2 Dedos de Conversa
... sobre o que nos desaquieta
21 maio 2019
tão polivalente que até é o barbeiro de Sevilha
Ontem fui ver o Barbeiro de Sevilha na Deutsche Oper, com a música de Rossini um bocadinho atropelada pelo exagero da encenação de Katharina Thalbach: ele é um burro, ele é um tractor, ele é um grupinho de freiras a chocar umas nas outras, ele é crianças na praia durante a noite, ele é fatos de banho do séc. XXI, ele é roupinhas barrocas, ele é um Figaro armado em artista de circo, ele é uma profusão de cenas de sexo bastante explícitas (podia dar-se o caso de o público não perceber nas entrelinhas da música ao que é que aquela gente toda vem).
A ópera bufa foi bastante mais bufa que ópera, e portanto rimo-nos muito - lá disso não nos podemos queixar. De facto, já nos estávamos a rir ao fim de meia dúzia de compassos da abertura.
Mas o mais interessante de tudo foi o cantor que fazia o Figaro. Passei a ópera inteira convencida que era o... tã tã tarãããã... Hugo van der Ding!
Se não era ele, então era o Mathew Newlin por ele. Mas eu jurarei a pés juntos que ontem foi o Hugo van der Ding quem cantou na Deutsche Oper em Berlim.
"gamela"
Na
casa do Minho da minha infância a cozinha era o centro da casa, e
metade dela era a chaminé, com o chão feito de enormes lajes de pedra.
Sob a chaminé havia: à esquerda o forno do pão, ao lado deste a lareira
que se reacendia de manhã bufando às brasas que tinham sobrado da
véspera, e o eterno pote com água quente; à direita ficava a dala de granito. Ao lado da dala,
e já fora da chaminé, era o lugar do balde da lavadura, por baixo da
cantareira onde havia sempre água do poço guardada em cântaros de barro.
Havia duas gamelas na dala, e serviam para lavar a louça. Tinham um toque aveludado e húmido de tanta água engordurada que por elas tinha passado, e eu achava-as nojentas.
Depois das refeições, a Bina (que em rapariguinha fora trabalhar para casa da minha avó, e lá ficou até morrer, acumulando discretamente as condições de serva da casa e de membro oficioso da família) e a SeMaria (que era jornaleira, e trabalhava enquanto havia trabalho, às vezes perguntava-me quem lhe criaria a ela as filhas) enchiam as gamelas com água quente do pote, usando o caneco de lata da cantareira. Uma lavava e ia passando as peças directamente para as mãos da outra, que as enxugava num pano de linho e pousava na mesa ou na masseira, num vaivém tranquilo de tamancos no sobrado.
No Natal, e noutras festas grandes, iam buscar os pratos da Vista Alegre e os copos de cristal do baptizado do meu pai para pôr a mesa. Enquanto decorria a nossa consoada, a dala de granito enchia-se de pilhas de louça valiosa e frágil, e eu enchia-me de medo de que alguma coisa se partisse. Elas, não. Um a um, os cálices – o da água, o do vinho, o do champanhe, o do vinho do Porto e o minúsculo, que era da aguardente, mais os pratos de risquinhas azuis e douradas, mais a “terrina de trezentos anos” – passavam pela água das gamelas escuras e pelo pano branco, e voltavam para a cristaleira. Depois a SeMaria punha as gamelas a escorrer, embrulhava-se numa manta de lã, e saía para a noite e para o Natal das suas próprias filhas.
Não contem a ninguém, mas eu nasci no fim da Idade Média.
Havia duas gamelas na dala, e serviam para lavar a louça. Tinham um toque aveludado e húmido de tanta água engordurada que por elas tinha passado, e eu achava-as nojentas.
Depois das refeições, a Bina (que em rapariguinha fora trabalhar para casa da minha avó, e lá ficou até morrer, acumulando discretamente as condições de serva da casa e de membro oficioso da família) e a SeMaria (que era jornaleira, e trabalhava enquanto havia trabalho, às vezes perguntava-me quem lhe criaria a ela as filhas) enchiam as gamelas com água quente do pote, usando o caneco de lata da cantareira. Uma lavava e ia passando as peças directamente para as mãos da outra, que as enxugava num pano de linho e pousava na mesa ou na masseira, num vaivém tranquilo de tamancos no sobrado.
