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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Natal e sociedade


Entre a religião e a sociedade há uma dinâmica que, nos dias de hoje marcados pela indiferença religiosa, parece já não ser compreendida pela maioria das pessoas. Esta incompreensão deve-se à religião ter sido relegada para o foro da subjectividade. As pessoas podem dizer-se católicas, frequentarem a Missa, mas na vida social comportarem-se objectivamente como alguém despido de qualquer crença religiosa. Isto afecta, de forma muito evidente, o sentido social da Festa da Natividade do Senhor, a qual se degradou numa espécie de orgia de consumo.

O Natal tem um significado religioso, de natureza espiritual, e tem um sentido social. Não foi apenas a sua dimensão espiritual que foi rasurada, mas também o significado profundo da sua natureza mais exterior e comunitária. No nascimento do Menino, as nossas sociedades sacralizavam e divinizavam a emergência de uma nova vida. O Menino Jesus é o arquétipo de todas as crianças que vêm à vida. Isto significava que a banalidade do nascimento humano tornava-se num acontecimento excepcional. Por mais crianças que nascessem, por mais vulgar que fosse a mecânica que conduz da fecundação ao nascimento, todo o recém-nascido era um excepção, um acontecimento extraordinário e singular. Uma manifestação divina.

No Natal, as sociedades celebravam o poder da vida, a sua regeneração e a sua eterna novidade. Celebravam também outra coisa, celebravam a sua própria continuidade. Esta simbolização, pelo Natal, da continuidade da vida e da comunidade parece, nos dias de hoje, completamente perdida, ocultada pela festividade profana que, dinamizada pela indústria e pelo comércio, se ergueu nas cidades e nos lares. Em vez da vida, desde há muito que o Natal celebra o poder de compra. Deixou de ser uma questão vital para se tornar num dado nas estatísticas económicas dos países e uma dor de cabeça para aqueles que, crentes ou não, terão de participar nas festividades, arrastados pela enorme máquina publicitária.

Que o Natal tenha perdido a sua dimensão espiritual, isso diz respeito aos crentes. Que ao Natal se tenha retirado o poder para simbolizar o triunfo da vida e a continuação da comunidade, deveria preocupar crentes e descrentes. Sem a simbólica do Natal, a vida e a continuidade de uma comunidade perdem a sua natureza sagrada e são arrastadas para o domínio do que é vulgar e banal. Se o Natal passou a ser uma prova do poder de comprar, a vida – essa que se renova em cada recém-nascido – tornou-se um exercício dependente de um cálculo económico, e a continuidade da comunidade ficou sujeita à aritmética dos prazeres e dos desprazeres que a nova criança poderá trazer.

[A minha crónica em A Barca]

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A Igreja, o espírito e o sexo


A minha crónica no Jornal Torrejano.

A recente declaração do cardeal Clemente sobre abstinência sexual dos católicos recasados e a intensa luta, ao mais alto nível da hierarquia católica, sobre problemas de ordem moral tornam manifesta, mais uma vez, a grande dificuldade que a Igreja Católica enfrenta nas sociedades modernas. O problema centra-se no conflito entre a autonomia e liberdade dos indivíduos, uma característica da modernidade, e a reivindicação, por parte da Igreja, de um papel de tutoria, em matéria moral, de preferência sexual, das consciências dos crentes. O que se passa é que cada vez mais crentes, não deixando de o ser, recusam submeter a sua consciência e a sua liberdade à tutoria dos sacerdotes católicos.

O Vaticano II e a acção do actual Papa são tentativas de lidar com este problema. Os ventos vindos do concílio nunca agradaram aos sectores conservadores da Igreja. Pior ainda é a acção de Francisco, a qual gera verdadeiros ataques de fúria e de desobediência por parte desses sectores. Há uma coisa, contudo, que os sectores conservadores têm razão. O aggiornamento proposto por João XXIII, Paulo VI e Francisco não tem conseguido travar o declínio do catolicismo nas sociedades modernas. Os conservadores equivocam-se, porém, quando pensam que uma Igreja reactiva para com a modernidade, fundada no espírito do concílio de Trento, seria capaz de evitar o declínio. Provavelmente, o declínio seria mais rápido.

Há um problema que me parece central neste conflito entre católicos conservadores e católicos actualizadores. É o da discussão se centrar em questões morais. Isto é um problema porque ambos diminuem, na prática, o âmbito do catolicismo. Surpreendentemente, tanto conservadores como actualizadores estão a transformar o cristianismo, tal como o fizeram os protestantes, numa mera moralidade. Ora o cristianismo é mais, muito mais do que uma doutrina moral, farisaica ou misericordiosa. É uma aventura espiritual.

A Igreja Católica possui uma herança espiritual, fundada na mística, que poderia ser uma chave para entrar em contacto com o mundo moderno. Essa espiritualidade tem recursos suficientes não apenas para lidar com pessoas livres mas também para libertar as pessoas. É essa ânsia de liberdade e de libertação que levou muitos ocidentais a interessarem-se pelas práticas espirituais do Oriente, do Tantra ao Yoga ou ao Zen. A Igreja Católica em vez de fazer uso, no mundo moderno, da sua riquíssima tradição espiritual, esconde-a e passa o tempo, literalmente, a discutir o sexo e a moral sexual, como se a vida espiritual dos homens se reduzisse ao coito, interrompido ou não.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A questão religiosa

A minha crónica em A Barca.

O Iluminismo assentou a sua avaliação – claramente, negativa – da religião revelada em três pilares críticos: a crítica do preconceito, da superstição e da autoridade que não advenha da razão. Segundo os iluministas, a religião revelada manteria uma atitude anti-racional fundada em preconceitos e superstições, na ordem do conhecimento, e na autoridade, no que diz respeito a matérias morais e à própria crença dogmática. Esta crítica racionalista tornou-se no Ocidente culto o padrão com que se julga ainda hoje a religião. O que levanta, pelo menos, dois problemas.

