26/01 – Descoberta no funk, samples e drive africano.

Desta vez, produziu-se uma emissão bem mexida. Começámos com Cornelius, um pedido de um dos nossos ouvintes, pelo Patreon. São um grupo japonês exímio no domínio do sampling, num período em que a música ocidental tinha uma especial predominância no território nipónico. Já os ouvimos, há tempos, noutra emissão. Depois, continuámos com o clássico DJ Shadow, que, num registo semelhante e contemporâneo, abriu caminhos no hip-hop instrumental.

São ambos nomes relevantes para a carreira dos The Avalanches, que, desde a extraordinária beleza do álbum (e respectivo single) Since I Left You, se acataram dos discos – isto é, até Wildflower, 17 anos depois desse seu primeiro. Fomos descobri-lo.

Daí para a frente, fomos em missão pela soul funk do passado, com os Father’s Children, entretanto redescobertos e reeditados neste século, e os Sly & The Family Stone. Sob recomendação de Cat Power, descobrimos a música de Boubacar Traoré, e, ainda antes de fechar a hora, passaram os Exuma, cuja exótica reputação o precede. Fechámos ao som da electrónica de Atom™, e com a cartografia experimental de Brian Eno. 

1. Cornelius – Mic Check (Fantasma, 1997)
2. DJ Shadow – Midnight in a Perfect World (Entroducing…, 1996)
3. The Avalanches – Live a Lifetime Love (Wildflower, 2016)
4. The Avalanches – The Wozard of Iz (Wildflower, 2016)
5. Father’s Children – Who’s Gonna Save The World (Who’s Gonna Save The World, 2011)
6. Father’s Children – Kohoutek (Who’s Gonna Save The World, 2011)
7. Sly & The Family Stone – Poet (There’s A Riot Going On, 1971)
8. Sly & The Family Stone – Time (There’s A Riot Going On, 1971)
9. Boubacar Traoré – Santa Mariya (Kar Kar, 1992)
10. Exuma – Mama Loi, Papa Loi (Exuma, 1970)
11. Atom™ – Wellen und Felder I (Liedgut, 2009)
12. Atom™ – Wellen und Felder II (Liedgut, 2009)
13. Atom™ – Wellen und Felder III (Liedgut, 2009)
14. Atom™ – Wellen und Felder IV (Liedgut, 2009)
15. Brian Eno – Tal Coat (Ambient 4: On Land, 1982)

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19/01 – Novo de James Blake e recordações, sem experimentação.

Para esta emissão, a prioridade inicial foi embrenhar o público nas delícias da música pop. Para isso, contámos com a rainha Charli XCX, e um dos seus maravilhosos bangers; logo depois, recordámos um disco que fez agora dez anos – e não parece – que pertence aos Animal Collective. É uma das canções da década. E ainda neste registo, temos Tirzah, que, mais calminha e sedutora, foi um dos grandes destaques do ano passado. Tudo isto para nos levar ao novo trabalho de James Blake, a propósito do qual recordámos, de forma muito concisa, toda a sua carreira; e com certeza dizemos que será um dos nomes que, daqui a uns anos, recordaremos como epicentro que provocou muito do que agora constitui a vanguarda.

Depois, em momentos que dedicámos à voz e à bonita canção, tivemos Sun Kil Moon no nosso trabalho favorito dele; e Scott Walker (cujo falecimento é uma das mais desagradáveis notícias recentes) com a sua portentosa, distintíssima voz; e ainda Nick Drake, e David Bowie.

Para o final, guardámos o trunfo de Max Roach, com um excerto da enorme peça We Insist!; e a emissão fecha com chave de ouro ao som de Insecure Mensteph horak, que gravou, em todos os dias do ano, um excerto vocal, que junta em doze diferentes faixas – escolhemos a que corresponde a Janeiro, para testar.

