Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, julho 21, 2019

Quem é Margaret Hamilton?
Alguma coisa a ver com aquilo da ida à Lua?



Claro que houve a tremenda coragem de Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins, os  homens que há 50 anos se montaram em cima de uma bomba (Teresa Lago dixit) e foram por aí afora, pelo espaço adentro, sem saberem se conseguiriam voltar, sem saberem se aquilo não explodiria, se não se desintegrariam todos em mil fanicos, se conseguiriam comunicar com a Base, se seriam devorados por monstros, se o combustível daria, se não morreriam à fome e de sede, para sempre náufragos numa jangada espacial sem possibilidade de resgate. Uma coragem quase insana, quase inumana.


Visto a esta distância, pasmamos como aquela verdadeira geringonça equilibrada num foguetão pronto a explodir, conseguiu a proeza que deixou o mundo pregado à televisão, todos incrédulos, emocionados. Mas correu bem.

E, para que tenha corrido, muita gente trabalhou durante anos, acreditando para além do que é razoável acreditar. Mas acreditaram. Confiantes nos seus conhecimentos, nos seus estudos e trabalhos, nos seus testes e nos seus métodos de trabalho. E foram, certamente, muitos os cientistas e engenheiros que colaboraram para que uma nave espacial, albergando uns valorosos homens, tenha ido à Lua e regressado com os mesmos que levara, prontos para contar as suas experiências.


Ainda hoje se vê aquilo e se pasma: ainda hoje, em certos pontos de Lisboa, na era das comunicações, a cobertura de rede é tal que caem as chamadas. Contudo, foram por aí, pelo vasto espaço sideral, e mantiveram o contacto, ouvimo-los, vimo-los com nitidez, conseguiram trasnmitir o som e a imagem. Afoitaram-se e tudo correu bem. 

Quantos cálculos tiveram que ser feitos, quanta programação e simulação teve que ser desenvolvida -- e isto numa era em que os computadores eram a pedal face ao que é hoje a computação.

E se em todos estes festejos, justos festejos, ouvimos falar nos astronautas, foi com surpresa que li o artigo do Madame le Figaro Sans Margaret Hamilton, l’homme n’aurait pas marché sur la Lune. Afinal por trás de tudo esteve uma mulher. Uma matemática. Margaret Hamilton. Fiquei espantada. 


Transcrevo da Wikipedia para ser em português:
Margaret Heafield Hamilton (Paoli, Indiana, 17 de agosto de 1936) é uma cientista da computação, engenheira de software e empresária estadunidense. Formou-se na Hancock High School em 1954 e estudou matemática na Universidade de Michigan. Formou-se em Matemática pelo Earlham College no estado de Indiana (EUA) no ano de 1958 e fez pós-graduação em Meteorologia no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Depois de se formar lecionou matemática e francês no ensino médio por pouco tempo, enquanto seu marido terminava a graduação. Mudou-se para Boston, Massachusetts para fazer pós-graduação em matemática pura na Universidade Brandeis. Em 1960 assumiu uma posição interina no MIT para desenvolver programas de predição climatológica nos computadores LGP-30 e PDP-1 (no Project MAC de Marvin Minsky) para o professor Edward Norton Lorenz no departamento de meteorologia Foi diretora da Divisão de Software no Laboratório de Instrumentação do MIT, que desenvolveu o programa de voo usado no projeto Apollo 11, a primeira missão tripulada à Lua. O software de Hamilton impediu que o pouso na Lua fosse abortado.
Na NASA, a equipe de Hamilton foi responsável por estar à frente do software de orientação de bordo da Apollo, necessário para navegar e pousar na lua, e suas variações usadas em várias missões (incluindo a Skylab, posteriormente).
Apollo 11
O trabalho de Margaret Hamilton evitou que o pouso na lua da Apollo 11 fosse abortado. Quando faltavam três minutos para a Apollo 11 pousar na lua, vários alarmes do módulo lunar começaram a tocar. O computador ficou sobrecarregado com atividades do radar de aproximação, desnecessárias para a aterragem. 
No entanto, devido à arquitetura robusta do software, o sistema continuou funcionando de maneira que as atividades prioritárias interrompessem as menos prioritárias. Mas ela sabia, por ter escrito o código do computador, que ele seria capaz de realizar o pouso, pois foi programado para desconsiderar as tarefas desnecessárias no momento da alunissagem. A falha foi atribuída a um erro humano na lista de comandos a serem executados pelos astronautas.
Margaret publicou mais de 130 artigos, atas e relatórios relacionados aos 60 projetos e seis programas importantes nos quais ela esteve envolvida. Em 22 de novembro de 2016 foi premiada com a Medalha Presidencial da Liberdade pelo presidente dos Estados Unidos Barack Obama, honraria recebida por seu trabalho sobre o desenvolvimento do software de voo a bordo das missões Apollo da NASA (...)