Em primeiro lugar, a religião tem dimensões que estão muito para além daquilo que é consignado num sistema de crenças explicativas do mundo ou num código moral. A vida religiosa assenta na relação do indivíduo consigo mesmo e com a transcendência. O essencial de uma religião é a vida espiritual que proporciona. É desta vida espiritual que, no decurso da história da humanidade, se soltaram os elementos que forneceram as primeiras explicações racionalizantes do mundo (os mitos que compõem todas as religiões) e as normas de conduta que regeram – e regem em muitas culturas – a vida das comunidades. Estes últimos elementos são aqueles que, pela sua natureza acidental e histórica, se transformam em preconceitos e superstições. No entanto, eles não fazem parte daquilo que é fundamental numa religião, apesar de serem, muitas vezes, o seu aspecto mais visível e também o mais polémico. Dito de outra maneira, a crítica do Iluminismo à religião deteve-se no acidental e não compreendeu o essencial.

Em segundo lugar, a dissolução crítico-racionalista da religião, o subestimar da sua importância na vida das comunidades, está a tornar o Ocidente incapaz de perceber os problemas que o mundo islâmico lhe coloca, tanto fora de fronteiras (o último caso é o da Turquia e da sua deriva anti-secular) como dentro (o terrorismo ou a não aceitação do modo de vida ocidental por imigrantes muçulmanos). Diversos sectores islâmicos vêem no abandono do cristianismo por parte dos ocidentais uma janela de oportunidade para expandir o Islão. Não tendo passado pelo Iluminismo crítico, estão convencidos de que o actual vazio religioso não poderá perdurar, o que abrirá ao Islão um futuro risonho na Europa. É por estes motivos que a religião não pode continuar a ser considerada pelos europeus uma superstição ou uma irrelevância. E é por eles também que se deve ter muito cuidado em deitar fora o cristianismo, pois corremos o risco de despejar o bebé com a água do banho.

domingo, 16 de abril de 2017

Viragens antropológicas

Caspar David Friedrich - Easter Mornig (1833)

Há na Páscoa dos cristãos uma orientação que tem nítidas semelhanças com a viragem antropológica operada por Sócrates e Platão, séculos antes, na filosofia. Quando esta emergiu, a sua preocupação centrava-se na compreensão da natureza. O magistério socrático e a reflexão platónica dirigiram o olhar para o homem, para a sua vida na cidade e, inclusive, para a sua vida no além. O que tem esta revolução especulativa a ver com os acontecimentos pascais?

Há, por vezes, uma tendência para olhar para as festividades do cristianismo e compreendê-las como um decalque e, por vezes, mera cópia das festividades pagãs. Contudo, falha-se o essencial. Falha-se a viragem antropológica que estando já desenhada no judaísmo se consumou no cristianismo. Na Páscoa cristã não se vive a ressurreição da natureza, esse acontecimento cíclico que fascinou os homens durante milénio, mas a ressurreição do próprio homem. Não é só a natureza que pela sua renovação anual que triunfa sobre a morte. Também o homem, a quem foi negada a renovação anual, pode triunfar da morte.

Primeiro com Platão e Sócrates e depois com Cristo, o homem dirige o olhar e a razão para si mesmo, interroga-se sobre a sua natureza, a sua conduta e o seu destino. Estes dois momentos da história ocidental são aqueles que possuem, ainda hoje, o maior potencial simbólico e o maior dos perigos. O perigo reside em poderem tornar-se num exercício de auto-contemplação narcísica da espécie humana. Contudo, este perigo extremo é compensado pelo conteúdo simbólica que tem permitido - e continua a permitir - encontrar aí um sentido que, estando para além do narcisismo específico, abra as possibilidades da aventura humana sobre este planeta.

terça-feira, 21 de março de 2017

Flashmob e tradição

Papa Francisco (foto daqui)

A mensagem do Papa às jornadas da juventude tem duas notas que sublinham a dificuldade da Igreja Católica nos tempos que correm (ver aqui). A primeira diz que a verdadeira experiência na Igreja não é uma "flashmob". Uma flashmob, como a própria notícia explica, é uma concentração espontânea e de curta duração de pessoas num lugar público. Pretende assim o Papa reafirmar que uma instituição como a Igreja exige compromisso e persistência no tempo. A questão nasce do confronto entre as tendências existentes naquilo que Zygmunt Bauman classifica como sociedade líquida, a nossa, e tudo o que pressupõe a solidez que permite enfrentar o desgaste do tempo. A nossa sociedade deixa-se retratar, na verdade, como uma flashmob, onde pessoas e coisas se manifestam por instantes e desaparecem do espaço público. Liquefazem-se e correm a dissolver-se na indiferenciação dos oceanos. A crença religiosa dificilmente se poderá desligar do destino que atinge todo o resto da realidade social.

E isto é dramático para a Igreja Católica. O drama está expresso na seguinte passagem: temos de aprender a fazer com que os eventos do passado se convertam numa realidade dinâmica, para reflectir sobre ela e obter ensinamentos e um sentido para o nosso presente e o nosso futuro. A Igreja Católica, ao contrário das Igrejas protestantes, vive da tradição, dessa conexão entre o passado remoto e o futuro por vir. Se tudo, porém, se dissolve em encontros espontâneos que logo se desfazem, as próprias condições de manutenção de uma tradição desaparecem. Mesmo nos países de maioria católica há uma espécie de triunfo do protestantismo e da sua negação da autoridade da tradição. Não por acaso, se assiste, nesses países, à propagação de Igrejas evangélicas. De certa maneira, elas estão intimamente ligadas ao espírito do tempo, à vida líquida em que se transformou a existência nas actuais sociedades ocidentais. Evocar uma longa linha e continuidade, entre um passado longínquo e os dias de hoje pouco sentido faz para quem vive no e para o instante. E é isto que, nos dias de hoje, parece atormentar o Vaticano.

segunda-feira, 6 de março de 2017

O sacrifício de Isaac

John White Abbott - Landscape with Abraham and Isaac

A história do sacrifício de Isaac pelo seu pai, Abraão (ver Génesis 22:2 e seguintes), como todas as narrativas bíblicas pode ser tomada em diversos sentidos. Uma leitura religiosa dirá que se está perante um teste à fé de Abraão, à capacidade deste responder a uma exigência absoluta de Deus sem hesitar ou ser tomado pela dúvida. Uma leitura diferente, não religiosa, pode ser feita do episódio. Do ponto de vista civilizacional, podemos estar perante a simbolização do momento em que os sacrifícios humanos, uma prática generalizada, perdem sentido. O absoluto da fé substitui o absoluto da morte. 

