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domingo, 8 de julho de 2018

Conheça a história do homem que viveu nu durante 30 anos numa ilha

Japonês Masafumi Nagasaki foi retirado de Sotobanari contra a sua vontade. Tem 82 anos e obrigaram-no agora a voltar a sobreviver em sociedade
Texto e fonte da imagem aqui

Um pequeno filme do Herald Sun e outro no Facebook "The Japaneses Robinson"

Leu bem! Esta é mesmo a história de um homem que fugiu da civilização há 30 anos para viver numa ilha deserta. Andou nu, até que passadas três décadas, foi retirado contra a sua vontade do refúgio onde queria morrer.

Masafumi Nagasaki chegou à ilha de Sotobanari, no Japão, em 1989. Aí viveu uma vida em solidão até se tornar conhecido como o “eremita nu”, aos 76 anos de idade.

Agora, de acordo com o site news.com.au., em abril deste ano, a polícia recebeu um aviso de que Masafumi Nagasaki, de 82 anos, estaria muito fraco. Foram buscá-lo à ilha e levaram-no de volta para a civilização, de onde dificilmente vai conseguir sair.

Feliz na ilha 

Foi em Sotobanari que Nagasaki se sentiu e sentia em casa. Onde não há telefones, nem água fresca e as roupas são muito poucas. Nenhumas mesmo, no seu caso, quando um tufão passou pela ilha e estragou todo o pouco que tinha.

Mas, mesmo tendo de enfrentar intempéries e tufões, nada fez com que Nagasaki tivesse tido vontade de mudar de casa. Aliás, era ali mesmo que queria morrer. 


Encontrar um lugar para morrer é uma coisa importante que se deve fazer. Eu decidi que aqui é o lugar onde quero morrer", disse em entrevista à agência Reuters em 2012.

Estranho ou não, Nagasaki viveu literalmente sozinho durante quase três décadas. E dizia que sempre fora feliz.

Nunca me senti triste aqui. As coisas aqui são mais reais." (...) "Não vou sair daqui, mesmo que alguém me diga que há um lugar melhor. Tudo o que quero, tenho aqui. Não preciso de mais nada.”, disse na entrevista, em 2012.

Fuga da sociedade

Engana-se quem possa pensar que Masafumi Nagasaki não tinha família. Antes de partir para a ilha chegou mesmo a despedir-se e deixou esclarecido que o regresso poderia nunca acontecer.
Não tenho opção. Já disse à minha família que vou morrer aqui. O meu desejo é morrer aqui sem incomodar ninguém. Por isso, não quero ficar doente ou ferido. Quero ser morto por um tufão e assim ninguém me pode tentar salvar. Morrer aqui é o melhor. É simplesmente perfeito para mim", contou Nagasaki.

Nunca se soube como foi a viagem até Sotobanari. Nem se Nagasaki tem filhos, até porque tentou sempre evitar falar do passado e da família que tinha deixado para trás.

Sabe-se que, quando "vivia na civilização", Nagasaki trabalhava numa fábrica em Osaka. Foi aí que um colega lhe terá falado sobre um misterioso arquipélago de ilhas desabitadas, o que o levou a fugir.

Tomou a sua decisão final quando estava dentro de um avião e viu o mar bastante poluído. Aí, foi de vez. Arranjou maneira de chegar à ilha de Sotobanari, onde pretenderia passar um par de anos. Ficou por lá quase trinta.

Vida maravilhosa

Sobre a vida na ilha, o japonês realçou a Alvaro Cerezo, responsável por uma série de documentários sobre experiências de viver em ilhas desertas, que estar longe das regras dos humanos era o que o deixava mais feliz.
Aqui, na ilha, não faço o que as pessoas me dizem para fazer. Sigo apenas as regras da natureza. Ninguém consegue dominar a natureza, então só podemos obedecer-lhe completamente.”
Ainda quanto às regras da sociedade que Nagasaki não gostava, percebe-se que o andar nu foi um fato feito à medida da ilha. Ainda andou vestido nos primeiros anos, até que um tufão lhe terá levado o pouco que tinha.

Nagasaki contou ainda à Reuters, há seis anos, que deixou de comer carne e peixe e também se recusou a comer os ovos das tartarugas postos pelas mães na praia.
Vi os filhotes a nascer e a rastejar em direção ao mar. Fico arrepiado todas as vezes que vejo isso acontecer... Só me faz pensar como a vida é maravilhosa."
Apesar de viver sob as regras da natureza, Nagasaki até tinha uma rotina própria: ginástica de manhã e depois dedicava-se, essencialmente, à limpeza da praia com um par de luvas brancas e um ancinho.