1. Charli XCX – Lipgloss (ft. CupcakKe) (Number 1 Angel, 2017)
2. Animal Collective – My Girls (Merriweather Post Pavilion, 2009)
3. Tirzah – Guilty (Devotion, 2018)
// James Blake – Unluck
// James Blake – Take a Fall for Me (Assume Form, 2019)
4. James Blake – I Can’t Believe The Way We Flow (Assume Form, 2019)
5. Sun Kil Moon – I Can’t Live Without My Mother’s Love (Benji, 2014)
6. Scott Walker – The World’s Strongest Man (Scott 4, 1969)
7. Nick Drake – Pink Moon (Pink Moon, 1972)
8. David Bowie – Starman (The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, 1972)
9. Max Roach – Tryptych: Prayer/Protest/Peace (We Insist!, 1960)
10. Insecure Men – All Women Love Me (Insecure Men, 2018)
11. steph horak – JAN (threehundredandsixtysix, 2018)

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12/01 – A morte, últimos ditos, com boas canções, a voz, a morte.

À primeira emissão do ano de dois mil e dezanove, a Mosca morreu.

As exéquias foram celebradas ao som de Psychic TV; depois, com Mahler, com um liede maravilhoso.

A Mosca morreu por falta de propósito.

Em memória dos grandes bangers e da música pop bem feita, ouviu-se Mac Miller; e Kendrick Lamar.

A Mosca apercebeu-se finalmente da fatalidade da sua condição.

Houve Miles Davis, pelo caminho, e a já nossa conhecida Silvia Pérez Cruz. Nada que possa trazê-la de volta.

A Mosca perde-se na distância entre os ponteiros do relógio.

Com os Hype Williams Aïsha Devi, andámos à procura de algo que nos pudesse ser familiar; ou algo que, estranho, nos soubesse acolher.

A Mosca gostaria que fosse doutra forma.

Recordámos as Cocteau Twins, e a toada gótica coral segiu-se com a banda sonora de Ghost In a Shell, recomendação de um dos nossos ouvintes. Apropriadamente, escutámos Le Mystère Des Voix Bulgares, que encantam sempre que por aqui passam.

A Mosca morreu, mas continua por aí.

Termínamos tudo ao som de Jali Musa Jawara.

1. Psychic TV – Eden 2 (Dreams Less Sweet, 1983)
// Gustav Mahler – Symphony No. 1 in D major – III. Feierlich und gemessen, ohne zu schleppen
2. Cocteau Twins – Cherry-Coloured Funk (Heaven or Las Vegas, 1990)
3. Kendrick Lamar – King Kunta (To Pimp a Butterfly, 2015)
4. Mac Miller – What’s The Use? (Swimming, 2018)
// Miles Davis – Springsville
5. Silvia Pérez Cruz – Hymne a L’Amour (Granada, 2014)
6. Hype Williams – Unfaithful (One Nation, 2011)
7. Hype Williams – Homegrown (One Nation, 2011)
8. Aïsha Devi – Inner State of Alchemy (DNA Feelings, 2018)
9. Cocteau Twins – Pandora (for Cindy) (Treasure, 1984)
10. Chant III – Reincarnation (2.0 Ver.)
11. Le Mystère Des Voix Bulgares – Messetschinko Lio Greïlivko (Love Chant From The Rhodopes) (Le Mystère Des Voix Bulgares (Volume 1), 1975)
12. Jali Musa Jawara – Fote Mogoban (Yasimika, 1983)

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Excertos de ‘A Alma dos Ricos’, de Agustina Bessa-Luís.