É evidente que esta transformação civilizacional tem um preço e esse preço está expresso na própria narrativa. Trata-se de substituir a morte da vítima a imolar pela fé absoluta em Deus. Esta fé é, desse modo, um holocausto, onde as dúvidas, pretensões e desejos do indivíduo são entregues em sacrifício. A derrota da barbárie nasce da subjectivação e espiritualização do sacrifício. Já não se trata de imolar uma vítima exterior, mas de auto-imolar-se, como forma não apenas de agradar a Deus mas também de permitir que os homens vivam uns com os outros. Nenhuma sociedade é possível se os seus membros não tiverem interiorizado a necessidade de uma auto-imolação mínima. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Traduções da Bíblia e atraso de Portugal

Anónimo - Papa Clemente XI

Na Apresentação, que Frederico Lourenço antepõe ao primeiro volume da sua tradução da Bíblia do grego, é chamada a atenção para uma situação que, ainda hoje, nos ajuda a compreender uma clausura cultural que encerra Portugal num ainda não ultrapassado paroquialismo. O tradutor sublinha que o século XVIII não foi um tempo muito propício para a leitura individual da Bíblia nos países católicos. Em 1713, o papa Clemente XI, na bula Unigenitus (§§ 79,80), estabeleceu como falsa a ideia de que todos os cristãos têm vantagem em ler a Bíblia e explicitou, ainda que o acesso à leitura da Bíblia não deve ser outorgado a qualquer pessoa.  De certa forma, a Bíblia, nos países católicos, entrou para o próprio Índex. Uma das consequências, em Portugal, desta posição papal resultou na interdição de publicar no nosso país, em pleno Século das Luzes, a primeira tradução portuguesa da Bíblia, por João Ferreira de Almeida, levada a cabo ainda no século XVII.

Esta pequena história, aliada à nossa localização periférica na Europa, diz-nos muito sobre a decadência cultural e o fechamento do país, os quais não deixam de se sentir ainda hoje, como, por exemplo, no desprezo com que a direita portuguesa tratou a questão dos quadros de Joan Miró ou, a dificuldade da esquerda, mas também da direita nacional, em valorizar o papel do indivíduo e da sua iniciativa.

A oposição da Igreja Católica à leitura individual da Bíblia tem de imediato duas consequências. Vai atrasar, até aos dias de hoje, três séculos passados, o processo de escolarização dos portugueses. Por muito que certos corifeus do partido da anti-escolarização continuem a indignar-se e a gritar contra a importância dada à educação, a verdade é que o pouco relevo da educação escolar em Portugal, nos últimos 300 anos – as excepções são a I República e o regime democrático pós-25 de Abril –, é uma das causas do nosso persistente atraso. Uma outra consequência não é menos devastadora. A leitura individual da Bíblia poderia ter sido, naqueles dias, um factor de desenvolvimento de uma consciência individual crítica, capaz de autonomia e, por isso mesmo, capaz de iniciativa. Capaz também de cortar com uma cultura de protecção de amigos e famílias (onde se incluem as políticas), quando não de quadrilha. A Igreja Católica mudou de posição, o Estado português começou a levar a sério a educação, mas o tipo da cultura herdada daqueles dias contínua a pesar sobre todos nós.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um Papa irritante


O Papa Francisco tem o condão de irritar uma certa direita e de agradar a uma certa esquerda. O que acontece com ele não é, porém, muito diferente do que aconteceu com João Paulo II, mas este agradava a uma certa direita e desagradava a uma certa esquerda. Na verdade, para além do estilo pessoal e das circunstâncias dos respectivos papados, não há diferenças, no essencial, entre eles. Como não há entre ambos e Bento XVI. Voltemos ao que irrita tanto certa direita. Em abstracto, o que a irrita é que Francisco não seja um chefe político, o seu chefe político global. De forma menos abstracta, o que a irrita não são sequer as questões de ordem moral, a abertura que o Papa tem ostentado para com os recasados e os homossexuais, ou a sua atenção aos problemas ecológicos. O que a irrita são as questões de ordem económica e a relação com o Islão.

Comecemos com as questões económicas e com uma longa citação de um artigo recente de Francisco Sarsfield Cabral: “O Papa Francisco é frontal e coerente, nas palavras e nos actos. No início do seu pontificado chocou algumas pessoas, nomeadamente com afirmações sobre problemas económicos e sociais. Depois, lendo com atenção o que o Papa dizia, verificou-se que ele falava segundo a Doutrina Social da Igreja (DSI) – algo que muitos católicos acham uma doutrina simpática, mas ignoram na prática. Francisco veio, afinal, lembrar que essa Doutrina é mesmo para aplicar.” Na verdade, a DSI está longe dos devaneios dos teóricos do liberalismo contemporâneo e isso irrita as elites que vêem como virtuosa a devastação social fomentada pelas políticas ditas neoliberais e ordoliberais (a versão alemã do liberalismo contemporâneo).

A posição da Igreja não nega a propriedade privada dos meios de produção, a iniciativa empresarial e o papel do mercado na economia. Em suma, não nega o liberalismo, mas tempera-o. A DSI aproxima-se das antigas perspectivas da democracia-cristã e da social-democracia. Valoriza a ideia de comunidade e de integração de todos nessa comunidade. Esta é uma perspectiva cristã, mas não é a perspectiva de muitos cristãos. E isso é irritante para as elites sociais – nomeadamente, as católicas – que usam a Igreja para se diferenciar, reafirmar o poder e reproduzir o seu estatuto social. A irritação subjaz na forma desdenhosa com que tratam o actual Papa: o Papa Chico.

