sábado, 13 de abril de 2019

Onde está o Túmulo de Cristo?

Por David Langness.


Quem já leu e estudou a Bíblia tem conhecimento sobre as perseguições contra os profetas. Se querem uma prova, visitem a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém.

A citação seguinte é uma das muitas passagens da Bíblia que regista como os mensageiros de Deus são vítimas de escárnio e ultrajes:
O Senhor, Deus de seus pais, enviou-lhes constantemente advertências por meio de mensageiros, para os admoestar, pois queria perdoar ao seu povo e à sua própria casa. Eles, porém, escarneceram dos seus conselhos e riram-se dos seus profetas, até que a ira do Senhor caiu sem remédio sobre o seu povo. (2 Crónicas 36:15-16)
Cristo foi crucificado; os Seus discípulos esconderam-se, foram presos e estigmatizados; os Seus primeiros seguidores foram lançados aos leões. Os ensinamentos Bahá’ís homenageiam Cristo e os Seus seguidores, e recordam-nos que, com o passar do tempo, houve uma mudança radical na atitude em relação a eles:
Considerai como os Discípulos eram tratados. Enquanto eram vivos, as pessoas não queriam ter nada a ver com eles, mas depois sentiam-se profundamente glorificados se tivessem a mais remota ligação com eles. Tornaram-se respeitados e reverenciava-se até a terra que tinha sido tocada pelos seus pés. Agora as pessoas prostram-se perante os seus túmulos, mas eles foram perseguidos quando eram vivos. E naquele tempo as pessoas não gostavam de ser conhecidas como parentes destes Discípulos de Cristo (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 3, p. 84)
‘Abdu’l-Bahá pôs em destaque esta mudança profundamente irónica quando contou a história de um encontro com um grupo de peregrinos Cristãos no século XIX:
Quando viajava na Palestina, encontrei um local com solo pedregoso. Vi que algumas pessoas se juntaram em torno de uma pedra, beijando-a, chorando e suplicando. Perguntei: “O que é isto?” Disseram-me que, há muito tempo, os Apóstolos de Cristo, tinham passado por este local e se tinham sentado numa destas pedras, mas que existiam tantas pedras que não sabiam em quais é que os Apóstolos se tinham sentado. Por isso, prostravam-se perante todas para que, por ventura, pudessem encontrar e beijar a pedra certa. No seu tempo, as pessoas batiam-lhes, prendiam-nos, ridicularizavam-nos, expulsavam-nos das suas cidades e por fim, martirizavam-nos. Nem sequer davam autorização para que fossem sepultados nos seus cemitérios (Idem)
Durante dezoito séculos, os historiadores identificaram o tradicionalmente aceite túmulo de Jesus como o Santo Sepulcro da Igreja, em Jerusalém. Todos os dias, milhares de pessoas visitam essa igreja para rezar e meditar sobre a vida e os ensinamentos de Cristo. Mas sabia que um dos lugares mais sagrados no mundo costumava ser uma lixeira?

Sabemos pelas narrativas bíblicas que Cristo foi crucificado perto de Jerusalém, no exterior das muralhas da cidade, em Gólgota, o local onde se realizavam as execuções. Os historiadores e os investigadores descrevem que o corpo de Jesus não foi levado para a cidade após a sua execução, porque ele era considerado um impostor. Em vez disso, ele foi sepultado fora das muralhas da cidade e o seu túmulo foi uma cova de entulho.

Depois, o imperador Constantino, o Grande, subiu ao trono, tornou-se o primeiro monarca Cristão no século IV e pediu à sua mãe Helena que procurasse o local do túmulo de Cristo. Ela procurou e julgou tê-lo encontrado, e nesse local, o Bispo Macário de Jerusalém construiu a Igreja do Santo Sepulcro, que hoje se encontra no interior das muralhas alargadas de Jerusalém. Depois desta descoberta, o imperador Constantino enviou ao Bispo Macário a seguinte carta:
Tamanha é a graça do nosso Salvador, que nenhum poder de linguagem parece adequado para descrever a maravilhosa circunstância a que me refiro. Pois, que o monumento desta mais sagrada Paixão, durante tanto tempo enterrado debaixo do solo, tenha permanecido oculto durante tantos anos, até ter reaparecido aos seus servos agora liberto do afastamento daquele que era o inimigo comum de todos [o anterior imperador], é um facto que verdadeiramente ultrapassa toda a admiração…
‘Abdu’l-Bahá apresentou uma explicação fascinante sobre este processo e a construção da Igreja do Santo Sepulcro que salienta a perseguição contínua contra Cristo e os seus seguidores – até mesmo depois da sua morte:
Eles não queriam que o corpo de Sua Santidade Jesus Cristo fosse sepultado num cemitério Judaico. Os Apóstolos foram comprar um pequeno terreno e sepultaram-no. Depois os Judeus levaram para lá o seu entulho. Posteriormente os homens vieram e construíram ali uma grande igreja. Esta foi construída pela mãe de um dos Césares, passados trezentos anos. Até hoje, em alguns locais, é conhecida como a Igreja do Entulho. Este é, verdadeiramente, o Túmulo de Cristo. Era o local onde, no tempo de Cristo, todo o entulho da cidade era depositado. Durante trezentos anos continuou assim. Podemos ir lá hoje e ver a mudança maravilhosa que ali existe, ver a maravilhosa igreja que ali construíram, quantas jóias e pedras preciosas ali recolheram. A estátua de Cristo está adornada com todos os tipos de pedras preciosas, tal como a estátua de Maria e outras. Como é diferente a atitude das pessoas nos dias dos Manifestantes. Perseguem-nos, insultam-nos e ridicularizam-nos; colocam uma coroa de espinhos nas suas cabeças, espancam-nos na rua, cospem nas suas faces e por fim, crucificam-nos. Mas depois adoram as suas imagens, beijam o chão que eles pisam ou as pedras em que eles se sentam. Esta é a atitude das pessoas. (Idem)
Esta maravilhosa e desconcertante cadeia de eventos – Cristo teve uma crucifixão ignominiosa, foi executado como um criminoso, e vilipendiado até depois de morto; e tornou-se um dos profetas mais reverenciados em toda a história humana, hoje seguido e adorado por mil milhões de pessoas. A sua perseguição na terra tornou-se, por fim, gloriosa.

