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quinta-feira, fevereiro 14, 2019

vozes da bilioteca

«O adorno de um cargueiro obliquado sobre o azul de Delft, o azul do primeiro nome que um dia conseguiu articular.» Rui Nunes, «Quem da Pátria Sai, a Si Mesmo Escapa?» (1983)

«Explica-se bem esta diferença, dizendo que o cavaleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um almocreve de profissão.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«Se no mato morreu animal de pouco, certo que cheirará ao podre do que morto está.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)

quinta-feira, novembro 15, 2018

vozes da biblioteca

«Assim o entendera José das Dornas, que foi amestrando o seu primogénito e preparando-o para um dia abdicar nele a enxada, a foice, a vara, a rabiça, e confiar-lhe a chave do cabanal, tão repleto em ocasiões de colheitas.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)

«Uma vez predispostos a trocarem o certo pelo incerto, em vez de se acomodarem, tal-qualmente os seus avós, às servidões sem chorume, esses homens abalavam "às cegas".» Assis Esperança, do «Prefácio» a Fronteiras (1973)

«Vendido o solar, alguns maços de notas assim recebidos, queimou-os ele raivosamente (queimou-os, como? pelas feiras, em banquetes...) blasonando que só tinha valor o oiro e a prata, por causa da efígie dos reis, -- calculo agora.» José Marmelo e Silva, Sedução (1937)

quarta-feira, novembro 14, 2018

vozes da biblioteca

«Contava Zargtnischekbljmpvundowfyx (o j lê-se i) que a mentira salva a humanidade.» Ernesto Rodrigues, Um Passado Imprevisível (2018)

«Na noite que caía, envolvendo em sombras a figura de mulher que tanta dor exprimira, já mal se distinguiam as feições magoadas por um rictus de sarcasmo e de revolta.» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

«Um, o mais moço e pela aparência o de mais grada posição social, era transportado num pouco escultural, mas possante muar, de inquietas orelhas, músculos de mármore e articulações fiéis; o outro seguia a pé, ao lado dele, competindo, nas grandes passadas que devoravam o caminho, com a quadrupedante alimária, cujos brios, além disso, excitava por estímulos menos brandos do que os de simples e nobre emulação.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

segunda-feira, agosto 06, 2018

«Ainda não estavam acesas as luzes do cais, no Farol das Estrelas não brilhavam ainda as lâmpadas pobres que iluminavam os copos de cachaça, muitos saveiros ainda cortavam as águas do mar, quando o vento trouxe a noite de nuvens pretas.» Jorge Amado, Mar Morto (1936)

«Escapara por uma unha negra a que o engenheiro do 2.º direito, como sempre furibundo por ter de esperar por alguém, batesse na porta do elevador, a exigir ligeireza, disponibilidade, espaço vital.» Fernando Namora, O Rio Triste (1982)

«Estas qualidades, juntas a uma longa experiência adquiridas à custa de muito sol e muita chuva em campo descoberto, faziam dele um lavrador consumado, o que, diga-se a verdade, era confessado por todos sem estorvo de malquerenças e murmurações.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1868)

sábado, junho 30, 2018

«Antigamente diante do trapiche se estendia o mistério do mar oceano, as noites diante dele eram de um verde escuro, quase negras, daquela cor misteriosa que é a cor do mar à noite.» Jorge Amado, Capitães da Areia (1937)

«Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que não se prejudiquem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homem que ainda não fez  vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria Ana.» José Saramago, Memorial do Convento (1982)

«Só de longe em longe, a choça do pegureiro ou a cabana do rachador, mas estas tão ermas e desamparadas, que mais entristeciam do que a absoluta solidão.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

quarta-feira, março 28, 2018

«O sol encontrava-o sempre de pé, e em pé o deixava ao esconder-se.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)

«Seca e breve, como uma chicotada, a praga rompe dos lábios azedos da velha:» Manuel da Fonseca, Seara de Vento (1958)

«Não que o meu riso fosse esgar, ou o meu gargalhar inexistente; mas uma certa palidez no semblante geral denunciava (ao que parece) más possibilidades.» Nuno Bragança, A Noite e o Riso (1969)

segunda-feira, março 26, 2018

«Não sei que dolorido impudor, que canalha impulsão, que martirizante impudência me arrasta assim ao registo público do meu aviltamento, à insolente estadeação da própria indignidade.» Abel Botelho, O Livro de Alda (1898)

«Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracíssima província começa já a ressentir-se, senão ainda nos vales e planuras, nos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa Trás-os-Montes.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«Num sobressalto, o rapaz ergueu-se da sonolência em que jazia sobre a tarimba e foi até às grades.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

terça-feira, março 14, 2017

Júlio Dinis, algumas aparas

Que penso eu do Júlio Dinis?
Um extraordinário talento de novelista, notável encenador de ambientes e situações.
A segunda metade do século XIX na novelística portuguesa é Camilo-Júlio Dinis-Eça. O resto é secundário. Por alguma razão ele sobreviveu, ao contrário doutros autores estimáveis, mas cujo desempenho não chegava aos calcanhares do criador d'A Morgadinha dos Canaviais.
Não o conheço a fundo: li três dos seus quatro romances e um ou outro conto ou disperso; falta-me a juvenília, para a qual não estou muito virado, e o paraliterário (correspondência, etc.), mas, homem do Porto e mão inglesa, suponho-o um liberal distante da politiquice e do caciquismo.
Detractores, teve e ainda terá uma quantidade deles. Entre nós, o apoucamento de grandes escritores deve-se a pelo menos uma de três desrazões: ressentimento despeitado dos contemporâneos, sectarismo ideológico, o deslumbramento basbaque, Os primeiros, os mais tristes; os últimos, tristemente risíveis. Por isso, ainda corre que por aí que o Júlio Dinis é autor de romances cor-de-rosa, país desgraçado.
Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho, Porto, 1839-1871), é um dos meus escritores.

terça-feira, julho 14, 2015

sábado, janeiro 03, 2015

dos inconvenientes de jornadear a cavalo, por cerros e vales

«As pequenas impertinências, em que se não pensa antes, que se esquecem depois, ou que a saudade consegue até doirar e poetizar a seu modo; esses microscópicos martírios, que de longe não avultam, actuam-nos, na ocasião, a ponto de nos inabilitar para o gozo do que é realmente belo. A dureza do colchão, em que se dorme, do albardão ou selim sobre que se monta, o tempero ou destempero do heteróclito cozinhado com que se enche o estômago, a lama que nos incrusta até os cabelos, o pó que se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o sol que nos congestiona o cérebro, tudo então nos desafina o espírito, que trazíamos na tensão necessária para vibrar perante as maravilhas da natureza ou da arte.»

Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

terça-feira, julho 15, 2014

nos extremos do Minho

«Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracíssima província começa já a ressentir-se, senão ainda nos vales e planuras, nos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa Trás-os-Montes.»

Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

terça-feira, junho 17, 2014

A LÃ E A NEVE


O fio da narrativa expõe-se numa penada: Horácio pastor de Manteigas, abrira os olhos para outras realidades que não a vida elementar que transcorria entre as faldas da Estrela e os redis nas aldeias, na sequência do serviço militar cumprido nos arredores de Lisboa, mais precisamente em Cascais. Decide, então, adiar o casamento com Idalina, previsto para ser celebrado após a tropa -- e mudar de vida. Quer tornar-se operário têxtil, ali mesmo, em Manteigas, ou na Covilhã, centro mais importante, única possibilidade que vê para fugir à pobreza que confina aquelas existências.
Após percalços vários, que tornam a narrativa coerente, segue-se a entrada num mundo diferente, em que a consciência de pertença a uma classe socialmente bem delimitada, o proletariado, irá mudar, paulatina mas radicalmente, a forma como o protagonista se vê a si próprio no mundo.
Publicado em 1947, A Lã e a Neve levanta múltiplas questões no âmbito histórico-cultural, das quais só enumero algumas, e brevemente.
1. A circunstância de A Lã e a Neve ser um romance neo-realista heterodoxo: Ferreira de Castro, visceralmente libertário, anarquista por formação, convicção e coração, não acolhe a doutrinação canónica marxista-leninista, largamente teorizada a partir de meados da década de 1930. A vanguarda da classe operária aqui não tem ligações ao Partido [Comunista Português]; antes é protagonizada por  abencerragens do sindicalismo anarquista e revolucionário que caracterizou o movimento proletário organizado durante a I República: o "Marreta" -- esperantista e vegetariano -- e os que lhe estão próximos.
2. Apesar de referenciado como livro subversivoA Lã e a Neve é um romance fortemente político, de oposição, que não foi apreendido nem o seu autor ao que se saiba incomodado. Já por várias vezes me referi à particular circunstância política de 1947, de suavização da ditadura em face da vitória aliada na II Guerra Mundial. Por outro lado, o reconhecimento grande que Castro tinha no estrangeiro, muito em especial em França, terá sido, de certo modo dissuasor de medidas repressivas, dado o contorno de escândalo de que se revestiria. Finalmente, e escrevo isto pela primeira vez, não posso deixar de especular (embora a pertinência deste alvitre esteja por demonstrar), o caso curioso de a editora de Ferreira de Castro, a filha de Delfim Guimarães, Maria Leonor da Cunha Leão, ser casada com Francisco da Cunha Leão, um intelectual conotado com o regime e seu funcionário superior.
3. Deixando a história político-cultural, sublinho os recursos estilísticos do escritor, as suas poderosas descrições e a mestria ficcional, que confirmam as dos romances anteriores, e de que o episódio da tempestade de neve será, possivelmente, uma das mais extraordinárias aflorações em todo o romance. Acresce a espesssura psicológica das personagens -- também sem surpresa para quanto já estavam familiarizados com os seus romances.

