Sim, entendo isto. E só espero que a moda não se transforme numa praga, como já acontece noutros lugares onde o turista gosta de fazer o seu chichi cultural para marcar o seu território. De qualquer modo, considero os cemitérios portugueses desinteressantes. É verdade que há por cá cemitérios, como aqueles dois portuenses (embora prefira o pequeno cemitério da Igreja da Lapa e não é por lá estar Camilo, de resto, bastante despercebido), que podem valer a pena por razões históricas, escultóricas, simbólicas, sociológicas ou pelas celebridades visitadas de acordo com os interesses de cada um. Isso faz com que se lá vá como se vai a um museu ou uma catedral gótica, isto é, uma visita em busca de conhecimento ou para satisfazer uma curiosidade. Porém, do mesmo modo que não se vai passear para um museu ou para uma catedral (embora seja o que se vê cada vez mais), o nosso cemitério está longe de ser atraente para um tranquilo passeio, crianças brincarem, desportistas correrem ou fazerem ginástica, casais namorarem, para ler um livro, para o esteta gozar a sua contemplativa flânerie ou simplesmente deitar na relva para dormir uma sesta. O cemitério português não passa de um terreno árido para depósito de mortos, ladeado por um muro. Fala-se da cidade dos mortos enquanto continuação da cidade dos vivos e, nesse sentido, o que a cidade dos mortos tipicamente portuguesa faz lembrar no mundo dos vivos é um dormitório suburbano cuja habitação é sobretudo social com os seus metros quadrados de mármore a perder de vista, ornamentados com flores de plástico e fotografias pirosas a céu aberto, isto é, com uma gritante ausência de textura verde que os pouco densos ciprestes não conseguem compensar. Haverá sempre algumas ruas mais elegantes e aristocráticas, porém, com uma densidade urbana que as impede de reflectir as assimetrias urbanas no mundo dos vivos as quais implicam necessárias áreas de grande beleza onde apeteça viver ou simplesmente passear. E mesmo de um ponto de vista artístico ou escultórico, o cemitério português está muito longe, como em tantas outras coisas que reflectem o país pobre e atrasado que sempre fomos, dos grandes e belos cemitérios de uma Europa que começa culturalmente em Madrid. Sim, o chamado necroturismo (que raio de conceito) pode estar a aumentar nos cemitérios portugueses mas parece-me que os nativos irão continuarão a sentir-se mais atraídos pelas montras do centro comercial e supermercado para comprar arroz e batatas ou simplesmente ficar em casa a ver a Cristina Ferreira ou quem mais possa ser.
Ponteiros Parados
Não há nada mais livre do que um relógio parado
22 maio, 2019
21 maio, 2019
Se ainda não cheguei à fase trágico-cómica do meu maior herói literário, cujo cérebro secou, levando-o a uma permanente distorção da realidade, talvez tenha sido por nos últimos dias estar bem vincada na minha memória a ideia de ser mais a vida a imitar a arte do que a arte a imitar a vida, que, hoje, na sala de espera do consultório dentário, ao ver a primeira página de um jornal regional, fui de imediato levado a pensar na segunda história do filme de Woody Allen, Everything You Always Wanted to Know About Sex (But Were Afraid to Ask) e que tem na língua do nosso poeta quase contemporâneo de Cervantes o estúpido título de ABC do Amor. Não ter reparado numa primeira leitura que se tratava de um pastor adventista foi certamente um erro de percepção em virtude, não de um excesso de leitura de romances de cavalaria mas de muitos filmes, tantos deles bem mais interessantes do que a realidade a qual, tantas e tantas vezes, o que dá mesmo vontade é de esquecer.
20 maio, 2019
Foi num pequeno conto de Borges que aprendi que o mais terrível de todos os labirintos é o deserto. Isto na Terra, pois parece-me ser o escuro e gigantesco Universo ainda mais tenebroso e assustador. Ainda assim, é possível formar nele pequenas constelações que permitem encontrar uma certa ordem. Também na história, foi Walter Benjamin quem o sugeriu, é possível formar constelações, ligar pontos de luz que, apesar de bem afastados no tempo e no espaço, podem de algum modo coincidir.
Será estranho ligar um velho filósofo grego como Platão a um empresário, especulador financeiro e coleccionador de arte contemporânea como Joe Berardo? É. Mas também é verdade que o segundo é tão bem explicado pelo primeiro que quase parece estar na sua presença física. Numa obra chamada Górgias, vamos encontrar Sócrates a discutir acrimoniosamente com dois sofistas, Cálices e Polo. Os diálogos são longos mas o principal problema é o seguinte: é preferível praticar uma injustiça ou ser vítima dela? Sócrates defende a segunda opção. Os sofistas não só defendem a primeira como ainda elogiam quem, graças ao poder da retórica, manipula o auditório de modo a escapar a qualquer tipo de pena, uma vez que defendem, sem parcimónia, uma sociedade em que os mais poderosos têm todo o direito de praticar livremente as suas acções sobre os mais fracos sem qualquer tipo de resistência. Cálicles afirma mesmo que as leis são um ardil, uma convenção, um artifício dos mais fracos para escaparem à lei natural, a única que deve reger a sociedade.
Será estranho ligar um velho filósofo grego como Platão a um empresário, especulador financeiro e coleccionador de arte contemporânea como Joe Berardo? É. Mas também é verdade que o segundo é tão bem explicado pelo primeiro que quase parece estar na sua presença física. Numa obra chamada Górgias, vamos encontrar Sócrates a discutir acrimoniosamente com dois sofistas, Cálices e Polo. Os diálogos são longos mas o principal problema é o seguinte: é preferível praticar uma injustiça ou ser vítima dela? Sócrates defende a segunda opção. Os sofistas não só defendem a primeira como ainda elogiam quem, graças ao poder da retórica, manipula o auditório de modo a escapar a qualquer tipo de pena, uma vez que defendem, sem parcimónia, uma sociedade em que os mais poderosos têm todo o direito de praticar livremente as suas acções sobre os mais fracos sem qualquer tipo de resistência. Cálicles afirma mesmo que as leis são um ardil, uma convenção, um artifício dos mais fracos para escaparem à lei natural, a única que deve reger a sociedade.
Já no final, Sócrates surge como claro defensor da justiça enquanto noção que confere uma ordem e harmonia, comparando a sociedade com a construção de um navio ou de um edifício. Sem essa ordem, harmonia e sentido de proporção, o navio não vai navegar, o edifício poderá ruir e, na mesma linha, uma sociedade perderá o seu equilíbrio. Sócrates: «Uma certa beleza de composição, própria da natureza de cada coisa, é aquilo que, pela sua presença, torna essa coisa boa? Assim o julgo». E mais adiante: «Defendes que é preciso ultrapassar os outros, e isto porque desprezas a geometria». Ora, se considerarmos que grande parte da contemporaníssima arte coleccionada por Berardo (que é a sua vida, admitiu com emoção) é completamente alheia ao padrão clássico da arte, precisamente marcado por uma ordem geométrica, sendo muito dela até esteticamente disruptiva, talvez isso ajude a explicar a ligação entre a sua atitude moral nos negócios, sobretudo os que envolvem os dinheiros públicos e a sua apaixonadíssima ligação à arte, isto num homem que um dia chegou a pensar ter comprado a Mona Lisa numa loja de móveis. É tudo uma questão de geometria ou clássica elegância. Ou falta dela, melhor dito.
19 maio, 2019
Consta que, ontem, durante os festejos do 37, muitos benfiquistas já só pensavam no 38. Tanta alegria que não passa de uma espécie de tristeza pós-coitum. Espinosa, no §4 do Tratado sobre a Reforma do Entendimento explica: «Assim, no que respeita à volúpia, o espírito detém-se nela de tal modo que repousa aí como num bem pelo qual é impedido no mais alto grau de pensar em outra coisa. Mas, depois da sua fruição, segue-se uma tristeza profunda que se não suspende a actividade da mente, pelo menos perturba-a e enfraquece-a». [tradução de António Borges Coelho]
Mas se preferirmos uma explicação literariamente mais elegante, podemos agradecê-la a Platão, um homem que até nem gostava de literatura, quando no Górgias vai buscar a imagem de uma pipa furada para que Sócrates possa atirar à cara de Cálicles as desvantagens de uma submissão face aos nossos desejos. Foi Empédocles ou Filolau, não há a certeza, quem terá comparado a parte da alma que obedece às paixões a uma pipa furada. Ora bem, por influência de Albert Camus, sempre que pensamos numa espécie de eterno castigo supremo somos logo invadidos pela imagem de Sísifo a transportar o pedregulho. Porém, se pensarmos no destino dessas almas furadas por buracos que «tudo deixam fugir por cegueira e esquecimento», também acabamos por dar conta de um destino que não é nada pêra doce.
É a satisfação do desejo que, como implacável escorpião, mata o desejo. Daí que depois de meses e meses a desejar o 37, mal acabaram de o ter os benfiquistas já se refugiam na esperança do 38. Não por acaso a esperança é uma grande virtude cristã. Mais do que a satisfação do desejo é a esperança de satisfazer o desejo que dá um sentido às suas vidas. Só que a esperança é vazia, uma espécie de memória do que ainda não existe. Mas se calhar é mesmo assim a vida do comum dos mortais, igual à de um benfiquista ou de um portista (para um sportinguista, hèlas, a realidade é mais complicada) que vai girando num vazio e eterno retorno: algures entre um passado que já não existe e um futuro que ainda não existe.
18 maio, 2019
Cemitério [Copenhaga]
No Ípsilon de ontem, António Guerreiro vai buscar Siegfried Kracaeur, sociólogo alemão da Escola de Frankfurt, para ajudar à festa na crítica que faz à recente biografia de Sophia de Mello Breyner Andressen, invocando um artigo de 1930 intitulado A biografia como forma de arte da nova burguesia. Eu não conheço a biografia escrita pela jornalista Isabel Nery, mas bastou uma eloquente e ilustrativa passagem do livro* para adivinhar um estilo suficientemente kitschig para fazer arder os olhos e fritar o cérebro de quem o lê.
Zagalo! Sim, Zagalo, o biógrafo do Conde d'Abranhos, é nele que temos de pensar diante do que presumo ser a biografia de Sophia. Vou à estante e não preciso de muito tempo para encontrar o mesmo tipo de delírio kitschig. Só um exemplo. O biógrafo do conde tem acesso a um pequeno texto deste no qual invoca com saudade a tia que o criou e que é assim rematado: «E nunca revisitei a Quinta dos Miguéis, sem uma profunda saudade desses anos descuidosos, e sem ir ao pequeno cemitério- onde minha tia Amália repousa no seu bem tratado jazigo, cercada de floridos goivos- ajoelhar e murmurar uma reconhecida prece, no silêncio da tarde, pela alma simples que me abriu a sua bolsa e me habilitou a cursar as aulas da nossa sábia Universidade.»
Zagalo, como se acabasse de beber sozinho uma garrafa inteira de vinho, não resiste: «Página admirável! - em que se nos revelam as qualidades eminentes do escritor e a tocante bondade do homem! Que quadro aquele em que o vemos, já ilustre, já titular, já ministro, seguir o caminho estreito do cemitério, por alguma tarde suave de Outono, pousar o joelho sobre a relva, descobrir-se e rezar! Página admirável, repito, repassada de uma saudade grave, num colorido tão delicado de paisagem!»
Li há muitos anos um texto de Rodrigues Lapa sobre o Leal Conselheiro, de D. Duarte, no qual dizia que esta obra já fazia adivinhar a filosofia cartesiana. Pronto, tivesse eu bebido sozinho uma garrafa de vinho e talvez visse nas palavras do biógrafo do conde d'Abranhos algo parecido com o que diz o filósofo Martin Heidegger sobre a relação de Hölderlin com o Reno e a Germânia. Mas como nem um copo de vinho sequer bebi, limito-me a invocar de novo as sábias palavras do escritor irlandês, neste caso a propósito desta biografia de Sophia, quando diz ser mais a vida a imitar a arte do que a arte a imitar a vida. Como quase sempre, com clara e imperturbável vantagem para a arte.