O vídeo abaixo é muito impressionante. Uma homenagem extraordinária.
8:07 p.m. Mojave Desert. Moonlight strikes more than 107,000 solar mirrors to create a portrait of Apollo 11 computer programmer Margaret Hamilton. Bigger than New York’s Central Park, the portrait is a tribute to Hamilton's contributions to the Apollo program and the field of software engineering.


E agora Margaret Hamilton por ela própria


E eu só me interrogo: porque é que só hoje me dei conta do trabalho dela, da relevância da sua intervenção? Por ser mulher? Porque os trabalhos de programação passam despercebidos à maioria das pessoas? Ou fui eu que andei distraída? Na volta foi isso. Tudo.

domingo, janeiro 27, 2019

Crónica de um dia in heaven com homens a passarem-me à porta do quarto, com um insólito bicho encarnado, um ovo branco e misterioso e etc.
E o meu tapete e um livro com poemas manuscritos.
[Mostro os de Daniel Jonas e Nuno Júdice]





E se eu estava a precisar de dormir até vir a mulher da fava rica. Mas não. Cedíssimo, sozinha na cama -- que o meu marido (felizmente) madruga -- comecei a ouvir uns ruídos não identificados. Tentei apurar o ouvido mas não consegui reconhecer que sons eram aqueles. Depois comecei a ouvir a voz do meu marido. Falava. Mas só ouvia a voz dele. Ouvi: não encontro a chave. E ouvia mexer em chaves. Passado um bocado, ouvi um batalhão de homens no corredor, a passar-me à porta do quarto. Nada de novo a não ser que não esperava que viessem tão cedo. O meu marido tinha-me dito que eu podia dormir porque eles iam lá para cima, não me incomodariam.


Eles eram os homens que vinham arranjar o tecto da parte antiga da casa, uma parte onde estavam os quartos dos meus filhos e uma pequena saleta, parte esta que hoje é pouca usada. Quando choveu mais, notámos que a escada de pedra estava molhada, vinha água desde lá de cima. O tecto, que é de madeira, precisava de ser levantado numas partes.

Acontece que a porta da rua que daria acesso quase directo a essa parte da casa é uma porta que há anos não é usada. 


O senhor que volta e meia vem cá fazer arranjos e que vinha com mais dois, tinha-se lembrado que dava jeito entrarem por essa porta e não pela habitual para não terem que atravessar a casa com escadote, madeiras, ferramentas e, então, tinha vindo mais cedo para limpar as teias de aranha que se tinham formado do lado de fora e era esse o ruído, de uma vassoura a raspar na porta e no telheiro, que me tinha acordado. E o meu marido andava a experimentar chaves do lado de dentro e ele do lado de fora. Por isso só ouvia a voz do meu marido (que, às tantas, dizia que, era uma chatice, mas que a chave se deveria ter perdido).

Só que, às tantas, já depois de ter deixado de ouvir a voz do meu marido, ouvi a voz do tal senhor a dizer para um dos que o tinha vindo ajudar: olha lá, se for preciso, sabes rebentar o canhão de uma fechadura?


Aí, dei um salto da cama, enfiei a roupa às três pancadas, fui à gaveta onde tenho o molho completo de chaves da casa e fui experimentar. Uma era a daquela porta. A seguir cruzei-me com o senhor e acho que nem o cumprimentei: Já abri a porta. Viu o meu marido? E ele: se calhar já foi lá para baixo. 

Fui à rua: estava com aquelas proteções nas pernas, a roçadora ao ombro, e ia lá para baixo. Já devia ter andado nos seus passeios ultra matinais pelos campos, veio a casa para abrir a porta aos homens e agora ia roçar o mato nascente. Ficou admirado por me ver: o que é que aconteceu? E eu: Achas que se consegue dormir com aquela barulheira? E se não me tenho levantado à pressa ainda destruiam a porta. Já encontrei a chave, já lhes abri a porta.

Não ligou. Está um camponês. Ia para a sua lida. Disse-me que também já tinha andado a cortar ramos altos com aquele serrote telescópico que o filho lhe ofereceu. Deve ter-se levantado às seis da manhã.