Agora, em 2018, Nagasaki despediu-se da ilha que foi a sua casa durante trinta anos. A contra gosto, levaram-no e tiraram-no de Sotobanari. O seu paradeiro é agora incerto.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Poema da Semana - A Verdadeira Liberdade, por Fernando Pessoa

Igor Morski 1960 - Polish Surrealist Illustrator

A liberdade, sim, a liberdade! 
A verdadeira liberdade! 

Pensar sem desejos nem convicções. 
Ser dono de si mesmo sem influência de romances! 
Existir sem Freud nem aeroplanos, 
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço! 

A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais 
A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida! 
Como o luar quando as nuvens abrem 
A grande liberdade cristã da minha infância que rezava 
Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim... 
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente, 
A noção jurídica da alma dos outros como humana, 
A alegria de ter estas coisas, e poder outra vez 
Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma 
E beber água como se fosse todos os vinhos do mundo! 

Passos todos passinhos de criança... 
Sorriso da velha bondosa... 
Apertar da mão do amigo [sério?]... 
Que vida que tem sido a minha! 
Quanto tempo de espera no apeadeiro! 
Quanto viver pintado em impresso da vida! 

Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade, 
Dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote 
Da casa do campo da minha velha infância... 
Eu bebia e ele chiava, 
Eu era fresco e ele era fresco, 
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre. 
Que é do púcaro e da inocência? 
Que é de quem eu deveria ter sido? 
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim? 

Álvaro de Campos, in "Poemas (Inéditos)" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Dizer Não, por Vergílio Ferreira

Dizer Não

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros. 

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios. 

Diz NÃO à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude. 

Diz NÃO até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação. 

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, antes de passar pela certeza do que tu sabes ser justo. 

Diz NÃO à verdade que te pregam, se ela é a mentira com que te ilude o pregador. Porque a verdade tem a face do Sol e não há noite nenhuma que prevaleça enfim contra ela. 

Diz NÃO à unidade que te impõem, se ela é apenas essa imposição. Porque a unidade é apenas a necessidade irreprimível de nos reconhecermos irmãos. 

Diz NÃO a todo o partido que te queiram pregar, se ele é apenas a promoção de uma ordem de rebanho. Porque sermos todos irmãos não é ordenanmo-nos em gado sob o comando de um pastor. 

Diz NÃO ao ódio e à violência com que te queiram legitimar uma luta fratricida. Porque a justiça há-de nascer de uma consciência iluminada para a verdade e o amor, e o que se semeia no ódio é ódio até ao fim e só dá frutos de sangue. 

Diz NÃO mesmo à igualdade, se ela é apenas um modo de te nivelarem pelo mais baixo e não pelo mais alto que existe também em ti. Porque ser igual na miséria e em toda a espécie de degradação não é ser promovido a homem mas despromovido a animal. 

E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade. 

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1' 

terça-feira, 1 de maio de 2018

Grande Entrevista a Noam Chomsky: “As pessoas já não acreditam nos factos”

Prestes a fazer 90 anos, acaba de abandonar o MIT. Ali revolucionou a linguística moderna e se transformou na consciência crítica dos EUA.



Noam Chomsky (Filadélfia, 1928) superou faz tempo as barreiras da vaidade. Não fala de sua vida privada, não usa celular e em um tempo onde abunda o líquido e até o gasoso, ele representa o sólido. Foi detido por opor-se à Guerra do Vietnã, figurou na lista negra de Richard Nixon, apoiou a publicação dos Papéis do Pentágono e denunciou a guerra suja de Ronald Reagan. Ao longo de 60 anos, não há luta que ele não tenha travado. Defende tanto a causa curda como o combate à mudança climática. Tanto aparece em uma manifestação do Occupy Movement como apoia os imigrantes sem documentos. 

