Mostrando postagens com marcador athena. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador athena. Mostrar todas as postagens

7 de set de 2017

quem foi luiz de andrade? artigo


matéria no suplemento pernambuco com meus palpites sobre a identidade de "luiz de andrade", responsável pela primeira tradução da utopia no brasil: disponível aqui.



5 de jul de 2017

checagem de fontes: ainda luís de andrade e a utopia

uma coisa que eu queria expor um pouco: alguém pode achar que isso de checar atribuição é procurar pelo em casca de ovo. por exemplo, que qualquer mínima relevância tem que "luís de andrade" aparecesse como "luís de carvalho paes de andrade" na catalogação da usp? um pequenino lapso, tudo bem, só isso. vide a questão aqui.

é que as coisas costumam se compor dentro de um quadro maior. e minha questão é que, na extensa pesquisa que estou fazendo sobre a editora athena em sua fase heroica, digamos assim (1935-1939), vem-se configurando um conjunto de elementos unidos por certa coerência própria. por exemplo, evidenciou-se que um traço definidor da athena era operar como uma espécie de rede de apoio, inclusive de subsistência, para militantes e perseguidos políticos, sobretudo trotskistas, durante o estado novo.

na prática, isso significava, entre outras coisas, fornecer trabalho constante - em particular de tradução - para os intelectuais perseguidos pelo regime. estando alguns encarcerados, suas traduções eram publicadas sob pseudônimo, como já comentei várias vezes.

assim, não fazia o menor sentido na minha cabeça que petraccone (o editor proprietário da athena) se pusesse a publicar traduções em domínio público, pois a troco do quê? isso contrariaria toda a prática da editora naqueles anos e escaparia ao sentido de se manter uma rede de apoio material aos militantes.

de mais a mais, nunca, jamais, em momento algum eu havia encontrado qualquer referência a uma tradução da "utopia" de thomas more que fosse anterior à da athena (lançada em 1937).

além disso, nunca, jamais, em momento algum encontrei qualquer referência a qualquer atividade de tradução do chefe-mor da alfândega portuária pernambucana no período do império, o engenheiro luís de carvalho paes de andrade.

ainda por cima, qualquer um que leia a utopia traduzida pelo luís de andrade athenense verá uma prosa muito clara, muito límpida e desadornada, sem qualquer vezo oitocentista, despojadamente moderna, diria eu. e a hipótese meio descabelada  de uma "revisão" e "atualização" faria ainda menos sentido. para que deixar de fornecer trabalho a militantes desempregados e/ou presos, para que publicar traduções em DP; e, como se não bastasse, gastar tempo e dinheiro para encomendar um copidesque numa vetusta tradução? muita forçação de barra, um complica-que-nada-explica.

some-se a isso a existência de várias traduções da athena publicadas com pseudônimo e - tirando a exceção do bizarro "blásio demétrio" [i.é, fúlvio abramo] - parecia-se dar preferência a nomes bastante anódinos: paulo de oliveira, j.l. moreira, jorge da silva... e, não seria implausível supor, luís de andrade.

mas aí surge a inesperada identificação bibliográfica entre o luís da athena e o luís dos portos imperiais. não posso de boa-fé descartar indícios só porque contrariam minha hipótese de trabalho. tenho de apurar. e por isso pareceu-me que uma via possível de apurar a veracidade dessa identificação seria buscar sua fonte original. daí então o contato com os autores que haviam citado essa identificação, o contato posterior com a entidade catalogadora que estabelecera a identidade entre os dois luíses e daí minha sensação de que - confirmado o erro de registro catalográfico - as coisas podiam voltar a fazer sentido.

em tempo: até existe um luiz de andrade (1849-1912) autor de algumas obras, mas, tal como no caso do outro luiz oitocentista, nada, absolutamente nada indica que tenha a mais remota relação com o nosso luís de andrade tradupor d'a utopia.