“O Monte da Cividade, onde o falsário ia com os outros rapazes para fumarem cigarros de barbas de milho, tinha sofrido com a chegada dos arqueólogos. O verde espaço até ao mar parecia mais baço e sem a lonjura que o impressionava em criança. Ele era o quarto de dez irmãos, e a mãe, lavradeira com haveres, passeava a vida nos tribunais. Eram os Quintas de Corvos, lugar onde os cães pareciam os de Baskerville, salvo seja. Duma coisa que o falsário tinha saudades a valer era da maneira como se falava em Corvos. Parecia língua medieval e, lendo os antigos documentos, inquirições, sentenças, fólios de paróquias e outros, lá estavam as palavras como quartas de vinho e taleigas de pão e de castanhas como se dizia ainda na casa dos Quintas. E não se sabe por que bulas, um bisavô do falsário se chamava Pelágio Botelha, e fora jurado; e uma tia Marilina Coyros, o que era abundante de graça agora que tais nomes não se encontravam.”

“As coisas tinham mudado e a insegurança política, as duvidosas medidas da Europa dos quinze que alterava a cadeia alimentar dos povos, os seus hábitos e símbolos de protecção, levavam a nova mecânica de defesa. Não se avançava nada no essencial, apenas se caía noutros estados de desesperação. Impondo-se a obrigação de falar verdade, atraía-se mais o círculo da mentira, da corrupção e do perjúrio. A delinquência afectiva foi a primeira a instalar-se, e a família tornou-se uma técnica de associação, como os partidos. O telemóvel tomou o lugar da intimidade em que a carícia e o olhar são uma forma de maturidade sexual. Objecto masturbante, o telemóvel é um traço arcaico do neurótico, e por isso, tão rapidamente adoptado. Não podendo ser um condutor do pensamento, ganhava em popularidade por dar um conhecimento acessório sobre os sonhos e a vida quotidiana.”


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A Alma dos Ricos
Agustina Bessa-Luís

29/12 – Vozes com feitiço, ambient nipónico, foleirada pop.

Para a última emissão do ano, um algum motivo nos fez começar pelos BTS – um fenómeno, maior do que se pode pensar, da música coreana. O seu disco andou por cá algum tempo sem que com ele estabelecêssemos grande relação. A minha prima gosta deles, por exemplo, mas tem 14 anos. Quem sabe. Já quanto a Bad Gyal, já perdi os seus concertos por duas vezes seguidas; guardo-a com carinho na gaveta de coisas-que-não-devia-gostar-mas-gosto, este modelo de reggaeton drogado, como se o underground passasse pelo comercial para depois dar a volta e estar tudo bem outra vez. Houve ainda Shygirl, com trabalho recente.

Seguiram-se os Orchestral Manoeuvres In The Dark. São um grupo absolutamente essencial dos anos 80, com os seus bonitos sintetizadores, e talvez pudéssemos ter ouvido algo mais além de Joan of Arc – que é uma belíssima canção. Com Silvia Perez Cruz já ficámos mais um pouco. O seu disco Granada é um portento e desta vez complementámos a já conhecida Pequeño Vals Vienés com um clássico maior que conhecíamos apenas cantado por Billie Holiday. A sequência segue com dois trabalhos da portuguesa Sara Serpa, predominantemente vocais.

Para a sequência final, escutámos alguns momentos da carreira de Hiroshi Yoshimura, japonês cuja música se encontra algures entre o ambient e o minimalismo de toada melancólica; Music for Nine Postcards é um disco obrigatório! Há ainda Jim O’Rourke, de quem nunca temos suficiente, e terminámos ao som de Otis G. Johnson, uma bizarra experiência religiosa que serve para muito mais que contemplação divina.

1. BTS – FAKE LOVE (Love Yourself 轉 ‘Tear’, 2018)
2. Bad Gyal – Internationally (feat. Jam City & Dubbel Dutch) (Worldwide Angel, 2018)
3. Shygirl – O (Cruel Practice, 2018)
4. Orchestral Manoeuvres In The Dark – Joan of Arc (Maid of Orleans) (Architecture and Morality, 1981)
5. Silvia Perez Cruz – I Get Along Without You Very Well (Except Sometimes) (Granada, 2014)
6. Silvia Perez Cruz – Pequeño Vals Vienés (Granada, 2014)
7. Sara Serpa – Listening (Close-Up, 2018)
8. Sara Serpa – Pássaros (Close-Up, 2018)
9. Hiroshi Yoshimura – Soto Wa Ame (Rain Out of Window) (Music for Nine Postcards, 1982)
10. Hiroshi Yoshimura – Green (Green, 1983)
11. Jim O’Rourke – Through the Night Softly (Eureka, 1999)
12. Otis G. Johnson – Call On Jesus (Everything/God Is Love ’78, 1978)

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22/12 – Missão clássica, experimentação cantautoral, jazz e novo flamenco.