Entretanto, já os homens estavam a entrar e sair pela porta que não era aberta há anos, e muito barulhentos, uma algazarra pegada.

Portanto, acordei cedo e sobressaltada. A seguir, depois do meu marido ter cortado tojo e silvas, e de eu ter dado um breve passeio, fomos ao supermercado.

Ir ao supermercado à vila mais próxima é, para mim, um exercício de paciência. Tudo muito lento. Por exemplo, quase não há carne embalada. Tem que ser no talho mas há sempre umas vinte senhas à frente. E o pior é que cada pessoa leva carradas de carne, tudo cortado na hora. No peixe é a mesma coisa. Com a agravante de as empregadas serem vagarosas, cumprimentarem toda a gente, estarem a arranjar o peixe na calminha enquanto olham para as clientes, e conversam umas com as outras e com as clientes, tudo no maior vagar. Um desespero.


Regressámos. Fiz uma máquina de roupa, fiz arrumações. Por volta da uma, eles acabaram o trabalho. Mas o senhor, o principal, disse que voltava depois de almoço para acabar lá uma coisa.

Entretanto, também já tinha feito o almoço: pescada fresca cozida com batata, cenoura, feijão verde, ovo.

O meu marido tinha trazido um queijo de ovelha e, quando o abriu, achou que cheirava mal. Cheirei. Cheirava a curral. Talvez demais. O meu marido disse que era impossível comer um queijo que cheirava a m... Se tivesse sido mais barato, ia para o lixo e está a andar. Mas tinha sido caro e, sobretudo, era uma questão de princípio. Por isso, contrariado e irritado, foi ao supermercado.

Eu estava KO: deu-me um sono brutal. Pensei: vou deitar-me lá fora, na espreguiçadeira, e dormir um bocadinho. 


Como o senhor tinha dito que voltava, fiquei em casa, foi só ele. Pensei: o portão está aberto, o senhor sabe o caminho e talvez nem venha já, vou deitar-me ao sol, vou dormir.

Tinha eu acabado de arranjar a espreguiçadeira, toca a campainha. Era o senhor. Resolveu não entrar sem se fazer avisar. Começou a conversar. E a conversar. E a conversar. A contar-me dos filhos, dos netos, dos primos, dos cunhados, de um comendador que era dono de uma fábrica noutra aldeia e que tinha filhos de duas camadas, da primeira e da segunda mulher, e do que tinha uma oficina e da professora que tinha um portão eléctrico e que o tinha chamado. E.... e... e... . Eu mal me tinha de pé, perdida de sono, exausta -- e ele, uma simpatia, a falar em contínuo. Por fim lá pegou na escada e lá foi completar o que cá o tinha trazido.


Sentei-me na espreguiçadeira a ler. Achei que, com ele por ali, não devia deitar-me. Passado um bocado chamou por mim. Estava em cima do telhado. Tinha reparado que o solho no que antes era o quarto do meu filho, na direcção da escrivaninha, estava mais escuro, prova de humidade. Então tinha ido ver o telhado. Disse-me que havia ali uma zona que precisava de ser impermeabilizada. Eu pensava que ele se deveria estar a referir ao chão de madeira, ao soalho. Nunca tinha ouvido chamar solho ao soalho mas agora já vi no dicionário que, de facto, se pode dizer. Aprendo imenso com ele, imenso mesmo.

A questão é que espertei. Quando estou perdida de sono e não consigo dormir, depois já não consigo.

Quando o meu marido regressou, estava ele a sair. Fui para dentro, recostei-me no sofá, comecei a ler e pensei que ia adormecer. Mas não adormeci.


Li. O livro, interessante. A ver se amanhã falo dele.

Depois fui caminhar, fotografar. A lua branca, já por metade. Translúcida, num céu límpido. A vaporosa florzinha do eucalipto. A casca de ovo muito branca, partida ainda de fresco, com outro bocado de ovo lá ao pé. Não sei a que pássaro poderá pertencer. Tão grande. Não é um ovinho de passarinho. Menor que o ovo de uma galinha mas maior do que os ovos de passarinho que costumo ver nos ninhos. E tão branco. E o gato amarelinho que me olhava de longe, um gato silencioso que me observa enquanto ando e que me deixa sempre surpreendida pois não sei de onde vem nem para onde vai (aquela velha questão mas agora aplicada ao gatinho cor de mel). E a flor encarnada, linda. E o bicho espantoso, também encarnado mas com efeitos em preto e branco, espectacular, um daqueles seres vivos que se vêem e em que não se acredita. E um outro pinheirinho despontando numa outra rocha. E tudo tão bonito e sereno.