Este mesmo processo repete-se em toda a história da religião, e agora repete-se na história da Fé Bahá’í:
Deus enviou todos os Seus Profetas ao mundo com um propósito, para semear amor e boa vontade nos corações dos homens, e para este grande objectivo eles sofreram e morreram. ('Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 108)
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Texto original: Where is Christ’s Tomb? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 6 de abril de 2019

Terá Darwin descoberto a Divindade?

Por Robert Atkinson.


A maioria das pessoas recorda o famoso cientista Charles Darwin pela sua teoria da “sobrevivência do mais apto”.

Essa perspectiva da evolução descreve as criaturas no mundo natural – incluindo os humanos – em competição uns contra os outros, num cenário de oposição inerente a todas as criaturas. Há quem diga que a sua teoria lançou uma visão do mundo caracterizado pela separação e competição.

No entanto, se olharmos cuidadosamente para os seus escritos, descobrimos o outro lado da história - algo desconhecido, ignorado e mal-entendido. A visão do mundo marcado pela separação já existia muitos séculos antes de Darwin e as muitas tentativas dos seus seguidores para promover a sua teoria parecem agora ser uma derradeira tentativa para defender essa maneira antiquada de olhar o mundo. Além disso, a teoria completa de Darwin, quando examinada detalhadamente, ajusta-se mais aos princípios espirituais emergentes no seu tempo do que fomos levados a acreditar.

Durante a vida de Darwin, teve início, em 1852, um avanço na consciência da humanidade com a revelação de Bahá’u’lláh, o fundador da Fé Bahá’í. Os ensinamentos Bahá’ís, destinados a ultrapassar normas existentes de construção da nações e nacionalismo, baseiam-se na unicidade da humanidade - o princípio espiritual fundamental que caracteriza o nosso tempo:
A Terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos… Sois frutos de uma só árvore e folhas de um só ramo… Tão poderosa é a luz da unidade que pode iluminar a terra inteira. (Baha’u’llah, Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, CXXXII)
Os ensinamentos Bahá’ís apresentam uma visão totalmente desenvolvida da evolução, na qual todas as coisas estão interligadas, dependem do mesmo Criador e, portanto, seguem as mesmas leis e princípios em todos os domínios - incluindo a evolução colectiva da humanidade, que passa por fases, tal como o indivíduo:
A realidade é uma só; e quando encontrada, unificará toda a humanidade… A realidade é o conhecimento de Deus… A realidade está subjacente a todos os grandes sistemas religiosos do mundo. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 372)

A ordem mundial apenas se pode basear na inabalável consciência da unicidade da humanidade… O reconhecimento desta verdade exige o abandono dos preconceitos - preconceitos de todos os tipos – raça, classe, cor, credo, nação, sexo, grau de civilização material, e tudo o que permita que as pessoas se considerem superiores a outras. (The Universal House of Justice, The Promise of World Peace, p. 10)
Os ensinamentos Bahá'ís afirmam que a evolução tem um objectivo, é progressiva e conduz a níveis de cooperação cada vez maiores. Surpreendentemente, a visão de Darwin sobre a evolução, quando considerada na sua totalidade, apresenta um paralelismo perfeito com isto. Darwin fez estudos para ser clérigo; depois, numa verdadeira mudança de paradigma, partiu em viagem no Beagle para as zonas mais remotas do mundo; e também reconheceu que, coexistindo com a sua teoria da “sobrevivência do mais apto”, existe a lei natural da cooperação.

