Mostrar mensagens com a etiqueta Beatitudes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Beatitudes. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Beatitudes 8. Da memória

Pere Ysern Alié, Cuevas del Drac. Mallorca, 1925

O silêncio da gruta atiça os cães da memória e eles soltam-se, mergulham na paisagem, fazem ecoar na pedra das paredes os latidos de um medo ancestral. Depois, aos abrirem-se os olhos, o coração apazigua-se, uma sílaba solta-se dos lábios e o terror gravado no fundo do coração dissolve-se na luz crepuscular do presente.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Beatitudes 7. A obscuridade

Brett Weston, Bamboo Forest, Japan, 1970

A obscuridade cresce na floresta, expande-se, em passos lentos, trazendo no ventre vazio o vento da noite, quando os pássaros cessam o canto e os homens, de coração vacilante, entregam o corpo à inocência do sono.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Beatitudes 6. Moinhos de água

Léonard Misonne, By the Watermill, 1900s

Imaginar, primeiro, o sussurrar das águas no leito do rio. Depois, a sua passagem turbulenta, o mover dos rodízios e o esmagar do cereal pelo peso da pedra. Um grito abre o portal do passado e, por instantes, avista-se a vida tranquila e as águas livres, em correria desenfreada, à procura da foz. Não há perfeição maior que a do passado que o crepúsculo, indiferente aos nossos desejos, nos deixa idealizar.

domingo, 14 de abril de 2019

Beatitudes 5. Paisagem

Frederick Sommer, Colorado River landscape, 1942

Há uma estranha beatitude que se desprende dessas paisagens agrestes e inóspitas, nas quais a vida dos homens é impossível. Puras e livres, a imaginação pode sonhá-las como a matéria prima informe que um deus poderá usar para criar um mundo livre da usura com que a humanidade mancha tudo em que toca.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Beatitudes 4. Fonte

Margaret Bourke-White, Law College, Cornell University, Ithaca, NY, c.1926

Caminhar dentro do abandono e sentar-se à sombra da árvore. O sol incendeia a solidão e aquele que se sentou pensa nos fundos abismo e nos altos cumes que a vida deixa escapar dos seus dedos secos e hirtos. Um canto de cigarra desperta-o. Levanta-se e caminha sedento à procura de uma fonte, da mais desejada das fontes, aquela de onde tudo brotou.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Beatitudes 3. Chuva

Jean Dieuzaide, Mercado, Santiago de Compostela, Spain, 1961

Um rumor anónimo perpassa pelas ruas. Compra-se e vende-se, trocam-se palavras, promessas, um cumprimento de ocasião, enquanto a chuva desliza dos céus e sorrateira se entranha nas vestes ou na terra que espreita pelo empedrado do chão. A água tamborila nos guarda-chuvas e a vida rufa, secreta e atormentada, entre cestos de legumes e sacos de batata. Não é preciso estar no oceano para naufragar, alguém sussurra, mas logo o vozear cobre as palavras, que o vento leva para a floresta do esquecimento.

terça-feira, 12 de março de 2019

Beatitudes 2. Início

Francisco Soto Mesa, 5.01.1, 2001

A tarde rasteja na luz oscilante que vem do porão vazio dos céus. Um pombo desenha um círculo e poisa num ramo de oliveira. O mundo compõe-se lentamente. Uma árvore, outra, o fio de uma rua, aqui e ali, as primeiras casas. É árduo o trabalho, mas os homens persistem e avista-se já um jardim. Os juncos reverberam com o cheiro da Primavera que se aproxima, ainda presa ao silêncio do futuro, mas já prenhe de palavras que hão-de ser cântico na boca das mulheres. Sobre as ervas, ignoradas, jazem as primeiras promessas. Em breve serão feitas perante o altar da aurora.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Beatitudes 1. Perfeição

Albert Bloch, Old Graveyard, 1940-41

Retiram ao dia o sudário de luz que o envolve, logo as chagas enegrecem tocadas pelo hálito da noite. Março caminha decidido pela estrada das estações, desenvencilha-se do lençol do Inverno e deixa entrever já os grandes navios que trarão a Primavera. Outrora, não há muito, passavam por aqui rebanhos conduzidos por cães e pastores. Hoje desfilam carros que largam baforadas de um fumo negro, coberto de acinte. Não tarda, surgirão, entre as escassas nuvens, as primeiras constelações e por elas se saberá do destino daqueles que caminham absortos nos negócios do coração. A perfeição de tudo está em não esperar perfeição alguma, aguardar a hesitação que leva do dia à noite e crer, sem sombra de dúvida, que das cinzas a fénix há-de renascer.