4 de jul de 2017

ufa


eu tinha ficado encafifadíssima com uma indicação que vi em alguns artigos sobre nossa primeira tradução brasileira de utopia, de 1937. segundo essa indicação, o tradutor luís de andrade (na época grafado com z, luiz) seria o engenheiro e escritor pernambucano luiz de carvalho paes de andrade (1814-1887).

por várias razões que exporei em outro post, a coisa não fazia o menor sentido para mim. fui atrás. bom, após algumas consultas, descobri que a origem exclusiva da referência era a ficha catalográfica da obra registrada no sistema dedalus, da usp.

escrevi para lá, pedindo que me informassem de onde haviam extraído aquela bendita informação de que luiz de carvalho paes de andrade (o qual, até onde sei, jamais traduziu uma única linha) teria sido o tradutor de utopia (a qual, até onde sei, jamais fora publicada no brasil antes de 1937, muito menos no século XIX).

claro que não comentei nada disso em minha consulta. apenas pedi a fonte da referência. não sei que diligências fizeram, nem como rastrearam o lapso e/ou a origem do lapso. mas hoje veio a resposta muito gentil e atenciosa, que reproduzo:
Desculpe a demora em responder. Encaminhei a sua dúvida para o nosso Processamento Técnico e eles fizeram a correção no Sistema. Realmente estava incorreto: o autor secundário não era este Andrade, Luiz de Carvalho Paes de, 1814-1887.
fica então o registro e o aviso aos navegantes: luiz de andrade, tradutor d' a utopia pela athena editora e sucessivas reedições em outras casas editoriais até data recente, não é - e, até prova em contrário, não tem nada a ver com - luiz de carvalho paes de andrade. qualquer menção nesse sentido pode ser, a meu ver, solenemente desconsiderada.

agora, quem era, quem foi luiz de andrade tradutor d' a utopia, é assunto de outra conversa.


23 de jun de 2017

mais cinco autores e suas respectivas estreias em livro no brasil

Schopenhauer, 1887: 

O primeiro volume de Schopenhauer a ser publicado no Brasil em tradução brasileira foi Metaphysica do amor. Esboço sobre as mulheres (Pensamentos e fragmentos). A tradução ficou a cargo de Manuel Coelho da Rocha, muito provavelmente tomando por interposição a versão francesa de Jean Bourdeau (1880), Pensées e fragments. Foi publicada pela editora Laemmert em 1887.

A Semana, 1887, ed. 0144


Sua quarta edição em 1904, pela Bibliotheca Philosophica da Laemmert, vem, como consta em sua nova capa, "augmentada com um appendice sobre a pederastia". Essa tradução de M.C. da Rocha foi reeditada pela Cultura Moderna em 1938.



Para um histórico de Schopenhauer no Brasil, veja-se aqui.


Tolstói, 1890:

A obra que inaugurou Tolstói em livro no brasil foi A sonata de Kreutzer, em tradução de Visconti Coaracy. Foi publicada em 1890 pela B.-L. Garnier e serializada no Diário de Notícias logo após seu lançamento, de dezembro de 1890 a janeiro de 1891.

Essa edição se reveste de grande importância, e tanto maior por ter sido a primeira publicação em livro de um autor russo no Brasil, assim inaugurando a fértil bibliografia que veio a se multiplicar algumas décadas depois entre nós.

Infelizmente não obtive imagem de capa. Sobre a fortuna bibliográfica de Tolstói no Brasil, veja-se aqui.


Hegel, 1936:

A primeira obra integral de Hegel traduzida e publicada no Brasil foi a Enciclopédia das ciências filosóficas, em três volumes, pela Athena Editora, em 1936. A tradução coube a Lívio Xavier, e não me parece impossível que tenha sido feita a partir da tradução espanhola de Eduardo Ovejero y Maury. Teve diversas reedições.



Jane Austen, 1940:

Somente em 1940 sai no Brasil a primeira tradução de um livro de Jane Austen. Trata-se de Orgulho e preconceito, em tradução de Lúcio Cardoso. Teve inúmeras reedições e foi objeto de apropriação fraudulenta pela editora Best-Seller, como apontei aqui e aqui.


Para outras traduções feitas por Lúcio Cardoso, veja-se aqui.


