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terça-feira, 30 de outubro de 2018

CLÁSSICOS REVISITADOS: «CRISE DE IDENTIDADE»


   O misterioso assassinato da cara-metade de um membro da Liga da Justiça traz à tona um tenebroso segredo que macula a história do grupo. Cientes dos perigos que as suas vidas duplas representam para as pessoas que mais amam, até onde estarão os heróis dispostos a ir para protegê-las?

Título original: Identity Crisis
Licenciadora: Detective Comics (DC)
País:  EUA
Autores: Brad Meltzer (argumento), Rags Morales (ilustrações) e Michael Blair (arte-final)
Data de publicação: Agosto de 2004 a fevereiro de 2005 
Categoria: Minissérie em sete edições mensais
Protagonistas: Aquaman, Átomo, Batman, Canário Negro, Homem-Elástico, Arqueiro Verde, Lanterna Verde (Kyle Rayner), Flash (Wally West), Caçador de Marte, Super-Homem. Mulher-Maravilha e Zatanna
Coadjuvantes: Sue Dibny, Jean Loring, Doutor Meia-Noite, Senhor Incrível, Águia Flamejante, Doutor Luz, Exterminador, Capitão Bumerangue, Calculador, Jack Drake, Nuclear e Lois Lane
Cenários: Torre de Vigilância da Liga da Justiça, Gotham City, Metrópolis, Nova Iorque, Ivy Town, Central City, Opal City e Smallville 


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Um pacto de silêncio
une antigos membros da LJA.

Edições em português 

Seguindo o modelo original, entre setembro de 2005 e março de 2006, a Panini brasileira começou por lançar Crise de Identidade no formato de uma minissérie em sete fascículos. No ano seguinte chegariam em simultâneo às bancas dois encadernados da série - um de capa dura, outro de capa mole. Ainda por Terras Tupiniquins, no mês passado foi a vez de a Eaglemoss reeditar a saga em dois volumes insertos na sua Coleção de Graphic Novels: Sagas Definitivas.
Deste lado do Atlântico, foi sob os auspícios da Levoir que, em 2013, Crise de Identidade teve direito à sua primeira edição em português europeu, com a história a ser dividida em dois volumes de capa dura.

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A minissérie original da Panini (cima)
 e os dois volumes encadernados lançados em Portugal pela Levoir.

Segredos dos bastidores

Ao apresentar uma visão dessacralizadora de alguns dos principais expoentes heroicos da Editora das Lendas, Crise de Identidade decretou em definitivo o fim da inocência no Universo DC. Consequentemente, a saga - depressa alcandorada a clássico da 9ª Arte - não deixou ninguém indiferente e ainda hoje divide opiniões. Entre aqueles que escarnecem o seu pretenso registo sensacionalista e os que aplaudem a humanização dos seus ídolos (pedra-de-toque da Marvel), o debate segue aceso.
Até poucos meses atrás, pouco se sabia porém sobre os bastidores de uma saga com extensas ramificações na cronologia da Editora das Lendas. Em agosto último, por ocasião do 18º aniversário de Crise de Identidade, Valerie D'Orazio, ex-editora-assistente da DC, usou a sua conta pessoal na rede social Twitter para divulgar alguns pormenores sumarentos.
A acreditar no relato de D'Orazio - que esteve diretamente envolvida na conceção da série -, as linhas-mestras de Crise de Identidade foram definidas exclusivamente pelo departamento editorial sem que Brad Meltzer tenha tido voto na matéria.

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Valerie D'Orazio esteve ao serviço
 da DC entre 2000 e 2005.
D'Orazio explica que a ideia consistia em produzir uma história com notas sombrias e violentas, por forma a deixar o Universo DC mais apelativo para uma audiência madura. Segundo ela, o então vice-presidente da DC, Dan DiDio, tinha como intenção declarada "tirar o sorriso dos quadradinhos".
Estas revelações - não desmentidas até ao momento - ilibam Brad Meltzer, vilipendiado ao longo dos anos pelos leitores mais conservadores. Os mesmos que ficaram ultrajados com a cena da violação de Sue Dibny e pelo nível geral de violência presente na narrativa, e que nunca perdoaram a inclusão destas temáticas adultas numa história da Liga da Justiça.

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Brad Meltzer e Rags Morales (baixo) assinaram
 um dos primeiros clássicos bedéfilos deste século.
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D'Orazio explica ainda que a escolha de Sue Dibny para vítima de tão inomináveis crimes decorreu do facto de ela ser pura de coração e acarinhada por todos os membros da Liga. Os editores consideravam, ademais, que o Homem-Elástico era uma piada e que a morte da esposa o deixaria mais soturno.Revelando-se muito crítica relativamente às opções editoriais tomadas, D'Orazio sublinha que o que o que fez a Marvel ser mais bem-sucedida do que a DC antes de Crise de Identidade não foi a tonalidade obscura das suas histórias, mas sim a qualidade destas. E carrega nas tintas ao assumir que, por causa do seu registo violento, Crise de Identidade foi um projeto perturbador do qual não guarda saudades.
Apesar da controvérsia que desencadeou - ou por conta desta - Crise de Identidade foi uma das sagas mais vendáveis de sempre. Em agosto de 2004, o primeiro número da série, com uma circulação superior a 163 mil exemplares, liderou as vendas de quadradinhos nos EUA.
A saga teve também fortes repercussões na continuidade da DC, lançando as sementes para Crise Infinita no ano seguinte e restaurando o estatuto de membro fundador da Liga da Justiça da Mulher-Maravilha, do qual a Princesa Amazona fora expropriada após Crise nas Infinitas Terras.

Preâmbulo

Numa história clássica da Liga da Justiça, dada à estampa em 1979 nos números 166, 167 e 168 de Justice League of America, a Sociedade Secreta de Supervilões capturou alguns dos membros da equipa, trocando de corpos com eles. Graças a este ardil, os vilões apreenderam as identidades secretas dos heróis. Na conclusão do arco, a situação seria revertida depois de Zatanna usar a sua magia para lobotomizar os inimigos da Liga da Justiça, apagando todas as suas memórias relacionadas com o incidente.

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A história clássica da LJA que serviu de mote a Crise de Identidade.
Em reconhecimento pelo meritório trabalho desenvolvido por Sue Dibny na embaixada europeia da Liga da Justiça Internacional, foi-lhe outorgado pelo Capitão Átomo (líder da referida secção) o título de membro honorário da equipa. Mercê desse estatuto - extensível apenas a um punhado de indivíduos - Sue beneficiava de várias prerrogativas, mormente o livre acesso ao quartel-general da Liga e a informação confidencial acerca dos membros e atividades da organização.
Casada com Ralph Dibny, o Homem-Elástico, Sue era muito benquista pelos restantes membros da Liga da Justiça, que tinham nela uma amiga e confidente. Sue seria também protagonista involuntária de um episódio traumático que colocou os heróis perante um excruciante dilema moral  Dividido num primeiro momento, o grupo acabaria por cerrar fileiras em redor de um terrível segredo. Que, como todos os segredos, voltou para assombrá-los.

Enredo

Ao mesmo tempo que o Homem-Elástico participa com Águia Flamejante numa rotineira operação de vigilância, Sue Dibny é assassinada no apartamento do casal, sucumbindo, aparentemente, às graves queimaduras que lhe são infligidas pelo atacante.
Na ressaca deste trágico acontecimento, a comunidade super-heroica - particularmente, a Liga da Justiça da América - mobiliza-se em peso para descobrir a identidade do assassino. Com a lista de suspeitos a ser encabeçada por um velho conhecido: o Doutor Luz.
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Sue Dibny e o Homem-Elástico:
só a morte separou aquele que era um dos casais
 mais felizes dos quadradinhos.
Enquanto os heróis se lançam numa febril caça ao homem, o Arqueiro Verde revela ao Lanterna Verde e ao Flash que certa vez o Doutor Luz, a fim de recuperar a sua arma, havia invadido o Satélite da Liga (antiga base orbital do grupo) e violado Sue quando esta se encontrava sozinha a bordo.
Objetivando garantir que um episódio dessa natureza não mais se repetiria com Sue ou qualquer outro ente querido da Liga, os membros da época, após renhida votação, permitiram que Zatanna conjurasse um feitiço que, de uma assentada, lobotomizou o Doutor Luz e lhe alterou a personalidade, convertendo-o num bufão inofensivo.
Nas entrelinhas do relato feito pelo Arqueiro Verde fica, ademais, implícito que o grupo terá recorrido reiteradas vezes a esse expediente para salvaguardar a segurança dos seus membros e dos que lhes são próximos.
Os heróis localizam finalmente o Doutor Luz mas este, sabendo ter a cabeça a prémio, havia contratado o Exterminador como guarda-costas. Durante a encarniçada refrega que se segue, o vilão recupera a memória do incidente e, enfurecido pela sevícia de que foi vítima, usa os seus poderes para escapar.

