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"Fernando Pessoa e o Romantismo" - Uma Apreciação Crítica

12/6/2018

 
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“Fernando Pessoa e o Romantismo” é a mais recente edição da Central de Poesia, pertencente ao Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O volume, organizado por Patrícia Martins, Golgona Anghel e Fernando Guerreiro reúne 8 estudos, de novos e veteranos estudiosos de Pessoa, apresentados na jornada de estudos em Dezembro de 2016.
 
O tema, pelo menos à primeira vista, pode parecer muito redutor e dirigido a um público muito limitado - nomeadamente aos exegetas “profissionais” de Pessoa ou interessados em estudos comparativos em literatura. No entanto rapidamente ultrapassamos esta sensação se compreendermos - como se torna fácil na curta e excelente introdução de Patrícia Martins - que o romantismo funcionou como motor precedente o modernismo Pessoano, o que nos levará a ver com novos olhos o que será dito de seguida por estes autores. De facto é desde já muito interessante considerar como Pessoa - um escritor intimamente e emocionalmente relacionado com os objectos da sua escrita e, por essa mesma razão, necessariamente “romântico”, vai para além dessa mesma relação emocional para alcançar um outro nível de relação fora-dentro que vai tornar a falsa “degeneração” modernista uma verdadeira evolução em estilo e em substância.
 
É este afastamento da idílica reflexão do sonho na paisagem exterior pela via crucis da metafisica que se começa a revelar logo no primeiro texto, da autoria de Fernando J. B. Martinho, sobre o poema “Quasi” de Álvaro de Campos. Com a mestria que lhe é reconhecida, este que é um dos decanos dos estudos Pessoanos, revela alguma ligações entre este poema e Tabacaria por exemplo - e como Pessoa caminha para a apropriação de uma linguagem menos “romântica” mais mais ansiosa. Mas há afinal que recordar que o próprio Pessoa nunca se viu modernista, provavelmente sempre ciente da sua imanente subjectividade projectada nas paisagens da sua escrita. Martinho ilustra este compromisso (por vezes indirectamente) através da presença das “personagens simples” nos poemas de Pessoa, tanto na “Tabacaria” como em “Ela canta, pobre ceifeira”.
 
De seguida Fernando Cabral Martins, ele também um insigne Pessoano já de muitas lidas, dá seguimento a esta ideia de evolução entre Romantismo e Modernismo em Pessoa, pegando agora no tema dos heterónimos. Defende-os o autor enquanto next step dos clássicos heróis românticos, porventura estilizados ao extremo. O aspecto performativo romântico - que Martins melhor identifica em Sá-Carneiro - também se espalhou a Pessoa, mas mais filosoficamente, tornando o eu nos outros-eus, mas sem lhe roubar a identidade, só lhe acrescentando dispersão afectiva. No entanto, se o romantismo é a base, também se lhe segue a negação - por exemplo em Caeiro, que renega a emoção na Natureza.
 
O texto seguinte pertence a Golgona Anghel, que fala de Pessoa enquanto “interruptor imprevisto”. Este conceito, puxado de um ensaio de Pessoa representa, para Anghel, o tal “estilhaçamento” que Martins já insinuava, mas agora particularizado no momento da criação poética. Aqui o romantismo parece interiorizar-se para o mistério da aparição da obra escrita ou a escrever-se, como um canal de acesso a um mistério que nunca se revela senão através de partes desconexas de si mesmo - a verdade existe e é visível mas nunca inteiramente acessível. O romantismo torna-se método amputado e o processo poético encena-se de dentro para dentro, mas com o mesmo drama de qualquer teatro heroico. Sinal, diz-nos ainda Anghel, de uma genialidade que sai da personalidade multiplicada mas depois estilhaçada, inadaptada, que leva o próprio leitor, subrepticiamente novamente ao acto da criação no momento da leitura..
 
Selvina Lopes apresenta de seguida uma exposição sobre Pessoa/campos e o cansaço de absoluto. Devo dizer que este ensaio me causou alguma problemas de leitura, na medida em que se foi tornando, tanto de difícil leitura e compreensão, como parecendo progressivamente enredar-se em si mesmo ao ponto de se tornar ilegível. Talvez numa segunda leitura mais tardia...
 