Zagalo, como se acabasse de beber sozinho uma garrafa inteira de vinho, não resiste: «Página admirável! - em que se nos revelam as qualidades eminentes do escritor e a tocante bondade do homem! Que quadro aquele em que o vemos, já ilustre, já titular, já ministro, seguir o caminho estreito do cemitério, por alguma tarde suave de Outono, pousar o joelho sobre a relva, descobrir-se e rezar! Página admirável, repito, repassada de uma saudade grave, num colorido tão delicado de paisagem!»
Li há muitos anos um texto de Rodrigues Lapa sobre o Leal Conselheiro, de D. Duarte, no qual dizia que esta obra já fazia adivinhar a filosofia cartesiana. Pronto, tivesse eu bebido sozinho uma garrafa de vinho e talvez visse nas palavras do biógrafo do conde d'Abranhos algo parecido com o que diz o filósofo Martin Heidegger sobre a relação de Hölderlin com o Reno e a Germânia. Mas como nem um copo de vinho sequer bebi, limito-me a invocar de novo as sábias palavras do escritor irlandês, neste caso a propósito desta biografia de Sophia, quando diz ser mais a vida a imitar a arte do que a arte a imitar a vida. Como quase sempre, com clara e imperturbável vantagem para a arte.
* «As gotas grossas caem inclementes e frias sobre a água baça e barrenta do mar do Norte. Chove, como no dia em que Sophia nasceu, 6 de Novembro de 1919. Chove como durante a travessia que Jan Andresen fez, entre a ilha de Föhr e a cidade do Porto, algures em 1840».
17 maio, 2019
PESOS E MEDIDAS
Sofia Vasilievna, mãe do compositor Dmitri Chostakovitch, era pianista, com diploma do Conservatório de S. Petersburgo com uma posição social bastante confortável. Anos mais tarde, ficando numa situação económica difícil pela morte do marido, viu-se obrigada a trabalhar como dactilógrafa no Departamento Central de Pesos e Medidas. É uma história triste mas não deixa de existir alguma ironia no facto de tanto o piano como a máquina de escrever possuírem teclas, obrigando ao mesmo tipo de movimentos dos dedos. Se alguém estiver noutro planeta a observar com um telescópio uma pessoa a tocar piano e outra a dactilografar, parece que estão a fazer a mesma coisa. Como bem sabemos, não estão. Lembrei-me desta história depois de passar um bom bocado na sala de espera da dentista a ler revistas cor de rosa, dando conta do modo singelo e airoso como tanta gente casa para pouco depois se descasar. A ideia que dá é que começam sempre com a sensação de serem grandes pianistas para virem entretanto a acabar como dactilógrafos de um departamento de pesos e medidas.
16 maio, 2019
Nos dias de calor, esta terra onde vivo parece abandonada por Deus para ser deixada a escorpiões, ratos do deserto, cobras e outros animais feitos para um clima incompatível com a vida humana. Mas continua a haver vida humana nesta terra em dias de calor e vida humana que precisa de sair todos os dias para trabalhar, como é, desgraçadamente, o caso da minha.
Uma coisa que invejo nas mulheres (o tio Freud que me perdoe mas um homem também tem direito à sua inveja) é nestes estúpidos dias de calor poderem usar saias ou vaporosos vestidos, enquanto nós temos de cobrir as pernas de alto a baixo quando o corpo desesperado só grita por uns calções de banho para mergulhar em qualquer coisa que refresque. Mas ontem, dia de muito calor, observei uma coisa interessante enquanto uma turma fazia teste: todos os rapazes usavam calções enquanto as raparigas, excepto duas, usavam calças. Dá Deus nozes a quem não tem dentes, filosofei eu mal reparei nesse assinalável pormenor que merece reflexão.
Por que estavam todos os rapazes, sem excepção, de calções? Porque estava bastante calor e havendo liberdade para os usar, o que será racional e sensato decidir é usá-los em vez de calças. Ora, se tudo na vida resultasse de escolhas racionais e sensatas, as raparigas iriam naturalmente também usar calções, saias ou vestidos. Ora, porque usam então a sua liberdade para escolher o que parece ser menos racional e sensato? Tal acontece porque quando falamos de valores entramos num território onde os interesses podem ser divergentes. Haverá certamente valores que todos partilhamos, não porque foi isso que convencionámos socialmente, mas porque são objectivamente desejáveis. Acontece, porém, que num segundo nível poderão existir várias concepções de bem, de acordo com o que serão as crenças e desejos de cada um, o modo como cada pessoa interpreta a realidade. Os rapazes vêm de calções no Verão e de calças no Inverno porque valorizam sobretudo o conforto, sentindo-se quentes no Inverno e frescos no Verão. Mas se as raparigas continuam a usar calças como se estivessem no Inverno será porque muito provavelmente são movidas por um interesse estético.
O que acontece em sociedades totalitárias é uma concepção monista do Bem. Um rei, um imperador, um ditador, um líder religioso determinam o que é o Bem, decidindo ainda o que devem as pessoas fazer para viver em função dele. Vemos isso em utopias de esquerda, utopias de direita, utopias religiosas ou meras e ingénuas utopias sociais mais ou menos filosoficamente concebidas. Todas elas considerando que é possível conhecer os valores que todos os seres humanos irão partilhar, que todos esses valores se podem harmonizar entre si, e que existem ainda soluções para os seres humanos poderem superar todos os seus conflitos. Não, isso não é possível. Haverá sempre pessoas a preferir andar com menos roupa e outras com mais roupa em dias de frio, pessoas a preferir andar com mais roupa e outras com menos roupa em dias de calor. É assim a natureza humana e, já agora, ainda bem que assim é. Será bom, portanto, que as nossas sociedades democráticas, abertas, liberais se saibam defender de todos aqueles que, vindos da esquerda ou da direita, nos querem pôr todos a vestir da mesma maneira.
O que acontece em sociedades totalitárias é uma concepção monista do Bem. Um rei, um imperador, um ditador, um líder religioso determinam o que é o Bem, decidindo ainda o que devem as pessoas fazer para viver em função dele. Vemos isso em utopias de esquerda, utopias de direita, utopias religiosas ou meras e ingénuas utopias sociais mais ou menos filosoficamente concebidas. Todas elas considerando que é possível conhecer os valores que todos os seres humanos irão partilhar, que todos esses valores se podem harmonizar entre si, e que existem ainda soluções para os seres humanos poderem superar todos os seus conflitos. Não, isso não é possível. Haverá sempre pessoas a preferir andar com menos roupa e outras com mais roupa em dias de frio, pessoas a preferir andar com mais roupa e outras com menos roupa em dias de calor. É assim a natureza humana e, já agora, ainda bem que assim é. Será bom, portanto, que as nossas sociedades democráticas, abertas, liberais se saibam defender de todos aqueles que, vindos da esquerda ou da direita, nos querem pôr todos a vestir da mesma maneira.
15 maio, 2019
Os alunos estão na sala de aula a trabalhar em grupo sobre temas relacionados com a nossa cultura científico-tecnológica. Ao espreitar o trabalho de duas alunas, digo-lhes que a capa de hoje do Jornal de Notícias traz um dado que lhes pode ser útil. Acedem ao site mas o acesso ao conteúdo é só para assinantes. Uma das raparigas pede-me então para ir lá fora comprar o jornal e eu não só deixo como até incentivo. Passado um bocado, entusiasmada com o simples facto de estar com um jornal nas mãos (incluindo o cheiro) disse que se sentia uma intelectual. Eu ouvi isto e só precisei de dois segundos para vislumbrar um futuro que já está próximo: alguém sentir-se intelectual por ter um Jornal de Notícias nas mãos.
Alain Delon é Melville, Deray, Godard mas também Antonioni, Visconti ou Losey. Cinema francês acima de tudo mas também cinema mundial. Um grande actor (as senhoras da minha idade, suspirando, dirão ser bem mais do que isso), uma referência incontornável da história do cinema. Como explicar então esta situação? Explica-se, dizendo que para a associação «Women and Hollywood», este homem que fez filmes e que recebe uma condecoração pelos filmes que fez e não pelo homem que é, tem de pensar as coisas certas sobre homossexualidade e imigração para além de um comportamento sem mácula. Verdadeiramente assustador.
Quanto ao que ele pensa ou deixa de pensar, é problema dele e nem me parece especialmente chocante conceber a homossexualidade como contranatura ou não concordar com algumas políticas de imigração europeias. Bem vistas as coisas, grande parte dos comportamentos humanos são contranatura como, por exemplo, fazer sexo usando contraceptivos (uma aberração de um ponto de vista biológico) e não vejo as pessoas queixosas por causa disso. E se Delon é contra homossexuais adoptarem crianças (eu sou a favor), seja porque, coitadinho, é octogenário ou outro motivo qualquer, tem também todo o direito a pensar assim. Chama-se a isso liberdade de pensamento e de consciência. Claro que é muito feio ter dado estaladas (embora também não me custe admitir que tenha levado algumas) ou dizer seja o que for que inferiorize as mulheres. Absolutamente reprovável. Mas também me parece pensamento algo mítico e sincrético não ser capaz de distinguir o actor do homem, como se os dois níveis estivessem misturados. Não estão.
Por essa ordem de ideias, se um destes dias entrar num museu e vir dois ou três excelentes quadros de alguém desconhecido, devo suspender a minha avaliação até conhecer a biografia e as idiossincrasias do homem ou mulher que os pintou. E se entretanto souber que é apoiante de Marine Le Pen (que eu nunca apoiaria) ou que admira Trump (que eu não admiro) e que para além disso teve comportamentos reprováveis com mulheres ou homens (nas quatro variáveis homo e hetero), de imediato passa não só para a minha lista negra como ainda boicotarei qualquer homenagem ou gratificação pela sua obra. Agora, é impressão minha ou isto lembra um bocadinho os horrores morais da Itália e Alemanha fascistas ou da RDA, Bulgária e Roménia comunistas? A questão é que se calhar muitos dos que concordam com estes boicotes, e que são capazes de gritar "Fascismo nunca mais!" já teriam imensas dificuldades em gritar "Comunismo nunca mais!". Vá-se lá saber porquê...
14 maio, 2019
Há um exercício muito engraçado que se faz em Filosofia para abordar o problema da identidade. Imaginemos um tipo com 30 anos que pratica uma série de crimes com requinte de malvadez e a mais fútil indiferença perante o sofrimento alheio, sem que seja descoberto. Entretanto, sofre um acidente neurocerebral cuja consequência é não só cortar qualquer memória desse seu passado como ainda transformá-lo num indivíduo altruísta, com uma enorme sensibilidade face aos problemas dos outros, investindo mesmo muito do seu dinheiro em ajudas humanitárias por amor ao próximo. Meses depois, a polícia descobre finalmente a identidade do assassino, vai a casa dele e leva-o para para interrogatório. Ora, ele não consegue compreender a acusação, não possui a mais pequena consciência do que fez, é como se estivessem a falar de uma outra pessoa, ficando mesmo chocado com a possibilidade de ter praticado crimes tão hediondos. Enfim, um horrível absurdo que só pode resultar de um tremendo equívoco. Mas foi ou não ele que praticou o crime? O corpo é o mesmo, o rosto é o mesmo, o seu número de contribuinte e de cidadão não deixam quaisquer dúvidas.
Podemos pensar noutras variantes desta história e uma delas aconteceu-me agora. Recebi há dias uma carta com uma multa relativa a Janeiro. Dizia a carta que num troço entre Espinho e o Porto circulei a 120 quando a velocidade máxima permitida era 90. Eu não quis acreditar. E não acreditar por ter a plena consciência (psicológica e moral) de conduzir de facto a 120 numa estrada em que é permitido andar 120, pois é essa a velocidade a que habitualmente conduzo numa auto-estrada. Em suma, estava a ser multado por ser um condutor exemplar. O que aconteceu foi o seguinte: por haver um separador central, convenci-me de que estava a conduzir numa auto-estrada quando tecnicamente já não estava. Haverá algures uma placa com a indicação dos 90 km como velocidade máxima mas por alguma razão não a vi. Pronto, já paguei o raio dos 120 euros da multa mas não sem um forte sentimento de injustiça. Não no sentido de pôr em causa a legitimidade da multa, pronto, factos são factos, mas por sentir que não fui eu, eu enquanto pessoa que pratica o acto A ou o acto B com a consciência do que está a fazer, que cometeu a infracção. Paguei obedientemente, tal como Sócrates aceitou a sua condenação à morte, mas sentindo-me inocente e numa condição bem diferente da de quem possui a consciência de circular com excesso de velocidade.
