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sábado, 11 de janeiro de 2014

O tempo no Alentejo

Guillermo Pérez Villalta - O rumor do tempo (1984)

Uma longa hesitação, depois segue o caminho, lentamente, muito lentamente. Torna a parar. Olha para trás e sente uma enorme nostalgia do que vai deixar. E se retrocedesse? Não seria mais sensato? Interroga-se, uma e outra vez. Em cada casa, em cada varanda, em cada árvore há um reflexo de eternidade. Terei o direito de trazer o anjo da história? Melhor, e se o anjo da história for eu? Forças estranhas intimam-no para que avance, que essa é a sua natureza. Que não se preocupe com o que fica para trás. Ninguém nota, ele é apenas um leve fluir, um rumor de cinza. Ele hesita, porém. Passar, para quê? Não é eterno este casario branco, imóvel? Recusa-se a prosseguir e senta-se num banco de jardim. Não passará.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Rui Ramos, Manuel Loff e as vacas sagradas

Franz Marc - Cow, Yellow, Red, Green (1912)

Parece que, também em Portugal, se vive num lugar de vacas sagradas. O exemplo disso é a reacção aos textos do historiador Manuel Loff e à crítica que este faz de Rui Ramos. Hoje, é João Carlos Espada, no Público, que vem chorar pela sua dama ofendida. Também, no mesmo jornal, António Barreto incensa RR. Já no sábado, Maria Filomena Mónica derramou abundantes lágrimas de comiseração e de indignação por alguém se ter lembrado de confrontar Rui Ramos. Toda a direita intelectual arrepanhou os cabelos e esganiçou. O pior de tudo, porém, foi o próprio Rui Ramos que deslocou a questão do confronto sobre a interpretação do Estado Novo para o domínio puramente pessoal, uma questão de difamação, lamentou-se.

Embora a argumentação de Loff não me pareça particularmente interessante, há dois problemas que ele coloca, logo no primeiro texto, e que, mesmo para não historiadores, merecem ser discutidos. São problemas ligados ao revisionismo histórico. Cito Manuel Loff: Para percebermos o que RR entende por "provocação", e em resposta a quem acha - como eu - que o seu trabalho é puro revisionismo historiográfico política e ideologicamente motivado, ele entende que "toda a História é revisionista" e nela "é necessário afirmar originalidade" (Público, 31.5.2010). Em primeiro lugar, do ponto de vista epistemológico, o que significa e quais são os limites, se é que os há, para a originalidade do historiador? Convém perceber até que ponto a narrativa histórica se confunde ou não com a narrativa ficcional, o romance. Em segundo lugar, e essa é a discussão central neste caso, é o da amplitude do revisionismo histórico presente no texto de Rui Ramos e a sua motivação. Ela é ou não é ideologicamente motivada, ela distorce ou não a compreensão da ditadura de Salazar?

Contrariamente ao que se dá a entender, Manuel Loff, apesar de não ter o prestígio social e académico de Rui Ramos, não é um zé ninguém. Ele é um especialista na história do século XX, que estudou, em contexto internacional, profundamente as ditaduras ibéricas. Noutro país, estaríamos perante um debate sério entre dois historiadores sérios. Em Portugal, tudo de imediato descambou numa questão pessoal e num confronto de bandos de esquerda (em apoio de Loff) e de direita, neste caso mais esganiçada, (em apoio de Ramos). De uma discussão de onde poderiam surgir novas linhas de força para a compreensão do Estado Novo, o que fica é a habitual reverência às vacas sagradas. Repare-se como João Carlos Espada, no Público de hoje, coloca a questão: "A campanha que está a ser ensaiada contra Rui Ramos e a notável História de Portugal por ele coordenada, (...), é um triste exemplo de reacção contra a atitude intelectual de uma sociedade aberta". 

A desfaçatez não tem limites. Os textos (aliás, textos discutíveis)  de Loff não são textos contra a pessoa de Rui Ramos mas contra as suas assumpções no campo da História. Espada não rebate (coisa que apesar de deslocar o enfoque da polémica - Loff não estava a chamar fascista a RR -, Rui Ramos faz no seu texto para mostrar que não é fascista) um único argumento de Loff, limita-se a prestar culto e adoração a Rui Ramos. Se há uma atitude claramente inimiga da sociedade aberta, essa é a de Espada e de todos os que evitam discutir as questões que Loff levanta. Mas, é bom não esquecer, estamos em Portugal. Discutir é ofender as múltiplas vacas consagradas que dominam o espaço público. Isto tanto à direita como à esquerda. O que rege a vida intelectual portuguesa é o princípio de autoridade. Na verdade, os nossos intelectuais, e aquela gente que saliva à sua volta, ainda não saíram da Idade Média. Não admira que estejamos metidos no sarilho onde nos encontramos.

