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27 de fev de 2009

carlota tropical


o pobre werther de galeão coutinho já havia caído nas garras da nova cultural, em sua coleção "obras-primas" patrocinada pela suzano celulose.

a pseudoeditora martin claret, cuja única ou principal atividade parece consistir em copiar o já feito, seguiu o exemplo da nova cultural e surripiou, também ela, a tradução de galeão coutinho.

o plágio na nova cultural vinha em nome de um tal alberto maximiliano, e era praticamente literal, de fio a pavio.

o surripio na martin claret vem em nome do inefável peter von nassetten, e mostra um vão empenho copidescatório que, aliás, apenas reforça a malandrice ishperta da edição.*
* a situação desse werther na fbn/isbn é meio confusa: além de não dar nome de tradutor, ele consta como vol. 43 da coleção "a obra-prima de cada autor", sendo que no exemplar impresso consta como vol. 51.

a. galeão coutinho (abril, sob licença da livr. martins)
b. peter von nassetten (martinus klaretten)

a. junho, 16

[...] - quando eu era mais jovem - disse-me ela -, nada me fascinava tanto como os romances. só deus sabe quanto eu me sentia feliz, aos domingos, recolhendo-me a um cantinho para participar, de todo o coração, da felicidade ou do infortúnio de qualquer srta. jenny. não nego que esse gênero de leitura ainda encerra algum encanto para mim; acontece, porém, que são tão raras as vezes em que posso agora abrir um livro, que me tornei mais exigente na escolha. o autor que eu prefiro é aquele onde eu encontro meu mundo costumeiro e os incidentes comuns no meu círculo de relações, de sorte que sua narrativa me inspire um interesse tão cordial como o que acho na minha vida doméstica, a qual, embora não seja um paraíso, me oferece uma fonte de felicidade inexprimível.

esforcei-me, debalde, por abafar a emoção que essas palavras me produziram. quando ela se referiu, de passagem, ao vigário de wakefield, de ...*, com tanta verdade, não me contive e disse-lhe tudo quanto a respeito eu pensava. só ao cabo de algum tempo, ao dirigir-se carlota, novamente, às outras duas damas, percebi que ambas, arregalando muito os olhos, tinham estado até ali inteiramente alheias à nossa conversa. a prima olhou-me por mais de uma vez com um ar de troça, mas não liguei importância.

a conversa recaiu sobre o prazer da dança.

- se essa paixão é um crime - disse carlota -, não posso ocultá-lo; para mim, não há nada melhor do que a dança. se alguma coisa perturba a minha cabeça, é só sentar-me ao meu cravo desafinado e martelar uma contradança, e está tudo acabado! (pp. 304-305)

* aqui, também, suprimimos o nome de vários escritores do nosso país. se alguns daqueles a quem são endereçados os elogios de carlota chegarem a ler esta passagem, serão com certeza advertidos pelo próprio coração. quanto aos demais, nada têm a ver com isso.

b. 16 de junho

[...] - quando eu era mais jovem - disse ela -, nada me fascinava tanto como os romances. só deus sabe o quanto eu me sentia feliz, aos domingos, recolhendo-me a um cantinho para compartilhar, de todo o coração, da felicidade ou das desventuras da srta. jenny. não nego que esse gênero de leitura ainda tenha algum encanto para mim; como agora, porém, são tão raras as vezes em que posso abrir um livro, tornei-me mais exigente na escolha. o autor que eu prefiro é aquele em que reconheço o mundo e os incidentes comuns no meu círculo de relações, tornando a história tão interessante e terna quanto a minha vida doméstica, que, embora não seja um paraíso, é para mim fonte de felicidade inexprimível.

esforcei-me para ocultar a emoção que essas palavras me produziram. quando ela se referiu, de passagem, ao vigário de wakefield, de ...*, com tanta verdade, não me contive e disse-lhe tudo o que pensava a respeito. só ao cabo de algum tempo, ao dirigir-se lotte novamente às outras duas damas, percebi que ambas, arregalando muito os olhos, tinham estado até ali inteiramente alheias à nossa conversa. a prima olhou-me por mais de uma vez com um ar zombeteiro, mas não dei importância.

a conversa recaiu sobre o prazer da dança.

- se essa paixão é um crime - disse lotte - não posso ocultá-lo; para mim, não há nada melhor do que a dança. se alguma coisa perturba a minha cabeça, é só sentar-me ao meu cravo desafinado e martelar uma contradança, e tudo volta ao normal! (pp. 26-27)

* novamente suprimimos o nome de vários de nossos escritores . se alguns daqueles a quem são endereçados os elogios de lotte chegarem a ler essa passagem, acharão seu nome no próprio coração. quanto aos demais, nada têm a ver com isso.


quem quiser contribuir com o vandalismo intelectual, encontra a carlota abaixo do equador nos usuais valhacoutos dos ishpertos: saraiva, curitiba, cultura, fnac, americanas, travessa - todos garbosa e solidariamente responsáveis com o editor responsável pela fraude, nos termos do artigo 104, capítulo II do título VII da lei 9.610/98.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagem: assinatura de goethe, www.dw-world.de

30 de dez de 2008

trivia II


ainda nas sarjetas. como disse, não que isso acrescente muita coisa, só dá um certo colorido.

o monstrengo covacultural/suzano das pseudo-obras-primas teve seu lançamento alardeado com todas as trombetas em agosto de 2002. dona janice da nova cultural e dona christine do instituto ecofuturo já vinham alardeando desde 2000 o grande feito da democratização cultural que iriam promover. trataram das verbas, dos contratos, dos percentuais, só se esqueceram de uma coisa: as obras que lhes garantiriam o rico dinheirinho dos papalvos que, ao comprar tal coleção, acreditavam na promessa de estar migrando automaticamente para o mundo da alta literatura.

os livrecos já estavam nas bancas, quando a nó cultural* mandou seus releases brasil afora e a revista veja, do caridoso irmão roberto civita, deu uma colher de chá e publicou o teor da tal coleção que resgataria os oprimidos e humilhados de sua triste condição de sub-aculturados.

o curioso neste release da nova (in)cultural/suzano publicado pela revista veja e reproduzido em vários outros veículos é que boa parte dele não corresponde ao que foi efetivamente (e fraudulentamente) publicado na coleção obras-primas da nova (in)cultural/suzano.

pois vejam o que ela anunciava em seu release e o que fato aconteceu (sem falar dos plágios, apenas das trapalhadas na grande imprensa) - repito, o release foi publicado depois do lançamento dos primeiros volumes, quando seria de se supor que a coleção já estaria definida:

- crime e castigo sairia em nome de natália nunes; saiu anônimo;
- o leopardo sairia em nome de calvin carruthers (é, aquele mesmo dos filmes de terror); saiu em nome do barato trocadilho de leonardo codignoto;
- tom sawyer deveria sair em tradução de "terezinha monteiro" [leia-se therezinha monteiro deutsch]; saiu no nome legítimo de luísa derouet - talvez contrafação, mas não plágio;
- morte em veneza e tonio kroeger, de thomas mann, que sairiam em nome de calvin carruthers, mais uma vez, foram substituídos de última hora por as três irmãs, de tchecov, na tradução autêntica de maria jacintha;
- o morro dos ventos uivantes, que sairia em nome de uma tal "dirce tashima sato", acabou saindo em nome de outra igual desconhecida "silvana laplace";
- o pobre pirandello do falecido mattia pascal e dos seis personagens, com fraude anunciada em nome de "enrico corvisieri", acabou saindo na fraude de "fernando corrêa fonseca";
- tom jones que, na ciranda bandida da cova cultural, deveria sair em nome de uma desconhecida "lucília trindade", acabou saindo no nome de outro ilustre fantasma, "jorge pádua conceição";
- werther e fausto de goethe, anunciados neste release em nome do tal fábio maximiliano alberti, acabaram saindo com o criativo pseudônimo de alberto maximiliano;
- tentaram impingir a fraude de naná a vera maria renoldi, figura de carne e osso, que por alguma razão foi substituída de última hora pelo fantasmagórico roberto valeriano;
- há também o ridículo caso das tragédias de shakespeare, anunciadas no release em nome de paranhos touceiros: foram publicadas na tradução legítima de beatriz viégas-farias, após uma falcatrua indizível que a nova cultural plantou em cima da lpm que, bobamente, lhes cedeu a bela tradução de beatriz em troca das ridículas fraudes de fábio alberti e enrico corvisieri;
- dorian gray, que a nova (in)cultural anunciou em tradução de oscar mendes, acabou publicado em nome do inefável enrico corvisieri;
- anunciada a publicação de ilusões perdidas em todos os meios de comunicação do país; a nova (in)cultural na última hora deu para trás sem qualquer explicação e lançou mais uma fraude em nome de enrico corvisieri, com a mulher de trinta anos.

UFA! eis aqui o release divulgado pela revista veja: http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/210802/obras_primas.html

o ponto é que nem a própria equipe da dona janice parecia saber o que estava fazendo. a questão era só financeira, no maior improviso de revirar os baús herdados. então montaram um release todo atrapalhado, meio à balda, com atribuições aleatórias dos créditos - depois que a coleção já havia sido lançada. tipo, nóis fais e depois vê o que é que vira. este é o conceito cultural de democratização cultural da nova cultural e do instituto ecofuturo. vixe, é cultura demais para meu caminhãozinho!


