22.5.19

Sobre Um Bailarino na Batalha, de Hélia Correia




«Há que saber escutar o silêncio para ler “Um Bailarino na Batalha”. Nas primeiras três páginas, o texto é só respiração e ritmo — ouve-se o rumor antes do início, mas estamos in media res, pois todo o acontecimento lhe é já anterior, enquanto movimento encantatório, anunciado previamente na cadência da epígrafe-canto-ditirambo, de Nietzsche (cuja primorosa  tradução nos entrega, em uníssono, a dádiva do significado e o ritmo do seu andar). Pedra contra pedra, areia, deserto, morte. Ou morte, deserto, pedra contra pedra — movimentos circulares de morte e regeneração. Uma coreografia de sinais. Só depois surgem os caminhantes, a inventar o tempo e a memória, para que não haja esquecimento e a pedra se ligue ao voo: “Pesados como pedras, no entanto velozes como pedras, eles caminham,os últimos errantes, uns poucos dias mais adiante, os poucos dias que os separam da música dos ossos” (11). Quem lê ainda não pergunta, nem vontade tem de perguntar. A cena abre-se aos olhos e vive por si. Como a imagem de Akram Khan na capa do livro, retirada do cartaz do seu solo Xenos (estreado em Atenas em 21/2/18) e tão cara a Hélia Correia, que diz ter visto nesse corpo o seu bailarino na batalha. No entanto, como afirma numa entrevista, para si, a imagem do bailarino na batalha é o cavalo, o único capaz de transcender aquela realidade [.]» [Maria Etelvina Santos, Colóquio Letras, 201, Maio/Agosto 2019]


Obras de Hélia Correia disponíveis no sítio da Relógio D’Água.

Sobre Agustina Bessa-Luís




«“Ética e Política na Obra de Agustina Bessa-Luís” reúne os textos críticos de 37 investigadores que participaram no Congresso Internacional com o mesmo nome, decorrido em outubro de 2014 na Fundação Calouste Gulbenkian, sob a égide do Círculo Literário Agustina Bessa-Luís (CLABL).
A vocação de Agustina é a provocação. Devemos então, talvez, começar por aí, pelo título do colóquio. A proposta irónica não só se coaduna com a obra da escritora, como é causa óbvia da pluralidade de perspetivas que encontramos ao ler os ensaios publicados. Não surpreende depois que a Introdução, assinada pelos coordenadores, sublinhe ter obtido afinal o que visava. Partindo da “obra poliédrica de Agustina Bessa-Luís”, e tal como esta, o colóquio pretenderia dar corpo a “mundos possíveis que confrontam o leitor” — tão variáveis os mundos quanto os leitores…» [Maria Luísa Malato, Colóquio Letras, 201, Maio/Agosto 2019]

Obras de Agustina Bessa-Luís disponíveis no sítio da Relógio D’Água.

Sobre História da Sexualidade IV — As Confissões da Carne, de Michel Foucault




«Trata-se de uma edição importante: é o derradeiro volume, que Foucault já não pôde reunir na totalidade, nem rever, na sua monumental História da Sexualidade. Nestas 400 páginas, a relação entre cristianismo, o corpo e as relações sexuais é submetida a uma leitura crítica. Tradução exigente de Miguel Serras Pereira.» [LER, Inverno/Primavera 2019]


Todos dos volumes da História da Sexualidade estão disponíveis aqui.

21.5.19

Sobre Pintado com o Pé, de Djaimilia Pereira de Almeida




«Esta é a reunião de alguns dos textos publicados por Djaimilia Pereira de Almeida com carácter “avulso” — aqui e ali — mas unidos por um fio invisível: uma tendência notória para o desaparecimento da autoria, num mundo sitiado pela “autoficção”. Vantagem inegável.» [LER, Inverno/Primavera 2019]

