terça-feira, 21 de maio de 2019

Entre duas esferas

Na obra Conceito Rosacruz do Cosmo, Max Heindel refere que o corpo humano foi, no passado remoto, idêntico a uma esfera, surgindo curvado para dentro (à semelhança do que sucede na vida intra-uterina), e que, no futuro, se converterá, gradualmente, noutra esfera, mas curvado para fora. Talvez em virtude da condição vertical – provisória e imperfeita – nos faltem maturidade de intelecto e curvatura inversa suficientes para entender teorias deste género. Embora preservem a cabeça, o tronco e os membros, elas correm sério risco de parecer que não têm pés nem cabeça.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

A vitória sobre si mesmo

A vitória sobre si mesmo deve ser o único exemplo de triunfo que não implica nenhum dos seguintes aspectos: os festejos mais ou menos delirantes, o regozijo pela derrota alheia e o orgulho inerente ao êxito. Aliás, a vitória sobre si mesmo é tão estranha que, uma vez alcançada, deixa a sensação de que não houve, no fundo, qualquer vitória, porque o si mesmo, em rigor, nunca existiu.

domingo, 19 de maio de 2019

Turismo sepulcral

Consta que virou moda a visita guiada a cemitérios. Para lá de gerar benefícios culturais, trata-se de uma forma simbólica de atenuar o efeito psicológico de duas circunstâncias pouco animadoras: o facto de a morte constituir uma experiência alegadamente solitária e o facto de o Além ainda não ser uma região turística.

sábado, 18 de maio de 2019

Memórias sem cérebro

Um dos pressupostos de qualquer teoria de pendor reencarnacionista consiste em admitir a existência de memórias que subsistem após a morte do cérebro. Mas isto suscita várias questões, entre as quais a seguinte: com que aspecto aparecem tais memórias a uma eventual testemunha a quem elas nunca tenham pertencido? Tentativas de resposta convidam ao devaneio. Porém, toda a memória é sempre memória de alguma coisa, implicando uma interioridade que suporta e representa, com maior ou menor emoção, certa exterioridade que um dia se integrou na vivência. Ora, se aquelas memórias e a sua observação neutral forem possíveis em simultâneo, então é igualmente possível ver a partir de fora algo que apenas pode ser visto a partir de dentro.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Suprimir a vírgula

Frequentemente se despreza, em especial no subcontinente dos comentários, o uso da vírgula para isolar o vocativo. Daí a ambiguidade de frases como «Beijinho grande amiga», embora neste exemplo seja maior a probabilidade de a grandeza pertencer à amiga, visto o beijo aparecer em diminutivo. Mas deve existir uma explicação de carácter psicológico para tal fenómeno: a Internet permite e até exige tanta proximidade que a vírgula representará, no caso do vocativo, um tropeço à expressão emocional, um corpo adverso às irrupções da alma, um empecilho hostil para o afecto.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

História e auto-referência

Em finais do século XIX, Joris-Karl Huysmans declarava (através de Durtal, seu alter ego) ser a história «a mais solene das mentiras, o mais infantil dos logros». Aludia, claro, à interpretação do caudal de factos e intenções que forma a substância do passado. Mas qualquer asserção sobre a história ou a historiografia é auto-referencial, justamente pela inevitabilidade do seu carácter histórico. Por isso, a afirmação de Huysmans é igualmente, à sua maneira, «logro infantil» e «mentira solene». E o que dela se acaba de dizer é também, a seu modo, «mentira solene» e «logro infantil».

