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Monday, March 11, 2019

Vinícius de Manaus :: Crônicas Amazonenses I



Há 45 anos, numa sexta-feira 13 de setembro, Vinícius de Moraes esteve em Manaus acompanhado do Toquinho e do Quarteto em Cy para duas apresentações musicais. A do primeiro dia começava à meia-noite, o que deixava ao poeta tarde imensa com varanda se espraiando para o começo da noite. Vinícius aproveitou-a no Bar Caldeira, no coração da cidade, bem atrás do Teatro Amazonas, em companhia dos boêmios da capital.

O bar continua lá, com poucas modificações. Não por acaso, tornou-se em 2015 patrimônio imaterial, junto com o Jangadeiro e Bar do Armando, outros dois redutos dos pinguços manauaras.

Nas paredes, a reprodução de um bilhete do Vinícius e a foto extraordinária.

Encontramos com o homem de paletó escuro que sorri ao lado de Vinícius. Parece que de 1974 até hoje ele saiu do bar apenas duas ou três vezes.

O que já justificaria também o seu tombamento.









Wednesday, February 13, 2019

A Descoberta de Quatro Bravos em Tauá



Brillait-Savarin afirmou que “A descoberta de uma nova receita faz mais pela felicidade do gênero humano do que a descoberta de uma nova estrela.”, o que mostra que ele podia entender um bocado de culinária, mas bem pouco de outras verdades (maiores) da vida.


A descoberta de um novo Nilton Bravo é que é mais importante que a de uma nova estrela.


Pude confirmá-lo agora quando, ainda em Oaxaca, recebi mensagem de meu amigo Rixa Xavier dando notícias de ter encontrado botequim não com um novo Nilton Bravo, mas quatro. 


Eu passara o dia em meio a velhas índias zapotecas, vira murais belíssimos, derramara doses copiosas de mezcal goela abaixo, visitara a Igreja de Santo Domingo, comera tamales e gafanhotos, flanara pelas infinitas praças oaxaqueñas, mas naquela noite o que me fez perder o sono foi a notícia vinda do Brasil. Por instantes pensei mesmo que já não era tão ruim assim que a viagem chegasse a seu termo.


De volta, claro, fui lá ver com meus próprios olhos. Curioso é que, uma vez na Ilha do Governador, eu e Rixa preferimos nos perder um bocado pela Freguesia, Praia da Guanabara e Tauá, reservando a Lanchonete Super da Ilha para o final, como quem, sequioso, adia o prazer da água.


Os quatro afrescos retangulares têm as mesmas dimensões e repetem temas caros ao Miguel Ângelo dos botequins: os flamboyants, o castelo, muita água, uma casinha modesta, ausência do elemento humano. Um chama a atenção pelo Pão de Açúcar e transatlântico. Parece que no Pão de Açúcar há uma estátua do Cristo.


Seria fácil criticar o proprietário pelas latinhas que praticamente encobrem um dos painéis, pelas canaletas e luminárias desastradas no meio dos quadros, pela iluminação que dificulta a contemplação, mas prefiro, por ora, elogiá-lo por já ter feito reformas no estabelecimento e optado pela manutenção das obras. O resto, espera-se, vem com conscientização e, claro, tombamento.







Rixa

Wednesday, January 17, 2018

Botequins de Olaria



Olaria não é apenas sede de um dos mais simpáticos (e centenário) times de futebol da cidade (aqui), tem também (ainda) verdadeiras joias do botequinário carioca.

Eu tinha já um bom acervo de fotos, mas o que motiva esta postagem é a visita, ontem, à Panificação Trigoli, com seus lindos cobogós e dois excelentes painéis azulejares do Ateliê Azularte, provavelmente os mesmos encontrados aqui.

Armazém Estoril

Bar Carluís

Bar do Assis

Bar Ferro de Engomar ou Taco Torto

idem

Café e Bar Flor de Olaria

Café e Leiteria Brasil-Portugal

também
Mercearia São Silvestre


Panificação Trigoli (e as demais abaixo)





Thursday, January 11, 2018

Café e Bar Pinto Rei ~ Penha



O padrão de azulejos enxaquetados nas cores preto e rosa em botequins cariocas é mais raro que olho-de-boi. Encontrei-o em agosto de 2011 em Vila Isabel (Brazão de Ouro), no dia mesmo em que o botequim iria fechar para reforma, a qual, por óbvio, não deixou um único exemplar para contar as histórias. Encontrei-o depois em Bonsucesso (Café e Bar Lourenço Marques!), em dia de jogo em que o rubro-anil da Leopoldina subiria para a primeira divisão.

E só.