Poderia soltar mais uns milhares de caracteres a propósito deste livro. Para não abusar, direi apenas que um romance como A Lã e a Neve pertence à categoria daquelas obras de arte que nos definem como cultura e civilização, como portugueses; e que Ferreira de Castro é membro, um dos mais brilhantes e representativos, daquela família de escritores que tem no seio espíritos como os de Júlio Dinis e Eça de Queirós até Alves Redol, Manuel da Fonseca ou José Saramago, passando por Aquilino Ribeiro e Raul Brandão.

quarta-feira, junho 04, 2014

do dispensável

Tinha alguma expectativa em relação a este livro. Nunca lera nada do autor -- à parte alguns artigos ou contos dispersos --, é talvez o único título seu que não caiu em esquecimento completo, mercê do Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências que lhe foi atribuído em 1939, ano da edição. Andava com ele  há anos na cabeça: Aldeia das Águias, título sugestivo, evocando com a literalidade que nome e capa impunham -- e que veio a verificar-se --, uma narrativa situada numa área semi-isolada, em faldas e escarpas duma província nortenha.
À medida que ia avançando, a desilusão era crescente. Uma oposição cidade-campo já então com barbas, Júlio Dinis entrado pelo século XX adentro, sem o talento, o humor e a mestria do autor d'A Morgadinha dos Canaviais. As personagens são esquemáticas, previsíveis quase caricaturas: irmão mau e irmão bom -- um, velhaco, vaidoso, desprezível, quase psicopata; honrado, generoso e abnegado, o outro; um amigo de infância do primeiro, de estrato social muito abaixo, personagem sacrificial da narrativa, quase um santo, mais do que a criada desonrada pelo "menino", que arrostou com a fúria paterna, vindo, obviamente, mais tarde a ser redimida pelo irmão bom... As cenas de cidade -- Porto -- são pobres e a linguagem é confrangedora e insuportavelmente banal e magazinesca.
Há algumas boas páginas -- melhor fora --, em especial as que são centradas na aldeia de Sedielos (Régua), terra-natal do autor: o quadro de caça às águias, predadoras dos rebanhos, que ciclicamente a aldeia em peso promove, é do melhor que o livro tem. E nem falta o maluquinho de aldeia, o Taranta, a dar a tonalidade trágica de acento camiliano, que narrativas deste género exigiam.
Poderia ser um bom romance em mãos de mestre. Mesmo que em 1939, Ferreira de Castro e José Régio, cada um a seu modo, houvessem já transformado o romance português -- este com o Jogo da Cabra Cega (1934); aquele, a partir de Emigrantes (1928) -- não se seguia forçosamente que um romance mais académico tivesse  de ser por força dispensável (quem desdenha, por exemplo de Rachmaninov por antes dele ter havido Schönberg ou Debussy ou Stravinski? Só um pateta); nem seria preciso que o autor tentasse equiparar-se a Aquilino Ribeiro -- de quem está a anos-luz. Bastaria não ter sido tão acomodatício, previsível, superficial; ou, estilisticamente, afastar-se da vulgaridade da escrita postiça, no seu dar-se ares modernaços, para que pudesse ser algo que se lesse a contento, 75 anos depois. Mas não, já era irrelevante quando saiu dos prelos. 

