“Fernando Pessoa e o Romantismo” é a mais recente edição da Central de Poesia, pertencente ao Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O volume, organizado por Patrícia Martins, Golgona Anghel e Fernando Guerreiro reúne 8 estudos, de novos e veteranos estudiosos de Pessoa, apresentados na jornada de estudos em Dezembro de 2016.
O tema, pelo menos à primeira vista, pode parecer muito redutor e dirigido a um público muito limitado - nomeadamente aos exegetas “profissionais” de Pessoa ou interessados em estudos comparativos em literatura. No entanto rapidamente ultrapassamos esta sensação se compreendermos - como se torna fácil na curta e excelente introdução de Patrícia Martins - que o romantismo funcionou como motor precedente o modernismo Pessoano, o que nos levará a ver com novos olhos o que será dito de seguida por estes autores. De facto é desde já muito interessante considerar como Pessoa - um escritor intimamente e emocionalmente relacionado com os objectos da sua escrita e, por essa mesma razão, necessariamente “romântico”, vai para além dessa mesma relação emocional para alcançar um outro nível de relação fora-dentro que vai tornar a falsa “degeneração” modernista uma verdadeira evolução em estilo e em substância.
É este afastamento da idílica reflexão do sonho na paisagem exterior pela via crucis da metafisica que se começa a revelar logo no primeiro texto, da autoria de Fernando J. B. Martinho, sobre o poema “Quasi” de Álvaro de Campos. Com a mestria que lhe é reconhecida, este que é um dos decanos dos estudos Pessoanos, revela alguma ligações entre este poema e Tabacaria por exemplo - e como Pessoa caminha para a apropriação de uma linguagem menos “romântica” mais mais ansiosa. Mas há afinal que recordar que o próprio Pessoa nunca se viu modernista, provavelmente sempre ciente da sua imanente subjectividade projectada nas paisagens da sua escrita. Martinho ilustra este compromisso (por vezes indirectamente) através da presença das “personagens simples” nos poemas de Pessoa, tanto na “Tabacaria” como em “Ela canta, pobre ceifeira”.
De seguida Fernando Cabral Martins, ele também um insigne Pessoano já de muitas lidas, dá seguimento a esta ideia de evolução entre Romantismo e Modernismo em Pessoa, pegando agora no tema dos heterónimos. Defende-os o autor enquanto next step dos clássicos heróis românticos, porventura estilizados ao extremo. O aspecto performativo romântico - que Martins melhor identifica em Sá-Carneiro - também se espalhou a Pessoa, mas mais filosoficamente, tornando o eu nos outros-eus, mas sem lhe roubar a identidade, só lhe acrescentando dispersão afectiva. No entanto, se o romantismo é a base, também se lhe segue a negação - por exemplo em Caeiro, que renega a emoção na Natureza.
O texto seguinte pertence a Golgona Anghel, que fala de Pessoa enquanto “interruptor imprevisto”. Este conceito, puxado de um ensaio de Pessoa representa, para Anghel, o tal “estilhaçamento” que Martins já insinuava, mas agora particularizado no momento da criação poética. Aqui o romantismo parece interiorizar-se para o mistério da aparição da obra escrita ou a escrever-se, como um canal de acesso a um mistério que nunca se revela senão através de partes desconexas de si mesmo - a verdade existe e é visível mas nunca inteiramente acessível. O romantismo torna-se método amputado e o processo poético encena-se de dentro para dentro, mas com o mesmo drama de qualquer teatro heroico. Sinal, diz-nos ainda Anghel, de uma genialidade que sai da personalidade multiplicada mas depois estilhaçada, inadaptada, que leva o próprio leitor, subrepticiamente novamente ao acto da criação no momento da leitura..
Selvina Lopes apresenta de seguida uma exposição sobre Pessoa/campos e o cansaço de absoluto. Devo dizer que este ensaio me causou alguma problemas de leitura, na medida em que se foi tornando, tanto de difícil leitura e compreensão, como parecendo progressivamente enredar-se em si mesmo ao ponto de se tornar ilegível. Talvez numa segunda leitura mais tardia...
De seguida Patrícia Martins fala de Eterno Retorno e Alegoria em Pessoa. A autora indica a relação paradoxal entre passado e futuro, sobretudo vista a perspectiva do “eterno novo” modernista. A questão torna-se mais fina, na medida de definição do que será a “tradição” - e aqui o artigo de Martins parece tornar um rumo mais filológico que de crítica literária. No entanto a discussão continua interessante porque a autora nos fala do conceito de tempo em Pessoa e na forma negativa como o poeta aborda o que é novo - ele propõe-nos o novo negativamente, insinuando talvez que o passado não se deve renegar totalmente. Martins defende mesmo duas fases, entre Eterno Retorno e Alegoria, marcadas pela fronteira de 1928 (altura em que fica sozinho na Rua Coelho da Rocha). Será esta transição também desencantamento disfarçado de estilização...?