Há ainda outra variante, mais subtil e complexa, a que me traz aqui, relacionada com sentimentos de ódio e crimes que daqueles resultam. O que levou tantos alemães a sentirem indiferença ou mesmo satisfação pelo isolamento, discriminação, perseguições e mais tarde extermínio dos judeus? Ou o que leva terroristas islâmicos a matar cristãos? Ou pessoas a humilhar ou agredir fisicamente outras só porque são homossexuais ou têm uma cor de pele diferente da sua? Ódio. Não porque sejam psicopatas ou radicalmente más pessoas. Pelo contrário, muitas delas podem ser excelentes pessoas em tudo o resto, bons amigos, pais, maridos ou mulheres exemplares, cidadãos perfeitamente cumpridores das normais sociais. Acontece que, por várias razões, acreditam piamente na justiça dos seus sentimentos ou das suas acções. Eu consigo fazer o exercício: fruto de uma eficaz propaganda, muitos alemães verem mesmo os judeus como horríveis ratazanas, uma repelente raça que ameaça a humanidade, sendo, por isso, um imperativo ético contribuir para a sua discriminação ou extermínio. O que não é diferente do que sente um suicida quando se faz alegremente explodir para matar cristãos. Já ouvi pessoas que considero boas e equilibradas, umas a dizer que "Os judeus são um povo assim ou assado", outras que "Os árabes são assim ou assado". Quando, entretanto, as chamei à razão, discutindo o "assim ou assado", ao caírem em si acabaram por concordar que na verdade não era bem assim, sendo vítimas de um preconceito do qual se arrependem.
Cair em si. O que significa cair em si? Esse cair em si de tantos alemães depois da guerra, de ex-terroristas ou de pessoas que mudaram a sua posição face à homossexualidade por um dia terem um filho que é homossexual, ou perante alguém de uma outra raça porque a sua vida foi salva por alguém dessa raça. É como se, após um processo de desparatisação ou descontaminação mental, emergisse de novo, ou pela primeira vez, a verdadeira pessoa, a pessoa normal, que sente o que deve sentir, que pensa o que deve pensar. É culpa, vergonha ou arrependimento o que sentem essas pessoas. Sentem-no porque sabem que foram elas a sentir ou a fazer aquilo mas também já não sendo as mesmas que o sentiram ou fizeram. Como se fosse um vírus que momentaneamente as infectasse, levando-as a um processo mentalmente febril para depois regressarem a uma normalidade com a qual se identificam. Mas também uma normalidade que a todo o momento também se pode perder, bastando criar as condições certas para tal acontecer.
13 maio, 2019
Há dias o JN dava aqui a notícia de uma jovem portuguesa de Faro que morreu a caminho do aeroporto de Budapeste, regressando de um programa de Erasmus. A notícia é normal mas é difícil ficar indiferente aos (inevitáveis) comentários. Vejamos, um a um, segundo a ordem da publicação:
Jose Cardoso: que tristeza perder um filho assim
Carlos Sampaio: Nem mais...
Fernanda Vaz: Os meus sentimentos família neste momento tão difícil.
Fernando Pereira Azevedo: Os meus mais sinceros sentimentos à família enlutada...E à falecida o descanso eterno.
Aleixo Fernandes: É muitísso doloroso! Criar uma filha com todo o amor, afecto e sacrifícios e perdê-la aos 15 anos. Minhas sentidas condlências aos familiares, embora esta emais não lhes traga de volta a filha querida.
Maria Alfredina Assis: Lamentável acidente para aquela criança e sua família.
Patrícia Cabral: Meu Deus
Sofia Prata: como se reage a uma morte assim
Para explicar o que pode levar uma pessoa a comentar num jornal uma notícia como esta, consigo ver três possibilidades:
1. Solidão. Solidão que leva alguém a aproveitar qualquer canal de comunicação.
2. Uma descontrolada tagarelice que cada vez mais, e com níveis preocupantes, impede as pessoas de estarem caladas.
3. A mais interessante. O facto de graças a um teclado, um monitor e um rato, uma pessoa sentir-se legitimada para dizer tudo o que lhe apetece. Antigamente, os estados de alma ficavam circunscritos à mesa do jantar, café, enfim, à esquina da rua ou ao largo da igreja. Agora, com um teclado e um rato, comentar publicamente tudo o que mexe faz um português sentir-se com a densidade institucional de um Pacheco Pereira, de uma Clara Ferreira Alves, de um Miguel Sousa Tavares. Seja através de um like, seja através de uma simples frase, cada comentador faz sentir o seu peso no mundo.
É claro que isso não acontece apenas com as caixas de comentários dos jornais. Acontece com as redes sociais ou com a própria blogosfera. Se eu estou a escrever isto para publicar é porque me sinto legitimado para o fazer tal como alguém que escreve num jornal ou vai à televisão opinar. Haverá sempre, neste caso, a presunção de que faz sentido publicar o que se pensa, ainda que vá surgindo de acordo com uma lógica diarística, seja uma opinião mais convencional, sejam estados de alma, uns mais, outros menos privados. Mas uma coisa são opiniões apresentadas, seja mais aforisticamente, seja mais argumentativamente, ou estados de alma apresentados sob uma roupagem esteticamente louvável, outra é uma incontinente necessidade de falar quando não há nada para dizer. Ora, é este húmus social, já bem mais manifesto que latente, que surge cada vez mais como ágora contemporânea, em cuja pedra para cima da qual se sobe para falar todos têm lugar, e em que dissertar sobre a justiça, a guerra e a paz, enfim, os problemas da cidade, se mistura sem qualquer tipo de critério com os assuntos mais comezinhos. O que é verdadeiramente preocupante e perigoso, uma vez que não há filtros, o pathos sobrepõe-se ao logos, opinião que é de todos não é de ninguém, nivela-se por baixo o debate e, mais importante ainda, porque opinar fora de uma "sala sem quatro paredes" dispersa as palavras por onde calha. Ao contrário do que se diz, a vox populi não me parece nada a voz de Deus. Há alturas em que me parece mesmo ser o Diabo que anda por aí.
É claro que isso não acontece apenas com as caixas de comentários dos jornais. Acontece com as redes sociais ou com a própria blogosfera. Se eu estou a escrever isto para publicar é porque me sinto legitimado para o fazer tal como alguém que escreve num jornal ou vai à televisão opinar. Haverá sempre, neste caso, a presunção de que faz sentido publicar o que se pensa, ainda que vá surgindo de acordo com uma lógica diarística, seja uma opinião mais convencional, sejam estados de alma, uns mais, outros menos privados. Mas uma coisa são opiniões apresentadas, seja mais aforisticamente, seja mais argumentativamente, ou estados de alma apresentados sob uma roupagem esteticamente louvável, outra é uma incontinente necessidade de falar quando não há nada para dizer. Ora, é este húmus social, já bem mais manifesto que latente, que surge cada vez mais como ágora contemporânea, em cuja pedra para cima da qual se sobe para falar todos têm lugar, e em que dissertar sobre a justiça, a guerra e a paz, enfim, os problemas da cidade, se mistura sem qualquer tipo de critério com os assuntos mais comezinhos. O que é verdadeiramente preocupante e perigoso, uma vez que não há filtros, o pathos sobrepõe-se ao logos, opinião que é de todos não é de ninguém, nivela-se por baixo o debate e, mais importante ainda, porque opinar fora de uma "sala sem quatro paredes" dispersa as palavras por onde calha. Ao contrário do que se diz, a vox populi não me parece nada a voz de Deus. Há alturas em que me parece mesmo ser o Diabo que anda por aí.
12 maio, 2019
Haverá poucas expressões tão vernaculares em Portugal como o «Tem de ser...», quando um português em conversa com outro português se refere a qualquer coisa que lhe apetece ou precisa de fazer. Também Beethoven, quando no manuscrito do seu último quarteto, o opus 135, pergunta «Muss es sein?», acaba por responder: «Es muss sein». Cá está, isto anda mas é tudo ligado, é o que é. As diferentes realidades em que vivemos podem afastar-nos como seres humanos mas as nossas fraquezas têm o dom e o mérito de nos aproximar. São múltiplos e variados os modos como les beaux esprits se rencontrent.
11 maio, 2019
Quando Ulisses regressa a Ítaca não é o mesmo que de lá saiu. Como poderia sê-lo depois do interminável cerco de Tróia e de tantas e insólitas aventuras? Ulisses, o astuto e experiente Ulisses, regressa ainda mais astuto e experiente. Ulisses é, por antonomásia, a própria experiência, quem tudo viveu e com infinitas histórias para contar. Poderia ser uma Sherazade mas uma Sherazade com conhecimento de causa que se narra a si mesma em mil e uma noites de histórias para contar.
A viagem de regresso para Ítaca é dramática. Uma verdadeira odisseia. O mesmo é dizer que Ulisses é em si mesmo dramático, uma vez que Ulisses (Odisseus, em grego) é, mais uma vez por antonomásia, a própria ideia de viagem. Só que Ulisses é aventureiro não porque o quisesse mas porque querendo regressar a casa, não o consegue, ainda que viva uma experiência utópica como na ilha de Calipso. Quando por fim o consegue, tendo que se disfarçar, como consegue provar quem é? Pelo seu passado. A velha ama reconhece-o pela cicatriz que tem desde criança, Penélope reconhece-o por um segredo que só eles partilham a respeito da construção da sua cama, o pai reconhece-o quando começa a nomear os nomes das árvores que aquele lhe ensinou quando era criança. E não esquecer Argos, o seu cão (ah, um cão, esse eterno símbolo da mediocritas doméstica e da fidelidade), que logo o reconheceu apesar do disfarce.
Todo o percurso de Ulisses é construído pela busca de um futuro dependente de um passado que lhe dá sentido. Para Ulisses, viver não é acumular aventura sobre aventura, atomicamente dispersas num tempo linear, ou viver uma vida imortal como a que lhe foi oferecida de bandeja por Calipso. Não existe uma pulsão de futuro em Ulisses como desejo de mais e mais terras por conquistar. O futuro, em si, não tem qualquer valor, viajar na sua direcção só porque é futuro não faz qualquer sentido. A grande lição de Ulisses é a de que o auto-conhecimento será sempre um auto-reconhecimento. Ora, isso tanto é válido para as pessoas como para as comunidades. O grande perigo que nos assola cada vez mais é a falta de memória. Perder a memória é perder o sentido e andar pelo mar, ainda que com sofisticados GPS's para sabermos onde estamos, sem uma Ítaca que dê sentido à nossa viagem, é simplesmente andar pelo mar. Resta saber para quê, se não sabemos quem somos e o que andamos por lá a fazer.
10 maio, 2019
Não sei se é qualidade, ingenuidade ou simplesmente parvoíce, a minha tendência para ver sempre o lado positivo das coisas. Aconteceu-me agora mais uma vez com a atitude do presidente Bolsonaro em relação à Filosofia. Por duas razões, uma política e outra ela mesma filosófica.
Há uns bons anos, em Portugal, algumas vozes admitiram a possibilidade de acabar com o ensino da Filosofia no ensino secundário. A reacção da sociedade civil foi de tal modo veemente que acabou por morrer logo ali. Ora, quando um homem como Jair Bolsonaro exprime a sua posição negativa face à Filosofia, isso será o mais eficaz antídoto contra qualquer proposta do género numa Europa cujos políticos, pelo menos no espectro tradicional, jamais aceitariam ficar associados a uma medida protagonizada por uma criatura como Jair Bolsonaro.
Mas também há uma razão filosófica e nem preciso de ir buscar aquele célebre argumento de Aristóteles perante a tese de que não é necessário filosofar. Segundo o estagirita, não é possível fugir à filosofia uma vez que a sua negação terá de ser ela própria um exercício filosófico, sendo, por isso, auto-refutante. Não, a minha ideia é outra: o facto de haver políticos como Jair Bolsonaro que rejeitam a importância da Filosofia é a mais inequívoca prova da urgente e cada vez maior importância que deve ter no mundo actual.