De seguida Patrícia Martins fala de Eterno Retorno e Alegoria em Pessoa. A autora indica a relação paradoxal entre passado e futuro, sobretudo vista a perspectiva do “eterno novo” modernista. A questão torna-se mais fina, na medida de definição do que será a “tradição” - e aqui o artigo de Martins parece tornar um rumo mais filológico que de crítica literária. No entanto a discussão continua interessante porque a autora nos fala do conceito de tempo em Pessoa e na forma negativa como o poeta aborda o que é novo - ele propõe-nos o novo negativamente, insinuando talvez que o passado não se deve renegar totalmente. Martins defende mesmo duas fases, entre Eterno Retorno e Alegoria, marcadas pela fronteira de 1928 (altura em que fica sozinho na Rua Coelho da Rocha). Será esta transição também desencantamento disfarçado de estilização...?
 
Carla Gago de seguida fala das modalidades românticas no projecto modernista de Pessoa. A discussão da autora vem no seguimento de alguns dos artigos anteriores, confrontando a aparente oposição entre romantismo e modernismo como coisas inconciliáveis ou mesmo contrárias. Gago diz-nos que alguns elementos em Pessoa podem confundir o leitor (ou o estudioso), nomeadamente o classicismo evidente na sua forma de escrever, a questão da organização, do fragmento, do pensamento tripartido e harmónico, da questão dramática e do apegamento a Shakespeare. Achei de grande interesse esta análise pormenorizada, que desenvolve alguns pontos já tocados anteriormente no volume.
 
Kenneth Jackson fala-nos, depois, de Pessoa e Whitman. Um ensaio de grande interesse e muito bem redigido (sem surpresa visto que Jackson escreveu um dos melhores, senão o melhor livro em Inglês sobre Pessoa - Adverse Genres in Fernando Pessoa), mas que não desenvolve a sua análise na direcção do romantismo Americano em relação com Pessoa, ficando pela influência de um sobre o outro o que acabou por ser redutor.
 
O volume termina com Judith Balso (em Francês, se bem que não se entende muito bem porquê), que fala de Pessoa e Leopardi. Devo dizer que Balso é uma estudiosa com raro insight sobre Pessoa (aliás, parece-me que não é Pessoano quer quer, mas apenas que o intui ser sem o perceber) e é desta forma que se lê muito bem o seu texto, nomeadamente na forma como ela parece entender mais organicamente (e menos artificialmente, academicamente) a forma como Pessoa constrói a tal “ficção íntima e interior” que define novamente esse género romântico, com as necessárias ramificações (sobretudo negativas).
 
Em resumo achei o volume bastante equilibrado, com uma ou outra falha de ritmo e continuidade, tocando um tema que não é comum nos estudos Pessoanos. Talvez peque apenas pelo tom demasiado formal da maioria dos textos, que pode afastar os interessados no Pessoa menos académico.   

Um agradecimento aos organizadores pelo envio de um exemplar para análise.

Participação na Maratona Fernando Pessoa na Rádio Movimento

30/5/2018

 
Tive o prazer de participar na Maratona Fernando Pessoa na Rádio Movimento, com Ricardo Belo de Morais. Vejam aqui o vídeo completo da minha participação: 

Homossexualidade e Homoerotismo em Fernando Pessoa - Uma Apreciação Crítica

17/3/2018

 
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Victor Correia apresenta-nos um novo volume sobre Pessoa e o tema da homosexualidade e homoerotismo, depois de já ter publicado em 2016 "Fernando Pessoa, a homosexualidade, a identidade de género, e as mulheres". 

Não sendo um estrito volume ensaístico - é uma antologia - podemos no entanto dizer que o autor agora se "atreveu" a aprofundar muito mais a sua visão quanto ao tema, ao incluir um prefácio com cerca de 100 páginas, que acaba por constituir quase uma obra dentro da obra. 


Nessas 100 páginas, o autor começa por identificar conceitos (e preconceitos) só para depois começar a falar do tea em Pessoa. E quando começa, diz que poucos ou nenhuns estudos abordaram a questão da homosexualidade em Pessoa. Em concreto terá razão, mas o tema foi por exemplo tocado quer por mim, quer por exemplo por Teresa Rita Lopes em termos bem práticos da sexualidade Pessoana - nomeadamente que a preocupação dele era, de maneira simples, arranjar maneira de deixar de ser virgem e não propriamente de se assumir homosexual. Não é um pormenor de somenos que Pessoa escreve no seu diário de 28 de Março de 1906 ter de ser circuncidado antes de ir a Inglaterra... afinal para quê senão para deixar de ser virgem de forma heterosexual? 

