quarta-feira, 22 de maio de 2019

Declaração de voto


Nasci para a política a desconfiar da Europa comunitária. Por anos, olhei-a como um braço do domínio americano, um instrumento da Guerra Fria destinado a limitar as escolhas de vida dos europeus. Como as liberdades “burguesas” pouco me diziam, via os nossos europeístas “a soldo de” alguém, na melhor das hipóteses uns ingénuos reformistas, num tempo em que a palavra estava proscrita por onde eu andava. Não tendo Portugal vivido a Segunda Guerra, não entendia o cimento que essa memória traumática havia representado para muitos. A aventura da unidade europeia era, para mim, uma ideia estrangeira.

Um dia, comecei a andar bastante por essa Europa. Fui-me apercebendo da importância do seu modelo social, das garantias e direitos que os cidadãos ganhavam com o progressivo aprofundamento das suas políticas, do bem-estar coletivo que visivelmente ela ia construindo, dos ganhos de escala em crescimento que a integração induzia, da filosofia de solidariedade que então estava subjacente ao projeto. O pedido de adesão de Portugal, não me tendo galvanizado, pareceu-me uma opção geopolítica imperativa. Dei comigo a pensar que iria ser sempre tão europeísta quanto os interesses de Portugal o justificassem. Nem mais, nem menos.

É que a Europa continuava a inspirar-me alguma precaução. Inquietava-me deixar que parte importante da soberania do meu país fosse “raptada” por uma “casa comum” onde os condóminos tinham um poder muito diverso na sua gestão. Eu era ainda produto de uma certa escola defensiva de pensamento, a qual, ironicamente, combinava os meus preconceitos ideológicos com uma filosofia de sinal inverso que Franco Nogueira deixara a pairar pelos claustros das Necessidades.

Com alguma surpresa, fui um dia convidado a integrar um governo. Ofereciam-me a pasta dos Assuntos Europeus. Amigos meus, conhecedores das reticências que eu nunca escondera, mostraram a sua perplexidade pela minha aceitação do cargo. Decidi assumir o risco. Passei, a partir de então, a conhecer as coisas europeias mais intimamente. Perdi algumas ilusões mas ganhei bastantes convicções. Aprendi que a Europa é um espaço de luta e confrontação de projetos mas é, sem a menor dúvida, o melhor terreno para a defesa e promoção dos interesses portugueses, um fator essencial para a sobrevivência do nosso modelo democrático, dos valores que cultivamos e sob os quais quero continuar a viver. Esta Europa é o outro nome da nossa liberdade.

Domingo, vou votar pela Europa que foi de Mário Soares. A Europa de António Costa.

(Artigo que hoje publico no “Jornal de Notícias”)

4 comentários:

José Manuel Silva disse...


Apesar de algumas reticências ao projeto europeu, penso que o Partido Socialista, pelo que já fez, está na melhor posição para defender os interesses de Portugal. Vai ter o meu voto.

Anónimo disse...

Lido com espanto.

Despacho:

Espantei-me com saber que há uma Europa de M. Soares ou de outro político qualquer que a História da Europa não irá mais reter daqui a uns anos.

A "Europa" é dos povos que a fazem viver.

É interessante o exemplo dado pelo autor do post, da sua actuação nas Organizações europeias, "à contre coeur" quando na sua formação intelectual, esta tinha sido uma ideia "burguesa" que não se compadeceria com os ediários marxistas dos anos longos de 70.
Será este exemplo dado que justificará o não funcionamento desta Europa formada e transformada por uma mentalidade marxista básica que se tentou adaptar áquilo a que chamavam a burguesia comunista.
..... Estamos mesmo bem feitos.

A Europa está finalmente ainda por se fazer, por pessoas que sejam diferentes daquelas que a fizeram, sem disso necessitarem ter conhecimento de propriedades colectivas e outros conceitos soviéticos pouco europeus.

O medo da "extrema direita" nestas eleições europeias é contrabalançado pelo deleite quanto à extrema esquerda, apenas conhecida por "simplesmente" esquerda.

Sem deferimento antes dos resultados feitos de mudança nestas eleições na Europa.

João Alberto disse...

O senhor embaixador pode explicar qual é o candidato do PS? Será o Sr. Pedro Marques (para saber mais, ler o Poligrafo) ou o Sr. António Costa?

aamgvieira disse...

Vai longe com a "sua" Europa.

Excelente comentário do Anónimo das13:23.