Doctor Light (Arthur Light) – This Day In Comics
Doutor Luz, velho inimigo da Liga, torna-se
 o principal suspeito da morte de Sue Dibny.

Questionado diretamente pelo Super-Homem, Flash prefere proteger o inquietante segredo que lhe foi confiado pelo Arqueiro Verde.
Longe dali, em Ivy Town, Ray Palmer (o Átomo) encontra a sua ex-mulher, Jean Loring, pendurada numa porta, amarrada e vendada. Prestes a morrer estrangulada, Jean é salva no último instante pelo ex-marido, mas é incapaz de fornecer uma descrição do agressor.
Dias depois, Lois Lane, cara-metade do Super-Homem, recebe uma ameaça de morte que deixa o casal apreensivo.
Em Gotham City, Jack Drake, pai de Tim Drake (o terceiro Robin), recebe por sua vez uma nota anónima a avisá-lo para a iminência de um atentado contra a sua vida. A nota vem acompanhada com uma arma que Jack usa para se defender quando é atacado pelo Capitão Bumerangue, que havia sido contratado pelo Calculador para matá-lo. Após uma troca de tiros, ambos acabam mortalmente feridos.
Chegado ao local do crime, Robin é confortado por Batman que se apressa a confiscar o bilhete antes que a polícia e a imprensa tomem conhecimento da sua existência.

plano critico funeral de sue dibny plano critico crise de identidade
A comunidade heroica compareceu em peso ao funeral de Sue Dibny.

À medida que a investigação prossegue, Nuclear tem o peito trespassado pela espada do Cavaleiro Brilhante empunhada pelo Ladrão das Sombras, a quem interrogava. Ao atingir a sua massa crítica, o herói atómico explode na atmosfera.
Enquanto a comunidade heroica chora a perda de um dos seus,  o Arqueiro Verde, confrontado pelo Flash, confessa que o método de Zatanna não foi aplicado somente a criminosos. Após a captura do Doutor Luz, Batman abandonara o satélite da Liga mas, por algum motivo, regressou pouco depois, surpreendendo os seus companheiros de equipa a lobotomizar o vilão.
Perante a firme oposição do Homem-Morcego a este ato, aos heróis não restou alternativa senão varrer aquele episódio da mente do seu colega.

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Batman tem a sua memória apagada por Zatanna. 
O mesmo Batman que invade entretanto o esconderijo deserto do Calculador. Apesar da fuga antecipada do vilão, o Cavaleiro das Trevas encontra pistas que lhe permitem deduzir que ele servira de testa de ferro ao verdadeiro mandante do ataque que vitimou Jack Drake.
Realizada pelo Doutor Meia-Noite e pelo Senhor Incrível, da Sociedade da Justiça da América, a autópsia de Sue Dibny conclui ter sido um acidente vascular cerebral a verdadeira causa de morte. Um exame microscópico ao cérebro de Sue deteta a presença de duas minúsculas pegadas. Ficando assim claro que estas pertenciam a alguém com acesso à tecnologia do Átomo, que lhe possibilita reduzir-se ao tamanho subatómico.
Antes que os heróis consigam averiguar se o assassino foi o próprio Átomo ou alguém que se apropriou indevidamente da sua invenção, o pequeno herói faz uma descoberta chocante. Em conversa com a sua ex-mulher, Ray Palmer percebe que, a despeito de essa informação ter sido mantida secreta, Jean está ao corrente da nota anónima enviada a Jack Drake, deduzindo ser ela a assassina de Sue Dibny.
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A autópsia de Sue Dibny descobre pistas
 acerca da verdadeira identidade do seu assassino.
Jean Loring havia encontrado o traje encolhedor do marido e tinha-o vestido enquanto falava ao telefone com Sue Dibny, viajando através dos cabos telefónicos até penetrar no cérebro da sua interlocutora. A presença microscópica de Jean acabaria por induzir um AVC fatal em Sue.
Ao retomar o seu tamanho normal, Jean apercebera-se do que fizera e, para encobrir o seu crime, usara uma pistola de raios para queimar parte do cadáver de Sue.
A morte de Sue fez Jean perceber que os heróis fazem tudo ao seu alcance para proteger as pessoas que mais amam. Simulara, por isso, um atentado contra si mesma com o intuito de atrair Ray Palmer. Porque, no fundo, tudo se resumira a um demencial plano para reconstruir o casamento desfeito de ambos.

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Jean Loring, 
a ex-mulher de Ray Palmer.
Ao longo da sua confissão Jean não evidencia remorsos e afirma não ter tido intenção de matar quem quer que fosse. Declarada mentalmente insana, a ex-mulher de Ray Palmer é internada no Asilo Arkham, sendo mantida sob forte medicação. Átomo, envergonhado pelas ações da mulher que em tempos amara, resolve afastar-se por uns tempos.
Na cena final, Flash mostra-se desconfortável na presença do Batman, o que leva o Cavaleiro das Trevas a suspeitar do comportamento do seu companheiro de equipa. No ar paira a dúvida se Batman se recordará ou não do sucedido com o Doutor Luz e com ele próprio...

Requiem pela inocência.

Apontamentos

*Sue Dibny seria brevemente ressuscitada na saga Blackest Night (A Noite Mais Densa). Após um anel energético ter assumido o controlo do seu cadáver, a saudosa esposa do Homem-Elástico viu-se transformada num dos Lanternas Negros arregimentados por Nekron para disseminar o caos no Universo. Tal como os restantes membros da legião de desmortos, Sue seria destruída pela Tropa Índigo, podendo dessa forma voltar a descansar em paz;
*Dada a circunstância de Sue Dibny ter sido encontrada sem vida e horrivelmente queimada no interior do seu apartamento sem sinais de arrombamento, a lista de suspeitos da sua morte incluía vários criminosos com poderes incandescentes (casos do Doutor Fósforo e Onda Térmica), assim como diversos teleportadores, entre os quais Mestre dos Espelhos e Penumbra;
*Jack Drake ficara a saber da vida dupla do seu filho como escudeiro do Batman pouco tempo antes de ser assassinado;
*Embora o Nuclear original (Ronald Raymond) tenha morrido no decurso da saga para dar lugar a Jason Rusch, a ideia inicial era eliminar Átomo ou o Caçador de Marte. Brad Meltzer teve influência direta na decisão editorial de poupar estas duas personagens ao destino fatídico que lhes fora reservado;

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Nuclear não sobreviveu a Crise de Identidade.
*No início da história são referenciadas outras mortes de membros da Liga da Justiça. A saber: Flash (Barry Allen), Arqueiro Verde, Lanterna Verde (Hal Jordan) e Super-Homem. Curiosamente, todos os defuntos enumerados acabaram por regressar do Além e mantêm-se no ativo;
*Após Crise nas Infinitas Terras, convencionou-se que somente um número muito restrito de pessoas teria conhecimento das verdadeiras identidades dos membros da Liga da Justiça. Conceito que foi, contudo, abandonado em Crise de Identidade, com os heróis não raro a tratarem-se informalmente pelos seus nomes civis;
*Vilões como o Doutor Destino (não confundir com o seu homónimo da Marvel) ou Onda Mental que, com recurso às suas habilidades psíquicas, poderiam facilmente descortinar os alter egos de cada um dos integrantes da Liga da Justiça não conseguiram, aparentemente, fazê-lo. Não porque tal nunca lhes tenha ocorrido, mas porque Zatanna apagou magicamente as suas memórias quando foram bem-sucedidos nessa tarefa. Confirmando, assim, que essa era há muito uma prática consagrada para salvaguardar as identidades e os  entes queridos dos heróis;
*Originalmente centrado nas suas insanáveis divergências políticas, o antagonismo mútuo entre o Arqueiro Verde (defensor de causas conotadas com a extrema-esquerda) e o Gavião Negro (com posições próximas da ultradireita) resultava afinal também das suas opiniões opostas sobre o que deveria ter sido feito ao Doutor Luz após o episódio da violação de Sue Dibny;

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Nunca foi pacífica a relação
 entre o Arqueiro Verde e o Gavião Negro.
*Numa aparente inconsistência narrativa, Guy Gardner - expulso há anos da Tropa Esmeralda, reinventara-se como Guerreiro - participa nas exéquias de Sue Dibny envergando o seu uniforme de Lanterna Verde. É, no entanto, verosímil que, dada a solenidade da ocasião, Guy tenha escolhido aprumar-se com aquela que era a sua farda de gala;
*A consecutivas gerações de leitores lusófonos, Átomo (tradução literal da nomenclatura original) foi apresentado como Eléktron. Assim rebatizado nos anos 1960 pela brasileira EBAL, por forma a diferenciá-lo da sua contraparte da Idade do Ouro, era ainda por essa alcunha que o liliputiano herói atendia nas edições da Panini lançadas em terras de Vera Cruz. Registe-se, a este propósito, que o Átomo original não partilhava com o seu sucessor a capacidade de se miniaturizar;

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Átomo, o Pequeno Polegar da DC
 que os leitores lusófonos conhecem como Eléktron.