* de novo agradeço ao anônimo colaborador do blog a adequada alcunha.
imagens: till eulenspiegel, www. erich_hat_jetzt_zeit.de

29 de dez de 2008

trivia I


não que faça muita diferença, mas vão aí uns rudimentos sobre a construção de "pseudônimos".

começa assim: a cova cultural* resolve publicar a toque de caixa uma coleção tirada do baú, "obras-primas", um monstrengo montado a partir de vários pedaços de coleções anteriores da abril cultural, com o patrocínio da suzano celulose bancando 50% da edição.

ela descobre que não detém os direitos de publicação de boa parte dos títulos, mas não vai se deixar desacorçoar por um detalhe desses. fácil, é só trocar os nomes dos verdadeiros tradutores por outros nomes, alguns de gente de verdade, outros inventados. afinal, que diferença faz... (isso me lembra o que me contaram do editor da claret num encontro que ele teve com uma das inúmeras editoras lesadas: "ué, mas por que tanta história? é só uma tradução, é tudo a mesma coisa!")

e assim fábio m. alberti, um fulaninho de carne e osso, assina o terceiro volume da coleção, a divina comédia, inaugurando o capítulo das fraudes na coleção covaculturaliana. é o terceiro volume, mas digo que é ele que inaugura porque os volumes anteriores (dom quixote e os trabalhadores do mar) trazem as traduções em domínio público dos dois viscondes e de machado de assis.

aí dona janice resolve pular o nome da tradutora natália nunes no quarto volume, e no quinto volume ressurge o mesmo fábio m. alberti, agora em cyrano de bergerac. todos hão de convir que não são as obras mais banais do mundo, e que o tal fábio foi trêfego e ligeirinho em abocanhar essas iguarias.
[em tempo, o m. é de "maximiliano": fábio maximiliano alberti.]

seguem-se alguns enricos corvisieris, umas mirtes ugedas, e lá pelas tantas a turminha bem-humorada das cobras-primas fica indecisa sobre o nome a atribuir às traduções de fausto e werther, em substituição aos nomes de silvio meira e galeão coutinho.

é então que tiram do chapéu um tal "alberto maximiliano" para ornar o volume de goethe nas obras-primas cova-culturais. em vista do exposto acima, a fonte de inspiração dispensa maiores esclarecimentos.

uma outra solução, mais indireta, mas também mais zombeteira, foi a que a divertida trupe deu ao sumiço de rui cabeçadas nos créditos de tradução de o leopardo: criou-se o espectral leonardo codignoto. o processo mental não é difícil de acompanhar, mas é como uma piada: se explicar, perde a graça, e o leitor certamente entenderá a composição do trocadilho.

já no nível do puro escárnio foi a utilização do nome "calvin carruthers". esse caso saiu na matéria do prosa&verso do globo, mas vou repetir aqui.

calvin carruthers aparece como tradutor de a metamorfose do kafka nessas obras covaculturais. aviso que não fui atrás dessa tradução, não sei se é plágio ou deixa de ser, mas o uso do nome de fantasia por si só já dá um certo pano para a manga.

bom, qualquer criança sabe que o protagonista do livro se chama gregor samsa. e de que rincão do mundo algum desinfeliz resolveu desenterrar o nome de "calvin carruthers" como tradutor das vicissitudes de gregor samsa?

aí, por mero acaso, você sabe que um ator chamado vic tayback fez em 1971 um filme de horror chamado blood and lace, onde representava o papel de um detetive chamado "calvin carruthers". e sabe também que no último filme do tayback antes de morrer, em 1990, seu personagem se chamava george samsa. (quem gostar dessas curiosidades, pode ver a filmografia dele.) aqui o processo mental da turminha covaculturaliana é mais elaborado, com uma triangulação das referências, mas nada muito complicado. o complicado é o despudor com que se exibe o prazer pelo escárnio.

a clara sensação que a gente tem é de uma criançada pintando o diabo a quatro e achando suas molecagens muito espertas e engraçadas. o problema é quando as pequenas travessuras se põem a serviço de uma prática editorial desonesta, que atinge milhões de pessoas. aí perdem qualquer graça.

*agradeço ao comentarista anônimo deste blog o bem-azado apelido de cova cultural.

imagem: cordel sobre o plágio, www.globoonliners.com.br

24 de dez de 2008

o bom combate

e os bons meninos de 2008 não se decepcionarão com santa klaus.



santa klaus, de calder

pois vejam lá:

- luiz costa lima recebe sua indenização da nova (in)cultural pelo plágio de o vermelho e o negro, de stendhal, vergonhosamente copiado e atribuído a uma tal "maria cristina f. da silva";

- dr. marco túlio de barros e castro, advogado que atuou neste caso, avisa que está para sair na grande imprensa a errata e retratação pública da nova (in)cultural nesta espoliação a luiz costa lima;

- hernâni donato, grande figura de nossa história cultural, declara que na primeira quinzena de janeiro finalmente sairá alguma proposta concreta do sr. richard civita quanto aos malfeitos da nova (in)cultural no caso de sua primorosa recriação da divina comédia, criminosamente copiada pela dita nova (in)cultural em nome de um tal "fábio m. alberti";

- elena quintana, solenemente espoliada no caso das traduções de mario quintana, coloca à frente a editora globo em defesa do nome de seu tio : contos de voltaire, tradução criminosamente atribuída pela nova (in)cultural a um tal "roberto domenico proença", e lord jim, tradução criminosamente atribuída pela nova (in)cultural a uma tal "carmen lia lomonaco";

- regina galante declara estar dando andamento a providências judiciais contra o crime cometido contra seu pai galeão coutinho, miseravelmente espoliado pela nova (in)cultural na edição de werther de goethe, e está criando uma fundação galeão coutinho, para melhor preservar sua memória;

- ângela xavier de brito declara que tão logo venha ao brasil tomará as providências judiciais em defesa da obra de seu avô, carlos porto carreiro, brutalmente espoliado pela nova (in)cultural no plágio de cyrano de bergerac;

- liliane mendes cajado afirma andamento para processar os crimes cometidos pela nova (in)cultural contra a memória de seu falecido marido, octavio mendes cajado, em tom jones e os três mosqueteiros, em plágios em que a nova (in)cultural atribui as traduções respectivamente a um tal "jorge pádua conceição" e à tal "mirtes ugeda coscodai";

- o advogado dr. andré meira declara estar atendendo à necessidade de uma atitude urgente em resolver o saque perpetrado contra seu avô, silvio meira, criminosamente espoliado pela nova (in)cultural em sua tradução de fausto;

- oscar mendes tem seus direitos morais defendidos pela editora globo na espoliação que sofreu em sua tradução o morro dos ventos uivantes;

- joão paulo monteiro toma providências para pôr cobro ao despudorado plágio de sua tradução de o leviatã perpetrado pela martin claret;

- joão paulo monteiro declara que tomará providências judiciais pela apropriação criminosa praticada pela martin claret da tradução de o desespero humano, feita por seu pai adolfo casais monteiro;

- a família de monteiro lobato declara ter tomado suas providências judiciais contra a criminosa apropriação da martin claret da tradução de o livro da jângal;

- o advogado dr. clóvis f. da silva ramos declara estar tomando as providências judiciais cabíveis contra a criminosa apropriação praticada pela martin claret da tradução de moby dick, feita por seu pai péricles eugênio da silva ramos;

- a editora vozes declara estar procedendo às providências cabíveis em relação ao crime de plágio cometido pela martin claret contra as traduções de floriano de souza fernandes, que significa orientar-se no pensamento; resposta à pergunta: que é "esclarecimento"? e sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade, de kant;

- a editora l&pm entra com ação cautelar contra a nova (in)cultural por contrato fraudulento em que lhe vendeu criminosamente traduções plagiadas: a divina comédia e a mulher de trinta anos;

- a editora l&pm declara estar finalizando o acerto das indenizações por danos morais e materiais em acordo extra-judicial com a nova (in)cultural por contrato de venda criminosa de plágios, acima citados;

- a editora globo entra com ação contra a nova (in)cultural por apropriação criminosa de cinco traduções, por danos morais e materiais, e na fase inicial de notificação extra-judicial demonstra-se insatisfeita com a posição da notificada, reservando-se o direito de dar andamento às providências que considerar necessárias;

- a ediouro firma acordo extra-judicial com a martin claret, com ressarcimento financeiro à editora lesada em várias dezenas de títulos criminosamente plagiados e o compromisso de retirá-los da praça;

- a editora hedra aciona a martin claret pela apropriação criminosa da introdução e notas de metamorfoses de ovídio, estando na fase de notificação extra-judicial;

- a edusp veta a participação da martin claret em sua tradicional feira do livro;

- a academia brasileira de letras, a união brasileira de escritores, o pen club do brasil e a academia brasileira de imprensa manifestam seu repúdio contra a prática criminosa do plágio;

- o ministério da cultura e a coordenação geral dos direitos autorais do governo federal se debruçam sobre o problema;

- a ong ler é preciso, da suzano celulose, parceira na criminosa escalada dos plágios na nova (in)cultural, e que tem como padrinho o bibliófilo josé mindlin (o qual considera o plágio uma prática inadmissível), encaminha o problema a seu departamento jurídico;

- são publicadas mais de 10 matérias em jornais e revistas da grande imprensa ao longo de 2008 sobre os crimes de enorme vulto praticados nos últimos 15 anos pela nova (in)cultural e pela martin claret (também conhecida como mata-cultura), além de dezenas e dezenas de artigos em sites e blogs no brasil e no exterior;

- cerca de 600 intelectuais brasileiros das mais diversas formações e áreas de atuação se manifestam contra as fraudes e plágios editoriais;

- o problema do plágio é debatido em vários fóruns, palestras e mesas-redondas, no rio de janeiro, são paulo, campinas, são josé do rio preto, florianópolis e outras cidades.

como começo, acho até bem razoável ;-)

12 de dez de 2008

e tira diploma


que ninguém entenda isso como troça ou escárnio - pelo contrário, é muito sério. quero apenas mostrar a infiltração insidiosa e descontrolada da delinquência intelectual que está ocorrendo em nossas melhores instituições de ensino, vítimas da irresponsabilidade venal e criminosa de algumas editoras.

vou dar um último exemplo da presença da claret, agora na mais famosa universidade pública do país.

trata-se de um paciente estudo comparativo das várias traduções da poética de aristóteles em inglês, francês, italiano e português, tendo o original grego como base.

pietro nassetti se faz presente na referida tese com sua "recente tradução para o português" (2003), porque, segundo o autor, embora não goze do crédito de outras traduções mais reputadas, por vezes oferece "soluções bastante interessantes".