Uma leitura mais pormenorizada sobre as ideias de Darwin revela uma ligação intrigante entre a sua teoria da evolução e os ensinamentos Bahá’ís. No livro The Descent of Man [1871] (traduzido em Portugal como A Origem do Homem e no Brasil como A Descendência do Homem), Darwin escreveu sobre a evolução progressiva:
À medida que o homem progride, e pequenas tribos se unem em comunidades maiores, a simples razão diz ao indivíduo que deve alargar os seus instintos e simpatias sociais a todos os membros da mesma nação, mesmo que não os conheça pessoalmente. Quando se chega a este ponto, apenas existe uma barreira artificial que impede que as suas simpatias se alarguem aos homens de todas as nações e raças. (Charles Darwin, The Descent of Man, p. 83)
O que ele descreve aqui, será altruísmo colectivo ou a Regra de Ouro? Numa frase arrebatadora, Darwin leva a lei natural da cooperação do nível individual ao nível global. O próximo passo neste percurso evolutivo - que tem os seus altos e baixos - será outro princípio espiritual universal - a paz na terra - que é prometido por todas as tradições espirituais mundiais, mas também é visto como inevitável pelas escrituras Bahá’ís.

Será que quando os ensinamentos Bahá’ís estavam a ser revelados no mundo, Darwin, de alguma forma, recebeu estas energias espirituais e integrou-as nas suas ideias inovadoras sobre a evolução? Poderiam outros pensadores de vanguarda daquele tempo – como os transcendentalistas e, mais tarde, os defensores das teorias quânticas – ter feito a mesma coisa nas suas áreas pelo progresso da consciência da humanidade?

Um princípio espiritual essencial da Fé Bahá’í é que a ciência e a religião devem estar em harmonia – a razão e a fé são formas complementares (e necessárias) para compreender plenamente a natureza da realidade. O progresso de cada uma anda a par com a outra.

Nos nossos dias, ciência e religião parecem concordar com a ideia de evolução progressiva. Os ensinamentos Bahá’ís afirmam:
Todos os seres, sejam universais ou particulares, foram criados perfeitos e completos desde o início. O máximo que podemos dizer é que as suas perfeições apenas se tornaram gradualmente aparentes. A lei de Deus é uma; a evolução da existência é uma; a ordem divina é uma. Todos os seres, grandes ou pequenos, estão sujeitos a uma lei e uma ordem. Cada semente tem, desde o início, todas as perfeições da planta… Quando consideramos esta ordem universal, vemos que nenhuma coisa atinge a perfeição imediatamente após vir à existência, mas cresce e desenvolve-se gradualmente até atingir essa fase. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 229-230)
Charles Darwin, no livro A Origem das Espécies (1859), apresenta outro conceito que o liga aos ensinamentos Bahá’ís, quando escreve: “Como a selecção natural trabalha unicamente para o bem de cada ser, todos os dons corporais e mentais tendem a progredir em direcção à perfeição.” (p.577)

Quando juntamos a toda a teoria da evolução de Darwin – baseada na ideia de que os nossos instintos sociais evoluem de “pequenas tribos” para “grandes comunidades”, para “todos os membros da mesma nação” e, por fim, “todas as nações e raças” – com a ideia de que a evolução progride para a perfeição, a sua visão geral alinha-se quase integralmente com o princípio de evolução espiritual através do desenvolvimento progressivo da ordem em direcção a uma harmonia crescente.

Também é interessante notar que antes de Charles Darwin, o conceito de evolução ainda não tinha surgido no discurso público. Agora reconhecemos que tudo evolui: a vida, a cultura, a civilização, a ciência, a tecnologia, as artes e até o próprio universo.

Compreender o que Darwin verdadeiramente disse – e pretendia – assim como a sua provável fonte de inspiração, é uma forma de entender que os saltos evolutivos da consciência humana acontecem numa escala mais ampla. De facto, os fundadores das religiões do passado também tiveram os seus Darwins, Emersons e Einsteins que preencheram o fosso entre ciência e religião enquanto faziam avançar o espírito da época através de uma perspectiva essencialmente secular.

É difícil negar que os fundadores das religiões mundiais - como Abraão, Krishna, Moisés, Zoroastro, Buda, Cristo, Maomé e, no nosso tempo, Bahá'u'lláh - tenham, cada um à sua maneira, transformado a vida espiritual dos povos do mundo, mudado o rumo da vida humana ao longo dos últimos milhares de anos e causado um salto de consciência em cada nova época espiritual iniciada por cada um deles.

Hoje, compreendemos melhor que existe uma lei universal governa tudo, que a realidade é uma só e que a evolução progressiva e a revelação progressiva são princípios paralelos de uma única realidade. Podemos ficar encorajados com a harmonia sobre verdades vitais, tais como o desenvolvimento evolutivo, que nos guiam para uma consciência da unicidade da humanidade.