Vale a pena ler?

Brad Meltzer é um espécime exótico na fauna de literatos contemporâneos. A despeito de o seu nome ter figurado repetidas vezes na lista de best-sellers do New York Times por conta de obras como The Millionaires e The Book of Fate, este advogado nova-iorquino que cresceu entre o Brooklyn e Miami só se aventurou na literatura graças à sua assolapada paixão pela banda desenhada.
Certa vez Meltzer disse, em entrevista, que podia não saber os nome de todos os estados que compõem a União, mas sabe de cor e salteado o nome de todos os membros da Liga da Justiça, bem como a ordem pela qual entraram ou saíram do grupo. Esse seu conhecimento enciclopédico do Universo DC e de cada uma das engrenagens que movimentam as suas personagens está patente em Crise de Identidade, obra de referência na memorabilia da DC e que lançou um novo olhar sobre alguns dos seus maiores ícones.
Invocando os contos policiais de antanho, Crise de Identidade serve ao leitor um mistério no melhor estilo "quem é o culpado?". De caminho, Meltzer, iconoclasta involuntário,  fornece um nova dimensão aos confrontos entre super-heróis e supervilões que ele cresceu a ler. Mostrando que, mesmo neste mundo de fantasia, não sobra lugar para maniqueísmos absolutos.
A história tem ainda a particularidade de não possuir um protagonista que se sobreponha aos restantes, na medida em que todas as personagens são vitais para o desenrolar da trama. É no entanto concedida uma atenção especial àqueles que, habitualmente, são os membros de segunda linha da Liga da Justiça.
Com efeito, Crise de Identidade explora diversos núcleos do Universo DC, retratados com um realismo quase sem paralelo nas histórias dentro da continuidade principal da editora. Meltzer não se satisfaz em mostrar-nos as relações dos heróis com os seu pares e com os seus entes queridos. Leva-nos também para dentro do mundo dos vilões, dando-lhes personalidades e motivações únicas. Há, de resto, todo um carinho dispensado àquelas personagens habitualmente relegadas para segundo plano, que passam a ser vistas sob um prisma diferente.
Referenciando sempre os romances policiais, a narrativa chega a declarar que apresentar personagens secundárias, fazer com o que o público se identifique com elas para, logo em seguida, matá-las é um chavão literário. Meltzer explora esse e outros clichés do género, mas são as respetivas consequências aquilo que realmente lhe interessa. A morte de Sue Dibny serve, pois, o duplo propósito de esmiuçar as motivações de cada personagem e de pôr à prova a amizade que une os heróis.
Mortes impactantes e revelações surpreendentes aguardam o leitor ao virar de cada página. Sem que Meltzer, em momento algum, nos insulte a inteligência com piruetas rebuscadas, pois cada momento é orquestrado com a precisão de um ourives. Nisso, a importância de Rags Morales é crucial. Morales pode não ter o mais deslumbrante dos traços mas o seu estilo de narrativa visual casa muito bem com a proposta de Meltzer.
O que os autores de Crise de Identidade nos mostram não é uma aventura do Super-Homem, do Batman ou da Mulher-Maravilha, mas um suspense de cortar a respiração que nos revela mais sobre a intimidade de Clark Kent, Bruce Wayne, Diana e tantos outros que abrilhantam o panteão da DC, removendo-os do pedestal e trazendo-os para junto do comum dos mortais. Recomendo.

Sob as máscaras coloridas 
escondem-se homens e mulheres imperfeitos.











sábado, 22 de outubro de 2016

ETERNOS: DENNIS O'NEIL (1939 - ...)




   No que poderá ser visto como um sinal premonitório, o seu nascimento coincidiu com a estreia de Batman, a personagem que mais lhe marcaria a admirável carreira de escritor e editor. Foi, contudo, pela mão de Stan Lee que primeiro se aventurou no género super-heroico. Para cujo amadurecimento contribuiu ao privilegiar temáticas sociais sintonizadas com o espírito da época.

Biografia: Filho de um casal de católicos irlandeses de Saint Louis (Missouri), Dennis O'Neil veio ao mundo a 3 de maio de 1939. Por esses dias chegava também às bancas norte-americanas Detective Comics nº27, edição histórica que assinalou a estreia do Batman. Personagem com a qual o pequeno Denny. como era carinhosamente tratado no meio familiar, desde o primeiro momento parece ter entrelaçado o seu destino. Afinal de contas, décadas depois associaria o seu nome a várias obras capitais do Homem-Morcego.
O gosto pelas histórias aos quadradinhos, esse, tomou-o quando era ainda pessoa de palmo e meio. Nas tardes domingueiras, Denny tinha por hábito acompanhar o pai e o avô em peregrinação à mercearia do bairro onde o clã O'Neil assentara arraiais há largos anos. Além das provisões que serviriam para reabastecer a despensa lá de casa, a lista de compras incluía quase sempre uma banda desenhada que fazia as delícias do petiz dado a leituras.
Mal fora ainda dado o tiro de partida para essa viagem alucinante que foi a década de 1960 quando Dennis O'Neil saiu da Universidade de Saint Louis diplomado em Literatura Inglesa. Formação académica que incluíra, entre outras, a disciplina de Escrita Criativa, na qual ele se sentira como peixe na água.
Das salas de aulas, O'Neil seguiu, sem desvios nem paragens, para as casernas da Marinha dos EUA. Mesmo a tempo de participar no bloqueio naval a Cuba durante a crise dos mísseis soviéticos que, no opressivo outubro de 1962. obrigou o mundo a suster a respiração durante 13 longos dias.
Despida a farda de marinheiro, Dennis O'Neil arranjou emprego num pequeno tabloide do Missouri. Um par de vezes por semana escrevia uma coluna dedicada aos leitores mais jovens. Espaço que, durante os indolentes meses estivais, ele preenchia com revisitações da chamada Idade de Ouro dos quadradinhos. Foi através desses textos que captou a atenção de Roy Thomas, delfim de Stan Lee e seu futuro sucessor à frente dos destinos da Marvel Comics.
Por sugestão de Thomas, Stan Lee convidou Dennis O'Neil a realizar o teste a que se submetiam todos os candidatos a escritores na Casa das Ideias. Consistindo este na inserção de diálogos numa historieta do Quarteto Fantástico em quatro páginas. Tarefa aparentemente simples que servia, no entanto, para separar o trigo do joio numa época em que a Marvel dava cartas no mercado editorial dos super-heróis.

Roy Thomas (esq.) convenceu Stan Lee
a dar uma oportunidade a Dennis O'Neil.
O'Neil, a quem nunca passara pela cabeça ganhar a vida a escrever histórias aos quadradinhos, confessaria numa entrevista dada em 1986 que só aceitou fazer o teste porque tinha as tardes de terça-feira livres. Nas palavras do próprio, ficamos a saber como tudo se passou: «Em vez de, como era meu hábito, me entreter a resolver as palavras cruzadas, naquela tarde matei o tempo a escrever a história que Stan Lee me tinha proposto. Fi-lo, contudo, por brincadeira. Estava longe de imaginar que isso mudaria o curso da minha vida.»
Apesar da ligeireza com que encarou o desafio, a prestação de O'Neil deixou Stan Lee impressionado. Tanto que o então timoneiro da Marvel lhe ofereceu um emprego como argumentista. Convém salientar que, por esses dias, a Casa das Ideias andava em bolandas devido à impossibilidade de Lee continuar a escrever toda a linha de títulos da editora. Mesmo depois de ele ter passado o testemunho a Roy Thomas em alguns deles, era imperiosa a contratação de novos escribas.
Quando deu por si, O'Neil estava a escrever as histórias daquela que era então uma das personagens mais populares da Marvel: o Doutor Estranho, em Strange Tales. Seguir-se-iam passagens meteóricas por títulos secundários como Rawhide Kid e Millie the Model. Mais que não seja, essas experiências serviram para pôr à prova a sua versatilidade narrativa, uma vez que o primeiro era ambientado no Velho Oeste e o segundo possuía um cunho simultaneamente cómico e romântico.