bom, essa suposta tradução de nassetti da poética de aristóteles, até onde sei, é uma apropriação da tradução feita por antonio pinto de carvalho a partir da versão francesa art rhétorique et art poétique, de jean voilquin e jean capelle, pela garnier, 1944. a tradução de antonio pinto de carvalho foi publicada pela difel em 1958, teve várias edições até 1964, e desde então tem sido constantemente reeditada pela tecnoprint e ediouro.

de mais a mais, não é que antonio pinto de carvalho fosse propriamente um lépido e saltitante tradutor trafegando entre pinóquio, frankenstein, werther, quincas borba, as flores do mal etc., pois era um filólogo e docente universitário que preferia trabalhar especificamente com obras de filosofia e literatura clássica. admira-me que tenha sido ignorado ou preterido em favor de uma abominável ficção.

repito a pergunta feita na vulpina alma: não se pesquisam os materiais de trabalho neste país? provavelmente a resposta será a mesma, e acho que os gregos tinham razão - é pelo letes que se chega ao hades.

imagem: www.virtualformaturas.com.br

8 de out de 2008

continuando

pretendo ao longo desses dias apresentar um histórico, tal como vejo o que ocorreu até chegarmos ao terrível ponto a que chegamos em 2002-2003.

não se espere nenhuma grande novidade: será apenas um painel simples dos antecedentes que desembocaram nas fraudes em escala gigantesca da nova cultural, nas "obras-primas" em parceria com a suzano celulose.

o trabalho de cotejo já foi feito com a inestimável colaboração de ivo barroso e saulo von randow jr., e se encontra publicado neste blog.

como eu dizia, a coleção imortais da literatura universal, 1971-72, da abril cultural, foi um marco: livros a preço acessível, vendidos quinzenalmente em bancas de jornal, com padrão muito bom de edição, com fascículos sobre a vida e a obra dos autores, em plena ditadura militar. (aliás, consta que houve batida policial na abril cultural e que o editor teve de ir prestar depoimento na delegacia, para explicar as razões da escolha da obra que inaugurou a coleção: os irmãos karamazovi, de dostoiévski!)

vou reproduzir abaixo a lista completa dos títulos que compuseram essa coleção, com os respectivos tradutores. será uma referência importante quando chegarmos a 1995.

o mais importante, e eu gostaria de conseguir transmitir, é que uma iniciativa dessas naquela época foi de grande impacto. ela, sim, poderia ser considerada um avanço para o tão decantado e hoje sucateado projeto de "democratização do livro" no país.

Coleção Imortais da Literatura Universal, Abril, 1ª. edição, 1971

1. Os Irmãos Karamazovi - Fiódor M. Dostoiévski – Natália Nunes e Oscar Mendes
2. As Aventuras do Sr. Pickwick - Charles Dickens – Octavio Mendes Cajado
3. Madame Bovary - Gustave Flaubert – Araújo Nabuco
4. Novelas Exemplares - Miguel de Cervantes Saavedra - Darly Scornnaienchi
5. Decamerão - Giovanni Boccaccio – Torrieri Guimarães
6. Eugênia Grandet - Honoré de Balzac – Moacyr Werneck de Castro
7. Os Três Mosqueteiros - Alexandre Dumas, Pai – Octavio Mendes Cajado
8. Werther - Johann Wolfgang von Goethe – Galeão Coutinho
9. Tom Jones - Henri Fielding – Octavio Mendes Cajado
10. O Morro dos Ventos Uivantes - Emily Brontë – Oscar Mendes
11. Lord Jim - Joseph Conrad – Mário Quintana
12. A Vagabunda - Gabrielle S. Colette – Juracy Daisy Marchese
13. O Sol Também se Levanta - Ernest Hemingway – Berenice Xavier
14. Pais e Filhos - Ivan Turguêniev – Ivan Emilianovitch
15. O Retrato do Artista Quando Jovem - James Joyce – José Geraldo Vieira
16. Memórias Póstumas de Brás Cubas / Dom Casmurro - Machado de Assis
17. Tônio Kroeger / A Morte em Veneza - Thomas Mann – Maria Deling
18. Os Trabalhadores do Mar - Victor Hugo – Machado de Assis
19. Servidão Humana - W. Somerset Maugham – Antonio Barata
20. Ana Karênina - Leão Tolstói – João Gaspar Simões
21. Os Noivos - Alessandro Manzoni – Marina Guaspari
22. Viagens de Gulliver - Jonathan Swift – Octavio Mendes Cajado
23. O Vermelho e o Negro - Stendhal – Casimiro Fernandes e de Souza Jr.
24. O Primo Basílio - Eça de Queirós
25. Contraponto - Aldous Huxley – Érico Verissimo e Leonel Vallandro
26. As Relações Perigosas - Choderlos de Laclos – Sérgio Milliet
27. Judas, o Obscuro - Thomas Hardy – Octavio de Faria
28. O Cristo Recrucificado - Nikos Kazantzakis – Guilhermina Sette
29. Os Subterrâneos do Vaticano - André Gide – Miroel Silveira e Isa Leal
30. Moll Flanders - Daniel Defoe – Antonio Alves Cury
31. Suave é a Noite - F. Scott Fitzgerald – Ligia Junqueira
32. A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre – Sérgio Milliet
33. O Amante de Lady Chatterley - David Herbert Lawrence – Rodrigo Richter
34. As Vinhas da Ira - John Steinbeck – Ernesto Vinhaes e Herbert Caro
35. O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde – Oscar Mendes
36. Germinal - Emile Zola – Francisco Bittencourt
37. Ivanhoé - Walter Scott – Brenno Silveira
38. O Falecido Mattia Pascal - Luigi Pirandello – Mário da Silva
39. Lady Barberina / Outra Volta do Parafuso - Henry James – Leônidas Gontijo de Carvalho / Brenno Silveira
40. Contos – Voltaire – Mário Quintana
41. Nosso Homem em Havana - Henry Graham Greene – Brenno Silveira
42. Almas Mortas - N. V. Gógol – Tatiana Belinky
43. Moby Dick - Herman Melville – Péricles Eugênio da Silva Ramos
44. Babbitt - Sinclair Lewis – Leonel Vallandro
45. Mrs. Dalloway / Orlando - Virginia Woolf – Mário Quintana / Cecília Meirelles
46. A Pele - Curzio Malaparte – Alexandre O’Neill
47. A Romana - Alberto Moravia – Marina Colasanti
48. A Condição Humana - André Malraux – Jorge de Sena
49. O Estrangeiro - Albert Camus – Antonio Quadros
50. Ficções - Jorge Luis Borges – Carlos Nejar

a grande maioria dessas obras já havia sido publicada por outras editoras, como globo, saraiva, josé aguilar, martins, civilização brasileira e assim por diante. a abril cultural adquiriu as licenças de publicação, dando os devidos créditos. até onde sei, traduções inéditas eram as de tatiana belinky (almas mortas) e péricles eugênio (moby dick).

(cont.)

30 de set de 2008

o globo: "muito em comum"

com a gentil autorização do jornal o globo, transcrevo a matéria publicada em 19/04/2008 no caderno prosa & verso, de autoria de miguel conde.

Muito em comum
Tradutores brasileiros denunciam plágios em série e organizam movimento de protesto
Miguel Conde

O que leva uma editora a plagiar traduções que ela mesma já havia publicado, substituindo em seus livros o nome de tradutores famosos pelo de pessoas desconhecidas, que além de não servirem como chamariz para os leitores em alguns casos parecem nem mesmo existir? É difícil de entender, mas é o que fez repetidas vezes nos últimos anos a editora paulista Nova Cultural.

De 1995 a 2002, a empresa publicou 22 títulos que, na opinião de especialistas, são plágios de traduções que integravam o catálogo da Abril Cultural, do qual a Nova Cultural é herdeira. Em 2002, eles foram reunidos na popular coleção Obras Primas, impressos em tiragens iniciais de 60 mil exemplares, bem acima da média nacional, e vendidos em bancas de jornal.

A primeira denúncia de plágio num livro da coleção (“Cyrano de Bergerac”, de Edmond Rostand) foi feita em 2002 por Ivo Barroso. No ano passado, surgiram novos casos: o tradutor Saulo von Randow Júnior afirmou que a tradução de “Ivanhoé”, de Walter Scott, era plagiada, e o jornal “Folha de S. Paulo” denunciou as traduções dos “Contos”, de Voltaire, e de “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert. Mas uma série de cotejos feitos nos últimos meses por Denise Bottmann — tradutora de clássicos como “Comunidades imaginadas” (Companhia das Letras), de Benedict Anderson e “Piero de La Francesca” (Cosacnaify), de Roberto Longhi — e um grupo de profissionais da área indica que a extensão das fraudes é muito maior, a ponto de fazer deste o maior caso conhecido de plágios de traduções na indústria editorial brasileira. Ela chama a troca de créditos de “escárnio”:

— A Nova Cultural está tripudiando uma herança construída pelo esforço de toda uma geração, está adulterando a história do país. É um grande escárnio, uma grande fraude.

Divulgando a história no blog http://assinado-tradutores.blogspot.com/, Denise organizou um abaixo-assinado em repúdio a plágios e pela valorização do ofício de tradutor no Brasil, que já recebeu adesão de mais de 300 profissionais, entre eles Lia Wyler, Ivo Barroso, Jorio Dauster, Paulo Franchetti e Geraldo Holanda Cavalcanti.

Procurada em fevereiro, a Nova Cultural disse que a apuração do episódio seria concluída em um mês. Na quinta-feira, num fax assinado pelo assessor da diretoria Shozi Ikeda, a editora afirmou: “Em setembro de 2007, um Editor da Nova Cultural ao consultar algumas das obras da coleção Obras Primas, notou diferenças na coleção feita em 2002 contra a obra publicada em 1978. Quando colocado o problema para a Diretoria, esta, de imediato, instruiu que fosse feita uma averiguação minuciosa”.

