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terça-feira, agosto 28, 2018

«Como uma rapariga descalça a noite caminhava leve e lenta sobre a relva do jardim.» Sophia de Mello Breyner Andresen, «História da Gata Borralheira» (1965), Histórias da Terra e do Mar (1984)

«E o pânico crescia e ela procurava a alça do soutien com uma mão e a caixinha dos comprimidos com a outra.» Sarah Adamopoulos, «A Marylin», A Vida Alcatifada (1997)

«O rodar do comboio, áspero e monocórdico, chegava-lhe aos ouvidos que nem som de fanfarra vitoriosa.» Maria Archer, «Ida e volta duma caixa de cigarros» (1937), Ida e Volta duma Caixa de Cigarros (1938)

domingo, abril 29, 2018

«Tais as palavras que de improviso vibram no ar sonoro, pronunciadas por um frade agostinho, cujas sandálias, ao acercar-se, não tinham despertado um sonido nos adobes do pavimento.» Henrique Lopes de Mendonça, «A truta», Capa e Espada (1922)

«Realizada a vida, subsistia a noite -- mas a crença nos problemas horríveis de génese social apontava uma missão evangélica -- urgente a cumprir.» Ruben A., «Sonho de imaginação», Páginas I (1949)

«Numa fracção de segundos -- como na morte súbita --, ela pensava à velocidade da luz.»  Sarah Adamopoulos, «A Marylin», A Vida Alcatifada (1997)

domingo, abril 22, 2018

«Na açoteia da torre de menagem, Fernão Rodrigues Pacheco, debruçado sobre uma aberta das ameias, medita.» Henrique Lopes de Mendonça, «A truta»Capa e Espada (1922)

«Afinal o caso era banal, simples e puro como castidade de santo.» Ruben A., «Sonho de Imaginação», Páginas I (1949)

«Convencia-se de que ia ter um colapso cardíaco ou uma hemorragia cerebral e imaginava-se a cair e a ficar com a cabeça colada às embalagens dos panadinhos do Capitão Iglo.» Sarah Adamopoulos, «A Marylin», A Vida Alcatifada (1997)

terça-feira, abril 17, 2018

«Numa casa quadrada da alcáçova de Coimbra, junto dum lar montado sobre cachorros de pedra onde estalavam toros de castanho a arder, três figuras bárbaras de homem, debruçadas sobre uma arca enorme coberta de guadamecins vermelhos, jogavam em silêncio, comendo pedaços de nata com as mãos e movendo os trebelhos doirados sobre uma velha távola de xadrez.» Júlio Dantas, «Dom Cardeal», Pátria Portuguesa (1914)

«A criação de mundos epidémicos impelia-o à contínua busca de sensações imaginárias onde o espírito folgava nos cansaços da vida burguesa, de ritmo medonho e metricamente coerente.» Ruben A., «Sonho de imaginação», Páginas I (1949)

«Ela era como a Marylin e só queria ser maravilhosa.» Sarah Adamopoulos, «A Marylin», A Vida Alcatifada (1997)

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Sarah Adamopoulos -- O Adeus aos Feijões Verdes

Um dia mudou tudo. Ela enchia-lhe a vida de sonhos e recebia on the road em troca. Ele enchia-lhe a vida de loucura e recebia aventura em troca. Era mais ou menos assim. Era fair enough. Era bom. Era partir. Ela gostava disso. De partir. Partia por vocação. O problema era quando o caminho chegava ao fim. Mesmo quando a estrada continuava. O fim do caminho era quando ele decidia que o melhor era transportar os sonhos para casa. O problema era que ele não sabia o que fazer com eles em casa. Por isso, havia sempre um dia que ele os empilhava em cima dos livros  e ela os deitava então para o lixo. Ela deitava os sonhos fora para que eles não ficassem a apanhar pó. É que mesmo que ele limpasse o pó e os acariciasse relembrando os dias em que os resgatara, de nada servia porque ela não gostava de os ver amontoados entre livros, catálogos de exposições e objectos vários a amarelecer.

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Ele queria um filho. Ele queria um filho. Ele queria um filho. Ele queria um filho. Ele queria um filho. Vou fazer-te um filho. Mas eu não quero um filho. Mas eu preciso dum filho. Então manda vir. Mas eu quero um filho teu. Ou contigo. Ou qualquer coisa assim. Eu quero um filho. Então faz um. Mas um filho não se faz sozinho. Pois não. Faz-se com uma mulher que quer ter um filho. Dá-me um filho. Não. Então ele começou a beber. Quer dizer, a beber mais do que o habitual.. Bebia vodka pura gelada. Quando ela chegava, punha uma voz e uns trejeitos de Jack Nicholson e perguntava-lhe se era ela ou a cona dela que o tinha ido visitar. E depois começou a pintar filhos. Pegava em telas minúsculas e desenhava uma espécie de feijões verdes, ou camarões, ou talvez fosse mais parecido com cavalos marinhos. O atelier ficou cheio de telinhas, com aqueles filhos em começo de gestação. Parecem uns feijões verdes. mas não são verdes. pois não, são pretos. Pois, mas é que têm a forma dos feijões verdes. São os meus embriões. Só têm oito semanas. Adeus, vou-me embora. Não vás. Fica. Porquê? Porque eu gostava que ficasses. Adeus. Adeus! / Não afastes os teus olhos / dos meus !

Sarah Adamopoulos, A Vida Alcatifada, Lisboa, Fenda, 1997.