Strange Tales nº148 (1966) trazia uma das primeiras histórias
 do Dr. Estranho da autoria de Dennis O'Neil.
Naquela que terá sido, provavelmente, a sua primeira colaboração com Neal Adams(1), Dennis O'Neil trouxe de volta à vida o Professor X, nas páginas de X-Men nº65. Cada vez mais requisitado, seria chamado de urgência a finalizar uma história do Demolidor deixada a meio por um Stan Lee ansioso por partir de férias.
Passada a euforia inicial, os trabalhos na Marvel começaram a rarear e a Dennis O'Neil não restou outra alternativa que não ir bater à porta da concorrência. Sob o imponente pseudónimo de Sergius O'Shaugnessy, durante cerca de ano e meio escreveu regularmente para a Charlton Comics, onde foi apadrinhado pelo lendário editor Dick Giordano. O mesmo que, quando, em 1968, se mudou de armas e bagagens para a DC Comics, levou consigo um grupo de promissores freelancers, entre os quais Dennis O'Neil.

Thunderbolt foi um dos títulos escritos por O'Neil
 durante a sua passagem pela Charlton Comics.
Ao entrar pela primeira vez na sede da DC, Dennis O'Neil e os seus antigos colegas da Charlton sentiram-se transportados para o passado. Mais precisamente para o interior de uma fotografia tirada em plena década de 50. O vestuário informal dos recém-chegados contrastava flagrantemente com o aprumo dos que lá trabalhavam. Enquanto estes usavam gravatas sobre camisas de um branco imaculado, os primeiros cultivavam um visual hippie, com cabelos compridos e roupas de cores berrantes. Apesar desse choque geracional, a convivência entre as duas tribos foi relativamente pacífica.
Com as vendas em declínio, a DC apostava em sangue novo para recuperar o terreno perdido para a concorrência capitaneada por Stan Lee. A palavra de ordem era "inovar": à criação de novas personagens, deveriam somar-se as abordagens ousadas às consagradas.
Em linha com essas diretrizes, O'Neil começou por assumir os enredos de Beware the Creeper.  Nessa nova série mensal os leitores travaram conhecimento com The Creeper, um bizarro herói acabadinho de sair da prodigiosa imaginação de Steve Ditko (2) e que, no Brasil, ficaria conhecido como Rastejante. A prova de fogo de O'Neil aconteceria, porém, nas páginas de Wonder Woman. E não se pode dizer que ele a tenha superado com distinção.
Em articulação com o artista Mike Sekowsky, O'Neil despojou a Mulher-Maravilha dos seus poderes e uniforme, tornando-a uma amazona proscrita no mundo dos homens. Sob a orientação de um guru cego chamado I Ching, Diana, qual James Bond de saltos altos, vestiria nessa controversa fase a pele de uma agente secreta constantemente enredada em intrigas internacionais. Alterações que não caíram bem junto dos fãs daquela que é a maior heroína do Universo DC, especialmente entre os da velha guarda e os que professavam o feminismo. Dito de outro modo, o tiro saiu pela culatra. Em vez de atrair novos leitores, a pouco ortodoxa abordagem de O'Neil à Princesa Amazona serviu apenas para enxotar mais uns quantos.


O início da polémica fase da Princesa Amazona
que trouxe amargos de boca a O'Neil.
Felizmente, as coisas correram-lhe um pouco mais de feição no outro título cujas histórias assumira em simultâneo. Ao introduzir temas políticos e sociais em Justice League, de uma penada O'Neil cativou um público mais maduro e testou uma fórmula que se revelaria de sucesso em Green Lantern/Green Arrow, a série que o consagraria. Causaria, porém, algum burburinho a sua decisão de desfalcar  a Liga da Justiça da Mulher-Maravilha e do Caçador de Marte, dois dos seus membros fundadores. Uma vez mais, nada voltaria a ser igual após a passagem de O'Neil. Como ficaria bem demonstrado no seu próximo projeto.
Tendo como ponto de partida a redefinição do visual do Arqueiro Verde levada a cabo, meses antes, por Neal Adams em The Brave and the Bold, Dennis O´Neil virou do avesso a vida do herói. De playboy milionário com síndrome de Robin dos Bosques, Oliver Queen passou a vigilante urbano falido e com tendências esquerdistas.
Sempre imbuídas de uma forte consciência social, as histórias do Arqueiro Verde depressa se tornaram a nova coqueluche da DC, vendendo como pãezinhos quentes. E culminando com a sua inclusão em Green Lantern/Green Arrow, título que, desde a Idade do Ouro, tinha como único cabeça de cartaz o Lanterna Verde, agora obrigado a dividir o palco com outro justiceiro em tons esmeralda.
Esta aclamada fase do Arqueiro Verde teria como ponto alto a história Snowbirds Don't Fly, publicada nos números 85 e 86 de Green Lantern/Green Arrow.
Numa altura em que o consumo de drogas ilícitas fora apontado como o inimigo nº1 dos EUA pelo presidente Nixon, os leitores foram surpreendidos pela revelação de que Roy Harper (vulgo Speedy/Ricardito), o jovem protegido e parceiro de Oliver Queen no combate ao crime era, afinal, um heroinómano. Provavelmente a melhor história de sempre do Arqueiro Verde, foi aplaudida de pé pela crítica e valeu uma mão cheia de prémios aos seus autores (ver texto seguinte).

A chocante revelação sobre a toxicodependência de Roy Harper
em Green Lantern/Green Arrow nº85 (1971).
Fama e glória que, como o próprio admitiria mais tarde, teve efeitos nocivos na vida de Dennis O'Neil: «Da noite para o dia, vi-me arrancado da total obscuridade e colocado debaixo dos holofotes mediáticos. O meu nome passou a aparecer em jornais como o The New York Times e choviam convites para participar em talk shows. Claro que toda essa exposição mexeu com a minha cabeça. Tornei-me uma pessoa diferente; uma pessoa que, olhando para trás, reconheço que nunca deveria existido. Por causa dela, deteriorei o meu casamento, perdi amizades e adquiri maus hábitos. Foram tempos complicados em que, a bem dizer, apenas me conseguia relacionar com a minha máquina de escrever.»
Ainda em 1971 deu-se outra importante mudança na carreira de Dennis O'Neil. Supervisionado por Julius Schwartz, assumiria nesse ano as histórias do Batman. A interpretação que fez do herói, retratando-o como um indivíduo obsessivo-compulsivo e ávido de vingança, devolveu-o às suas raízes e viria a influenciar todas as suas versões subsequentes. De The Dark Knight Returns a Batman: Year One, passando por Batman: The Killing Joke, a todas a obra de O'Neil serviu de matriz. Até porque foi ele o primeiro a estudar a fundo a psique da personagem. Concluindo, entre outras coisas, que era Bruce Wayne quem servia de disfarce ao Cavaleiro das Trevas, e não o inverso.
Além de um sortido memorável de sagas do Homem-Morcego, a dupla criativa composta por Dennis O'Neil e Neal Adams (entretanto reunida) introduziu novos vilões e revitalizou outros. Assim, ao mesmo tempo que surgiam R'as e Talia al Ghul (esta última criada a meias com o artista Bob Brown), o Joker e o Duas-Caras recuperavam protagonismo no microcosmos do Batman. Cuja popularidade entre os leitores disparou em flecha, após anos de estiolamento narrativo que o haviam descaracterizado.