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Vacuidade

De acordo com o filósofo budista Nāgārjuna, todas as coisas são desprovidas de existência intrínseca, substancial, independente. A natureza última do real é a vacuidade. «Como alguém soterrado sob um muro que se desmoronasse, jazo sob a vacuidade tombada do universo inteiro», escreveu Bernardo Soares. Jazer sob a vacuidade universal pode levar ao tédio, mas não à asfixia. Aliás, talvez seja essa inclusive a situação em que potencialmente melhor se respira.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Retrospecção

Especialistas em ocultismo destacam os benefícios psicológicos e espirituais de um exercício chamado retrospecção. Trata-se de recordar, à noite, os acontecimentos do dia, só que por ordem inversa. Isto implica, no entanto, individualizar tais acontecimentos e, por conseguinte, representar mentalmente cada um deles na sua ordem normal. Para ir mais além exigir-se-ia a completa subversão das leis da natureza e do psiquismo, ante a qual a reprodução de um vídeo ao contrário não constitui senão uma caricatura. Em suma, ainda que seja possível rever acontecimentos por ordem inversa, não parece exequível rever a ordem inversa de cada acontecimento. Esta conclusão dificulta o exercício retrospectivo da lembrança, mas facilita o movimento prospectivo do sono.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Acção e contemplação

Notar apenas a diferença – ou, no limite, a oposição – entre o agir e o contemplar pressupõe nunca se ter atingido aquele ponto em que, agindo, se contempla o ritual do agir e, contemplando, se age sobre o objecto contemplado. Ambos os processos exigem óbvio distanciamento, permitindo que o sujeito não se prenda a uma conduta como às calças adere a pastilha elástica, nem mergulhe no êxtase como em frasco de mel se envisca uma formiga tonta.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Involuntariamente

Admitamos esta tese de Fernando Pessoa: «Todo começo é involuntário.» Sendo assim, convém, antes de principiar algo, manter no espírito uma pequena abertura para que o involuntário se manifeste: indivíduos completamente cheios de vontade não se acham em condições de iniciar nada de relevante. Em resposta à narração do milagre de São Dionísio, feita pelo arcebispo de Paris, que sublinhava o facto de o santo, depois de decapitado, ter recolhido a própria cabeça do solo, transportando-a, sem perda de compostura, até ao local onde hoje se situa a sua igreja, a marquesa du Deffand disse que nesses casos o mais difícil é dar o primeiro passo. Mas num decapitado tudo se anuncia involuntário. Mais difícil, para ele, do que dar o primeiro passo é dar o segundo.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Problemas do túnel

Uma questão séria sugerida pelas ditas «experiências de quase morte», e que associa temas metafísicos a técnicas da construção, é a de saber se o famoso túnel nelas descrito possui uma natureza subjectiva e intransmissível ou objectiva e partilhável. Mas qualquer dos casos comporta potenciais desvantagens. O primeiro pode suscitar comparações abusivas, com alguém a considerar o seu túnel melhor do que os restantes, acrescentando, assim, mais uma chatice às muitas que já atormentam o ego. O segundo, mesmo se improvável, pode levantar problemas relativos ao tráfego, em ambos os sentidos do túnel (visto não estarmos perante uma auto-estrada), com risco de surgirem injúrias, apitadelas e atrasos. Para fugir aos dois inconvenientes, é recomendável ir por fora.

terça-feira, 7 de maio de 2019

Substituir a questão

Em cérebros que se prezem, a questão de saber se o dinheiro traz ou não a felicidade deveria ser substituída pela de saber se o dinheiro pode ou não minimizar a infelicidade. As implicações psicológicas e práticas divergem: a primeira questão parte de algo que o sujeito deseja obter, obrigando-o a projectar-se num ideal vazio; a segunda pressupõe algo de que pessoa se tenciona libertar, conduzindo-a subtilmente em direcção a si mesma.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Uma hipótese

Elisabeth Kübler-Ross considerava que os doentes em estado terminal passam, em regra, por cinco fases: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Por isso, é natural que a morte, nestes casos, ocorra sem protesto. Hipótese a examinar: talvez o feto, nos últimos tempos de gestação, experimente as mesmas fases, mas por ordem inversa. Primeiro, ele aceita a ideia de vir ao mundo, inclusive com certo orgulho; depois, tendo pensado muito sobre essa possibilidade, fica deprimido; em seguida, tenta negociar com suposta divindade mais uns meses de permanência no útero; baldado o esforço, o próximo exercício consistirá em zangar-se contra tudo e todos; por fim, só lhe resta negar que lhe sucederá tal sorte. É natural, por isso, que ele proteste ao nascer.