E fiz o tapete (desforrei-me a fazer enquanto o meu marido via o seu Sporting a ser campeão de uma Liga de que eu nunca tinha ouvido falar, a Liga de Inverno. Ainda lhe perguntei que liga era aquela mas limitou-se a responder: esquece, não ias perceber e eu não insisti porque sei que não ia mesmo perceber), e li e vi televisão. Ainda não adormeci mas já estive várias vezes quase. Espero dormir bem esta noite.  Estou mesmo, mesmo, mesmo, a precisar de dormir muito porque sei que a semana que aí vem vai ser de me deixar a rebentar pelas costuras e, se não recarrego baterias, nem sei como vai ser.


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Mas queria era falar de um livro novo. Não do que estive hoje a ler mas de um outro, um muito bonito, com poemas manuscritos. Eu que gosto tanto de estudar a escrita caligráfica das pessoas fiquei logo rendida ao livro.

Não faço aqui a análise porque seria deselegante fazê-lo mas mostro-vos a do Daniel Jonas (uma letra que me agrada muito e que me deixa contente pois gosto muito da poesia dele) e a do Nuno Júdice (uma letra que espelha bem a pessoa que penso que ele deve ser)

Fotografei os livros que comprei a semana passada (uma pequena recaída) em cima do tapete que estou a fazer na cidade. Se comparem com a fotografia de há dois meses até parece que não andei muito mas, como já referi, como a barra é quase da cor da juta, na altura não reparei que boa parte do preenchimento da barra estava por fazer. Agora já está todinha e já vou para aí num quarto do preenchimento do fundo (a azul escuro).






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Lamento, uma vez mais, não ser capaz de responder aos comentários.

Desejo-vos a todos um feliz dia de domingo.

terça-feira, janeiro 22, 2019

Não lhe vi um pingo de sangue. E, se não é branca, então que seja azul.




Tenho ideia que ouvi dizer que a lua está vermelha, tingida de sangue. Olho-a e vejo-a branca. O céu espraia-se em branco derramado sobre o rio. Estive à janela a ver a via láctea espelhada no tejo. O céu translúcido. Nem um pingo de sangue. Se calhar ouvi mal. Acontece-me estar a ouvir música na rádio enquanto atravesso a cidade e ir no meu comprimento de onda, pensando palavras, se calhar imaginando outras. 

Por vezes, quando chego ao meu destino, tento lembrar-me do que ouvi e do que pensei e, geralmente, nunca me lembro de nada. Acho que as palavras e a música que ouço se esvaem de mim e que as palavras que se vão juntando dentro de mim também se evadem, sem deixar rasto.

Olhei a lua durante parte do percurso: aqueles pontos brilhantes que se unem através de segmentos muito finos, uma geometria elegante -- tudo quase branco. Nem róseo, muito menos sanguíneo. Finíssimos desenhos em branco na face visível da lua. Sou muito ignorante mas sei que sou pelo que pensei que já deveria ter ido tentar saber o que há do lado de lá, no lado oculto, no lado B, mas não sou só ignorante, sou desinteressada do que me parece escuro e meio triste. Prefiro outros fragmentos e colagens. Poeiras lunares numa paisagem desolada, escura e fria, não é a minha praia. Xodós, lamentos, cantos, poemas destilados, bilhetinhos de amor -- isso sim, eu gosto, espero sempre por mais. Escritos por todos os apaixonados ou apenas por um, tanto me dá. 

Mas, enfim, não sei da lua senão que é branca, doce, e que ilumina com leite e mel os corações enamorados e que chama pelos amantes. Coisas assim, poéticas, sem utilidade outra que não a de fazer a gente sentir a alma mais humana, mais frágil, mais abraçada.

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Portanto, para concluir, posso é dizer que, se a lua não é branca, encarnada também não é. Fotografei-a de longe e de perto e confirmei: não lhe corre sangue nas veias nem a face visível está ruborizada. White ou quase white. Blanche. Mas dizer que está de um branco lunar não apenas é redundante como pode não ser correcto. Ponho-a, então, azul e trago aqui a outra blue moon. E chamo pela vossa companhia. Fiquemos aqui a contemplar as águas do rio, a ouvir os acordes cheios de noite.

E posso ainda acrescentar um outro pequeno despropósito: já converti em acto o presente da massagem que recebi pelo Natal. Entrei num lugar de luz verde, de vegetação tranquila e verde, de água a correr numa fonte, de música de aragem a dançar entre bambus, harpa, piano, sons muito límpidos.