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Texto original: Did Darwin Discover Divinity? (www.bahaiteachings.org)

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Robert Atkinson é doutorado em psicologia do desenvolvimento, professor na University of Southern Maine e autor de vários livros, nomeadamente, The Story Of Our Time: From Duality to Interconnectedness to Oneness, Mystic Journey: Getting to the Heart of Your Soul’s Story (2012), e Remembering 1969: Searching for the Eternal in Changing Times (2008).

sábado, 30 de março de 2019

Como o Ocidente descobriu Tahirih

Por Hussein Ahdieh.


Depois de ter sido executada, a fama e o nome de Tahirih – poetisa Babi e defensora dos direitos das mulheres – espalhou-se quase imediatamente pelo Ocidente.

Justin Sheil, um general e diplomata britânico que serviu como representante da rainha Vitória na corte do rei da Pérsia, enviou a primeira referência conhecida da execução de Tahirih num despacho datado de 22 de Agosto de 1852:

Entre os que sofreram a morte encontrava-se uma jovem mulher, filha de um famoso professor de Direito em Mazindaran, que tinha estado detida durante três anos em Teerão. Ela era venerada como profetisa pelos Babees [Babis], e a designada entre eles como “Koorat ool ain” – “Pupila dos olhos” [na verdade, Qurrat’ul-Ayn significa “Consolo dos Olhos”]. Ela foi estrangulada por ordem do Xá. O Sedr Azim opôs-se a estes actos, mas a raiva e a vingança do Xá não lhe permitiram prestar atenção ao conselho (Moojan Momen, The Babi and Baha’i Religions, 1844-1944, Some Contemporary Western Accounts, p. 135.)

No dia seguinte, o príncipe Dolgorukov, embaixador russo na Pérsia, enviou o seguinte despacho:

… Durante muito tempo, esteve presa em Teerão, sob vigilância de Mahmud Khan, o chefe da polícia, um mulher Babi (Tahirih). Apesar disto, ela aparentemente encontrou forma de se encontrar diariamente com muitos membros da sua seita. Ela foi estrangulada num jardim, na presença de Ajudan-Bashi… (Ibid., p. 143)

Pouco depois, a execução de Tahirih era tema de um artigo de jornal The Times (de Londres), em 13 de Outubro de 1852. O título do texto era “Como castigam a traição Pérsia”.

Em 1852 a Fé Babi era pouco conhecida no Ocidente; e a Fé Bahá’í – que lhe sucedeu e completou -ainda não tinha surgido. Bahá’u’lláh, o profeta fundador da Fé Bahá’í – era nessa época um dos principais Bábis, e estava encarcerado numa prisão de Teerão, devido às suas crenças.

O artigo no jornal The Times, de Londres, incluía muito pormenores que ‘Abdu’l-Bahá – filho e sucessor de Bahá’u’lláh – mais tarde incluiria no seu livro Memorials of the Faithful. Nesse livro, ‘Abdu’l-Bahá recorda Tahirih e descreve o momento do seu martírio:

Trouxeram-na para o jardim onde o carrasco aguardava… colocaram-lhe um lenço entre os lábios e enfiaram-no pela sua garganta. Depois ergueram o seu corpo imaculado e lançaram-no num poço ali no jardim, e lançaram sobre ele terra e pedras. Mas Tahirih regozijava-se; ela tinha ouvido com a luz do coração as notícias do seu martírio; fixou os olhos no Reino celestial e ofereceu a sua vida. (‘Abdu’l-Bahá, Memorials of the Faithful, p. 203)

O primeiro livro a incluir uma referência a Tahirih foi “Glimpses of Life and Manners in Persia”, de Lady Mary Sheil, publicado em 1856:

Houve uma outra vítima. Esta era uma mulher jovem, filha de um mullah de Mazindaran, que, tal como o seu pai, tinha aceite os princípios do Bab. Os Babees, veneravam-na como uma profetisa; e chamavam-lhe Khooret-ool-eyn, palavras árabes que significam Pupila dos olhos. Depois da insurreição Babees ter sido subjugada na província, ela foi levada para Teerão e detida, mas foi bem tratada. Quando se deram estas execuções, ela foi estrangulada. Foi um acto cruel e desnecessário. (Lady Mary Sheil, Glimpses of life and manners in Persia, citada por Farzaneh Milani em Veils and Words, The Emerging Voices of Iranian Women Writers, p. 97)

O diplomata britânico Robert Grant Watson escreveu um livro intitulado A History of Persia – cobrindo a história na Pérsia na primeira metade do século XIX – que foi publicado em 1866. Nesse livro, Watson faz uma breve referência a Tahirih: “… a filha de um célebre professor de Direito, que era considerada pelos Babis como uma profetisa…” (pag. 409)

O primeiro livro – numa língua ocidental – sobre a história do Bab e dos seus seguidores foi The Báb and the Bábis: Religious and Political Unrest in Persia in 1848-1852, escrito em russo por Aleksandr Kazem-Bek, e publicado em 1865. Kazem-Bek era um filólogo que se dividia entre os mundos russo e persa; nasceu no Azerbaijão, viveu na Pérsia e faleceu em S. Petersburgo.