domingo, 5 de maio de 2019

Marcadores de livros

Sabe-se que no meio dos livros usados aparecem, com frequência, marcadores eventualmente estranhos: receitas médicas, santinhos, lenços de papel, folhas de tília, postais, notas, cartas, recortes de jornal, embalagens de comprimidos, etc. Trata-se de objectos tão contingentes que até o mais escrupuloso leitor se poderá interrogar se, moral ou juridicamente, é ou não legítimo apropriar-se deles sem pedir autorização ao alfarrabista e, de igual modo, se é ou não legítimo que este os retire durante o acto de compra. São dúvidas compreensíveis, suscitadas por coisas marcantes e sem preço.

sábado, 4 de maio de 2019

O melhor e o menos mau

Dizer, como Leibniz, que vivemos no melhor de entre uma infinidade de mundos possíveis não difere muito de declarar que, de entre uma infinidade de mundos possíveis, vivemos no menos mau. No entanto, a representação com que se fica do Criador diverge: a primeira afirmação sugere que o Todo-Poderoso, após ter ouvido uma série indeterminada de hipotéticas melodias, decidiu tornar real aquela que o maravilhou mais; a segunda insinua que o Altíssimo, depois de ter visualizado um número indefinido de filmes de terror, optou por materializar aquele que o assustou menos.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Obediência à beira do rio

«Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.» E Lídia foi. «Sossegadamente fitemos o seu curso…» E Lídia, em sossego, fitou. «(Enlacemos as mãos.)» E Lídia aquiesceu. «Depois pensemos, crianças adultas…» E Lídia pensou. «Desenlacemos as mãos…» E Lídia concordou. «Amemo-nos tranquilamente…» E Lídia assim fez. «Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as / No colo…» E Lídia tudo executou sem queixa. Com tal submissão e obediência, Lídia viria facilmente, se morresse antes do poeta, a ser «suave à memória» de Ricardo Reis. «Pagã triste e com flores no regaço», ela não teria grandes razões para se alegrar.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Luz e fogo

Antero conclui um dos sonetos com o verso: «Tu, pensamento, não és fogo, és luz!» Podemos inferir daí que os pensamentos iluminam sem queimar. Há, no entanto, sérios contra-exemplos a esta ideia, desde alguns pensamentos concebidos pelo próprio Antero, que adquiriram um negrume suficiente para o levarem ao suicídio, a certos pensamentos existentes no cérebro dos pirómanos, que tendem a converter-se em sinuosas e indomáveis labaredas.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Teorias lunáticas

No início do capítulo nono do seu livro Reencarnação – um Exame Crítico, Paul Edwards escreve: «As teorias lunáticas podem dividir-se em duas categorias – as enfadonhas e as engraçadas.» O autor considera modelo das primeiras as afirmações de Heidegger acerca da morte e exemplo das segundas a teoria do corpo astral. Ora se o filósofo de Ser e Tempo se houvesse dedicado a elaborar uma doutrina sobre o corpo astral, teríamos como fruto previsível a síntese do tédio e do riso – ou a vontade de alguém se rir do seu próprio tédio. Mas talvez só o corpo astral, desde que separado do corpo físico, experimente uma vontade assim.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Desprender-se