No gabinete quase não havia luz, apenas uma luz muito levemente coada sobre o leito. E umas velas, perfumadas, num canto. E fui mandada despir-me toda. Toda? Toda, e fios, brincos, anéis. Recebi uma tanguinha de papel e deitei-me. E ao longo de uma hora, umas mãos cobertas de óleo foram percorrendo todo o meu corpo, ora com suavidade, ora com intensidade. Não sei se a música foi cambiando. Estive de olhos fechados e sem ouvir nada, sem dizer nada, entregue apenas à sensação boa de umas mãos percorrendo o meu corpo. Quando acabou, deixei-me ficar. Tinham-me avisado: não se levante logo. Por isso, fiquei. Noutro comprimento de onda, descontraidíssima. Saí de lá a flutuar.

E agora vou outra vez pôr-me à janela a contemplar a blue moon sobre o rio.

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Aquí te amo. 
En los oscuros pinos se desenreda el viento. 
Fosforece la luna sobre las aguas errantes. 
Andan días iguales persiguiéndose.
(...)
Pero la noche llega y comienza a cantarme. 
La luna hace girar su rodaje de sueño. 


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segunda-feira, agosto 06, 2018

Porque é que, nestes dias tão quentes, o céu perdeu o azul e o sol parecia a lua?
[O resto, incluindo a minha receita de entrecosto com favas, está aqui apenas porque sim]




Ontem, quando chegámos, não se conseguia aguentar: estavam 47º. Ali o clima é continental, tudo muito extremado e, quando está calor, ali está ainda mais. Ou frio. Ou vento. Mas ontem estava demais. Sente-se o calor na pele, na respiração, e percebe-se que estamos no limiar do humanamente suportável se isto vier a ser frequente e prolongado.

Os pássaros estavam enlouquecidos. Não cantavam, gritavam. E, ao cair da noite, as cigarras desataram também em desaustinada gritaria. Qualquer coisa de estranho naqueles sons, habitualmente tão tranquilizadores.

Ao passo que habitualmente não consigo ver os pássaros, ontem andavam à vista, passavam de árvore em árvore, pareciam desorientados.

As uvas foram-se. Os bagos secaram. Uma tristeza. Estavam ainda verdes e pequenos. Agora estão como se vê.


E as flores a ressequirem, as folhas a amarelarem. 

Dentro de casa estava-se melhor, 32º. Não temos ar condicionado. As paredes da parte antiga são de pedra e têm metro e tal de espessura. Na zona nova as paredes também são largas e duplas. Portanto, isolam relativamente. Quando chegamos, gosto de abrir as portadas para a casa arejar. Ontem foi impossível. Nem de noite. Aliás, de noite, se abrimos as janelas com a luz acesa, entram melgas. Conseguimos estar razoavelmente à noite apenas porque ligámos duas ventoinhas.

Por volta das oito da noite reparei que a lua estava num sítio diferente do habitual. E estava cheia. 


Pensei que não podia ser. Fotografei-a, olhei-a bem. Branca. O céu cinzento, asfixiado. Todo o dia o dia o azul esteve oculto. Pensei que há pouco tempo a lua tinha estado cheia. Chamei o meu marido e perguntei-lhe o que era aquilo. Olhou e disse: deve ser a lua. Mas não estava convencido. Disse-lhe: a lua costuma estar sobre a casa ou sobre o jardim, não ali ao fundo. Fui ver qual a fase em que estava. Quarto minguante. Ontem, cerca de 53% oculta.

Fui ver de novo. Estava mais perto da linha de horizonte, ao fundo, na linha das serranias, e estava mais amarela.


Concluímos que só poderia ser o sol. Olhávamo-lo sem qualquer dificuldade. Lentamente, foi desaparecendo naquele céu triste e leitoso.

Hoje o céu manteve-se branco ou cinzento, levemente amarelado, o sol encoberto.  

O ar esteve quente, quente, mas mais suportável. 43º. 

Tal como ontem, tive que me ir molhando, bebendo ágiua fria. Estive na espreguiçadeira à sombra e fui buscar a ventoinha de pé alto. Entre ontem e hoje li um livro magnífico: 'Contos naturais' de Carlos Fuentes. Muito, muito bom. De vez em quando acontece-me ficar rendida. É uma sensação tão boa. Não consegui parar enquanto o não li todo.