Que fique claro que me é de todo indiferente que Pessoa tenha sido homosexual ou não. Victor Correia, no entanto, considera que o "elemento homosexual" é fundamental na obra de Pessoa. Uma visão altamente redutora de Pessoa, que antes de poeta foi um indivíduo, com um corpo. Quer isto dizer que não tenha sido exposto à homosexualidade? Certamente que não. É bastante provável que tenha sido exposto no colégio na África do Sul e com certeza mais tarde com escritores e artísticas que frequentavam as tertúlias em que participava. Mas é esta "angústia" de não poder concretizar a sua homosexualidade o fio condutor da sua obra? É esta afinal a questão principal lançada por Victor Correia, sendo que ele defende uma resposta afirmativa sem grandes dúvidas.

O autor também acaba por defender - para se defender a si mesmo - que a relação com Ophélia acabou porque ele era homosexual... novamente demasiado redutor. Reforça, para alinhar com a sua teoria a realidade imanente, o misogenismo de Pessoa e a sua aversão às mulheres. Até Sá-Caarneiro é arrastado enquanto correspodente do mesmo sexo... O prefácio, em resumo, lê-se, se não tivermos cuidado, como um revisonismo mal intencionado e demasiado forçado para que possamos ler a antologia que o segue de forma ideologicamente acertada com a visão do autor. 

Penso que temos de ter muito cuidado ao ler este livro porque se torna perigoso para quem não conhece bem a obra de Pessoa e pode ser facilmente manipulado. Mais uma vez digo que nada há de mal em Pessoa ter sido ou não homosexual, mas parece-me que há já muito mal em tentar dar a entender que essa "frustração" se torna um tema essencial para uma vida e uma obra como a dele - só mesmo quem não investigou de forma séria a sua vida, não apenas o que ele escreveu, pode dizer isso. 

Agradecemos ao autor o envio de um exemplar para análise. Este volume pode ser adquirido aqui. 

Uma tradução peculiar do Livro do Desassossego

15/1/2018

 
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Quando li acidentalmente um fragmento de uma tradução Inglesa do Livro do Desassossego, fiquei absolutamente espantado. Falava de coisas em que eu já tinha pensado, expressando-as de forma tão poderosa, tão bela, tão original. Decidi logo traduzir esse fragmento para Albanês, para o contemplar na minha língua natal, de modo a senti-lo mais intimamente, de mais perto. Era 1999 e eu estudava linguística na UCL University em Londres. Mais tarde decidi traduzir todo o Livro, para ter a certeza que lia, estudava, compreendia - e talvez internalizasse - o seu inteiro conteúdo. 

Não falo Português, mas não podia simplesmente basear-me numa tradução para fazer a minha; como poderia saber então se estava verdadeiramente a traduzir Pessoa? Então decidi consultar o original. Felizmente o Português é uma língua Romanesca e analisar estruturas línguisticas era exactamente o que eu fazia nessa altura. 
 
Para me guiar na descodificação do texto original, para cada fragmento que lia, eu ia ver a página correspondente nas traduções para Inglês de Richard Zenith, a primeira e a segunda, para estudar as diferenças, e depois a tradução de Margaret Jul Costa, desta vez a versão completa, e Alfred Mac Adam, sempre que o fragmento estava nesta última. Ao longo do tempo, acrescentei a esta lista Le Livre de L'intranquilité de Françoise Laye, que sinceramente só usava quando o significado a frase original era obscura, e precisava de obter o máximo de leituras possíveis da mesma. Recentemente, tendo encontrado-a online, comecei a usar também a tradução Croata de Tatjana Tarburk. 
 
Para além destas referências, consultei a tradução Google do fragmento para Inglês. Assim eu obtenho ainda mais uma tradução, se bem que literal. Há mesmo assim algo a aprender desta tradução, sobretudo porque o Google melhorou incrivelmente nos últimos anos. No ínicio eu costumava escrever manualmente os fragmentos, copiando-os palavra a palavra, primeiro da segunda edição das Publicações Europa-América, depois das terceira e quarta edições do Livro do Desassossego pela Assírio & Alvim, mas desde que o arquivopessoa.net ficou disponível eu passei a copiar directamente os fragmentos dali. Agora, desde o fantástico Arquivo LdoD ficou disponível online, eu encontro os fragmentos ali e posso até compará-los entre diferentes cópias face aos facsimiles. 
 