No Natal, e noutras festas grandes, iam buscar os pratos da Vista Alegre e os copos de cristal do baptizado do meu pai para pôr a mesa. Enquanto decorria a nossa consoada, a dala de granito enchia-se de pilhas de louça valiosa e frágil, e eu enchia-me de medo de que alguma coisa se partisse. Elas, não. Um a um, os cálices – o da água, o do vinho, o do champanhe, o do vinho do Porto e o minúsculo, que era da aguardente, mais os pratos de risquinhas azuis e douradas, mais a “terrina de trezentos anos” – passavam pela água das gamelas escuras e pelo pano branco, e voltavam para a cristaleira. Depois a SeMaria punha as gamelas a escorrer, embrulhava-se numa manta de lã, e saía para a noite e para o Natal das suas próprias filhas.
Não contem a ninguém, mas eu nasci no fim da Idade Média.
"filhos"
“Porque é que queremos ter #filhos?”, perguntou alguém na Enciclopédia Ilustrada, no dia em que se falou deste tema.
Porque é que quis ter filhos? Nunca me fiz essa pergunta. A questão nunca foi o porquê, mas o quanto, o quantos e o quando. Digam vocês, se quiserem: antes de se decidirem a ter um filho, perguntaram-se o porquê e o para quê?
Um amigo contou-me que, quando conheceu aquela que viria a ser a sua mulher, teve a percepção da presença dos filhos que esperavam por eles os dois para virem ao nosso mundo (espero que nenhuma pessoa do Porto leia a frase anterior, porque já imagino as piadinhas a que pode dar origem). Casaram, ela engravidou, e no sétimo mês de gestação o filho morreu-lhe no ventre. A equipa do hospital foi muito bruta: o corpo já em decomposição foi atirado para um caixote do lixo, sem que os pais tivessem a possibilidade de se despedirem do filho tão amado. Pouco depois surgiu na Alemanha uma iniciativa para lutar contra estes actos desumanos. Os meus amigos não conseguiram superar o trauma deste filho que desapareceu assim da vida deles, e a dor acabou por lhes destruir o casamento.
A Dolto fala da pulsão de vida que estará no âmago do mistério do orgasmo feminino. E eu, que sou do Porto, concluo logo que então o orgasmo múltiplo é sinal de a mulher – mesmo que não o saiba – querer ter muitos filhinhos.
“Muitos filhinhos”, como a Susaninha, que personifica um tipo de mãe fundada no “ter”. Os filhos como capital, a mãe como empresária de sucesso. E mesmo sem mudar de linha lembro as “empresárias de sucesso” do período nazi: as muito apreciadas mulheres que tinham mais de cinco filhos, produtoras dos arianos, fundamentais para a expansão e manutenção de um sistema ideológico tresloucado.
No outro extremo, ou melhor, num universo completamente diferente, está o poema de Khalil Gibran sobre os filhos:
“Os vossos filhos não são vossos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.”
Ou o título de um livro alemão que nunca li, mas cujo título me serviu de bússola: “os filhos são visitas que nos perguntam pelo caminho”. De facto, é mais que “perguntar pelo caminho”: os filhos são visitas que nos mostram caminhos que havia dentro de nós e não sabíamos. Lembro, por exemplo, aquelas noites em que um deles chorava por pesadelos ou doença, e eu ia ter com ele com uma sensação de ter sido "a escolhida" - nenhuma outra pessoa no mundo inteiro (excepto, vá, o pai) seria capaz de ajudar aquela criança melhor do que eu.
Tenho a sensação, a convicção, que os filhos já nos nascem prontos. O papel dos pais é não estragar demasiado. Claro que temos de educar (“não comas com as mãos”, “cumprimenta as visitas”, “fala mais baixo para não incomodar os vizinhos”, etc.) mas eles trazem dentro de si o mapa das suas possibilidades. E nós assistimos, maravilhados, a esses caminhos novos que eles desenham e que nos alargam a casa.