Mergulhado na agitação permanente, o jovem que nos anos cinquenta deslumbrou o mundo com a gramática gerativa e seus universais, longe de descansar sobre as glórias do filósofo, optou pelo movimento contínuo. Não se importou com que o acusassem de antiamericano ou extremista. Sempre seguiu em frente com valentia, enfrentando os demónios do capitalismo − sejam os grandes bancos, os conglomerados militares ou Donald Trump. À prova de fogo, sua última obra volta a confirmar sua tenacidade. Em Réquiem para o sonho americano , ele põe no papel as teses expostas no documentário homônimo e denuncia a obscena concentração de riqueza e poder que exibem as democracias ocidentais. O resultado são 192 páginas de Chomsky em estado puro. Vibrante e claro. 


Preparado para o ataque.

Pergunta. O senhor se considera um radical?
Resposta. Todos consideramos a nós mesmos moderados e razoáveis.

P. Defina-se ideologicamente. 

R. Acredito que toda autoridade tem de se justificar. Que toda hierarquia é ilegítima enquanto não demonstrar o contrário. Às vezes pode se justificar, mas na maioria das vezes, não. E isso... isso é anarquismo.

Uma luz seca envolve Chomsky. Depois de 60 anos dando aulas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), o professor veio viver nos confins do deserto de Sonora, no Arizona. Em Tucson, a mais de 4.200 quilómetros de Boston, ele se instalou e estreou um escritório no Departamento de Linguística da Universidade do Arizona. O centro é um dos poucos pontos verdes dessa cidade abrasadora. Freixos, salgueiros, palmeiras e nogueiras crescem em torno de um edifício de tijolos vermelhos de 1904 onde tudo fica pequeno, mas tudo é acolhedor. Pelas paredes há fotos de alunos sorridentes, mapas das populações indígenas, estudos de fonética, cartazes de atos culturais e, no fundo do corredor, à direita, o escritório do maior linguista vivo. 

O lugar não tem nada a ver com o espaço inovador do Frank Gehry que o abrigava em Boston. Aqui, mal cabe uma mesa de trabalho e outra para sentar-se com dois ou três alunos. Recém-estreado, o escritório de um dos acadêmicos mais citados do século XX ainda não tem livros próprios, e seu principal ponto de atenção recai em duas janelas que inundam a sala de âmbar. Chomsky, de calças jeans e longos cabelos brancos, gosta dessa atmosfera calorosa. A luz do deserto foi um dos motivos que o levaram a se mudar para Tucson. “É seca e clara”, comenta. Sua voz é grave e ele deixa que se perca nos meandros de cada resposta. Gosta de falar longamente. Pressa não é com ele.

P. Vivemos uma época de desencanto? 
R. Já faz 40 anos que o neoliberalismo, liderado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, assaltou o mundo. E isso teve um efeito. A concentração aguda de riqueza em mãos privadas veio acompanhada de uma perda do poder da população geral. As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária, com trabalhos cada vez piores. O resultado é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismo. Já não se confia nem nos próprios fatos. Há quem chama isso de populismo, mas na verdade é descrédito das instituições.


P. E assim surgem as fake news (os boatos)? 
R. A desilusão com as estruturas institucionais levou a um ponto em que as pessoas já não acreditam nos fatos. Se você não confia em ninguém, por que tem de confiar nos fatos? Se ninguém faz nada por mim, por que tenho de acreditar em alguém?



P. Nem mesmo nos veículos de comunicação? 
R. A maioria está servindo aos interesses de Trump.



P. Mas há alguns muito críticos, como The New York Times, The Washington Post, CNN… 
R. Olhe a televisão e as primeiras páginas dos jornais. Não há nada mais que Trump, Trump, Trump. A mídia caiu na estratégia traçada por Trump. Todo dia ele lhes dá um estímulo ou uma mentira para se manter sob os holofotes e ser o centro da atenção. Enquanto isso, o flanco selvagem dos republicanos vai desenvolvendo sua política de extrema direita, cortando direitos dos trabalhadores e abandonando a luta contra a mudança climática, que é precisamente aquilo que pode acabar com todos nós. 



P. O senhor vê em Trump um risco para a democracia? 
R. Representa um perigo grave. Liberou de forma consciente e deliberada ondas de racismo, xenofobia e sexismo que estavam latentes, mas que ninguém tinha legitimado.



P. Ele voltará a ganhar? 
R. É possível, se conseguir retardar o efeito letal de suas políticas. É um demagogo e showman consumado que sabe como manter ativa sua base de adoradores. Também joga a seu favor o fato de que os democratas estão mergulhados na confusão e podem não ser capazes de apresentar um programa convincente.