sexta-feira, agosto 02, 2013

Júlio Dinis: "a quadrupedante alimária"

Um, o mais moço e pela aparência o de mais grada posição social, era transportado num pouco escultural, mas possante muar, de inquietas orelhas, músculos de mármore e articulações fiéis; o outro seguia a pé, ao lado dele, competindo, nas grandes passadas que devoravam o caminho, com a quadrupedante alimária, cujos brios, além disso, excitava por estímulos menos brandos do que os de simples e nobre emulação.

A Morgadinha dos Canaviais (1868)

sexta-feira, junho 14, 2013

senhor do seu métier

Júlio Dinis é enorme. Com Camilo e Eça faz parte da santíssima trindade da novelística portuguesa de oitocentos. A escrita, tão escorreita quanto cuidada; a densidade psicológica que transparece da observação fina; a aguda compreensão do seu tempo histórico; o wit que brotará (vamos pensar assim...) do sangue inglês que lhe vem de Ana Constança Potter, sua progenitora; o próprio savoir faire enquanto autor que se pré-publica nas páginas de um jornal, e que, engenhosamente, sabe aguçar a curiosidade do leitor, prendendo-o e dessa forma fidelizando-o à folha que lhe acolhe o folhetim...
Quatro romances, contos, poesia, algumas peças juvenis -- e tese do curso de Medicina à parte --, numa vida que se esgotou ainda antes de completar os 32 anos. 
Por exemplo, o notável A Morgadinha dos Canaviais (1868), que me preparo para saborear de novo, os dois viandantes encavalitados em muares numa tarde de Dezembro, «sincero e genuíno Dezembro, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera», o percurso inóspito e agreste no Minho, apesar de «risonha e feracíssima província», perto já da de Trás-os-Montes, «alpestre e severa». É Henrique de Souselas, um dândi de Lisboa, espécie de Ulisses novato, em estafada e pequena odisseia pelo Norte profundo. A delícia das interpelações ao leitor sobre as vantagens e os inconvenientes das viagens, o que se antegoza e o que se sofre, e o que de novo merecerá recordação saudosa e confortante, passado um bom tempo pelos muitos incómodos que  implicava o jornadear pelos trilhos do Portugal da Regeneração, ainda (e sempre) por terminar. A reflexão sobre o benefício da descoberta que a viagem permite, a surpresa do novo e do desconhecido, contrastante com o hábito e a rotina:
«O homem positivo e frio recolhe de qualquer excursão à pátria com a carteira cheia de apontamentos; o entusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu mais.»
Assim: preciso, exacto, certeiro, em duas páginas iniciais de um romance.


sexta-feira, março 22, 2013

Julio Dinis: do amor filial


[Papá]

     Nesta ocasião em que o meu futuro se fixou, não posso deixar de me recordar do muito que devo ao Papá pelos sacrifícios feitos por mim.
     [...] Meus irmãos foram privados, não sei por que vistas providenciais, de colherem neste mundo os frutos da esmerada educação que lhes dera. Esse mesmo poder, que os sacrificou tão novos, parece ter-me reservado como que para realizar em mim a recompensa que lhe merecia a resignação do Papá.
     Alegra-me esta ideia e anima-me a acreditar que não me faltará a vida e a saúde para poder cumprir essa missão talvez providencial.
     Creia-me que tenho sentimentos para avaliar todos os seus sacrifícios e para compreender o alcance da delicadeza com que procurava não mos fazer sentir.
     Neste dia, um dos mais solenes de toda a minha vida, permita-me que cumpra com o meu primeiro dever beijando-lhe respeitosamente a mão.