Em 1865, um médico austríaco, Jakob Polak, afirmou ter presenciado a execução de Tahirih – uma afirmação que nunca foi confirmada:

Testemunhei a execução de Qurret el ayn, que foi executada pelo ministro da guerra e seus ajudantes; a bela mulher suportou uma morte lenta com uma força sobre-humana (citado por Moojan Momen in The Babi and Baha’i Religions, 1844-1944, Some Contemporary Western Accounts, pp. 26-27)

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Texto original: How the West Found Out about Tahirih (www.bahaiteachings.org)

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Hussein Ahdieh nasceu em Nayriz, no Irão. Na sua adolescência foi viver para os Estados Unidos, onde mais tarde estudou História da Europa e concluiu um Doutoramento em Educação. Foi um elemento chave na criação da Harlem Preparatory School, de Nova Iorque; foi director do Programa de Estudos Superiores da Universidade de Fordham. É autor dos livros Abdu'l-Bahá in New York, AWAKENING: A History of the Babí and Bahá'í Faiths in Nayriz e de numerosos artigos e ensaios.

quarta-feira, 20 de março de 2019

3 Coisas a Fazer para Acabar com o Terror



O recente massacre numa mesquita da Nova Zelândia – e todos os que o precederam – pretende separar-nos, criar desconfianças entre nós, criar mais ódio, dividir-nos enquanto seres humanos.

Como sabemos isso? São os terroristas que o dizem. No seu pretenso “manifesto”, o assassino da Nova Zelândia afirmou que matava pessoas inocentes para “incitar à violência, retaliação e fomentar a divisão”.

A palavra “terror” vem originalmente da palavra francesa terreur, que significa “terror, medo ou pavor”. É isso que os terroristas fazem: tentam provocar o medo, não apenas do futuro, mas também entre as pessoas. Eles querem que sintamos ódio, que fiquemos polarizados, que tenhamos medo dos outros, que vivamos em terror. Querem que fiquemos divididos e não unidos.

Então como pode uma pessoa sensata responder a estes actos hediondos? Como pode cada um de nós lidar com o ódio nesta dimensão? O que pode qualquer pessoa fazer?

Em momentos destes, quando desesperamos e nos sentimos desamparados, quando nos perguntamos como pode alguém perder a sua humanidade mais básica de forma tão completa, tendemos naturalmente a voltarmo-nos para a beleza, a espiritualidade e a clareza moral da fé. Os profetas e os fundadores das religiões encorajaram-nos a sanar as nossas divisões e a amar-nos uns aos outros – a trabalhar pela unidade, pela unicidade e pela paz:

Os Profetas de Deus devem ser considerados como médicos cuja tarefa consiste em promover o bem-estar do mundo e dos seus povos, para que, através do espírito da unidade, possam curar a doença de uma humanidade dividida. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, XXXIV)

…é evidente que os Profetas de Deus vieram para unir os filhos dos homens e não para os dispersar, para estabelecer a lei do amor e não da inimizade. Consequentemente, devemos pôr de parte todos os preconceitos – sejam religiosos, raciais, políticos ou patrióticos; devemos tornar-nos o motivo da unificação da raça humana. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 162-163)

Estas instruções vindas dos profundos tesouros espirituais da Fé Bahá’í dão-nos respostas claras às perguntas desagradáveis que o terrorismo levanta.

Em poucas palavras, estes ensinamentos pedem-nos que façamos três coisas vitais e muito específicas em resposta aos que semeiam ódio e divisão: ver todas as religiões como uma só; “por de parte todos os preconceitos”; e pessoalmente, ser “motivo da unificação da raça humana”.

Em primeiro lugar, os ensinamentos Bahá’ís dizem que devemos ver todos os profetas como médicos que trazem a cura para a doença da divisão. As suas mensagens não são hostis, nem rivalizam; pelo contrário, as suas mensagens são essencialmente a mesma – amar o próximo, aceitar o outro, ver amigos e não estranhos, adorar o mesmo Deus aceitando todas as pessoas como uma criação comum. A Fé Bahá’í enfatiza a unidade de todas as religiões, enfatizando as suas verdades essenciais e não as suas diferenças superficiais:

Todas estas divisões que vemos em todos os lados, todas estas disputas e confrontos, são causadas por homens que se agarram a rituais e aspectos aparentes, e esquecem a verdade simples e essencial. São as práticas visíveis que são diferentes; são elas que causam as disputas e as inimizades – mas a realidade é sempre a mesma e é uma só. A Realidade é a Verdade, e a verdade não tem divisão. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pp. 120-121)

Em segundo lugar, os ensinamentos Bahá’ís pedem-nos que respondamos ao ódio e à divisão, trabalhando pessoalmente para derrotar e destruir os nossos próprios preconceitos. Todos temos preconceitos. Todas as pessoas formam opiniões e crenças baseadas nas suas experiências de vida, que frequentemente as leva a desenvolver medos, fobias e ódios. E esse trabalho espiritual interior – uma tarefa essencial e vitalícia de todo o Bahá’í, e dos crentes de qualquer religião – pede-nos que vejamos a luz do Criador nos olhos de todos os seres humanos que encontramos:

Não é próprio de um homem amaldiçoar outro; não é digno que um homem lance trevas sobre outro; não é adequado que um ser humano considere outro ser humano como maligno; pelo contrário, todos os humanos são servos de um único Deus; Deus é o Pai de todos; não há uma única excepção para esta lei. Não existem pessoas de Satanás; todos pertencem ao Misericordioso. Não existem trevas; tudo é luz. Todos são servos de Deus, e o homem deve amar a humanidade no seu coração. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 266)

Temos de reconhecer que não é uma tarefa fácil. Se queremos eliminar todo o ódio do mundo, parece correcto que comecemos por eliminá-lo dos nossos corações. Quando lhe foi pedido que resumisse os ensinamentos Bahá’ís, ‘Abdu’l-Bahá disse aos Bahá’ís:

… estabelecer a base do amor e da amizade, erguer a melodia do afecto e a unicidade do Reino da humanidade; transformar a tirania e a perseguição em amor e fidelidade; eliminar os rastos da carnificina; construir o edifício da reconciliação; dispersar as trevas das separação; difundir a luz da unidade; trocar o veneno da animosidade pelo mel do afecto carinhoso; destruir preconceitos religiosos, nacionais e sociais nos membros da humanidade; viver e agir com os outros como se fossem todos de uma raça, um país, uma religião e uma espécie. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 1, p. 5)

Em terceiro lugar, os ensinamentos Bahá’ís desafiam todas as pessoas a tornarem-se motivo de unificação da raça humana.

Esse enorme empreendimento pode por vezes parecer-se com escalar uma grande montanha. Vivemos em culturas que separam as pessoas por raça, religião, classe social e nacionalidade. Vivemos em bairros diferentes, raramente socializamos, construímos muros entre nós. Então como é que uma pessoa, num mundo onde as forças da divisão e do ódio parecem tão universais, pode ser motivo de unidade para todos os povos?

Apenas nos tornamos motivo de unificação quando nos juntamos a outros para fazer isso acontecer.

Assim, podemos perguntar-nos: quando foi que estive com um grupo diferente para planear ou fazer algo unificador? As minhas redes sociais – as verdadeiras, não as virtuais – incluem pessoas de diferentes raças, origens religiosas e classes sociais? Quando foi que eu saí das minhas rotinas para me encontrar com pessoas com as quais não tenho muito em comum? Consegui chegar a alguém diferente, apenas para mostrar que quero atravessar as barreiras que nos separam? Que coisas fiz que motivassem a unidade?

Amai todas as religiões e todas as raças com um amor que seja verdadeiro e sincero, e mostrai esse amor através de actos e não apenas através da língua, porque esta última não tem importância, pois a maioria dos homens, nas palavras, é bem-intencionada; mas as acções são melhores. (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 69)

Se as suas respostas àquelas perguntas não o satisfazem, e não sabe como se tornar um motivo de unidade, pense no que pode mudar na sua vida e como pode reorganizar-se para criar uma comunidade que apoia a pratica os valores do amor e da unidade. A comunidade Bahá’í recebe todos os que se quiserem juntar e ser motivo de unificação da raça humana.

Quando se faz parte desse movimento – o maior, o mais global movimento social alguma vez imaginado e realizado – trabalha-se a todo o momento para derrotar o ódio e o preconceito divisivo que alimenta o terrorismo.

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

A fonte de toda a glória...


sábado, 16 de março de 2019

O que nos disseram todos os Profetas sobre Deus?

Por Maya Bohnhoff.


As escrituras antigas e recentes dizem-nos que, porque Deus é espírito, Ele delega a professores humanos – tal como Cristo e Bahá’u’lláh disseram – a tarefa de manifestar os Seus “nomes”, as Suas qualidades ou atributos, para a humanidade:
Sabei que Deus – exaltado e glorificado seja – de modo algum manifesta a Sua Essência e Realidade. Desde os tempos imemoriais Ele tem estado velado na eternidade da Sua Essência e oculto na infinidade do Seu próprio Ser. E quando Ele pretendeu manifestar a Sua beleza no reino dos nomes e revelar a Sua glória no reino dos atributos, Ele trouxe os Seus Profetas do plano invisível para o visível… (Bahá’u’lláh, Gems of Divine Mysteries, p. 35)
Milhares de anos antes, Krishna explicou este papel: “Pois eu sou a morada de Brahman (Deus), a fonte constante de vida eterna. A lei da rectidão é a minha lei; e a minha alegria é a alegria eterna”. (Bhagavad Gita 14: 27)

A Torá salienta a singularidade desta relação entre Deus e o mensageiro:
Ouvi agora as minhas palavras; se entre vós houver profeta, eu, o Senhor, em visão a ele me farei conhecer, ou em sonhos falarei com ele. Não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. Boca a boca falo com ele, e de vista, e não por figuras; pois ele vê a semelhança do Senhor (Números, 12:6-8)