O regresso do Joker foi um dos pontos altos fase do Batman
 produzida pela Dupla Dinâmica Dennis O'Neil/ Neal Adams
Apostado em dar um novo elã aos títulos do Super-Homem, Julius Schwartz, recém-nomeado seu editor, considerou Dennis O'Neil a escolha natural para escrever essa nova fase do herói. Entre as diversas alterações introduzidas nesse período à mitologia do Homem de Aço  - desenhado ainda pelo eterno Curt Swan(3) - , a mais surpreendente foi a  eliminação da kryptonita e, por inerência, da sua maior fraqueza.
Paralelamente, O'Neil teve ainda tempo e energia para revitalizar duas personagens da Idade do Ouro cuja propriedade intelectual fora entretanto adquirida pela DC: Capitão Marvel/Shazam e O Sombra. A sua maior extravagância seria, contudo, Superman versus Muhammad Ali, álbum gigante lançado em 1978, e  que contou uma vez mais com a arte de Neal Adams. Com este a elegê-lo como a sua colaboração favorita com O'Neil.

Super-Homem versus Muhammad Ali: o combate do século
 e uma das maiores excentricidades da história da DC.
Já não como um escritor novato mas com o rótulo de celebridade colado à pele, em 1980, após uma década ao serviço da DC, Dennis O'Neil regressou à Casa das Ideias. Fê-lo pela porta grande mas sem qualquer intenção de dormir à sombra dos louros. Ao longo dos cinco anos que por lá ficou, deixou a sua impressão digital nos diversos títulos cujas tramas lhe foram confiadas. Em Iron Man, por exemplo, ressuscitou o demónio na garrafa que tanto havia atormentado Tony Stark ao mesmo tempo que presenteava o herói com a icónica armadura de Centurião Prateado.
Seria, porém, enquanto editor de Daredevil que O'Neil alcançaria o seu maior mérito. Mal assumiu o cargo, tratou logo de se desenvencilhar do argumentista Roger McKenzie para que Frank Miller pudesse escrever e desenhar as aventuras do Homem Sem Medo. Decisão que o à época editor-chefe da Marvel, Jim Shooter, classificaria como determinante para evitar o mais do que expectável cancelamento de uma série que estrebuchava nas águas pantanosas em que caíra.
Apesar dessa sua intervenção providencial, Dennis O'Neil tinha uma visão muito própria do seu papel enquanto editor. Se dele dependesse, o seu trabalho seria invisível para os leitores e o seu nome não surgiria creditado nas histórias por ele editadas.
Até o Homem Sem Medo deve a sua sobrevivência a Dennis O'Neil.

De volta à DC em 1986, Dennis O'Neil passaria a acumular as funções de escritor e editor dos títulos do Batman até 2000. Sob a sua batuta, o Cavaleiro das Trevas voltaria a viver dias de glória. Seria nessa fase que despontariam obras capitais como Knightfall (A Queda do Morcego), Batman: Sword of Azrael (A Espada de Azrael) ou Batman: Birth of Demon (Batman: O Nascimento do Demónio). Todas elas saídas da pena de Dennis O'Neil, todas elas momentos definidores na vida do herói.
Embora sempre sob o signo do morcego, O'Neil seria igualmente responsável pelas histórias do Questão, que fizeram furor no início da década de 1990, e coautor da saga  Armageddon 2001 (4).

The Sword of Azrael foi um dos êxitos que marcou
 o regresso de Dennis O'Neil à Editora das Lendas.
Alquimista das letras, as proezas literárias de Dennis O'Neil não se circunscrevem à banda desenhada. Com uma extensa obra publicada, o seu repertório inclui vários romances, contos e guiões televisivos. São também da sua autoria as novelizações dos filmes Batman Begins e The Dark Knight.
Em finais dos anos 1990, O'Neil, sempre em busca de novos desafios, aventurou-se no ensino. Na prestigiada School of Visual Arts, sediada em Manhattan, ministrou um curso de escrita criativa direcionado para os comics. Como assistente teve John Ostrander, seu colega de ofício e velho conhecido da Editora das Lendas.
Casado com Marifran O'Neil, sua companheira desde os tempos de juventude, Dennis é pai do cineasta Lawrence O'Neil notabilizado pelo seu filme de 1997, Breast Men.
Afastado dos quadradinhos a que esteve ligado durante mais de quatro décadas, divide atualmente o seu tempo entra a vida familiar e as suas responsabilidades como diretor da The Hero's Initiative. Rede de beneficência que presta auxílio financeiro e cuidados médicos a antigos profissionais dos quadradinhos cujas vidas, por um motivo ou por outro, saíram dos eixos.
Julgando por este gesto de enorme generosidade e humanismo, o brilho da carreira deste grande senhor da 9ª Arte só empalidece perante o do seu coração de ouro.

Dennis O'Neil e Neal Adams (esq.) lado a lado
 num painel de conferências na Comic Con de San Diego.

1) Perfil de Neal Adams disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/06/eternos-neal-adams-1941.html

2) Perfil de Steve Ditko disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/03/eternos-steve-ditko.html

3) Perfil de Curt Swan disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/07/eternos-curt-swan-1920-1996.html

4) Leiam aqui a resenha de Armagedoon 2001 http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/05/do-fundo-do-bau.html

Prémios e distinções: Lenda viva da 9ª Arte, Dennis O'Neil desde cedo obteve o reconhecimento da indústria dos quadradinhos. Rendido à sua sofisticação narrativa, logo na edição inaugural do concurso, em 1970, o júri dos Shazam Awards distinguiu-o com três desses cobiçados galardões. Para quem não sabe, são o equivalente bedéfilo dos Óscares da Academia de Hollywood.
Pelo primoroso trabalho desenvolvido em Green Lantern/Green Arrow, O'Neil venceu nas categorias de melhor escritor, melhor história individual e melhor série regular. Dividindo o prémio nestas duas últimas com Neal Adams, seu parceiro criativo no título que basculou ambos ao estrelato. Cenário que se repetiria no ano seguinte quando a parelha arrecadou novo Shazam Award por conta de Snowbirds D'ont Fly, ainda hoje considerada uma das melhores histórias alguma vez produzidas com a chancela da DC.
Nesse memorável ano de 1971, Dennis O'Neil conquistou ainda dois Goethe Awards, novamente na categoria de melhor escritor e de melhor história individual e, uma vez mais, a meias com Neal Adams neste último segmento. Um par de anos volvidos, em 1973, O'Neil seria outra vez nomeado para melhor escritor, mas dessa feita não teve de arranjar espaço na prateleira lá de casa pois voltou de mãos a abanar. Algo que não aconteceria em 2014, quando viu a sua fulgurante carreira distinguida por um Eisner Award.
A maior honraria a adornar o seu invejável currículo foi-lhe, no entanto, concedida em 1985. Ano em que a DC incluiu o seu nome em Fifty Who Made DC Great, livro de ouro que pretendia render homenagem à meia centena de individualidades cujo contributo mais engrandeceu a Editora das Lendas.

Dennis O'Neil exibe o Eisner Award  que lhe foi atribuído em 2014.

Notas finais:

*Dennis O'Neil, Archie Goodwin e Mike Carlin foram três dos antigos editores da DC a serem parodiados em The Batman Adventures, título mensal baseado na série televisiva Batman: The Animated Series, cuja publicação se iniciou em 1992.
Nas histórias eles eram apresentados como um bando de supervilões desastrados liderados pelo imperturbável The Perfesser. Suposto génio do crime inseparável do seu cachimbo e propenso a engendrar as mais mirabolantes golpadas, a pitoresca personagem servia de avatar a Dennis O'Neil.
Sempre absorto em pensamentos, The Perfesser esquecia-se amiúde de transmitir informações vitais aos seus cúmplices para a execução dos golpes que ele próprio arquitetava. Mesmo sem a interferência do Cruzado Encapuzado, os planos da quadrilha iam muitas vezes por água abaixo devido à incompetência do seu líder. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando após planeamento minucioso do assalto a um hotel, ao chegarem ao local os três patetas depararam-se com um edifício vazio e sem nada para roubar. Tudo porque The Perfesser, do alto da sua infinita sabedoria, se tinha esquecido que o mesmo fora abandonado há uma dúzia de anos...

The Perfesser, o génio do crime que parodiava
 Dennis O'Neil em The Batman Adventures.