A Nova Cultural afirmou que está tratando o problema com os detentores de direitos das traduções (nos anos 1970, a Abril Cultural fez acordos para publicar traduções lançadas originalmente por outras empresas), e que “determinou a retirada de circulação e venda” de todas obras sobre as quais houvesse suspeita. A editora disse ainda que a equipe responsável pela coleção Obras Primas não trabalha mais lá, e por isso “não existe forma de determinar quais as falhas” que provocaram os problemas.

Continua nas páginas 2 e 3

Caderno: Prosa & Verso

OBRAS SOB SUSPEITA
“A DIVINA COMÉDIA”, Dante: Tradução de Fábio Alberti seria de Hernâni Donato.
“CRIME E CASTIGO”, Dostoiévski: Trad. sem crédito seria de Natália Nunes.
“CYRANO DE BERGERAC”, Edmond Rostand: Trad. de F. Alberti seria de Porto Carreiro.
“O VERMELHO E O NEGRO”, Stendhal: Trad. de Mª da Silva seria de Luiz Costa Lima.
“MADAME BOVARY”, Flaubert: Trad. de Enrico Corvisieri seria de Araújo Nabuco.
“ANA KARÊNINA”, de Tolstói: Trad. de Mirtes Coscodai seria de João Gaspar Simões.
“O LEOPARDO”, de Lampedusa: Trad. de Leonardo Codignoto seria de Rui Cabeçadas.
“FAUSTO” E “WERTHER”, Goethe: Trads. de Alberto Maximiliano seriam de Silvio Meira e Galeão Coutinho.
“CONTOS”, Voltaire: Trad. de Roberto Domenico Proença seria de Mário Quintana.
“O MORRO DOS VENTOS UIVANTES”, Emily Brontë: Trad. de Silvana Laplace seria de Oscar Mendes.
“O FALECIDO MATTIA PASCAL” E “SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR”, Pirandello: Trads. de Fernando Corrêa Fonseca seriam de Mário da Silva, Brutus Pedreira e Elvira Ricci.
“TOM JONES”, Fielding: Trad. de Jorge Pádua Conceição seria de Octavio Cajado.
“NANÁ”, Zola: Trad. de Roberto Valeriano seria de Eugênio Vieira.
“O RETRADO DE DORIAN GRAY”, Wilde: Trad. de E. Corvisieri seria de Oscar Mendes.
“A MULHER DE 30ANOS”, Balzac: Trad. de Gisele Soares seria de José Maria Machado.
“OS TRÊS MOSQUETEIROS”, Dumas: Trad. de M. Coscodai seria de Octavio Cajado.
“LORD JIM”, Conrad: Trad. de Carmen Lomonaco seria de Mário Quintana.
“UMA VIDA”, Maupassant: Trad. de Roberto Proença seria de Ascendino Leite.
“SUAVE É A NOITE”, Scott Fitzgerald: Trad. de E. Corvisieri seria de Lígia Junqueira.
“IVANHOÉ”, Walter Scott: Trad. de Roberto Whitaker seria de Brenno Silveira.


Livros têm páginas idênticas e mesmos erros

Para especialistas, fraude é única explicação possível; nomes de supostos tradutores podem ter sido inventados
A coordenadora editorial da coleção Obras Primas era Janice Florido, hoje na Ediouro. Ela diz que não se lembra quem era o encarregado de negociar os direitos de tradução. O editor da coleção, Eliel Silveira Cunha, hoje na Miro Editorial, diz que nunca lidou com isso, nem sabia quem era o responsável. A outra editora, Fernanda Cardoso, não foi localizada pelo GLOBO.

No entanto, e apesar do que sugere a resposta da Nova Cultural, as trocas nos créditos das traduções são anteriores à coleção, afirma Denise Bottmann. Começaram a acontecer em 1995, sete anos antes de ela ser lançada. Na época, a Abril Cultural já tinha deixado de existir e os livros eram editados pela Nova Cultural, parte do grupo CLC, controlado por Richard Civita (ele e seu irmão, Roberto, dividiram a herança editorial deixada pelo pai dos dois, Victor).

Os primeiros títulos afetados, apontam as comparações, foram “Suave é a noite”, de F. Scott Fitzgerald; “A mulher de trinta anos”, de Balzac; “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde; “Ana Karênina”, de Tolstói; e “Os irmãos Karamazóvi”, de Dostoiévski. Como nas outras trocas de crédito, nomes de intelectuais importantes foram substituídos pelos de pessoas desconhecidas: Lígia Junqueira por Enrico Corvisieri; José Maria Machado pelo mesmo Enrico Corvisieri, depois substituído em 2002 por Gisele Donat Soares; Oscar Mendes por Maria Cristina F. da Silva; João Gaspar Simões por Mirtes Ugeda Coscodai; Natália Nunes e Oscar Mendes por (mais uma vez) Enrico Corvisieri.

Pequenas alterações em alguns trechos
Em alguns casos, como em “O retrato de Dorian Gray”, até os erros das traduções anteriores são reproduzidos. “Suit of armor”, ou “um jogo completo de armadura”, foi traduzido por Oscar Mendes por “coleção de armaduras”. Em outro exemplo, “exquisite life” vira “vida estranha”, quando o correto seria bela, maravilhosa, refinada. Ambos equívocos, entre outros, são repetidos na tradução atribuída a Maria Cristina F. da Silva.

— O que foi feito é uma apropriação indébita, é quase o equivalente a roubar uma sepultura. O mais chocante é que não foi uma coisa ocasional, era uma política editorial — diz Jorio Dauster, tradutor de Vladimir Nabokov e J.D. Salinger, entre outros.

Os cotejos mostram páginas e páginas com textos idênticos, às vezes com troca de algumas palavras por sinônimos, como é o caso do trecho de “A mulher de trinta anos”, de Balzac, reproduzido na primeira página deste caderno. A possibilidade de que tradutores diferentes cheguem a soluções idênticas com tanta freqüência é descartada por profissionais da área como Ivo Barroso:

— São casos incontestáveis, com repetições extensas demais para serem coincidências. Na poesia isso é especialmente claro, porque há questões como a escolha do adjetivo, da colocação do verbo, do ritmo, da sinonímia, que já tornam difícil que dois tradutores traduzam dois versos seguidos da mesma forma. Quando você encontra então 160 versos iguais, não tem como não ter certeza. O que fizeram é insuportável: apagaram os nomes de tradutores com uma história, uma identidade tradutória, para botar no lugar os de uns quaisquer.

Pessoas desconhecidas no meio literário, Enrico Corvisieri, Leonardo Codignoto, Vera M. Renoldi, Fábio M. Alberti e outros supostos autores das traduções da Nova Cultural são elogiados em páginas da internet pela qualidade do seu trabalho. Quem quiser transmitir os cumprimentos diretamente a eles, porém, terá dificuldades. Buscas na internet mostram apenas referências às traduções, e os nomes não constam da lista telefônica.

Ainda mais intrigante é a identidade por trás de Calvin Carruthers, creditado como tradutor de “A metamorfose”, de Franz Kafka. Calvin Carruthers é o nome de um personagem representado por Vic Tayback no filme “Horror, blood and lace”. O último filme em que Tayback atuou foi “Horseplayer”, de Kurt Voss, no qual ele representou um personagem chamado Gregor Samsa — nome do protagonista de “A metamorfose”. Não há nenhum cotejo, porém, que indique se essa tradução é um plágio, ou se Carruthers foi apenas um pseudônimo escolhido por um tradutor real.

Nos últimos anos, a editora Martin Claret também foi alvo de denúncias de plágio. Seu catálogo, composto principalmente por obras em domínio público, atribui a Pietro Nassetti traduções de Marx, Descartes, Rousseau, Nietzsche, Weber, Shakespeare, Kafka, Platão, Maupassant, Doistoiévski, Goethe, Baudelaire, Sun-Tzu, Aristóteles, Durkheim, Schopenhauer, Ovídio, Maquiavel, Eurípides, Esopo e Voltaire, entre outros. A Objetiva está negociando a compra de parte da editora.

NOS TEXTOS, A ABERTURA DO BRASIL PARA O MUNDO

Heloisa Gonçalves Barbosa

As primeiras traduções efetuadas no Brasil, como se poderia esperar, foram de textos religiosos vertidos pelos jesuítas, do português ou do latim, para a língua mais falada na época pelos índios na costa do Brasil, o tupi, ou sua versão adaptada pelos padres, a língua geral. Com a proibição do uso desse idioma pelo Marquês de Pombal em 1759, a expulsão dos jesuítas e a imposição do uso do português como língua de instrução no Brasil, declina e cessa a produção textual em língua geral.

Mas, devido à proibição de qualquer manufatura, ou seja, da existência e operação de qualquer maquinário no Brasil colônia, nada era produzido aqui, inclusive o papel e, conseqüentemente, o livro. Existiram, porém, traduções “piratas”, feitas por intelectuais brasileiros, muitas vezes reproduzidas manualmente, que circulavam às escondidas, como ocorreu com os textos que influenciaram a Inconfidência Mineira. Houve, no século XVIII, um projeto de tradução e publicação de obras científicas e técnicas, bem como foram traduzidos, em iniciativas isoladas, tratados religiosos, morais e filosóficos, assim como algumas biografias.

É com a chegada da família real ao Brasil em 1808 e a fundação da Imprensa Régia que verdadeiramente se inicia a produção de traduções das grandes obras literárias no Brasil. Como é consenso entre pesquisadores e historiadores na área de tradução, as nações em formação traduzem e traduzem muito. Essas traduções importam gêneros inexistentes na literatura que os recebe, de preencher lacunas. À infante literatura brasileira faltava praticamente tudo. E foi por meio das traduções que se realizou sua aproximação com a cultura ocidental.