09 maio, 2019
Sei de cada vez mais pessoas que deixaram de comer carne. Há três grandes razões: de saúde, ambientais ou ligadas aos direitos dos animais. A primeira, estando centrada apenas num interesse pessoal, não envolve uma dimensão moral, não valendo assim a pena discutir. É como fumar ou não fumar, ser ou não fã do José Cid, passar ou não o domingo à pesca com o ouvido nos relatos de futebol. Se considera que lhe é vantajoso deixar de comer carne, é lá com ela e ninguém tem nada que ver com isso.
As outras sim, têm uma base moral, embora a primeira (questão ambiental) possa apresentar o mesmo carácter utilitarista da anterior, o que também lhe retira valor moral. Se uma pessoa deixar de comer carne de vaca porque a sua presença intrinsecamente poluidora e a sua alimentação que leva à destruição de imensas áreas florestais, ameaçar o seu bem-estar ou dos seus filhos e netos, o argumento apresenta o mesmo tipo de interesse pessoal do primeiro. Já se uma pessoa deixar de comer carne de vaca, seja por respeito pela natureza, seja para, em abstracto, não hipotecar a vida de gerações futuras, neste caso a sua atitude apresenta um valor moral. Por fim, invocar os direitos dos animais apresenta um fundamento fortemente moral, defendendo que os animais enquanto seres sencientes, passíveis de sensações de prazer e de dor, devem possuir os mesmos direitos dos seres humanos. De acordo com esta posição, matar um animal é tão grave como matar um ser humano.
Eu defendo que matar um animal não é tão grave como matar um ser humano. Matar, antes de mais, tem uma dimensão física ou biológica: a definitiva interrupção de uma vida que iria continuar se não se desse o caso de alguém a ter interrompido. Se um extraterrestre estiver a ver-nos com um telescópio sem saber o que são um ser humano e um frango, a morte de um ser humano não será para ele diferente da morte de um frango. São apenas dois animais que estavam vivos e passaram a estar mortos. Porém, quem aqui vive facilmente percebe que a morte de um frango não pode ter o mesmo significado moral da morte de um ser humano. E não necessariamente porque, enquanto ser humano, não consegue ser imparcial, mas pela simples observação do que é ser um frango e do que é ser humano. Claro que um frango é um ser senciente. Se torturarmos um frango irá sofrer como nós. Mas também não é meu propósito defender a ideia de uma humanidade sádica que se diverte a torturar animais (excluo as moscas ou as melgas que às 3 da manhã não me deixam dormir, trazendo ao de cima o Mr. Hyde que há em mim), apenas a ideia de um ser humano que, enquanto animal, faz o que fazem quase todos os animais: comer animais (os que não comem é porque a natureza não os preparou para isso). Ora, por que razão não há um problema moral em comer animais?
Eu defendo que matar um animal não é tão grave como matar um ser humano. Matar, antes de mais, tem uma dimensão física ou biológica: a definitiva interrupção de uma vida que iria continuar se não se desse o caso de alguém a ter interrompido. Se um extraterrestre estiver a ver-nos com um telescópio sem saber o que são um ser humano e um frango, a morte de um ser humano não será para ele diferente da morte de um frango. São apenas dois animais que estavam vivos e passaram a estar mortos. Porém, quem aqui vive facilmente percebe que a morte de um frango não pode ter o mesmo significado moral da morte de um ser humano. E não necessariamente porque, enquanto ser humano, não consegue ser imparcial, mas pela simples observação do que é ser um frango e do que é ser humano. Claro que um frango é um ser senciente. Se torturarmos um frango irá sofrer como nós. Mas também não é meu propósito defender a ideia de uma humanidade sádica que se diverte a torturar animais (excluo as moscas ou as melgas que às 3 da manhã não me deixam dormir, trazendo ao de cima o Mr. Hyde que há em mim), apenas a ideia de um ser humano que, enquanto animal, faz o que fazem quase todos os animais: comer animais (os que não comem é porque a natureza não os preparou para isso). Ora, por que razão não há um problema moral em comer animais?
Matar um ser humano é grave porque implica interromper a vida de alguém cuja identidade resulta de uma ligação entre um passado, um presente e um futuro, que cada pessoa vai gerindo consciente e intencionalmente (se é ou não com base num livre-arbítrio, isso já é outra conversa). Matar uma pessoa que tinha projectos para o dia, semana, mês ou anos seguintes, e se os tinha foi porque houve coisas no seu passado que a levou a tê-los. Ora, morrendo, fica impedida de usufruir de um conjunto de experiências, emoções, sentimentos e sensações pelas quais ansiava, implicando isso uma grave violação dos seus direitos. Um crime, portanto.
Não me parece que seja isso que acontece com um frango ou qualquer outro animal. O animal pode ser senciente mas não tem um dimensão cognitiva e volitiva que lhe permita fazer a ligação entre um passado e um futuro, vivendo apenas um eterno presente centrado em aspectos biológicos mais elementares. Matar um animal para nos alimentarmos significa interromper uma vida que não foi escolhida e cujo futuro irá ser uma mera cópia do passado. Daí que a morte de um animal com um ano de vida não seja diferente da morte de um outro com sete anos de vida. Claro que se vive mais em sete anos do que num ano. Só que um animal que leva sete anos de vida não tem qualquer passado enquanto património pessoal nem um futuro pelo qual espera conscientemente. O animal nada espera, apenas comida, água, dormir, estar seguro e reproduzir-se embora sem qualquer espécie de devaneio amoroso. Em suma, o que nós temos a ganhar com um daqueles belos frangos que o lobo dos desenhos animados imagina é bastante mais do que tem o frango a perder por não continuar a viver.
Não me parece que seja isso que acontece com um frango ou qualquer outro animal. O animal pode ser senciente mas não tem um dimensão cognitiva e volitiva que lhe permita fazer a ligação entre um passado e um futuro, vivendo apenas um eterno presente centrado em aspectos biológicos mais elementares. Matar um animal para nos alimentarmos significa interromper uma vida que não foi escolhida e cujo futuro irá ser uma mera cópia do passado. Daí que a morte de um animal com um ano de vida não seja diferente da morte de um outro com sete anos de vida. Claro que se vive mais em sete anos do que num ano. Só que um animal que leva sete anos de vida não tem qualquer passado enquanto património pessoal nem um futuro pelo qual espera conscientemente. O animal nada espera, apenas comida, água, dormir, estar seguro e reproduzir-se embora sem qualquer espécie de devaneio amoroso. Em suma, o que nós temos a ganhar com um daqueles belos frangos que o lobo dos desenhos animados imagina é bastante mais do que tem o frango a perder por não continuar a viver.
08 maio, 2019
Há pouco tempo atravessei parte do Ribatejo sentado num comboio, região que neste período do ano nos oferece belas paisagens rurais, umas mais agrestes, outras que deixam adivinhar uma zelosa mão humana, animais pastando, árvores cuidadas, terras cultivadas, ambas belos cenários a fazer lembrar algumas pinturas naturalistas do século XIX. E foi com os olhos mergulhados na paisagem que, subitamente, dou por mim fechado numa cápsula em movimento cuja estrutura de metal e vidros me isolava dessa mesma paisagem.
Não foi o suficiente para o meu cérebro ficar confuso, retirando-me a fruição estética da paisagem. Mas foi o que bastou para compreender a minha posição artificial e distante face àquela. Como se estivesse numa sala de cinema diante de imagens em movimento que vão passando diante dos meus olhos, só que, neste caso, estando eu em movimento enquanto as paisagens se mantêm iguais a si próprias, seja antes ou depois da minha passagem por elas. Claro que o caso extremo é o avião, anulando praticamente o sentido físico da paisagem enquanto se voa entre um ponto de partida e um ponto de chegada. A velocidade do avião, traduzindo em poucas horas o que no espaço são milhares de quilómetros, torna esse espaço num não-espaço, uma simples abstracção compreendida enquanto obstáculo a ser ultrapassado. De todos os meios de transporte, é o avião aquele que nega em absoluto o sentido de Ítaca, o belo poema de Constatino Kavafis
Não por acaso existe uma certa associação romântica ao comboio, a qual não é possível com o avião. O comboio, com a sua velocidade numa escala ainda humana, continua a respeitar a paisagem, dando-nos em pormenor as suas diferentes formas e matizes, permitindo assim o seu usufruto estético. Tal usufruto, porém, não deixa de implicar uma clara depuração da paisagem rural, transformando-a numa mera projecção da minha sensibilidade urbana que está na base de um ideal estético que formaliza ainda mais uma relação que, por ser estética, já é em si mesma formal. Quase me apetece ser marxista: eu, sentado naquele comboio, olho para os diferentes cenários, anulando a sua verdadeira essência, resultado do trabalho humano. De um trabalho muitas vezes duro, obrigando a sentir o agreste peso da natureza, de um trabalho que é resultado de muitos conhecimentos e afazeres, de um trabalho que transforma a natureza em mercadoria, em valor económico e social, impossibilitando assim manter perante a natureza a mesma serenidade e distância face a um sentido utilitarista das coisas com que observamos a cor em movimento de um peixe no aquário ou a beleza de um pêssego na fruteira.
Neste sentido, entrar num comboio para atravessar o Ribatejo, mais do que entrar num cinema, é entrar num museu onde vamos tranquilamente circulando diante de paredes de onde emergem várias pinturas naturalistas, protegidos por uma temperatura ambiente, sem escorregarmos, sem nos sujarmos, sem nos molharmos, sem cheiros desagradáveis, sem sermos incomodados por insectos ou por um cão maldisposto que sai de um portão para nos ameaçar. Uma visão utópica da natureza, o mesmo é dizer, uma natureza asséptica ou bacteriologicamente pura, como se fosse adquirida numa farmácia para ser ingerida com toda a confiança. Uma natureza irreal, de uma beleza que exige estar fora dela mas que igualmente satisfaz a nossa muito humana necessidade de uma beleza e irrealidade que apenas existe na nossa própria consciência.
Neste sentido, entrar num comboio para atravessar o Ribatejo, mais do que entrar num cinema, é entrar num museu onde vamos tranquilamente circulando diante de paredes de onde emergem várias pinturas naturalistas, protegidos por uma temperatura ambiente, sem escorregarmos, sem nos sujarmos, sem nos molharmos, sem cheiros desagradáveis, sem sermos incomodados por insectos ou por um cão maldisposto que sai de um portão para nos ameaçar. Uma visão utópica da natureza, o mesmo é dizer, uma natureza asséptica ou bacteriologicamente pura, como se fosse adquirida numa farmácia para ser ingerida com toda a confiança. Uma natureza irreal, de uma beleza que exige estar fora dela mas que igualmente satisfaz a nossa muito humana necessidade de uma beleza e irrealidade que apenas existe na nossa própria consciência.
07 maio, 2019
VOZ PASSIVA
Dantes, havia pessoas que devoravam jornais. Agora, o que não falta são pessoas devoradas por eles.
06 maio, 2019
02 maio, 2019
Foi durante um jantar entre Bioy Casares e Borges que este, vendo um espelho ao fundo do corredor, percebeu que os espelhos têm qualquer coisa de monstruoso. Foi na sequência disso que Casares lembrou que um dos heresiarcas de Üqbar considerava os espelhos e a cópula abomináveis por multiplicarem o número de pessoas. Porém, estou em crer que o espelho, o clássico espelho, que inclui o espelho da rainha que lhe dizia não haver ninguém mais bela do que ela, se tornou nos nossos dias um processo romântico de auto-contemplação.
Se o famoso heresiarca de Üqbar falava assim dos espelhos era porque nunca conheceu a praga das selfies. A selfie, essa sim, multiplica até à exaustão o número de pessoas, cada uma desdobrada em centenas de versões: com língua para fora em posição central, com língua para fora em posição lateral, com mil e uma caretas, umas mais simiescas que outras, com boquinhas, com olhos abertos, com olhos fechados, com ar lânguido, com ar infantil, com ar sério, com ar maroto, com ar de homem ou mulher fatal, herdeiro do velho anúncio publicitário da Martini, com dedos, braços ou corpo em várias posições, das mais hieráticas às mais acrobáticas. Em suma, por causa da selfie, cada ser humano deixa no mundo, para além de uma pegada ecológica, uma pegada narcísica cujos elevados níveis de contaminação levam a humanidade a uma espécie de overdose de si mesma.