Outro motivo de irritação emerge com o problema do Islão. Apesar dos atentados levados a cabo pelo radicalismo islâmico, Francisco recusa-se a aceitar a existência de uma guerra religiosa – apesar de defender que o mundo está em guerra – e de ver o Islão com uma religião inimiga da convivência pacífica entre os homens. Tenho escrito múltiplas vezes sobre o problema do Islão, um assunto para o qual fui despertado pela já longínqua Revolução Iraniana, em finais dos anos setenta do século passado. Há no Islão uma desconformidade com a Modernidade e o Iluminismo muito mais acentuada do que aquela que existia entre essas dinâmicas da História e o Cristianismo, até porque muitos valores da Modernidade e do Iluminismo têm a sua origem no próprio Cristianismo. Não tenho dúvidas sobre o facto de certos sectores do Islão quererem – e agirem em conformidade – um conflito intercivilizacional.

A questão que se coloca, contudo, é se o chefe da Igreja Católica deverá reconhecer a existência de uma guerra religiosa entre o mundo cristão e o mundo islâmico. O que significaria esse reconhecimento? Em primeiro lugar, significaria o corte com a trabalho de diálogo com o Islão iniciado por João Paulo II e continuado com Bento XVI. Depois, significaria que, de um momento para o outro e por iniciativa do Papa, o mundo islâmico (e este está presente por todo o Ocidente) e o mundo de origem cristã se tornariam, formal e materialmente, inimigos. Isso poderia, por exemplo, dar origem a guerras civis em certos países europeus, instabilizar ainda mais as fronteiras com o mundo muçulmano, a começar pela da Turquia e acabar com os nossos vizinhos de Marrocos. Julgo que os grupos islâmicos radicais agradeceriam o favor.

Francisco não é ingénuo nem alguém que está ao serviço do inimigo. É antes de mais um jesuíta. E esta característica não pode ser dissociada da sua idiossincrasia pessoal. E os jesuítas foram e são educados para defender a Igreja e o Papa. Como jesuíta, Francisco é um diplomata e diz aquilo que quer dizer e não diz o que não quer. Há nele frontalidade mas também diplomacia. Como Papa, como sumo pontífice (pontifex), ele é construtor de pontes. E é isso que ele faz. Construir pontes com o outro. Seja este outro alguém que não segue a moral católica, alguém que pertence ao mundo dos excluídos, alguém que é ateu, ou alguém que professa outra fé. Um Papa não é um capo político. A dimensão que é a sua é supra-política, mais abrangente e mais profunda. É por isso que os Papas têm essa capacidade persistente de irritarem umas vezes a direita, outras a esquerda, e, por vezes, as duas ao mesmo tempo. É para isso, porém, que eles são o que são.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Um mártir da liberdade

Paul Gauguin - The Yellow Christ (1889)

A execução do padre Jacques Hamel, numa igreja de Saint-Étienne-du-Rouvray, perto de Rouen, França, não foi mais um atentado terrorista. Degolar um velho padre na Igreja perante os fiéis que ali se encontravam para a celebração da Eucaristia, foi um acto simbólico contra a fonte das nossas liberdades e dos valores ocidentais. Repito, o cristianismo – fundamentalmente, o cristianismo católico mas não só – é a fonte das nossas liberdades e dos nossos direitos, é a origem, juntamente com os valores clássicos greco-latinos e a ciência moderna, da nossa visão do mundo.

Recorro a uma autoridade insuspeita, a Jürgen Habermas, o filósofo alemão de esquerda, ateu e neo-marxista. No diálogo que manteve com Jospeh Ratzinger, Bento XVI, em 2004 e transformada em livro em 2005 (The Dialetics of Secularization), Habermas chama atenção para o facto do cristianismo ser o fundamento último da liberdade, dos direitos humanos e da civilização ocidental. E afirma que “não dispomos de opções alternativas. Continuamos a alimentarmo-nos desta fonte”. E acrescenta que os Estados liberais devem salvaguardar “os seus recursos culturais e morais, dos quais a religião faz parte”.

Tornou-se moda, nas nossas sociedades, desprezar o cristianismo, ridicularizar as Igrejas – em especial a Igreja Católica – e congratularmo-nos com o ocaso que parece atingir o cristianismo na Europa. Não se percebe que com isso estamos a minar o fundamento mais poderoso das liberdades ocidentais, a fonte dos grandes valores que são os nossos – e nos quais cabe a separação Igreja-Estado e a própria liberdade de não crer – e o cimento último que nos permite uma identidade e uma diferenciação no concerto das grandes culturas do mundo.

Nós não compreendemos ou não queremos compreender isto, mas há quem no mundo islâmico o tenha compreendido e parece não hesitar em abrir brechas num mundo que despreza as suas próprias origens. Há um velho sonho em certos sectores do Islão – e que não serão tão minoritários quanto nos queremos convencer – de uma comunidade única da espécie humana sob a lei do Profeta. O grande inimigo deste projecto foi sempre o cristianismo. Porquê? Por uma interpretação da relação do homem com Deus diametralmente oposta. No Islão, os homens são servos. Servos de Deus e submetidos aos seus representantes. No cristianismo, a relação com Deus não visa a servidão mas a liberdade. Foi esta liberdade que, ao longo de séculos, se foi descobrindo, desenvolvendo e que culminou no Estado de direito.