P. Continua apoiando o senador democrata Bernie Sanders
R. É um homem decente. Usa o termo socialista, mas nele significa mais um New Deal democrata. Suas propostas, de fato, não seriam estranhas a Eisenhower[presidente dos EUA pelo Partido Republicano de 1953 a 1961]. Seu sucesso, mais que o de Trump, foi a verdadeira surpresa das eleições de 2016. Pela primeira vez em um século houve alguém que esteve a ponto de ser candidato sem apoio das corporações nem dos veículos de comunicação, só com o apoio popular. 



P. Houve um deslizamento para a direita do espectro político?
R. Na elite do espectro político sim, ocorreu esse deslizamento, mas não na população em geral. Desde os anos oitenta se vive uma ruptura entre o que as pessoas desejam e as políticas públicas. É fácil ver isso no caso dos impostos. As pesquisas mostram que a maioria quer impostos mais altos para os ricos. Mas isso nunca se leva a cabo. Frente a isso se promoveu a ideia de que reduzir impostos traz vantagens para todos e que o Estado é o inimigo. Mas quem se beneficia da reduzir [verbas para] estradas,hospitais, água limpa e ar respirável?



P. Então o neoliberalismo triunfou?
R. O neoliberalismo existe, mas só para os pobres. O mercado livre é para eles, não para nós. Essa é a história do capitalismo. As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos. As grandes indústrias de energia recebem subvenções de centenas de milhões de dólares, a economia de alta tecnologia se beneficia das pesquisas públicas de décadas anteriores, as entidades financeiras obtêm ajuda maciça depois de afundar… Todas elas vivem com um seguro: são consideradas muito grandes para cair e são resgatadas se têm problemas. No fim das contas, os impostos servem para subvencionar essas entidades e com elas, os ricos e poderosos. Mas além disso se diz à população que o Estado é o problema e se reduz seu campo de ação. E o que ocorre? Seu espaço é ocupado pelo poder privado, e a tirania das grandes corporações fica cada vez maior.



P. O que o senhor descreve soa a George Orwell.
R. Até Orwell estaria assombrado. Vivemos a ficção de que o mercado é maravilhoso porque nos dizem que está composto por consumidores informados que adotam decisões racionais. Mas basta ligar a televisão e ver os anúncios: procuram informar o consumidor para que tome decisões racionais? Ou procuram enganar? Pensemos, por exemplo, nos anúncios de carros. Oferecem dados sobre suas características? Apresentam informes realizados por entidades independentes? Porque isso sim que geraria consumidores informados capazes de tomar decisões racionais. Em vez disso, o que vemos é um carro voando, pilotado por um ator famoso. Tentam prejudicar o mercado. As empresas não querem mercados livres, querem mercados cativos. De outra forma, colapsariam.



P. Diante dessa situação, não é muito fraca a contestação social?
R. Há muitos movimentos populares muito ativos, mas não se presta atenção neles porque as elites não querem que se aceite o fato de que a democracia pode funcionar. Isso é perigoso para elas. Pode ameaçar seu poder. O melhor é impor uma visão que diz a você que o Estado é seu inimigo e que você tem de fazer o que puder sozinho.



P. Trump usa frequentemente o termo antiamericano. Como o senhor entende esse termo? 
R. Os Estados Unidos são o único país onde, por criticar o Governo, te chamam de antiamericano. E isso representa um controle ideológico, acendendo fogueiras patrióticas por toda parte.



P. Em alguns lugares da Europa também ocorre isso.
R. Mas nada comparável ao que ocorre aqui, não há outro país onde se vejam tantas bandeiras.



P. O senhor teme o nacionalismo?
R. Depende. Se significa estar interessado em sua cultura local, é bom. Mas se for uma arma contra outros, sabemos aonde pode conduzir, já vimos e experimentamos isso.



P. Acha possível que se repita o que ocorreu nos anos trinta?
R. A situação se deteriorou. Depois da eleição de Barack Obama se desencadeou uma reação racista de enorme virulência, com campanhas que negavam sua cidadania e identificavam o presidente negro com o anticristo. Houve muitas manifestações de ódio. No entanto, os EUA não são a República de Weimar [democracia alemã anterior ao nazismo]. Precisamos estar preocupados, mas as probabilidades de que se repita algo assim não são altas.



