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segunda-feira, outubro 07, 2013

eu ainda não sabia: A SELVA #2

Quando me pus a ler, pela primeira vez, A Selva (1930), de Ferreira de Castro, já no final da minha adolescência (a capa é essa mesma, em baixo, à esquerda), deparei-me com um incipit que me deu a sensação de que isto era diferente do costume:
«Fato branco, engomado, luzidio, do melhor H. J. que teciam as fábricas inglesas, o senhor Balbino, com um chapéu de palha a envolver-lhe em sombra metade do corpo alto e seco, entrou na "Flor da Amazónia" mais rabioso do que nunca.»
Digamos que não vislumbrava aqui burrinhos de João Semana, burgueses da lísbia ociosa, ceifeiros rebeldes ou malteses, nem professores frustrados & outros poucos terciários enconados com a vida. Não, isto era diferente.
Mas do que eu não suspeitava era que este início, que não anunciava nenhum romance de aventuras sobre mistérios amazónicos -- ao contrário do que poderia parecer, e isso creio que era para mim claro, já nesse então --, do que eu não supeitava era, entre muitas outras coisas, que A Selva se constituía como uma das mais negras narrativas que alguma vez viria a ler, e que o único desenlace permitido ao autor que avançara, com saber de experiência feito, por aquele labirinto vegetal, seria aquele que o livro consagrou. Mas também isso, muito depois de iniciada a leitura, quase só no fim, se me tornaria claro.
32.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1980.  


terça-feira, agosto 06, 2013

Manuel Ferreira: "as bocas famintas, senhor"

Empurrados do interior, os povos buscavam o litoral na esperança de uma mandioquinha, de um caldinho de peixe, de um cana para chupar, ou de folhas verdes para mastigar. Qualquer coisa que lhes desse, ao menos, a ilusão de alimento. Mas nas povoações da beira-mar, mesmo nas terras maiores, os haveres tinham sido também arrasados pelos ventos da miséria. Nem a sopa da Assistência evitava que no alvor da madrugada a carroça da Câmara levasse os que haviam tombado, de noite, na rua, inteiriçados, frios. Nem a sopa da Assistência o evitava, bem se pode dizer: as bocas famintas, senhor, eram às dezenas de milhar. 

início de Hora de Bai (1962), de Manuel Ferreira

sexta-feira, março 22, 2013

Para o fim do Verão daquele ano vivíamos numa aldeia que, para lá do rio e da planície, confrontava as montanhas


Para o fim do Verão daquele ano vivíamos numa aldeia que, para lá do rio e da planície, confrontava as montanhas. No leito do rio havia seixos e pedregulhos secos e brancos ao sol e a água clara corria suavemente pelos canais. Passavam tropas em frente da casa e desciam a estrada, e a poeirada que levantavam cobria as folhas das árvores. Os troncos das árvores estavam também cobertos de pó e as folhas caíram cedo naquele ano e víamos as tropas marchando pela estrada fora e o pó que se levantava e as folhas levantadas pela brisa caíam sobre os soldados em marcha e depois a estrada deserta e branca sem nada além das folhas.

Início de  O Adeus às Armas  (1929), de Ernest Hemingway, trad. Adolfo casais Monteiro, Lisboa, Editora ulisseia, s.d. 

quarta-feira, março 20, 2013

Fecharam os telhais.


Fecharam os telhais. Com os prenúncios de Outono, as primeiras chuvas encheram de frémitos o lodaçal negro dos esteiros, e o vento agreste abriu buracos nos trapos dos garotos, num arrepio de águas e de corpos. também sobre os fornos e engenhos perpassou lufada desoladora, que não deixava o fumo erguer-se para o alto. Que indústria como aquela queria vento, é certo; mas sol também. Vento para enxugar e sol para calcinar -- sentenciavam os mestres. Mas os sol andava baixo: não calcinava o tijolo, nem as carnes juvenis da malta.

Início de Esteiros (1941), de Soeiro Pereira Gomes, Mem Martins, Publicações Europa-América, 5.ª ed., 1974

sábado, março 16, 2013

Para sempre.


Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta -- sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás de aprender? Nada mais. Tu, e a vida que em ti foi acontecendo. E a que foi acontecendo aos outros. É a História que se diz? Abro a porta do quintal. É um portão desconjuntado, as dobradiças a despegarem-se. Há muito tempo já que aqui não vinhas. Sandra era da cidade, gostava da capital, detestava a vida da aldeia. Lá ficou.