É por isso que a execução de Jacques Hamel o transforma não apenas num mártir da Igreja Católica, mas num mártir da liberdade. Alguém que não pode ser visto de forma diferente da daqueles homens que deram a sua vida no terrível desembarque nas praias da Normandia para que se pusesse fim ao terror nazi. Não sei se nós ocidentais compreendemos isso. Não sei se nós ocidentais percebemos que a destruição do cristianismo – um dos fins do radicalismo islâmico – arrasta consigo o conjunto de valores que sobre ele foram erguidos. Hoje em dia parece acreditar-se que se destruirmos os alicerces de uma casa esta ficará de pé. Não ficará, não sobrará pedra sobre pedra.

sábado, 16 de abril de 2016

Um exercício de purificação

John Everett Millais - Love, From Willmot's Poets

Esta notícia sobre as origem possíveis da monogamia trouxe-me à memória o recente sínodo da Igreja Católica sobre a família. Este foi assombrado pela visão do casamento monogâmico indissolúvel e pela dificuldade em lidar oficialmente com a homossexualidade. Que problema traz esta notícia para essa concepção? Um problema muito simples. O casamento monogâmico não resultou nem de uma opção moral nem de uma revelação divina, mas de uma necessidade da espécie para sobreviver, limitando as doenças sexualmente transmissíveis, em determinados ambientes sociais.

Não pretendo argumentar a favor de normas não monogâmicas de casamento ou de relação sexual. Quero apenas chamar a atenção para este tipo de informação. Ele vem relativizar aquilo que se apresenta, ao nível da religião, como um valor absoluto. A monogamia e a indissolubilidade do casamento são valores relativos, resultantes de uma necessidade específica posta pelo ambiente social. Esta relativização coloca, por outro lado, uma outra questão: que relação pode haver entre ciência e religião? Há uma visão, alimentada por certos círculos propensos ao ateísmo, de oposição absoluta entre este dois tipos de crenças. A esta visão, preconceituosa e ingénua, corresponde uma outra, não menos preconceituosa e ingénua, que pretende justificar a fé com a ciência.

As duas visões acima referidas ocultam uma terceira. A ciência pode ter um impacto purificador na religião e na vida espiritual. Como? Tornando evidente a relatividade daquilo que, na religião, pertence não à experiência espiritual mas ao domínio da vida social contingente, que, por isso, é relativo e mutável. A regulação da sexualidade e as opções matrimoniais não possuem um valor absoluto e, por isso mesmo, não são nem factor limitativo nem fomentador de uma vida espiritual plena e realizada. A ciência pode ter, deste modo, a virtude de ajudar as religiões a libertarem-se dos preconceitos e a concentrarem-se naquilo que é o seu núcleo essencial: a vida espiritual dos homens, a libertação das ilusões, a sua relação com o absoluto e a transcendência, com o mistério do ser.

terça-feira, 29 de março de 2016

A vertigem pelo absoluto

Tal-Coat - Dans le jaune (1970)

O que leva um jovem com uma vida normal, segundo os padrões hedonistas em vigor no mundo ocidental, a radicalizar-se e semear o terror e a morte? Esta pergunta voltou ao meu espírito ao ler isto sobre os irmãos Abdeslam, envolvidos nos ataques terroristas de Paris. Eram pessoas que gostavam de se divertir, de dançar, de futebol, de estar com amigos, de mulheres. Como é que daqui se dá um passo para o terror? A liturgia comum diz-nos, influenciada por uma sociologice sempre disponível, que isso se deve a causas sociais e económicas, ao desespero de estar desintegrado (o que não parece ser o caso). Estas causas podem explicar um certo espírito de revolta, mas não explicam o passo para o terror.

Olhemos para os anos sessenta e setenta do século passado. Uma onde de terrorismo atingiu uma parte da Europa. Os grupos terroristas não eram compostos nem por imigrantes nem por gente das classes mais pobres. Esses grupos (Brigadas Vermelhas, Fracção do Exército Vermelho - Grupo Baader-Meinhof) nasceram na universidade, numa universidade ainda claramente elitista. Como os actuais têm uma motivação religiosa, os antigos terroristas tinham uma motivação ideológica. O que há de comum entres estes dois fenómenos? Pelo menos uma coisa, a causa que leva alguém a radicalizar-se e a destruir em si o respeito pelos outros. Essa causa pode ser denominada como a vertigem pelo absoluto.

Esta vertigem pelo absoluto manifesta-se, geralmente, de forma benigna. Leva as pessoas a uma entrega total a uma causa, a abraçar uma vida alternativa, a buscar, na solidão e no abandono da vida mundana, esse absoluto. Pode também levar ao inferno das substâncias psicotrópicas, um sucedâneo do absoluto que se encontra em cada esquina. Nem sempre, porém, este desejo de absoluto - este cansaço com a relatividade da vida, com os seus pequenos prazeres e os seus deveres mais ou menos absurdos - encontra uma via socialmente útil para se manifestar ou se contenta com a destruição pessoal no mundo das drogas. 

O desejo do absoluto encontra então no radicalismo político e/ou religioso o lugar para se realizar e realizar-se de forma absoluta e sem mediações. Que entrega mais absoluta pode haver do que o exercício do terror? O terrorismo tal como está a acontecer actualmente ou aconteceu nos anos sessenta e setenta é a manifestação de uma atracção vertiginosa pelo absoluto. Dito de outra maneira, quando o desejo de absoluto é recalcado por não encontrar, seja qual for o motivo, as condições para se manifestar pacificamente, acaba por explodir literalmente em ondas de terror. O terror não é outra coisa senão a expressão de um desejo de absoluto numa consciência relativa, que não encontrou nem a sabedoria nem o caminho para se abrir a esse absoluto. Em linguagem religiosa podemos dizer que o terrorismo é sempre o encontro falhado com Deus.

sexta-feira, 25 de março de 2016

A deslegitimação da violência

Matthias Grünewald - Christ on the Cross, detail from the 
Central Crucifixion Panel of the Isenheim Altarpiece (daqui)