P. Seu livro começa lembrando a Grande Depressão, uma época em que “tudo estava pior que agora, mas havia um sentimento de que tudo iria melhorar”.
R. Eu me lembro perfeitamente. Minha família era de classe trabalhadora, estava desempregada e não tinha educação. Objetivamente, era uma época muito pior que agora, mas havia um sentimento de que todos estávamos juntos naquilo. Havia um presidente compreensivo com o sofrimento, os sindicatos estavam organizados, havia movimentos populares… Tinha-se a ideia de que juntos podíamos vencer a crise. E isso se perdeu. Agora vivemos a sensação de que estamos sozinhos, de que não há nada a fazer, de que o Estado está contra nós…



P. Ainda tem esperanças?
R. Claro que há esperança. Ainda há movimentos populares, gente disposta a lutar… As oportunidades estão aí, a questão é se somos capazes de aproveitá-las.


Chomsky termina com um sorriso. Deixa vibrando no ar sua voz grave e se despede com extrema cortesia. Em seguida, sai do escritório e desce as escadas da faculdade. Fora, esperam-lhe Tucson e a luz seca do deserto de Sonora.

Fonte: El Pais 2018/03/06

domingo, 1 de abril de 2018

Uma Voz na Pedra, por António Ramos Rosa


"Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra."

António Ramos Rosa in Gravitações(1984) - 

quinta-feira, 22 de março de 2018

Somos Marielle Franco

Nunca "morremos". Esta Vereadora estará connosco para sempre. Esta moça corajosa será sempre a prova de tudo o que podemos ser e fazer. Ela foi tudo isto porque rompeu dentro do Brasil. Mas a Voz que clamava por justiça, equidade, denúncias, as suas mensagens e palestras e presença não morrerá. É o nosso grito também. Marielle eterniza na luta por melhores dias, seja em que País for.



Compartilho também este poema de uma cidadã Brasileira Ana Freitas Reis . Dor emocionada, incentivo à "força" da voz, chamamento aos afectos, à igualdade, à justiça social e liberdade. Melhor exposto impossível. Texto emocionante e motivador.

(Sou mulher, branca, “heterossexual rica”, escrevi para as minhas filhas conseguirem ler)
Sou a Ana
Mas podia ser Mário ou Maria ou Mónica
Podia ser Marielle
e seu motorista
A minha pele podia ser preta, homossexual, ativista, pobre, favelada, violada
Sou humano
Sou pessoa
Somos todos ela
Não somos
nada todos ela
não carregamos metade da bagagem
não sabemos o que é nascer num país sem direito a documentos
não sabemos o que é nunca ter tido um contrato
não sabemos o que é acordar desconhecendo o dia que vamos levar com o ato de tormentos-bala a voar
Chega
Chega de horror, racismo, preconceito, roubo, escravidão, povo oprimido que gera bandido
Chega de matar
principalmente o inocente
que quer apenas sobreviver e levantar a sua voz
quer apenas falar e expor a injustiça
quer apenas poder vingar
Para sermos todos ela
tem de haver um espaço a balizar a coragem, a crítica, a ética, o pensamento, o diálogo e a inclusão
Chega
Chega de opressão, de extermínio, de barbárie
qualquer que seja
no Brasil, na Síria ou em Portugal, onde quer que esteja
não feche a porta na cara do seu vizinho
Sou a Ana (muito prazer)
Mas podia ser Mário ou Maria ou Mónica
Podia ser Marielle
e seu motorista
A minha pele podia ser preta, homossexual, ativista, pobre, favelada, violada
Sou humano
Sou pessoa
Somos todos ela
Somos todos frágeis, vulneráveis, Dependo de ti, preciso de ti, tu também de mim
Chega
da lição que nos ensinou assim o branco e o preto
Chega
de um mundo binário, dual e divisório
que põe o que incomoda num gueto, lá longe, bem distante para não vermos nada
O mundo nunca vai ser igual, isso é uma cilada, mas não queremos igualdade, queremos a liberdade e a justiça, política com lugares ocupados, cidadãos que levantam a verdade dos alvejados e que ataquem o horror
Chega
Chega da dor desta natureza primitiva e talvez possamos aprender um dia que a beleza está, mais do que nas diferenças do homem e da mulher, do feminino e do masculino, está em apenas podermos ser pessoa e cada um deve estar mais próximo daquilo que quer
Chega
Chega de tanta censura e do medo do diferente que origina a tortura radical
E é tão parcial que sabemos que dentro de um opressor também vive um oprimido
e dentro de um oprimido também vive um opressor
Chega
Chega de estar parado
atrás desse computador ou telefone -celular
A fingir um povo unido
Que na prática não se olha e não se atreve a dançar as suas forças tão ferozes
Não vamos lá com vozes de falinhas mansas, não tenhamos essa ilusão mas temos certeza de uma mão para dar a um outro que não sou eu
Sou a Ana
Mas podia ser Mário ou Maria ou Mónica
Podia ser Marielle
e seu motorista
A minha pele podia ser preta, homossexual, ativista, pobre, favelada, violada
Sou humano
Sou pessoa
Somos todos ela
Vamos acender a vela com a largada da potência, do nosso grito, da existência
no mistério absurdo deste planetinha de objectos tão mortais
Vamos investir nos afetos, nos canais, na educação, na união e na identidade
Porque hoje e sempre reinou o não sei quem sou e o ser contemporâneo está na verdade bem sozinho
Sou a Ana
Mas podia ser Mário ou Maria ou Mónica
(Ou o teu vizinho)
Podia ser Marielle
e seu motorista
A minha pele podia ser preta, homossexual, ativista, pobre, favelada, violada
Sou humano
Sou pessoa
Somos todos ela
Marielle
presente
sempre
Vi algures que seu sangue
vai virar semente 