No entanto, num primeiro momento, as traduções publicadas pela Imprensa Régia não tinham como objeto ainda as grandes obras literárias, mas visavam preencher lacunas mais básicas, ou seja, fundamentar os conhecimentos técnicos necessários para construir o país em formação. Desta forma, os primeiros livros impressos foram traduções de textos de matemática e engenharia que viriam a auxiliar nesse propósito. A primeira obra literária traduzida e publicada pela companhia foi o “Essay on Criticism” (Ensaio sobre a crítica) do pensador e poeta inglês Alexander Pope.

No século XIX, porém, o custo do papel, no Brasil, era elevadíssimo, o que fazia com que os editores brasileiros precisassem importar e mesmo contrabandear esse insumo. Uma conseqüência dessa situação, pouco conhecida dos brasileiros, é que a maioria dos autores nacionais do período, entre eles Machado de Assis e José de Alencar, teve seus livros impressos primeiro em Portugal, Inglaterra ou França, depois enviados ao Brasil. O mesmo ocorria com as traduções de obras literárias, que eram produzidas em Paris para serem despachadas para o Brasil.

Essas traduções eram, na maioria, o que se convencionou chamar “traduções indiretas”: não eram feitas a partir do texto no idioma original, mas de uma versão para um idioma mais conhecido no Brasil, principalmente o francês, ou mesmo cotejando-se várias traduções para as línguas latinas, mais acessíveis para nós. É o caso das traduções do alemão, por exemplo, “A metamorfose”, de Kafka, ou de vários autores russos, como Dostoiévski, Tolstói, Gogol.

Foi somente após a Primeira Guerra que casas editoriais foram inauguradas em grande número no Brasil. Na década de 1930, Getúlio Vargas incentivou essas empresas, o que as fez quase dobrar em quantidade. Na era pós-Vargas, porém, esse tipo de empreendimento entra em declínio novamente. Grandes editoras sobreviveram, no entanto, podendo-se nomear, por exemplo, a Editora Globo, a José Olympio e a Companhia Editora Nacional, fundada por Monteiro Lobato. Em seguida, associações com o capital estrangeiro possibilitaram a abertura e a sobrevivência de muitas outras empresas do ramo livreiro no Brasil.

Essas casas preocuparam-se em trazer para o leitor brasileiro desde as grandes obras da literatura universal, ou detentores do prêmio Nobel, até histórias de detetives e romances de aventura. Para realizar as traduções, foram contratados intelectuais e autores de peso, dentre eles Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Monteiro Lobato, Mário Quintana, Sérgio Milliet e Clarice Lispector.

A partir da segunda metade do século XX, após a Segunda Guerra Mundial, porém, a principal influência cultural no Brasil, que era francesa, passa a ser americana e o fenômeno observado é a intensa tradução do best-seller americano, ao lado dos livros de auto-ajuda e das biografias dos famosos. A própria coleção de obras-primas da literatura, da Nova Cultural, mostra um peso maior dos textos traduzidos do inglês. Compõem boa parte da coleção traduções feitas ainda no período em que eram escritores e críticos literários os convidados a produzir traduções, algumas delas excelentes, feitas, muitas vezes, a custa de enormes esforços pessoais. A importância desse tipo de empreendimento, para um país como o nosso, às margens da cultura ocidental é, naturalmente, o de reunir e trazer ao público brasileiro esse acervo cultural da humanidade.

Para cumprir essa missão, uma vez vencida a questão material, do custo do papel, as empresas do ramo livreiro no Brasil ainda precisam vencer outros problemas nacionais que dificultam o acesso da população ao livro. O principal deles é a distribuição: como fazer o livro chegar ao público e chegar a ele com preços acessíveis? Em um país onde há cidades com várias farmácias, mas sem nenhuma livraria, o livro precisa ser levado ao leitor pelo supermercado, pelo jornaleiro. E em edições mais baratas, em formatos semelhantes ao livro de bolso americano. É essa necessidade que favorece a reedição de velhas traduções de textos antigos, já no domínio público: o fato de ser desnecessário o pagamento de direitos autorais barateia o produto.

Hoje, porém, busca-se uma aproximação maior do original. Há uma profissionalização do tradutor, em escolas de formação em nível de graduação e pós-graduação, bem como há intensa pesquisa na área no país. Isso permite que sejam feitas “re-traduções” das obras canônicas, aquelas que freqüentam as listas de livros que todos devem ler, responsáveis pela formação do gosto literário no mundo ocidental, agora diretamente do texto original completo, as traduções chamadas “diretas”. Um exemplo importante são as traduções dos grandes romances russos, cujos re-tradutores são literatos, acadêmicos e pesquisadores tais como Paulo Bezerra e Boris Schneiderman.

Atualmente, como bem se sabe, 80% do que é publicado no Brasil são traduções. Apesar disso, é difícil ter uma exata dimensão da verdadeira contribuição da tradução para a literatura brasileira. Desde o século XIX, tão avassaladora é a invasão de textos traduzidos que o próprio Machado de Assis se preocupava com a influência dos romances-folhetim franceses, tal como “Os três mosqueteiros” (1844), de Alexandre Dumas, pai, e “A dama das camélias” (1848), de Alexandre Dumas Filho, cuja influência se faz sentir, por exemplo, nos romances “Lucíola” e “Senhora”, de José de Alencar.

Vários teóricos da tradução acreditam que a evolução da literatura mundial se deve à tradução e que, logicamente, não pode haver literatura comparada sem traduções — e sem tradutores, cujos nomes devem ser mencionados na obra publicada por força de lei, a Lei dos Direitos Autorais.

HELOISA GONÇALVES BARBOSA é tradutora e Ph.D. em teoria da tradução pela Universidade de Warwick, Inglaterra; professora da Faculdade de Letras da UFRJ e ex-presidente do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA)

Em blogs e e-mails, a classe em pé de guerra

Tradutores reagem a plágios, cobram menção de créditos, e em alguns casos querem receber direitos autorais
Notícias de plágios de tradução na Nova Cultural e na editora Martin Claret fizeram com que os tradutores iniciassem uma campanha de valorização da profissão. Bem à moda dos tempos atuais, é uma militância que tem sido exercida por meio de blogs e e-mails. Além de fazerem cotejos de traduções em páginas da internet, eles organizaram um abaixo-assinado com mais de 300 adesões e têm enviado mensagens a suplementos culturais reclamando sempre que uma reportagem ou artigo deixa de mencionar o nome do tradutor de um livro. O movimento se articula em torno do blog http://assinado-tradutores.blogspot.com/.

Nos momentos de maior arroubo das conversas virtuais, há quem sugira que a inclusão do nome do tradutor nas capas dos livros deveria ser obrigatória. Outros defendem que o tradutor, como o autor, tenha uma participação nas vendas do livro. Até agora, porém, a luta não saiu do plano virtual. A tradutora Denise Bottmann, uma das organizadoras desse movimento, diz que falta dinheiro para levar a causa aos tribunais.

— Estamos esperando que algum escritório de advocacia se interesse e encampe essa luta contra os plágios — diz ela, sem endossar as reivindicações mais extremas. — Essa é nossa luta principal. Como ação correlata, temos uma série de pessoas enviando mensagens à imprensa e a editoras universitárias pedindo que em toda menção a um livro traduzido seja incluído o nome do tradutor.

Editor elogia iniciativa, mas vê exageros

Paulo Franchetti, que foi tradutor e hoje dirige a editora da Unicamp, diz que a campanha contra os plágios é uma questão de justiça intelectual, mas afirma que no bojo da discussão têm ocorrido exageros.
— Surgiu uma campanha pelo destaque absoluto do nome do tradutor, o que também não é o caso. O que tem que ter é a garantia de um registro explícito, como também devem ter o capista, o autor do projeto gráfico, os revisores. Um livro é uma produção coletiva — diz.

O crítico Luiz Costa Lima, cuja tradução de “O vermelho e o negro”, de Stendhal, está entre as que teriam sido plagiadas pela Nova Cultural, diz que a mobilização dos tradutores foi o resultado mais importante do caso até agora.
— O que me parece importante não é simplesmente o caso em si, mas a situação extremamente precária da tradução neste país — afirma.

Um tradutor ocasional, que se dedica ao ofício movido pelo interesse por obras específicas, Costa Lima reclama da remuneração recebida pelos tradutores brasileiros.
— Num país em que encontrar um bom leitor da própria língua, o português, já não é fácil, a tradução assume uma importância fundamental. Apesar disso, ela continua sendo entre nós uma atividade extremamente mal paga. Se nós temos traduções de qualidade, não é porque as editoras paguem bem, mas porque há tradutores que se interessam especialmente por determinados livros — diz.

O Sindicato Nacional de Tradutores (Sintra) estabelece um piso de R$24 por lauda traduzida, mas a própria diretora da entidade, Elyzabeth Thompson, admite que muitas editoras pagam menos do que isso. Embora poucas empresas respeitem a tabela, o pagamento pode aumentar em função da reputação do tradutor, da dificuldade do trabalho, ou da língua de origem da obra.

Um dos principais especialistas em tradução financeira no Brasil, Danilo Nogueira acredita que o resultado da baixa remuneração é que os melhores profissionais acabam desistindo de traduzir livros.
— Eu não traduzo livros porque não dá dinheiro, é muito difícil viver do que pagam as editoras. As pessoas que trabalham com livro são jornalistas, escritores, professores que traduzem nas horas vagas. O Antonio Houaiss traduziu o “Ulisses” de Joyce recebendo um salário mínimo por mês. É um esporte, não é uma profissão. Em outras áreas da tradução, por contraste, as pessoas são muito bem pagas. A diferença chega a dez para um — afirma.

Para Modesto Carone, situação tem melhorado

O pagamento de direitos autorais a tradutores é defendido por alguns profissionais como uma forma de aumentar a remuneração e, em conseqüência, garantir que os trabalhos possam ser feitos com mais tempo (e, espera-se, qualidade). Sergio Flaksman, tradutor de Truman Capote e George Orwell, entre outros, diz que as editoras têm se mostrado mais receptivas a esse tipo de acordo:
— A baixa remuneração faz com que a média da tradução no Brasil hoje não seja satisfatória. Isso obriga as editoras a investir muito em controle de qualidade, às vezes com até três revisões da tradução. Seria não apenas melhor, mas também mais justo, que o tradutor recebesse uma parcela de direitos autorais. Afinal, é um trabalho que em boa medida é de criação, e que deveria ser contemplado de acordo.