Hoje, ao fim da tarde ainda peguei noutro, no 'Raul Brandão íntimo' do Vitorino Nemésio. Mas não deu. Uma pausa é necessária quando se acaba de ler uma coisa muito boa.


Ao fim do dia sentimos que a temperatura ia baixando, ficou nos 42º. Quando saímos, já ia nos 41º. Quando chegámos a Lisboa estava mais fresco, 39º. Fomos comer um gelado. Adoro gelados. 

Quando chegámos, não sabíamos o que jantar. Agora não dá para comer sopa. Fui ao supermercado. Trouxe entrecosto, favas, coentros, chouriços. O meu marido disse que não era comida de verão. Pois não. Mas o almoço já tinha sido uma salada fria. Às tantas, já não tenho imaginação.

Fiz assim: 
Num tacho, coloquei azeite, três cebolas grandinhas aos bocados, meio chouriço de carne das Beiras às rodelas, três dentes de alho, louro. Alourei levemente. Juntei uma cenourona grandona às rodelas e dois tomates bem maduros aos bocados. Juntei o entrecosto. Pus por cima alecrim e uma mão cheia bem generosa de coentros. Um pouco de sal. Quando ferveu, baixei para a temperatura 4 (numa escala de 1 a 9). Fui mexendo de vez em quando para os sabores se misturarem. Quando me pareceu que a carninha já estava a despegar-se dos ossos, sinal de que estava a ficar cozida, juntei as favas (que, entretanto, tinha deixado a descongelar), mais um bocado de chouriço preto às rodelas e, por cima, mais um bocado de coentros. Levantei a temperatura e, de novo, quando levantou fervura, baixei. Fui envolvendo de vez em quando... até que vi que estava tudo já devidamente macio.
Pois vos digo: belas. Servidas com salada de alface.

E agora que já fiz uma máquina de roupa e que já escolhi a roupa para amanhã, aqui estou a pensar se transcreva um pouco do livro. Se calhar não. É todo tão bom que desvirtuaria o conjunto se o amputasse. Acho eu. Vou pensar.


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Este vídeo e não outro mais completo apenas porque este é pequenino, vê-se num instantinho

Carlos Fuentes na primeira pessoa


...

Até já.

sábado, julho 28, 2018

Só espero que, daqui por uns cem anos, ache mais graça ao eclipse da lua.



Estava sem curiosidade sobre isso do eclipse, nem pensei em apanhá-lo. Uma coisa que aparece meio escondida não me parece tema empolgante. Mas já se sabe que ando niquenta, para mim só coisinha apurada, petisquinho sofisticado, acepipe jamais sonhado. Não isto, muito déjà vu. Todo o ano há um eclipse ou uma lua de um tamanhão ou de uma cor nunca vista, já não se consegue perceber qual o espanto. Agora parece que é o mais longo. Qualquer dia vai ser: bora malta, vamos ver o eclipse mais curto do século. Ou, bora malta, vamos lá ver o eclipse às bolinhas amarelas. Uma seca. Uma falta de imaginação.


Quando saímos do cinema
-- e devo dizer que sim (e a Bening fantástica) mas que, talvez dado o meu estado de mal-dormida ou talvez dado que estava francamente bem instalada, durante a primeira parte tive que me esforçar para não cair no sono -- 
olhei para o céu e lá estava ela. Desdenhei: Qual a diferença de estar em quarto minguante? Como sou míope não vi o que o meu marido viu: a parte oculta. 

Por isso, mal cheguei a casa, fui-me à hiper machine e zoom com ela. E vi. E pareceu-me ver, mais abaixo, à direita, uma sombra ou um reflexo da própria lua. Abri-lhe a claridade e vi-a melhor.


Mas, fazer o quê?, continuei desempolgada. Pensei: se ainda se visse um bando de mil bailarinas a dançar a dança dos véus, cada véu de sua cor, cada mama de seu tamanho, ou cavaleiros a fazer cortesias montados em unicórnios coloridos com rabos de cavalos platinados e tão longos que só pudessem ser extensões, ou macaquinhos aos saltos ou muitos milhares de freirinhas circunspectas a entoar cânticos gregorianos que se ouvissem cá em baixo -- ainda era capaz de ter alguma graça. Agora só isto...? Vou ali e já venho.

E, assim sendo, fui-me à fotografia, injectei-lhe cor e consegui ver uma bolinha (uma bolinha ratada, claro) com alguma graça. E lá está a outra, o tal reflexo suspenso no espaço. Porque é que ninguém fala nesta imagem-outra da lua que ali me aparece diluída na sombra nocturna do céu adormecido?


sexta-feira, julho 27, 2018

Leva-me até à lua




Podia ser para eu tentar lá descobrir um lago salgado e gelado, cheio de mistérios e de outras vidas.