Para saber mais/ To know her better 
1- Marielle Franco: Negra, moradora da Maré e a quinta vereadora mais votada do Rio Na Câmara, dedicou mandato à causa negra e aos direitos das mulheres

2- Say Her Name: Marielle Franco, a Brazilian Politician Who Fought for Women and the Poor, Was Killed. Her Death Sparked Protests Across Brazil

3- Esta mulher, executada no Rio de Janeiro, ocupado por militares há um mês

terça-feira, 13 de junho de 2017

Um Doce Bandido: Jean-Baptiste Libouan


por Jorge Leandro Rosa, Janeiro de 2016, Campo Aberto

Conheci o Jean-Baptiste no início dos anos 1990, quando ele veio a Portugal, convidado pelo grupo dos «amigos da Arca», pessoas que tentavam levar à prática a não-violência gandhiana, segundo as possibilidades que Lanza del Vasto propusera aos ocidentais.

Tendo, anos antes, conhecido Lanza, era óbvio que o Jean-Baptiste era um outro tipo de homem: mais discreto mas não menos coerente no seu percurso, determinação marcada no seu rosto aquilino de Bretão, acompanhada sempre por uma expressão irónica mas amável. Nessa época, ele era ainda, julgo, o professor da escola que a comunidade mantinha. Uma escola não-violenta, no sentido radical do termo: a escola era uma parte da vida comunitária, integrava práticas intelectuais e artísticas, reunidas aí aos saberes ligados à vida auto-suficiente. Era a escola ética e «nourricière» [alimentadora], no sentido etimológico do termo.
 O mais interessante é que o Jean-Baptiste era simultaneamente o marceneiro da comunidade, continuando a sê-lo quando assumiu um papel de representação da comunidade.

O Jean-Baptiste é um dos meus heróis, provavelmente um dos poucos que conheço pessoalmente e com quem me cruzei várias vezes ao longo dos anos. A última foi em 2012: estava eu na Borie Noble [sede da Arca: ver imagem], no dia da festa, quando vejo chegar o Jean-Baptiste, vindo da La Fleyssière, a outra comunidade a dois ou três quilómetros, onde ele vive há três décadas. Com os seus quase 80 anos, vinha a dançar! E que dançarino! Falei uns minutos com ele, sentindo-o inquieto por se lançar à roda da dança, já o violino e a guitarra encetavam as danças tradicionais que os membros da Arca tanto gostam de dançar.

Estou a escrever sobre o Jean-Baptiste porque, nos últimos dois anos, fui recebendo notícias surpreendentes: o Jean-Baptiste fora sempre um dos companheiros da Arca mais empenhados nas acções cívicas e políticas não-violentas em que a comunidade participava. O espírito da Arca foi sempre reunir um modo de vida auto-suficiente – condição para que não haja sujeição social – à acção não-violenta. É assim que ele foi um dos companheiros da Arca que foram viver com os camponeses do Larzac, em 1973, quando o exército francês se preparava para os expropriar. As notícias que tenho dele agora dão conta do movimento que ele lançou contra a expansão dos organismos geneticamente modificados na agricultura, os OGM ou transgénicos. Os «Faucheurs volontaires» (os «ceifeiros voluntários» de transgénicos), um movimento de desobediência civil que não hesita em colher essas culturas, habitualmente propriedade de multinacionais que tentam introduzi-los na Europa.

