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sexta-feira, janeiro 06, 2017

oh, democracia...

Se o Eça de Queirós tinha razão quando defendeu -- em carta ao seu amigo Oliveira Martins, de apetências cesaristas -- que "a democracia a du bon"; e se não foi ainda desmentida a razoabilidade da conhecida asserção do Churchill, a verdade é que ela está pouco defendida dos demagogos e, dentre estes, os extremistas (Hitler, FIS, Irmandade Muçulmana).

Aparece agora uma nova categoria: a dos patetas que falam em nome do Crucificado de há dois mil anos, que era deus e simultaneamente seu filho, nascido duma mãe fecundada pelo Espírito Santo, que afinal era o pai, mas também era o filho -- trapalhada fascinante que tem ocupado os melhores espíritos, cuja luz, porém, atinge em cheio a mioleira desguarnecida de criaturas como o prefeito de Guanambi. Este, já não se contenta em falar em nome de deus, como alguns colegas do Congresso brasileiro, no triste caso da impugnação de Dilma Rousseff, transmitida urbi et orbi; mas afirma-se deus ele próprio. Um deus cujo diagnóstico poderá ser: 1) um espertalhão; 2) um maluquinho que devia estar internado. Em qualquer dos casos, um indivíduo sem qualidades para o lugar, eleito democraticamente. 

Oh, democracia, a que provas nos sujeitas!...










visto aqui

sexta-feira, novembro 14, 2014

prolegómenos cristãos à terceira via

Carl Schmitt, Catolicismo Romano e Forma Política. Carl Schmitt (1888-1985) é um autor de referência do pensamento contra-revolucionário, antiliberal e antidemocrático. Dizer só isto, aliás, é dizer pouco. Schmitt foi um nazi desde cedo; e apesar de algumas divergências, traduzidas em ataques de sectores do nacional-socialismo (em nazismo não se pode dizer "mais radicais"...), a verdade é que o autor leccionou na Universidade de Berlim entre 1933 e 1945 -- ou seja, em todo o período em que o führer e os seus sicários estiveram no poder. 
Este ensaio de 1925 pretende reagir ao ataque à Igreja Católica, que ele então denunciava, definindo-a como efectiva representação de Cristo no Mundo: «Ela representa a civitas humana, ela apresenta a cada instante a união histórica entre o devir humano e o sacrifício de Cristo na cruz, ela representa o próprio Cristo pessoalmente, o Deus que se tornou homem na realidade histórica. No representativo assenta a sua supremacia sobre uma época de pensar económico.» (p. 33) E, como seria de esperar, põe nos antípodas duma sociedade regida pela política e pelo direito (oh, ironia...), tanto capitalismo como bolchevismo, alegadamente pólos opostos duma mesma mundivisão: «O grande patrão não tem nenhum outro ideal senão o de Lenine: o de uma "terra electrificada".» (p. 28)
Schmitt oferece, portanto, a referência de um elemento não racional -- a divindade representada pela Igreja Católica -- em oposição a um sistema que não o pode contemplar -- a perspectiva demo-liberal: de um lado, como de costume, os vectores deletérios: a "técnica" e a "economia"; do outro, o institucionalismo da política estribada no direito, com as dicotomias do costume: matéria-espírito, pragmatismo-idealismo, revolução-tradição. 
Da visão da Igreja como figuração  de Deus, não posso deixar de extrapolar para uma ideia de Estado à imagem daquela, logo do "chefe" desse Estado como equiparado, senão ao próprio Deus, pelo menos soberano dessa mesma Igreja, o vigário do Deus. Daí ao endeusamento do chefe (do führer a haver), vai um pequeno passo.
Interessante como leitura e exercício, é ideologicamente intragável. 

segunda-feira, julho 28, 2014

28 de Julho de 1914 -- a Grande Guerra começou há cem anos, e assombra-nos.

A pretexto de um assassínio político perpetrado um mês antes, há 100 anos a Áustria-Hungria declarava guerra à Sérvia. Não passou de mero pretexto, porém. A causa da Grande Guerra radica em vários factores, a saber: a disputa imperialista centrada no Velho Continente, através do sistema de alianças, mas com ramificações e palcos extra-europeus, em concorrências territoriais e de supremacia armamentista; e a inconsciência geral, quer do rápido desenvolvimento transnacional do conflito (num ápice a guerra tomou o freio nos dentes), quer dos custos humanos e económicos que iria acarretar -- o que justifica o acolhimento delirante e patético do anúncio do conflito por parte das opiniões públicas.
Conflito, aliás, que não terminaria em 1918, mas em 1945, pois Hitler (e até Stálin) são a um tempo consequência da vertigem ou da deliquescência imperiais e da ganância dos potentados económicos e financeiros.
Hoje, continuamos com um sistema de alianças, em recomposição, o imperialismo é norte-americano, russo, mas agora também chinês, e a cupidez mercantil e argentária está globalizada. Mas ninguém, em seu perfeito juízo, poderá vir para a rua simploriamente saltar e cantar, se... Um  se que nunca será de excluir, por mais absurdo, irracional e indigno, pois nada na animalidade dos homens o garante. Quem tiver dúvidas que olhe para o lado (ou para o espelho, se tiver coragem), e diga se gosta do que vê.



