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segunda-feira, fevereiro 25, 2019

na morte de João Bigotte Chorão

Ensaísta, crítico e também diarista, ao lermos a reunião dos seus ensaios em volumes como O Escritor e a Cidade, Galeria de Retratos ou O Espírito da Letra ou ainda sínteses modelares como O Essencial sobre Camilo Castelo Branco, verificamos que ele pertence àquele grupo de autores, que não é multidão, que tem a literatura como alimento espiritual (não exclusivo, é certo) e paixão, que a serve em vez de dela se servir. Era o maior camilianista vivo; e a escritores, como Carlos Malheiro Dias, João de Araújo Correia, Francisco Costa ou Tomás de Figueiredo, entre muitos outros, deu o brilho da sua inteligência e a elegância do seu estilo.
Entre nós, alguns encontros, após aquele primeiro em que, já não sei porquê, evocámos a função salvífica dos sonetos do Shakespeare na vida periclitante de Stefan -- herói do Bosque Proibido, do Mircea Eliade --, numa circunstância dramaticamente incerta.

domingo, novembro 11, 2018

vozes da biblioteca

«A hipnose das sociedades ocidentais, rastejando em direcção ao "ter" e ao "produzir", repugna-me, sempre me repugnou, profundamente.» Adalberto Alves, Oriente de Mim (1992)

«D. António Sepúlveda de Vasconcelos e Meneses, senhor do morgadio do Corgo, festejava nesse dia soalheiro de Outubro, em 1807, os vinte anos viçosos da linda Maria do Céu.» Carlos Malheiro Dias, Paixão de Maria do Céu (1902)

«Lá dentro, Doninha, todo nu, estava estirado ao comprido, de costas, pernas e braços abertos, sobre o chão imundo.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

sábado, maio 16, 2015

de liteira

«Por uma nevoenta manhã, a musa, acordando, avistou através das sanefas de damasco amarelo um grande lençol de prata estendido numa várzea. Era o Tejo. Nessa mesma manhã se passou Santarém e o seu castelo moiro, guarnecido de colibrinas e morteiros, entrando a liteira em Lisboa ao lusco-fusco, por entre o clamor das brigas nocturnas e o ladrido dos cães, à luz dos fachoqueiros acesos pelos lacaios derreados.»

Carlos Malheiro Dias, Paixão de Maria do Céu (1902)

terça-feira, julho 08, 2014

uma sombra triste

«Nesse ano funesto, o viúvo encurralou-se no degredo das terras e durante meses o viram cavalgar às tardes, solitário, por atalhos de monte e urze, espaldeiras de serras e cangostas pedregosas, como uma sombra triste, acabando de desbotar ao sol um tabardo de cetim preto.»

Carlos Malheiro Dias, Paixão de Maria do Céu (1902)

terça-feira, junho 14, 2005

Figuras de estilo #3 - Carlos Malheiro Dias

Quisera poder trazer-vos, não uma exortação beliciosa de patriotismo; não os brados agitadores com que o ambicioso César acordava, ao despontar da aurora, as legiões impacientes nos seus acampamentos da Gália; mas a emoção que pode caber na palavra a mais humilde quando a inspira e ilumina a fé contagiosa: palavra igual à água pura que D. Sebastião bebia por um púcaro de Estremoz no banquete ao Legado do Papa, quando os convivas esvaziavam, ao som das trombetas, as copas de ouro, transbordantes de vinhos da Sicília e de Chipre.
Exortação à Mocidade