Emily Dickinson, 1945:

Os primeiros poemas de Emily Dickinson a ser traduzidos e publicados em livro no Brasil foram "I never lost as much but twice", "I died for Beauty – but was scarce", "This quiet Dust was Gentlemen and …", "I never saw a Moor" e "My life closed twice before its close", apanhados na seção "Cinco poemas de Emily Dickinson" em Poemas traduzidos, por outro grande nome de nossas letras: Manuel Bandeira. Poemas traduzidos teve sua primeira edição em 1945, pela R.A. [Revista Acadêmica].




Vide também o post anterior sobre outros cinco autores aqui.

20 de jul de 2016

"luiz fontoura"/ carlos lacerda

já comentei várias vezes a importância da editora athena para a tradução no brasil, cujos colaboradores eram, em sua maioria, militantes políticos, perseguidos, fichados, presos durante a ditadura varguista. um desses tradutores da athena, "luiz fontoura", poucos sabem que era o pseudônimo de carlos lacerda em sua fase comunista:



12 de ago de 2015

berenice xavier



Berenice Barreto Xavier nasceu em 20 de fevereiro de 1899, em Granja, no Ceará, filha de Elisa Barreto Xavier e do "coronel" Ignácio Xavier, a segunda entre treze filhos. Muda-se para o Rio de Janeiro em 1932, onde já se encontrava seu irmão Lívio Xavier. Além de tradutora, trabalhou na agência de notícias Reuters, no Instituto Nacional do Livro e na Biblioteca Nacional. Lá permanece até 1969, quando retorna ao Ceará, radicando-se em Fortaleza até sua morte, em 12 de julho de 1986. (Embora a foto acima apresente Berenice Xavier como militante trotskista, afirmam fontes de sua família que ela nunca chegou a ingressar formalmente na Liga Comunista Internacionalista, de que seu irmão fora um dos fundadores. Neste caso, talvez o mais adequado seja qualificá-la de simpatizante trotskista.)

Berenice inicia suas atividades de tradutora profissional em 1936, na Athena Editora, de propriedade de Pasquale Petraccone, importante líder antifascista entre as colônias italianas no Brasil e simpático ao movimento trotskista. Como Lívio Xavier já traduzia para a Athena, provavelmente pode ter sido por meio dele que Berenice passou a traduzir para a casa. É ela a responsável pela primeira tradução brasileira de The Taming of the Shrew, de Shakespeare, inaugurando a coleção Bibliotheca Theatral da casa. O título escolhido para a obra é A megera domada, e como tal acabou se consagrando.



Suas traduções seguintes também são para a Athena:
  • À Megera, segue-se em 1937 outra peça de Shakespeare, O mercador de Veneza, como terceiro volume da referida Bibliotheca Theatral.




  • Ainda em 1937, é lançada sua tradução d' As histórias de Públio Cornélio Tácito, em dois volumes, pela coleção Biblioteca Classica.



  • Em 1939 temos sua tradução de Laurence Sterne, Viagem sentimental [na França e na Itália], também pela Biblioteca Classica da Athena, vol. XXIX.


Em 1938, com a intensa perseguição da ditadura estadonovista, Pasquale Petraccone é preso e obrigado a interromper suas atividades editoriais, que retomará posteriormente em São Paulo, transferindo sua editora para lá em 1939. Aqui cessam as colaborações de Berenice com a Athena.

Passam-se alguns anos sem novas traduções. Seu retorno à atividade parece ter-se dado a partir de um trabalho de circunstância para a José Olympio. Digo "de circunstância" porque a José Olympio publicava Pequena história do mundo, de H.G. Wells, em tradução de Gustavo Barroso, desde 1937. Em 1944, a editora lança a terceira edição da obra, mas agora ampliada, com três novos capítulos. A tradução desses capítulos adicionais ficou a cargo de Berenice. A partir dessa data, ela volta a traduzir com bastante frequência e, até o final dos anos 1950, sobretudo para a José Olympio, com várias reedições e licenciamentos para outras editoras. Nesses dois decênios, temos:

  • H. G. Wells, Pequena história do mundo. 3ª. ed. ampliada, tradução de Gustavo Barroso, agora com os três novos capítulos trad. Berenice. José Olympio, 1944

  • Gwen Bristow, Um romance do sul. José Olympio, 1944

  • Katherine Brush, "Night Club", in Os norte-americanos: antigos e modernos. Leitura, 1945. 