Nos últimos dez anos, Jean-Baptiste foi várias vezes condenado pelos tribunais franceses, por causa de acções de arranque de plantas em parcelas de milho transgénico. Um homem extraordinário de 80 anos que continua a fazer da sua vida um testemunho do compromisso não-violento com os valores da verdade e da justiça, um homem que não hesita em confrontar os poderes mais terríveis do nosso tempo, habitualmente disfarçados sob roupagens científico-industriais. «A não-violência é poder dizer NÃO!»
 Convido aqueles que dominam o francês a verem as reportagens e filmes que existem na Internet, incluindo uma recentíssima conferência do Jean-Baptiste Libouban, realizada em Dezembro passado.

Em Portugal, quando vamos deixar de dar o nosso consentimento ao mal industrial e económico? Não consentir pode passar pelo protesto, pela petição, certamente que sim. Mas deveríamos estar preparados para a acção directa não-violenta, incluindo a ocupação dos locais onde se prepara a exploração de petróleo ou a implantação de transgénicos, etc. Porque, efectivamente, é preciso estar preparado para estas acções: elas são difíceis e põem riscos para os próprios activistas, sobretudo porque assentam sempre numa recusa de pôr em risco as vidas dos nossos opositores. Por vezes, há que ser um bandido doce e determinado. 

domingo, 19 de março de 2017

Música do BioTerra: Pixies- Tame

Quando uma música agita consciências e um grupo artístico expressa muito bem esse sentimento, é uma pérola. Igual a um menir da era moderna. Um teledisco a todos os níveis EXCELENTE.

Tame -Sinónimos/ Thesaurus synonyms
banal, blah, boring,dull, dull as dishwater, flat, flavorless, ho hum humdrum, insipid, milk-and-water, monotonous, nerdy, nothing, pabulum, sapless, tedious, unexciting, uninspiring, uninteresting, unstimulating, vanilla, vapid, waterish, watery, weak, wimpy, wishy-washy, zero

sábado, 14 de janeiro de 2017

Declamações, Crónicas e polémicas de Feral Faun


"Nós estamos cientes que cada pedra, cada árvore, cada rio, cada animal, cada ser no universo não está apenas vivo, mas que estão mais vivos do que nós seres civilizados. Esta consciência não é apenas intelectual... Nós sentimos isso. Nós ouvimos as canções de amor dos rios e das montanhas e enxergamos as danças das árvores...
Sem a necessidade de consumir, temos tempo para aprender a dança da vida; temos tempo para nos tornarmos amantes das árvores, pedras e rios. Ou, mais ...precisamente, o tempo, para nós, passa a não existir e a dança torna-se as nossas vidas, nós aprenderemos a amar tudo o que vive..."

Do panfleto "Rants, Essays and Polemics of Feral Faun (Declamações, Crônicas e polêmicas de Feral Faun)" - Chaotic Endeavors, 1987.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Livres pensadores, por Leo Tolstoi

Foto: Sepultura de Tolstói na Rússia

"Livres-pensadores são aqueles que estão dispostos a usar suas mentes sem preconceito e sem medo para entender as coisas que se chocam com seus próprios costumes, privilégios ou crenças"~ Tolstoi

Tudo sobre Leo Tolstoi
PT
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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A vida e o exemplo de Louise Michel


O Binóculo e Louise Michel

O Binóculo foi um jornal humorístico de periodicidade primeiro quinzenal e depois semanal que se publicou em Ponta Delgada, tendo a sua redação na rua de são Brás, 98 e 100. O Binóculo foi um dos projetos dos dois irmãos editores de jornais João Cabral (1853-1916) e Augusto Cabral (1856-1924) que foram proprietários da Litografia Lusitana.

João Cabral, identificado em alguns jornais como professor de desenho, foi, segundo Ana C. Moscatel Pereira, a alma do binóculo e do seu filho “O Pist” foi “um artista de mérito que estuda e que progride a olhos vistos [...]» e que ia «conquistando lugar honroso não só pela firmeza do traço e correcção do desenho, mas também pela graça que faz presidir aos seus trabalhos”.