Suponhamos que alguém, desde o momento em que deu os primeiros passos, foi exclusivamente habituado a andar às arrecuas. Enquanto os outros, no seu costumeiro caminhar, vêem as coisas a aproximarem-se, ele vê-las-ia a afastarem-se, desenvolvendo, assim, um forte antídoto contra o apego a objectos materiais. Claro que a metodologia pode ser aplicada por qualquer pessoa que esteja em condições de a acolher e que deseje cultivar, em relação ao mundo, um desprendimento gradual. Convém, no entanto, que durante o processo se tome o cuidado necessário para que o desprendimento não aconteça de maneira abrupta.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Implicações de um «déjà vu» ampliado

Uma das explicações para as experiências do «déjà vu» é que elas devem resultar, mais ou menos, de uma espécie de curto-circuito que faz com que a impressão atinja a memória a curto ou a longo prazo antes de se registar na memória sensorial. Admitamos a verdade, mesmo se obscura, da hipótese e imaginemos alguém que só existisse dessa forma, em curto-circuito neural constante. A vida de uma pessoa assim caracterizar-se-ia pela fuga inconsciente em direcção ao passado, pelo total desconhecimento do lado irrepetível do mundo e pela incompletude de residir nos espelhos quebrados do tempo. Seria um indivíduo sem futuro.

domingo, 28 de abril de 2019

Privacidade e aceitação

«Damos valor à sua privacidade.» E o internauta, sem ler o resto, clica na palavra «Aceito». Uma vez. Outra. Mais outra. Outra ainda. Indefinidamente. Assim, o indivíduo não só se convence de que a sua existência anónima tem grande relevância no mundo como desenvolve uma espécie de filosofia da aceitação – que o ajudará a suportar o impacto, ao descobrir a vastidão do engano.

sábado, 27 de abril de 2019

Intervalo

Um vídeo disponível na Internet revela-nos aquelas que foram as últimas frases do espírita e filósofo brasileiro Romeu de Toledo Zandoná, proferidas nos estúdios da Rádio Boa Nova e da TV Mundo Maior. A dada altura, após haver tecido certas considerações metafísicas, o homem faz uma curta pausa e diz: «Rapaz, eu tô sumindo.» E a cabeça tomba para o lado esquerdo. Ante o facto, o entrevistador reage com algumas palavras que se adequariam igualmente aos derradeiros instantes de uma vida, sobretudo se pronunciadas por um defensor da reencarnação: «A gente vai pro intervalo e volta já, já. Só um minutinho.»

(Vídeo completo aqui)

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Entre a dor e o tédio

Admitamos a tese de Schopenhauer segundo a qual a vida oscila, qual pêndulo, entre a dor e o tédio. Nesse caso, deverá existir um intervalo de tempo e uma porção de espaço em que não se verifique uma coisa nem outra, seja porque já passou a dor e ainda não chegou o tédio, seja porque já passou o tédio e ainda não chegou a dor. Esse desejável ponto, que as agências de viagens teimam em ignorar, coincide certamente com a fissura subtil que há entre dois pensamentos. Para o atingir e aí permanecer, torna-se necessário deter o movimento do pêndulo, mas sem pensar minimamente no assunto. Como resultado, alcança-se uma situação em que nem se está vivo, nem se está morto, nem sequer assim-assim.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Incógnita

Sentenciava La Bruyère que «não há no mundo senão duas maneiras de alguém se elevar: ou pelo seu próprio esforço ou pela imbecilidade alheia». Possivelmente estamos perante uma falsa dicotomia. É que subsiste ainda a incógnita sobre o que pode acontecer se a imbecilidade alheia interferir com o esforço do próprio. Em tal caso, sobretudo existindo bom aproveitamento, nem sequer se exclui a hipótese de ocorrer o dobro da elevação.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Inevitabilidades

Sabemo-lo, pelo menos, desde Benjamin Franklin: nada pode, neste mundo, ser tido como certo, excepto a morte e os impostos. A tais âmbitos de inevitabilidade será legítimo, hoje, acrescentar um terceiro: o das fake news. E a esfera da morte é a única das três virtualmente capaz de neutralizar as restantes – e inclusive de se anular a si mesma. A tal competência junta-se o facto de ela sugerir aspectos das outras duas: morrer é pagar tributo à matéria, e quase tudo o que se diz da morte é semelhante a uma notícia falsa.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Tratamento divino