Só até ontem, posto que hoje encontrei esta joia na Penha, conservada como que em formol. Para além dos azulejos, tem cerveja Eco grande a 6 reais. Tem angu à baiana todos os dias a partir das 3 da tarde. Tem toneis de batida de maracujá, gengibre e leite de onça.

Não bastasse, atende pelo singelíssimo nome de Café e Bar Pinto Rei.

Nem novela das oito.

Meu próximo aniversário é lá.






Tuesday, November 28, 2017

Bar da Chica Boa ~ Ypiranga



Para além do fato de que boteco de nome Bar da Chica Boa não tem como dar errado, encantou-me que ele abra apenas um domingo por mês, quando a Rosa / Chica Boa serve almoço grátis e cobra apenas as bebidas. Sai baião de dois, sarapatel, mocotó, mocofava, vaca atolada, dobradinha.

Rosa é paraibana de Barra de Santa Rosa. Pelo sotaque maravilhoso, parece chegou ontem mas tem quase trinta anos. Nos domingos em que abre começa a cozinhar muito cedo, ao som de Roberto Carlos e Julio Iglesias. Tem hora que reclama deste último e diz que ele está rouco. O outro único freguês defende o ex-goleiro merengue: 'É que tá muito cedo'.

O cheiro das favas se espalha pelo salão de azulejos anos 70 e teto de gesso. O cheiro das favas mistura-se ao de incenso espetado na batata.

Está muito cedo. Tomo apenas um pingado e um pão na chapa. Quando toca aqueles Robertos Carlos dos anos 70, penso que minha mãe gostaria imenso de estar ali comigo. Para ouvir as histórias que no tempo de eu menino Rosa vinha nos contar.





Isto já foi à tarde

Saturday, July 01, 2017

Pavão Azul Eterno

Na dúvida entre o risoto de polvo e o de camarão, pida os dois


Vou dar uma de tiozão, de velho e de esnobe, já que não sou nada dos três: conheço e frequento o Pavão Azul antes da fama, antes do Pavãozinho e outros que tais. Cresceu, quase engoliu a delegacia do Espinoza, o que está certo está tudo muito certo.

Apresentei as pataniscas do Pavão a gente que morava a um salto de pulga, apresentei-o ao meu pai, que até hoje suspira, no meio da noite brasiliense, pelo risoto de camarões. Hoje vou de quando em vez. Se as participações no Comida di Buteco não deixam saudades (o que pouco importa), o trivial continua arrebentando: a informalidade no coração de um dos bairros mais famosos do planeta, o mistério das pataniscas, os pastéis, o risoto de camarão e o risoto de polvo.

Abre ao meio-dia. Antes disso, porém, já está cheio: os clientes em contagem regressiva esperando o alarme de celular para pedir o chope e o pastel.

Passou por reformas. Sumiram com o pavão azul original, o que muito me entristece. Mas de resto um boteco notável. E onde mais se come um risoto de polvo na faixa dos 30 pau?

(O Pavão enche. Mas nunca esqueço que, por cheio que estivesse, sempre que eu pedia a conta, uma das irmãs, Bete ou Vera, perguntava mui sinceramente: "Mas já?')




Cheio, ANTES de abrir

Friday, June 16, 2017

Café e Bar Brasília ~ Cachambi



Conheci o Café e Bar Brasília em julho de 2011, eu nem tinha barba, depois de ter ido na finada Cervejaria Suingue Brasileiro com mãe e sobrinho. A cervejaria, que tinha cervejas maravilhosas e que tinha que lembrar no site que não estava ali para troca de casais, fechou, mas o Bar Brasília, com seu grande Nilton Bravo e azulejos rabo-de-pavão (aqui), aka rabo-de-galo, continua firme, pelo menos enquanto o ótimo casal Margarida e Ernesto estiverem vivos e com saúde, tocando-o.

O bar, aliás, já fez informalmente aquela troca de nomes que eu tanto repudio (aqui) e agora se apresenta como Bar do Ernesto e Margarida. Bar de nome Brasília tem tudo para ser de 1960, mas Ernesto jura que é de dez anos antes.

É pé-sujo clássico e formidável, sem unha feita. A combinação azulejo / Nilton Bravo o coloca num patamar difícil de ser alcançado hoje no Rio. Quando a esta combinação se soma o Vasco, ocupa um lugar no coração que nem falo.

Às sextas tem mocotó. Fui hoje atrás dele, mas não tinha. O feriado confundiu Dona Margarida que acordou achando que era sábado ou segunda. Está perdoada.

Dona Margarida tem preguiça de tombamento do Nilton Bravo que, segundo ela mesma, foi pintado pelos Bravo Pai e Bravo Filho em um só dia, que se encontraram bem no meio do quadro como se filme do Carlitos.

Essa preguiça temos que vencer ou já não haverá mais Bravo algum por estas plagas.