(Texto alterado às 13:33)

P. S. No Público de hoje, 05/09/2012, está um artigo de Fernando Rosas que sublinha duas coisas que me parecem essenciais em toda esta triste estória. Não há nos textos de Loff nada de insultuoso ou de difamatório de Rui Ramos. Os textos visam, bem ou mal, as ideias e não o homem. Em segundo lugar, parece claro que Rui Ramos não compareceu ao debate. 

segunda-feira, 12 de março de 2012

Orlando Ribeiro, na Biblioteca Municipal


Até 31 de Março, na Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes (Torres Novas), a exposição Ponto de Partida, Lugar de Encontro tem por objecto dar a figura e acção do geógrafo Orlando Ribeiro, uma das mais destacadas figuras intelectuais do século XX português. Para quem se interessa não apenas pela Geografia mas pela vida do espírito em geral é uma oportunidade para descobrir Orlando Ribeiro. Do ponto de vista da História da Ciência em Portugal, a sua figura tem um interesse particular. É o pai da escola portuguesa de Geografia. Note-se, contudo, que a sua influência intelectual vai muito para além da sua área disciplinar.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A Brasileira de Coimbra


Não é preciso um novo motivo para ir a Coimbra. Não estudei em Coimbra nem gosto da chamada tradição académica que por lá impera, apesar de gostar de fado de Coimbra, mas é sempre um prazer ir até à cidade do Mondego, uma das cidades portugueses de que mais gosto. A reabertura de A Brasileira é apenas mais um motivo para ir até lá, um excelente motivo. Será bom que o negócio corra bem, para que o velho café não torne a fechar. A Brasileira de Coimbra faz parte de uma série de cafés que são património cultural dos portugueses.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A morte da Livraria Portugal


A Livraria Portugal foi, muito provavelmente, a primeira livraria em que entrei em Lisboa. Acompanhado pelo meu pai, fui em busca de livros de xadrez, numa época longínqua da minha pós-adolescência em que esse jogo me cativou. Mais tarde, nos tempos de faculdade e posteriores fazia parte do périplo das livrarias do Chiado. Portugal, Bertrand e Sá da Costa. Vai agora morrer, aos 70 anos. A eutanásia está agendada para dia 29. Já morreram, das que frequentei um dia, a Universitária e a Bertrand da João Soares, ambas no Campo Grande. Julgo que a antiga 111, depois Lácio, ainda é viva. Morreu também a velha Bucholz onde, além de livros, comprei música erudita. Com tudo isto, é uma certa Lisboa que está a desaparecer. A vida acaba por fazer este tipo de coisas, afastando-nos dos lugares que amamos. Vale a pena ver o vídeo no Público sobre a Portugal

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Um culto, uma ruína e a miséria


Não quero falar do tempo e das metamorfoses que ele arrasta no espaço. A Igreja de Santa Maria já desapareceu e o velho Teatro Virgínia (quase no canto superior direito) também entregou há muito a alma ao criador. Mas de uma outra coisa, que é para mim uma absoluta novidade (sou um péssimo torrejano). O culto à Expectação do Parto (ou de Nossa Senhora do Ó) ter-se-ia iniciado em Portugal na Capela Mor da Igreja Matriz de Santa Maria do Castelo, em Torres Novas. Aqui uma antiga imagem de Nossa Senhora grávida era objecto de adoração. A imagem e o culto remontam à fundação da nacionalidade. No tempo de Afonso Henriques era conhecida como Nossa Senhora de Almonda, no de Sancho I como Nossa Senhora da Alcáçova e a partir de 1212 como Nossa Senhora do Ó. Foi nesta altura que a Igreja foi edificada ou talvez reedificada.

Estas informações colhi-as na Internet e valem o que valem. Sendo verdade histórica ou lenda, a verdade é que a antiguidade da Igreja, da Imagem da Senhora do Ó e a própria narrativa não foram suficientes para obstar à incúria dos homens. E aqui revela-se Portugal em todo o seu espírito. A Igreja quando foi demolida, nos anos setenta do século XX, segundo consta, não era já recuperável. Mas como foi possível que tão importante monumento local se fosse degradando sem que o cuidado dos homens interviesse para obstar à acção do tempo? Essa desatenção ao passado é uma marca nacional. E não se pode assacar culpas à eterna miséria dos portugueses. O concelho de Torres Novas, na época em que a Igreja de Santa Maria se foi degradando até ser demolida, era um concelho rico, tanto pelas suas indústrias como pela  sua agricultura. Foi a miséria, mas não a económica. Foi outra miséria, bem mais dolorosa e difícil de erradicar, aquela que não sabe respeitar o outro, mesmo que esse outro venha sob a forma de uma herança do passado.