Sexta-feira de Paixão. Retorno a Grünewald, neste dia, para rememorar um símbolo decisivo do nosso modo de compreender o mundo e da nossa civilização. Dos múltiplos significados da morte de Cristo retenho apenas um. Com a crucificação, a violência do homem sobre o homem tornou-se ilegítima. Na economia do cristianismo, a morte do seu fundador é a morte que concentrou em si todas as mortas e todas as violências. Foi a última morte legítima. A partir dela, todas as mortes e todos os actos de violência se tornaram ilegítimos. Mas os cristãos não têm sido, também eles, violentos? As Igrejas que o tomam como princípio originário não praticaram e não praticam, também elas, a violência? Sim, praticaram, praticam e, como são organizações humanas, praticarão. Só que essa violência, essa inclinação homicida, é contrária à lei que o Cristo trouxe e que se consubstancia no amor ao próximo. A morte de Cristo representa a abolição de todo e qualquer sacrifício humano. Não da sua abolição efectiva, mas da sua deslegitimação. Os homens são seres violentos. É essa a sua natureza. Essa violência, porém, já não pode manifestar-se como um bem, seja qual for o princípio racional ou não que a pretenda justificar. Ela é apenas uma faceta do mal. A morte de Cristo na cruz é o preço pago pela imoralização da violência, de qualquer violência, do homem sobre o seu irmão. Nada justifica Caim.

segunda-feira, 21 de março de 2016

O Calvário e a Cruz

James Ensor - Calvary

Entrámos na semana que conduz ao Domingo de Páscoa. Com a crescente secularização das nossas sociedades, os acontecimentos que levam ao drama do Calvário tornaram-se um assunto privado. Foram reduzidos à pura crença religiosa. No entanto, deveríamos sempre perguntar por que razão, na nossa civilização e durante tanto tempo, tiveram um impacto geral na vida dos homens. Encontrar-se-ão explicações para todo o gosto. Há uma, todavia, que pode ajudar-nos a perceber esse impacto. Quem é aquele que faz o caminho do Calvário e é pendurado na cruz? Na verdade, de uma maneira ou de outra, James Ensor, o autor do quadro acima, explica-nos uma razão fundamental ao colocar sobre a cabeça do crucificado do meio o seu próprio nome. O Calvário e a Cruz são a imagem da nossa própria existência e dizem respeito a cada um. É por isso que tiveram o impacto que se conhece na nossa civilização.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Eutanásia e religião

Pieter Brueghel, o Velho - O triunfo  da Morte (1562)

No actual debate sobre a eutanásia, um dos argumentos a favor da despenalização diz-nos que a proibição legal da morte medicamente assistida – uma proibição que o viola o estatuto moderno de autonomia da pessoa – só pode ser argumentada por quem tenha uma crença religiosa e a queira impor a terceiros. O argumento, se olhado da perspectiva dos direitos singulares dos indivíduos, parece-me válido. Tenho o direito de dispor da minha vida como entender. Não sou obrigado a seguir a perspectiva daqueles que, por convicção religiosa, crêem que a sua vida foi uma dádiva divina e que não lhes compete tomar decisões sobre a sua duração.

Podemos pensar o problema a partir de outro ponto de vista que não o do conflito entre crentes e não crentes. A questão da existência de Deus é indecidível. Ela pertence ao domínio da fé. Há outra, porém, que deve ser meditada e que não diz respeito à fé ou à sua ausência. Essa questão é a seguinte: tomada do ponto de vista da adaptação e da evolução da espécie humana, qual a função da crença religiosa e do conjunto de imperativos que ela, de forma diversificada, tem imposto aos membros da espécie? Parece-me, embora não tenha nunca estudado o assunto, que a religião tem constituído um dos factores centrais de adaptação da espécie e, consequentemente, do sucesso com que o tem feito.

Ao escrever isto, ocorreu-me uma singular experiência que uma consciência religiosa teria condenado e evitado. Ela tem duas personagens. Em lugar de destaque, Ilya Ivanovich Ivanov, um biólogo russo que trabalhou na inseminação artificial e na hibridação interespecífica. Em lugar sombrio mas não menos merecedor de atenção, Joseph Estaline, o antigo seminarista que se converteu ao marxismo e que foi o mais terrível líder da URSS. O objectivo desta sociedade, que faliu devido ao insucesso do experimento, era a da criação de um homem-macaco a partir da hibridação interespecífica feita por inseminação artificial. O racionalismo científico-tecnológico (a possibilidade de, a partir do conhecimento, criar um novo produto) casou-se com o racionalismo político (o desejo de um sub-humano, pouco dado ao pensamento, para efeitos militares e económicos) para um objectivo que o bom senso considera inaceitável. Este caso ilustra um pensamento que atravessa Os Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski, e que se pode resumir no célebre (embora não literal) se Deus não existe, então tudo é permitido. Revela-nos, pelo menos, uma das funções da religião no processo evolutivo e adaptativo da espécie: evitar que tudo seja possível.

O caso das experiência de hibridação de Ilya Ivanovich Ivanov não é analogável ao problema colocado pela eutanásia. No entanto, ele faz descer uma outra luz sobre a utilidade daquilo que poderíamos chamar – num óptica iluminista – o preconceito religioso. Ao dizer-nos que, por motivo de fé, nem tudo é permitido, talvez o que esteja em jogo não seja tanto a crença em Deus ou num além, mas os limites que a própria espécie não deve ultrapassar para a sua própria segurança e capacidade de continuar a sobreviver. Isto não significa que defenda a proibição da eutanásia. Significa apenas que através da religião é ainda a própria espécie, cuja finalidade última, como espécie, é adaptar-se e sobreviver,  que fala e que essa voz, mesmo num caso de direitos individuais, deve ser escutada e haver um esforço de decifração do que diz. Para quê? Para proibir a eutanásia? Não, para compreender o que está em jogo nesse processo e, mais que tudo, evitar que a liberalização da eutanásia abra as portas que levam muito para lá do combate à distanásia. O papel do preconceito religioso, neste tipo de casos, é menos o de impor uma crença e mais o de obrigar à reflexão crítica sobre as motivações presentes neste tipo de projectos.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A Europa e o Islão

Jorge Colaço - Batalha de Ourique

Existe um problema interno ao mundo islâmico, por razões de ordem religiosa, guerras terríveis entre xiitas e sunitas. E ao mesmo tempo uma consciência muito aguda de que o Ocidente representado pela Europa está em declínio, sentem a nossa fraqueza enquanto potência mundial e jogam o jogo que sempre se jogou na Humanidade, os mais poderosos, ricos, os mais empreendedores, os mais guerreiros, os mais violentos, têm tendência a impor a sua lei. (Eduardo Lourenço, ver aqui)

Por fim alguém disse claramente o que há para dizer. No mundo muçulmano há não só a consciência do declínio da Europa como a ambição de impor a essa Europa a cosmovisão islâmica. Este é o principal problema que afecta a Europa e não o défice estrutural dos países do Sul ou mesmo as desigualdades sociais. Tanto um como as outras são importantes, mas, perante uma civilização que, apesar de científica e tecnologicamente atrasada, tem um forte dinamismo demográfico, riqueza material e ambição de conquista, as questões do declínio ocidental e da sua crescente impotência são absolutamente decisivas a médio e a longo prazo.