Se o famoso heresiarca de Üqbar falava assim dos espelhos era porque nunca conheceu a praga das selfies. A selfie, essa sim, multiplica até à exaustão o número de pessoas, cada uma desdobrada em centenas de versões: com língua para fora em posição central, com língua para fora em posição lateral, com mil e uma caretas, umas mais simiescas que outras, com boquinhas, com olhos abertos, com olhos fechados, com ar lânguido, com ar infantil, com ar sério, com ar maroto, com ar de homem ou mulher fatal, herdeiro do velho anúncio publicitário da Martini, com dedos, braços ou corpo em várias posições, das mais hieráticas às mais acrobáticas. Em suma, por causa da selfie, cada ser humano deixa no mundo, para além de uma pegada ecológica, uma pegada narcísica cujos elevados níveis de contaminação levam a humanidade a uma espécie de overdose de si mesma.
Daí esta montagem a partir de filmes de Ingmar Bergman se tornar num momento de exaltação poética e riqueza psicológica. O espelho como elemento projectivo, como elemento introspectivo, como elemento de auto-conhecimento, físico ou psicológico, ainda que, nalguns casos, vise apenas alimentar a vaidade. Porém, comparar a clássica e antiga vaidade do espelho, a vaidade antropológica que nos acompanha desde os primórdios da civilização, com a vaidade da selfie é como comparar um stradivarius com uma guitarra de plástico das feiras. A vaidade pode ser vã, passe o pleonasmo, mas, desde que na correcta medida, não passa de uma inofensiva fraqueza, um pequeno desvario que se limita a distrair simpaticamente o eu do seu verdadeiro caminho ou do que verdadeiramente importa. O espelho, nesse sentido, não é mais do que um alter-ego que connosco comunica para dar notícia do nosso estado.
Quando vou cortar o cabelo e me sento em frente ao espelho é sempre com alguma surpresa o que encontro diante de mim. Devido à forte luminosidade do salão, que não tenho em casa, é sempre um outro rosto que descubro, sem esquecer a surpresa dos cabelos brancos que só ali consigo ver e dos quais só ali ganho verdadeira consciência. Aquele espelho não alimenta a minha vaidade, aquele espelho não passa de uma vanitas barroca atirada à minha cara do lado de cá. E enquanto a cabeleireira me vai cortando o cabelo vou tentando perceber que tipo de rosto é aquele que ali vejo um pouco mais abaixo do dela. Eu não sou vaidoso, nem teria motivo para o ser, mas aproveito sempre aqueles minutos para tomar consciência deste pedaço de carne, ossos, pele, músculos, tendões, gordura e nervos que me confere uma identidade. E surpreendo-me a ver como sorrio, que expressões tenho quando digo certas coisas que nunca me vejo a dizer. Sim, eu poderia fazê-lo em casa mas, nesse caso, seria um actor a fingir. Lá, no salão, é mesmo o meu rosto, tal como ele é, um ser vivo que se exprime espontaneamente no seu habitat natural.
Não, o espelho não é abominável, até porque nem sequer nos prolonga. A nossa imagem no espelho, como o som de um instrumento ou da nossa voz, só existe enquanto estamos diante dele. Fora dele, desaparece e ficamos de novo apenas connosco próprios. A selfie, essa sim, deixa um rasto indelével pelo mundo, cada vez mais poluído de tanto eu mergulhado no exibicionismo e na auto-publicidade. Pobre heresiarca de Üqbar se viesse agora ao mundo e seguisse o rasto das selfies por aí espalhadas. Seria forçado a concluir que a humanidade teria feito pouco mais do que copular, e copular apenas para se poder ver a si mesma.
Não, o espelho não é abominável, até porque nem sequer nos prolonga. A nossa imagem no espelho, como o som de um instrumento ou da nossa voz, só existe enquanto estamos diante dele. Fora dele, desaparece e ficamos de novo apenas connosco próprios. A selfie, essa sim, deixa um rasto indelével pelo mundo, cada vez mais poluído de tanto eu mergulhado no exibicionismo e na auto-publicidade. Pobre heresiarca de Üqbar se viesse agora ao mundo e seguisse o rasto das selfies por aí espalhadas. Seria forçado a concluir que a humanidade teria feito pouco mais do que copular, e copular apenas para se poder ver a si mesma.
01 maio, 2019
Há tempos vinha à minha frente no comboio uma rapariga com um ar hiperanarquista com uma t-shirt que tinha qualquer coisa escrita contra a ideia de trabalhar, frase, de resto, em perfeita harmonia com a identidade que a rapariga fazia questão de mostrar ao resto da humanidade. Eu percebo a ideia da frase, ó se percebo, mas, com a minha idade já tive muito tempo para perceber que apesar dos malefícios pessoais do trabalho, os benefícios igualmente pessoais são esmagadoramente maiores. Tivesse eu lata para isso e teria perguntado à rapariga como estaria ela a fazer aquela viagem se não houvesse pessoas a trabalhar, como vestiria aquela t shirt sem alguém que a tivesse feito e mil e uma coisas que fazemos e adquirimos ao longo da vida.
De qualquer modo, se há feriado que não me diz nada é o de hoje. Eu até nem desgosto de trabalhar e acredito que nem sou mau naquilo que faço. Mas detesto a ideia de me pensar ou sentir como "trabalhador". Sim, sou trabalhador mas não sinto qualquer sentimento por este dia dedicado à parte de mim que trabalha. Nunca me revi naquela retórica marxista do trabalho e do trabalhador e ainda hoje sinto arrepios com a soviética ou chinesa mitologia do operário e do camponês, do engenheiro e do trabalhador intelectual. Até um escritor era um trabalhador intelectual. Nada tenho contra os trabalhadores mas nunca sinto que estejam a falar de mim quando oiço os partidos de esquerda ou os sindicalistas a falar nos trabalhadores isto e trabalhadores aquilo, fazendo dos trabalhadores heróis de uma mitologia laboral.
Uma coisa é o acto de trabalhar, outra é o impacto que o acto de trabalhar tem na minha identidade. Há quem se orgulhe de ser metalúrgico, médico ou professor. Eu não me orgulho de ser professor, gosto apenas de o ser, como gosto de ser tanta coisa que passa por não ser professor. O dia de hoje é bom precisamente porque posso aproveitar para fazer uma das coisas de que mais gosto de fazer na vida: não trabalhar. Há quem precise de trabalhar muito para se sentir vivo. Eu também me sinto bastante vivo enquanto trabalho mas não preciso de trabalhar para me sentir vivo. Acredito que não devemos viver para trabalhar mas trabalhar para viver. E que é para lá do trabalho que se deve encontrar a verdadeira vida.
30 abril, 2019
Ao pensar na tacanhez paroquial que se pode vislumbrar na reacção a obras de arte que, pela sua modernidade, se afastam dos cânones, lembro-me sempre da história de um conhecido boémio do Porto que, em 1921, ao sair de uma exposição de Amadeo de Sousa Cardoso no jardim do salão Passos Manuel, perguntou: «Estarei bêbedo?». Ao ridicularizar esse tipo de reacção (quem ridiculariza fá-lo sempre), estou naturalmente a assumir uma posição de superioridade e sobranceria face ao que consideramos a ignorância ou estupidez de alguém.
Acontece que a pergunta de Artayett, o tal portuense baralhado com o que acabara de ver, é a pergunta que me sinto tantas vezes obrigado a fazer em museus de Arte Contemporânea, seja para exposições temporárias, seja para permanentes, diante de certos quadros, esculturas, instalações ou mesmo coisas que nem chego a perceber o que possam ser. Será que estou a fazer a mesma figurinha parva do portuense? Será que o problema não está na obra de arte, certamente magnífica e que, coitadinha, não tem culpa nenhuma, mas na minha exasperante falta de capacidade para compreender o que vejo ou tento ver? Será que estou a fazer a mesma triste figurinha dos que, na Alemanha nazi ou na estalinista URSS, execravam a chamada arte decadente e degenerada? E penso em tantos artistas, hoje consagradíssimos, que viram diferentes públicos reagir do mesmo modo que o nosso amigo perante a pintura de Amadeo e eu perante tantas outras, sejam pintores, escultores, músicos (alguns deles pateados em humilhantes noites de estreia), escritores ou mesmo arquitectos. Ora, não estará a acontecer precisamente a mesma coisa com tantos artistas que hoje vão expondo um pouco por todo o lado? Como poderei saber se estou a ser ridículo como Artayett ou se, pelo contrário, haverá alguma sensatez na minha reacção?
Não me parece existirem critérios objectivos que me permitam fazer uma avaliação rigorosa da minha putativa «bebedeira». Mas há pelo menos um critério que, podendo não ter uma eficácia matemática, parece bastante razoável, como, de resto, em tantas outras coisas: o tempo. O que o tempo faz com a obra de arte ou, dito de outro modo, como vai a obra de arte relacionar-se com o tempo. É aqui que somos obrigados a pensar como se deram bem com o tempo tantos artistas que começaram por ser incompreendidos, incompreensão natural mas que, com o tempo, vai sendo polida até chegar a um processo de normalização ou mesmo consagração. Ora, tanto quanto sei ou julgo saber, não é isto que me é dado observar com a esmagadoríssima maioria das obras que me fazem sair «embriagado» de exposições. Obras que nunca se chegam a impor acabando por morrer sem honra e glória no mais confrangedor anonimato. E se algumas resistem ao tempo, chegando mesmo aos holofotes da fama ou tornando-se populares, não é pelo seu consensualmente reconhecido valor mas por um simples processo de marketing artístico ou, pior ainda, pelo absurdo que representam, ainda que associados a uma espécie de volúpia fetichista resultante da sua popularidade. Porém grande parte deles ficaram, e ficarão, para todo o sempre, no mais absoluto anonimato ou conhecidos apenas de uma muito especial elite que se compraz lascivamente com o seu especial elitismo. E eu, pouco dado a impulsos sádicos, só posso ficar satisfeito pelo modo justo como o tempo, no seu sagrado trono, julga as coisas que vão passando por ele.
29 abril, 2019
«A razão pela qual o homem, mais do que uma abelha ou um animal gregário, é um ser vivo político em sentido pleno, é óbvia. A natureza conforme dizemos, não faz nada ao desbarato, e só o homem, de entre todos os seres vivos, possui a palavra. Assim, enquanto a voz indica prazer ou sofrimento, e nesse sentido é também atributo de outros animais (cuja natureza também atinge sensações de dor e de prazer e é capaz de as indicar) o discurso, por outro lado, serve para tornar claro o útil e o prejudicial e, por conseguinte, o justo e o injusto». Aristóteles, Política, Livro 1, capítulo 2
Por exemplo, os meus gatos. Já conheço razoavelmente alguns dos sons que emitem. Não falam (seria interessante saber o que um gato teria para dizer se falasse) mas emitem sons de prazer, desconforto, irritação e ameaça. O mesmo acontecia com os meus filhos quando eram bebés. Também não falavam mas dava para perceber o que se passaria nas suas mentes pelo tipo de sons que emitiam. Mas sons são sons, palavras são palavras, e foi precisamente graças à linguagem que se tornou possível pensar, reflectir, argumentar, debater, com o que isso teve de benéfico e libertador para a humanidade.
Não, não temos de falar, sendo até desejável que não o façamos, como Demóstenes ou Cícero, escrever como o padre António Vieira ou Camilo. Mas o que o nosso ainda adolescente século tem mostrado, em diferentes contextos, é não só um empobrecimento atroz da linguagem como, em muitos casos, a sua anulação, tal como foi desenvolvida ao longo do tempo pela humanidade, reduzindo assim os escreventes ou falantes ao plano quase animal de que fala Aristóteles. Para muita e cada vez mais gente, falar ou escrever equivale a grunhir, rosnar, gemer, chiar. Dá ideia de que se fala ou escreve, sobretudo quando sob anonimato, por um imperativo homeostático, libertando qualquer coisa dentro de si, assim como um arroto. É isso, cada vez mais gente a falar ou a escrever como quem arrota.
