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terça-feira, fevereiro 26, 2019

vozes da biblioteca

«A torre -- a porta da Sé com os santos nos seus nichos --, a praça com árvores raquíticas e um coreto de zinco.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Havia braços de rainhas de mãos pendentes, brancas e com anéis, rosários de olhos como bolindros variegados com ternuras incalculáveis e molhadas e também com ódios e estupidez, mitras e cogumelos, como anémonas que se tinham nascido e morrido era por acaso, ao sabor do vaivém do sangue, na pele sei lá de quem.» António Pedro, Talvez uma Narrativa (1942)

«Preparar o futuro -- preparação para a morte.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

quinta-feira, novembro 29, 2018

vozes da biblioteca

«Como sempre que batem à porta daquele seu gabinete de trabalho, eleva muito a voz, a simular a irritação de quem vê as suas tarefas e lucubrações de dirigente intempestivamente interrompidas.» Assis Esperança, Trinta Dinheiros (1958)

«E sob a chuva ininterrupta, sob as cordas incessantes, a vila, envolta na treva glacial, parece lavada em lágrimas...» Raul Brandão, A Farsa (1903)

«Um vaporzito, com graciosidade de gaivota e calentura de forno, largou de ao pé da Kars-en-Nil e, apitando aqui e ali, que o tráfego fluvial era grande em frente da cidade, começou a subir o rio sagrado.» Ferreira de Castro, do «Pórtico» de A Tempestade (1940)

quinta-feira, novembro 01, 2018

vozes da biblioteca

«A confusão estabelecida pelos "entendidos" em camilografia, em geral simples camilómanos, acerca da obra de Camilo Castelo Branco "A Infanta Capelista" é de tal ordem que os não iniciados nos mistérios da vida desse escritor dificilmente encontram o fio da meada, propositadamente enredada pelos camilófagos e "camelianistas".» Jaime BrasilO Caso de "A Infanta Capelista" de Camilo Castelo Branco (1958)

«Casa pobre com janelas e duas portas ao fundo, uma para a rua e outra para a cozinha. Mesa com livros de escrituração comercial. Inverno. Cinco horas.» Raul BrandãoO Gebo e a Sombra / Teatro (1923)

«Procurava falar português com a mesma fluência dos que tinham saído de Angola já adultos, tal como ouvia as conversas dos mais velhos com o fito de melhorar a língua materna, o umbundu.» Sousa Jamba, Patriotas (1990) (tradução de Wanda Ramos)

domingo, outubro 28, 2018

vozes da biblioteca

«Deus é o único ser que, para reinar, nem sequer precisa de existir.» Charles BaudelaireFogachos (1851) (tradução de João Costa)

«Bem sinto a dor que o teu olhar goteja; / Mas o Princípio, por melhor que seja, / É pai dum monstro, que se chama Fim!» Queirós RibeiroPedras Falsas (1903) / Cabral do NascimentoLíricas Portuguesas - 2.ª Série (s.d.)

«A criação da corrente perdurável -- e inexorável -- das coisas, crê o autor tê-la experimentado ao escrever algumas destas páginas.» AzorínCastela (1912) (tradução minha)

«Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura de uma pedra.» Raul Brandão, Memórias I (1919)

«De resto, neste país não se passa economicamente nada, a não ser miséria.» (24 de Dezembro de 1935) Jaime Brasil, Cartas a Ferreira de Castro, ed. Ricardo António Alves (2006)

«Como não tinha tempo para despedir as chatices pagava aos cigarros para conversarem com elas.» António Alçada BaptistaUma Vida Melhor (1984)





quinta-feira, outubro 18, 2018

«Dominação e exploração são palavras boas para definir a consequência do nascimento da colônia imperial do Pau Brasil, cor fogoembraza no imenso verde da mata virgem, "primitiva" como reza a História oficial branca.» James Anhanguera, Corações Futuristas (1978)

«Enquanto voltava costas, para se sentar sobre uma caixa vazia, junto da bomba de gasolina, Lonnie sentia um desejo irresistível de ter tão pouco medo de Arch Gunnard como Clem.» Erskine Caldwell, «Ajoelhai ante o sol nascente», Antologia do Conto Moderno (1960) (tradução de Manuel Barbosa)

«Visto que depois da morte só o nada existe e a terra tudo traga -- um buraco e alguns punhados de desprezível cisco -- o mundo divide-se logicamente em dois largos campos: nos que, cépticos, sem preconceitos, frios como lâminas, secos como pedras, conquistam, mandam e dominam, com o código por consciência e a quem tudo na terra é permitido -- calcar, mentir, triunfar enfim -- contanto que se fique dentro dos limites duma coisa honrosa a que por convenção se chama a honra, isto é fora da cadeia; e nos pobres, explorados e simples, ainda ignorantes, crendo numa vida eterna, que lhes pague a dor de virem ao mundo só para chorar, fartos de miséria e gritos, fartos de fome e desilusão, caminhando como um rebanho, gasto e suado, por este vale de lágrimas e de quem os outros se riem às escâncaras.» Raul Brandão, O Padre (1901) 

quarta-feira, setembro 05, 2018

«Ainda bem que de mui pouco me apoquenta o arrependimento» Camilo Castelo Branco, prefácio à segunda edição das Memórias do Cárcere (1862)

«Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra.» Raul Brandão, Memórias I (1919)

«Pareceu-me, mãe, que nunca a tinha visto tão bonita: muito bem vestida, muito bem penteada, com aquele seu perfume que, apesar de tão suave, tão subtil, anunciava a sua presença onde quer que estivesse.» Fernanda de Castro, Cartas para Além do Tempo (1990)

sexta-feira, julho 27, 2018

«Com os remos a chapejarem surdamente, cautelosos como os dos ladrões, nas proas um ruído fino, menor ainda que os dos botos cortando a tona da água, as canoas meteram a terra.» Ferreira de Castro, O Instinto Supremo (1968)

«E a chuva começa, o ruído doce da chuva que faz sonhar em tantas coisas idas e tristes!» Raul Brandão, Os Pobres (1906)

«Era em Julho, um domingo; fazia um grande calor; as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silêncio recolhido e sonolento de manhã de missa; uma vaga quebreira amolentava, trazia desejos de sestas, ou de sombras fofas debaixo de arvoredos, no campo, ao pé da água; nas duas gaiolas, entre bambinelas de cretone azulado, os canários dormiam; um zumbido monótono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das chávenas sobre o açúcar mal derretido, enchia toda a sala de um rumor dormente.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)

domingo, junho 10, 2018

«Seja velório rico, seja pobre, exige-se, porém, constante e necessária, a boa cachacinha; tudo pode faltar, mesmo café, só ela é indispensável; sem seu conforto não há velório que se preze.» Jorge Amado, Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966)

De ponta a ponta, um pesadelo perpassava pelas aldeias e casalejos galgando pela amarelidão da terra nua e requeimada.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos interstícios das pedras e delas extrai suco e vida.» Raul Brandão, Húmus (1917)

domingo, junho 03, 2018

«No barco de imigrantes que os trouxera do Médio Oriente, das montanhas da Síria e do Líbano para as florestas virgens do Brasil, penosa travessia de tormentas, Raduan Murad, fugitivo da justiça que o perseguia por vadiagem e jogatina, letrado de prosa aliciante, revelara ao sírio Jamil Bichara, companheiro de porão, que tendo se debruçado noites insones sobre alfarrábios relativos à primeira viagem de Colombo, descobrira, na relação de marujos que compunham a equipagem de uma das três caravelas da festiva excursão, o nome de um certo Alonso Bichara.» Jorge Amado, A Descoberta da América pelos Turcos (1994)

«A avó Caixinha, sempre que me enxergava, dizia que eu era a cara do meu avô Sebastião, morto, ainda eu era de peito, por um toiro dos Terrés que o apanhara, num dia em que ele voltava da Azinhaga.» Alves Redol, Fanga (1943)

«E noite, cerração compacta, névoa e granito formam um todo homogéneo para construírem um imenso e esfarrapado burgo de pedra e sonho.» Raul Brandão, A Farsa (1903)

domingo, abril 15, 2018

Todavia não deixarei eu de confessar o amor que sempre tive por contos de fadas, para que se não estranhem algumas murmurações, acaso fugitivas, no acto de me sacrificar às exigências desta geração pretensiosa.» Álvaro do Carvalhal, Os Canibais (póst., 1868) 

«É um rolo misterioso e profundo que vem dum mar desconhecido.»  Raul Brandão, Os Pobres (1906)

«Os olhos de Margarida tinham um lume evasivo, de esperança que serve a sua hora.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

quarta-feira, abril 11, 2018

«Porque há plantas frágeis, que se ressentem das vibrações, do mau hálito, da palavra agreste, dos golpes do destino.». Ângela Caires, Daqui em Diante Só Há Dragões (1988)

«Uma vila encardida -- ruas desertas -- pátios de lajes soerguidas pelo único esforço da erva -- o castelo -- restos intactos de muralha que não têm serventia: uma escada encravada nos alvéolos das paredes não conduz a nenhures.» Raul Brandão, Húmus (1917) 

«É um jardim morto, as plantas secas, os canteiros arrasados nas pedras que os limitavam.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983) 

terça-feira, abril 10, 2018

«Uma nuvem desce da serra: arrastam-se os rolos pelas encostas pedregosas e depois as baforadas espessas abafam de todo a vila.» Raul Brandão, A Farsa (1903)

«É um pobre -- é um pobre de pedir --, é um fantasma.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póstumo, 1931)