O declínio europeu - esse declínio que constitui uma janela de oportunidade para o avanço do Islão - é marcado pela decadência demográfica, pelos sentimentos de exclusão nacionalista, os quais pululam na Europa e arrastam consigo conflitos entre os países europeus, e pela destruição do pacto social interclassista proveniente da segunda grande guerra, destruição motivada pela incidência crescente da ideologia liberal nas decisões europeias. Estes factores, porém, são apenas o resultado de um outro factor que, devido às nossas crenças modernas e iluministas, deixámos de ver: a decadência do cristianismo no terreno social da Europa.


O problema do declínio da Europa é, em primeiro lugar, uma questão religiosa, resulta do contínuo apagamento de um dos pilares - juntamente com a antiguidade grego-latina e a ciência moderna - que forma a nossa cultura, isto é, o cristianismo. E é o vazio deixado por este que está a abrir profundas brechas na Europa, por onde entram não apenas ideologias destruidoras dos consensos sociais  e nacionais necessários como as pretensões daqueles que querem substituir o vazio deixado pelo cristianismo pela submissão a uma outra religião. O pior de tudo isto é que muitos europeus - onde se encontra uma parte substancial de uma classe política leviana entretida com as dívidas, as regras, a mercearia - não reconhece o problema e aqueles que o reconhecem estão longe, muito longe de saber lidar com ele.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Sobre o sacrifício

Corrado Giaquinto - O Sacrifício de Ifigénia

Um perigo idêntico, numa leitura acrítica de Maistre, seria acreditar que a irracionalidade social e a violência simbólica, que tanto o interessaram, pertencem ao passado e que podem ser ignoradas com segurança. O seu trabalho ilumina uma classe de factos políticos e sociais geralmente ignorados pela tradição, a que ele se opôs, do pensamento político inspirada pelo Iluminismo. (Owen Bradley)

Joseph de Maistre é um autor, apesar de relativamente desconhecido, muito importante para compreender o mundo em que vivemos. Não por ter sido um reaccionário que, com uma prosa brilhante e anunciadora do Romantismo, se opôs à Revolução Francesa, mas porque pensou naquilo que o Iluminismo, um seu inimigo de estimação, recalcou. Um dos temas que prendeu a atenção reflexiva de Maistre foi o sacrifício. Nele cruzam-se a irracionalidade social e a violência simbólica. Qual a importância de pensar o sacrifício nos dias de hoje? 

Dois motivos nos conduzem para essa necessidade. Em primeiro lugar, a ambivalência do discurso económico e político que, ao mesmo tempo, apela ao consumo e à maximização dos prazeres como motor dos mercados e, por outro lado, impõe políticas de austeridade que exigem práticas sacrificiais que diminuem o consumo e impõem uma minimização do princípio de prazer. A situação cai directamente nas categorias da irracionalidade social (exigências contraditórias) e da violência simbólica (as austeridadess que o corpo deve sofrer para refrear a busca de prazer). 

Em segundo lugar, a reflexão de Maistre sobre o sacrifício pode ajudar-nos a compreender aquilo que para nós, ocidentais, é motivo de preocupação e escândalo. Traduzo um pequeno excerto de uma entrevista de Pierre Hassner, um investigador frnacês de Relações Internacionais, na edição de 2016 do Bilan du Monde, editado pelo Le Monde: Com efeito, tudo o que faz a complexidade e a dificuldade do mundo é que há pessoas que pensam sinceramente ganhar o paraíso e fazer triunfar a «verdadeira religião» sacrificando a sua vida para matar os «infiéis». O terrorismo islâmico trouxe para a primeira linha política a problemática sacrificial. É esta problemática - que o Iluminismo recalcou pensando que a luz da razão dissolvia a irracionalidade sacrificial - que está na base da complexidade da situação geopolítica internacional. 

Tanto a situação económico-financeira internacional como a situação geopolítica são marcadas pela desordem, uma desordem introduzida pela desmedida dos homens. O sacrifício (deixo de lado a teoria da reversibilidade, a qual ajudaria explicar a vitimização dos sacrificados) é uma forma de contrabalançar estar desmedida e este excesso. O que está em jogo não é utilizar Maistre para legitimar os sacrifícios que ocorrem. O que está em questão é pensar, na sua economia profunda, o significado social desses sacrifícios e encontrar novos caminhos, tanto na ordem económico-social como na ordem geopolítica. 

domingo, 31 de janeiro de 2016

Versículos bíblicos - 2

Eugène Delacrroix - Liberdade conduzindo o povo (1830)

“Seis dias farás teus negócios, mas ao sétimo dia descansarás: para que descanse teu boi e teu asno; e o filho da tua serva, e o estrangeiro tome refrigério” (Êxodo 23:12). Este versículo 12 do capítulo 23 do segundo livro do pentateuco é uma curiosa e arcaica formulação de respeito pela natureza, animal e humana. A curiosidade reside na justificação dada para o descanso do sétimo dia. A necessidade de toda a natureza repousar. Se olharmos atentamente para a construção do discurso bíblico, descobrimos uma resposta para a seguinte pergunta: para que serve toda aquela narrativa sobre a criação do mundo em seis dias e o descanso de Deus no sétimo? Serve, entre outras coisas, para legitimar o descanso dos homens. Se Deus descansou ao sétimo dia, então ao homem compete fazer o mesmo.