O grande Ortega, em A Rebelião das Massas, diz uma coisa que merece atenção: «O homem médio encontra-se com "ideias" [aspas no original] dentro de si, mas carece da função de idear. Nem sequer suspeita qual é o elemento subtilíssimo em que as ideias vivem. Quer opinar, mas não quer aceitar as condições e pressupostos de todo o opinar. Daí que as suas "ideias" [aspas no original] não sejam efectivamente ideias senão apetites com palavras, como as romanças musicais». Pronto, ele é simpático, um verdadeiro caballero espanhol, falando em apetites ou chegando mesmo ao ponto de comparar poeticamente o discurso médio com uma romança musical. Eu, mais céptico e pessimista, ou talvez por estar a escrever isto em 2019 e ele ter morrido ainda antes de eu ter nascido, o que me é dado contemplar são processos de eructação mental visceralmente expelidos através de orgânicos gatafunhos orais ou escritos.
Entrei com um grego, termino com outro. Na Odisseia, surgem repetidamente três belas expressões ligadas à linguagem: «Que palavra passou além da barreira dos teus dentes?», «palavras de vento» e «palavras apetrechadas de asas». Vivemos tempos difíceis, em que faltam cada vez mais dentes para servir de barreira a sons que não passam de ar em movimento e cuja falta de consistência os faz estatelar facilmente no chão. Meros sons nunca terão asas para voar e é precisamente por não voarem que muitas vezes levam alegremente a humanidade ao Inferno.
28 abril, 2019
27 abril, 2019
Há prazeres que são mais próprios da infância, outros da juventude, outros ainda de uma idade madura. Presumo que também haverá os da velhice mas desses ainda não posso falar por experiência própria embora para lá caminhe. Um prazer do qual sempre me lembro e julgo que irei conservar se chegar a velho, é o de aprender palavras novas. Um prazer que pode ter duas razões, uma mais intelectual, outra mais sensual.
No primeiro caso, quando uma nova palavra permite exprimir mais cirurgicamente uma ideia ou contribui para montar mais eficazmente um argumento, tornando o pensamento mais claro. Mas há palavras cujo conhecimento acaba por ter um impacto mais sensual. Aconteceu-me há dias com a palavra médusé na edição do Libération sobre o incêndio na Notre Dame. Duas vezes. No lead da notícia: «Dans la soirée, Parisiens et touristes regardaient médusés le monument le plus visité de l'Europe transformé en un gigantesque brasier». Depois, na própria notícia: «Téléphones brandis, beaucoup filment le désastre, sans un mot. Comme médusés face à ce qui est en train de se passer sous leurs yeux».
Nunca tinha lido ou ouvido a palavra e a minha vaga relação com a língua francesa não me permite saber se se trata de uma palavra corrente ou de um preciosismo poético do jornalista. O que eu sei é que a relação entre o seu significado e o seu significante é de tal modo poderosa que permite uma apropriação que vai muito para além do seu próprio significado, levando-me a concentrar no valor poético da palavra. Quando lemos, ouvimos ou falamos, as palavras têm um carácter utilitário e formal, um mero instrumento como uma enxada ou um alicate. Quando um agricultor cava a terra ou o electricista corta um fio, não vêem a enxada e o alicate como um fim, submetendo-os ao fim a que se destinam. Com as palavras acontece o mesmo, usando-as para exprimirmos o que está no pensamento.
Mas ler a palavra médusé no meio de uma notícia é muito mais do que ler uma palavra a meio da notícia, muito mais do que um simples instrumento, uma peça utilitária para descrever o estado físico e mental de quem assiste ao incêndio. Nós lemos «regardaient» ou «gigantesque», e sim, entendemos bem para que servem. Mas quando chego a «médusés», descubro uma palavra que, pela sua origem, a sua história, transforma a língua numa realidade física, num objecto estético tal como uma pintura ou uma sonata, um objecto de desejo que apetece saborear, independentemente da sua utilidade e pragmatismo. Médusés... Médusés... Médusés...Sim, são parisienses e turistas numa segunda-feira de Abril mas em cuja atitude estática, digamos que petrificada face à horrível cena que decorre diante dos seus olhos, se concentra uma narrativa poética arcaica que sobrevive ao fluxo mortal do tempo. Em A Vida Secreta, Pascal Quignard diz que «argumento é uma palavra antiga que quer dizer a brancura da aurora. É tudo o que se ilumina e se discerne nesta palidez que surge em alguns instantes». O que é válido para o argumento, pode ser também válido para uma palavra. Médusés é precisamente uma dessas palavras.
Daí Camilo ser um dos escritores ao quais sempre regresso, nem que seja por uns minutos. Abro aleatoriamente uma página e não preciso de muito tempo para que apareça uma palavra cuja riqueza vernacular faça da língua portuguesa um grandioso festim de inteligência e sensualidade. Ler Camilo é muito mais do que ler uma história, a qual, de resto, em Camilo, é muitas vezes o que menos importa. Mas a língua, a alegria da língua, o prazer da língua portuguesa servida como um banquete é absolutamente redentora em Camilo como o foi naquela notícia do Libération entretanto desaparecida na espuma dos dias.
26 abril, 2019
Henri Cartier Bresson
Li algures que o bom tempo iria regressar. Um clássico sempre que em Portugal chove dois dias, anunciado como espécie de evangelho meteorológico. Até seria compreensível se fosse no Verão quando os portugueses foram a banhos, mas ficarmos todos felizes e contentes durante o Outono, Inverno ou mesmo Primavera, em ano de seca, é profundamente inquietante. Há tempos, no Ípsilon, António Guerreiro analisou muito bem o fenómeno do "bom tempo", associando-o ao actual predomínio de uma vida urbana completamente alheada do mundo rural. Este, com as suas necessidades, rituais e códigos não passa de uma pitoresca abstracção, sendo por isso a chuva, não uma bênção do céu mas uma enorme chatice que só serve para atrapalhar e aumentar a neura matinal no IC 19 ou na VCI em criaturas já suficientemente flageladas pelos hostis mecanismos da selva urbana.
Mas creio que podemos ir um pouco mais longe. Não se trata apenas de uma consciência urbana mas também de uma consciência infantilizada. O português, para além de cada vez mais cidadão urbano, é um cidadão infantil. Não no sentido do «menino mimado ou satisfeito» de que fala Ortega em A Rebelião das Massas, referindo-se ao homem do século XX. Não, viso mesmo uma consciência infantil tal como é lembrada por Platão numa obra chamada Górgias, no sentido de ser incapaz de distinguir o bem do agradável ou prazer. Daí a criança, se puder optar, para o almoço, entre doces e chocolates ou peixe cozido com brócolos, escolher a primeira opção. É ainda neste sentido que o filósofo considera a cosmética uma adulação da ginástica e a culinária uma adulação da medicina, se pensarmos no que é bom para o corpo. Vejamos o caso da ginástica. Dá trabalho, implica esforço, cansaço e uma rotina que nem sempre é apetecível, mas praticá-la permite manter o corpo saudável sem qualquer tipo de simulacro. O que faz a cosmética, por sua vez, é dar ao corpo um ar saudável mas de um modo aparente. Depois de meia hora ao espelho a maquilhar-se, uma pessoa pode gostar de se ver e dar aos outros o prazer de a verem. Isso, porém, não anula o facto de poder estar doente, com mau aspecto ou, ainda pior, com o ar de quem esteve 20 minutos a ouvir Cavaco Silva.
Passa-se o mesmo com o português que, em ano de seca, após dois ou três dias de céu cinzento e de uns pífios aguaceiros, acorda radiante por estar calor, céu azul e um sol radioso. Tal como o diabético o sabe em relação aos doces, o hipertenso em relação ao sal ou um condutor radical em relação a conduzir a 100 km/hora numa estrada estreita e cheia de curvas, também o português sabe que mais um dia sem chover é dramático em tempo de seca. Ainda assim, atreve-se a dizer que «finalmente voltou o bom tempo» ou que «está um dia espectacular». Ora, isto revela uma tremenda falta de maturidade, a maturidade própria de um adulto que por vezes é obrigado a reconhecer que bem e prazer não têm de coincidir ou que até se podem anular. O português é incapaz de ver o que é «bom» ou «mau» para além da experiência imediata do que lhe dá prazer ou desprazer. Está certo de que não precisamos de ser aqueles protestantes chatos e angustiados dos filmes de Bergman e Dreyer, que certamente terão níveis muito baixos de Vitamina D por falta de sol ao longo do ano. Mas, caramba, também não precisávamos de exagerar.
25 abril, 2019
Se percebo logo que esta imagem não é de uma comemoração benfiquista no Marquês mas do dia 25 de Abril de 1974 para comemorar uma revolução, é graças aos cabelos e ao vestuário. Vem isto a propósito de se dizer neste artigo que muitos dos actuais votos na extrema-direita vêm, «paradoxalmente», de votos em partidos socialistas e comunistas. Trata-se de uma verdade empírica que não faz sentido contestar. Apenas contesto tratar-se de um fenómeno «paradoxal». Não é causal, isto é, nenhuma lei obriga votos socialistas e comunistas a esvoaçarem alegremente para a extrema-direita, mas também nada há nele de paradoxal.
Tal acontece devido à própria natureza primária do povo, a qual torna a sua alma volúvel, errática e sujeita a uma radical contingência. A alma do povo é como a alma de um animal: vira-se para quem lhe dá de comer, segurança e estima. Basta ver um cão abandonado e esfomeado na rua a quem damos um pouco de atenção e comida. Em poucos segundo conquistamos um fiel amigo como se tal amizade estivesse já escrita nas estrelas. Com o povo passa-se o mesmo. O povo, como qualquer outra classe de resto, persegue emoções positivas e foge das negativas. Como dirá um clássico filósofo utilitarista, procura o prazer e evita a dor. Essa é uma das razões por que o povo, umas vezes enche o Marquês para festejar as vitórias do Benfica e outras enche os Aliados para festejar as vitórias do Porto. Tanto o Benfica como o Porto dão aos seus adeptos alegrias, estima e um forte sentimento de identidade, justificando isso tantos comportamentos irracionais.
É verdade que a ligação de um ser humano a um clube é infinitamente mais forte do que a um partido. Hoje vota-se num e amanhã noutro mas nunca se muda de clube, uma relação para toda a vida. O adepto pode perder o interesse pelo futebol, deixar de ver os jogos, não querer saber. Mas não muda de clube. Ora, na política muda-se e muda-se de acordo com a adesão do povo à narrativa ideológica e doutrinária que lhe é vendida e que pode ser mais, ou menos, música para os seus ouvidos, de acordo com o que são as suas necessidades num dado momento histórico. O povo não vota com base num húmus ideológico racionalmente elaborado. Vota emocionalmente movido por um pathos que o torna permeável àquelas palavras que o são apenas de nome pois no fundo não passam de uma melopeia como a que atrai os cães e os gatos, sobretudo os mais carentes.
Provavelmente, algumas daquelas pessoas que estão ali no Marquês, tempos depois já estavam a suspirar por três salazares. Outras, dias depois, andavam com um crachá de Lenine para anos depois estarem a votar em Cavaco, dando-lhe uma maioria absoluta. Claro que tal também aconteceu com as elites mas por razões completamente diferentes, ainda que, nalguns casos, não menos caprichosas. Porque o povo não quer saber de doutrinas, de ideologias, de sistemas, de valores ético-políticos. O que o povo quer é uma casa, pão e vinho sobre a mesa e outras regalias que a evolução histórica, felizmente, lhe trouxe. O que o povo quer sobretudo é festejar no Marquês, estar feliz e contente com a sua vida, vá, com a sua vidinha. A diferença é que enquanto no futebol tal só acontece quando ganha o Benfica, qualquer partido pode fazê-lo sair de casa, desde que seja esse a fazê-lo sentir-se vencedor. Deixemos pois os paradoxos para realidades lógicas e matemáticas. Quando se trata de natureza humana, a negação de uma afirmação não implica qualquer contradição.
24 abril, 2019
Jardineiros vs. caçadores. Dois mundos bem distintos para o narrador de Extinção, romance de Thomas Bernhardt, ao invocar a sua infância na enorme propriedade da família. Ele, menino rico e privilegiado, era até junto dos jardineiros que gostava de ir, ao contrário da restante família, que detestava, mais identificada com os caçadores. Enquanto via os jardineiros como gente simples e com uma sensibilidade que acalma, tal como as plantas de que cuidam, os caçadores, por sua vez, eram impulsivos, rudes, agitadores, associando-os à morte e destruição. Chega mesmo a associá-los ao fanatismo político e considerando que «a desgraça do mundo se deve em grande parte aos caçadores, todos os ditadores eram caçadores apaixonados». Claro que se trata de uma distinção simplista e demasiado estereotipada, marcada por traumas de infância. Haverá jardineiros da pior espécie como haverá caçadores que são boas pessoas. Seja como for, o simbolismo ético e político da jardinagem é demasiado rico para ser atirado ao lixo.