Sobre Suíte e Fúria, de Rui Nunes




«A infância, aqui, não se deixa dourar pelos pós da nostalgia. Ela é (pode ser) uma “ameaça”, esconde uma violência secreta. Desconfia-se da nostalgia dos regressos, que herdamos da Odisseiade Homero, e, por isso, ao longo de Suíte e Fúria, com a evocação musical inscrita no título (presente já no livro anterior, Baixo Contínuo, de 2017), é como se ficasse no ar o desejo perverso de ver Ulisses a ceder ao cântico fatal das sereias, a perdição pela liberdade, recusando o ciclo fechado, harmonioso, de uma suposta unidade que o regresso a Ítaca representaria [.] […]
Pois, então, o que é isto? Uma escrita que é radicalmente uma ex-crita, que fere, que incomoda até com o silêncio e a imobilidade da luz. Não o faz com os excursos convencionalmente descritivos das boas e belas histórias, visto que “[d]escrever é petrificar” (p. 74). Pelo contrário, o trabalho está no ritmo sintático, nas farpas que se aguçam na leitura quando uma frase, à medida, que a lemos, de súbito se quebra, se interrompe, ficando a meio, macerada, sem indicação do rumo a seguir – e isto para “torna[r] pungentes as pequenas valências do corpo: a tosse, as dores, a febre” (p. 74). É um modo de escrever rente ao corpo, que torna a leitura suficientemente inquietante para que, no meio de tanto olhar a morte de frente (uma das obsessões do autor), o leitor se sinta radicalmente vivo.» [Diogo Martins, Sol, 8/11/2018. Texto completo aqui.]

Sobre À Beira Do Mar De Junho, de João Miguel Fernandes Jorge




«Que mar é este? Não sabemos. Alusões esparsas a Silves ou ao Infante D. Henrique podem remeter para o Algarve, mas isso na verdade não importa; neste livro tudo é “questão de água e terra!, no sentido territorial-alegórico, mas não no sentido geográfico-biográfico. Como acontece em tantos poemas estivais, um dos territórios em causa é o da infância e juventude, uma velha casa de família, um colega de escola, uma recordação: “Dormimos sobre a infância / sobre os lugares da juventude / a paisagem / as palavras que dissemos // não podiam ser noutro país / nem noutro corpo / nem noutro século.” O título indica essa indistinção entre sítios e épocas, e muitos versos são continuidade a essa indistinção: “O lugar de meu pai / o lugar da sua voz no vento da idade”. Outros poemas sugerem encontros, perigos, pressas, alegrias, e usam uma primeira pessoa do plural que talvez seja do domínio familiar, talvez do domínio amoroso, talvez do âmbito nacional-identitário. Elípticos mas evocativos, aforísticos, os poemas recorrem a mitologias universais, entre as quais as do mar e do Verão, mesmo quando há remissões para a Bíblia ou para os camonianos rios da Babilónia. Num extraordinário posfácio à primeira edição do livro, Joaquim Manuel Magalhães definia estes processos poéticos como um “diálogo interior com o mundo”, uma “subjectivização da realidade” que “torna ‘nenhuma coisa’ todas as coisas”.» [Pedro Mexia, E, Expresso,18/5/2019]

Sobre Confiança e Medo na Cidade, de Zygmunt Bauman




Como se manifesta a experiência quotidiana nas zonas de habitação da nossa cidade? Existe ainda um modo de pensar, um padrão de comportamento, um momento nas relações capaz de constituir um terreno comum sobre o qual possamos fundar uma confiança recíproca? Ou serão a fragmentação e a precariedade processos tão profundos que aumentam a distância social e a indiferença? Os outros serão apenas uma ameaça ou, pelo contrário, sujeitos com os quais temos o dever de conviver e cooperar? O que prevalece, o medo ou a confiança?
Zygmunt Bauman, sociólogo polaco radicado em Inglaterra, é considerado um dos mais atentos observadores das contradições do mundo moderno e pós-moderno. Bauman não procura as leis absolutas do comportamento humano, nem tão-pouco as enreda numa crítica moral, antes se concentra nos laços que permitem a vivência em comum e que tendem a desaparecer.
Zygmunt Bauman nasceu na Polónia, em 1925, onde estudou e ensinou Sociologia. Foi professor na Universidade de Leeds, no Reino Unido. Entre as suas principais obras contam-se Amor Líquido, Modernidade e Ambivalência e A Vida Fragmentada.