quarta-feira, 27 de março de 2019


REPORTAGEM DA TV AMADORA SOBRE A EXPOSIÇÃO INQUIETUDE DE RODRIGO DIAS: http://www.tvamadora.com//Home/Video/4506

"Uma exposição que reúne pintura, escultura, banda desenhada e instalação. Uma panóplia de estilos que permite conhecer um pouco do trabalho deste artista.
Veja a reportagem."  (TV Amadora)

Rodrigo Dias

SOBRE A ARTE DE RODRIGO DIAS (2016)



sábado, 23 de março de 2019

O MENINO QUE DESCOBRIU O VENTO

Vi e gostei. Uma história real e inspiradora sobre como a sabedoria, a vontade de mudança, a fé, tornam-se instrumentos de ajuda na sobrevivência de muitas pessoas. Da teoria para a prática foi isso que William Kamkwamba teve a coragem de fazer.
D.G



quinta-feira, 21 de março de 2019

PRIMAVERA

é dia de renascer, brotar, adubar nossas raízes, cortar o que não nos serve mais, receber  luz nas nossas folhas, limpar a nossa terra do passado, é tempo de transformação... 
D.G

Foto: D.G

terça-feira, 12 de março de 2019

ABSORVENDO O TABU (ÓSCAR 2019, MELHOR DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM ,ÍNDIA)

Vi e gostei.

"O mundo não pode avançar sem as mulheres."
D.G


sábado, 9 de março de 2019

ELOGIO DA INFERTILIDADE – VICTÓRIA F. 


O livro Elogio da Infertilidade de Victoria F., pseudónimo da autora Claudia Andrade Fernandes, ganhou o prémio Ferreira de Castro de Ficção Narrativa, em 2017. A obra é composta por dezoito contos, nos quais a autora trata sobre os  temas da vida moderna. 

Logo no início, a questão que não saiu da minha mente foi: quais serão os temas abordados em torno desse título que remete semanticamente a algo que não nasce, algo que é estéril, ao nada? Por curiosidade sobre isso, fiz uma pesquisa rápida na Internet e encontrei o livro Elogio da Loucura de Erasmo de Hotterdam (um ensaio que ainda não li) que segundo a fonte é um sátira da sociedade do séc. XVI. O autor mostra para as pessoas a corrupção moral em que viviam e a palavra loucura está presente como uma divindade que se auto-elogia e fala com os homens sobre os privilégios que ela oferece. Como hipótese, isso faria uma boa ponte de diálogo para várias outras interpretações do livro de Victoria F. a partir do título. 

Os textos da autora percorrem os assuntos sobre a morte, o sexo, a liberdade, o amor, a família, a dúvida, a magia, o corpo, a solidão, o abandono, a vida dos animais, a invisibilidade de algumas pessoas, a dor, a doença, a culpa, a mulher, a infância, a velhice… 

As personagens são o retrato dos invisíveis na nossa sociedade. A autora se debruça sobre essas vidas e mostra a realidade cruel, seca, irónica, poética; faz com o que o leitor reflita sobre as dores das personagens e consecutivamente as dores das pessoas. A narrativa emociona e incomoda no sentido positivo. 

A morte está presente em quase todas as páginas do livro, talvez seja o nada ligado a situação da proximidade do fim da vida na velhice, ou de se estar doente diante deste mesmo fim; ou se apresenta na vida que se esvai de um animal, ou na esterilidade de estar vivo; como vemos algumas dessas características no trecho do conto “Novos Começos”:

“(…) Ou pior velhos cabrões, a passearem contentes numa atitude de que se foda a morte, a rirem-se dela e de mim, e de tudo o que deitei fora para ter as mãos livres para poder suster-lhes o peso hediondo da velhice”. (p.84)

Também no conto “Uma visita”: 

“Não tomou ofensa. Por muito que aquilo lhe doesse na alma, compreendia que a proximidade da morte é como que um incómodo de moscas que resta a cada um sacudir como puder." (p.12) 