Para esta emissão, o desgaste fez-nos optar por outro tipo de realidades, e orientámo-nos segundo Panda Bear, que recupera uma melodia de Debussy no seu trabalho de 2015. Depois, continuámos com Gustav Mahler, o extraordinário Mahler, de quem conhecemos bem a primeira sinfonia; o que ouvimos aqui são composições curtas e preliminares a essa sinfonia, onde já explora temas da mesma.

Da clássica, ao jazzMiles Davis Gil Evans são responsáveis por Miles Ahead, e depois chegam os Art Ensemble of Chicago, num registo mais informal e exploratório. Agrupámo-los com Lonnie Holley Arthur Russell, num caminho percorrido em direcção ao abstracto minimal.

Até ao final, desbravámos o itinerário da história do flamenco com Niño de Elche, que juntamente com Rosalía nos mostrou novos caminhos para a música tradicional (e histórica) espanhola. Bem mais formal e relativamente erudito, está aqui um belíssimo trabalho para quem quiser aprofundar e descobrir a estética do flamenco.

E, para terminar, mais clássica, com um clássico: os Planetas, de Gustav Holst.

1. Panda Bear – Lonely Wanderer (Panda Bear Meets the Grim Reaper, 2015)
2. Gustav Mahler – II – Ging heut’ Morgen über’s Feld (Lieder eines fahrenden Gesellen)
3. Gustav Mahler – I – Wenn mein Schatz Hochzeit macht (Lieder eines fahrenden Gesellen)
4. Miles Davis, Gil Evans – Springsville (Miles Ahead, 1957)
5. Art Ensemble of Chicago – Thème Amour Universal (Les Stances a Sophie, 1970)
6. Lonnie Holley – Six Space Shuttles and 144,000 Elephants (Keeping a Record of It, 2013)
7. Lonnie Holley – How Far is Spaced Out (MITH, 2018)
8. Arthur Russell – Being It (World of Echo, 1986)
9. Arthur Russell – Hiding Your Present From You (World of Echo, 1986)
10. Niño de Elche – Fandango Cubista de Pepe Marchena (Antología del Cante Flamenco Heterodoxo, 2018)
11. Niño de Elche – El Tango de la Menegilda (Antología del Cante Flamenco Heterodoxo, 2018)
12. Niño de Elche – Martinete y Debla de Vicente Escudero (Con Baile al Sonido de Dos Motores)(Antología del Cante Flamenco Heterodoxo, 2018)
13. Gustav Holst – The Planets op. 32 – Jupiter, the Bringer of Jollity

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15/12 – Tentativa de jazz endiabrado, jornada de John Cale, flexibilidade vocal e loucura atonal.

Esta emissão não tem um início brilhante. Das duas vezes que tentámos escutar o disco dos Sons of Kemet, a música foi abruptamente interrompida, um resultado que é ainda mais anticlimático dada a irreverência festiva destes meninos. Pedimos desculpa, e recomendamos o disco.

Depois, segue-se uma jornada por música moderna, deste ou de outros anos. Primeiro, Lafawndah, que tem levantado ondas nos últimos tempos embora não tenha muita obra gravada (curiosamente, trabalhou recentemente com Midori Takada); a quem se seguem Ben LaMar GayLaurel Halo.