Como daquela vez que o Matthias, de cinco anos, parou no passeio para deixar passar pessoas que vinham na nossa direcção, e eu lhe disse que não era preciso parar, bastava chegar-se para o lado. “Parar é mais cortês”, respondeu ele, e eu nem sabia que ele conhecia essa palavra. Ou da outra vez, um ou dois anos mais tarde, quando ele foi limpar a neve da rua e limpou também até à porta do vizinho velhote, que tinha sido muito desagradável com ele. “Então tu limpas a neve desse vizinho que foi mau para ti?!”, perguntei eu, que sou muito rancorosa especialmente quando tratam mal os meus. “Sim, porque gosto de dar uma segunda oportunidade a toda a gente”, disse ele, e acrescentou: “e o que tu acabaste de dizer não é muito cristão.” Ou quando a Cristina começou a fazer baby-sitting com os gémeos da vizinha, e a mãe me perguntou: “que é que a tua filha fez ontem à tarde aos meus rapazes, que estavam tão felizes e equilibrados quando eu regressei a casa?” A Christina explicou-me: “cansei-os”.
Podia ficar o resto do dia nisto. Controlo-me para não contar mais nenhuma história, mas é difícil, porque os filhos são visitas que nos enchem a vida de caminhos novos e de recordações felizes.
--
Na foto: a Christina de dois anos a dar a si própria uma demão de mousse de chocolate, eu descansadinha da vida porque o vestido que levou àquele casamento estava bem protegido por uma bata de pintar, e o Matthias a cinco meses de nos vir mudar a vida para ainda melhor.
Porque é que quis ter filhos? Nunca me fiz essa pergunta. A questão nunca foi o porquê, mas o quanto, o quantos e o quando. Digam vocês, se quiserem: antes de se decidirem a ter um filho, perguntaram-se o porquê e o para quê?
Um amigo contou-me que, quando conheceu aquela que viria a ser a sua mulher, teve a percepção da presença dos filhos que esperavam por eles os dois para virem ao nosso mundo (espero que nenhuma pessoa do Porto leia a frase anterior, porque já imagino as piadinhas a que pode dar origem). Casaram, ela engravidou, e no sétimo mês de gestação o filho morreu-lhe no ventre. A equipa do hospital foi muito bruta: o corpo já em decomposição foi atirado para um caixote do lixo, sem que os pais tivessem a possibilidade de se despedirem do filho tão amado. Pouco depois surgiu na Alemanha uma iniciativa para lutar contra estes actos desumanos. Os meus amigos não conseguiram superar o trauma deste filho que desapareceu assim da vida deles, e a dor acabou por lhes destruir o casamento.
A Dolto fala da pulsão de vida que estará no âmago do mistério do orgasmo feminino. E eu, que sou do Porto, concluo logo que então o orgasmo múltiplo é sinal de a mulher – mesmo que não o saiba – querer ter muitos filhinhos.
“Muitos filhinhos”, como a Susaninha, que personifica um tipo de mãe fundada no “ter”. Os filhos como capital, a mãe como empresária de sucesso. E mesmo sem mudar de linha lembro as “empresárias de sucesso” do período nazi: as muito apreciadas mulheres que tinham mais de cinco filhos, produtoras dos arianos, fundamentais para a expansão e manutenção de um sistema ideológico tresloucado.
No outro extremo, ou melhor, num universo completamente diferente, está o poema de Khalil Gibran sobre os filhos:
“Os vossos filhos não são vossos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.”
Ou o título de um livro alemão que nunca li, mas cujo título me serviu de bússola: “os filhos são visitas que nos perguntam pelo caminho”. De facto, é mais que “perguntar pelo caminho”: os filhos são visitas que nos mostram caminhos que havia dentro de nós e não sabíamos. Lembro, por exemplo, aquelas noites em que um deles chorava por pesadelos ou doença, e eu ia ter com ele com uma sensação de ter sido "a escolhida" - nenhuma outra pessoa no mundo inteiro (excepto, vá, o pai) seria capaz de ajudar aquela criança melhor do que eu.
Tenho a sensação, a convicção, que os filhos já nos nascem prontos. O papel dos pais é não estragar demasiado. Claro que temos de educar (“não comas com as mãos”, “cumprimenta as visitas”, “fala mais baixo para não incomodar os vizinhos”, etc.) mas eles trazem dentro de si o mapa das suas possibilidades. E nós assistimos, maravilhados, a esses caminhos novos que eles desenham e que nos alargam a casa.