O presidente do Sindicado Nacional dos Editores de Livros (Snel), Paulo Rocco, discorda das críticas dos tradutores, e questiona a idéia de pagamento de direitos autorais.
— Hoje temos traduções muito boas no Brasil, uma situação muito melhor do que a de décadas atrás. Os tradutores estão sendo mais valorizados. Agora, o pagamento de percentual sobre as vendas do livro é injusto. Às vezes o tradutor tem um trabalhão com um livro enorme que não vende nada, e às vezes um outro faz um livro fácil, pequeno, que vende à beça.

Apesar da discordância quanto aos direitos autorais, Flaksman concorda que os editores têm valorizado o trabalho de tradução, o que para ele se percebe no aumento do número de traduções feitas diretamente da língua de origem. Modesto Carone, maior tradutor de Kafka no Brasil, também acha que a situação tem melhorado:
— Há uma consciência maior da importância de um bom trabalho. Antes, nem se tomava conhecimento de quem tinha feito a tradução. Esse não é mais o caso.


UMBERTO ECO E A TAREFA DE INTERPRETAR CONTEXTOS

Autor analisa as dificuldades da tradução

Quase a mesma coisa, de Umberto Eco. Tradução de Eliana Aguiar. Revisão técnica de Raffaella de Fillipis Quental. Editora Record, 458 pgs. R$50

Daniel Estill

O tradutor Danilo Nogueira, especializado na área financeira, costuma dizer que “traduzir é fácil, difícil é traduzir direito”. Partindo de pressuposto semelhante, Umberto Eco, no primeiro capítulo de seu “Quase a mesma coisa”, amplo livro sobre as dificuldades da tradução, fala sobre essa suposta facilidade ao analisar as traduções feitas pelo Altavista. Ele submete o sistema automático de tradução gratuito disponível pela internet a uma tarefa cruel: a tradução do trecho inicial do Gênesis, retirado da versão inglesa da Bíblia de King James.

Eco tortura a máquina de traduzir obrigando-a a passar o trecho do inglês para o espanhol e para o alemão, e depois de volta ao inglês. Os resultados são todos altamente discutíveis, mas o fato é que o programa traduz e um leitor minimamente informado reconhecerá aquilo como o Gênesis.

O exercício, no entanto, não pretende humilhar a máquina ou seus criadores, mas sim exemplificar uma noção corrente, e simplória, de que traduzir significa apenas encontrar o vocábulo equivalente a uma palavra de um determinado idioma em outro. Mas como sabe qualquer estudante das centenas de cursos de tradução que vêm proliferando pelo mundo nas últimas décadas, um tradutor profissional não traduz palavras, mas textos. E ao falarmos em textos, sejam eles de que área for, literários, financeiros, médicos, não há como escapar do conceito maior em que estão inseridos, ou seja, seus contextos. Para um tradutor, o contexto é tudo, mas para uma máquina ele praticamente inexiste.

O livro de Eco analisa os mais variados aspectos da tradução em profundidade. Apesar de sua limitada experiência como tradutor de fato, restrita a “dois livros de grande empenho”, “Exercices de style”, de Queneau, e “Sylvie”, de Gérard de Nerval, o autor argumenta que, ao longo de sua vasta experiência editorial, revisou muitas traduções alheias, além de participar ativamente do processo de tradução de suas obras, em estreita colaboração com os tradutores.

Isso, segundo ele, permite-lhe falar com conhecimento de causa sobre questões-chave da tradução, como a noção de fidelidade ao original ou sobre o seu grande achado: o tradutor como negociador. Uma negociação que implica considerar a situação em que o original foi produzido e sua finalidade, e como manter seu efeito no idioma de destino.

Nessas negociações, há que se considerar aspectos formais (ritmo, registro, vocabulário), época e situação histórica em que o texto foi produzido, os leitores do original e os leitores da tradução. Situações intraduzíveis, que Eco considera como “perdas irremediáveis”, podem ser compensadas em momentos posteriores, graças a um exercício de criatividade do tradutor, adicionando um toque de humor, um trocadilho, a um trecho em que isso não existia.

O livro ajuda a compreender a tradução como um dos fenômenos mais antigos, complexos e essenciais da história da Humanidade. E que hoje ganha cada vez mais visibilidade e importância pelo crescimento e diversificação dos meios de comunicação e interação entre os povos. Para finalizar, vale mencionar a segurança do texto em português da tradutora Eliana Aguiar e da revisora técnica, Raffaella de Fillippis Quental. Principalmente pela pesquisa de traduções em português não incluídas pelo autor, que utiliza exemplos em inglês, alemão, espanhol e italiano, predominantemente. Na ausência de traduções disponíveis, a própria tradutora encarregou-se da tarefa. Um ato de correção e respeito editorial.

DANIEL ESTILL é tradutor, jornalista e mestre em teoria literária pela USP

© 2001 Todos os direitos reservados à Agência O Globo

carta a departamentos de letras e literatura

bom dia, senhores

dispensarei qualquer arrazoado sobre as características de nossa formação cultural, tão dependente de pontes para o mundo, digamos, da "cultura universal", e sobre a importância das traduções de grandes obras da literatura mundial para nós, brasileiros, feitas, aliás, por renomados intelectuais (portugueses e brasileiros) do passado.

irei direto ao ponto. tem-se evidenciado que a editora nova cultural, em sua coleção obras-primas (montada nos moldes da coleção imortais da literatura, da extinta abril cultural), em vários casos eliminou a correta publicação dos créditos de tradução dessas obras, passando a atribuí-la a outros tradutores, talvez fictícios, talvez existentes.

o que parece se configurar, portanto, é que a editora de maior visibilidade no país (que muitas pessoas ainda associam à editora abril) tomou um patrimônio tradutório do país e, por razões ignoradas, mas com certeza escusas e inaceitáveis, eliminou, suprimiu, enterrou a contribuição desses intelectuais para nosso patrimônio cultural, e está trabalhando ativamente para o esquecimento do papel por eles desempenhado nesse âmbito. assim temos que os nomes de octavio mendes cajado, mario quintana, joão gaspar simões, araújo nabuco, silvio meira, galeão coutinho, porto carreiro, brenno silveira foram eliminados, suprimidos, tirados fora, aniquilados, exterminados, dos créditos de tradução. tal prática não poupou sequer um nome em vida, a saber, hernâni donato.

o fato é tanto mais grave porque, aqui, não são procedimentos avulsos, motivados por questões financeiras, de pequenas editoras desacreditadas, como a martin claret, e sim partem de uma empresa de grande porte com suposta credibilidade acumulada ao longo de décadas junto ao público leitor brasileiro.

desnecessário lembrar que muito provavelmente esses créditos fraudados estão sendo reproduzidos aos milhares em inúmeras teses, dissertações, artigos, papers, trabalhos de curso e assim por diante, se não em todas, pelo menos na maioria das faculdades e institutos universitários de literatura e línguas no brasil, numa rede de distribuição capilar que multiplica exponencialmente a força destrutiva de tal prática.

abaixo transcrevo a listagem da coleção obras-primas.

a coleção é composta por 5 obras em português (portanto sem tradução), 23 obras publicadas com créditos aparentemente corretos de tradução, 23 obras (se incluirmos Irmãos Karamazóvi), cujos falsos créditos de tradução estão destacados em vermelho, e 1 sob suspeita, destacado em verde.

OBS.: ISBN 85-351-0485-2: Dostoievski, Os irmãos Karamazóvi, trad. Enrico Corvisieri (Natália Nunes e Oscar Mendes) – apesar de publicado, foi cancelado da coleção, e seu número dentro dela foi substituído.