  • Charles Dickens, Uma história em duas cidades. Coleção Fogos Cruzados.  José Olympio, 1946. 

  • Kropotkine, Em torno de uma vida - memórias de um revolucionário. Coleção Memórias, Diários, Confissões, v. 19. José Olympio, 1946 (tradução em parceria com Lívio Xavier)

  • Arthur Koestler, Cruzada sem cruz. Instituto Progresso Editorial, 1948

Segundo um alerta feito aqui, essa tradução de Koestler feita por Berenice teria sido indevidamente apropriada pela editora Germinal, em 2000, apresentando-a em nome de "Juliana Borges".  

  • William Faulkner, Luz de agosto. Coleção Nobel. Globo, 1948 

  • Honoré de Balzac, Comédia humana. Globo, 1948-. No empreendimento coordenado por Paulo Rónai, Berenice Xavier traduziu vários dos estudos introdutórios que acompanhavam cada volume. Citem-se: Georg Brandes, "Balzac"; Theodore de Banville, "Honoré de Balzac"; Émile Zola, "Chaudes-Aigues e Balzac"; Henry James, "Balzac"; Marcel Proust, "O caso Lemoine num romance de Balzac"; Anatole France, "Balzac"; Fernand Baldensperger, "Balzac, escritor universal"; Paul Bourget, "Balzac e o primo Pons"
  • Herman Melville, Moby Dick. José Olympio, 1950 
capa da edição de 1956

A propósito, comenta Mário Luiz Frungillo, aqui
Sobre a tradução de Berenice Xavier, uma curiosidade: Na primeira edição, de 1950, faltavam as epígrafes sobre as baleias [...]. A falta foi notada por Augusto Meyer, em artigo sobre o centenário do romance (depois recolhido em Preto & Branco). Nas edições seguintes, a José Olympio reintroduziu as epígrafes, em tradução de Olívia Krähenbühl, e aproveitou também para incluir a "epígrafe que escapou" a Hermann Melville, encontrada por Meyer na Descrição da Ilha de Itaparica, do Frei Manuel de Santa Maria Itaparica. 
  • Frank Yerby, Turbilhão. José Olympio, 1952

  • Theodore Harnberger, Os Estados Unidos através de sua literatura. Os Cadernos de Cultura, vol. 53. MES, Serviço de Documentação, 1953  

  • Frank Yerby, O tesouro do Vale Aprazível. José Olympio, 1956

  • A.J. Cronin, Sob a luz das estrelas. José Olympio, 1957. Aqui é um caso interessante: a JO vinha publicando essa obra em tradução de Rubem Braga desde 1939, e já estava em sua sétima edição. Por alguma razão que ignoro, a editora resolveu contratar nova tradução, agora de Berenice, para sua oitava e subsequentes edições:


Como se vê, até essa data a editora para a qual Berenice traduz com maior frequência é a José Olympio. Em janeiro de 1959, o crítico e também tradutor Otto Schneider comenta em uma breve nota em sua coluna "Vida Literária", da revista mensal Vida Doméstica:
Berenice Xavier está traduzindo Absalão, Absalão, romance de William Faulkner, programado por José Olympio. 
Curiosamente, essa tradução - se é que chegou a ser concluída - nunca veio à luz; na verdade, teremos Absalão, Absalão no Brasil somente em 1981, pela Nova Fronteira, em tradução de Sônia Régis. Não sei o que pode ter ocorrido: algum impedimento por razão de saúde, algum desentendimento com a casa, talvez; o que sei é que Berenice deixou de fazer traduções para a José Olympio.