Isto mostra que o problema do tempo de trabalho deveria ser já, naqueles tempos, objecto de apaixonadas e discordantes posições. Haveria, certamente, os “economistas” de serviço a recomendar que não se desperdiçasse tempo fora do labor. O Êxodo mostra-se, assim, um texto emancipatório e libertador, contrariamente ao que muitos gostam, por preguiça ou preconceito, de pensar. Advoga, contrariamente ao espírito burguês, um direito, de carácter divino, a nada fazer. Aliás, este livro bíblico começa com uma das primeiras grandes gestas emancipatórias da humanidade, a libertação do povo de Deus da escravatura no Egipto. No versículo 9 deste mesmo capítulo, está escrito: “Também não oprimirás o estrangeiro; pois vós conheceis a alma do estrangeiro, que fostes estrangeiro na terra do Egipto.” Encontramos a mesma ideia no versículo 21 do capítulo 22.

A doutrina social da Igreja Católica não é um acrescento estranho aos textos do Antigo e do Novo Testamento. Pelo contrário, é a sua emanação, uma combinação de emancipação das opressões terrestres e uma libertação das ilusões do espírito.

Nota final: observe-se bem o quadro de Delacroix e leia-se a descrição da fuga do povo de Israel do Egipto, quando as águas se abriram. (averomundo, 2007/05/16)

sábado, 30 de janeiro de 2016

Versículos bíblicos - 1

Emil Nolde - Landscape in Red Light

“Também não tomarás presente: porque o presente cega os que o vêem, e perverte os negócios dos justos” (Êxodo 23:8). Eis um conselho para todos os tempos e não apenas uma ordem de Deus para Israel, o seu povo. No centro da palavra divina, não está a corrupção. Ela é apenas periférica. A ideia central é outra: o presente cega os que o vêem. Mas o que significará tal cegueira? Há por detrás da construção bíblica toda uma metafórica da luz. O presente, no excesso da sua luz, como o Sol, acaba por cegar.

Ora a cegueira não é a dos olhos, mas a da luz da razão. Esta inclina-se para aquilo que brilha e, por esse excesso de luz, a dissolve, como a luz de uma lâmpada é dissolvida pela luz do dia. A dissolução da luz da razão que o presente – e aqui presente é sempre algo que se torna presente – traz consigo implica a entrada na esfera de uma economia do dom; a um presente recebido corresponde um presente a dar. É nesta troca, onde a razão se inclina e dissolve, que se inscreve a perversão da justiça.

O que o texto bíblico nos mostra é que a perversão dos costumes nasce de uma perversão da razão. Este é o princípio do mal. Mas como é a razão concebida na passagem citada? Como frágil. A metáfora da cegueira, o negativo da metáfora da luz, mostra a razão na sua fragilidade e, por isso, susceptível de corrupção. Contra isso, apenas o imperativo divino “também não tomarás presente”. Este imperativo divino é, porém, toda a lei, a de Deus e dos homens. Numa curta frase encontramos quase toda a filosofia moral kantiana. Mas só a vemos, porque Kant a trouxe à luz e soube ver a estrutura racional sob as imagens religiosas. (averomundo, 2007/05/16)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Uma abertura

Antón van Dyck - The Mystic Marriage of Saint Catherine (1618-20)

Pensa-se que o misticismo é um mistério pelo qual entramos num outro mundo; mas ele é apenas, ou mesmo, o mistério de viver de modo diferente no nosso próprio mundo. (Robert Musil, O Homem Sem Qualidades III, p. 212)

Ulrich, personagem principal do romance de Musil, em conversa com a irmã, sublinha o traço central daquilo que é visto como experiência mística. Não se trata de uma fuga ao mundo, tão pouco será a invenção de um mundo imaginário para onde os místicos se transportariam. A ligação entre mística e religião contaminou a primeira com o imaginário da segunda, mas tudo parece ser mais simples e muito diferente. Em vez de uma transferência para o além, a experiência mística será uma sobre-atenção ao real, um exercício de ultrapassagem da visão rotineira e vulgar do mundo, uma ruptura com o hábito e, por isso tudo, uma abertura para o não visto, o não ouvido, o não sentido e - porque não? - para o não pensado. Em resumo, uma abertura para a realidade.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Uma afronta ao mundo

Caravaggio - Siete obras de misericordia (1607)

Não deixa de ser notável o esforço do Papa Francisco - agora  ao lançar o jubileu da misericórdia - nesta sua luta contra o espírito do mundo. Na sua origem, cristianismo e mundo estavam de costas voltadas. Depois, um prolongado casamento entre esse mesmo cristianismo e o poder político tornou-o muito mundano e, não raras vezes, pouco misericordioso. Lentamente, porém, como se estivesse a voltar à sua condição original, o cristianismo foi-se tornando, outra vez, suspeito aos olhos do mundo. Na verdade, o conjunto de valores trazidos pelo seu fundador chocam-se com aqueles que dominam e superintendem os destinos da humanidade. 

Trazer a misericórdia para o centro da vida religiosa dos católicos não pode ser entendido apenas em contraponto com a violência que corre no mundo, com a cultura de vingança que destrói a capacidade de perdoar e de conviver. A misericórdia não é apenas o perdão. Tem uma outra perspectiva, a da compaixão com a nossa própria espécie. E é nisto que ela é uma afronta aos valores do nosso mundo. A compaixão para connosco é o outro lado da nossa finitude e da nossa fragilidade. Nós somos seres falíveis e a misericórdia é o reconhecimento dessa nossa falibilidade estrutural. Tudo isto se tornou estranho a um mundo moldado na ideia de eficácia e que pune exemplarmente quem é falível e ineficaz. Ser compassivo e misericordioso num mundo dominado pela a eficácia é uma terrível afronta ao espírito desse mundo.