[a seu pai,  informando da nomeação para a Escola Médica do Porto,
Felgueiras, 24 de Julho de 1865]

Júlio Dinis, Cartas e Esboços Literários, Porto, Livraria Civilização, 1979.
editor: Egas Moniz

domingo, setembro 25, 2005

Correspondências #14 - António José Saraiva a Óscar Lopes

[Viana do Castelo (?), 1948/1949 (?)]
Meu Caro
Mudei de ideias quanto à tese. Não interessa grandemente à geração de 70 tratar «exclusivamente» do Herculano. E é um erro considerá-lo como o mentor nacional único dos homens de 70. A releitura da parte do Portugal Contemporâneo relativa às tendências ideológicas que acompanham a Regeneração, e depois correspondem à ideologia revolucionária que prepara os acontecimentos de 68 a 70 fez-me ver que há uma intersecção de influências, correntes, temas, ideologias, atrás do Teófilo, Martins, Quental, etc. Ora é essa intersecção que interessa estudar como introdução ao estudo daqueles homens. Por outras palavras o meu estudo deve constelar-se não em torno de um homem mas de certas datas. Metodologicamente isto é muito mais perfeito e mais novo. É de resto aquilo que já ensaiaste nos Realistas e Parnasianos e no Bulhão Pato. Provisoriamente fixei o período 1851-1868, que tem o defeito de excluir obras importantes como a Felicidade pela Agricultura do Castilho.
Como trabalho prévio estou a recolher do Inocêncio a bibliografia do período citado. Depois encontrar-me-ei perante a avalanche do jornalismo da época. O Júlio Dinis reflecte um sector da mentalidade nacional da época: há um grupo de conformistas, burgueses típicos, como o Pinheiro Chagas, o J. César Machado, o Tomaz Ribeiro, o Paganino, que se anicham na Ordem que consideram estabelecida e perfeita quanto o podem ser as coisas deste mundo. Deles é o Júlio Dinis.
Tenciono ir para baixo no dia 9. Convidarei o Atanagilde para jantar comigo, e é possível por isso que não chegue a ir à tua casa. Tu podias aparecer por volta das 8, ou depois do teu jantar. Até às 10 há muito tempo para conversar.
Escreve.
PS -- Porque não jantas connosco? Convido-te.
Correspondência
(edição de Leonor Curado Neves)

domingo, junho 12, 2005

Júlio Dinis

Posted by Hello

Correspondências #4 - Júlio Dinis à sua sobrinha, e futura mulher, Anitas

Anitas
Não te escrevi logo que cheguei, mas não te fiz esperar muito, porque é esta a terceira carta que mando para o correio.
Dizendo-te que cheguei a salvamento a esta vila de Ovar e que continuo gozando uma boa disposição de corpo e de espírito, dou-te a única notícia que neste momento me é possível dar-te; a não ser que desejes que eu te fale no tempo porque nesse caso dir-te-ei que anteontem e ontem choveu desenganadamente, coisa de que muito gostei por já estar mal habituado a essas finezas do inverno, do qual vou sentindo saudades.
Ontem de tarde parecia-me um dia de magustos, pela escuridão, pela chuva e até pelo tocar dos sinos a defuntos. Tinha morrido não sei quem e, em homenagem, todos os sinos da terra executavam cabriolas atordoadoras.
Hoje aparece o tempo com uma cara menos rabugenta, mas já se pode andar pelas ruas sem receio de morrer de calor ou de voltar para casa com uma cor semelhante à de uma batata assada na fornalha.
Tudo isto me indica que o verão anda fazendo as suas despedidas, porque em breve nos vai deixar. Que vá, que vá; para falar a verdade, eu não hei-de morrer de saudades.
Brevemente haverá cá em casa a primeira desfolhada; o outro sinal de que está o inverno à porta. Eu já vou vestindo o meu casaco grosso para o receber como é devido, no momento de ele vir para aí de um momento para o outro.
E tu que fazes? Quando principiam as tuas férias e que fazes depois delas principiarem? Vens a Ovar, vais tomar banhos ou em que outra coisa te ocupas? Responde-me a estas perguntas, quando me escreveres. Faze visitas à mamã, tia, manos e a toda a família e supõe que te dá um abraço
Ovar, 28/8/1863.
o teu tio e sempre muito amigo
Joaquim Guilherme Gomes Coelho.
Cartas e Esboços Literários, edição de Egas Moniz