No entanto, apesar da sua aparente inépcia, The Perfesser provou, em pelo menos uma ocasião, ser mais inteligente do que o próprio Batman. Desafiados a decifrar um intrincado enigma em três partes fornecido pelo Charada, levou a melhor sobre o pretenso melhor detetive do mundo;
* Num registo mais sério, em 2008 Dennis O'Neil emprestou a sua voz aos comentários incluídos na edição em DVD de Batman: Gotham Knight, antologia de seis curtas-metragens do Homem-Morcego produzidas ao estilo anime.
* Na sua segunda passagem pela Marvel, na primeira metade da década de 80 do século passado, Dennis O'Neil esteve diretamente envolvido na conceção dos Transformers. É-lhe, de resto, atribuída a escolha do nome Optimus Prime, líder dos Autobots;
*Sob o pseudónimo Jim Dennis, O'Neil escreveu várias novelas protagonizadas por Richard Dragon, um mestre das artes marciais, transformado em personagem de BD pela DC, a partir de 1974;
*Entre o extenso rol de personagens criadas por Dennis O'Neil ao longo da sua vetusta carreira, algumas tornaram-se proeminentes na mitologia das respetivas licenciadoras. Casos, por exemplo, do Lanterna Verde John Stewart e de Arzael na DC, ou Madame Teia e Obadiah Stane (vulgo Monge de Ferro) na Marvel.
*Foi também o "arquiteto" do famigerado Asilo Arkham, instituição psiquiátrica destinada a acolher criminosos demenciais, como o Joker, o Espantalho e tantos outros.


John Stewart (cima) e Monge de Ferro,
 duas das mais carismáticas personagens criadas por Dennis O'Neil.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

BD CINE APRESENTA: OS 9 CONDENADOS





         Desde o início deste século, Hollywood parece ter (re)descoberto o maná das megaproduções com super-heróis.  Nos últimos anos, para gáudio dos fãs e com maior ou menor êxito, têm-se sucedido as adaptações ao grande ecrã de várias personagens icónicas da Marvel e da  DC.
         Houve, contudo, um considerável rol de projetos do género que nunca conheceram a luz do dia. Dentre os que nunca saíram do papel e os que morreram na praia; dentre os que foram dados como quase certos e os que permaneceram na obscuridade, aqui fica uma resenha composta por nove exemplos desses nados-mortos cinéfilos, convidando o leitor a tirar as suas próprias conclusões acerca da viabilidade dos mesmos:

1- MULHER-MARAVILHA

       Muito antes de dirigir a sensacional versão cinematográfica dos Vingadores, o realizador Joss Whedon (criador da série televisiva de sucesso Buffy, Caçadora de Vampiros) fora o eleito para levar a Princesa Amazona ao grande ecrã pela primeira vez.
      Whedon ficou em êxtase com tão aliciante desafio, mas logo perceberia que era bom de mais para ser verdade. Com efeito, apesar de ter sido contratado para escrever e dirigir a primeira longa-metragem da mais famosa heroína da DC, Whedon acabaria por ser descartado pela Warner Bros. que, alegadamente, ficou desagradada com a abordagem proposta pelo realizador à personagem.
      Algum tempo após o seu afastamento do projeto, em entrevista ao site RookieMag.com, Whedon levantou um pouco do véu sobre os seus planos para a primeira incursão da Princesa Amazona no cinema: "Ela seria algo parecida com a Angelina Jolie. (risos) Embora poderosa, seria muito ingénua em relação á natureza humana. O facto de ser uma semideusa seria, simultaneamente, a sua maior força e a sua maior fraqueza. Ela olharia, por exemplo, para a forma como os humanos se matam uns aos outros, como deixam crianças morrer á fome e, aos olhos dela, isso não faria qualquer sentido.  Por outro lado, o seu romance com Steve Trevor serviria para lhe mostrar a vulnerabilidade dos humanos, mas também o que há de melhor em cada um de nós. Steve seria portanto uma espécie de professor para ela".

Arte conceptual desenvolvida para o filme da Mulher-Maravilha que nunca chegou a ser realizado.

      Confessando-se desapontado com o cancelamento de um projeto que, não obstante os elevados custos envolvidos, muito provavelmente iria arrasar nas bilheteiras, Whedon não se coibiu de, na mesma entrevista, revelar que atriz sugerira aos produtores para encarnar a Princesa Amazona: nada mais nada menos que Cobie Smulders (celebrizada pelo papel da sedutora Robin na série Foi Assim Que Aconteceu e a quem o realizador outorgou o papel da agente da SHIELD Maria Hill em Os Vingadores).

Cobie Smulders, a atriz que daria vida à Princesa Amazona.

2- HOMEM-ARANHA

      Depois de ter dirigido um dos melhores filmes de ação de todos os tempos (o inigualável Exterminador Implacável 2) e muito antes de Sam Raimi assumir a realização do primeiro filme do Escalador de Paredes mais famoso do planeta, James Cameron foi a primeira escolha para tornar realidade esse velho sonho dos fãs do herói aracnídeo.
      Efetuada alguma pesquisa, Cameron apresentou o seu conceito para a personagem. Entre as muitas alterações introduzidas em relação à sua contraparte da banda desenhada, destaque para um forte pendor sexual de Peter Parker, retratado como um adolescente com as hormonas aos saltos e com uma língua suja capaz de fazer corar os mais pudicos. Decorrente dessa abordagem, haveria várias cenas de sexo ao longo do filme, uma das quais tendo como cenário a ponte sobre o rio Hudson.

Esquisso conceptual de Peter Parker, idealizado por James Cameron.

      Seriam dois os antagonistas do Homem-Aranha: Electro e Homem-Areia. Todavia, o primeiro também seria substancialmente diferente do vilão original e habitué nas histórias dos Escalador de Paredes.
      Provavelmente, muitos fãs terão sentido alívio pelo facto de esta pouco ortodoxa abordagem ao seu querido herói não ter vingado. O que não impediu que alguns elementos do guião hajam sido repescados aquando da produção de Spider-Man em 2002, já sob a batuta de Sam Raimi. Exemplo disso foi a utilização de lançadores de teias orgânico em vez do tradicional fluido de teia sintético.

Na versão de Cameron, Peter Parker pouco teria de menino do coro.


3 - FLASH

      Exatamente oito dias após a estreia de Blade: Trinity nas salas de cinema norte-americanas, foi oficialmente anunciado que o cineasta David S. Goyer (obreiro da trilogia de sucesso do caçador de vampiros da Marvel) iria escrever e realizar uma longa-metragem estrelada por outro super-herói: desta feita Flash, da concorrente DC.


      Entusiasmando com o potencial cinematográfico do velocista escarlate, Goyer aventou inicialmente que optaria por Wally West (o terceiro Flash), por ser este o favorito dos fãs. Mas rapidamente mudou de ideias, anunciando a sua opção por Barry Allen (o Flash da Idade da Prata), estando reservado para Wally West um papel secundário na intriga.
      Para encarnar o herói nesta sua primeira aventura no grande ecrã, Goyer terá indicado Ryan Reynolds (ator que, em 2011, seria escolhido para ser o Lanterna Verde). O realizador assumiu igualmente que o filme teria um registo obscuro, influenciado pela abordagem análoga feita na BD por escritores como Mike Barron ou Mark Waid.
      Contudo, a exemplo do que sucedeu com Joss Whedon e o seu projeto para a Mulher-Maravilha, Goyer e a Warner Bros. não conseguiram chegar a acordo quanto aos termos do contrato, pelo que o Flash permanece ainda em lista de espera para ganhar vida no cinema.

Depois de Blade, David S. Goyer tentou adaptar Flash ao grande ecrã.



4- MAGNETO

      Após o lançamento de X-Men 3: O Confronto Final (2006), que encerrava a primeira trilogia cinéfila dos Filhos do Átomo, foi anunciada a produção de vários spin-offs (filmes a solo de personagens do universo X). Encabeçando a lista, estavam Wolverine e Magneto. Ao contrário do primeiro, o segundo nunca teve, porém, direito a qualquer película própria.
      Em 2004, o argumentista Sheldon Turner foi contratado pela 20th Century Fox para escrever o guião da longa-metragem do mestre do magnetismo.  Ian McKellen reassumiria o manto do vilão, retocado digitalmente de modo a parecer mais novo, à semelhança do que fora feito em X-Men 3.


      Desconhecendo-se o que motivou tal decisão, três anos volvidos, David S. Goyer (outra vez ele) foi contratado para escrever e dirigir o filme de Magneto. Na sua abordagem, o Professor Charles Xavier desempenharia um papel preponderante, pelo que os respetivos papéis foram redirecionados para outros atores.
      Adiado para meados de 2008 e tendo como cenário a Austrália, o arranque das filmagens acabaria suspenso até ser conhecido o resultado do projeto paralelo que foi X-Men Origins: Wolverine. Apesar do sucesso deste último, a película que escalpelizaria a origem de Magneto nunca foi realizada. Parte dos seus elementos foi, todavia, absorvida pelo enredo de X-Men First Class (2011), assim se explicando a atribuição de créditos de coargumentista a Sheldon Turner.