Mas isto foi tudo trabalho preliminar para chegar ao nome central da emissão: John Cale, membro dos Velvet Underground e produtor de renome nos anos subsequentes. Trabalhou junto dos Stooges, de quem recuperámos uma faixa, e de Brian Eno, além da obra a nome próprio que assinou (e que ouvimos também). Depois, inevitavelmente passámos pela noite de 1 de Junho de 1974, em que ambos se juntaram em palco com Nico Kevin Ayers para assinar um concerto que será de má memória para um deles. Ouçam a emissão para descobrir a história.

Até ao final, recordámos a música e a voz de Meredith Monk, que poderíamos ouvir até ao final dos nossos dias; e fechámos a loja com a brutalidade que é o novo disco dos Guttersnipe – que maravilha!

// The Sons of Kemet – My Queen Is Ada Eastman (Your Queen is a Reptile, 2018)
// The Sons of Kemet – My Queen Is Mamie Phipps Clark (Your Queen is a Reptile, 2018)
1. Lafawndah – Ally (Tan, 2016)
2. Ben LaMar Gay – A Seasoning Called Primavera (Downtown Castles Can Never Block The Sun, 2018)
3. Ben LaMar Gay – Music for 18 Hairdressers: Braids & Fractals (Downtown Castles Can Never Block The Sun, 2018)
4. Laurel Halo – Quietude (Raw Silk Uncut Wood, 2018)
5. The Stooges – Real Cool Time (The Stooges, 1969)
6. John Cale – Andalucia (Paris 1919, 1973)
7. Brian Eno – Driving Me Backwards (Here Come The Warm Jets, 1973)
8. Nico – The End (June 1, 1974, 1974)
9. Meredith Monk – Gotham Lullaby (Dolmen Music, 1981)
10. Meredith Monk – strand (gathering) (Songs of Ascension, 2011)
11. Meredith Monk – vow (Songs of Ascension, 2011)
12. Guttersnipe – Like My Voice Was Holothurin (My Mother The Vent, 2018)

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08/12 – Entrada a pés juntos, lamentação, hip-hop luminoso, reentrada final.

À segunda emissão de Dezembro, mantém-se nomes da emissão anterior enquanto abrimos caminho por…bom, outros caminhos.

Para começar, temos um disco que estava alinhado para a semana anterior. A colaboração entre Jeremy Young & Shinya Sugimoto abre e fecha a hora, duas paredes abstractas que contêm tudo o que há-de passar por aqui. Seguem-se os Durutti Column, um clássico da música britânica.

Quanto a Nico, já a conhecemos o suficiente para que o seu trabalho mais mediático (o álbum da banana com os The Velvet Underground, a sua voz indissociável desse disco) não seja mais do que um pequeno apontamento no que, mais tarde, a sua carreira viria a produzir. No disco que ouvimos, The Marble Index, temo-la soturna, gótica, e amplamente experimental, a transformar a matriz folk (porque a sua voz e os poemas são ainda parte essencial) a composições bem mais experimentais que o habitual à época. O disco tem muito trabalho na produção por parte de John Cale, que recordaremos numa futura emissão. A este nome, segue-se o de Scott Walker; nem a propósito, pela mesma altura de Marble Index, Walker produzia ainda a sua pop de traços barrocos e épicos, mas o trabalho que lhe ouvimos, Tilt, regista já a tendência para outros territórios.

Por algum motivo, ouviu-se Robyn, uma vez mais – será que, afinal, o disco ficará recordado como algo mais? – mas é apenas um breve preliminar para Earl Sweatshirt, que finalmente lançou o seu novo disco. Some Rap Songs evita a estrutura de canção e apresenta-se impressionista e psicadélico – e como, em geral, as faixas são bastante curtas, ouvimos três de uma assentada.

Logo de seguida, ouvimos o momento que marca indelevelmente esta emissão como o mais ostensivamente bizarro: alguém teria imaginado Brian Wilson a dedicar-se ao hip-hop? Sentimos que, de certa forma, pomos o dedo numa ferida que demorou muitos anos a sarar – por esta altura, Wilson estava algo refém do agente maníaco e que abusou do seu muito débil estado mental -, mas, por outro lado…Wilson soa tão maravilhado com a tecelagem que compôs a partir de vários outros samples da sua carreira…portanto, façam a vossa escolha.

