamentos dispensados na UE.
Por um lado, dificultar-se-á a comercialização dos falsificados e, por outro, o acesso a medicamentos na internet será mais seguro.
Garantirá, além disso, que só se empregarão princípios activos de qualidade na composição de medicamentos na UE.
O que tem manifestamente efeito positivo na protecção da saúde pública. 
A Directiva Europeia pretende obstar à disseminação dos falsificados, através de medidas, como
. Reforço da qualidade, eficácia e segurança dos fármacos,
. A adopção de um logótipo comum susceptível de propiciar aos consumidores o seu reconhecimento como websites legítimos, ligados a entidade devidamente habilitada a dispensar medicamentos,
. Informações sobre os riscos associados à dispensa de medicamentos por sítios ilegais;
. Enunciação das entidades aptas a dispensar medicamentos à distância. 
A directiva manda ainda: “A Comissão, em cooperação com a Agência e com as autoridades dos Estados…, deve realizar ou promover campanhas de informação, destinadas ao grande público, sobre os perigos dos medicamentos falsificados.
Estas campanhas devem sensibilizar os consumidores para os riscos associados aos medicamentos vendidos ilegalmente à distância ao público através dos serviços da sociedade da informação e para o funcionamento do logótipo comum, dos sítios na Internet dos Estados-membros e do sítio na Internet da Agência.
” 
A ausência de campanhas de sensibilização, em Portugal, é algo de profundamente negativo em todo este processo. 
Louvor a José Inácio de Faria, eurodeputado, pelo seu papel no Parlamento Europeu em prol de medidas do estilo. 
P.S. “Aviado”: despachado, com um passaporte para a morgue, etc.
Mário Frota
apDC – sociedade portuguesa DIREITO DO CONSUMO – Coimbra (sociedade científica)

PORTUGAL NA AMÉRICA

Abade José Correia da Serra

Crónica de Carlos Fiolhais, no Público de hoje:

Marcelo Rebelo de Sousa no seu recente encontro com Donald Trump na Casa Branca não perdeu a oportunidade de dizer ao seu par, algo desinteressado, que a Declaração da Independência dos Estados Unidos, cujo rascunho foi escrito por Thomas Jefferson e cuja versão final data de 4 de Julho de 1776, foi celebrada com vinho da Madeira. E mais lembrou que Portugal foi um dos primeiros países neutros a reconhecer a independência da nova nação, em 1783.

Mas podia ter dito mais. Por exemplo, que o abade José Correia da Serra, um grande amigo de Jefferson, o terceiro presidente americano, após George Washington e John Adams, foi considerado por este o “homem mais ilustrado que conheceu”, o que não era dizer pouco, pois Jefferson além de estadista era um sábio. O abade chegou à América em 1812 e em 1816 foi nomeado embaixador do reino de Portugal, Algarve e Brasil, quando já era presidente o sucessor de Jefferson, James Madison. Sendo visita regular da casa de Jefferson, a mansão Monticelllo, na Virgínia, o dono da casa tinha reservado para ele um quarto, que hoje os visitantes podem ver (o Abbé Corrêa’s room). Com Jefferson, o Abade alimentou a utopia de uma nova civilização nas Américas, que ambos queriam mais avançada do que a europeia (para Serra os dois países eram “as duas grandes potências do hemisfério ocidental”). A América do Norte ficaria para os Estados Unidos e a América do Sul para Portugal. É curioso como um padre católico se entendia bem com um protestante unitarista, mas unia-os a filiação maçónica. Em 1820, no ano da Revolução Liberal, um ano antes do regresso da corte do Rio de Janeiro a Lisboa e dois anos antes da independência do Brasil, o embaixador luso regressava à sua terra natal.

Marcelo podia também ter dito que o prémio científico mais antigo da nação americana, e que ainda hoje é atribuído, foi estabelecido pela Sociedade Filosófica Americana, sedeada em Filadélfia, em 1786, com 200 guinéus doados pelo português João Jacinto Magalhães, que vivia em Londres e era amigo do fundador da Sociedade, o físico e diplomata Benjamin Franklin. O Magellanic Premium, que se destina a recompensar o “autor da melhor descoberta ou mais útil invenção relacionada com a navegação, a astronomia ou a filosofia natural,” já foi dado 34 vezes, uma das quais aos inventores do GPS.

Podia ainda ter dito que dois dos maiores escritores portugueses do século XIX - Antero de Quental e Eça de Queiroz - visitaram os Estados Unidos e que outros dois grandes nomes das letras, estes do século XX - José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena – lá viveram numa boa parte da sua vida (os dois morreram no exílio). E podia, como Onésimo Almeida referiu no seu discurso do 10 de Junho em Ponta Delgada, que grandes cientistas americanos contemporâneos como o Nobel da Medicina Craig Mello e o físico e ex-secretário de Estado da energia Ernest Moniz têm ascendência lusa, os dois com raízes na ilha de S. Miguel. E podia ainda ter acrescentado que numerosos cientistas portugueses trabalham hoje nos Estados Unidos como a bióloga Sílvia Curado, presidente da Portuguese American Postgraduate Society, que reúne a diáspora científica nos Estados Unidos e Canadá e que acaba de celebrar 20 anos com um encontro na Universidade de Harvard, em Boston (brindou-se com Porto). Receio, contudo, que, com essa overdose de informação, Trump tivesse ficado KO.

Marcelo rematou que “Portugal é um pouco diferente dos Estados Unidos” quando Trump engendrou uma candidatura de Ronaldo à presidência. É-o, de facto. Há coisas melhores cá (um emigrante gritou a Marcelo em Boston: “És melhor do que o Trump!”) e outras melhores lá (por exemplo, o sistema científico-tecnológico). A escritora micaelense Natália Correia, que em 1950 visitou a América (era na altura Mrs. Hyler pois tinha casado com um americano), resumiu no seu livro com o sugestivo título Descobri que era Europeia (Ponto de Fuga, 2018), o gap entre a América e a Europa: “A América é um problema de que só ela tem a chave. A solução desse problema só interessa aos americanos. Se tentarmos compreendê-lo partindo de nós próprios, da nossa concepção do que ela ‘possa ser’, escolhemos o caminho mais longo, pois somos estruturalmente diferentes.”