22
Mai 19

Léxico: «hidrólise alcalina | cremação líquida»

Por mim

 

      «Washington vai tornar-se no primeiro estado norte-americano a permitir a “compostagem humana”, um processo de decomposição acelerada que transforma restos humanos em fertilizante orgânico composto. [...] Juntamente com a “compostagem humana”, foi legalizada a hidrólise alcalina, também conhecida como cremação líquida, um processo que converte os corpos em líquidos depois de passar por uma máquina pressurizada com água, produtos químicos e calor» («Washington é primeiro estado norte-americano a legalizar “compostagem humana”», TSF, 22.05.2019, 9h58).

      Não sei se isto não obriga os dicionários a actualizarem-se. Não, é verdade, no que diz respeito à definição do vocábulo «compostagem», suficientemente clara e abrangente, mas no relativo à hidrólise alcalina e à cremação líquida. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, sobre cremação diz muito poucochinho.

 

[Texto 11 399]

Helder Guégués às 11:17 | comentar | favorito
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Léxico: «argilo-xistoso»

Com os copos

 

      Devemos ter dos mais belos rótulos de garrafas de vinho em todo o mundo. Tenho aqui à minha frente uma garrafa de Ciconia, um tinto do Redondo. E que castas dizem usar? Pois «Touriga Nacional, Syrah, Aragonez, entre outras». Ou seja, nunca olharam para um c***** de um dicionário. Em compensação, porque a vida é assim, usam no contra-rótulo uma palavra composta que devia estar nos nossos dicionários: argilo-xistoso. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora até regista o elemento de formação argilo-, mas, como não acolhe nenhuma palavra composta com este elemento, não é a melhor ajuda.

 

[Texto 11 398]

Helder Guégués às 10:56 | comentar | favorito
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21
Mai 19

A nordeste de Londres

Não façam isto

 

      «“Cresci num pub e os meus amigos na escola eram ciganos e cockneys”. A frase foi dita por Jamie Oliver numa longa entrevista ao Financial Times e retrata um pouco do que foi a infância do chef celebridade, que nasceu e cresceu na pequena vila (ainda hoje com pouco mais de mil habitantes) de Clavering, no condado de Essex, a sudeste de Inglaterra e a nordeste de Londres» («Jamie Oliver. Uma receita de sucesso e fracasso em 10 passos», Gonçalo Correia, Observador, 21.05.2019).

      Vejamos: «a nordeste de Londres» — certo; «a sudeste de Inglaterra» — eu evitaria escrever desta maneira. (Ninguém aqui falou em delinquentes, eu é que me lembrei de que a Porto Editora apenas registou «ciberdelinquência», mas não «ciberdelinquente». Estranho mundo.)

 

[Texto 11 397]

Helder Guégués às 20:42 | comentar | favorito
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Como se traduz nos jornais

Por vezes bem, por vezes muito mal

 

      «O que nem todos sabem é que além da cozinha, também a música era uma paixão para Jamie Oliver. A revelação foi feita pelo mesmo amigo de infância, Leigh Haggerwood: “Começámos uma banda [mais tarde, quando Oliver tinha já 14 anos] e ele tocava bateria, mas o pai dele era muito sensível, portanto garantiu que o Jamie continuava com os pés assentes na terra. Enquanto muitos de nós tinham o sonho de ser estrelas pop, Jamie foi para uma escola de cozinha. A ambição dele, quando tinha pouco mais de 20 anos, era abrir um restaurante e escrever um livro de cozinha”» («Jamie Oliver. Uma receita de sucesso e fracasso em 10 passos», Gonçalo Correia, Observador, 21.05.2019).

      O Sr. Trevor Oliver era «muito sensível» e, logo, não quis que o menino Jamiezinho fizesse barulho lá em casa. Gonçalo Correia, sensible é, em algumas acepções, um falso amigo. Aqui, quando se diz que o pai de Oliver «was very sensible», o que se pretende dizer é que era um homem sensato, com os pés assentes na terra, o que convém inteiramente a um indivíduo que serve à mesa ou ao balcão de um restaurante. Vá, agora jurem que os textos são revistos.

 

[Texto 11 396]

Helder Guégués às 19:57 | comentar | favorito
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Pleonasmo? Ná

O mal está feito

 

      «Fiquei muito irritado quando ouvi Berardo dizer: “Eu pessoalmente não tenho dívidas.” Fiquei muito irritado, porque “eu pessoalmente” ou “na minha opinião pessoal” são daqueles pleonasmos que me esfrangalham os nervos» («Berardo, o disléxico», Tubo de Ensaio, Bruno Nogueira e João Quadros, TSF, 13.05.2019).

      Talvez João Quadros saiba, é a hipótese mais benévola e simpática, o que é um pleonasmo — mas não soube analisar correctamente a frase destacada, na qual não há nenhum pleonasmo. Espero que isto não lhe esfrangalhe os nervos, pois é apenas um forte abanão nessas convicções.

 

[Texto 11 395]

Helder Guégués às 13:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Bertolt Brecht | Leibniz»

Eugen & Gottfried

 

      Eugen Berthold Friedrich Brecht era um inconstante e, se primeiro pensou que o h estava a mais no nome, mais tarde trocou o d por t, para ficar conhecido por Bertolt Brecht. Acontece que alguns tradutores só sabem metade da história, e escrevem sempre, são constantes, «Bertold Brecht». Outro azarado é Leibniz, não raro deturpado em «Leibnitz».

 

[Texto 11 394]

Helder Guégués às 11:12 | comentar | favorito
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Léxico: «palheta | roberteiro»

Mais duas

 

      Hoje, José Candeias, na Antena 1, falava com alguém da Associação Cultural Alma D’Arame, entidade que organiza o Festival Internacional de Marionetas de Montemor-o-Novo, já na 12.ª edição, e a quem, no fim, lançou um desafio: falar com aquela voz característica das personagens do teatro de marionetas. O entrevistado despachou-o em três tempos: que não tinha ali a palheta, instrumento imprescindível a qualquer roberteiro. E não é que nem roberteiro nem palheta, nesta acepção, estão no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Pois é. Dicionários fora dos dicionários.

 

[Texto 11 393]

Helder Guégués às 08:46 | comentar | favorito
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Léxico: «neopaganismo | neopagão»

O básico

 

      «O pessoano Richard Zenith procurará depois inventariar as diferenças entre o neo-paganismo de Pessoa, “uma religião para uso dos heterónimos, ou então para um Portugal sonhado como Quinto Império, muito longe do país real” e a intensidade com que Sophia efectivamente “sentia a presença do divino no mundo que a rodeava e na espantosa realidade imediata dos objectos”. Ou seja, Sophia seria a verdadeira neo-pagã, embora reconheça que a procura de religação e de unidade que anima a sua poesia a afastava de um paganismo para o qual – como diz “o verso que Pessoa considerava ser o mais importante de Alberto Caeiro” –, “a Natureza é partes sem um todo”» («Sophia: nada de coisas farfalhudas, nada de aldrabices», Luís Miguel Queirós, Público, 20.05.2019, p. 35).

      Agora até Luís Miguel Queirós tem dificuldades com a ortografia?... Estamos bem, estamos. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem neopagão nem neopaganismo.

 

[Texto 11 392]

Helder Guégués às 08:26 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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