Nos anos 1960, suas traduções se tornam mais esporádicas, concentrando-se na Civilização Brasileira. Antes de vermos quais são, detenhamo-nos numa ocorrência que não consegui esclarecer, que exponho a seguir.

Berenice traduziu o conto "William Wilson", de Edgar Allan Poe. Encontro algumas referências (e eu mesma a citei alguns anos atrás em meu blogue dedicado a Poe no Brasil) dando essa sua tradução como integrante de uma antologia chamada Contos fantásticos, pela Nova Aguilar, em 1965. No checamento dos dados, porém, não consigo encontrar nenhum volume lançado pela Nova Aguilar com esse título. Ademais, em 1965 a Nova Aguilar já lançara a tradução de Milton Amado e Oscar Mendes de toda a prosa completa, poemas e ensaios de Poe, que a Globo publicara desde 1944. Não sei em que fonte se basearam os que citam um volume de Contos fantásticos pela NA em 1965, mas sinto-me tentada a crer que talvez se trate de um equívoco. De todo modo, o seguro é que "William Wilson" em tradução de Berenice Xavier consta no volume Histórias extraordinárias da Civilização Brasileira, de 1970.

Passemos agora a suas demais traduções:
  • Ernest Hemingway, O sol também se levanta. Biblioteca do Leitor Moderno, v. 73. Civilização Brasileira, 1966

  • Henry James, A herdeira. BUP, 1967 (a BUP pertencia também a Ênio Silveira, proprietário da Civilização)

  • Isaac Babel, A cavalaria vermelha. Civilização Brasileira, 1969

  • Shakespeare, Contos de Shakespeare. Adaptação de Charles e Mary Lamb. Contém: A tempestade; Sonho de uma noite de verão; Conto de inverno; Muito barulho por nada; Como quiseres; Dois fidalgos de Verona; O mercador de Veneza; Cimbelino; O rei Lear; Macbeth; Tudo é bom quando acaba bem; A megera domada, A comédia dos erros; Medida por medida; A Noite dos Reis, ou o que quiseres; Timos de Atenas; Romeu e Julieta; Hamlet, príncipe da Dinamarca; Otelo; Péricles, Príncipe de Tiro. Civilização Brasileira, 1970

Não deixa de haver uma certa justiça poética no fato de que Berenice encerre sua carreira tradutória por onde começou: em que pese serem adaptações, aqui retornam A megera domada e O mercador de Veneza, com que estreara na Athena em 1936 e 1937.


Para concluir, eis duas quadrinhas do poema "Ao sol da praia", de Carlos Drummond de Andrade, que saiu em jornal em 1957, depois apanhado em Versiprosa (1967):
Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa. 
É tradução de Berenice
Xavier, sabes? portanto boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.

Agradeço a Berenice Xavier, sobrinha homônima, que muito gentilmente forneceu os dados biográficos de apresentação.

8 de ago de 2015

o mercador de berenice

comentei antes que berenice xavier está entre os primeiros tradutores de shakespeare no brasil, pela athena editora. depois d'a megera domada em 1936 - veja aqui -, temos o mercador de veneza, em 1937:




devo as imagens da página de rosto e verso à gentileza de márcia peixoto martins, da puc-rio.


2 de jul de 2015

o shakespeare de berenice

creio que esta é uma das traduções brasileiras menos conhecidas e raramente citadas d'a megera domada - a primeira, aliás. foi feita por berenice xavier e publicada pela editora athena em 1936.



berenice xavier também traduziu o mercador de veneza para a athena, em 1937 (contribuição esta igualmente pouco lembrada na fortuna shakespeariana brasileira).


10 de fev de 2013

"j. l. moreira"

mais um personagem daqueles intrigantes mistérios de identidade é "j. l. moreira", que aparece como tradutor da vida de benvenuto cellini escrita por ele mesmo, que saiu pela athena em 1939, quando já se transferira para são paulo.



a obra foi reeditada, como se pode ver pela capa abaixo, quando a athena, após a reforma ortográfica de 1942, alterou a grafia para "atena", sem o "h".



para situar a athena, consulte aqui.
para a questão das misteriosas identidades de alguns colaboradores da athena, veja aqui.