quarta-feira, junho 04, 2014

da amargura

Um póstumo de Zweig, livro negro, como negra foi a fase final da sua vida. Judeu austríaco autoexilado em 1934 (Adolfo, o Hitler, conquistara o poder na vizinha Alemanha no ano anterior...), empreendeu um calvário inimaginável para quem não o viveu. Não que tivesse problemas materiais; mas Zweig era uma figura da cultura europeia, um escritor celebrado e cosmopolita, e ver-se impedido de regressar, posto na condição de apátrida (naturalizou-se inglês, mais tarde), era uma degradação que abalaria qualquer espírito requintado. O duplo suicídio de Petrópolis será um desenlace lógico para esse desespero.
     Escrito em dois momentos bem distintos (1930 e c. 1938) -- e publicado apenas em 1982 -- A Embriaguez da Metamorfose conta-nos a história de Christine, uma modesta funcionária dos correios austríacos, vivendo na província no pós-I Guerra, no rescaldo da derrota e desmembramento do Império Austro-Húngaro. A convite de uns tios ricos, há longos anos emigrados nos Estados Unidos, onde fizeram fortuna, passou uma curta temporada de nove dias numa estância de luxo suíça.
     Os vestidos caros, o arranjo de beleza que a tia lhe proporciona, realçaram o seu aspecto exterior, tornando-a alvo da atenção da beautiful people em vilegiatura. Ao fim da primeira noite, Christine já era tu-cá-tu-lá com todos os espécimes da alta sociedade que pululavam no hotel, num mimetismo irreal que demora mais de uma semana a ser desvelado -- para mim o maior senão: Zweig força à corência do tempo narrativo uma metamorfose súbita de insustentável verosimilhança. Quando cai em si, quando fazem com que caia em si, Christine abandona abruptamente a estância, foge -- pois que a própria tia, temerosa que viesse à tona um duvidoso passado vienense, se mostra desconfortável --, regressando à vida de funcionária dos correios na província austríaca, depois de ter provado o mel dum mundo de aparente facilidade e prazer.
     É quando conhece Ferdinand, em casa da irmã em Viena, que a sua vida mudará, no sentido da libertação. Ferdinand é um despojo de guerra, em todos os sentidos, combatente e posteriormente prisioneiro dos russos, semi-inutilizado para o trabalho, devido a um ferimento que lhe incapacitou um mão, desprovido do património fundiário familiar com o rearranjo das fronteiras europeias, que criou estados onde antes havia impérios, é um inadaptado que sacrificou a flor da juventude aos caprichos do estado imperial áustro-húngaro, carne para canhão jogada fora quando deixou de ser precisa.
     A libertação de ambos da vida de pobreza mesquinha e sem sentido que levam só poderá fazer-se de duas maneiras: pela marginalidade, pelo suicídio. A mestria de Stefan Zweig revela-se aqui eloquentemente, e Christine e Ferdinad são dois inesquecíveis pares trágicos da história da literatura (a cena do bordel é antológica).
     Análise de uma frustração, recusa da insignificância, A Embriaguez da Metamorfose é, repetindo-me, um livro amargo; mas livro de mestre.


segunda-feira, abril 08, 2013

mostrar músculo à Alemanha (para benefício da própria Alemanha)

Sustenta-se, a propósito da II Guerra Mundial, que a fraqueza das lideranças francesa e inglesa, que se revelou logo a partir do rearmamento alemão, ainda na primeira metadeda década de 1930, contribuiu grandemente para a escalada bélica de Hitler, com os conhecidos sucessos decorrentes. Estamos, evidentemente, no domínio da especulação contrafactual, mas parece não haver grandes dúvidas quanto aos malefícios da tibieza anglo-francesa.

Na situação actual, por enquanto ainda muito longe dos transes de então, sinto desenhar-se um fenómeno idêntico: hegemonia bélico-monetarista alemã; inaudita fraqueza francesa; aparente alheamento inglês (não sei se o périplo que Cameron está a fazer por capitais europeias sinalizarão o contrário, espero que sim...).

O que me parece é que se tudo correr mal -- e os ingredientes para que tudo corra mal estão aí --, se a UE se desagregar, os historiadores & comentadores do futuro não deixarão de assinalar a fraqueza da Europa (em particular da Europa Mediterrânica), a clamorosa estupidez e cobardia das lideranças que a ela lhe coube.

Os próximos meses serão decisivos.