Na esterilidade da vida, ou seja, mesmo que a personagem possua um corpo a sua presença não existe para os outros, como no caso do conto “A mulher invisível” : 

“ O marido não poderia sofrer em segredo uma repulsa pelos seus hábitos, tão só porque ela era para ele completamente invisível.”(p.29) 

E no conto “O Esconderijo": 

“O homem considerou que, a si, jamais lhe teriam permitido comprazer-se com aquela conversa descosida. Tinha crescido a falar para um pai que lhe respondia como se tivesse de pagar uma boa maquia por letra, com desconto apenas em monossílabos, e que a maior parte das vezes escolhia ignorá-lo como que para poupá-lo à despesa em que o faria incorrer no caso de chegar a admitir estar a ouvi-lo.” (pp. 36,37)

E segue para o desenrolar da infertilidade da vida na vida de uma prostituta, no conto “Inácio às 19.00”:

“Só então Almudena pensou com clareza naquela situação. Jonas jamais lhe permitiria conservar a cadela. Arrancá-la-ia simplesmente de si prometendo arranjar-lhe um dono, e largá-la-ia na mais perversa auto-estrada de que conseguisse lembra-se.  Fez o inventário do que possuía. O sofá de orelhas, o termo vazio, a roupa do corpo, a água-de-colónia, os lenços de papel, dinheiro para uma refeição. E uma criatura que se enroscava confiante no seu colo. Que pudesse falhar perante ela era um novo e terrível tipo de medo. Não tinha qualquer ideia, alguém a quem recorrer, nada. Ficou inerme assistindo ao nascer do dia.” (pp. 63-64) 

O destaque também segue nas construções de imagens poéticas das frases: "Os mortos eram estorninhos a esvoaçar-lhe num voo cego em redor dos sonhos, e gostaria de poder enxotá-los."  (p.112) 

Os contos de Victoria F. falam abertamente do medo, da dor, da doença, da culpa,do sonho que fazem parte da vida e estão diariamente trilhando o caminho com todos os seres humanos, porém as pessoas não param para refletir sobre suas dores e suas "loucuras", ou a falta de razão que há na vida e do sofrimento constante...O tempo é escasso e o fim próximo… talvez haja na obra um certo tipo de pessimismo e "seja esse o motivo" do elogio da infertilidade, pois não há escapatórias, como bem é lembrado no conto "O Exilado":

"A vida mostrava-lhe então, mais uma vez, que não há rua suficientemente soturna nem casa suficientemente oculta, dedicação suficientemente unívoca, conduta suficientemente comedida ou vida suficientemente isenta, para que o mundo se esqueça de vir pôr-nos a jeito de nos cagar em cima." (p.128)

Há vários outros caminhos de interpretação esse foi apenas um  caminho desenhado pelo o que senti.

D.G

Foto: D.G (Capa do livro)



sexta-feira, 8 de março de 2019

8 DE MARÇO - É DIA DE LUTA  E DAS MEMÓRIAS DAS LUTAS

O Dia Internacional das Mulheres começou a ser uma data importante para mim, depois que tive consciência do sofrimento do que era ser mulher neste mundo. Isso passou por muitos questionamentos solitários. O que eu sentia deste sofrimento era visto como normal pela sociedade de um modo geral, na escola, na família, nas ruas. 

Fui educada desde a infância até a adolescência que neste dia as mulheres eram homenageadas com flores, por serem delicadas e lindas...Nunca ouvia ninguém na escola ou na família falar sobre os direitos da mulher, sobre as lutas e os seus sofrimentos. 

O tempo foi passando e fui ganhando consciência política e percebendo que a luta era por mudança da mentalidade machista enraizada por muitos séculos. Conheci o feminismo através dos livros e percebi que aquilo pelo qual eu era xingada, humilhada, e sofria com desigualdade eu poderia reverter e lutar. Eu já lutava do meu jeito. Já me posicionei contra vários casos que vi de violência próximos do meu círculo social, mas era pouco, precisava de mais força e de mais base teórica para argumentar contra a opressão, apesar de tudo o que já tinha defendido. 

