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terça-feira, janeiro 22, 2019

vozes da biblioteca

«Afeito à vida áspera do foro, que obriga a endurecer o coração e a dominar a sensibilidade, não soubera, porém, aceitar com indiferença aquela declaração franca, honesta, sem pensamento reservado, mas que para ele era paga de uma dedicação sem mancha e de uma devoção silenciosa: "a sua presença é uma das raras consolações da minha vida actual."» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

«Chegar, deitar-se: por vezes os dois actos sucedem-se e encadeiam-se com tal rapidez como se entre ambos não decorresse, hesitante ou cegamente precipitada, aquela operação, um tanto mágica à força de tão simples, de primeiro se descalçar, de logo em seguida se despir.» David Mourão-Ferreira, Um Amor Feliz (1986)

«Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrôcho da autoridade.» João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas (1956)

quarta-feira, novembro 07, 2018

vozes da biblioteca

«À esquerda era o jardim de buxo, húmido e sombrio, com suas camélias e seus bancos de azulejo.» Sophia de Mello Breyner Andresen, «O jantar do bispo», Contos Exemplares (1962)

«E improvida continuaria, se não viesse ocupar, naquela casa, o invejado lugar de filha adoptiva, criado para ela -- mas difícil, tão difícil que muita vez apelava angustiada para a sua firme resolução de ser alguém, tapando a boca a repostadas e rebeldias.» Assis Esperança, Servidão (1946)

«Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente -- depois, então, se vai ver se deu mortos.» João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas (1956)

domingo, setembro 02, 2018

do domínio do milagre

Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa (1956), é um livro miraculoso, daqueles que nos acompanham pela vida fora, por cada linha, cada parágrafo ou página. É uma obra-prima da literatura universal, embora o Mundo que não lê o português o desconheça, posto que virtualmente intraduzível. E talvez o único que, na nossa língua, se confronta com as grandes narrativas dos últimos dois séculos, por exemplo, Guerra e Paz, de Tólstoi, ou Crime e Castigo, de Dostoievski.

quinta-feira, maio 15, 2014

como uma prece

imagem daqui
Um tom de litania, palavras do baiano Ildásio Tavares, música de Gerônimo, a abrir o esplêndido álbum Brasileirinho (2004), um disco que nos transporta para o mais profundo ethos brasileiro, português, índio e africano. Bethânia acompanhada pelos mineiros do Grupo Uakti; pelo meio o maranhense Ferreira Gullar (Prémio Camões) diz -- e que bem! -- um excerto dum poema do paulista Mário de Andrade, o livreto, atravessado por frases de João Guimarães Rosa. Ouvir, reouvir, muitas vezes, como uma prece.





terça-feira, março 22, 2011

leitura exigente

«[...] Atravessavam a mãe-do-rio. / E ali era a barriga faminta da cobra, comedora de gente; ali onde findavam o fôlego e a força dos cavalos aflitos. Com um rabejo, a corrente entornou a si o pessoal vivo, enrolou-o em suas rôscas, afundou, afogou e levou. Ainda houve um tumulto de braços, avêssos, homens e cavalgaduras se debatendo. Alguém gritou. Outros gritaram. Lá, acolá, devia haver terríveis cabeças humanas apontando da água, como repolhos de um canteiro, como môscas grudadas no papel-de-cola. A estibordo de Sete-de-Ouros, foi o berro convulso, aspirado, de uma pessoa repelida à tona, ainda pela primeira vez. Mas isso foi bem a uns dez metros, e cada qual cuidava de si.»*
João Guimarães Rosa não é um autor fácil, menos ainda para o leitor português. A minha experiência com ele é Sagarana (1946), uma 7.ª edição maravilhosamente ilustrada por Poty. Eu diria que Rosa é, não um escritor para escritores, mas um escritor para leitores exigentes e persistentes A dificuldade inicial torna-se, progressivamente, em encantamento, e a compensação da leitura é única.

* João Guimarães Rosa, «O burrinho pedrês», Sagarana, 7.ª edição, Rio de Janeiro, livraria José olympio Editora, 1965, pp. 66-67.