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sábado, abril 27, 2019

Da vantagem de um Presidente culto

Leio deleitoso, no último JL, o discurso do Presidente da República na sessão comemorativa do centenário de Fernando Namora, no dia 15 de Abril, na sua Casa-Museu em Condeixa -- evento que desafortunadamente foi ofuscado pela tragédia do incêndio de Notre-Dame. Não sei se o discurso teve mão fantasma, nem isso é muito importante, pois reconhece-se a caneta de Marcelo naquelas palavras, que além disso foram acrescentadas por vários improvisos do orador, reza a notícia; o que me interessa relevar é mesmo uma noção assaz nítida que o PR mostra do património literário português, parcela das mais relevantes do património cultural do país, no seu todo.
A propósito de Namora e da efeméride, o Presidente referiu-se a José Rodrigues Miguéis, Ruben A., Ferreira de Castro, Miguel Torga, Carlos de Oliveira e Vergílio Ferreira -- ou seja, cerca de um terço do cânone ficional português do século passado --, a que juntou os norte-americanos John Steinbeck e Erskine Caldwell, e Óscar Lopes, como referência de autoridade.
Não é um ensaio, que seria descabido, mas um discurso de circunstância. que não deixa de ser reconfortante em face do zero das elites políticas, com as honrosas e parcas excepções. E porquê reconfortante? Por se esperar que o Presidente não seja apenas a muralha contra o populismo de que falou Ferro Rodrigues, mas também contra a barbárie instalada que não conhece, e portanto não quer saber do património cultural em sentido lato, a não ser que o mesmo lhe possa dar umas medalhinhas da Unesco para trazer à lapela (que podiam ser essas como as do Guiness, tanto faz, desde que em estrangeiro).

quarta-feira, abril 10, 2019

livros que me apetecem

A Gun in the Garland, de Madalena de Castro Campos (Companhia das Ilhas)
Escrito(s) a Vermelho, de Voltairine de Cleyre (Barricada de Livros)
Nova Gramática do Latim, de Frederico Lourenço (Quetzal)

no papo:
O Instinto Supremo, de Ferreira de Castro (Cavalo de Ferro)

quarta-feira, março 27, 2019

vozes da biblioteca

«Depois de havermos trilhado a velha Mesopotâmia, as suas estepes rechinando ao sol, que poeiras ardentes percorriam também e nos queimavam o rosto como enxames de faúlhas, depois de termos auscultado esses largos desertos de onde a nossa civilização lançou os primeiros clarões sobre um mundo espiritual ainda em trevas, voltámos a entrar nas salas das antiguidades orientais do Louvre que tanto frequentáramos antes de partir.» Ferreira de Castro, as Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-1963)

«O jagunço destemeroso, o tabaréu ignaro e o caipira simplório, serão em breve tipos relegados às tradições evanescentes ou extintas.»  Euclides da Cunha, Os Sertões (1902)

«Tantas páginas, tantos livros que foram as nossas fontes de emoção, e que relemos para estudar neles a qualidade dos advérbios ou a propriedade dos adjectivos!» E. M. Cioran, Silogismos da Amargura (1952) (trad. Manuel de Freitas)

sexta-feira, março 22, 2019

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

vozes da biblioteca

«Na sala de jantar da minha avó havia um aparador com portas de vidro e dentro desse aparador um pedaço de pele.» Bruce Chatwin, Na Patagónia (1980) (trad. José Luís Luna)

«Ontem dobrámos o cabo de S. Vicente sob um luar digno dos dramas de Shakespeare.» Eça de Queirós, O Egipto (1869/1926)

«Pequeno, dez, onze anos melancólicos e tímidos, subíamos ao cume da serra que padroa a casa onde nascemos e ali, entre urzes e pinheiros, nos quedávamos a contemplar vizinhas terras.» Ferreira de Castro, A Volta ao Mundo (1940-44)

sexta-feira, fevereiro 22, 2019

Arnaldo Matos

Uma vez, em Vila Franca de Xira, numa sessão sobre o romance Emigrantes, de Ferreira de Castro, apareceu o histórico do PCTP/MRPP Arnaldo Matos. Ouviu, atento, e foi o primeiro a aplaudir. Fiquei contente.

domingo, fevereiro 10, 2019

vozes da biblioteca

«Camilo é o tipo do grande escritor escravo da sua terra e da sua época.» João Pedro de Andrade, O Problema do Romance Português Contemporâneo (1943)

«Ilustrar o célebre livro de Ferreira de Castro era, para ele, continuar, embora sob um aspecto novo, o alto canto que de há tantos anos vem espalhando, com energia e ternura, por pequenas e grandes telas e por quilómetros quadrados de paredes de edifícios públicos: um canto amassado de lágrimas e de brados, de ira e amor.» Mário Dionísio, 12 Ilustrações de Portinari para o Romance A Selva de Ferreira de Castro (1955)

