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terça-feira, abril 16, 2019

vozes da biblioteca

«À porta dois contratadores apenas, um polícia, e, sentada no último degrau sobre a rua, uma velhota, de tabuleiro à frente, coalhado de quanto há de mais pelintramente indigesto em matéria de doçura, com uma vela protegida por um cartucho de papel cor-de-rosa.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«Afeito à nudez sebosa das repartições, o recém-chegado abafou uma voz de espanto ao passar a uma saleta cujo requinte no arranjo descondizia com tudo o que vira em tão ingracioso edifício: era uma dependência fofa, não grande, toda de veludos vermelhos, lambris dourados, cristais e móveis reluzentes, onde, pelos reposteiros entreabertos, a luz, que do céu azul ferrete se derramava a jorros sobre a vila, vinha molemente esparrinhar-se num tapete de Arraiolos...» Jorge Reis, Matai-vos uns aos Outros (1961)

«Léguas e léguas andaram, como se fossem retirantes, de fazenda em fazenda, a pedir a um e a outro uma tigela de farinha que lhes matasse a fome, e pés roídos pelos espinhos e olhos fundos de sofrimento.» José Lins do Rego, Cangaceiros (1953)

terça-feira, julho 31, 2018

«Nesse dia, a 6 de Janeiro, o que mettait en émotion tout le populaire de Paris, como diz Jehan de Troyes, era a dupla solenidade dos Reis e da festa dos Loucos, celebradas juntamente desde tempos imemoriais.» Victor Hugo, Nossa Senhora de Paris (1831) (trad. Jorge Reis)

«Surpreendidos pelo aguaceiro, os espectadores dispersos pela escadaria regressavam ao vestíbulo, rindo e empurrando os que como sardinha em lata se chamavam em altos berros por entre os ombros nus, rodeados por uma chuva que se detinha no berçário dos toldos, para desabar, a potes, sobre os degraus de granito.» Alejo Carpentier, A Perseguição (1956) (trad. Margarida Santiago)

«Tapada a sepultura, Rollo Martins afastou-se ràpidamente a largos passos das suas compridas pernas de aranha, enquanto pelo seu rosto de homem de trinta e cinco anos deslizavam lágrimas de criança.» Graham Greene, O Terceiro Homem (1949) (trad. Baptista de Carvalho)


terça-feira, maio 01, 2018

«Há em certas cidades da província casas cuja visão inspira uma melancolia igual à que nos causam os claustros mais sombrios, as charnecas mais estéreis ou as ruínas mais lúgubres.» Honoré de Balzac, Eugénia Grandet (1833) - tradução de Jorge Reis

«Na maior parte do seu curso, o rio Drina corre através de gargantas apertadas, entre serras abruptas ou profundos desfiladeiros de arribas escarpadas.» Ivo Andrić, A Ponte Sobre o Drina (1945) - tradução de Lúcia e Dejan Stanković,

«Eu tinha oito anos quando minha mãe me trouxe as novas: o rei doara a meu pai um solar.» Maurice Baring, O Trono e o Altar (1930) - título original: Robert Peckham, tradução de Jorge de Sena

quarta-feira, outubro 08, 2014

como chapas de vintém

«Nesse comenos, sentiu-se observado: um sujeito franzino, dos seus cinquenta anos,  estava no passo da porta, a mirá-lo com olhinhos piscos e pisados como chapas de vintém.»

Jorge Reis, Matai-vos Uns aos Outros (1962) 

sexta-feira, outubro 14, 2005

Jorge Reis

Tão calão, meu deus, e estupidamente distraído, que não tive a sensatez de escrever as duas linhas que se me impunham sobre o Jorge Reis, há dias enterrado no Père-Lachaise, e com quem privei várias vezes aqui em Cascais, onde ele tinha uma casa. Que figura!, que histórias!, que cultura!, que vida! O Matai-vos Uns aos Outros, prefaciado pelo Aquilino Ribeiro, é o seu livro mais conhecido, um thriller interessante, a escrita cuidada, noblesse oblige, pois então... Encomendem e leiam A Memória Resguardada (Editorial Escritor): o exílio e a clandestinidade: sobre a nudez forte da fantasia, o manto diáfano da realidade... Jorge Reis (pseudónimo de Atilano dos Reis Ambrósio), militante do PCP nos anos 40, muito indisciplinado ao que parece; sempre compagnon de route; amigo até às lágrimas de Vasco Gonçalves; maçon de grau trinta e... Uma vez convidei-o para falar, numa conferência cá em Cascais, sobre o autor de Andam Faunos pelos Bosques, que ele muito justamente idolatrava. «Paris, berço da língua de Aquilino?», era a pergunta e a tese dessa palestra, noite memorável na velha Torre de São Sebastião (Museu Condes de Castro Guimarães), casa cheia, Aquilino Ribeiro Machado presente, o Jorge Reis a falar sabiamente, apaixonadamente, calorosamente. Durante a conferência tirou uma pequena garrafa de uísque do bolso, e durante toda a sessão, enquanto falava com os circunstantes, tinha-a bem segura nas mãos, despejando de vez em quando o conteúdo no copo destinado à água do Luso.... Esta conferência está publicada, felizmente. O espólio dele -- o Jorge era de Vila Franca de Xira, terra de escritores!... --, espera-se que vá para o Museu do Neo-Realismo, que oportunamente lhe consagrou uma merecida exposição. Lembro-me doutra conferência memorável dele sobre o Dom Quixote, que pelo menos está gravada. Adorava os filetes de pescada do «Correio», na Areia, os melhores do mundo, dizia-me. O Jorge Reis deixou uma grande obra por fazer, notam os comentadores. Em quantidade, certamente. O que se dirá daqui a cem anos do Matai-vos Uns aos Outros e de A Memória Resguardada? Não estaremos cá para ler...