Será Lisboa a cidade mais atafulhada de carros estacionados no mundo?
Este post estava pendente há anos (!) e é também um pedido da vossa ajuda. Estava pendente porque não queria ser injusto mas tendo acabado de visitar quatro novos países, menos "desenvolvidos", fico cada vez mais convencido que não haverá no mundo uma grande cidade que dedique tanto do seu espaço público ao estacionamento automóvel como Lisboa, seja estacionamento legal ou ilegal. Aliás, conhecendo cinquenta países, sempre com atenção à mobilidade, não consigo claramente dar um exemplo pior.
Responder seriamente à pergunta implicaria anos a recolher dados, mas posso dar quatro razões (ver fotos) que me levam a pensar assim.

1) Nunca vi ruas de 20m de largura, onde se conseguisse enfiar 4 filas de estacionamento automóvel (para lá de 2 vias de circulação), e Lisboa tem dezenas de exemplos assim.


3) Pequenos cruzamentos urbanos onde chegam a haver 4 carros impunemente estacionados em CADA esquina, pondo em perigo os peões e tapando a passadeira (quando existe).
4) É muito comum haver ruas e avenidas sem qualquer estacionamento à superfície no centro das cidades (tentem uma cidade ao calhas no google maps). Nos países mais "desenvolvidos" chegam a ser mais de metade. Em Lisboa conta-se pelos dedos das mãos, os casos assim.
Sei que Fernando Medina discorda - ainda há dois meses repetiu que um dos grandes problemas de Lisboa é a falta de estacionamento, e vocês conhecem algo pior?
Não, o título não é exagerado, e não é temporário. Nas fotos vemos várias dezenas de lugares marcados recentemente* pela EMEL a indicar estacionamento sobre o passeio.
Já não é novidade nenhuma a CML autorizar estacionamento no passeio é legal (Av Gago Coutinho entre muitos outros), este caso é especialmente vergonhoso porque 1) indica que se deve bloquear por completo o passeio, 2) é estacionamento recentemente "ordenado" pela EMEL, 3) do outro lado do quarteirão abriu há menos de dois anos um parque de estacionamento subsidiado por todos nós.



Fernando Medina fez uma importantíssima e corajosa proposta este fim-de-semana. Defendeu uma enorme simplificação dos passes de transportes públicos em Lisboa, um para o centro da cidade e outro para a Grande Lisboa, combinada com uma forte redução dos preços através de financiamento do orçamento do Estado.
As redes sociais explodiram com a discussão sobre se fará sentido o resto do país apoiar ainda mais os transportes de Lisboa e Porto, mas ninguém - nem Medina - se lembrou da vaca sagrada. É que ainda há umas semanas o presidente da CML se orgulhava dos milhões que tem gasto a financiar estacionamento automóvel. Dizia ele que desde que tomou posse já criou 22 parques de estacionamento, mais 3000 lugares, com recursos públicos.
Faz sentido haver quartos por 500€/mês em Lisboa, e a CML usar os seus recursos públicos para garantir mais uns milhares de estacionamento a preço simbólico? Faz sentido Lisboa reclamar mais financiamento do resto do país para os seus transportes públicos, quando esbanja assim em automóveis?
Este fantástico vídeo da Streetfilms conta-nos como está a correr uma das mais excitantes inovações urbanas a acontecer no mundo, as superilles (super-quarteirões) de Barcelona.
A ideia é proibir todo o trânsito de atravessamento num dado cruzamento (no caso de Barcelona, dois consecutivos até), fazendo com que as ruas que lá vão dar deixem praticamente de ter trânsito. Assim pode-se libertar espaço e devolve-lo às pessoas, com jardins infantis, espaços verdes, espaços para desporto, esplanadas, etc.
E obviamente que não é preciso ter o quadriculado de Barcelona para tentar algo assim. Qualquer cruzamento secundário pode servir.
A revolução por uma cidade mais humana continua em Madrid. Além de fechar cada vez mais vias aos automóveis, a cidade vai agora permitir os ciclistas passar os vermelhos para virar à direita (como em muitas outras cidades europeias), transformar todas as ruas só de uma via em zonas 30, ter ruas residenciais onde a velocidade máxima é 20 e onde os ciclistas podem andar em sentido contrário, etc.
História no El País, descoberta no fórum da MUBi.

A ineficiência do automóvel manifesta-se a vários níveis - às custas dos outros usos da cidade, e dos outros transportes.
In Europe,
• average car is parked 92% of the time.
• roads reach their peak use only 5% of the time.
• 50% of city land area is dedicated to vehicle infrastructure.
• 86% of a car’s fuel never reaches the wheels.
• average car carries 1.5 people/trip
Fonte https://twitter.com/brent_bellamy/status/1023733175766450177
Em Inglaterra os jovens adultos estão a usar bem menos o automóvel, de acordo com a BBC.
In the 1990s, 80% of people were driving by 30; now this marker is only reached by 45.
Men under 30 are travelling only half the miles their fathers did.