Para o final, temos um novo trabalho de Kelly Moran, que será deleite de muitos dos nossos ouvintes, e recuperamos, uma vez mais, Eiko Ishibashi.

1. Jeremy Young & Shinya Sugimoto – Fiction 4 (Total Fiction, 2017)
2. Durutti Column – Never Known (LC, 1981)
3. Nico – Lawns of Dawn (The Marble Index, 1968)
4. Nico – Ari’s Song (The Marble Index, 1968)
5. Scott Walker – Farmer In The City (Tilt, 1995)
6. Scott Walker – Farmer In The City (Tilt, 1995)
7. Robyn – Honey (Honey, 2018)
8. Earl Sweatshirt – Azucar (Some Rap Songs, 2018)
9. Earl Sweatshirt – Riot! (Some Rap Songs, 2018)
10. Earl Sweatshirt – Cold Summers (Some Rap Songs, 2018)
11. Brian Wilson – Smart Girls (Sweet Insanity, 2018)
12. Kelly Moran – In Parallel (Ultraviolet, 2018)
13. Eiko Ishibashi – A Ghost In a Train, Thinking (The Dreams My Bones Dream, 2018)
14. Jeremy Young & Shinya Sugimoto – Nocturne (Total Fiction, 2017)

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01/12 – Música pós-Beatles, loucuras de voz e noise.

Esta é a primeira emissão de Dezembro (e sim, estamos muito atrasados – no Patreon as coisas estão um pouco mais alinhadas).

Começámos a hora com o novo trabalho de Robyn, que tinha tudo para entrar no nosso cânone da pop (mas não entrou). Talvez por ser demasiado electrónico e não tanto bubblegum, é, ainda assim, um disco muito sólido que merece ser ouvido por quem é afecto ao estilo.

Segue-se um segmento que revolve em torno de Jim O’Rourke, que produziu mais um disco de Eiko Ishibashi. O americano já é bem conhecido por aqui, e este Eureka até já aqui passou várias vezes; e fomos à sua procura no trabalho de Ishibashi, onde se lhe nota a presença a espaços. A japonesa tem uma carreira muito interessante no domínio da música experimental e numa próxima emissão (em breve, porque, afinal, passará por Braga no mês de Maio) havemos de lhe dedicar mais tempo. Dentro desta modernidade, fazia sentido recuperar os Dawn of Midi, com a sua magicação electroacústica em formato de banda.

Até ao final, dedicamo-nos a vários modelos de experimentação. Com o alemão Asmus Tietchens, fomos a dois períodos distintos da sua carreira, onde encontramos momentos bem musicais e quase pop; essa sensibilidade está bem patente em Fast Food. De Scott Walker, ouvimos parte do fundamental Bish Bosch, e creio que terá sido a primeira de algumas vezes consecutivas a evocar a sua música; e terminamos a sequência com duas presenças femininas, Puce Mary Eartheather, ambas com trabalhos deste ano.

Para o final, e ainda a propósito da (re)descoberta dos Beatles dada na emissão anterior, temos Yoko Ono (com John Lennon também) num impressionante trabalho de 1970. Fechamos com chave de ouro: Ian William Craig (repetente também?), numa muito bonita incursão por manipuladas tecelagens vocais.

