Mostrar mensagens com a etiqueta Guillaume Apollinaire. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guillaume Apollinaire. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, junho 12, 2014

sobrevivência da memória

O narrador depara-se com uma sombra azulácea deambulando pelas ruas da cidade, sem o corpo correspondente. Segue-a, e testemunha a abordagem daquela a uma jovem com quem se cruza. Percebendo a perturbação da rapariga, seguindo a sombra o seu caminho, estabelece diálogo com ela, e confirma: não apenas viram ambos a sombra, como esta pertence(u) a uma pessoa querida da transeunte, o seu noivo, morto na guerra por uma carga de obus. O narrador esforça-se por continuar no encalço daquele espectro singular; quando este pára sobre um canteiro de flores, como que aspirando o perfume que exalavam, repara no seu perseguidor, estabelecendo com ele uma muda comunicação, que acabará no cemitério, à beira do túmulo do corpo que lhe pertencera. O remate final do conto faz uma optimista profissão de fé: a morte não mata a memória de nós nos outros...
O que sucede quando estes outros, por sua vez, deixam o mundo dos vivos, isso já não coube nessas linhas.

incipit«Era um pouco antes do meio-dia.»
um parágrafo: «Recuei de imediato com medo de pisá-la. Receava fazer-lhe mal. Sentia uma piedade imensa pelo abandono. Mas, de repente, num acto de correspondência inexplicável, pareceu-me que ela me dava a entender que era feliz, e que os seus soluços outra coisa não eram que soluços de ventura, que havia nela uma vida imortal que lhe permitia sobreviver ao corpo desaparecido e enlear-se em tudo o que este havia acarinhado. A felicidade dessa sombra era feita da sua presença nesses locais que havia frequentado.»

Guillaume Apollinaire, «O passeio da sombra», O Rei Lua [1916], tradução de Luís Alves da Costa, Lisboa, Vega, s.d., pp. 67-71.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Caracteres móveis #51 - Guillaume Apollinaire

Ui, o signo do fogo! Ui, o fogo, asch! Ui, Adonai! Asch, que é o fogo em hebraico, dá Aschen, em alemão. Que são as cinzas, as cinzas dos mortos. Ui e haschich vem daí, verosimilmente. Que será o bom sono. Ui, o signo do fogo. Asch, Aschen, haschich e assassino que, já me esquecia, vem também daí. Ui, Ui! Asch, aschen, haschich, assassino, ui, Adonai, Adonai!
«A separação da sombra», O Rei Lua
(tradução de José Carlos Rodrigues)

Apollinaire

Posted by Picasa