Podia ser para eu a ver de perto quando está azul, dourada, branca ou vermelha.

Podia ser para eu correr por entre o pó macio, saltanto, sem peso, quase voando.

Ou podia ser apenas em imaginação, ouvindo palavras que me levassem até onde a gravidade se esvai, até onde se ouve o som das estrelas e a música das ondas invisíveis que atravessam os vastos espaços.

Podia ser, até, apenas em sonho.
Mas leva-me até à lua.


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Fotografias feitas ao anoitecer com a minha super-machine nova que tem um hiper-zoom. Yuppy.

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quinta-feira, fevereiro 01, 2018

Alô, alô Marco António Costa!
Sobre os tempos de abundância em que vivemos, preste lá aí, se faz favor, uma atençanita.

[E, finalmente, a verdade sobre a aterragem na lua que, naquele dia, não sei se era uma lua azul de sangue ou uma lua de sangue azul]


De vez em quando aparece-me um deles a dizer que assim está bem, assim é fácil -- e é como se dissessem que assim também eles. 

Hoje calhou, a meio do zapping, aparecer o João Ferreira do PCP com o Marco António do PPD/PSD (como é mesmo o nome oficial do partido? desde que o Flopes se quedou na indecisão, ficou a dúvida no ar: PPD? PSD? PPD/PSD? PSD/PPD?)

O João Ferreira, bonito que dá gosto a gente ficar a olhar para ele e, ainda por cima, discreto, sóbrio, ponderado. Ou seja, um comunista que, não desfazendo, fica bem em qualquer lado. E se parece que estou a ironizar, pensando nele como se fora um belo objecto, confirmo: estou. Mas, em cima da objectualidade do belo homem, digo que é mais do que isso: João Ferreira fica bem num debate televisivo, num parlamento europeu ou nacional, numa autarquia ou, cá para mim, até num governo.

O pior, televisivamente falando, foi o seu oponente. Fraco, fraquinho, muito mau, muito mauzinho.

Aquele Marco António Costa é, por todos os motivos, o oposto do que hoje os eleitores apreciam num político. É certo que fisicamente está com um ar mais decente desde que se apresenta com o cabelo mais curto. Contudo, a matéria-prima que subjaz à barba não o favorece. Mas disso ele não tem culpa pelo que nem é tema. Tema é ele ainda não ter cortado com a parvoíce que rodeia a sua argumentação. Não é de agora. Nunca lhe vi uma ideia com rasgo ou fundamentada. Quem se acha esperto sem o ser dá sempre de si triste imagem. Hoje, por ali andou enredado  em torno dos casos que a jornalista lançou (a pseudo-polémica gerada por mais uma joana-vidalice em volta de dois pseudo-bilhetes da bola (já que, afinal, não são bilhetes mas lugares de convite), a macacada dos pseudo-deputados que queriam ir abandalhar o parlamento europeu com o pseudo-tema, os excelentes indicadores económicos do país, etc). 

Que aquela conversa encaixaria bem num programa desportivo não tenho dúvida
Eu não disse o que tu disseste que eu disse mas se quiseres que eu diga eu digo mas não me venhas dizer o que eu devo dizer porque eu cá só digo o que acho que devo dizer e quem disser o oposto que prove senão vai ter que dizer noutro sítio que eu, pelas razões que todos conhecem mas não têm coragem de assumir, não vou dizer qual é (... bla bla bla... bla bla bla...)
mas num debate de ideias é ridículo e inaceitável. Mas daquele pobre -- que é o digno representante dos mais que datados caciques laranjas -- já não se espera já outra coisa. Portanto, não é disso que quero aqui falar. Quero falar, sim, de outra coisa que ele disse e na qual coincidiu com vários outros correlegionários: que é fácil governar em tempos de abundância como são aqueles em que agora vivemos. 

E é sobre isso que eu tenho que dizer uma coisa ao Sr. Marco Costa e a todos os seus colegas paf-pafs:

1ª - Os tempos que vivemos não são de abundância. Abundância é outra coisa. Vivemos, sim, um período de recuperação e de rigor na gestão.

2ª - O dinheiro em circulação numa economia não cai do céu. Não existe isso de agora se viverem períodos de abundância como se a abundância fosse um acaso meteorológico. O dinheiro em circulação resulta sobretudo de um conjunto de factores, uns exógenos, oudros endógenos e sobre os quais os governos e o sistema financeiro têm acção relevante.