1. Robyn – Honey (Honey, 2018)
2. Eiko Ishibashi – To The East (The Dream My Bones Dream, 2018)
3. Jim O’Rourke – Through The Night Softly (Eureka, 1999)
4. Dawn of Midi – Atlas (Dysnomia, 2015)
5. Asmus Tietchens – Fast Food (Biotop, 1981)
6. Asmus Tietchens – Teilmenge 18 (Gamma-Menge, 2002)
7. Scott Walker – Tar (Bish Bosch, 2012)
8. Eartheater – Inclined (Irisiri, 2018)
9. Puce Mary – Red Desert (The Drought, 2018)
10. Yoko Ono – Why Not (Yoko Ono/Plastic Ono Band, 1970)
11. Ian William Craig – A5 A Slight Grip, A Gentle Hold (Pt. I) (A Turn of Breath, 2014)

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24/11 – Tesouros do LGW?, novos Beatles, boa pop de 2018 e experimentação.

Depois da intensa experiência do LeGuessWho?, tomámos uma semana para descansar destas lides. Esta emissão serviu para recuperar algumas boas surpresas do festival, mais algumas das novidades que foram surgindo nestes últimos tempos.

Foi ocasião para ouvir Tirzah, artista que lançou em 2018 o seu primeiro disco de estúdio e que nos conquistou imediatamente, por ser tudo o que podemos desejar num certo tipo de música. Tirzah canta sobre amor e relações, auxiliada pela sua amiga de infância Mica Levi, que lhe produz todo o disco – e o resultado é magistral. As palavras não farão justiça a este registo de rnb moderno, sedoso, sensual. É um fantástico disco. Segue-se, num registo tematicamente semelhante, Joji, que creio ter sido um fenómeno do Youtube palerma antes de se dedicar a tentar a música a sério. O resultado, longe de ser homogeneamente incrível, tem aqui um ponto alto.

Quanto a Lucrecia Dalt, foi um dos nomes com o qual travámos conhecimento depois de vários anos a ler o seu nome, a projectar fabricações sobre o que seria a sua música tomando o contexto no qual se inseria. Uma agradável surpresa. Se, por vários motivos, achámos que seria dada à electrónica experimental, não nos passou pela cabeça que cantasse por cima dessa tecelagem, num registo que, obviamente, faz lembrar Laurie Anderson, mas que dela rapidamente se descola.

Depois, os Beatles. O White Album foi recentemente remasterizado e teria que passar por aqui. Deste disco, importantíssimo na carreira dos britânicos – um no qual cada membro teve maior liberdade para se expressar individualmente – recuperámos três exemplos da sua versatilidade. E ainda antes de voltarmos ao LGW?, aqui a temos: Rosalía, autora de um dos mais fantásticos discos de 2018, na primeira emissão em que a ouvimos.

Mas 2018 foi também de Eli Keszler, que assinou Stadium, um trabalho que se desdobra em repetidas audições e que passará em Braga no mês de Março – redefine a forma de ouvir a percussão. Segue-se, uma vez mais, Lucrecia Dalt, até chegarmos a uma secção dedicada ao jazz. 

// Klein – Cry Theme
// David Thomas Broughton – Execution
// Tirzah – Do You Know
1. Tirzah – Affection (Devotion, 2018)
2. Joji – SLOW DANCING IN THE DARK (Ballads 1, 2018)
3. Lucrecia Dalt – Atmospheres Touch (Anticlines, 2018)
// The Beatles – Revolution 9
4. The Beatles – I’m So Tired (White Album, 1968)
// The Beatles – Helter Skelter
5. Rosalía – Que No Salga la Luna (El Mal Querer, 2018)
// Rosalía – Pienso en Tu Mira
// J Balvin & Rosalía – Brillo
6. Eli Keszler – Fifty Four To Madrid (Stadium, 2018)
7. Eli Keszler – Measurement Doesn’t Change the System at All (Stadium, 2018)
8. Lucrecia Dalt – Helio Tanz (Anticlines, 2018)
9. Lucrecia Dalt – Edge (Anticlines, 2018)
10. Jeanne Lee – Jamaica (Conspiracy, 1975)
11. Jimmy Giuffre – Threewe (Free Fall, 1962)
12. The Beatles – Dear Prudence (White Album, 1968)
13. The Beatles – Goodnight (White Album, 1968)

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