“Assim”, explicou Buda, “o Tathagata (O Justo) conhece o caminho recto que conduz à união com Brahman (Deus). Ele conhece-o como quem entrou no mundo do Brahman e nasceu nele. Não pode haver dúvida no Tathagata.” (Digha-nikaya 9:35)
Cristo referia-se à Torá quando disse:
Está escrito nos profetas: E todos serão ensinados por Deus. Todo aquele que escutou o ensinamento que vem do Pai e o entendeu vem a mim. Não é que alguém tenha visto o Pai, a não ser aquele que tem a sua origem em Deus: esse é que viu o Pai. (João 6:45-46)
Então o que é que estes mensageiros nos dizem sobre este ser de quem dizem ser representantes?

Krishna falou bastante sobre isto no Bhagavad Gita, abordando primeiramente a natureza incognoscível do Espírito Supremo:
Mas para lá desta criação visível e invisível, existe um Eterno invisível e superior; e quando todas as coisas falecerem, este permanecerá para todo o sempre. Este invisível é chamado o Perpétuo e é o Fim supremo mais elevado. E aqueles que O atingem, nunca regressam. Esta é a Minha morada suprema. Este Espírito Supremo, Arjuna, é alcançado por um amor sempre vivo. Nele todas as coisas têm a sua vida, e Dele todas as coisas vieram. (Bhagavad Gita 8:20-22)
Seguidamente, ele fala da relação desse Ser com o universo:
Todo o universo visível vem do meu Ser invisível. Todos os seres encontram apoio em mim, mas Eu não Me apoio neles, e, na verdade, eles não se apoiam em Mim. Considera o meu mistério sagrado: Eu sou a fonte de todos os seres, Eu apoio todos mas não Me apoio neles. (Bhagavad Gita 9:4)
Como escritora, “compreendo” perfeitamente o que Krishna que dizer. Posso não compreender Deus directamente, mas compreendo o que é estar e não estar nas minhas criações. Aqui fica a minha perspectiva: Eu estou nos livros que escrevo e nas personagens que crio, mas não na minha totalidade. Eles são reflexos do meu intelecto; sem mim, não existiriam, mas eu não estou ligada a eles pelas leis do universo que criei. Porque é que haveríamos de imaginar que Deus está limitado pelas leis do universo que Ele criou?

Penso que isto é um erro fundamental que fazemos quando pensamos em Deus como sendo um ser como nós, limitado pelas leis da física. Isto faz com que pessoas inteligentes coloquem questões simplistas do tipo “Quem criou Deus?” ou “Será que Deus consegue criar uma pedra tão pesada que Ele próprio não consiga levantar?”.

Isso seria como se uma das personagens dos meus livros perguntasse “Quem escreveu a Autora?” ou “Será que a Autora consegue escrever sobre uma pedra imaginária que ela própria não consegue levantar?” Este tipo de questões é insignificante porque eu não fui criada da mesma forma que elas. As suas vidas estão limitadas pelas palavras do livro, enquanto a minha vida não tem essa limitação. Eu existia antes delas e continuarei a existir quando terminar de escrever o livro.

As questões também são insignificantes porque partem de um pressuposto sobre a dimensão em que vive o Criador/autor. Mesmo na dimensão dos meus mundos imaginários com as suas pedras imaginárias, o conceito de levantar fisicamente um objecto não tem qualquer sentido, pois o mundo em que actuam as minhas personagens é uma realidade intelectual e não uma realidade física.

Compreendo o que isso significa para as personagens e mundos que criei para existirem como realidades intelectuais sem existirem no mundo material. Isto é outra coisa que as escrituras têm afirmado repetidamente: as realidades intelectuais e espirituais precedem a realidade material, e não o inverso.

E por isso, Bahá’u’lláh afirmou:
Velado no Meu Ser imemorial e na eternidade antiga da Minha Essência, conheci o Meu amor por ti; por isso, criei-te, gravei em ti a Minha imagem e revelei-te a Minha beleza. (As Palavras Ocultas, do árabe, #3)

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Texto original: What Have All the Prophets Told Us About God? (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 9 de março de 2019

Quem é Deus? O que é Deus?

Por Maya Bohnhoff.


Certamente já ouviram esta pergunta: “Será que Deus consegue criar uma pedra tão pesada que Ele próprio não consiga levantar?”. O objectivo é refutar o argumento de um Deus omnipotente.

Aqui a linha de raciocínio é a seguinte: “Se Deus é todo-poderoso, então deve ser capaz de criar de criar uma pedra que Ele próprio não consegue levantar. Se Ele não consegue criar essa pedra, então não é todo-poderoso. Se Ele não consegue levantá-la, então não é todo-poderoso. Portanto, não existe um Deus omnipotente.”

Este raciocínio baseia-se em suposições sobre Deus e os seres humanos. Primeiro temos a suposição de que Deus é uma criatura como nós, para quem a actividade física de levantar objectos é aplicável e tem significado. E depois temos a suposição de que os humanos podem compreender o conceito de omnipotência tal como se aplica a Deus.