«Minha mãe veio ainda à igreja, pela madrugada, ver-me partir; mas sentindo-me tão distante como se eu fosse preso, como se eu já pertencesse a um mundo que não era o seu -- mal me falou.» Vergílio Ferreira, Manhã Submersa (1954)

sexta-feira, abril 06, 2018

«Nem a sopa da Assistência o evitava, bem se pode dizer: as bocas famintas, senhor, eram às dezenas de milhar.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«Mal sentem esse cheiro a terra que todos os anos desce dos contrafortes dos Gates e percorre o mesmo caminho dos rios e das pequenas cordilheiras até chegar às planícies mais baixas, os búfalos sabem que novamente a terra os espera.» Orlando da Costa, O Signo da Ira (1962)

«Já o passado fica muito longe, já as figuras de apagadas mal se distinguem e ainda a poeira de sonho teima lá no fundo...» Raul Brandão, A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore (1926)

segunda-feira, junho 19, 2017

cabaz da feira

Ao Encontro de Raul Brandão - Colóquio, Porto, UCP / Lello Editores, 2000.
Até Amanhã, Camaradas, Manuel Tiago (1974), 5ª ed.., Lisboa, Edições Avante!, 1989.
Crónica da Vida Lisboeta [Ana Paula (1938); Ansiedade (1940); O Caminho da Culpa (1944); Tons Verdes em Fundo Escuro (1946); Espelho de Três Faces (1950); A Corça Prisioneira (1956)], Lisboa, Guimarães, 2008-2009.
Guia para 50 Personagens de Ficção Portuguesa, Bruno Vieira Amaral, Lisboa, Guerra & Paz, 2013.
Francisco de Assis -- 1182-1982 -- Testemunhos Contemporâneos das Letras Portuguesas, Lisboa, IN-CM, 1982.
Novos Contos do Gin, Mário-Henrique Leiria, Lisboa, Editorial Estampa, 1973.

domingo, junho 04, 2017

começar

Quem conhece as três narrativas, sabe que coisas momentosas e formidandas se anunciam. Todas já contidas em cada começo.

1866 - Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartório das cadeias da relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a folhas 232, o seguinte:» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição
1931 - «Já não posso com estes tipos.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir
1991 - «"Em nome de Deus, amen.» Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348

segunda-feira, maio 29, 2017

começar

 A morte como obsessão, ponto de partida e de chegada. O início de um livro único, o Húmus, de Raul Brandão. Quanto a Em Demanda da Europa, de Filomena Cabral, deveremos preparar-nos para uma dissertação? O mesmo não se dirá, do início de O Retorno, de Dulce Maria Cardoso: qualquer coisa é expectável. Valerá a pena prosseguir?
O título: todos são bons, mas Húmus, sem artigo, transporta-nos para a essência mesma da obra.

1903: «[13 de Novembro.] Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste...» Raul Brandão, Húmus

1997: «Preparemo-nos, descalcemos as sandálias, lavemos o rosto, despojemo-nos, teremos de assistir, de coração limpo, a toda a encenação, participando no final, se estivermos todos de acordo.» Filomena Cabral, Em Demanda da Europa

2012: «Mas na Europa há cerejas.» Dulce Maria Cardoso, O Retorno

sexta-feira, maio 12, 2017

começar

Qualquer dos três incipit é bom: Abel Botelho  faz com que queiramos saber de imediato de que  justeza se trata; Raul Brandão já nos sobressaltou antes de chegarmos ao segundo ponto de exclamação; por sua vez, Nuno Bragança deixa-nos logo com um sorriso, até porque já se sabe que a forma como ele pega nas palavras nunca mais nos dará descanso até ao fim do livro

1898: «[15 de Fevereiro de 1893.] É justo.» Abel Botelho, O Livro de Alda

1903: «-- Ai que ma levam!, ai que ma levam!» Raul Brandão, A Farsa

1970: «Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços.» Nuno Bragança, A Noite e o Riso 

quarta-feira, abril 15, 2015

à luz do petróleo

luz do petróleo os olhos encovam-se-lhes, a dureza sobressai e aumenta. As mãos lívidas e secas, cheias de engelhas, deformadas pelas exostoses, são poemas de maldade e de astúcia. Parecem de mortos e tão afiadas como as da crueldade."

Raul Brandão, A Farsa (1903)

segunda-feira, janeiro 19, 2015

cães de vidro e bordados de croché

«A mobília da casa é uma embirrenta miscelânea de cacos doirados de casquinha, um canapé, arcas, cadeiras puídas, mesas de mogno com ignomínias expostas: cães de vidro e bordados de croché.»

Raul Brandão, A Farsa (1903)

terça-feira, julho 01, 2014

deformidades

«Na sala pegada, de tecto abaulado, um candeeiro de petróleo alumia outras figuras. São as visitas de enterro: velhas, dois homens, um padre, todos de negro, hirtos e solenes, em roda, nas cadeiras da sala e no canapé de palhinha. De quando em quando uma boca mastiga no escuro. A luz bate-lhes de chapa, ilumina-os como retratos: certos pedaços de fisionomia ressaltam, avançam, outros recuam na sombra. As figuras cerimoniosas são disformes, lembram caricaturas, e os traços exagerados exprimem egoísmo, avareza e secura.»

Raul Brandão, A Farsa (1903)