Embora não por unanimidade, a Conferência Episcopal Portuguesa decidiu que, no Pai Nosso de uma nova tradução da Bíblia, Deus fosse tratado por Tu em vez de Vós. O assunto reveste-se de grande profundidade teológica, suscitando legítima controvérsia. Tal controvérsia perderá sentido se um dia o Altíssimo deixar de ser tratado por Vós ou por Tu e passar muito simplesmente, sem proximidade, nem esforço, nem distância, a ser tratado por Eu.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Falibilidade

Da mesma forma que (aceitando a ideia de Popper) só é possível considerar uma teoria como científica se ela for empiricamente falsificável, também só é possível considerar uma criatura como humana se ela for eticamente falível. Quem disser «Falhei em tudo!», mormente se isso acontecer uns segundos antes da morte, revela ter assimilado bem esse princípio e tê-lo concretizado ainda melhor – embora nada disso lhe traga particular consolo.

domingo, 21 de abril de 2019

A morte e a palavra

«Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar», diz-se num poema de Herberto em que se fala de um homem a correr pelo orvalho dentro. «Passar para onde?», perguntará o leitor. «Para uma nova palavra», responde o inolvidável poeta. Mudam-se as sílabas, alteram-se as significações, mas o fundo verbal permanece. De palavra em palavra se avança, até que se alcance o discurso perfeito. Ou até que se atinja o silêncio definitivo.

sábado, 20 de abril de 2019

A sílaba

A sílaba «Om» representa, em contexto hindu e também fora dele, o som primordial, o mantra do infinito, a origem do Universo, das constelações que o adornam, dos vazios inevitáveis e das formas que os tentam preencher – como um poema de Eugénio, por exemplo, inaugurado com o verso “Toda a manhã procurei uma sílaba”. Dessa busca, aparentemente, não resultou o efeito pretendido. Se o autor de Ofício de Paciência tivesse iniciado o dia a entoar o «Om», teria escrito uma coisa diferente, principiada talvez desta maneira: “Toda a manhã uma sílaba me procurou”. Se tal sílaba não o encontrasse, o problema seria apenas dela.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Negócio obscuro

É sabido que o negócio da venda e da compra de almas decorre à margem do regime fiscal, com grave prejuízo para a economia. Compreende-se, no entanto, que a situação se arraste. Por um lado, quem costuma comprar almas é o Diabo, e não parece haver coragem política para exigir o cumprimento das obrigações tributárias a uma criatura assim. Por outro lado, aqueles que vendem a alma – não segundo o modelo do pacto fáustico – fazem-no porque, normalmente, ela não se encontra em bom estado de conservação, tratando-se, pois, de despachar um artigo incómodo.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Aparições e pontualidade

Em obra sobre a temática das aparições, Erich von Däniken, relatando certo fenómeno ocorrido em Espanha em 1961, escreve que o Arcanjo Miguel compareceu precisamente às vinte, conforme avisara de manhã. E acrescenta que não é apenas Miguel a dispor da virtude da pontualidade: as aparições “adoram” indicar hora e local – e cumprir. Têm razões: a credibilidade inicia-se no respeito básico pelo tempo alheio. E há tanta afinidade entre a manifestação do sobrenatural e a obediência ao relógio que, se alguém nos habituou a jamais ser pontual e decide, um dia, chegar a horas, ficamos convencidos de estar diante de uma autêntica aparição.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Pancadas

Há vários casos documentados: pessoas que levam uma pancada na cabeça e, em consequência, adquirem extraordinárias habilidades numa área específica. Se for possível estabelecer cientificamente a relação entre formas de pancada e tipos de talento, então adivinha-se um futuro genial para a humanidade. Mas a categorização da pancada nunca será imune ao lado subjectivo de quem a recebe. Cada qual experimenta uma pancada muito própria.