Para avançar com a descodificação do original, também verifico quase todas as palavras no dicionário online de Português da Priberam. Respect para aqueles que o mantêm. Dá-me, entre outras coisas, o paradigma da conjugação para cada verbo. E, quando Pessoa diz coisas como "aquela rapaz", posso também usar o pronome demonstrativo feminino ao lado do nome masculino em Albanês, sendo uma característica que nenhuma tradução Inglesa consegue mostrar. Também copio os diferentes significados listados no dicionário Priberam para as palavras pesquisadas para o Google Translate. Verifico aqueles significados versus as palavras usadas por outros tradutores. 
 
Quando as frases e as noções por detrás delas se tornam claras, traduzo-as, usando nove diferentes dicionários, tanto bilinguais como monolinguais, impressos e online. Frequentamente ajudam-me a encontrar a palavra Albanesa exacta que eu sei existe mas da qual não me consigo lembrar naquele momento preciso. Para confrontar Pessoa com uma língua correspodente, li dezenas de autores Albaneses - a maioria dos quais clássicos - tirando notas, sublinhando palavras e usando-as, quando apropriadas, nas minhas traduções. 
 
Presto particular atenção ao ritmo Pessoano, desafiando-me a usar uma linguagem tão concisa como a que ele usa. Por exemplo, se a água do Tejo é descrita como sendo de um "azul esverdeado a ouro", fico atento para não usar uma tradução demasiado loquaz que poderia tornar a frase prosaica. Por ser uma linguagem inflectida, o Albanês tem uma sintaxe fluida, e por isso posso manter a suberba sintaxe de Pessoa, de frases fragmentárias e misturadas.
 
São de grande importância para mim as imagens que Pessoa descreve. Quero que elas sondem tão vívidas na minha tradução como são no original. Fecho os olhos e vejo-me a andar nas ruas da Baixa de Lisboa, os pavimentos peculiares, os vendedores de rua, os azulejos nas paredes dos prédios, os cantores de fado na rua, os eléctricos, o Tejo mais ao longe e o Castelo alto na colina. Até fui a Lisboa em Maio de 2004 para ver tudo em primeira-mão. Tirei fotos da sua máquina de escrever, tomei um café sentado ao lado da sua estátua no Café A Brasileira, jantei no Martinho da Arcada onde grande parte do livro foi escrito, encontrei o especialista Pessoano Richard Zenith, fui ver o túmulo de Pessoa no Mosteiro dos Jerónimos e até escolhi um quarto no quarto andar de uma pensão na Rua dos Douradores, só para ver com os próprios olhos a vista que Bernardo Soares tinha da sua janela. Para minha surpresa, Lisboa era um local estranhamente ensolarado, sendo a única chuva o meu desejo por ela. 
 
Eu reli e editei os meus fragmentos uma e outra vez, tentando colocar de forma mais clara a imagética, num Albanês tão idiomático e fluente quanto possível. É um processo demorado e muitas vezes tormentoso. Por vezes há frases com treze ou mais linhas no original, e levo até seis horas para conseguir escrutiná-las e traduzi-las. No entanto, a melhor recompensa que tenho são as opiniões de pessoas que valorizo que me dizendo-me que os fragmentos parecem escritos originalmente em Albanês. O processo tem, tenho de o admitir, ficado mais fácil ao longo dos anos, enquanto a minha capacidade de ler passivamente o Português melhorou devido a esta práctica rigososa. Publiquei partes da minha tradução em diferentes revistas literárias, apresentando Pessoa a leitores que o mal conheciam. 
 
 A minha tradução do Livro do Desassossego, até certo ponto, partilha o destino do trabalho original. Como o original, composto de fragmentos ao longo de vinte anos, a tradução compõem-se de fragmentos traduzidos ao longo de quase vinte anos. Pessoa ele mesmo tinha abandonado o livro durante quase todos os anos de 1920, e eu abandonei a tradução durante mais de uma década. O livro dele é considerado a sua obra-mestra; a minha traduçã é até agora o mais ardente trabalho a que me propus na minha inteira carreira de tradutor. 