Miguel de Cervantes, Dom Quixote, trad. Viscondes de Castilho e Azevedo
Victor Hugo, Os trabalhadores do mar, trad. Machado de Assis
Dante Alighieri, A divina comédia, trad. Fábio M. Alberti (Hernâni Donato)
Dostoievski, Crime e castigo, não consta tradutor (Natália Nunes)
Edmond Rostand, Cyrano de Bergerac, trad. Fábio M. Alberti (Porto Carreiro)
Stendhal, O vermelho e o negro, trad. Maria Cristina F. da Silva (Luiz Costa Lima)
Flaubert, Madame Bovary, trad. Enrico Corvisieri (Araújo Nabuco)
Jane Austen, Razão e sensibilidade, trad. Therezinha Deutsch
Leon Tolstoi, Ana Karênina, trad. Mirtes Ugeda Coscodai (João Gaspar Simões)
Homero, Odisséia, trad. Antonio Pinto de Carvalho
Tommaso di Lampedusa, O leopardo, trad. Leonardo Codignoto (Rui Cabeçadas)
Charles Dickens, Um conto de duas cidades, trad. Sandra Luzia Couto
Bram Stoker, Drácula, trad. Vera M. Renoldi
Euclides da Cunha, Os sertões
Franz Kafka, A metamorfose, trad. Calvin Carruthers (não localizado)
Mark Twain, As aventuras de Tom Sawyer, trad. Luísa Derouet
Choderlos de Laclos, Relações perigosas, trad. Sérgio Milliet
Sinclair Lewis, Babbitt, trad. Leonel Vallandro
Camões, Os lusíadas
Goethe, Fausto e Werther, trad. Alberto Maximiliano (Silvio Meira e Galeão Coutinho, respectivamente)
Voltaire, Contos, trad. Roberto Domenico Proença (Mário Quintana)
Tchecov, As três irmãs, trad. Maria Jacintha
Herman Melville, Moby Dick, trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes, trad. Silvana Laplace (Oscar Mendes)
Machado de Assis, Memorial de Aires e Esaú e Jacó
Daniel Defoe, Moll Flanders, trad. Antônio Alves Cury
Eça de Queiroz, A cidade e as serras
Gogol, Almas mortas, trad. Tatiana Belinky
Boccacio, Decamerão, trad. Torrieri Guimarães
Pirandello, O falecido Mattia Pascal e Seis personagens à procura de autor, trad. Fernando Corrêa Fonseca (Mário da Silva e Brutus Pedreira)
Louise May Alcott, Mulherzinhas, trad. Vera Maria Marques Martins
Virgílio, Eneida, trad. Tassilo Orpheu Spalding
Alexandre Dumas Filho, A dama das camélias, trad. Therezinha Deutsch
Henry Fielding, Tom Jones, trad. Jorge Pádua Conceição (Octavio Mendes Cajado)
Émile Zola, Naná, trad. Roberto Valeriano (Eugênio Vieira)
Shakespeare, Tragédias, trad. Beatriz Viégas-Faria
Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray, trad. Enrico Corvisieri (Oscar Mendes)
Honoré de Balzac, A mulher de trinta anos, trad. Enrico Corvisieri (José Maria Machado)
Edgar Allan Poe, Histórias extraordinárias, trad. Brenno Silveira e outros
Jules Verne, A volta ao mundo em oitenta dias, trad. Therezinha Deutsch
Jonathan Swift, As viagens de Gulliver, trad. Therezinha Deutsch
Alexandre Dumas, Os três mosqueteiros, trad. Mirtes Ugeda Coscodai (Octavio Mendes Cajado)
Ibsen, A casa de bonecas, trad. Cecil Thiré
Joseph Conrad, Lord Jim, trad. Carmen Lia Lomonaco (Mário Quintana)
Henry James, Lady Barberina e A outra volta do parafuso, trad. Leônidas Gontijo e Brenno Silveira
Raul Pompéia, O ateneu
Guy de Maupassant, Uma vida, trad. Roberto Domenico Proença (Ascendino Leites)
Scott Fitzgerald, Suave é a noite, trad. Enrico Corvisieri (Lígia Junqueira)
D. H. Lawrence, Mulheres apaixonadas, trad. Cabral do Nascimento
Walter Scott, Ivanhoé, trad. Roberto Nunes Whitaker (Brenno Silveira)

seu apoio será da máxima importância, e sugestões sobre maneiras de encaminhar o problema serão muitíssimo bem-vindas.

agradeço a atenção,

denise bottmann
dbottmann@uol.com.br

goethe, werther



Werther, trad. Galeão Coutinho, ed. Abril Cultural sob licença de Martins Editora (p. 287)

Maio, 4
Contente, eu, por haver partido! Meu caro amigo, que é então o coração humano? Apartar-me de você, que tanto estimo, você, de quem eu era inseparável, e andar contente! Mas eu sei que me há de perdoar. Longe de você, todas as minhas relações não parecem expressamente escolhidas pelo destino para atormentar um coração como o meu? Pobre Leonor! E, no entanto, eu não sou culpado. Cabe-me alguma culpa se, procurando distrair-me com as suas faceirices, a paixão nasceu no coração da sua irmã?

Werther, atrib. Alberto Maximiliano, ed. Nova Cultural (p. 221)

Maio, 4
Contente, eu, por haver partido! Meu caro amigo, que é então o coração humano? Apartar-me de você, que tanto estimo, você, de quem eu era inseparável, e andar contente! Mas eu sei que me há de perdoar. Longe de você, todas as minhas relações não parecem expressamente escolhidas pelo destino para atormentar um coração como o meu? Pobre Leonor! E, no entanto, eu não sou culpado. Cabe-me alguma culpa se, procurando distrair-me com as suas faceirices, a paixão nasceu no coração da sua irmã?

Werther, trad. Galeão Coutinho, ed. Abril Cultural sob licença de Martins Editora (p. 337)

Agosto, 15
A coisa mais certa deste mundo é que o afeto, somente, torna o homem necessário. Sinto que Carlota ficaria triste se me perdesse e as crianças sequer chegam a admitir que eu deixe de ir lá todos os dias. Fui hoje afinar o cravo de Carlota, mas nada pude fazer; as crianças não me largavam, pedindo um conto de fadas, e, por fim, ela mesma pediu que as atendesse.

Werther, atrib. Alberto Maximiliano, ed. Nova Cultural (p. 267)

Agosto, 15
A coisa mais certa deste mundo é que o afeto, somente, torna o homem necessário. Sinto que Carlota ficaria triste se me perdesse e as crianças sequer chegam a admitir que eu deixe de ir lá todos os dias. Fui hoje afinar o cravo de Carlota, mas nada pude fazer; as crianças não me largavam, pedindo um conto de fadas, e, por fim, ela mesma pediu que as atendesse.

publicado originalmente em 21/12/2007 em assinado-tradutores.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: primeira edição de werther

3 de ago de 2008

follow-up


decerto todos lembram a cautelar que a l&pm impetrou contra a nova cultural.

em todo caso reproduzimos abaixo, e damos o andamento da questão nos itens 2 e 3, abaixo:

1. L&PM questiona Nova Cultural sobre traduções
Por L&PM Editores

A L&PM Editores ajuizou medida acautelatória (Processo Cautelar 001/1.08.0127989-9 – 19ª Vara Cível de Porto Alegre) contra a EDITORA NOVA CULTURAL LTDA., visando ressalvar e prevenir direitos diante das denúncias e evidências em relação a falsificação de traduções.

Com o dito procedimento judicial, a L&PM antecipa a decisão de anular o contrato celebrado com a EDITORA NOVA CULTURAL LTDA., em relação a diversas traduções.

Recorda-se que a relação entre as duas empresas começou quando a NOVA CULTURAL propôs a aquisição das traduções (de propriedade da L&PM) dos livros: Romeu e Julieta, Macbeth e Otelo. Como forma de pagamento pela cessão dos direitos das mencionadas traduções, a NOVA CULTURAL ofereceu, em permuta, – e a L&PM aceitou – a cessão dos direitos de três traduções: Divina Comédia, Madame Bovary, Viagens de Gulliver e as notas de Dom Quixote (cuja tradução é de domínio público).

Ocorre que, desde o ano passado, vêm surgindo crescentes denúncias, segundo as quais as traduções dos livros Divina Comédia e Madame Bovary, cujos direitos foram transferidos à L&PM, além de outras traduções da NOVA CULTURAL, seriam falsas. Isto é: os nomes dos tradutores mencionados nos contratos e nas edições da NOVA CULTURAL seriam falsos, e que as traduções seriam apenas cópias ou plágios de outras traduções. Conforme publicações na “Folha de S. Paulo”, no jornal “O Globo” e em outros órgãos de imprensa, segundo foi denunciado por um grupo de tradutores, as traduções de propriedade da NOVA CULTURAL são plágios de traduções anteriores, consideradas clássicas e de autoria de prestigiosos autores e tradutores.

Um exame superficial das versões brasileiras de dois dos livros cedidos à L&PM, pela NOVA CULTURAL, como sendo de propriedade legítima da NOVA CULTURAL, na verdade revela que se trata de uma cópia grosseira de tradução anterior. A Divina Comédia, de Dante Alighieri, supostamente tradução de “Fábio Alberti” (que não se sabe se é nome verdadeiro ou pseudônimo de alguém) é uma cópia de tradução anterior, muito conhecida, de Hernâni Donato. Da mesma forma, o livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert, cuja tradução negociada à L&PM seria supostamente de “Enrico Corvisieri”, na verdade vem sendo denunciada como cópia da antiga tradução de Araújo Nabuco.

A lista de outros títulos que, segundo as denúncias publicadas nos jornais, utilizaram tradução adulterada e/ou plágio de tradução anterior, pela Nova Cultural, é longa:
“CRIME E CASTIGO”, Dostoiévski: Trad. sem crédito seria de Natália Nunes.
“CYRANO DE BERGERAC”, Edmond Rostand: Trad. de F. Alberti seria de Porto Carreiro.
“O VERMELHO E O NEGRO”, Stendhal: Trad. de Mª da Silva seria de Luiz Costa Lima.
“ANA KARÊNINA”, de Tolstói: Trad. de Mirtes Coscodai seria de João Gaspar Simões.
“O LEOPARDO”, de Lampedusa: Trad. de Leonardo Codignoto seria de Rui Cabeçadas. “FAUSTO” E “WERTHER”, Goethe: Trads. de Alberto Maximiliano seriam de Silvio Meira e Galeão Coutinho.
“CONTOS”, Voltaire: Trad. de Roberto Domenico Proença seria de Mário Quintana.
“O MORRO DOS VENTOS UIVANTES”, Emily Brontë: Trad. de Silvana Laplace seria de Oscar Mendes.
“O FALECIDO MATTIA PASCAL” e “SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR”, Pirandello: Trads. de Fernando Corrêa Fonseca seriam de Mário da Silva, Brutus Pedreira e Elvira Ricci.
“TOM JONES”, Fielding: Trad. de Jorge Pádua Conceição seria de Octavio Cajado.
“NANÁ”, Zola: Trad. de Roberto Valeriano seria de Eugênio Vieira.
“O RETRADO DE DORIAN GRAY”, Wilde: Trad. de E. Corvisieri seria de Oscar Mendes.
“A MULHER DE 30 ANOS”, Balzac: Trad. de Gisele Soares seria de José Maria Machado.
“OS TRÊS MOSQUETEIROS”, Dumas: Trad. de M. Coscodai seria de Octavio Cajado.
“LORD JIM”, Conrad: Trad. de Carmen Lomonaco seria de Mário Quintana.
“UMA VIDA”, Maupassant: Trad. de Roberto Proença seria de Ascendino Leite.
“SUAVE É A NOITE”, Scott Fitzgerald: Trad. de E. Corvisieri seria de Lígia Junqueira.
“IVANHOÉ”, Walter Scott: Trad. de Roberto Whitaker seria de Brenno Silveira.