terça-feira, 16 de abril de 2019

«Não querer»

«Não querer» não é necessariamente sinónimo de «recusar» ou «renunciar». Pode equivaler também a uma condição de indiferença. Quem recusa tem, com frequência, de se defender do objecto recusado. Quem se mantém indiferente encontra-se livre de uma obrigação desse género. A ataraxia – o estado de imperturbabilidade que alguns sábios gregos cultivaram e outros, não gregos, repetiram – parece misturar, em quantidades iguais, a indiferença e a recusa. Trata-se de um equilíbrio difícil que só o sábio, mergulhado nele, nunca achará perturbador.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

«Inacabar»

O vocábulo «inacabar» ainda não ganhou o estatuto de verbo. No entanto, ele poderá ter uma aplicabilidade plausível ao acto mental de descobrir falhas em algo supostamente concluído – ou ao acto físico de lhe alterar partes. «Acabar» é pôr pontos finais. «Inacabar» é pôr pontos de interrogação. No sétimo dia, com a criação terminada, o Universo abriu-se à possibilidade do inacabamento. Foi como se o Criador o colocasse diante de um espelho – e ele nunca se tivesse conseguido adaptar à sua própria imagem.

domingo, 14 de abril de 2019

Intelecto e sanidade

Em certa passagem da Divina Comédia, Dante dirige-se aos que têm «o intelecto são», pedindo-lhes para verem a doutrina escondida nos seus estranhos versos. Mas o conjunto dos que admitem possuir um «intelecto são» abrange dois subconjuntos: o daqueles que julgam que a sanidade do intelecto implica a obediência, sem mácula, às regras lógicas e o daqueles que sustentam que ela pressupõe a contínua ousadia de as quebrar. Ambos esquecem, com frequência, uma terceira hipótese: a de submeter o intelecto às leis do raciocínio se tal for obrigatório e de conseguir superá-las quando se achar conveniente. Quem decide isso, todavia, já não é o próprio intelecto, antes uma faculdade mais ampla, com outras aptidões. E não forçosamente com o mesmo grau de sanidade.

sábado, 13 de abril de 2019

Formas de arte e de vida

Na obra, publicada em 2000, From Dawn to Decadence, Jacques Barzun sublinhava que «as formas de arte, tal como as de vida, parecem esgotadas», implicando o repetido uso dos prefixos de rejeição «anti-» e «pós-». Quase dois decénios volvidos, teremos de concluir que elas já estão, de facto, esgotadas. Em 2040, encontrar-se-ão esgotadíssimas. Nessa altura só haverá movimentos «anti-algo» e «pós-algo». Aderir a eles constituirá a maneira mais comum de resistir ao tédio. Em 2060, ninguém se lembrará do assunto. Em 2080, o húmus do esquecimento, associado a reinvenções da linguagem, fará com que as formas de arte e de vida se mostrem de novo, e progressivamente, frescas e originais.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Hotel e infinitude

O paradoxo do Hotel de Hilbert coloca-nos perante um edifício de quartos infinitos em número, todos ocupados, havendo sempre quartos livres para novos hóspedes. O melhor de um hotel assim é que existe nele certamente um quarto, quiçá rente ao infinito, onde nunca morreu nem morrerá ninguém. Para atingir a imortalidade bastará entrar nesse aposento e ficar lá eternamente. Mas exigem-se três condições prévias: saber em que ponto do Cosmos se situa o hotel, ter a sorte de encontrar o quarto disponível e conseguir chegar aí enquanto ainda se está vivo.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Privacidade esburacada