Fui criada com uma noção claramente Cristã sobre Deus, moldada pela insistência dos meus pais de que devia olhar para a vida e palavras de Cristo para compreender este Grande Conceito. Consequentemente, cheguei à conclusão que Cristo era um reflexo da glória de Deus num espelho, tal como dizia a metáfora usada pelo Apóstolo Paulo. No entanto, eu percebia que alguma doutrina Cristã conceptualizava Deus como uma espécie de super-humano – um ser que podia ser material ou espiritual conforme desejasse.

Recentemente, quando fiz uma apresentação sobre a natureza progressiva da revelação divina, um amigo da China expressou as suas dificuldades com a questão “Quem é Deus?”. Vindo de uma sociedade completamente secular onde é a estranha a noção de um ser supremo que se pode referir como “alguém”, a sua questão era “o que é Deus?”

A sua questão fez-me reflectir: o que dizem, verdadeiramente, as escrituras sagradas sobre a natureza de Deus?

Uma das mais antigas escrituras existentes que descobrimos é conhecido como O Livro Egípcio dos Mortos (e cuja tradução literal do título em egípcio é O Livro dos que Emergem para a Luz). Os textos das epístolas que constituem o livro remontam ao século XIV a.C. O seguinte texto data, aproximadamente, de 1250 a.C.:
Deus é um e único, e nenhum outro existe com Ele – Deus é o Uno, Aquele que fez todas as coisas – Deus é um espírito, um espírito oculto, o espírito dos espíritos, o grande espírito dos Egípcios, o espírito divino. Deus é desde o início…Ele existe desde a antiguidade, quando nada mais existia. Ele é o Pai dos princípios – Deus é o Eterno, Ele é perpétuo e infinito e perdura indefinidamente para sempre – Deus está oculto e nenhum homem conhece a Sua forma… O Seu nome é um mistério para os Seus filhos. Os Seus nomes são incontáveis, são múltiplos e ninguém sabe quantos são. (Papiro de Ani)
Além da noção de que os seres humanos não podem “ver” ou compreender Deus directamente, o Papiro de Ani mostra um aparente paradoxo: o “nome” de Deus é desconhecido, mas múltiplo. Segundo as escrituras – antigas e recentes – os nomes de Deus são as Suas qualidade, atributos e virtudes. Exemplos desses nomes são o Misericordioso, o Generoso, o Omnipotente, o Omnisciente, etc.

Um ensinamento essencial de Bahá’u’lláh – e de outros mensageiros divinos – é que Deus (ou o quer que queiramos chamar ao Criador) é incognoscível na sua essência. Deus é incognoscível pela simples razão que não é um ser como nós. O nosso intelecto é um reflexo do intelecto do Criador, mas apenas um reflexo. Deus é absoluto e independente; nós somos dependentes:
Mas para lá da Minha natureza visível, está o Meu espírito invisível. Este é a fonte da vida com a qual o universo começou. Todas as coisas têm vida nesta Vida, e Eu sou o princípio e o fim. Em todo este vasto universo não existe nada superior a Mim. (Krishna, Bhagavad Gita 7:5-7.)
O Buda referiu-se a este Espírito como o Absoluto e o Adorável, e descreveu a sua natureza da seguinte forma:
Existe, ó monges, o Não-nascido, o Não-formado, o Não-criado, o Não-composto; se não existisse, ó monges, este Não-nascido, este Não-formado, este Não-criado, este Não-composto, não haveria saída do mundo do nascido, do criado e do formado. (Udana 80-81.)
Cristo afirmou: “Deus é espírito e os seus adoradores devem adorar em espírito e em verdade” (João 4:24)

Isto levanta a questão: Como podemos conhecer Deus? A resposta é dada nas citações apresentadas anteriormente, mas Bahá’u’lláh responde directamente nas Suas escrituras:
... e porque não pode haver laço ou relação directa que ligue o Deus uno e verdadeiro com a Sua criação, e nenhuma semelhança pode existir entre o efémero e o Eterno, o contingente e o Absoluto, Ele ordenou que em todas as eras e dispensações uma Alma pura e imaculada se manifestasse nos reinos da terra e do céu. A este Ser subtil, misterioso e etéreo, Ele atribuiu uma dupla natureza: a física, pertencendo ao mundo da matéria, e a espiritual, que nasce da substância do Próprio Deus… Estas Essências do Desprendimento, estas Realidades resplandecentes, são canais da graça universal de Deus… Eles têm poder para usar a inspiração das Suas palavras, as efusões da Sua graça infalível e brisa santificadora da Sua revelação para purificar todo o coração ansioso e espírito receptivo das impureza e poeira das inquietações e limitações terrenas. Então, e apenas então, emergirá a Confiança de Deus, latente na realidade do homem… (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, XXVII)

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Texto original: Who—or What—is God? (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.