5- ARQUEIRO VERDE

       Nota prévia: esta será a última vez que o nome de David S. Goyer será mencionado nesta lista.
      Sucede que em 2004 o cineasta em questão ( e, como vimos, repetente nestas andanças) e o argumentista Justin Marks (cujo currículo inclui vários guiões para megaproduções que nunca viram a luz do dia) foram contratados para escreverem o enredo de um filme simplesmente intitulado Super Max (posteriormente rebatizado Green Arrow: Escape From Super Max). A sua premissa certamente deixaria os fãs do Arqueiro Verde a salivar: incriminado num caso de homicídio, o vigilante mascarado seria encarcerado na penitenciária especial para meta-humanos chamada Super Max, de onde tentaria escapar para limpar o seu nome, contado para isso com a ajuda de alguns supervilões que ele anteriormente capturara.


      Se somarmos a esta premissa promissora a inclusão de alguns dos vilões mais famosos do universo DC como Joker, Lex Luthor ou Charada, e o facto de a Warner Bros. parecer apostada em dar uma resposta à altura aos projetos bem-sucedidos da arquirrival Marvel no que toca a transposições para o grande ecrã, a película arriscar-se-ia seriamente a ser um blockbuster. No entanto, contra todas as expectativas, o interesse dos estúdios em relação ao projeto foi lentamente esmorecendo, votando-o ao esquecimento e confirmando assim a malapata que parece perseguir Goyer.

6- CRISTAL

       Pequena curiosidade: a personagem Cristal (Dazzler, no original), uma mutante com a habilidade de converter som em luz e energia, foi criada exclusivamente por causa do sucesso da famosa banda rock KISS, nos palcos e também nos quadradinhos. Com efeito, a sua criação resultou de uma parceria entre a Marvel Comics e a produtora discográfica Casablanca Records.
       Surpreendentemente, o título próprio de Cristal tornou-se bastante popular entre os leitores do material produzido pelas Casa das Ideias e, em resultado disso, Jim Shooter (editor-chefe da Marvel à época) foi encarregado de coordenar o projeto para um filme de animação estrelado pela heroína. Em virtude de vários entraves e reveses, a Marvel resolveu apostar antes numa longa-metragem com atores de carne e osso.
        Para o papel principal, foi escolhida Bo Derek, facto que daria azo a uma guerra entre os estúdios. Já o argumento ficou a cargo de Leslie Stevens, apesar de Shooter ter entretanto apresentado um rascunho do mesmo.

Bo Derek foi a primeira escolha para ser a estonteante Cristal no cinema.

        No entanto, a sentença de morte do projeto surgiu sob a forma da espatafúrdia exigência de Bo Derek de que fosse o seu marido, John Derek, a dirigir o filme. Perante a recusa da Marvel, Bo desistiu do papel. Daryl Hannah ainda chegou a ser contratada para sua substituta, mas o projeto estava irremediavelmente comprometido.
       Jim Shooter aproveitou entretanto a sua ideia original para o guião do filme para lançar um graphic novel  intitulada, Dazzler, The Movie.

O guião original de Shooter deu origem a uma graphic novel.


7- WATCHMEN

      Até Zack Snyder descobrir a receita para adaptar ao cinema aquela que é considerada uma das melhores histórias de banda desenhada alguma vez escritas, houve várias tentativas goradas nesse sentido. Assim, a primeira tentativa de transpor Watchmen ao grande ecrã partiu do produtor Joel Silver que, depois de ter adquirido os direitos da série escrita por Alan Moore, sondou o realizador Terry Gilliam para dirigir a projeto.
     Considerando que Gilliam é um cineasta de reconhecido talento, famoso pela densidade das suas narrativas, tudo parecia bem encaminhado. Todavia, os  problemas começaram logo aquando da escolha do naipe de atores que interpretariam o singular grupo de super-heróis idealizado por Moore. Joel Silver exigiu que Arnold Scharwzenegger vestisse a pele do Dr. Manhattan.
     Dave Gibbons, ilustrador e cocriador dos Watchmen insurgiu-se, replicando que  concordava com a utilização dos atributos físicos do ator austríaco, mas que o seu forte sotaque germânico não se coadunaria com a personagem.

Teria Schwarzenegger dado um bom Dr. Manhattan? Nunca saberemos.

      Indiferente às críticas, Joel Silver encomendou um primeiro esboço do guião a Sam Hamm (argumentista de Batman e Batman Regressa), material que seria consideravelmente diferente da história original. Nesta versão, tudo começaria, não com o assassinato do Comediante, mas com um ataque terrorista à Estátua da Liberdade que os Watchmen falhariam em impedir. Daí resultando a revolta popular contra os heróis uniformizados. Em vez do exílio autoimposto em Marte, o Dr. Manhattan viajaria para o futuro e, a partir daí, o enredo seguiria fielmente a narrativa primordial, desembocando num final em tudo idêntico ao da BD.
      Classificando a história de Watchmen de "infilmável", Terry Gilliam, depois de ter proposto que a mesma fosse produzida no formato de uma minissérie em cinco capítulos, abandonaria o projeto. E assim Hollywood gerou mais um nado-morto.

8- BATMAN: ANO UM

     Na esteira da hecatombe que representou o ignóbil Batman & Robin (1997), a Warner Bros. viu-se perante um dilema sobre o destino a dar à franquia do Cavaleiro das Trevas que, até então, se revelara extraordinariamente lucrativa. Joel Schumacher, o realizador responsável por esse flop, propôs que, para a salvar, seria necessário voltar à estaca zero. Nesse sentido, apresentou um projeto de adaptação de Batman: Year One, o emblemático arco de histórias da autoria de Frank Miller que reconta a origem do Homem-Morcego.


      A ideia agradou à Warner Bros. que, após muito sensatamente descartar Schumacher, começou a procura por um realizador competente que permitisse materializar o projeto. A escolha recaiu sobre Darren Aronofsky que dera nas vistas ao dirigir em 2000 o polémico A Vida Não É Um Sonho (Requiem For A Dream). Aronofsky seria também coargumentista, num enredo escrito a duas mãos com o próprio Frank Miller. Alguns dos pormenores entretanto revelados deixaram os puristas da BD original à beira de um ataque de nervos: Bruce Wayne não seria milionário, não seria órfão e não cresceria na mansão da sua família tendo Alfred como precetor. Ao invés disso, ele teria sido resgatado das ruas onde crescera por um mecânico negro chamado Big Al.
      Descrito como esquizofrénico, Bruce Wayne desenvolveria progressivamente o seu alter ego notívago, com um fetiche por morcegos. Haveria ainda várias referências a outras personagens importantes do universo de Batman, nomeadamente Selina Kyle (a Mulher-Gato) e o Joker.
       A certidão de óbito do projeto foi emitida quando Aranofsky indicou Clint Eastwood (!) para assumir o manto do Cavaleiro das Trevas neste reboot, que, também por exigência do realizador, seria integralmente rodado em Tóquio.

Clint Eastwood como Batman? Com menos 30 anos, quem sabe?

       Em 2005, já depois de ter visto abortar o projeto para a realização de uma megaprodução que reuniria Batman e Superman, a Warner Bros. tornaria a convidar Aranofsky para dirigir Batman Begins. Face à recusa deste, Christopher Nolan foi o senhor que seguiu, iniciando assim uma trilogia de enorme sucesso que reabilitou o Cruzado da Capa junto dos fãs da 7ª arte.

9- LIGA DA JUSTIÇA

      Em 2007 a Warner Bros. contratou Kieran e Michele Mulroney para escreverem o guião de um filme da Liga da Justiça, a ser realizado por George Miller (Mad Max).
      A produção foi suspensa durante alguns meses devido à greve dos argumentistas de Hollywood, mas a Warner Bros. não desistiu do projeto.
      Quando a greve terminou, os estúdios anunciaram que a película seria produzida recorrendo a tecnologia semelhante à utilizada em Beowulf e The Polar Express. Já o elenco, segundo rumores postos a circular na altura, mais se assemelharia a uma constelação.

Para quando um filme da Liga da Justiça?