Não por acaso Epicuro estabeleceu a sua escola num jardim, lugar bem diferente da Academia platónica ou do Liceu aristotélico. Sendo a filosofia para ele uma reflexão sobre a felicidade humana, não no sentido de uma reflexão teórica embrulhada numa elaborada dialéctica mas procurando um saber que envolvesse o corpo e o espírito com a natureza, tornando o ser humano não só mais livre mas também mais feliz. Mas uma coisa são jardins, outra jardineiros. Montaigne, o político que também era agricultor, faz nos Ensaios uma distinção entre jardineiros e botânicos. A sua ideia é explicar que os primeiros, com um conhecimento que resulta de uma dedicada e paciente relação física com as flores e plantas, podem cuidar muito melhor de um jardim, tornando-o mais bonito, do que os segundos com o seu conhecimento essencialmente teórico e abstracto, desvinculado da terra. A metáfora é política, visando aqueles que reúnem melhores condições para governar precisamente por conhecerem melhor o terreno em que se movem.
Mais longe chega Voltaire, e, nesse sentido, mais perto do narrador do romance de Bernhardt, quando, ao terminar o seu Cândido, faz sair da boca deste a frase «Sei também que é preciso cultivar o nosso jardim», isso depois de observar a vida de um homem simples que cultivava a sua horta com os filhos. Frase cujo poderoso sentido depende de tudo o que antes viveram as principais personagens, massacradas pela terrível presença do mal no mundo. Viver, sabendo cuidar do nosso jardim, significa dar mais atenção à beleza, paz, tranquilidade, prazer, em suma, à felicidade, do que ao poder, ambição, vaidade, ganância ou inveja, os combustíveis que desde sempre incendiaram o mundo, deixando-o em cinzas. A metáfora do jardineiro, na linha dos verdadeiros jardineiros da infância do romance de Thomas Bernhardt, é, por isso, sugestiva e eficaz para poder distinguir quem trabalha e vive para o mundo e quem trabalha e vive contra o mundo. Politicamente também.
23 abril, 2019
[Também aqui]
Torres Novas é uma terra cheia de ruínas, o que dá uma enorme tristeza e uma espécie de infelicidade urbana para a qual não conheço palavra. Ruínas não deveriam ser onde vivem pessoas mas em Pompeia, castelos na Escócia, abadias em Inglaterra ou anfiteatros na Grécia, onde apenas vivem fantasmas pacificamente misturados com turistas que chegam e logo partem. Já este mural quase arruinado numa parede também em avançado estado de ruína ali entre a Ponte do raro e a antiga garagem dos Claras, salvando-se apenas a frondosa hera que lhe dá vida e beleza, combinando com a verde ferraria enferrujada do portão, apenas me suscita uma suave melancolia motivada pela passagem do tempo. Do tempo que o foi arruinando mas também pelo tempo verbal futuro (“vencerá!”) lido mais de 40 anos depois, e que tanto mais se torna passado quanto mais futuro houver.
Naqueles anos, acabados de sair de um regime obsoleto, o que vinha logo à cabeça de um português a respeito do Chile era Pinochet, terror, tortura, desaparecidos, um estádio-prisão, Allende assassinado. Sim, chovia torrencialmente em Santiago. Décadas depois, Chile é sinónimo de pescada, Arturo Vidal ou observatórios astronómicos. Em comícios de esquerda, incluindo os do PS que eu frequentava, havia sempre um vibrante momento Rick’s Café em que as pessoas se levantavam de punho erguido para gritarem «O Chile vencerá!, o Chile vencerá!, o Chile vencerá!». A minha melancolia perante este mural é também por pensar na pueril consciência de quem o gritava, como crianças que torcem para que o Pai Natal não se esqueça de aparecer na noite de Natal para satisfazer os seus desejos.
Gritava-se, ou pintava-se, «O Chile vencerá!» para, como numa primitiva pintura rupestre ou uma ritual dança da chuva, expandir o desejo, não de um veado ou de chuva, mas de fazer aparecer o futuro: um Chile democrático em vez de uma sanguinária ditadura militar. Só que o «Chile venceria» sempre pois a História, esse grande árbitro que acaba sempre por se deixar comprar, o obrigaria a vencer. A gente olha para a América Latina dos anos 70 e são ditaduras militares por todo o lado. Na própria Europa havia tenebrosas ditaduras fascistas e comunistas. Por que razão se tornaram democracias, ainda que uma ou outra mais musculada? Porque tiveram sorte, por uma feliz conjugação aleatória de factores? Não. Foi assim porque teria de ser assim. Alguém tem imaginação para conceber uma ditadura fascista ainda hoje em Portugal? Ou, admitindo que os comunistas tinham conquistado o poder em 1975, uma ditadura comunista, pró-soviética, quando a própria União Soviética deixou de existir? Ora, o mesmo se passa com Bolívia, Argentina, Uruguai, Paraguai ou o Chile, tornando o Latin' America dos Jafumega tão desbotado como o agonizante mural na parede torrejana.
Daí a ingenuidade infantil do «Chile vencerá!», como uma criança que exige que depois do Inverno venha a Primavera ou que o Sol nasça no dia seguinte. Ver em 2019 este mural de 1976 é assim como ver um filme policial em que após de duas horas de inquietante mistério se descobre o assassino, mas percebendo, afinal, que só poderia ter sido aquele. A história não tem grandes mistérios para quem vem a seguir e percebe ser ela o seu próprio ovo de Colombo.
22 abril, 2019
Eu, sentado na carruagem do metro, a rapariga em pé, rosto e mãos bastante deformados com queimaduras mas adivinhando-se uma beleza que lá estaria não fosse um dramático incidente. Ia lendo mensagens no telemóvel e respondendo com os destroços do que outrora foram dedos. Entretanto, ao ler uma mensagem começa a rir e a rir continua ao responder velozmente com o que lhe restava dos dedos. Foi uma sensação de enorme estranheza ver a rapariga a rir. Isto acontece, ela poder rir e eu surpreendido com essa possibilidade, devido à relação com o tempo. No meu caso, tal como no cinema ou na literatura, através de uma elipse que eliminou toda a sua existência entre o momento em que se queimou e o momento em que a vejo, fazendo coincidi-los num único momento. Aquela rapariga, cuja presença não pôde deixar de me impressionar, estava toda naquele momento, impedindo-a de rir pois uma rapariga queimada não pode rir. Como no teatro grego, reduzida a uma máscara que lhe confere todo o seu sentido sem que dele pudesse fugir. Já no caso dela, fosse ou não há muito o dia em que se transformou numa rapariga queimada, terá sempre uma percepção atómica da sua vida, acumulando uma diversidade de sensações, emoções, recordações e projectos, como outra rapariga qualquer, distribuídos ao longo de um tempo passado, presente e futuro. Mas bastaram mais uns minutos a observar a sua alegria ao longo da viagem para eu voltar a mergulhar na fluidez da temporalidade, forçando espontaneamente uma distância entre um passado que já não existe e um presente que logo deixará de existir, para que uma rapariga que instantes antes não passava apenas de uma rapariga queimada se transformasse apenas numa rapariga que ri enquanto lê e envia mensagens. Foi também o que bastou para, rapidamente, desvelar a beleza que certamente lá estaria se não fosse aquele dramático incidente a roubá-la.
20 abril, 2019
12 abril, 2019
11 abril, 2019
Já se disse tudo sobre o facto da experiência de ler já não ser a mesma. Também já toda a gente percebeu que ver um filme no telemóvel durante uma viagem de comboio ou mesmo na televisão, não é como vê-lo no cinema. Sim, mas uma coisa é a pequena sociologia que fazemos tendo os outros como alvos, outra é quando passamos pessoalmente por essa experiência.
Há mesmo bastante tempo que não ia ao cinema, consequência de viver numa terra cujo cinema vale pela qualidade das pipocas. Há dias, calhando estar fora, fui ver um filme checo de 66 chamado As Pequenas Margaridas. Não gostei do filme, não precisando de muito tempo para começar a ficar cansado. Acontece, porém, que aguentei estoicamente até ao fim. Poderia ter-me levantado e ido embora? Podia, era livre de o fazer, aliás, três pessoas o fizeram. E se eu não gostei do filme, estou certo de que mais pessoas que quase enchiam a sala também não gostaram, mas ficando também até ao fim. Foi então que tive a clara ideia de que se estivesse a ver aquele filme em casa teria desistido e se no caso de fazer muita questão de ver um filme, rapidamente teria escolhido outro, ou outro, ou outro, ao ritmo dos cliques do rato na minha mão.
Eu tenho o hábito de dizer coisas parvas mas não vou cair na asneira de dizer que estar numa sala de cinema se trata de uma experiência religiosa. Não é. Mas há todo um ritual e uma concentração no facto de estar numa sala escura onde não há nada mais para além do filme que nada tem que ver com as centenas de filmes que temos num computador e que vamos escolhendo e vendo, não direi de ânimo leve mas certamente com um mais leve ânimo. Isto leva-me a pensar que alguns filmes que vi com devoção numa sala de cinema, estou a lembrar-me de filmes como O Cavalo de Turim, O Grande Silêncio ou Os Amantes Regulares, não teriam resistido numa televisão ou num computador. Diz-se que hoje há amizades que se fazem e desfazem com a facilidade de um clique. A nossa relação com os filmes também assim é. Quantas dezenas de filmes parei de ver em casa só porque os primeiros minutos não me agradaram? No cinema teria ido até ao fim e, muito provavelmente, gostando de muitos deles. Não só porque não me viria embora, resistindo ao poder do tempo, porque também naquela sala de cinema não há mais nenhum filme para ver, mas ainda pelo facto de a concentração numa sala de cinema ser diferente da que se tem em casa. No meu caso, desgraçadamente, creio que este leveza e facilitismo se tornaram irreversíveis numa terra cujo cinema vale pela qualidade das suas pipocas.
10 abril, 2019
A pergunta pode parecer um bocadinho parva mas vou em frente: por que motivo existem centenas e centenas de filmes feitos a partir de livros e assim de repente não me ocorre um único livro escrito a partir de um filme? Claro que há livros com referências a filmes ou até inspirados em filmes mas não estou a ver um único que tenha no seu início "Baseado no filme X", como acontece em tantos filmes em relação aos livros. A pergunta lembra-me um bocadinho as que as crianças fazem aos pais e que estes consideram parvas por não saberem a resposta e na qual nunca haviam pensado por ser tão óbvia. E se a pergunta pode soar parva, não menos parva foi a maneira como se acendeu na minha já algo envelhecida e cansada cabeça. O protagonista/narrador do romance Extinção-Uma Derrocada, de Thomas Bernrhard, acaba de saber que os pais e o irmão morreram num acidente de viação. Mortes que o levam até algumas velhas fotografias dos três e também das duas irmãs. Uma fotografia das irmãs em Cannes, na qual surgem com um riso trocista, leva-o a configurar a identidade delas a partir dessa mesma fotografia, pensando naquela imagem quando pensa nas suas irmãs. Vale a pena seguir a sua reflexão:
(todos os itálicos no original) «Os rostos trocistas das minhas irmãs, na fotografia tirada em Cannes, são as minhas irmãs, eu vejo-as sempre só como esses rostos que elas têm, seja como e onde for que eu as veja e seja qual for a relação com elas, o que vejo sempre são só os seus rostos trocistas, é a eles que tenho na cabeça quando quer que pense nas minhas irmãs, foram esses rostos trocistas que guardei na gaveta da minha secretária de Roma, não os outros que elas também sempre tiveram, os tristes, os orgulhosos, os altivos, os inteiramente arrogantes, não, esses trocistas e, quando falo das minhas irmãs, não falo sobre as minhas verdadeiras irmãs na realidade, mas sobre esses rostos trocistas como o acaso, como se costuma dizer, os fixou nessas fotografias. [...] A fotografia é efectivamente a arte diabólica do nosso tempo, disse eu para comigo, ela faz-nos ver anos inteiros e dezenas de anos e toda a vida rostos trocistas, quando houve apenas uma única vez esses rostos trocistas, apenas durante um único momento numa fotografia, que fizemos de forma absolutamente irreflectida, cedendo a uma ideia súbita. [...] Eu nunca mais posso eliminar esses rostos trocistas das minhas irmãs que efectivamente tiveram sempre uma grande existência na minha existência desde que fiz a fotografia. [...] Eu já não consigo ver Einstein sem que ele deite a língua de fora, que ele mostra a todo o mundo, mesmo a todo o universo. E não posso ver Churchill sem o seu lábio inferior desconfiadamente estendido. Embora haja a maior probabilidade de que Einstein só uma única vez, pelo menos dessa forma maldosa e astuta, tenha deitado a língua de fora e que Churchill só nesse único momento em que fizeram dele essa fotografia tenha estendido o lábio inferior dessa forma desconfiada. Leio as obras de de Churchill e vejo continuamente só o lábio inferior de Churchill, leio qualquer coisa de Einstein e fico completamente possesso da língua deitada de fora, que ele mostra a todo o mundo e, como já disse, a todo o universo. [...] Já pensei uma vez se me seria possível, pela redacção de um trabalho sobre os rostos trocistas das minhas irmãs Amália e Cecília, libertar-se dos seus rostos trocistas, mas renunciei naturalmente a essa ideia, porque ela se revelou logo como uma das mais absurdas que poderia haver. Nunca me poderei libertar dos rostos trocistas das minhas irmãs, terei de viver com esses rostos, terei de levar com eles a minha existência enquanto ela durar.»