3ª - Se vivemos agora tempos que não são de penúria, desconfiança ou retração muito devemos a este governo, nomeadamente:
  • às suas políticas internas, 
  • à prova provada que pode fazer de que as suas políticas surtem um efeito estimulante na economia, permitindo-lhe reiterá-las e
  • à atitude disruptiva, construtiva e corajosa que tem exibido nas instâncias europeias em que tem assento, abrindo portas a uma mudança de políticas comuns
Portanto, Sr. Marco A. Costa, a ver se percebe que se agora vivemos tempos melhores é porque temos um melhor governo e porque a inteligência e a competência foram introduzidas na esfera de actuação política. 

Escusava de acrescentar mas, estando a falar com quem estou, vejo-me forçada a isso: o que acima disse significa que, pelo contrário, no tempo em que imperavam o Láparo, o vice-Irrevogável, a Cristas, a Pinókia dos Swaps e tutti quanti, as coisas estavam piores porque escasseavam a inteligência e a competência na esfera de actuação política.

Entendido?

Se calhar ainda não. 

Nesse caso, talvez seja melhor uma explicação mais exaustiva. Aconselho-o, então, a pegar num caderninho e a copiar cem vezes as 10 lições que se podem aprender com Mário Centeno ou, na óptica da Santa Mana Joana e dos seus acérrimos devotos, os 10 crimes do Ministro Centeno.

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Mas vá, para que não se pense que tenho algum preconceito contra roedores orelhudos ou que todos os coelhos são láparos-para-esquecer, aqui vos deixo com um sweet momento com coelhos que são coelhinhos.



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E, com isto, nem falei na lua azul de sangue mas a verdade é que não lhe vi cor diferente do que costume ver e, portano, admiti que aquela designação fosse alguma liberdade poética. Qualquer coisa na base de:
Dá-me uma lua azul de sangue, 
uma lua negra exangue,
ou uma lua branca de prata, 
quiçá uma lua splash and pink cantata, 
talvez uma lua dourada de mel 
até mesmo uma lua verde de pele.

Afinal acabo de ouvir que a coisa tem substracto mas só para quem a pode ver. Whatever. Aqui deixo uma foto apenas porque é bonita e me apetece assinalar a coisa.

A lua em Edirne, Turquia -- no The Guardian

E, já agora, a propósito da lua, um momento histórico -- sobre o momento da aterragem na lua, finalmente a verdade dos factos:


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Um dia feliz a todos que por aqui me acompanham.

And have fun, ok?

segunda-feira, dezembro 04, 2017

Uma lua of my own





Sabes, de verdade eu não sei voar. Voo em palavras, voo em sonhos mas, se abrir as minhas asas, não consigo mais do que misturar-me com as gaivotas e andar por sobre os mares, respirando a maresia e aspirando a luz que ali é muito pura e se dilui nas águas mais profundas. Isso eu consigo. Também consigo elevar-me até ao cume das montanhas azuis, lá onde os homens não se aventuram, lá onde os olhos quase tocam a mão de um certo deus muito silencioso.

Mas, sabes, voar até à lua eu não sei como. Fecho os olhos, penso que é só querer, que é apenas olhá-la e deixar que as minhas invisíveis asas se desdobrem até ao infinito para que o meu corpo se torne leve, sem laços nem limites... mas não consigo. Não consigo voar.

As coisas não são assim, sabes, não são como as queremos. O meu corpo não consegue esquecer a gravidade que o prende à terra. O meu corpo não desaprende as leis do mundo dos homens. Peço-lhe que me ouça, que se deixe levar na aragem que algumas palavras sopram mas ele não me sabe como fazê-lo.

Não consigo voar até à lua. Queria tanto. Mas não consigo. Sabes, não consigo.

Por isso... por isso, sabes, vou inventar uma lua que seja minha, uma que eu consiga tocar com as minhas mãos, uma lua que eu possa encher de cores, de loucuras, de loucuras felizes e coloridas, uma lua que contenha todos os meus sonhos, uma lua inventada, transbordando de luz, de segredos, de inocentes indecências, uma lua que eu consiga guardar no meu coração.

E depois ofereço-ta.

Toma-a nas tuas mãos. 

É tua. 

Só tua.




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Brincadeiras feitas agorinha mesmo sobre um fotografia feita também agora mesmo:
a lua cheia brilha no céu, derramando um rasto de luz no rio -- e eu fui à janela e apanhei-a.

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