No seu número 47 relativo ao dia 18 de agosto de 1883, o jornal “O Binóculo” tem como assunto principal a vida da revolucionária francesa Louise Michel (1830-905) que foi professora, poetisa e escritora, foi uma das participantes da Comuna de Paris.

Como uma das principais militantes da Comuna de Paris, Louise Michel foi um pouco de tudo, desde enfermeira e condutora de ambulâncias até comandante de um batalhão feminino. A propósito da participação das mulheres nos combates escreveu: “Os nossos amigos homens são mais atreitos a desfalecimentos de coragem que nós, as mulheres. Durante a Semana Sangrenta, foram as mulheres que levantaram e defenderam a barricada da Place Blanche- e mantiveram-na até à morte”.

Tendo recebido uma educação inspirada pelos ideais da Revolução Francesa, estudou e tirou o curso de professora primária, mas como se recusou a prestar juramento a Napoleão III foi-lhe vedado o acesso ao ensino público.

Impedida de trabalhar no ensino público, Louise Michel usa a herança que recebeu do avô para abrir escolas na província. Mais tarde regressa a Paris e continua a ensinar durante quinze anos ao mesmo tempo que publica livros de poesia e romances. Na sequência da derrota da Comuna, ela que tinha conseguido fugir, acabou por se entregar para que a sua mãe presa em seu lugar fosse libertada.

Condenada a dez anos de deportação, foi enviada para a Nova Caledónia onde manteve atividade política e foi autorizada a trabalhar como professora. Mais tarde, depois de ter sido presa por diversas vezes, exilou-se em Londres onde dirigiu, durante vários anos, uma escola libertária.

Desconhecemos se João Cabral simpatizava ou não com os ideais de Louise Michel e que fontes terá utilizado para dedicar a capa e um texto àquela revolucionária francesa.

No texto referido, depois de considerar que Louise Michel havia sido condenada a “uma pena severíssima imposta a uma mulher”, “seis anos de prisão, seguidos de 10 anos de vigilância policial” por ter participado numa manifestação em que foram saqueadas três padarias”, “O Binóculo” escreveu que ela não aceitou ser considerada criminosa comum, tendo afirmado “que o seu crime era político, e não devia ser tomada responsável pelo saque dado a algumas padarias, que não promoveu, e seria levado a efeito por alguns garotos, que, coitados, teriam fome”.

Sobre o espírito de sacrifício de Louise Michel, no texto referido podemos ler que ela era "dotada de um temperamento capaz de suportar as mais rijas provações do infortúnio, sem murmurar uma queixa ou imprecação”.

Em relação à sua dedicação aos outros e à causa que abraçou, também se pode ler que “ela, no tempo de exílio, se despojava ali das meias que trazia nos pés para dar aos mais necessitados! “ e que “amava a revolução com entusiasmo, como fanatismo cego, não por amor de si, mas dos operários e da paz do universo”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30844 de 27 de janeiro de 2016, p.14)

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Violências estruturais:Tanta casa sem gente e tanta gente sem casa

Catalunha, arredores de Barcelona [Fonte: Envolées]

Violências estruturais: Direito a Habitação


Você já ouviu falar em violências estruturais?
Elas também são chamadas de violências silenciosas ou quotidianas, itso porque são actos praticados contra o cidadão, principalmente o mais pobre ou em riscos de pobreza. De tão arraigados no nosso quotidiano, esses actos mal são percebidos, ao contrário da violência física!
Embora estes episódios retratam a realidade Brasileira, em Portugal estamos a sofrer do mesmo problema da habitação/ arrendamento/ compra/ falência e há que atribuir o nome correcto dessa realidade.

A casa é um direito?
E quem são os responsáveis por garantir esse direito?
Vejam o primeiro episódio 'O que são violências estruturais?'


No segundo episódio da série 'Violências estruturais', os entrevistados Maria Fernanda (professora da UFMG), Joviano Mayer (advogado), Chico Alencar (Deputado Federal - PSOL) e Luiz Ruffato (escritor), nos leva à uma reflexão sobre o direito à habitação.


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Biblioteca gratuita e completa sobre permacultura, bioconstrução, agricultura ecológica (em Castelhano) e muito mais

Citação de Brecht, cartaz feito por João Soares