No Brasil a vida da mulher é muito difícil. Quase sempre alguém presenciava nas ruas uma mulher sendo agredida por seu companheiro. Depois da Lei Maria da Penha e da construção da Delegacia da Mulher algo melhorou "um pouco", mas dentro das comunidades as leis não chegam e muitas mulheres não vão à delegacia por causa do medo de serem mortas depois. 

O machismo no Brasil é exacerbado, covarde, desumano. Alguns homens pensam que a mulher é sim, uma propriedade deles, e têm como o normal ter mais de uma mulher, ser o tal do "garanhão", restringem a liberdade da mulher em tudo, apagam a autoestima dela em tudo, deixam marcas psicológicas e físicas que demoram a ser curadas. Além dos vários casos de violação das meninas e das adolescentes pelos seus próprios parentes. A mulher tem medo de andar na rua em qualquer horário, de manhã, à tarde ou à noite, mesmo acompanhada a mulher tem medo.

Sinto que o feminismo no Brasil começou a se fortalecer e ganhar notoriedade desde 2017, e atualmente ele está imparável, muitas denúncias são feitas, mas a justiça ainda é lenta e em muitos casos o agressor sai impune e fica em liberdade. A política atual do novo governo está contra tudo que melhora a vida das mulheres, desde aposentadoria até a escolha da Ministra para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Em Portugal eu pensei que "a coisa" iria diminuir, mas desde o início do ano já morreram 12 mulheres vítimas de violência doméstica e já houve muitos casos de violação e abusos contra as crianças. Os casos de assédios nas ruas continuam, é aborrecido ter que escolher a roupa para sair pensando no que você vai ouvir dos covardes, ou não poder ir a determinados lugares porque estou sozinha, ou ter que andar de bicicleta ou correr sozinha e pensar sempre antes "será que hoje irei ouvir algo?!" Ou entrar no comboio e ficar procurando um lugar que não haja homens, pois os covardes esperam as mulheres ficarem sozinhas. Porque os covardes que assediam as mulheres nas ruas, falam quando elas estão sozinhas, sem ninguém próximo, ou falam quando estão com um outro amigo covarde junto, ou falam baixo só para a mulher ouvir. 

No Brasil eu já fui xingada por uma mulher, quando ainda nem era feminista, numa conversa informal sobre relacionamentos, pois eu falava sobre ter tratamento igual e que o homem não podia ser tratado melhor devido à submissão da mulher. Já combati abusos psicológicos, já combati assédio moral no trabalho ( ninguém fica do lado da mulher para apoiá-la) já fui ameaçada no ônibus, porque não quis dar o número do meu telefone para o covarde, caso contrário...já tinha me avisado se ele estivesse armado que eu "ia ver o que aconteceria". Já vi uma mulher que sabia que era traída pelo marido e que ele tinha duas famílias; o pastor da igreja evangélica pedia para ela se levantar dar o tal testemunho sobre isso e confessar que ela não iria se divorciar, que continuaria assim, pois o homem iria mudar, a mulher fazia isso sempre sem se sentir humilhada...Eu vi! Era inacreditável! São muitas lutas! Já tive que criar muitas estratégias para andar nas ruas, até me vestir de homem já fiz! Já fui assediada tantas vezes nas ruas que hoje tudo me causa repugnância, pois como pode: eu não tenho o direito de ir e vir sem ser incomodada? Por que os homens pensam que as mulheres gostam disso? Somos nós propriedades deles? 

Ser mulher é estar vulnerável a todo instante. Na rua, no comboio, na faculdade, no trabalho, no treino. Enquanto a mentalidade machista não se dissolver e ir para o esgoto a mulher vai continuar sofrendo. Enquanto a justiça não der sentenças mais rígidas para os agressores, a mulher vai continuar sendo vítima de violência doméstica. Enquanto a nova geração não for ensinada desde a infância que todos merecem respeito seja mulher, criança ou idoso todos irão sofrer.
D.G



Pintor: Rodrigo Dias, 2019