Os buracos negros sempre foram o paradigma do recato e da privacidade. A circunstância de um deles ter sido fotografado constitui rude golpe nesse estatuto. Pior: a divulgação na Internet da imagem, decerto obtida sem autorização, expôs o infeliz menos ao espanto do que à chacota. Já nem a 55 milhões de anos-luz da Terra pode um buraco estar sossegado. É, portanto, urgente que apareça uma associação de defesa dos buracos negros – antes que seja tarde demais e um deles se lembre de nos engolir.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

As neves de outrora

«Mas onde estão as neves de outrora?», perguntava François Villon num célebre poema, retomando o tema do «Ubi sunt?». Reformulemos a questão, centrando-a no momento presente: «Onde está o floco de neve de agora?» Para quem tenha oportunidade de o ver e sentir desfazer-se, ele mostra-se tão falaz, enquanto resvala para a ausência, como as paisagens de antanho na sua fantasmática brancura. Inerme e duvidosa, também a nostalgia se dilui, entre uma e outra ilusão. O assunto merecia ser tratado com menos frieza. Porém, a neve exige coerência.

«Mais où sont les neiges d'antan?»

terça-feira, 9 de abril de 2019

Objecto macabro

Parece que vai a leilão o suposto revólver com que alegadamente Van Gogh terá posto fim à sua vida. Os especialistas esperam que o objecto, decerto já imprestável, atinja o valor de cerca de 60 mil euros. Compreende-se o desejo de possuir tal pistola, sobretudo por parte de quem não disponha de um quadro original do artista. O novo proprietário deverá ser motivado pela ideia de que, se outros terão algo que o pintor fez, ele terá algo que desfez o pintor.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Segundos actos

O célebre aforismo de Scott Fitzgerald lembra que «não há segundos actos nas vidas americanas». A teoria da reencarnação parece contradizê-lo em absoluto: há segundos actos em todas as vidas. Segundos, terceiros, quartos, quintos, um número indefinido de actos. Eles sucedem-se até ao dia em que nos tornemos capazes de representar, sem mácula, os nossos papéis, o Dia do Perfeito Fingimento – que substitui, com vantagem, o Dia do Juízo Final.

domingo, 7 de abril de 2019

Incómodo superado

Se, aceitando o dizer do poeta, «pensar incomoda como andar à chuva», então deve experimentar um duplo incómodo quem, andando à chuva, se entregue ao perigoso exercício de pensar. Mas tal incómodo pode desaparecer, dando inclusive lugar a algum conforto, se a chuva não for excessivamente concreta e o pensamento for suficientemente abstracto. É o que acontece quando as gotas de chuva caem espaçadas e leves e aquele que as recebe no corpo resolve pensar sobre o próprio pensamento – ou sobre a ideia de que «pensar incomoda como andar à chuva».

sábado, 6 de abril de 2019

O responsável

No início do filme “Magnólia” surge-nos o caso de Sydney Barringer, jovem de 17 anos que, saltando, com intenção suicidária, do topo de um prédio de nove andares, foi atingido mortalmente no estômago, ao passar em frente ao seu apartamento (no sexto piso), pelo tiro da arma que a mãe disparou, enquanto ela e o marido discutiam, sendo que a arma fora carregada seis dias antes, para os pais se matarem, pelo próprio Sydney, que teria sobrevivido, graças a uma rede instalada em baixo, não fora o buraco no estômago. Quando tudo está assim tão coincidentemente conectado, torna-se mais difícil sustentar a existência do livre-arbítrio e, por conseguinte, descobrir o grande responsável. Talvez este, em última instância, tenha sido o átomo primordial, que não soube respirar fundo e contar até dez. Explodiu. Agora já é tarde.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Escuridade

O Universo (propõem-no os cientistas) é constituído, em cerca de 95% da sua realidade, por matéria escura e energia igualmente escura. Daí que chegue a ser tão difícil alcançar a iluminação. Daí também a plausível ineficácia de dirigir «pedidos» ao Cosmos: o mais provável é estes diluírem-se entre a sombra e o negrume. Daí, por fim, a estranheza da crença de que o Universo «conspira a favor» de alguém. Obscurecido por tanta treva, ele nem se apercebe das nossas inquietações. Muito menos das nossas infantilidades.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Exigências de Hipnos