E se somarmos as deslocações a pé, comboio, bicicleta, mota e taxi dentro de Lisboa, imaginem o que sobraria.
Dados:
Carris transportou 140,6 milhões de passageiros em 2017.
http://www.carris.pt/pt/indicadores-de-atividade/
Metro transportou 161,5 milhões
https://www.metrolisboa.pt/.../mais-de-160-milhoes-de.../
Um parque de estacionamento consegue ter um automóvel por cada 26m² (contando com espaço para manobra, e as vias de ligação internas)
https://menos1carro.blogs.sapo.pt/164229.html
São 827 mil deslocações por dia, que precisariam de um lugar de estacionamento à chegada.
É apelativa a ideia que não devemos interferir na escolha de mobilidade dos outros, tal como ninguém tem nada a ver com o que eu como, visto, leio, etc. Só que por um lado já vimos que é impossível uma câmara municipal não interferir nessa decisão por muito que queira; ao escolher quanto espaço urbano vai para alcatrão e quanto vai para passeio, já tem uma enorme influência. Por outro, mesmo que fosse possível não interferir nas escolhas pessoais, isso não seria desejável pela natureza do que está em causa.
Não podemos ver a escolha do transporte como uma decisão inteiramente pessoal como a escolha da camisa que vou vestir. Escolher andar de automóvel na cidade deve sim, ser visto como a escolha de quando toco bateria no meu prédio.
Vai à janela.
Repara na largura da estrada e na largura do passeio. Alguém teve de decidir isso.
Repara qual a largura de cada via (faixa) de rodagem, e quantas há em cada sentido. Alguém teve de decidir isso.
Repara se há estacionamento, se é em espinha ou longitudinal, se é contínuo ou interrompido por bancos ou árvores, se houve cuidado para evitar estacionamento ilegal no cruzamento ou se houve condescendência com isso. Alguém teve de decidir isso.
Repara se há bus, ciclovia e qual é o material do passeio, se a estrada é alcatrão ou empedrado e se tem lombas (e que lombas?). Alguém teve de decidir isso.
Repara na velocidade máxima e se alguma vez alguém a controlou aí. Alguém teve de decidir isso.
Repara se há parquímetros, quanto custam, qual o período máximo de estacionamento, se há lugares para moradores. Alguém teve de decidir isso.
Repara se o estacionamento legal ou ilegal é controlado por alguém, quantas vezes é controlado, qual é a multa, quantos pontos se perde na carta. Alguém teve de decidir isso.
Repara se o passeio é um canal livre para os peões, ou se tem obstáculos como pilaretes, cartazes publicitários, bancos, árvores, vidrões, sombra. Alguém teve de decidir isso.
Repara se a rua tem passadeira, passeio rebaixado na passadeira, passadeira levantada, passeio central ou tem barreiras que impeçam os peões de atravessar.
Repara se há paragem de autocarro, paragem de metro ou paragem de taxi. Alguém teve de decidir isso.
Repara na frequência do autocarro, o preço do metro, o imposto de circulação do automóvel, o ar condicionado do metro, o preço da licença do taxi. Alguém teve de decidir isso.
Repara no cruzamento ao fundo, e se ele tem semáforos, quanto tempo abrem os semáforos para cada direção e para os peões, se todos as mudanças de direção são permitidas, qual o raio de curvatura, se há exceções para autocarros, amarelos intermitentes ou botões para os peões pedirem verde. Alguém teve de decidir isso.
Lembra-te que em qualquer cidade há centenas, milhares de troços de rua iguais ao da rua à tua frente, e em todos eles as mesmas decisões tiveram de ser feitas.
É que ao contrário do tipo de fruta que escolhemos comer, da rádio que escolhemos ouvir, do café onde decidimos comer, na mobilidade é impossível as câmaras serem imparciais tratando todos os modos de transporte por igual. E todos estes milhões de decisões que elas têm de tomar condicionam fortemente as nossas escolhas individuais de mobilidade no dia-a-dia.
Quando alguém diz que as câmaras municipais devem deixar as pessoas escolher livremente, ou está a ser burro ou desonesto.
Blogs sobre mobilidade sustentável
Apocalipse Motorizado (Brasil)
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Massa Crítica/Bicicletada Portugal
Sociedade do Automóvel (documentário BR)
Transporlis (transportes públicos de Lisboa)
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