Carla Gago de seguida fala das modalidades românticas no projecto modernista de Pessoa. A discussão da autora vem no seguimento de alguns dos artigos anteriores, confrontando a aparente oposição entre romantismo e modernismo como coisas inconciliáveis ou mesmo contrárias. Gago diz-nos que alguns elementos em Pessoa podem confundir o leitor (ou o estudioso), nomeadamente o classicismo evidente na sua forma de escrever, a questão da organização, do fragmento, do pensamento tripartido e harmónico, da questão dramática e do apegamento a Shakespeare. Achei de grande interesse esta análise pormenorizada, que desenvolve alguns pontos já tocados anteriormente no volume.
Kenneth Jackson fala-nos, depois, de Pessoa e Whitman. Um ensaio de grande interesse e muito bem redigido (sem surpresa visto que Jackson escreveu um dos melhores, senão o melhor livro em Inglês sobre Pessoa - Adverse Genres in Fernando Pessoa), mas que não desenvolve a sua análise na direcção do romantismo Americano em relação com Pessoa, ficando pela influência de um sobre o outro o que acabou por ser redutor.
O volume termina com Judith Balso (em Francês, se bem que não se entende muito bem porquê), que fala de Pessoa e Leopardi. Devo dizer que Balso é uma estudiosa com raro insight sobre Pessoa (aliás, parece-me que não é Pessoano quer quer, mas apenas que o intui ser sem o perceber) e é desta forma que se lê muito bem o seu texto, nomeadamente na forma como ela parece entender mais organicamente (e menos artificialmente, academicamente) a forma como Pessoa constrói a tal “ficção íntima e interior” que define novamente esse género romântico, com as necessárias ramificações (sobretudo negativas).
Em resumo achei o volume bastante equilibrado, com uma ou outra falha de ritmo e continuidade, tocando um tema que não é comum nos estudos Pessoanos. Talvez peque apenas pelo tom demasiado formal da maioria dos textos, que pode afastar os interessados no Pessoa menos académico.
Um agradecimento aos organizadores pelo envio de um exemplar para análise.
O tema, pelo menos à primeira vista, pode parecer muito redutor e dirigido a um público muito limitado - nomeadamente aos exegetas “profissionais” de Pessoa ou interessados em estudos comparativos em literatura. No entanto rapidamente ultrapassamos esta sensação se compreendermos - como se torna fácil na curta e excelente introdução de Patrícia Martins - que o romantismo funcionou como motor precedente o modernismo Pessoano, o que nos levará a ver com novos olhos o que será dito de seguida por estes autores. De facto é desde já muito interessante considerar como Pessoa - um escritor intimamente e emocionalmente relacionado com os objectos da sua escrita e, por essa mesma razão, necessariamente “romântico”, vai para além dessa mesma relação emocional para alcançar um outro nível de relação fora-dentro que vai tornar a falsa “degeneração” modernista uma verdadeira evolução em estilo e em substância.
É este afastamento da idílica reflexão do sonho na paisagem exterior pela via crucis da metafisica que se começa a revelar logo no primeiro texto, da autoria de Fernando J. B. Martinho, sobre o poema “Quasi” de Álvaro de Campos. Com a mestria que lhe é reconhecida, este que é um dos decanos dos estudos Pessoanos, revela alguma ligações entre este poema e Tabacaria por exemplo - e como Pessoa caminha para a apropriação de uma linguagem menos “romântica” mais mais ansiosa. Mas há afinal que recordar que o próprio Pessoa nunca se viu modernista, provavelmente sempre ciente da sua imanente subjectividade projectada nas paisagens da sua escrita. Martinho ilustra este compromisso (por vezes indirectamente) através da presença das “personagens simples” nos poemas de Pessoa, tanto na “Tabacaria” como em “Ela canta, pobre ceifeira”.
De seguida Fernando Cabral Martins, ele também um insigne Pessoano já de muitas lidas, dá seguimento a esta ideia de evolução entre Romantismo e Modernismo em Pessoa, pegando agora no tema dos heterónimos. Defende-os o autor enquanto next step dos clássicos heróis românticos, porventura estilizados ao extremo. O aspecto performativo romântico - que Martins melhor identifica em Sá-Carneiro - também se espalhou a Pessoa, mas mais filosoficamente, tornando o eu nos outros-eus, mas sem lhe roubar a identidade, só lhe acrescentando dispersão afectiva. No entanto, se o romantismo é a base, também se lhe segue a negação - por exemplo em Caeiro, que renega a emoção na Natureza.