"j. l. moreira" é tradutor de um livro só, a dita autobiografia de cellini, que teve uma edição só, a de 1939.

e eis que me lembro da preciosa carta que fúlvio abramo escreveu na prisão, quando estava traduzindo vida nova de dante, que saiu sob o pseudônimo de "blásio demétrio".*

ali diz ele: "Ainda não recebi a 'Minha Vida' de Cellini, que também pretendo traduzir".


será que ele recebeu o exemplar? será que o traduziu? será que assinou sua tradução como "j. l. moreira"? esta aí mais uma sugestão de pesquisa para estudantes de tradução.

* agradeço mais uma vez a paula abramo pela gentileza em fornecer uma cópia desse precioso documento que é a carta de seu avô fúlvio abramo.

14 de jan de 2013

traduzires

saiu o número 2 da revista traduzires, da unb, disponível aqui


agradeço a publicação de um artigo meu, chamado "uma vinheta", aqui.

9 de dez de 2012

sérgio milliet? que coisa...

alguns anos atrás, gabriel perissé havia comentado em sua coluna na revista língua portuguesa as semelhanças que detetara entre as traduções de "paulo m. oliveira" e de sérgio milliet para os pensamentos de pascal.

"paulo m. oliveira" foi o pseudônimo usado por aristides lobo em suas traduções, geralmente feitas nos períodos que passou no cárcere nos anos 1930 - ver aqui. a tradução dos pensamentos de pascal foi publicada pela athena editora em 1936, com algumas reedições nos anos 40. infelizmente não localizei imagem de capa.

em 1957, a difel inaugura sua coleção "clássicos garnier" com os pensamentos pascalinos, em tradução que se dizia de sérgio milliet.

hoje, cá estou eu relendo alguns artigos de paulo rónai apanhados em escola de tradutores e lá encontro à p. 92 (minha edição é de 1987):
Teria gostado de compará-lo com os trabalhos de seus vários predecessores, mas só tive à mão, no momento, uma única versão em português, a de Paulo M. Oliveira, da Atena Editora (São Paulo, s.d.). O confronto dessa versão com a de Sérgio Milliet mostra que este, embora tenha aproveitado trechos inteiros do trabalho de seu antecessor, soube divergir dele quando a interpretação carecia de exatidão, clareza ou elegância. [destaque meu, db]
bom, conheço esse trabalho de alterar um texto para melhorar a precisão, a clareza e o torneio de frase pelo nome de "revisão" ou "copidesque". quanto a "aproveitar trechos inteiros do trabalho de seu antecessor" sem dar a fonte nem os créditos correspondentes, em minha terra isso se chama "plágio".

diplomático, paulo rónai não usa o termo, mas não deixa margens de dúvidas em sua incisiva descrição do procedimento adotado: como diz ele, sérgio milliet aproveitou trechos inteiros do trabalho de paulo m. oliveira.


a partir de 1966, essa "tradução" de milliet passa a ser publicada pela tecnoprint, em sua coleção de "clássicos de bolso":



















que fique então aqui registrada a constatação de mestre tão abalizado, já desde a época do lançamento da obra pela difel.


8 de out de 2012

que contraste!



inúmeras vezes frisei a importância de se pesquisarem amplamente as grandes contribuições da esquerda brasileira para a abertura do brasil ao mundo por intermédio da atividade de tradução.

inúmeras vezes também apontei as descabeladas fraudes de tradução perpetradas pelo clube do livro em seus quarenta anos de existência mais ou menos intermitente. consistiam basicamente na apropriação de traduções em geral portuguesas, que eram publicadas ou anonimamente ou, com maior frequência, como "feitas especialmente para o clube do livro por josé maria machado".

num expressivo contraste de valores, posições e ações - pense-se, por exemplo, na athena editora (aqui) -, tem-se que mário graciotti, concebedor, fundador e proprietário do clube do livro, era um destacado membro da frente integralista brasileira, tendo sido, aliás, seu primeiro secretário.