Decepcionada e perplexa pelo silêncio e pela falta de explicações convincentes da NOVA CULTURAL diante dessas denúncias gravíssimas, a L&PM decidiu formalizar as medidas legais cabíveis à defesa de seus direitos e interesses.

A L&PM, claramente, é um terceiro de boa fé, vítima de uma fraude e, por isso, buscou o Poder Judiciário.

No procedimento judicial ajuizado, na forma dos arts. 867 e seguintes do Código de Processo Civil, a L&PM declara sua decisão de buscar a anulação do contrato celebrado entre as partes, com o cancelamento da cessão das traduções, de propriedade da notificante L&PM.

Igualmente, a L&PM torna público que está retirando de catálogo e recolhendo os exemplares em circulação das edições de livros da notificante lançados a partir das “traduções” cedidas pela notificada.

Através de perícia técnica, a L&PM está apurando os prejuízos que sofreu – e está sofrendo – em conseqüência da fraude tornada pública. Apurados os prejuízos, a L&PM cobrará judicialmente os prejuízos materiais e morais decorrentes dos fatos aqui noticiados.

2. Declaração do sr. Ivan Pinheiro Machado em julho 2008
"O pessoal da NC esteve aqui, em POA, muito gentis e aparentemente consternados... Não se falou em dinheiro. Nossa posição foi a mesma. Fizemos ver a eles que jamais a L&PM tinha tido um abalo tão grande. Nem a ditadura - que quase nos quebrou - conseguiu arranhar a nossa imagem pública, proeza que a NC conseguiu ao vender traduções falsas. Falamos em reparação de danos morais e danos materiais, sendo que a dos danos morais nós pretendemos doar para alguma entidade. E recusamos qualquer acordo entre 4 paredes. Tudo será público, com a devida divulgação a partir do nosso site."

3. Nova declaração do sr. Ivan Pinheiro Machado em agosto 2008
"Com a N. Cultural, vamos pedir que eles veiculem em jornais nacionais de grande circulação um comunicado informando que a L&PM editores não tinha conhecimento de que as traduções eram adulteradas e que eles (N. Cultural) assumem a responsabilidade e pedem desculpas à editora. [...] Na verdade é uma barbaridade o que se faz neste país."
imagem: lanternaacesa.blogspot.com

11 de jul de 2008

a pasmaceira das editoras


shangyang reflete sobre os mistérios do mundo - http://www.wikipedia.com/

como todos sabem, a nova cultural, que posa de grande paladina da democratização do livro, a partir de 1995 saiu por aí saqueando antigas traduções consagradas.

deu uma maquiadazinha de leve - ou nem isso, só copiou mesmo e mandou bala -, colocando um nome qualquer de pseudo-tradutor nas obras das quais se apropriou, e saiu vendendo centenas de milhares, até milhões de exemplares dessa inédita iniciativa.

pois eu queria ver agora é o corre-corre das editoras lesadas.a l&pm, que foi solenemente embrulhada pela nova cultural num contrato ridículo de venda de falsas traduções, se sentiu ferida em seus brios e tomou suas providências, exigindo indenização por danos morais e materiais causados pela tal da nova cultural.

consta que esta abaixou a cabeça e assumiu toda a culpa (também, ia fazer o quê?).

e as outras?

segue abaixo a relação de casas editoriais lesadas pela coleguinha delas, tomando para si traduções que não eram suas e publicando-as com outros créditos na deplorável coleção "obras-primas":

1. Livraria Martins
- Madame Bovary
- Werther
- Uma vida
- Ivanhoé

2. Editora Globo
- Contos
- O morro dos ventos uivantes
- Tom Jones
- Lord Jim

3. José Aguilar (Nova Aguilar)
- Crime e castigo- Ana Karênina
- O retrato de Dorian Gray
- Os irmãos Karamázovi

4. Civilização Brasileira (Record)
- O falecido Mattia Pascal
- Seis personagens à procura de autor
- Suave é a noite

5. Cultrix (Pensamento)
- A divina comédia

6. Pongetti- Cyrano de Bergerac

7. Bruguera- O vermelho e o negro

8. DIFEL (Record)- O leopardo

9. Agir (Ediouro)- Fausto

10. Círculo dos Leitores (Portugal)- Naná

11. Saraiva- Os três mosqueteiros

12. Clube do Livro- A mulher de trinta anos

a essas alturas, eu me pergunto: por que esse silêncio ensurdecedor das editoras lesadas? (apenas 3 deixaram de existir, bruguera, clube do livro e pongetti.)

será que elas esquecem que a razão exclusiva de sua existência é o leitor, a única fonte que lhes permite viver, e que respeito é bom e todo mundo gosta?

p.s. por questão de justiça, devemos informar que a globo começou a se mexer também.

21 de mai de 2008

palimpsesto XIII

Meu caro amigo, que é então o coração humano? Apartar-me de você, que tanto estimo, você, de quem eu era inseparável, e andar contente!

Goethe, Werther, trad. Galeão Coutinho
(atribuída pela Nova Cultural a Alberto Maximiliano)

7 de mai de 2008

who's who

perguntam-me por vezes: "mas quem é enrico corvisieri? quem são essas pessoas que assinam cópias de traduções? elas existem ou são inventadas?" - e eu digo: "não sei... quem deveria responder é a nova cultural!" em todo caso, hoje publico um who's who básico, a partir de referências dadas na internet.

abaixo estão os nomes apresentados pela nova cultural como tradutores de obras publicadas na coleção "imortais da literatura universal" e na coleção "obras-primas". aqui já mostrei que são ou versões muitíssimo semelhantes ou reproduções idênticas de traduções antigas, de autoria de outras pessoas. os títulos cotejados estão destacados em vermelho. os demais constam na internet como trabalhos atribuídos a essas pessoas, mas não foram objeto de exame meu.

1. nomes cuja única referência na internet se refere à própria obra de plágio:
- silvana laplace:
emily brontë, o morro dos ventos uivantes

- leonardo codignoto:
tommaso di lampedusa, o leopardo

- gisele donat soares:
honoré de balzac, a mulher de trinta anos

- roberto valeriano:
émile zola, naná

- alberto maximiliano:
goethe, fausto
goethe, werther

- roberto nunes whitaker:
walter scott, ivanhoé

- jorge pádua conceição:
henry fielding, tom jones

- roberto domenico proença:
voltaire, contos
guy de maupassant, uma vida

- carmen lia lomonaco:
joseph conrad, lord jim

- fernando corrêa fonseca:
luigi pirandello, o falecido mattia pascal
luigi pirandello, seis personagens à procura de um autor

2. nomes com poucas referências na internet, mas tb ligados a outras obras ou atividades editoriais:
- maria cristina figueiredo da silva:
oscar wilde, o retrato de dorian gray (1996, depois substituída em 2002 por enrico corvisieri) stendhal, o vermelho e o negro
- outras traduções:
john westwood, como preparar um plano de marketing, 1997, ed. clio;
john fletcher, como conduzir entrevistas eficazes, 1997, ed. clio;
robert kline, ancestrais, 1990, ed. nova cultural;
don pendleton, caçada impiedosa, 1988, ed. nova cultural

- fábio m. alberti:
edmond rostand, cyrano de bergerac
dante alighieri, a divina comédia
- outras atividades:
revisor: educação ambiental: princípios e práticas, ed. gaia; traduzindo o economês, bestseller; o retrato de dorian gray, 2003, nova cultural; os anjos existem, loyola;
preparador: aprenda a perdoar e tenha uma vida feliz, ediouro; como o mundo virou gay, ediouro; antes de tudo, ediouro; serial killer: louco ou cruel, ediouro;
tradutor: formação inicial na vida religiosa, loyola

3. nomes com diversas menções na internet, sobretudo com atividade relacionada à nova cultural e à bestseller (esta tb pertencente na época à c.l.c. s/a, proprietária da nova cultural, tendo sido vendida à record em 2004):
- enrico corvisieri:
scott fitzgerald, suave é a noite
honoré de balzac, a mulher de 30 anos (1995, substituído em 2003 por gisele donat soares)
oscar wilde, o retrato de dorian gray (2002)
fiodor dostoievski, irmãos karamázovi (1995)
gustave flaubert, madame bovary (2002)
- outras traduções:
platão, a república, coleção pensadores, 1997, nova cultural; 2002, bestseller; 2005, sapienza platão, apologia de sócrates, coleção pensadores, 1999, nova cultural;
platão, eutífron, coleção pensadores, nova cultural;
platão, críton, coleção pensadores, nova cultural;
platão, fédon, coleção pensadores, nova cultural;
descartes, discurso do método, coleção pensadores, 1999, nova cultural
descartes, meditações sobre a filosofia primeira, coleção pensadores, 1999, nova cultural;
descartes, as paixões da alma, coleção pensadores, 1999, nova cultural;

francesco santoianni, todos os ratos do mundo, 1993, bestseller;
salwa salem e laura maritano, cabelos ao vento, 1993, bestseller;
sveva casati modignani, o corsário e a rosa, 1996, bestseller
jane austen, orgulho e preconceito, bestseller, 1997; bestseller/record, 2004, 2006

- mirtes ugeda coscodai:
leon tolstoi, ana karênina
alexandre dumas, os três mosqueteiros
- outras traduções:
xenofonte, apologia de sócrates, coleção pensadores, 1999, nova cultural;
xenofonte, ditos e feitos memoráveis de sócrates, coleção pensadores, 1999, nova cultural;
- outras atividades:
revisora de bernadette siqueira abrão (org.), história da filosofia, pensadores, 1999, nova cultural,
autora, com bernadette siqueira abrão, de dicionário de mitologia, 2000, bestseller
organizadora, com bernadette siqueira abrão, de história da filosofia, 2002, bestseller
autora, com baby abrão, de história da filosofia, 2005, ed. sapienza
autora, com walter sagardoy, de adivinhar com cartas, nova cultural
autora, com walter sagardoy, de alimentação do bebê, nova cultural
autora, com walter sagardoy, de boa forma pós-parto
autora, com walter sagardoy, de guia do bebê