Restam agora menos de setenta páginas à espera de serem traduzidas. No entanto, sendo capaz de dedicar à tradução apenas certos fins-de-semana e férias, e dada a minha mania de dissecar todos os pormenores, a mesma irá levar-me certamente bem para o fim de 2019. Então terei também 47 anos, a idade que Pessoa tinha quando escreve os últimos fragmentos do seu livro, devido à sua prematura morte. Espero sinceramente que a analogia não contnue a aplicar-se mais do que até agora. 

Já me sinto, com o fim a aproximar-se, não só triste, mas com uma saudade Pessoana - será uma partida de um mundo que se tornou um abrigo, uma forma de "sair da minha própria existência para me encontrar". Pessoa ele mesmo tem sido mais do que um companheiro, um verdadeiro amigo intímo e, mais do que tudo, um professor.  
 
Decidi que não seria uma despedida, no fim de tudo, quer de Pessoa quer da minha nova capacidade de entender e traduzir o Português escrito. Já planeiro traduzir O Banqueiro Anarquista, como a meu próximo projecto Pessoano. 

Também planeiro regressar a Lisboa quando a tradução for publicada, para deixar uma cópia na biblioteca da Casa Fernando Pessoa para que se junto a tantas outras traduções em diferentes línguas que já se encontram lá. Gostava de me encontrar com tantos amantes de Pessoa qanto fosse possível e partilhar com eles a minha história. Tentarei porém vir no início da Primavera ou no Outono. Espero que chova. 

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Gazi Bërlajolli é um linguista, tradutor e editor Albanês que vive em Prishtina, a capital do Kosovo. Fala Albanês, Inglês, Croata, algum Francês e Turco, mas não Português. No entanto embarcou num ambicioso projecto: traduzir o Livro do Desassosego de Fernando Pessoa directamente do Português. Podem contactá-lo através do email: gberlajolli@gmail.com

Pessoa Filósofo - revelando o sistema filosófico Pessoano

26/12/2017

 
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Trabalho com a obra de Fernando Pessoa há mais de uma década. O meu fascínio inicial com Pessoa foi filosófico e teve a ver com a atitude de Pessoa perante a vida - uma atitude não contemplativa mas antes combativa, de uma forma simultaneamente reaccionária e não-violenta. 

Passados estes anos e com a publicação hoje do livro que termina o meu projecto, Pessoa Filósofo - tinha planeado escrever livros sobre os principais heterónimos eu um livro final sobre a filosofia em Pessoa, tendo acabado por escrever mais dois, um sobre o Livro do Desassossego e um sobre a Mensagem - a minha intuição inicial faz um renovado sentido. 

A maior parte dos investigadores indicam a novidade de Pessoa sobretudo no facto dele ter "inventado" os heterónimos e criado relações entre eles, biografias e vidas, que excluiam Pessoa ortónimo. Hoje em dia percebo que a invenção teve mais a ver com o propósito de atingir um conhecimento proibido do que um mero exercício poético de génio. O Prof. António Quadros já tinha intuido isto mesmo, quando classificou a vida de Pessoa em períodos de descoberta filosófica quando compilou os seus escritos na área. Mas era necessário ir mais além...

Era sobretudo necessário olhar por detrás da cortina dos heterónimos e descobrir um método, uma organização e um objectivo. Isto foi feito gradualmente, analisando cada um dos heterónimos - começando com Caeiro, o Mestre - e progressivamente deixando cair cada uma das propriedades associadas aos seus pensamentos. Sabemos finalmente que eles não são mais do que desconstrução de Pessoa, uma ilusão em si mesma que impede que olhemos para o que é a verdadeira filosofia, o verdadeiro pensamento-base. 

É esse pensamento-base que se nos apresenta revolucionário. Como constrói personalidades, Pessoa constrói mais, inteiras civilizações e realidades interiores. Como o faz traz-nos novas maneiras de olhar para a linguagem, desafiando as escolas lógicas contemporâneas e a própria possibilidade de renascimento da filosofia subjectiva. A sensação, o sonho, a inacção, tudo conceitos vistos até agora de forma solta e que, concertados, se reunem num pensamento verdadeiramente revolucionário - onde não existem limites e onde é possível até atingir o conhecimento total de todas as coisas. 

Se antes existiam dúvidas sobre a existência de uma filosofia Pessoana, o meu propósito é que os estudos que publiquei revelem que Pessoa, mesmo sem o saber, era e sempre será essencialmente filósofo. Inovador na forma como usou a poesia enquanto linguagem do inefável, na fronteira do incrível e à beira de inventar não heterónimos mas uma nova forma de pensar.
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