O que aqui vemos é uma contaminação do conceito pela imagem, ou esburacando mais um pouco, do modo como a mais factual contingência determina, irreversivelmente, a essência de uma coisa. Ora, é isso que faz com que muito dificilmente se possa escrever o livro do filme que se viu tal como se realiza o filme do livro que se leu. Faz sentido dizer "Borges, grande leitor, apesar de cego?" Não, porque todo o leitor é cego, ler é um acto cego. Nós estamos a acompanhar os movimentos de Carlos da Maia ou Maria Eduarda, o que eles dizem, sentem ou pensam, e não estamos a vê-los. Carlos e Maria Eduarda são para nós, enquanto leitores, tipos, arquétipos, entidades puramente mentais. E é isso que provoca algum desconforto sempre que vemos um filme feito a partir de um livro, o desconforto de estar perante um corpo, um rosto, uma voz que, sabemos serem contingentes, factuais e que nunca mais nos largarão como as cicatrizes. Há centenas de actores e actrizes que poderiam fazer um Carlos da Maia ou uma Maria Eduarda. Nós estamos a ver os seus rostos e a ouvir as suas vozes, sabendo que poderiam ser outros rostos e outras vozes, bastaria ter sido outro o realizador, ficando assim presos naquela armadilha sensorial. Porém, sendo uma passagem desconfortável ou mesmo frustrante, não a inibe, graças à liberdade permitida pelo carácter aberto, vazio, formal, do conceito, cujo estatuto se aproxima de uma categoria kantiana a ser preenchida por uma quantidade infinita de matéria.
E o contrário? Não sei se é impossível, não faço ideia, mas parece-me altamente improvável poder construir uma narrativa verbal a partir de uma narrativa visual. Isto nada tem que ver com a leitura de um livro depois de ver o filme em que se baseou. Estou a lembrar-me do romance Rebecca, de Daphne du Maurier que li com muito prazer já depois de ter visto o filme de Hitchcock. Mas isto sou eu, enquanto leitor, a desejar entrar mais naquelas personagens com as quais mantive apenas uma relação visual. Entrei, gostei de ter entrado e beneficiei por ter entrado. Isso é outra coisa. Ao que eu me refiro é especificamente ao acto de escrever, não de ler, e penso unicamente no cinema, excluindo claramente a pintura ou a fotografia sobre as quais até se torna bastante estimulante escrever, aumentando assim o poder sugestivo e referencial da imagem. Imagino o escritor sentado para escrever, consigo até imaginar que terá coisas para escrever, mas a força da imagem será sempre um elemento inibidor e castrador pois, como no caso da fotografia das irmãs em Cannes que impede qualquer outra construção da sua identidade, o que ali está filmado para todo o sempre queima tudo o mais que se possa pensar e querer descobrir a respeito desse filme.
09 abril, 2019
Tinha acabado de publicar o post anterior quando me lembrei de uma coisa engraçada e que tem tudo a ver com a maneira como a nossa divisão do tempo condiciona a percepção que temos dele. A primeira grande obra e talvez mesmo a mais importante de Sigmund Freud, A Interpretação dos Sonhos, foi publicada no Inverno de 1899 mas já não me lembro se por vontade dele ou do editor, foi impressa com a data "1900". A ideia teve que ver com o facto de se tratar de uma obra cuja modernidade fazia com que viesse a pertencer mais ao século prestes a chegar do que ao século prestes a partir. Eis, pois, um superlativo exemplo do que me levou até à data do filme Ben Hur.
O poder da obra foi avassalador, sendo uma daquelas que mais impacto viria a ter nesse século tão obcecado pela ideia de modernidade como foi o século XX. O Manifesto Futurista é de 1909 mas talvez tenha sido a obra de Freud o verdadeiro manifesto. Quando, há muitos anos, li parte dela, tive a exacta noção disso, percebendo o seu revolucionário impacto numa Europa ainda bastante conservadora, a qual, de Moscovo a Londres, passando por Berlim e Viena, vivia com a cabeça ainda deitada nas confortáveis almofadas dos impérios. Porém, tudo passageiro, tudo vão sob o poder destruidor do tempo, como ensina o Eclesiastes. Tive, a propósito disso, uma experiência, digamos que mais inquietante do que curiosa.
Eu tinha estado quatro dias em Viena, vindo de Budapeste. Era Verão, um calor sórdido, turistas tontos aos magotes. Vi o que havia para ver, os postais ilustrados do costume, voltando a casa com um enorme sentimento de frustração. Claro que fiz o que eu mais queria de Viena: andar pelos cafés. Mas o meu imaginário dos cafés de Kraus, Kafka, Zweig, Mann, Schnitzler, Herzl, Trotsky, Lenine, Kokoschka, Klimt, Schiele, Mahler e, claro, Freud, com todo aquele calor e multidões em busca da selfie perfeita, não era o dos cafés de que fala Steiner no seu esplendoroso livro A Ideia de Europa. Para mim, entrar num café de Viena implicaria sair da neve e do frio para entrar num iluminado, quente, aveludado e sossegado café para desfrutar do prazer de um iluminado, quente, aveludado e sossegado café, coroado por um cappuccino ou café vienense com uma fatia de apfelstrudel. E não foi isso que aconteceu. Mas regressaria um ano e tal depois, tendo como pretexto o facto do Kunsthistorisches Museum ter conseguido o milagre de realizar a única exposição que eu sempre disse ser a única que me levaria a dar três voltas ao mundo se fosse preciso no caso de vir a acontecer: Bruegel. E desta vez, sim, no Inverno, com muito frio, o frio ideal para entrar e sentar-me nos cafés de Viena onde tive o prazer de estar sentado rodeado de pessoas simplesmente a conversar ou ler jornais, algumas delas com ar de terem acabado de sair de um texto literário. E também para poder caminhar por ruas desertas, soando bem, agora sim, as rodas e as ferraduras dos cavalos das turísticas carroças, ecoando nas paredes das ruas estreitas ao anoitecer o mesmo som que Wolfgang Amadeus Mozart ouviria enquanto escrevia o Requiem.
Eu tinha estado quatro dias em Viena, vindo de Budapeste. Era Verão, um calor sórdido, turistas tontos aos magotes. Vi o que havia para ver, os postais ilustrados do costume, voltando a casa com um enorme sentimento de frustração. Claro que fiz o que eu mais queria de Viena: andar pelos cafés. Mas o meu imaginário dos cafés de Kraus, Kafka, Zweig, Mann, Schnitzler, Herzl, Trotsky, Lenine, Kokoschka, Klimt, Schiele, Mahler e, claro, Freud, com todo aquele calor e multidões em busca da selfie perfeita, não era o dos cafés de que fala Steiner no seu esplendoroso livro A Ideia de Europa. Para mim, entrar num café de Viena implicaria sair da neve e do frio para entrar num iluminado, quente, aveludado e sossegado café para desfrutar do prazer de um iluminado, quente, aveludado e sossegado café, coroado por um cappuccino ou café vienense com uma fatia de apfelstrudel. E não foi isso que aconteceu. Mas regressaria um ano e tal depois, tendo como pretexto o facto do Kunsthistorisches Museum ter conseguido o milagre de realizar a única exposição que eu sempre disse ser a única que me levaria a dar três voltas ao mundo se fosse preciso no caso de vir a acontecer: Bruegel. E desta vez, sim, no Inverno, com muito frio, o frio ideal para entrar e sentar-me nos cafés de Viena onde tive o prazer de estar sentado rodeado de pessoas simplesmente a conversar ou ler jornais, algumas delas com ar de terem acabado de sair de um texto literário. E também para poder caminhar por ruas desertas, soando bem, agora sim, as rodas e as ferraduras dos cavalos das turísticas carroças, ecoando nas paredes das ruas estreitas ao anoitecer o mesmo som que Wolfgang Amadeus Mozart ouviria enquanto escrevia o Requiem.
Foi bom mas não foi essa a minha melhor experiência de Viena. Essa estava reservada para o prédio de uma tranquila rua já um pouco afastada do reboliço central: o prédio onde Sigmund Freud vivia e dava as suas consultas, hoje museu. Entro no prédio e subo os dois lanços de escadas que me levam até ao 1º Esquerdo. Por milagre, calhou ser eu a única pessoa naquelas escadas durante a subida. Isso permitiu-me saborear vagarosamente o prazer da subida, ouvindo os meus próprios passos sobre aqueles degraus pisados por tanta gente ilustre em busca de si mesma ao entrarem na porta onde eu entrei, tendo ao lado uma campainha com a informação "Prof. Dr. Freud", que eu toquei para que logo se abrisse automaticamente como acontece quando vamos hoje ao dentista.
Eu gosto de cemitérios, dificilmente resisto a um bonito e tranquilo cemitério. A minha experiência ao subir as escadas foi, de certo modo, parecida com a de um cemitério, porém, bem mais vívida. No cemitério temos a experiência física da proximidade face aos que lá repousam. Ao subir aquelas escadas eu estava a viver, não a experiência da sua morte mas a experiência da sua vida, dos seus músculos, dos seus ouvidos, dos seus olhos, vindo-me à cabeça, aleatoriamente, embora talvez Freud soubesse explicar porquê, uma das suas mais célebres pacientes: Lou Andreas Salomé, a aristocrata russa, amiga de Nietszche e Rilke e de tanta gente numa Europa que, com uma mistura de angústia, ansiedade e curiosidade, correu para aquele consultório.
Eu ia a subir as escadas e a pensar no médico e cientista, lá em cima, esperando pela sua paciente, um homem moderno que escreve uma obra moderna e inaugural do século que aí vinha, e na mulher livre, independente e moderna que iria ser recebida por ele. Sim, tivemos Sissi em Viena, outra mulher à frente do seu tempo, mas o mundo de Lou Salomé estando já bem mais próximo do nosso do que da rochosa rigidez austro-húngara com que Sissi teve que lidar. Foi por isso estranha esta experiência meio sonambular de sentir na minha pele a presença física de gente tão moderna mas entretanto reduzida a uma dimensão espectral. E não foi preciso muito para o golpe final. Quando uma hora e tal depois eu saio do 1º Esquerdo, havia agora, degraus abaixo, uma fila de pessoas para entrar, algumas com o ar mais moderno que possamos imaginar, criando assim naquelas escadas um ambiente bem diferente do que encontrei na subida. Diz-se que quanto maior é a subida, e aquela minha subida foi grandiosa, maior é a queda. E a minha queda no século XXI, apesar do tão intemporal e europeu frio daquela rua vienense, não poderia ter sido maior.
Subscrever:
Mensagens (Atom)