       Duas coisas feriram, contudo, mortalmente o projeto: os produtores não estavam dispostos a pagar alguns milhões de dólares extras referentes a taxas e impostos cobrados na Austrália (local escolhido para servir de cenário à história, que tinha em Maxwell Lord o vilão de serviço), e o orçamento previsto de 300 milhões de dólares.
       E assim morreu à nascença outro projeto megalómano da Warner Bros. A boa notícia é que, segundo  rumores postos a circular com alguma insistência no ciberespaço, poderá haver em 2015 nova tentativa de dar vida no grande ecrã à mais proeminente superequipa da DC, na esteira do retumbante êxito de Os Vingadores.

        



terça-feira, 4 de setembro de 2012

HERÓIS EM AÇÃO: CANÁRIO NEGRO






       A atual Canário Negro é filha da original e de um agente policial, estando portanto predestinada a ser uma combatente do crime. Porém, ao contrário da sua antecessora, possui um impressionante poder sónico, graças a um misterioso metagene.
Nome original: Black Canary
Primeira aparição: Justice League of America nº220 (novembro de 1983)
Criadores: Denny O'Neil e Dick Dillin
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Identidade civil: Dinah Laurel Lance
Local de nascimento: Gotham City
Base de operações: Gotham City
Parentes conhecidos: Larry Lance e Dinah Drake (pais falecidos), Oliver Queen (ex-marido), Craig Windrow (ex-marido), Sin (filha adotiva) e Connor Hawke (enteado).
Filiação: Aves de Rapina (membro fundador no ativo), Liga da Justiça da América (ex-membro), Liga da Justiça Internacional (ex-membro).
Poderes e habilidades: Devido à presença de um metagene no seu organismo, a Canário Negro possui a capacidade de lançar potentes rajadas sónicas. O chamado Grito do Canário consegue aturdir os seus oponentes, bem como danificar objetos, ao ponto de amolgar metal. Graças à sua extraordinária capacidade de controlar as suas cordas vocais, a heroína consegue reproduzir e/ou gerar uma vasta gama de sons. Em algumas ocasiões, o Grito do Canário atingiu os 300 decibéis, o que é suficiente para fazer uma pessoa sangrar dos ouvidos, mesmo que não seja o alvo do ataque.  Dinah Lance é também uma das mais exímias lutadoras corpo a corpo do universo DC, dominando várias artes marciais, entre as quais a Capoeira, o Krav Maga e o Muay Thai, apenas para mencionar algumas. É ainda uma brilhante estratega, dotada de um forte carisma e capacidade de liderança. Essas valências conduziram-na, em tempos, ao comando da Liga da Justiça. Com uma longa carreira de combatente do crime, a Canário Negro desenvolveu também notáveis aptidões detetivescas. Adepta da velocidade, normalmente faz-se transportar numa potente mota e não dispensa o uso de vários gadgets de alta tecnologia.

A segunda versão da Canário Negro debutou nas páginas de JLA nº220 (1983).
Biografia: Com a publicação da maxissérie Crise nas Infinitas Terras em meados dos anos 1980, toda a continuidade da DC foi reescrita. Consequentemente, a personagem Canário Negro foi dividida em duas. Uma delas, Dinah Drake, foi uma super-heroína que atuou na Era de Ouro, integrando a Sociedade da Justiça da América (SJA); a outra, Dinah Lance, era filha da primeira, fez parte da Liga da Justiça da América (LJA) e, ao contrário da sua antecessora, possuía um superpoder.
                  Na cronologia oficial pós-Crise, Dinah Drake casou-se com Larry Lance, um agente policial. Pouco tempo depois, o casal teve uma filha. Recebendo o mesmo nome da mãe, a menina cresceu rodeada de super-heróis, ex-companheiros da mãe na SJA. Isso despertou nela o desejo de, um dia, se tornar ela própria uma combatente do crime. Nunca contou, porém, com o encorajamento da progenitora que, por todos os meios, tentou demover a jovem Dinah de lhe seguir as pisadas.
                 Devido à presença de um misterioso metagene no seu ADN, Dinah possui a capacidade de emitir potentes rajadas sónicas.  Esta descoberta reforçou ainda mais o seu desejo de assumir o manto da Canário Negro. Nesse sentido, procurou vários mestres de artes marciais para que estes a treinassem. Um dos seus tutores foi o ex-membro da SJA conhecido como Pantera. Os anos de treino rigoroso e intensa dedicação foram recompensados quando Dinah se tornou a nova Canário Negro.

Dois antigos uniformes usados pela heroína.

                 Tendo como terreno de operações Gotham City (onde, em diversas ocasiões, se cruzou com Batman), a jovem heroína batizou o seu superpoder de Grito do Canário e não tardaria a ser admitida na renovada Liga da Justiça. Foi durante esse período que conheceu Oliver Queen (vulgo Arqueiro Verde) com quem, apesar da diferença de idades, se envolveria romanticamente.
                Ao longo de seis anos, a Canário Negro lutou ao lado dos restantes heróis e heroínas que compunham a LJA, antes do grupo ser dissolvido. Esse facto coincidiu com a morte da mãe, em resultado de um envenenamento radioativo. Profundamente abalada, a Canário Negro mudou-se para Seattle na companhia do Arqueiro Verde, cidade onde atuaram como parceiros no combate ao crime.
               Atravessando uma espécie de crise precoce de meia-idade, Oliver quis casar com a sua companheira de longa data, assentar e construir uma família. Ideia rejeitada por Dinah, que considerava as suas vidas demasiado perigosas para assumirem tão grandes responsabilidades.
               Durante esse conturbado período, depois de falhar numa operação para desmantelar uma rede de narcotráfico, a Canário Negro foi capturada e torturada antes de ser resgatada pelo Arqueiro Verde. Essa experiência traumática deixou mazelas físicas e emocionais em Dinah: além de perder temporariamente a sua capacidade de usar o Grito do Canário, deixou de poder ter filhos. Não obstante, ela perseverou e continuou a combater o crime, mesmo privada do seu poder. Por fim, Dinah e Oliver acabaram por se separar após a descoberta de uma infidelidade conjugal dele. A amizade entre ambos, porém, sobreviveu. Anos mais tarde, o casal acabaria mesmo por casar (e mesmo depois do divórcio, muitos acreditam que se continuam a amar).

Parceiros no combate ao crime, Arqueiro Verde e Canário Negro foram também marido e mulher.

             Muito tempo após esses eventos, e sentindo falta de um objetivo de vida, a Canário Negro foi recrutada pela Oráculo (Barbara Gordon) para executar várias missões de combate ao crime em Gotham City. Dessa parceria nasceriam as Aves de Rapina (Birds of Prey no original), um coletivo de super-heroínas que contava nas suas fileiras  com a Caçadora e a Lady Falcão Negro, após o abandono precoce da Poderosa. Ainda privada do seu poder, a Canário Negro usou durante essa fase as Bombas de Grito do Canário, um dispositivo eletrónico que reproduzia a sua habilidade meta-humana perdida. A qual recuperaria após mergulhar no Poço de Lázaro de Ra´s al Ghul (vide Némesis: Ra's al Ghul). Na sequência desse episódio, recuperou também a sua capacidade reprodutiva.
           Recentemente, no âmbito de nova reformulação da continuidade do universo DC (Os Novos 52) a história da Canário Negro e das Aves de Rapina foi reescrita: o casamento de Dinah e Oliver Queen foi omitido da nova cronologia; Barbara Gordon voltou a assumir a identidade de Batgirl e a equipa conta agora nas suas fileiras com a ex-vilã Hera Venenosa. Decorrente desse e de outros factos, as Aves de Rapina são encaradas como um bando de renegadas, atuando à margem da Lei. Facto que, por sua vez, motivou a mudança do grupo para Metrópolis.

O Grito do Canário em ação.
O trio fundador das Aves de Rapina: Caçadora, Oráculo e Canário Negro.
Noutros media: A primeira aparição televisiva da Canário Negro remonta a 1979. Interpretada por Danuta Wesley, participou em dois episódios especiais da série Legends of the superheroes, produzida pela Hanna-Barbera e transmitida pela NBC.
                        Um episódio da sétima temporada de Smallville, intitulado Siren, marcou o regresso ao pequeno ecrã da heroína loira, desta feita interpretada por Alaina Huffman. Repetiria a sua participação em vários episódios das temporadas seguintes da série.
                       Com maior ou menor destaque, a Canário Negro também participou, ao longo dos anos, em diversas séries de animação com a chancela da DC: Justice League Unlimited, Batman, The Brave and the Bold, foram apenas algumas delas.

Alaina Huffman como Canário Negro em Smallville.