hoje vim a descobrir que josé maria machado, o tal das "traduções especiais" do clube do livro, era correligionário de graciotti e foram ambos companheiros de fundação da SEP (sociedade de estudos políticos), capitaneada por plínio salgado, à qual se seguiu, poucos meses depois, a fundação da AIP (ação integralista brasileira). conta graciotti que machado - "português de nascimento, mas brasileiro de coração" - era um funcionário do clube português, cuja sede abrigara a assembleia de fundação da entidade. veja-se aqui o artigo de victor emanuel vilela barbuy, "setenta e seis anos da sep". machado escreveu uma obra chamada a marca de caim (cujo título, em tal contexto, dispensa maiores comentários), publicada em 1948 pela coluna sociedade editora.

imagem: capa da revista anauê, 1935, ano I, n. 2, aqui

23 de mai de 2012

athena editora

chama a atenção o catálogo humanista, quase iluminista, da athena editora, desde a data de sua fundação (agosto de 1935). são dos primeiros aportes de campanella, erasmo, maquiavel, shakespeare, racine, la bruyère, rousseau, voltaire, diderot, musset, hegel, ricardo, darwin, croce, kropótkin, górki... chama a atenção também o perfil de seus colaboradores: lívio e berenice xavier, fúlvio abramo, aristides lobo, evaristo de morais, francisco frola.

laurence hallewell, em seu amplo levantamento da história d' o livro no brasil, faz apenas uma brevíssima menção à editora, desproporcional à sua importância e não efêmera existência. ao tratar dos efeitos da profunda crise mundial a partir de 1929, entre elas a brutal queda do volume de livros importados para menos de um terço, chegando ao pico de baixa em 1936, quando a importação da frança estava 94% abaixo dos patamares de 1928. é nesse contexto econômico que o livro brasileiro e a ficção traduzida no brasil têm um arranque inédito, iniciado pela livraria do globo - "outras logo a acompanharam, a athena editora, do rio, por exemplo, fundada em 1935". é esta a única menção de hallewell à athena.

sergio miceli, em intelectuais à brasileira, cita também rapidamente a athena, apesar de classificá-la entre as editoras de médio porte: apenas menciona a cifra de 70 mil exemplares atingida em 1937.

o diário oficial da união determina o registro da athena editora em sua edição de 26 de agosto de 1935, com o termo 36.330. seu proprietário: p. petraccone.

o mesmo miceli menciona petraccone muito por cima, precisamente no contexto econômico apontado por hallewell: "vários comerciantes especializados na importação de livros resolvem ampliar suas atividades no ramo com a abertura de um departamento editorial: pongetti, vecchi, petraccone, garavini, bertaso, zagari etc. foram sensíveis às mudanças que então se operavam e passaram a traduzir para o mercado interno as obras que antes eles mesmos importavam" (p.142).

trata-se de pasquale petraccone, editor do jornal italia libera, integrante destacado da liga antifascista das colônias italianas no brasil, de agitada biografia e intensa participação nos movimentos de esquerda no país, classificado nos arquivos do dops como trotskista. há fartíssimo material sobre suas atividades, mas muito pouco sobre seu trabalho à frente da athena editora.

está aí um tema fecundo para pesquisas sobre as contribuições da militância de esquerda não-stalinista para a história cultural brasileira.

trad. lívio xavier, 1936
Clique para ampliar a capa
Clique para ampliar a capa

Clique para ampliar a capa




Clique para ampliar a capa

Viagem Sentimental na França e na ItáliaPequenos Poemas em Prosa

Clique para ampliar a capaClique para ampliar a capaClique para ampliar a capa

As Confissões (Volume 2)As Histórias (2º Vol. )``I Fioretti´´ de São Francisco de Assis - Seguidos do ``Cânticos do Sol´´

Dicionário Filosófico
O Sobrinho de Rameau
DOS DELITOS E DAS PENAS
SATIRICONClique para ampliar a capa


Discursos Sobre as Ciências e as Artes e Sobre a Origem da DesigualdadeCarceres e Fogueiras da Inquisição : Processos contra Antônio José, o <i> Judeu</i>