O texto seguinte pertence a Golgona Anghel, que fala de Pessoa enquanto “interruptor imprevisto”. Este conceito, puxado de um ensaio de Pessoa representa, para Anghel, o tal “estilhaçamento” que Martins já insinuava, mas agora particularizado no momento da criação poética. Aqui o romantismo parece interiorizar-se para o mistério da aparição da obra escrita ou a escrever-se, como um canal de acesso a um mistério que nunca se revela senão através de partes desconexas de si mesmo - a verdade existe e é visível mas nunca inteiramente acessível. O romantismo torna-se método amputado e o processo poético encena-se de dentro para dentro, mas com o mesmo drama de qualquer teatro heroico. Sinal, diz-nos ainda Anghel, de uma genialidade que sai da personalidade multiplicada mas depois estilhaçada, inadaptada, que leva o próprio leitor, subrepticiamente novamente ao acto da criação no momento da leitura..
Selvina Lopes apresenta de seguida uma exposição sobre Pessoa/campos e o cansaço de absoluto. Devo dizer que este ensaio me causou alguma problemas de leitura, na medida em que se foi tornando, tanto de difícil leitura e compreensão, como parecendo progressivamente enredar-se em si mesmo ao ponto de se tornar ilegível. Talvez numa segunda leitura mais tardia...
De seguida Patrícia Martins fala de Eterno Retorno e Alegoria em Pessoa. A autora indica a relação paradoxal entre passado e futuro, sobretudo vista a perspectiva do “eterno novo” modernista. A questão torna-se mais fina, na medida de definição do que será a “tradição” - e aqui o artigo de Martins parece tornar um rumo mais filológico que de crítica literária. No entanto a discussão continua interessante porque a autora nos fala do conceito de tempo em Pessoa e na forma negativa como o poeta aborda o que é novo - ele propõe-nos o novo negativamente, insinuando talvez que o passado não se deve renegar totalmente. Martins defende mesmo duas fases, entre Eterno Retorno e Alegoria, marcadas pela fronteira de 1928 (altura em que fica sozinho na Rua Coelho da Rocha). Será esta transição também desencantamento disfarçado de estilização...?
Carla Gago de seguida fala das modalidades românticas no projecto modernista de Pessoa. A discussão da autora vem no seguimento de alguns dos artigos anteriores, confrontando a aparente oposição entre romantismo e modernismo como coisas inconciliáveis ou mesmo contrárias. Gago diz-nos que alguns elementos em Pessoa podem confundir o leitor (ou o estudioso), nomeadamente o classicismo evidente na sua forma de escrever, a questão da organização, do fragmento, do pensamento tripartido e harmónico, da questão dramática e do apegamento a Shakespeare. Achei de grande interesse esta análise pormenorizada, que desenvolve alguns pontos já tocados anteriormente no volume.
Kenneth Jackson fala-nos, depois, de Pessoa e Whitman. Um ensaio de grande interesse e muito bem redigido (sem surpresa visto que Jackson escreveu um dos melhores, senão o melhor livro em Inglês sobre Pessoa - Adverse Genres in Fernando Pessoa), mas que não desenvolve a sua análise na direcção do romantismo Americano em relação com Pessoa, ficando pela influência de um sobre o outro o que acabou por ser redutor.
O volume termina com Judith Balso (em Francês, se bem que não se entende muito bem porquê), que fala de Pessoa e Leopardi. Devo dizer que Balso é uma estudiosa com raro insight sobre Pessoa (aliás, parece-me que não é Pessoano quer quer, mas apenas que o intui ser sem o perceber) e é desta forma que se lê muito bem o seu texto, nomeadamente na forma como ela parece entender mais organicamente (e menos artificialmente, academicamente) a forma como Pessoa constrói a tal “ficção íntima e interior” que define novamente esse género romântico, com as necessárias ramificações (sobretudo negativas).
Em resumo achei o volume bastante equilibrado, com uma ou outra falha de ritmo e continuidade, tocando um tema que não é comum nos estudos Pessoanos. Talvez peque apenas pelo tom demasiado formal da maioria dos textos, que pode afastar os interessados no Pessoa menos académico.
Um agradecimento aos organizadores pelo envio de um exemplar para análise.
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