Tal como já o fez para colchões, certa empresa pretende agora recrutar alguém a fim de testar almofadas durante um mês, oferecendo mil euros de remuneração. O próximo projecto deveria consistir em testar diferentes tipos de sono. Claro que, aparentemente, não será fácil materializar em produto comercializável algo assim tão incorpóreo como esse estado de abençoada inactividade. Mas o importante, em casos deste género, é que se durma bem sobre o assunto. Ou por baixo, não vão as ideias morrer sufocadas antes mesmo de terem nascido. Com frequência, as melhores soluções surgem de um dia para o outro.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

«Você é especial»

Sempre que os livros de auto-ajuda, os anúncios publicitários, os palestrantes motivacionais ou os bajuladores de serviço resolvem dizer a uma pessoa que ela é especial, deviam ser obrigados a fazer acompanhar tal declaração do seguinte alerta, ou de outro de idêntico teor: «Essa especialidade, contudo, apenas será honestamente apreciada pelos vermes. E até que isso aconteça ainda pode ter de esperar algum tempinho.»

terça-feira, 2 de abril de 2019

Exercício e tributo

Sentir culpa envolve sempre maior grau de complexidade do que simplesmente assumir-se como responsável. E, se a assunção da responsabilidade é o exercício mais nobre que a consciência executa para evitar que os actos fiquem órfãos, o sentimento de culpa é o tributo mais sinistro que o eu presta a si mesmo.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

O disco

Parece crescer o número dos defensores da teoria de que a Terra é plana e com a forma de um disco. Talvez se trate de um modo subtil de dizer ao restante Universo que este planeta sempre foi altamente original. Os pitagóricos, e não só, pensavam que os corpos celestes emitem harmónicos sons, de que nos não apercebemos porque os escutamos desde a nascença. Mas a música das esferas deve ser de qualidade inferior quando comparada à música do nosso disco. Quem tem ouvidos para ouvir que dance.

domingo, 31 de março de 2019

Onírica melancolia

Às vezes surgem nos sonhos máximas inéditas, acompanhadas dos nomes dos respectivos autores, em geral consagrados. E a pessoa que experiencia o conteúdo onírico apercebe-se de que dificilmente reconheceria a proveniência de tais frases, se a fonte lhe não aparecesse entre parêntesis. Ao acordar, a memória só a custo recupera a completude do aforismo, embora conserve nítido o nome de quem o redigiu. É frequente sobrarem apenas indícios de tinta ou, quando muito, algumas palavras soltas, desligadas do sentido primordial, se acaso este chegou a existir. Sucede o mesmo, se não a todas, à esmagadora maioria das obras literárias, científicas, religiosas, filosóficas, e por aí adiante. A certa altura da história, o que delas resta na lembrança dos vivos são unicamente os nomes daqueles que as escreveram. Tudo o mais é matéria para os sonhos, que o olvido desfaz antes do amanhecer.

sábado, 30 de março de 2019

Vinho

Eis um dos últimos suspiros poéticos de Fernando Pessoa: «Dá-me mais vinho, porque a vida é nada». Decerto ele teria presente, ao colocá-lo no papel, as Rubaiyat de Omar Khayyam, e sobretudo este verso: «Já nada me interessa. Levanta-te e dá-me vinho!» Duas questões se nos impõem. Se «a vida é nada», por que motivo se excluiu o vinho? Se «nada interessa», por que razão ficou o vinho de fora? Em todo o caso, resta saber se ambos estavam à espera que lhes trouxessem uma bebida de qualidade excepcional – ou se os contentava o simples facto de o vinho já constituir, por si só, uma enorme excepção. Não se pense, no entanto, que o vazio da alma justifica a tolerância a uma qualquer zurrapa.