Início de Para Sempre [1983], de Vergílio Ferreira, 11.ª ed., Venda Nova, Bertrand Editora, 1998.

quinta-feira, março 14, 2013

O Granico, Isso, Arbelos...


O Granico, Isso, Arbelos... três pancadas retumbantes percutidas no palco do mundo, -- e o pano sobre para a representação de um dos episódios mais prodigiosos da História Universal.

Benoist-MéchinAlexandre Magno, trad. A. Guimarães, Porto, Lello & Irmão, 1980.

sexta-feira, março 08, 2013

Antes de ir buscar o automóvel, Pierre Dupont quis levantar dinheiro na caixa automática.


Antes de ir buscar o automóvel, Pierre Dupont quis levantar dinheiro na caixa automática. O aparelho aceitou o seu cartão e autorizou-o a levantar mil e oitocentos francos. Pierre Dupont carregou na tecla1800. O aparelho pediu-lhe que esperasse um instante, depois entregou-lhe a soma estabelecida, lembrando-lhe que retirasse o cartão. "Obrigado pela sua visita", concluiu, enquanto Pierre Dupont guardava as notas na carteira.

Início de Não-Lugares -- Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade (1992), de Marc Augé, trad. Miguel Serras Pereira, s.l., 90º, 2006

quarta-feira, março 06, 2013

E a bagagem, trazida por três carroças atulhadas, foi dispersa pelos aposentos de ambos os pisos...


E a bagagem, trazida por três carroças atulhadas, foi dispersa pelos aposentos de ambos os pisos, obedecendo à numeração que neles se fixara, baseada num código que me pareceu insolitamente arbitrário. Eram grandes caixotes de pinho, arvorando o nome e o endereço do destinatário, desenhados a zarcão, além de malões e de malas e de maletas e de caixas de chapéu, a ostentar numa placazinha de metal as simples iniciais EQ, gravadas em caracteres de esmero particular. Andaram por aí seis ou sete almocreves, largando bastante lama pelos soalhos, manobrando as cordas e retesando os músculos dos braços, exasperadamente sardentos ou desmaiadamente pálidos, e ficou possuída a casa do sangue e da alma do seu novo ocupante.

Início de as Batalhas do Caia, de Mário Cláudio, Lisboa, Publicações dom Quixote, 1995.

terça-feira, março 05, 2013

Difícil não será visionar Cascais na época gloriosa da sua História


Difícil não será visionar Cascais na época gloriosa da sua História, quando D. Pedro I, satisfazendo o pedido dos seus homens bons, lhe outorga, a 7 de Junho de 1364, a solicitada autonomia administrativa. Na enseada que se estendia ao longo das suas penedias, defendida por forte baluarte, baloiçavam, agitadas pela nortada ou na quietude das suas águas calmas, caravelas pescarescas ou de pescar, tão usadas já, então, no Algarve (caíques); frágeis embarcações e pequenos barcos de velame latino e triangular, que, com o rodar dos tempos, vieram a tomar o feitio das actuais canoas, lanchas e traineiras. De tempos a tempos, o pavor lançava a tristeza àquele povo bom e ordeiro. A pirataria surgia e tudo devastava. Não raro se verificaram surtidas dos Mouros e dos Normandos... e, mais tarde, das próprias galés de Veneza, quando estas não vinham comerciar devidamente autorizadas.

Ferreira de Andrade, Cascais -- Vila da Corte -- Oito Séculos de História [1964], ed. fac-similada, Cascais, Câmara Municipal, 1990.

segunda-feira, março 04, 2013

Les colines, sous l'avion, creusaient déjà leur sillage d'ombre dans l'or du soir.


Les colines, sous l'avion, creusaient déjà leur sillage d'ombre dans l'or du soir. Les plaines devenaient lumineuses mais d'une inusable lumière: dans ce pays elles n'en finissent pas de rendre leur or de même qu'après l'hiver, elles n'en finissent pas de rendre leur neige.

Início de Vol de Nuit (1931), de Antoine de Saint-Exupéry, Paris, Gallimard, 1981.

sábado, março 02, 2013

Aquela mulher era ali, no Estoril elegante, a máxima fascinação...


Aquela mulher era ali, no Estoril elegante, a máxima fascinação, a serpente de olhos verdes de todos os veraneantes masculinos.

Início de O Drama da Sombra, de Ferreira de Castro, Lisboa, Diário de Notícias, 1926.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Sempre que do portão...


Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.

Ruben A., início de A Torre da Barbela (1964), introdução de José Palla e Carmo, Lisboa, Círculo de Leitores, 1988.