«Só escreve obscuro quem pensa obscuro -- ou quem, simplesmente, não pensa.» Eugénio Lisboa, O Objecto Celebrado (1999)

quinta-feira, janeiro 17, 2019

terça-feira, janeiro 15, 2019

vozes da biblioteca

«Com a queda do velho Lemos, no Pará, os Alcântaras se mudaram da 23 de Junho para uma das três casas iguais, a do meio, de porta e duas janelas, 160, na Gentil Bittencourt.» Dalcídio Jurandir, Belém do Grão-Pará (1960)

«O beijo de despedida, que pertencera ao ritual familiar, perdera continuidade nos últimos tempos (como muitas outras coisas), sem que, aliás, tivesse havido um motivo para que o hábito se alterasse.» Fernando Namora, O Rio Triste (1982)

«Outrora não teria hesitado e, zape-zape, pinheiro arriba, iria ver em que estado se encontrava o novo berço e voltaria, depois, pelos ovos ou pelas avezitas ainda implumes, as pálpebras cerradas e o biquito glutão semiaberto ante qualquer ruído.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

quinta-feira, janeiro 10, 2019

vozes da biblioteca

«Na curta viagem do comboio suburbano, escutando a nossa conversa, a menina, que não teria dez anos e veio a morrer de tuberculose tempos depois, fitava-me sem falar, com uma expressão de angústia infantil nos grandes olhos claros, ao mesmo tempo que em vão puxava para baixo, nos joelhos friorentos, a barra do vestidinho demasiado curto.» José Rodrigues Miguéis, Uma Flor na Campa de Raul Proença (1979) [1985]

«O António Pedro, um bocado na senda do Dalí, garantia ter recordações do útero materno.» Alexandre Babo, Recordações de um Caminheiro (1993)

«Uma mão que se apertou, umas palavras que se trocaram, uma amizade que aflorou, aqui, ali, a norte, a sul, neste país, neste e naquele continente, para cá e para lá dos oceanos.» Ferreira de Castro, «Delfim Guimarães» (1934) [1996]

quarta-feira, janeiro 02, 2019

vozes da biblioteca

«Cuido não andar longe da verdade se afirmar que a minha Aventura Poética começou aí por volta de 1908, tinha eu os meus oito anos, no dia em que reparei (ou procedi como se reparasse) na existência das palavras, extraídas da vaza da algaraviada comum por homens estranhos, incumbidos da missão especial de dizerem o que mais ninguém ousava.» José Gomes Ferreira, A Memória das Palavras I ou o Gosto de Falar de Mim (1965)

«Mesmo antes de despertar -- um sonho me alvissarou que era hoje; um sonho em contorções e desesperos de pesadelos; seringas que se quebravam nas mãos, agulhas que me fugiam por entre os dedos, frascos de droga que se esvaziavam, por diabólico ilusionismo -- no próprio instante da picada.» Reinaldo Ferreira (Repórter X), Memórias dum Ex-Morfinómano (1933)

«Sentei-me a uma das carteiras e, não tendo coragem de levantar os olhos, fixei-os no abecedário, que crescia e se deformava constantemente.» Ferreira de Castro, «[Memórias inéditas»] (1931)

segunda-feira, dezembro 10, 2018

vozes da biblioteca

«Porque ninguém ignora que os escritores, os artistas, os homens públicos, verdadeiros sinistrados da notoriedade, são permanentemente vítimas de malfeitores de vária natureza, conscientes ou inconscientes, que, com prodigiosa facilidade, mentem, fantasiam, deturpam, falsificam entrevistas, forjam trechos apócrifos, inventam biografias fraudulentas, tratam o nome, a dignidade, a personalidade dos homens em evidência como se fosse roupa-de-franceses.» Júlio Dantas, Páginas de Memórias (póst., 1968)

«Sofri demais para poder mentir.» Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra (1919)

«Volto as gavetas sobre a minha mesa de trabalho, como se nela virasse o açafate doméstico, contendo apenas migalhas dos dias vividos, de que se aproveitam somente as aspirações e os sonhos.» Ferreira de Castro, do «Pórtico» de Os Fragmentos (póst., 1974).

quinta-feira, novembro 29, 2018

vozes da biblioteca

«Como sempre que batem à porta daquele seu gabinete de trabalho, eleva muito a voz, a simular a irritação de quem vê as suas tarefas e lucubrações de dirigente intempestivamente interrompidas.» Assis Esperança, Trinta Dinheiros (1958)

«E sob a chuva ininterrupta, sob as cordas incessantes, a vila, envolta na treva glacial, parece lavada em lágrimas...» Raul Brandão, A Farsa (1903)

«Um vaporzito, com graciosidade de gaivota e calentura de forno, largou de ao pé da Kars-en-Nil e, apitando aqui e ali, que o tráfego fluvial era grande em frente da cidade, começou a subir o rio sagrado.» Ferreira de Castro, do «Pórtico» de A Tempestade (1940)

segunda-feira, novembro 19, 2018

vozes da biblioteca

«Os ricos e elegantes foram para Sintra, ou para uma praia qualquer, continuar a vida de Lisboa: as carruagens conhecidas cruzam-se no passeio da tarde, como se cruzavam durante o inverno na Avenida; e à noite, as mesmas soirées reúnem as mesmas pessoas, com os mesmos flirts, e a mesma ponta de má língua -- que, no fim de contas, sempre é uma consolaçãozita na vida.» Conde de Ficalho, «Cartas do Campo - O Repórter, 4 de Setembro de 1888), Dispersos, edição de João Forjaz Vieira (1998)