Como daquela vez que o Matthias, de cinco anos, parou no passeio para deixar passar pessoas que vinham na nossa direcção, e eu lhe disse que não era preciso parar, bastava chegar-se para o lado. “Parar é mais cortês”, respondeu ele, e eu nem sabia que ele conhecia essa palavra. Ou da outra vez, um ou dois anos mais tarde, quando ele foi limpar a neve da rua e limpou também até à porta do vizinho velhote, que tinha sido muito desagradável com ele. “Então tu limpas a neve desse vizinho que foi mau para ti?!”, perguntei eu, que sou muito rancorosa especialmente quando tratam mal os meus. “Sim, porque gosto de dar uma segunda oportunidade a toda a gente”, disse ele, e acrescentou: “e o que tu acabaste de dizer não é muito cristão.” Ou quando a Cristina começou a fazer baby-sitting com os gémeos da vizinha, e a mãe me perguntou: “que é que a tua filha fez ontem à tarde aos meus rapazes, que estavam tão felizes e equilibrados quando eu regressei a casa?” A Christina explicou-me: “cansei-os”.
Podia ficar o resto do dia nisto. Controlo-me para não contar mais nenhuma história, mas é difícil, porque os filhos são visitas que nos enchem a vida de caminhos novos e de recordações felizes.
--
Na foto: a Christina de dois anos a dar a si própria uma demão de mousse de chocolate, eu descansadinha da vida porque o vestido que levou àquele casamento estava bem protegido por uma bata de pintar, e o Matthias a cinco meses de nos vir mudar a vida para ainda melhor.
18 maio 2019
histórias de família
Mais recordações lá dos confins do blogue:
A meio de uma
frase, a Christina estaca e pergunta:
- Como é que
se chama um poeta da música?
Eu nem entendi
a pergunta, mas o Matthias respondeu logo:
- Compositor.
***
Conversa ao jantar:
Christina: Mãe, viste o postal na casa de banho de Barbara, onde se lia "adoro ser mulher, posso chorar quando me apetece, vestir roupa bonita e, em caso de naufrágio, sou a primeira a saltar para o salva-vidas"?
Eu: Vi.
Matthias: Porquê?! Porque é que as mulheres se salvam primeiro?
Christina: Porque é assim, e pronto.
Eu: Então, Matthias, como é que te sentias se, em caso de naufrágio, saltasses logo para o salva-vidas e deixasses a tua mulher e os teus filhos para trás?
Matthias, ainda mais zangado: E como é que a minha mulher se sentia se se salvasse e me deixasse para trás?
Christina, já a pensar noutra coisa qualquer: Melhor seria um casal de lésbicas, salvava-se marido e mulher, a bem dizer.
(cá para nós: quanto mais penso no caso, mais me parece que o Matthias, nos seus seis anos, estava cheio de razão)
Christina: Mãe, viste o postal na casa de banho de Barbara, onde se lia "adoro ser mulher, posso chorar quando me apetece, vestir roupa bonita e, em caso de naufrágio, sou a primeira a saltar para o salva-vidas"?
Eu: Vi.
Matthias: Porquê?! Porque é que as mulheres se salvam primeiro?
Christina: Porque é assim, e pronto.
Eu: Então, Matthias, como é que te sentias se, em caso de naufrágio, saltasses logo para o salva-vidas e deixasses a tua mulher e os teus filhos para trás?
Matthias, ainda mais zangado: E como é que a minha mulher se sentia se se salvasse e me deixasse para trás?
Christina, já a pensar noutra coisa qualquer: Melhor seria um casal de lésbicas, salvava-se marido e mulher, a bem dizer.
(cá para nós: quanto mais penso no caso, mais me parece que o Matthias, nos seus seis anos, estava cheio de razão)
***
Lógica das
sobrinhas gémeas:
Como de
costume, chamei uma delas pelo nome da outra, e ela reagiu logo:
- Eu sou a
Leonor! Eu sou a Leonor, puque... puque... puque...
E eu, realmente
curiosa:
- Porquê?
- Puque o meu
nome é diferente!!!
E a irmã,
muito despachada:
- O meu nome
também é diferente!
Tempos houve
em que a Leonor sabia que era a Leonor porque a madrinha dela era a tia Xana.
***
E também há
aquela pergunta, um clássico:
"Mãe,
hoje é o amanhã de ontem?"
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baú de recordações
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