«Para mim, que conheço a inutilidade dos exércitos, que os considero perniciosos, indignos da nossa época, o gesto do capitão Sadoul, quando há anos demandou a Rússia, mereceu a simpatia do meu espírito.» Ferreira de Castro, «Ecos da Semana -- A Batalha, 15 de Dezembro de 1924), Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, edição de Luís Garcia e Silva, 2004

«Toda, toda a escrita é compensatória de um silêncio.» Maria Velho da Costa, O Mapa Cor de Rosa (1984)

sexta-feira, novembro 16, 2018

vozes da biblioteca

«Para que o sr. Director o estimasse, inventava, todos os dias, delicadezas inéditas, cumprimentos, curvaturas de espinha.» Assis Esperança, Gente de Bem (1938)

«Principiara, parece, uma chuva invisível e contínua...» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934)

«Quando, porém, o outeiro, em curva suave de ventre feminino, se cosia ao sinuoso caminho que dava acesso à aldeia, deteve-se, meditativo, a contemplar a sua casita, quase debruçada no Caima.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

terça-feira, novembro 06, 2018

Dia Ferreira de Castro no CCB


No próximo sábado, 10 de Novembro, a partir das 15 horas
uma parceria Centro Nacional de Cultura / Centro Cultural de Belém




terça-feira, outubro 30, 2018

voze das biblioteca

«Era uma vez antigamente, mas muito antigamente, nas profundas do passado quando os bichos falavam, os cachorros eram amarrados com lingüiça, alfaiates casavam com princesas e as crianças chegavam no bico das cegonhas.» Jorge AmadoO Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (1976)

«O romancista vai de indivíduo em indivíduo, como a abelha quando forrageia o pólen, e a um pede o físico, a outro a índole, a este uma anedota, àquele um pormenor característico, e assim amassa por aglutinação os seus figurantes.» Aquilino Ribeiro, do prefácio à 2.ª edição [1944] de Volfrâmio (1943)

«Se espraiávamos os olhos em redor, para cima, para baixo, para a direita e para a esquerda, tudo era branco e tudo nos dava uma sensação de soledade imensa.» Ferreira de CastroCanções da Córsega (1936)

domingo, outubro 28, 2018

vozes da biblioteca

«Deus é o único ser que, para reinar, nem sequer precisa de existir.» Charles BaudelaireFogachos (1851) (tradução de João Costa)

«Bem sinto a dor que o teu olhar goteja; / Mas o Princípio, por melhor que seja, / É pai dum monstro, que se chama Fim!» Queirós RibeiroPedras Falsas (1903) / Cabral do NascimentoLíricas Portuguesas - 2.ª Série (s.d.)

«A criação da corrente perdurável -- e inexorável -- das coisas, crê o autor tê-la experimentado ao escrever algumas destas páginas.» AzorínCastela (1912) (tradução minha)

«Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura de uma pedra.» Raul Brandão, Memórias I (1919)

«De resto, neste país não se passa economicamente nada, a não ser miséria.» (24 de Dezembro de 1935) Jaime Brasil, Cartas a Ferreira de Castro, ed. Ricardo António Alves (2006)

«Como não tinha tempo para despedir as chatices pagava aos cigarros para conversarem com elas.» António Alçada BaptistaUma Vida Melhor (1984)





domingo, outubro 21, 2018

«À volta dele criou-se assim uma espécie de mitologia que julgo digna de crónica, embora queira penitenciar-me de ser eu a escrevê-la, pois a um neto de campino nunca deveria ser permitido o acesso a certos meios de expressão que o progresso, sorrateiramente, enfiou pelas nossas fronteiras.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«Nas alagoas cavadas pelas mãos dos homens as águas aprisionadas às chuvas como que pressentem que cedo se lhes vai abrir um caminho, enquanto a ténue neblina sobre elas suspensa desfaz-se apressadamente, surpreendida pelo dia que surge.» Orlando da Costa, O Signo da Ira (1962)

«O edifício, velho e longo, muito longo e de um só piso, parecia querer mostrar que a sua missão, justamente por ser celeste, devia agarrar-se à terra, estender-se bem na terra, para extrair a alma dos homens que nela viviam.» Ferreira de Castro, A Missão (1954)

quinta-feira, outubro 11, 2018

«A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranquila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a Lua se desfez sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Baía.» Jorge Amado, A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água (1959)

«Como de ordinário, João Mendes premiu o botão do sexto andar e o elevador arrancou, com um silvo ligeiro e um suave toque de ferragens.» Mário de Carvalho, «In excelsum», A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho (1983)

«Há homens que triunfam não pelo valor próprio, mas pelo valor que os outros lhe atribuem.» Ferreira de Castro, Carta de Reabilitação (1929)